terça-feira, 12 de maio de 2009

PAIXÃO POR UMA ÉGUA TERMINA EM MORTE

Edward de Souza

Ambrósia, pivô do crime

Nos anos 70, quando comecei minha carreira em jornal, fui enviado à editoria de polícia do Correio Metropolitano. Não tinha nem idéia das funções de um repórter policial, mas era a minha primeira oportunidade e não poderia deixá-la escapar. Naquela época, não sei se isso mudou, todo repórter começava pela área policial. Era o primeiro teste de fogo.
Logo nos primeiros dias notei que não era nada fácil a vida de repórter policial. Em meio a denúncias, investigações, acusações e até jogos de interesses, percebi que teria que manter controle e, na maioria das vezes, muito sangue frio. E, nesse ponto, era importante o repórter ter jogo de cintura, ou seja, saber lidar com quaisquer tipos de situações e pessoas. Isso era fundamental para realizar um bom trabalho nesta área. Até por que o movimento na editoria policial era e ainda é tão intenso quanto numa delegacia de polícia. A quantidade de ocorrências policiais sempre foi imensa.
Numa quarta-feira depois do almoço deixei o jornal com o carro de reportagem, dirigido pelo “Vicentão”, na companhia do fotógrafo Sergio Sakakibara, o “Serginho japonês”, amigo que perdi o contato, não sei por onde anda. Era rotina percorrermos os principais distritos policiais do ABC Paulista em busca de notícias. Mas aquele era um dia atípico. Nada tinha ocorrido de mais grave que merecesse destaque na página de polícia, pelos menos depois de passarmos pelos distritos das principais cidades do ABC, Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema. Voltar ao jornal de mãos abanando seria complicado, isso nunca havia ocorrido. Foi então que resolvi esticar nossa ronda e visitar as delegacias de Mauá e Ribeirão Pires. Nem poderia imaginar o que me esperava nessa última cidade. Entramos no 1º Distrito de Ribeirão Pires e cumprimentei o delegado de plantão, pedindo permissão a ele para ver as ocorrências policiais que haviam sido registradas. Olhei todos os boletins e nada havia que pudesse interessar. Já estava de saída quando uma mulher morena clara, cabelos compridos, invadiu o distrito aos berros, quase me derrubando em sua passagem. Gritava que não aguentava mais tanta humilhação e que desta feita a polícia teria que tomar providências antes que uma tragédia viesse a acontecer. Meu faro de repórter policial indicava que naquele mato tinha cachorro. Quase acertei... Era uma égua, o pivô de toda aquela confusão. Não se importando com a presença da Imprensa, pelo contrário, até gostando e pedindo para que sua denúncia fosse publicada, a jovem mulher, mais tarde identificada como Aparecida, contou a mim e ao escrivão Eurico que seu marido, conhecido como "Dico", lavrador, estava apaixonado por uma égua, que pertencia a sua vizinha. Claro, ninguém é de ferro e precisei segurar para não rir na frente dela. O delegado se levantou da cadeira e percebi que saiu para dar boas gargalhadas em outra sala. Enquanto isso, ar sério e compenetrado no que fazia, Eurico, o escrivão, redigia a ocorrência. Um verdadeiro artista, pensei comigo. Não esboçava nem um leve sorriso. Vez em quando torcia o nariz, mais nada. Aparecida deu detalhes surpreendentes. Revelou que por diversas vezes flagrou o marido transando com a égua. Chegou até a colocá-lo para fora de casa, mas "Dico" sempre voltava com pedidos de desculpas, prometendo encerrar seu relacionamento com o animal. Segundo a mulher, teve noites em que a égua - desolada com a separação - fugia do pasto e até empurrava a janela do quarto onde ela dormia, à procura do lavrador. Mas a revelação bombástica veio em seguida. Contou que naquela manhã havia surpreendido o marido, no pasto da vizinha, aos beijos com a égua. E tinha testemunhas que poderiam ser arroladas pela polícia, caso necessário. O boletim foi registrado, mas Eurico não sabia o título que dava à ele. Por determinação do delegado, acrescentou: “averiguação de zoofilia” - praticar sexo com animais - e encerrou a estranha ocorrência. O delegado prometeu para a mulher que iria intimar o lavrador. Disposta a prosseguir com sua denúncia, Aparecida concordou em nos levar ao pasto onde estava a égua. O jornalista, de qualquer área, tem o dever ético de investigar a veracidade dos dados que chegam ao jornal. Na área da polícia, porém, a reportagem requer muita precisão para não se publicar erros e precisar repará-los no dia seguinte. Quando chegamos, Aparecida chamou a vizinha, dona da égua. A mulher já saiu de casa nervosa e proferindo ameaças contra “Dico”, por causa do romance que o lavrador insistia em manter com seu animal de estimação. Descobrimos que a égua chamava-se “Ambrósia”. Era uma bela égua. Seu pêlo era totalmente marron e sua crina longa e macia, fato constatado pelo “Sérgio Japonês”, que acariciou a égua para acalmá-la e tirar umas fotos. Com a história e fotos, voltamos ao jornal e cumprimos nossa obrigação. No dia seguinte, estupefatos, os leitores viram a manchete: “lavrador se apaixona pela égua Ambrósia”. Não sobrou um só exemplar nas bancas. Dias seguidos acompanhamos o tórrido romance entre o lavrador e a égua “Ambrósia”, naquelas alturas conhecida em toda a região do ABC e em São Paulo. “Dico” foi expulso de casa, mas segundo testemunhas, todas as noites dormia no pasto ao lado de “Ambrósia”, aproveitando o repouso da dona do animal.
Dois meses depois dessa primeira matéria publicada, “Dico” foi encontrado morto próximo ao pasto onde ficava. Uma de suas orelhas havia sido arrancada. Jornais de São Paulo então se interessaram na história e o caso do romance do lavrador com a égua “Ambrósia ganhou divulgação nacional. Um deles, o extinto Diário da Noite, publicou em suas páginas uma foto da égua, cabisbaixa, com a seguinte legenda: “Ambrósia” chora a morte do seu grande amor”. Não foi dificil a polícia descobrir a mandante do crime, claro. Presa, Aparecida revelou que pagou certa quantia em dinheiro para um pistoleiro matar o marido. Como prova de sua morte, pediu a ele que trouxesse uma de suas orelhas, o que aconteceu. O matador profissional também foi preso dias depois da confissão da mulher. Sobre “Ambrósia”, nada mais se ouviu falar, mas contavam moradores de Ribeirão Pires que, depois da morte do lavrador, a égua relinchava noites a fio, até que um dia foi encontrada caída no pasto, sem vida.
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.

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Milton Saldanha escreve resenha amanhã sobre a famosa Operação Condor, uma ação conjunta das ditaduras do Cone Sul, incluindo o Brasil, que matou secretamente centenas de opositores. Um casal de uruguaios, e seus dois filhos, foram salvos da morte graças ao trabalho da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, chefiada pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, que hoje mora em Brasília. O livro "O Sequestro dos Uruguaios" é uma história sensacional sobre os bastidores da série de reportagens da Veja que desvendou o caso, identificou e denunciou seus protagonistas. Além, ainda, de contar detalhes inéditos sobre a Condor. Esse trabalho deu a Luiz Cláudio o Prêmio Esso de Jornalismo (principal), o Prêmio Vladimir Herzog e o Prêmio Abril. Leiam amanhã neste blog a resenha (intencionalmente curtinha) sobre este livro imperdível.
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

COMO USAR A PALAVRA COM TALENTO

Nivia Andres

A Arte de escrever e falar bem

É incrível como as pessoas desprezam a arte de escrever e falar bem. Há pouco tempo, José Saramago disse, do alto de seu talento e experiência: "Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem". Acrescento, ainda, que escrever bem é uma condição inarredável para a credibilidade, a liderança e o sucesso de qualquer profissional, seja político, médico, jornalista, advogado, engenheiro, matemático ou professor de Português. É lamentável que não se dê importância a algo tão elementar. Mais ainda quando sabemos que a comunicação move o mundo e quem não habilitar-se com competência não tem chance, está fadado à mediocridade e ao desaparecimento. Precisamos ser capazes de convencer e não de vencer. Vence-se normalmente com a força e convence-se habitualmente com as palavras e a razão. Escrever e falar bem são armas de altíssimo calibre que diferenciam um sujeito na multidão. Acrescentam poder. E não nos damos conta de que existe, ainda, uma habilidade muito maior em significância - a de saber escutar. Como muito bem falou Bolívar, "quem manda deve ouvir, ainda que sejam as mais duras verdades e, depois de ouvidas, deve aproveitar-se delas para corrigir os erros". Por suposto, aí está a chave do desenvolvimento do ser humano ao longo de sua história. Pelo menos daquelas pessoas que têm sensibilidade para perceber o alcance desta competência. Escrever e falar bem, assim como saber ouvir credenciam o sujeito a desenvolver outra habilidade preciosa – ter olhos para ver além do horizonte, percebendo antecipadamente o que se desenha. Há mais tempo Saramago escreveu, em seu Memorial do Convento, “O mundo de cada um é os olhos que tem”.
Atentem, ainda, para uma situação peculiar: há pessoas que são especialistas em usar a palavra para expressar o que pensam e dispõem de espaço qualificado na mídia, que atinge milhões de pessoas. São formadores de opinião – cultos, sensatos, experientes, equilibrados e por isso, acreditados. Também leio o que escrevem e os admiro, às vezes por sua coragem, outras por sua ousadia e sempre por sua capacidade de bem escrever e ordenar racionalmente as idéias. É o que chamo de arte do texto. Porém, há certos dias em que lhes lastimo o pensamento infeliz grafado numa palavra mal-dita. Quem escreve para muitos e sabe que atinge milhões de leitores não pode se dar ao luxo de perder a temperança e a lucidez, externando opiniões que geram máxima polêmica e ainda provocam sofrimento em quem é atingido pela palavra mal-posta. Ainda mais quando o escrevente se arvora em mago e adivinho, tratando de antecipar decisões em curso. Aí, senhores do belo texto, lhes retiro toda a brilhatura e lhes casso os elogios abundantes, sobrando apenas a atenuante de que também vivem sob a humana condição de errar e são tão passíveis de erro como nós, simples aprendizes, na arte de escrever e de viver. De outra parte, quem escreve mal e se esconde nos meandros da soberba e da arrogância, acreditando-se poderoso, utilizando o veículo de comunicação como escora de sua prepotência, este, pode esperar, que a sua hora vai chegar. É certo e veloz o castigo para quem se arvora em ser dono da verdade, tudo pode antecipar e o faz, através do poder da palavra, que os torna arrogantes, insensíveis, inatingíveis. Não o castigo dos molestados pelo poder da palavra, mas o castigo interior, da própria vida, o castigo da alma, aquele que nos faz menores como pessoas.
Então, senhores da palavra, moderação, humildade e modéstia são qualidades sempre bem-vindas e que constantemente devem ser exercitadas, ainda mais nesse ofício tão exposto e árduo que é o de comentar sobre a vida e sobre os viventes! Para quem sabe escrever, palavra é arma. Dependendo do combate e dos detratores, faca de dois gumes.

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Nivia Andres, jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008.
Acesse blog da jornalista: http://niviaandres.blogspot.com/
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Edward de Souza conta amanhã neste blog, o assombroso caso de um lavrador que transava com uma égua, conhecida como "Ambrósia". A esposa o denunciou à polícia e depois envolveu um pistoleiro na trama. O estranho caso de amor entre homem e uma égua terminou em sangue e horror. A matéria verídica, publicada em vários jornais da região, encontra-se nos arquivos policiais da pacata cidade de Ribeirão Pires, na Região do ABC Paulista. Não deixem de ler!
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domingo, 10 de maio de 2009

AS MÃES TEM LIGAÇÃO DIRETA COM DEUS

Edward de Souza
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Criaturas muito especiais
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Hoje o calendário reverencia a mais importante e preciosa presença de nossas vidas: a sublime figura da Mãe. Aquela cujos dias deveriam ser tão somente envoltos pelos abraços mais calorosos e os beijos mais ternos de seus filhos. Não apenas por ter lhes dado a vida, mas por fazer de sua vida o ancoradouro seguro onde eles possam sempre, seja em qualquer idade, jogar a âncora de suas agruras, receios, decepções... E no colo de sua Mãe , sentir o mesmo calor, a mesma segurança, o mesmo carinho, como nos tempos de criança. No mundo da extraordinária evolução da tecnologia digital, em que produtos e serviços incríveis desafiam a mais iluminada das mentes, como faz falta o colo de mãe. Aquele abrigo aconchegante, sempre disponível e acessível. Generoso em afeto, orientação, sabedoria, ensinamentos. Confessionário, onde se pode contar tudo, sem segredo, sem restrição, sem medo. Fonte intermitente de luz e bênção de onde sempre conseguiremos uma orientação sábia, uma palavra amiga, o conforto do gesto, a indicação do caminho. Onde podemos olhar para cima sem nos sentir rebaixados e humildemente podemos pedir tudo, sem ficar devendo. O encanto do colo de mãe é que nele sempre seremos crianças. Frágeis, sensíveis, sinceras, como limitados seres humanos que somos.
Por que será que as mães
são essas criaturas tão especiais? Talvez seja porque elas têm o dom da renúncia. Não importa cor ou credo... Rica ou pobre... Mãe é sempre mãe. Mãe é como uma flor... É carinho, cuidado, proteção, compreensão, doação, perdão... Mãe resume tudo o que é amor! Uma mãe consegue abrir mão de seus interesses para atender esse serzinho indefeso e carente que carrega nos braços. Mas as mães também têm outras características muito especiais. Um coração de mãe é compassivo. A mãe sempre encontra um jeito de socorrer seu filho, mesmo quando a vigilância do pai é intensa. Ela alivia o castigo, esconde as traquinagens, defende, protege, arruma uns trocos a mais. Sim, uma mãe sempre tem algum dinheiro guardado, mesmo convivendo com extrema necessidade, quando se trata de socorrer um filho. Mães são excelentes guarda-costas. Estão sempre alertas para defender seu filho do coleguinha "terrorista" que quer puxar seu cabelo ou obrigá-lo a emprestar seu brinquedo predileto. Quando a criança tem um pesadelo no meio da noite, e o medo apavora, é a mãe que corre para acudir. As mães são um pouco fadas, pois um abraço seu cura qualquer sofrimento, e seu beijo é um santo remédio contra a dor. Para os filhos, mesmo crescidos, a oração de mãe continua tendo o poder de remover qualquer dificuldade, resolver qualquer problema, afastar qualquer mal. No entender dos filhos, as mães têm ligação direta com Deus, pois tudo o que elas pedem, Deus atende. Se você tem mãe aqui, cuide bem dela. Se não tem, como eu, pense nela com amor, carinho e gratidão.
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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*A Jornalista Nivia Andres abre o blog desta segunda-feira com o artigo "Como usar a palavra com talento". Não deixe de acompanhar.
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sábado, 9 de maio de 2009

DESQUALIFICADO INVADE BLOG ESTA NOITE

PIRATARIA NO BLOG
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Prezados amigos!

Na noite desta sexta-feira, no período compreendido entre 22 horas às 3 da madrugada deste sábado, problemas técnicos inviabilizaram a apresentação do artigo postado pelo jornalista J. Morgado, já de volta ao blog. Um engraçadinho resolveu mostrar seu lado cômico, postando cerca de 20 comentários na matéria intitulada "Carequinha, o terror do ABC Paulista", que, pelo erro, passou a ocupar o primeiro lugar nas postagens. Esse texto já havia sido exibido na quinta-feira desta semana. O "pirata", sem pensar nas graves consequências de seu ato insano, usou nomes de jornalistas deste blog, de apresentadores de TV e, pior, do Presidente da República e da Primeira Dama. Em alguns momentos, na irracionalidade de seu gesto, usou palavras de baixo calão. Já acionamos o Departamento Jurídico do Google para identificar o IP desse marginal e assim que isso ocorra, iremos acioná-lo juridicamente. Caso necessário, recorreremos à PF para que este indivíduo sem escrúpulos e invejoso, seja identificado e punido. Conservamos na matéria "Carequinha, o terror do ABC", todos os comentários desse "pirata cibernético", para que sirvam como provas de sua conduta imoral. Nosso intuito nesse blog é deixar livres os comentários para que nossos leitores possam interagir, mais um motivo de sucesso que incomoda muita gente sem capacidade para organizar e comandar uma responsabilidade dessa invergadura. Vamos insistir nesse método, mesmo com o risco da visita de marginais como esse que investiu de maneira bestial contra nosso blog, mas contando, a partir de hoje, com monitoramento interno, que irá nos permitir identificar malandros deste tipo. Pedimos desculpas pelo incômodo causado e vamos seguir em frente. Não será um desqualificado como esse que irá nos barrar. Grato! (Edward de Souza)
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*A matéria "Como usar a palavra com talento", da jornalista Nivia Andres, em virtude do problema acima citado, será editada neste domingo ou na próxima segunda-feira. Não deixem de acompanhar.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

UM SORRISO QUE ESPANTA E DENUNCIA

J. Morgado
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O Menino na calçada
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Diz o poeta que "o sorriso da criança anuncia ao mundo que Deus nos ama!" É a verdade! Principalmente se o sorriso partir de uma criança sadia, corada, rodeada de flores e bem vestida, como nas folhinhas de fim de ano! Se as possibilidades financeiras forem boas para ótimas, então a criança terá sempre um sorriso muito grande, além de inocente, franco, alegre, saudável e gratificante. Mas se a criança for pobre, filha órfã de pais vivos, se for a oitava de uma série de nove; se estiver doente, em consequência da má-alimentação que tem; se for raquítica, esquelética, subnutrida, cheia de manchas na pele, mal vestida e cheirando a suor e urina e, com fome, o seu sorriso será triste, melancólico, desanimador. Será um sorriso que amedronta, espanta e denuncia!
Lá estava eu, fazendo uma fezinha na lotérica. O prêmio estava acumulado e, como todo bom brasileiro, que ainda acredita em contos da carochinha, arriscava um palpite que havia anotado dos finais das placas dos carros estacionados nas proximidades. Depois de gastar os valiosos reais, fiquei batendo papo com o dono da casa de apostas. Jogando conversa fora, observava um garoto que na outra calçada, cujo meio-fio servia de estacionamento, trabalhava febrilmente com uma garrafa de água e um pano, pedindo aos motoristas que deixassem limpar os vidros dos veículos em troca de uma ou mais moedas. Alguns aceitavam de bom grado, via-se isso pela expressão de seus rostos. Outros, aborrecidos, aceitavam de uma maneira forçada, para não ficarem com a consciência pesada, pois o aspecto do menino era realmente deplorável. Alguns, talvez a maioria, arrancavam com o carro falando palavrões ou simplesmente dizendo não. Quando isso acontecia, o garoto sentava-se na calçada mostrando em sua face o aborrecimento e, provavelmente, o rancor e a revolta encarcerada dentro de seu ser. Curioso, e porque não dizer, tocado pela cena, atravessei a rua e tentei entabular conversa com o garoto. Depois de alguns instantes, entre hesitante e receoso ele me disse com palavras trôpegas: “pois é seu moço, ainda não ganhei nada, nem pra tomar um café reforçado”. Perguntei então qual a idade dele: “não sei não seu moço”, foi a resposta. Perguntei ainda onde ele morava. Respondeu-me que residia muito longe ao pé da serra, junto à mãe que estava muito doente. Com dificuldade entendi que o garoto era o único sustento da família e além daqueles reais, amealhados durante as horas que ali ficava “flanelando” os automóveis estacionados, conseguia alguns alimentos de algumas almas caridosas que de vez em quando encontrava em seu caminho. Perguntei ao menino se ele tinha alguma ajuda da Prefeitura, ou seja, do Serviço Social, e ele respondeu: “não sei o que é isso não seu moço!” Conversando mais um pouco com aquele garoto, soube que ele não tinha irmãos.
Na verdade, apesar de seu aspecto raquítico, o menino aparentava ter mais ou menos dez anos de idade. Ainda curioso e tocado pela situação, convidei-o a ir até a lanchonete do outro lado da rua e ali servir-se de um lanche. O “flanelista” não se fez de rogado e incontinenti me acompanhou. Comeu alguns salgados, tomou um refrigerante com sofreguidão e disse: “brigado seu moço”. Em seguida atravessou a rua de volta ao estacionamento onde, com mais vigor, retomou o seu “ganha-pão”.
No entanto, como um aposentado não tem muito lá o que fazer, fiquei por ali conversando com pessoas conhecidas que ia encontrando. O assunto quase sempre, depois dos cumprimentos de praxe, era a situação do garoto flaneleiro e de outros mais na mesma situação que circulavam pelas ruas ora carregando papelão, ora procurando latinhas de alumínio ou outro material qualquer para poderem sobreviver. Depois dos bate-papos, fui atender outros afazeres, que me levaram algum tempo, duas ou três horas, talvez. Quando eu estava em outra rua, percebi em uma escadaria que várias crianças cercavam uma mulher ainda de aparência jovem e forte. O tal do “flaneleiro” fazia parte da turma. Ao reparar em cada uma das crianças, seis ao todo, constatei que eram todos mais ou menos parecidos uns aos outros. Aproximei-me e procurei entabular conversa com àquela família. O garoto, meu conhecido, ficou todo sem jeito ao me encarar, pois pode constatar que a “a mentira tem pernas curtas”. Havia me contado uma história que acabava de desmoronar diante do fato presente. Mas, não dei importância ao garoto e conversei com a mulher, perguntando a ela porque em vez de esmolar para sobreviver não procurava um trabalho.
Depois de muito hesitar, contou-me a seguinte história. Disse que havia sido abandonada pelo marido e como não sabia ler e escrever e não tinha nenhuma profissão, além de morar em um barraco sem nenhum recurso e com seis filhos para criar, não viu outra solução a não ser mendigar ou colocar seus filhos nas ruas para ganhar o sustento de cada dia. Mas o caso não acaba aí. O maior problema, é que aquela mulher estava infectada com o vírus HIV, ou seja, Aids, e por esse fato vivia com o “coração na mão” usando suas próprias palavras. E o pior de tudo é que não tinha nenhuma ajuda ou iniciativa para buscar quem a ajudasse, pois a ignorância, aliada a extrema pobreza, previa um futuro bem negro, não só para àquela criatura, como para seus filhos, onde estava incluído o menino da calçada.
A conclusão a que chegamos é a da que temos participação direta neste episódio, participação negativa pela omissão, pela indiferença com que temos agido, pela frieza com que temos contemplado as coisas e passado adiante, sem nos determos nos problemas que originam estas imperfeições e injustiças e sem pararmos para tentar, pelo menos tentar, soluções que o caso exige.
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*J. Morgado é Jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico: jgacelan@uol.com.br
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quinta-feira, 7 de maio de 2009

CAREQUINHA, O TERROR DO ABC PAULISTA

Edward de Souza
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Um capeta em forma de gurí

No final dos anos 70, a Vila Luzita, em Santo André, Região do ABC Paulista, estava em pleno crescimento. Muitos terrenos baldios espalhados, mas também existiam casas bem construídas, árvores que durante a primavera se coloriam de frutas e algumas ruas sujas e sem asfalto manchavam o nome do bairro de classe média e envergonhavam seus moradores "Alguém devia remover esse monte de ladrões", diziam os bem apessoados moradores do bairro. Alguns diziam que aquilo era uma maloca e a prefeitura deveria varrer "aquela sujeira". Ali nasceu Carequinha. Aos 11 anos de idade o menino já era temido por todos no bairro. Carequinha nunca quis estudar, nunca quis trabalhar, nunca foi à igreja, nem conhecia Deus! Só sabia roubar e fazer maldades. O pai estava preso e ele nem sabia o porquê. Vivia apenas com a madrasta e outros cinco irmãos. A viatura encostada naquela rua indicava o que já se esperava e lá se ia o carequinha entrando no camburão. Nunca era levado à Delegacia, muito menos ao Juizado de Menores. Sempre para as margens da Represa Billings, onde acabava levando uma bela surra dos policiais. Voltava para casa dolorido e cada vez mais revoltado. Aquele menino franzino, de cabeça raspada, ao completar 13 anos ficou conhecido da mídia. Numa sexta-feira eu estava na redação do Diário do Grande ABC, quando fui informado que um menor de idade havia entrado no pátio do 1º Distrito Policial de Santo André, onde delegados, investigadores e carcereiros guardavam seus carros. O menino, aproveitando de um descuido, entrou no carro do delegado Tiossi Bernardes, titular daquela delegacia e fugiu em alta velocidade pelas ruas da cidade. Com o carro do jornal acompanhei a perseguição policial. Até tiros foram dados para o alto, mas nada fazia aquele garoto parar. Ousado, atravessava semáforos com sinal fechado, provocou acidentes entre veículos, até que, depois de mais de duas horas, perdeu o controle do carro e chocou-se contra um poste. Com pequenas escoriações saiu do veículo e tentou fugir, mas foi detido pela Polícia. Levado ao 1° DP foi feito o boletim de ocorrências e Carequinha foi conduzido para uma pequena cela onde ficaria à disposição do Juizado de Menores. Quando conversei com aquele menino na delegacia, confesso, fiquei com pena. Uma criança indefesa, tímida. Seu olhar transmitia desconfiança e tristeza. Nesse dia Carequinha chorou, lembrando-se do dia em que, sem nada para comer em casa, roubou uma banana de um comerciante e levou uns bons tabefes do milico que o pegou. Deixei o Distrito Policial pensativo, principalmente quando soube que, naquela idade, sua ficha policial de furtos e roubos já passava de 3 metros de comprimento.
Foi a primeira vez que Carequinha saiu nas páginas policias do Diário do Grande ABC. Sua foto, de costas (menores não podem ter o rosto publicado), ilustrava a manchete policial daquele dia: “Carequinha rouba carro de delegado e provoca o caos no trânsito”. Dias depois ele estava nas ruas e voltava a atormentar a polícia. Usando um revólver de brinquedo, Carequinha invadiu um estabelecimento comercial no centro de Santo André, rendeu os funcionários da loja e se apoderou do dinheiro que estava no caixa. Quando tentou a fuga, foi perseguido por populares e acabou sendo detido. Mais uma vez na delegacia e depois ao Juizado de Menores. Desta feita, o menino, já com 13 anos, foi encaminhado à Febem no Tatuapé (na época a responsável pela guarda de menores). Tudo indicava que a população teria sossego por um bom tempo. Ledo engano. Em menos de uma semana Carequinha estava nas manchetes de todos os jornais de São Paulo e do ABC. Comandou uma fuga em massa daquele estabelecimento penal de menores, não sem antes ter ateado fogo nos colchões e provocado um estrago de monta. Desapareceu por umas duas ou três semanas, até que, numa sexta-feira, mais uma vez fui chamado para cobrir uma ocorrência policial, no mínimo estranha. Um ônibus repleto de passageiros havia sido sequestrado por um menor, e ziguezagueava em alta velocidade pelas ruas de Santo André. Carros saiam da frente, chocavam-se contra outros, batiam em muros e o ônibus desgovernado continuava rodando pelas ruas da cidade, nessa altura com muitas viaturas da Polícia Militar, civil e dos bombeiros em seu encalço. Eu não tinha dúvidas. Sabia que Carequinha estava ao volante daquele coletivo. Depois de muito trabalho a polícia conseguiu cercar o ônibus, que se enfiou pela Travessa Lourenço Rondinelli, no centro de Santo André e ficou sem saída. Passageiros deixaram o ônibus em pânico, outros, revoltados, queriam linchar o autor dessa façanha, mas foram contidos pela polícia. Cheguei a tempo de ver Carequinha descer do ônibus sorrindo, arrastado por um bando de policiais. Consegui me aproximar do menino e assim que me viu, foi logo dizendo: “viu só, fui dar uma voltinha de ônibus e me prenderam novamente”. Eu já era, nessa altura, velho conhecido do menino. Para encurtar a história, deixei de relatar muitas outras detenções de Carequinha que culminaram em nossos encontros. De volta à Febem, desta feita o gurí estava bem vigiado. Ficou por lá alguns meses até fugir novamente. Ousado, Carequinha aprontou sua última façanha em Santo André, ao completar 14 anos. Tentou furtar um carro do Corpo de Bombeiros, mas foi detido antes que saísse com o veículo. Carequinha foi levado ao 1° DP de Santo André, na rua Xavier de Toledo e colocado numa pequena cela que sempre improvisavam para deixar pequenos infratores por algumas horas. Contou-me muitas histórias, sua triste vida sem carinho, sem apoio dos pais e a vontade enorme de não ter nascido. Talvez por isso desafiava a todos sem nenhum receio. Mais uma vez saí triste desse encontro. Foi a última vez que conversei com Carequinha. No dia seguinte ele foi encontrado morto na cela fria. Com um lençol se enforcou durante a madrugada.
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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quarta-feira, 6 de maio de 2009

MENINGITE MATOU CENTENAS DE CRIANÇAS

Édison Motta
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Epidemia sob censura
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Primeiro semestre de 1974. Após ter trabalhado durante nove meses na redação da Folha de S.Paulo, aceitei o convite de José Louzeiro, chefe de redação do Diário do Grande ABC para retornar, como faz o bom filho, á casa onde dei meus primeiros passos na função de jornalista. Havia pedido demissão, no ano anterior, a contragosto. Porque um desentendimento entre a diretoria do jornal e o Sindicato dos Jornalistas emperrava a obtenção de meu registro profissional. Embora jovem, quase menino, pertencia àquela leva de “velhos jornalistas” que poderiam obter o registro desde que comprovassem exercer a atividade em outubro de 1969 quando a profissão foi regulamentada. Para mim, nada era mais importante do que conquistá-lo. Fiz uma ousada manobra pedindo demissão sem ter outro emprego. Instalei-me na sede do sindicato e na Delegacia Regional do Trabalho, na rua Martins Fontes, ao lado do antigo prédio do “Estadão” em plantão diário, agindo como meu próprio advogado. Consegui o registro nº. 10.045, no dia 23 de março de 1973. No dia seguinte, por indicação do Louzeiro, que deixara a Folha para assumir o comando da redação do Diário, comecei a trabalhar na vaga dele, na FSP. Uma experiência de ouro. Porque me levou, do dia para a noite, ao time de uma “grande redação”, como chamávamos a Folha, o Estadão, o JT, Ultima Hora, NP, enfim aos jornais da Capital. Era como alguém que sai do “interior” – embora o ABC fique colado a São Paulo – para ir trabalhar na matriz.
Observava diariamente, quando chegava à redação, ao passar ao lado da sala de telex – o moderno sistema de transmissão de textos da época - que havia pendurados vários “avisos” em pedaços de papel impressos com as letras maiúsculas dos teletipos assinados pelo comando do II Exército. Informavam que estava terminantemente proibida a divulgação sobre isso ou aquilo. Como a imprensa vivia sob censura, e nem sempre a edição era revisada fisicamente pelos censores, os “avisos” bastavam para quem tivesse juízo. Foi assim que ficamos sabendo sobre a guerrilha no Araguaia; movimentos “subversivos” aqui e ali; fechamento de “células comunistas”; mortes de “terroristas” em acidentes de trânsito e por aí afora. O que mais me intrigava, naqueles meses de Folha de S.Paulo, é que meu querido Diário do Grande ABC jamais recebera um daqueles “avisos”. Quando voltei, alçado ao cargo de chefe de reportagem apenas com 20 anos, nada era mais importante do que o desafio de trabalhar para transformar o jornal num veículo respeitado. Nosso sonho, meu, do Louzeiro, da equipe e principalmente dos diretores: fazer do Diário o mais importante jornal regional do País.
Naqueles primeiros meses de nova função deparamo-nos com a maior epidemia de meningite da história do País. Disso sabemos hoje. À época era impossível saber por que a censura emitia aqueles “avisos” para a grande imprensa. Ocorre que na região do ABC percebemos o aumento do volume de pessoas nos Pronto-Socorros e hospitais com sintomas de uma doença grave que ninguém sabia dizer se era gripe, pneumonia, sarampo. Percebia-se que eram muitos os casos. Quando procurávamos as autoridades de saúde nenhuma delas ousava apresentar um diagnóstico preciso porque implicava em dizer que a população estava à mercê de uma epidemia; tudo aquilo que o regime militar jamais toleraria que fosse informado para não comprometer a “segurança nacional”.
Vi ali a oportunidade para fazer o Diário projetar-se nacionalmente. Conversei longamente com o prefeito de Santo André sobre a importância de realizar uma reunião com os demais prefeitos para tratar do assunto. Antonio Pezzolo, da Arena, concordou em parte com meus argumentos. Disse que, quando muito, abrigaria em seu gabinete uma reunião dos secretários de saúde para que fizessem um balanço regional da situação. Até porque – fiquei sabendo – a Secretaria da Saúde havia internamente passado instruções – sempre escondidas da imprensa – sobre a gravidade do problema. Percorri os sete municípios – Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra – conversando pessoalmente com cada um dos prefeitos. Cinco eram da Arena, o partido da “revolução”. Apenas dois, Ricardo Putz de Diadema e Amaury Fioravanti, de Mauá eram do MDB. Convenci todos sobre a necessidade de designarem seus respectivos secretários para a reunião no gabinete do prefeito Pezzolo, em Santo André.
Marcada dia e hora da reunião, executei a fase pré-final do meu plano: dirigi-me, também pessoalmente, ao Chefe da Divisão Regional da Saúde, médico José Oscar da Silva Bottas, até então avesso a qualquer contato com a imprensa e comuniquei-lhe sobre a reunião. Ele já sabia por que fora notificado por alguns dos secretários municipais. Voltei ao prefeito Pezzolo e implorei que insistisse na confirmação do dr. Bottas porque, afinal, era ele quem dispunha de informações e do precário aparato para enfrentar o problema.
Até então não se falava, seja na imprensa escrita e, muito menos, na mídia eletrônica – rádios, TVs – sobre a epidemia de meningite. Enquanto isso, a Grande São Paulo – Capital e ABC inclusos – registravam o maior número de óbitos de crianças que se tem notícia na segunda metade do século XX. Atualmente há farta literatura sobre o assunto. Basta pesquisar na internet. À época, a falta de informações evitava o pânico da população, tão temido pelo regime militar, ao preço de ceifar milhares de vidas humanas.
Chegado dia e hora, coloquei em prática a última fase do plano, avalizado e bancado pelos corajosos José Louzeiro, chefe de redação; Edson Danillo Dotto, Maury de Campos Dotto, Fausto Polesi e Ângelo Puga, diretores do Diário do Grande ABC. De surpresa, chegamos com os equipamentos da Radio Diário do Grande ABC e passamos a transmitir ao vivo, mesmo sem permissão, o desenrolar do encontro. Com direito a entrevistas com os secretários municipais de Saúde e também com o dr. Bottas, da Secretaria Estadual.
Não houve tempo para suspensão da transmissão. Vivíamos novos tempos da ditadura, sob a distensão “lenta, segura e gradual” do general Ernesto Geisel que havia assumido o poder algumas semanas antes.
E foi assim que a epidemia de meningite de 1974 rompeu a censura e “vazou” para a grande imprensa. Senti-me recompensado. A história tomou novo rumo, as autoridades providenciaram vacinação em massa para a população e, a partir daquele dia nosso querido Diário do Grande ABC passou a ser visto com outros olhos pelo País. Mas, assim mesmo, jamais recebemos os tais “avisos”.
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*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.
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terça-feira, 5 de maio de 2009

MENDIGOS VENDIAM PONTOS NA CATEDRAL

Edward de Souza
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Estagiário do NP serve de cobaia e
quase é linchado
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A Praça da Sé é o eixo da cidade de São Paulo. Quem for à praça, vai ver o marco zero da cidade, bem em frente à Catedral. Na metade dos anos 70 parecia um albergue a céu aberto, uma visão do inferno, como se a cidade tivesse enfrentando alguma guerra civil ou algo do tipo. A quantidade de mendigos espalhados pela praça chegava a ser absurda. A maioria dos pedintes utilizava os jardins da praça como banheiro público, tomando banho no chafariz central e fazendo suas necessidades em qualquer canto, tornando certos pontos não muito agradáveis. Alguns deles usavam drogas. O mau cheiro imperava. Lázaro Campos, nessa época editor de polícia do Jornal Notícias Populares, recebia dezenas de reclamações de leitores pedindo providências. O jornal, chegado ao mundo do crime, não se importava muito com notícias assim, até que um telefonema chegou à redação denunciando a venda de pontos de mendicância na praça, principalmente próximo às escadarias da igreja, a preços absurdos. Falavam em milhões por um pequeno espaço para se esmolar. Assim que colocou o telefone no gancho, Lázaro virou-se para o meu lado e me passou as informações que havia recebido. Isso significava que eu estava escalado para ir à Praça da Sé em busca dos famosos pontos de mendicância e os responsáveis por eles. Jornalistas, de um modo geral, têm verdadeira fissura em entrevistar, reportar, fotografar, documentar moradores de rua. De preferência, em preto-e-branco. Arrisco uma interpretação: sem consciência profunda dos problemas sociais do país, enxergam o que salta aos olhos, visão superficial porque, inclusive, vários moradores de rua lá estão por motivos diferentes da pobreza, como drogadições em geral, desentendimentos familiares e problemas mentais. Eu tinha certa experiência, depois de desmantelar uma rede de falsos mendigos no ABC, cujo relato farei nesse blog em outra oportunidade. Bolei um plano para tentar entrar na rede de mendigos que negociavam pontos na Praça da Sé, mas iria precisar de ajuda. Expliquei ao Lázaro a idéia que tive. Teria que infiltrar uma pessoa com aparência de mendigo na Praça da Sé. Ficaria à distância com o Tarcisio Leite, fotógrafo, documentando e acompanhando toda a movimentação. Mas quem seria nosso mendigo? Não poderia ser alguém com cara de bonachão e bem nutrido, claro está. Enquanto pensava, voltei-me para a sala de arquivos do jornal. Um jovem, recém-contratado, recortava jornais para arquivar matérias às pastas. Era magro, na verdade, esquelético, barba preta cerrada e com olheiras profundas. Seria o mendigo ideal, mas como convencê-lo a aceitar a empreitada? Mostrei o rapaz ao Lázaro e ele logo se animou. Fomos os dois falar com ele. Tinha o apelido de “Carne-Seca”, ficamos sabendo. Estagiário ainda no NP, “Carne-Seca” ficou entusiasmado em saber que participaria de uma reportagem policial, pouco se importando com os riscos que certamente correria, caso sua verdadeira identidade fosse descoberta pelos mendigos. Combinamos sair por volta das 3 horas da madrugada. Lázaro providenciou roupas velhas e rasgadas e um chapéu para o nosso mendigo. As roupas ficaram largas, o que, ao invés de atrapalhar, acabaram ajudando a moldar o perfil de pedinte que pretendíamos infiltrar nas escadarias da Praça da Sé. Como medida de segurança, comunicamos a um delegado amigo nosso a reportagem que iríamos fazer, pedindo que ele deixasse, nas proximidades das escadarias da igreja, um investigador de plantão. Antes das 3 da manhã chegamos à praça ainda deserta e soltamos o “Carne-Seca”. Teríamos que ficar à distância, mendigos detestam jornalistas e fotógrafos, já perceberam? Sempre que um carro de reportagem se aproxima eles fogem como o Diabo da cruz. Se estão em bando, muitas vezes atacam, buscando afugentar os repórteres. Sempre foi assim. Fazia frio naquela manhã em São Paulo. “Carne-Seca” se enrolou num velho cobertor “sapeca-neguinho” e sentou-se no começo da escadaria da igreja, chamado ponto de elite pelos pedintes do local. Estendeu o chapéu, com as mãos trêmulas por causa do frio e também pela tarefa espinhosa que teria a cumprir pela frente. Eu e Tarcisio ficamos à distância, dentro do carro sem logotipo, que arrumamos para fazer a reportagem e não chamar a atenção dos pedintes, que, aos poucos, foram chegando. Eram mais de 5 horas da manhã e o movimento começou. Estava divertido ver que, a cada três pessoas que passava, uma atirava moeda no chapéu de “Carne-Seca.” Agachado atrás do carro, com teleobjetiva, Tarcísio fotografava os melhores lances. Mais de 7 horas da manhã. Movimento intenso na Praça da Sé. Bom lembrar que não havia metrô na época, apenas ônibus e táxis circulavam pelas imediações. O chapéu de “Carne-Seca” estava cheio. Como tinha saído o sol, ele atirou as moedas no cobertor e deu um nó, deixando livre o chapéu para novas ofertas. Tinha se transformado num autêntico pedinte nosso estagiário. Melhor não poderíamos ter encontrado. Minutos depois, eu e Tarcísio notamos que três mendigos esconderam nossa visão e gesticulavam energicamente com “Carne-Seca”. Não dava para ouvir, claro, mas podia se perceber que nosso mendigo estava em apuros. Levantou-se e saiu do lugar que ocupava. Um desses três mendigos tomou seu lugar. Sem saber o que fazer, “Carne-Seca” procurou um ponto à frente para se sentar. Não ficou nem 5 minutos e foi cercado mais uma vez. A coisa estava feia! Tarcisio não perdia um lance, fotografava tudo. Em fração de segundos, nosso mendigo desapareceu, com chapéu e cobertor. Gritei para o Tarcísio e corremos, eu, ele e o motorista do jornal, que largou o carro aberto, para tentarmos ver o que tinha acontecido com “Carne-Seca”. No caminho topamos com o investigador Gilberto Moraes, que estava acabando de chegar a mando do delegado amigo nosso para dar cobertura àquela reportagem. Correndo em volta da igreja, escutamos gritos abafados de “Carne-Seca.” Gilberto, o investigador, sacou o revólver. Correndo na direção dos gritos, encontramos nosso “pedinte” cercado por um bando de mendigos. Estava sendo sufocado pelo próprio cobertor. O investigador efetuou dois disparos para o alto, dispersando os mendigos que fugiram. “Carne-Seca” mal podia respirar. Estava roxo e por muito pouco, frações de segundos, não perde a vida. Depois de tomar uns dois copos de água e um cafezinho numa lanchonete da Praça da Sé, “Carne-Seca” contou que desde cedo estava sendo molestado pelos mendigos da área. De acordo com ele, cada ponto tinha um dono. Caso ele quisesse continuar a esmolar no local, deveria pagar de 3 a 5 milhões de cruzeiros, muito dinheiro naquele tempo, o suficiente hoje para comprar um carro de marca, zero quilômetro, ou até uma boa casa. Como nosso mendigo improvisado resistiu e continuou no local, foi arrastado pelo bando de pedintes “donos da igreja”, e só não morreu porque, como foi relatado, acudimos a tempo. Foi feito um Boletim de Ocorrência e a matéria publicada dias seguidos no Jornal Notícias Populares, com fotos. Os “donos da boca” desapareceram. Quanto ao “Carne-Seca”, foi contratado pelo jornal, escondeu-se no setor de arquivos e nunca mais quis servir de cobaia para reportagem nenhuma.
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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domingo, 3 de maio de 2009

EXPOSIÇÃO DE QUADROS DE J. MORGADO

O Jornalista e Pintor J. Morgado realiza desde o começo deste mês uma exposição de quadros na Casa da memória, localizada à Rua Brasília Teixeira Seckler, número 20, em Mongaguá. Tem tempo para os amigos e amigas desse blog comparecerem e admirar as belezas pintadas pelo J. Morgado. Essa exposição se estenderá até o dia 17 de maio. O jornalista Édison Motta compareceu ao evento para rever o velho amigo de longos anos e admirar sua obra. Fotos na Casa da Memória, residência de J. Morgado e de dois dos seus muitos quadros que estão em exposição.
O blog vai pegar fogo nesta terça-feira, com outra história verídica de uma reportagem investigativa na Praça da Sé, marco zero de São Paulo, onde pedintes vendiam pontos para explorar a mendicância nos degraus da catedral da Sé. Um estagiário de jornal se passou por mendigo, postou-se nas escadarias da igreja, foi descoberto e por pouco não foi linchado pelos mendigos que vendiam pontos por valores astronômicos, que hoje, dariam para comprar um carro de marca, zero quilômetro, ou até uma bela casa. Exclusivo no blog desta terça: "Estagiário do NP serve de cobaia e quase é linchado". (Edward de Souza ).

sábado, 2 de maio de 2009

O DIA EM QUE O AVIÃO POUSOU DE BARRIGA

Oswaldo Lavrado
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TRAPALHADAS NA VIAGEM
PARA GOIÂNIA
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Começo de Abril de 1992. Os times de futebol profissional do ABC estavam sem atividades. Para não deixar inativo o departamento de esportes da Rádio Diário do Grande ABC 1300, o qual dirigia, e o consequente desemprego, sugeri a opção de acompanhar os jogos do Santos no Brasileirão. Embora a rádio fosse sediada em São Bernardo, a iniciativa partiu em virtude das emissoras de São Paulo, obviamente, priorizarem Corinthians, Palmeiras e São Paulo. As rádios da Baixada faziam a cobertura de todos os jogos do time praiano, porém o alcance delas aqui no Planalto era mínimo e chegava com muito chiado. Como a maior parte da torcida do Santos está na Grande São Paulo, a Rádio Diário, cujo som era nítido num raio de 150 km, tentava abocanhar esse filão de audiência. E conseguiu, uma vez que chegou a ficar em quarto lugar no Ibope na Região Metropolitana de São Paulo, abaixo apenas de Bandeirantes, Globo e Jovem Pan. As transmissões dos jogos do Santos pelo Brasil trouxeram para a Rádio Diário 1.300, patrocinadores de porte, tipo Brahma, Casas Bahia e Ford, anunciantes quase impossíveis de serem conquistados transmitindo Santo André, São Bernardo ou São Caetano.
No começo de abril do ano de 1992 o Santos foi jogar em Goiânia, contra o Goiás. Pra lá embarcamos, eu (comentarista) e Edward de Souza (narrador). Por motivos econômicos o repórter e o operador de som foram dispensados. Pelo mesmo motivo (grana) viajamos de madrugada para aproveitar o desconto de 20% na passagem aérea. Pouco depois de alçar vôo, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, começava também nossa odisséia. Após sobrevoar o Estado de Minas uma forte turbulência chacoalhou a aeronave, obrigando a tripulação determinar aos passageiros que apertassem os cintos, não fumassem e devolvessem pratos e talheres, já que um substancial lanche estava sendo serviço. O avião estava lotado. Eu viajava no acento do meio de uma poltrona de três lugares, na frente. Do meu lado direito um padre e do esquerdo um francês. Em outra poltrona estava o Edward. Ao lado dele um jovem engenheiro e um cearense. Pelo tamanho da turbulência, o padre, que antes havia tomado um copo de vinho, rezava alto, o parisiense balbuciava coisas no idioma francês e o cearense, ao lado do Edward, em pânico, gritava que não podia morrer, porque tinha três filhos, a mulher e um cachorro o esperando em casa, além de, desesperado, proferir outras frases sem nexo. A coisa estava mesmo feia. Apenas eu, o Edward e o engenheiro mantínhamos uma falsa calma. No fundo, no fundo, estávamos apavorados. O jato já sobrevoava Goiânia quando fomos informados pela tribulação que havia um problema com o trem de pouso e a aeronave iria aterrissar de barriga. Ai o mundo veio abaixo dentro do avião. O padre tremia e rezava mais alto. Nervoso, vendo a viola em cacos, em determinado instante não me contive e exclamei: “olha, padre, se esse avião cair, não adianta nada suas preces, vamos morrer do mesmo jeito”. Arrependi-me depois. Uma aeromoça, nitidamente apavorada, começou a recolher os talheres dos passageiros, e travou um pequeno diálogo com o nosso Edward de Souza: ”por favor, seu copo, pediu gentilmente a garota. O narrador da rádio, com um copo de plástico na mão direita, ainda com metade do uísque, recusou: “moça, não entrego nada, se esta tranqueira cair, vou morrer agarrado ao copo”, sentenciou. A aeromoça, talvez pela turbulência do vôo e nervosa com a situação aflitiva do momento, deixou o Edward em paz, se é que havia paz ali naquele momento, e correu para sentar-se numa poltrona e colocar o cinto de segurança. Mais de uma hora da manhã o jato iniciou o processo de descida. Segundos depois um estrondo, as luzes se apagaram e o avião deslizou na pista, observado à distância pelos funcionários do aeroporto e soldados do corpo de bombeiros. Silêncio total. Repentinamente as luzes se acenderam. Sinal que o pouso havia dado certo. Todos se levantaram correndo, em busca da porta traseira do avião, onde uma rampa estava sendo colocada para todos saírem, deslizando por ela. Soubemos depois que foi verificada uma ocorrência nas tubulações que conduzem o fluido hidráulico do avião, o que impediu o baixamento do conjunto do trem de pouso A aeronave tocou o solo de barriga sobre uma espuma espalhada na pista, o que fez com que ele acabasse arrastando-se por, pelo menos, 400 metros.
Na saída, a tripulação, na porta, pedia desculpas pelo transtorno e agradecia os passageiros. Edward aproximou-se da mesma aeromoça e disse: "aqui está seu copo". A menina, educadamente, respondeu: "agora o senhor pode ficar com ele, leve-o de lembrança". Acho que esse copo está na casa do narrador da Rádio Diário até hoje.
O engenheiro que viajou ao lado do Edward e que tinha um carro esperando no aeroporto, nos ofereceu carona até o Hotel Samambaia, próximo ao Centro de Goiânia, onde, por coincidência, também estava a delegação do Santos. O padre, o francês e o cearense que estavam no mesmo vôo sumiram assim que o avião aterrissou. Soubemos que o cearense não quis seguir viagem em outro vôo, preferiu ir de ônibus para Fortaleza. A saga não termina ai...
Sempre viajamos com verba fornecida pela rádio e com a qual pagávamos todas as despesas. Nessa viagem, porém, o Edward arranjou um walsh (espécie de passaporte que garante ao portador passagem e hospedagem com pagamento futuro; (não sei se ainda existe). O documento era, acredito, da CVC, da qual um dos sócios, o Irineu, era amigo do Edward. Tudo bem, não fosse o nosso retorno na segunda-feira pela manhã. Pra fechar a conta do hotel teríamos que apresentar o walsh ao gerente. Malas arrumadas, prontos pra ir embora e... Cadê o papel. Tinha que estar com o Edward, claro. Mas não estava. Procura cá e acolá, revira as malas, o armário, o criado-mudo e até a bíblia (todo hotel sempre tem um bíblia no criado-mudo) e nada do tal walsh. O Edward tentou aplacar minha fúria, já que eu tinha compromisso importante e inadiável em São Bernardo na parte da tarde daquela segunda-feira. Ele ligaria para a empresa que emitiu o papel e solicitaria outro, via fax, uma vez que, à época, a informática ainda engatinhava no Brasil. Eu não podia esperar e depois de muito bate-boca entre nós dois o Edward decidiu: "vá embora que espero o walsh". Não queria deixá-lo sozinho refém no hotel, mas não tive alternativa. Se ficasse em solidariedade ao amigo, corria a risco de sair no braço com ele e perderia o compromisso aqui no ABC. Pequei minha mala e fui. O avião que me traria a São Paulo, por essas coisas do destino, ao deixar o aeroporto passou sobre o prédio do hotel Samambaia. Da janela do apartamento o Edward, que sabia o horário do meu vôo, viu a aeronave e rogou: "tomara que essa chaleira caia com aquele baixinho (eu)”. Soube mais tarde que foi apenas um desabafo, acreditei. O walsh chegou, por fax, e o narrador da Diário voltou no mesmo dia para São Paulo, num vôo da Vasp. Em tempo: O Goiás venceu o Santos por 1 a 0, gol de Túlio Maravilha, de pênalti.
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*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
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