quarta-feira, 31 de março de 2010


CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

CHUCHU


Segundo ensina o dicionário, chuchu, do francês antilhano chou-chou, é uma trepadeira cucurbitácea, de nome científico Sechium edule, de fruto verde e comestível. Na linguagem popular, pessoa muito bonita, graciosa; muito querida, ou que é a favorita, a mais mimada.

Vocês devem estar achando que estou louca ao falar de chuchu em plena época de Páscoa, afinal, até prova em contrário, chocolates são feitos com cacau...

Pois bem, explico. O Chuchu a que me refiro não era um legume. Era um digno representante da família Leporidae cujos membros são popularmente conhecidos como coelhos! No mais, confere com o dicionário, era lindo, fofinho, gracioso, elegante e transformou-se em favorito, no mais mimado...

Nossa história com o Chuchu começou quando minha irmã Nina ganhou aquele coelhinho branco de seus amigos e o trouxe para o apartamento. Na época, morávamos em Santa Maria, para estudar.

Logo nos primeiros dias de convivência nos apaixonamos por ele. E também tivemos prejuízos avantajados. Mesas, cadeiras, vassouras, sapatos foram solenemente roídos pelo láparo esfomeado que, nas horas de solidão, era o rei do pedaço. Nada escapava de seus dentões serrilhados...Não pensem que o deixávamos à míngua. Comia à farta, uma feira inteira por dia...

Seguidamente havia um conselho da tribo, para discutir o banimento do Chuchu, por prejuízo mobiliário e econômico, mas o danadinho sempre ganhou todas as questões, somente advogando com o olhar pidão...Resistir, quem havia de?

Assim, em pouco tempo, tornou-se o rei do apartamento 44, altos do Cine Glória, nossa feliz morada na cidade universitária...Por algum tempo, o reino dele era a área de serviço; depois, tomou de assalto a casa inteira, quando adquiriu comportamento de gente, respeitando o código de conduta estabelecido: Não roer, não lamber, não mastigar roupas, móveis e utensílios, não fazer xixi no sofá nem nos cantinhos. Comportar-se com um bom menino, obediente e educado. Um gentle rabbit!

Quando chegávamos da aula, Chuchu nos esperava na porta, confortavelmente instalado nos peleguinhos de lustrar. Daí, pulava no meu colo, no sofá, para assistir televisão, olhar fixo e interessado. Adorava o Programa da Xuxa (que assistia sozinho, diga-se de passagem, batendo a patinha ao ritmo do ilariê...desconfio que suspeitava ser parente da moça!) e as novelas, principalmente a das oito. Creio até que suspirava, nos momentos mais emocionantes dos folhetins televisivos...Nos intervalos, fazia o seu show e merecia aplausos – como a sala era ampla, dividida em dois ambientes, Chuchu descia do sofá, engatava uma primeira, ganhava velocidade e deslizava até encontrar a parede, batendo a cabecinha, de propósito...Voltava vendo estrelas, com cara de malandro. Se deixássemos, repetia a façanha, até cansar. Depois, dormia, invariavelmente, no nosso colo. Acordado, como guri obediente, seguia a dormir em sua casinha.

Nossa vida com Chuchu fluiu agradável, por vários meses. Quando chegaram as férias, afastamos a possibilidade de levá-lo para Santiago, pois a mãe não o aceitaria. Tinha cachorro, gato e caturrita (que assobiava o hino nacional inteiro!) na casa...

Então, a Nina confabulou com um colega que tinha sítio e acertou a permanência do Chuchu na temporada de férias. Despedidas chorosas... mas, fazer o quê? Foi-se o Chuchu, rumo à serra, com mochila e peleguinho...

Ao retornarmos à Santa Maria, rapidamente minha irmã foi ter com o tal amigo, para combinar o resgate do Chuchu. Voltou desconsolada e furiosa. O Chuchu, lindo e fofo, havia virado refeição, segundo o depoimento do gajo assassino. Até hoje não sabemos se o Chuchu, de fato, virou comida ou fugiu (que de bobo não tinha nada...) mas o resto, podem acreditar, é tudo verdade!

------------------------------------------------------------------------------------
*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e vivências estão no Blog Interface Ativa! Para conhecer, acesse
http://niviaandres.blogspot.com/
------------------------------------------------------------------------------------

A seguir, logo abaixo, leia o conto Restos e Rastros,
da escritora convidada Silvana Boni de Souza.
CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

RESTOS E RASTROS

Folheava o livro antigo encontrado nos guardados do sótão, sob a luz de uma lâmpada que pendia do teto. Morava ali desde sempre, com boas lembranças daquele seu universo e as memórias de escola afloravam aos poucos em restos do que foi, um dia, a sua única verdade.

Os anos haviam passado rapidamente e seus planos foram abandonados, arquivados em gavetas de chaves esquecidas na sua mente. Novas experiências foram acrescentadas àquele rol primordial e ele se perguntava naquele momento quantas mais seria preciso acumular na vida e com qual objetivo, se voltaria ao pó mais cedo ou mais tarde, para descansar eternamente no sótão Divino. Mais uma página virada e novas lembranças...

O pai costumava ler sempre aquela história na hora de dormir! Como poderia ter desviado o foco daquela que era tão importante, daquela que o fazia viajar em pensamentos e imaginar coisas impossíveis, mas tão reais como as que aconteciam no livro?

“Alice no país das maravilhas” tinha descrições e desenhos imaginários, que despertaram nele o interesse pelo desconhecido, pela exploração do improvável, que sua inocência infantil garantia, absolutamente, que aconteceria.

“- É tarde! - É tarde!”, dizia o coelho no papel amarelado.

Até aquela presente data o bicho engravatado não se convencera que sempre estivera atrasado! Sempre olhando o relógio e correndo, premonitório à condição da atualidade.

“- É tarde!”

Nunca entendera o motivo de tanta pressa, mas com o tempo passando, a frase começava a fazer cada vez mais sentido.

Era tarde e ele tinha pressa de viver! Queria aproveitar o que a vida lhe tinha reservado, as regalias às quais raramente se permitia. Perder oportunidades? Nunca mais! Nunca mais se lançar ao fosso escuro e desconhecido de investidas não planejadas e cair em buracos sem fim ou situações insustentáveis!

A cada assopro para espantar o pó, novo episódio da história se revelava e, com ele, mais lembranças reviradas, a confirmarem os paralelos.

O coelho a se mover pelo conto e a vida estacionada pelos cantos!

Era a madrugada do dia de Páscoa. As crianças dormiam (sempre se referia aos filhos desta forma, mesmo adultos) e os ovos, que ele e a mulher esconderam pela casa, já aguardavam, ansiosos. Ninguém achava mais graça naquilo, mas os pais insistiam em incutir-lhes o subdesenvolvimento, deixando transparecer o que gostariam que acontecesse à prole, a estatização.

Mais uma folha virada do livro e finalmente se permitiria dormir. Foi aí que percebeu a falha no desenho! Voltou ao texto para confirmar o que não via. Faltava um detalhe, estava certo!

Com o canto dos olhos percebeu o movimento rápido.

Um remexer de papel denunciava uma presença e, em instantes, pôde ver os rastros deixados no chão sujo, apontando para a escada. Ao olhar para baixo ainda teve tempo de ver a fofa bola de pelos da cauda, conformado com o atraso que suas pernas velhas e seu movimentar lento lhe impingiam.

“- É tarde! - É tarde!”, pôde ouvir lá de baixo.

Desceu. O barulho de papel do embrulho dos ovos surpreendeu a mulher. Não era provável que ele tivesse feito aquilo!

“- Liberdade!”, disse ele de olhos alegres, lambendo o chocolate dos lábios e deliciado com a transgressão infantil, finalmente evidenciada!

--------------------------------------------------------------------------------------
*Silvana Boni de Souza é farmacêutica bioquímica, especialista em Homeopatia. Escritora de contos e crônicas, desde 2000 participa de alguns projetos dinâmicos: http://www.vivasp.com/ que apóia desde o início; http://www.carmenrochacontos.pro.br/ que frequenta há três anos e http://www.deshortsnasiberia.com.br/ de sua autoria, desde 2008.
--------------------------------------------------------------------------------------

terça-feira, 30 de março de 2010

CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

AVATAR

Depois do milagre da ressurreição, a Páscoa, celebração de chocolate, rastilhos dos coelhos. Será que voltaram para comer os ramos que sobraram do domingo dedicado aos ramos santos? Ou trouxeram ovos recheados? Tempo de avatar, metamorfose, renascer, transfiguração, presença do extraordinário. A mulher acorda com as badaladas. Uma, duas, três, doze, apenas doze. Respira aliviada, teme que cheguem a treze e as bruxas saiam dos sombrios calabouços construídos dentro de imensa arca, onde permanecem encarceradas, sob a promessa de serem libertadas quando o dia tiver vinte e seis horas. Ela sempre capta os sons dos relógios: solenes os de Notre Dame; exatos os que chegam do Big Ben; melodiosos os da igreja; com atraso os da estação ferroviária.

Uma, duas, três, doze. Reconta no cuco que abre a janela, no badalo do velho relógio que pertenceu a Sherlock Holmes, ainda impressionada com a argúcia do famoso detetive que desvendou o mistério das horas roubadas, levadas no exato momento do ofício divino entre as sextas e as vésperas.

Doze, doze, doze. O quarto se enche de vibrações sonoras, sons simultâneos, elevação diferente. A mulher esfrega os olhos, levanta o travesseiro, recosta-se, tateia no criado, encontra o copo, despeja água da jarra de cristal, bebe vorazmente, ansiosa, grandes goles, grandes ruídos. Não sabe ao certo se é o meio-dia ou a meia-noite, o dia alumiado dividido ao meio, ou a noite feia, de tempestade, cortada em duas partes iguais.

Acende o abajur em forma de arca, peça muito velha, antiga, rara, cobiçada pelos colecionadores, antiquários e estudiosos do mundo todo. Móvel encimado por estranha inscrição, podendo-se ler claramente: “barca da salvação, pertencente a Noé”.

Naquele tempo, para desgosto de Javé, os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens. Ainda se observa no velho abajur em forma de arca o respiradouro colocado, a porta ao lado e a divisão em andares: inferior, segundo, terceiro.

Olha ao redor, a criança está quieta no ninho, boazinha, não incomoda, mesmo quando acordada tem medo de gritar, o choro chama a atenção do bicho-papão, do homem das bexigas, que aparece com o enorme saco membroso e sem fundo, onde enfiava e aprisionava os moleques barulhentos e desobedientes.

Sorri, apanha o pente-fino que pertenceu a medieval rainha da Inglaterra, instrumento de alisar, limpar e segurar os cabelos, utilizado desde tempos imemoriais, quando os primeiros piolhos apareceram e se espalharam.

Enfia o pente-fino na longa cabeleira prateada, sente arrepio, percebe que os cabelos se soltam do couro, grandes tufos, folhas mortas que se desprendem das árvores no inverno, o chão se cobre de feixes de cabelos amarelecidos.

Pelos vermelhos crescem com rapidez, substituem os prateados. Alisa com a palma, o ardor incomoda, provoca coceiras. Procura o espelho rococó, onde as damas de Luiz XV se enfeitavam para as festas de gala. Chega a tempo de observar a transformação: a pele se desfaz para surgir uma vistosa lagarta-de-fogo no instante em que o relógio marca a vigésima sexta hora, no décimo dia do seu quarto milésimo de vida.

------------------------------------------------------------------------------------
*Guido Fidelis
é jornalista e escritor.
------------------------------------------------------------------------------------

CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

A partir de hoje, até domingo, o Blog Crônicas de Edward de Souza e Amigos Jornalistas apresenta a Série Contos e Crônicas de Páscoa, com a participação dos colaboradores costumeiros e de alguns convidados que, sob sua ótica particular, unindo o talento e a criatividade que lhes são peculiares, vão nos contar o que significa a Páscoa.



VIDA QUE SE RENOVA!

Do hebreu "Peschat" ou do latim "Pache", Páscoa significa passagem, mas sua comemoração vai muito além da origem semântica. A data se reveste de múltiplos significados e sentidos. Páscoa representa renovação, vida, transformação, reconciliação. Lembremos que nos dias atuais, toda e qualquer oportunidade que tivermos para repensar a vida deve ser valorizada ao máximo.

A Páscoa cristã, em que celebramos a ressurreição de Jesus, é uma festa cuja data de comemoração é móvel. O motivo da mobilidade se deve à forma escolhida para determinar o dia. O Concílio de Nicéia (325 d.C.) estabeleceu que o primeiro domingo após o aparecimento da lua cheia daprimavera no Hemisfério Norte - Outono no Hemisfério Sul - seria o domingo de Páscoa. O Outono, no Brasil, começa em 20 de março. O primeiro domingo de lua cheia depois do início da estação cai no dia 4 de abril.

A Pessach (Páscoa Judaica) é uma das três festividades de peregrinação juntamente com Sucot e Shavuot. Começa no 15º dia do mês hebraico de Nisan (geralmente em Abril), tem duração de sete dias e é celebrada para comemoração do Êxodo do Egito - a fuga do povo judeu escravizado, que foi libertado por Moisés.

COELHOS, OVOS & CHOCOLATE

"Theobroma" foi o nome dado pelos gregos ao "alimento dos deuses" - o chocolate. "Theobroma cacao", o seu nome científico. Quem o batizou assim foi o botânico sueco Linneu, em 1753. Mas foi com as civilizações do Novo Mundo - os Maias e os Astecas que a história toda começou. O chocolate era considerado sagrado por essa
civilizações indígenas, como o ouro.

Na Europa o chocolate chegou por volta do século XVI, tornando rapidamente popular aquela mistura de sementes de cacau torradas e trituradas, depois juntada com água, mel e farinha. Vale lembrar que o chocolate foi consumido, em grande parte de sua história, apenas como uma bebida.

Em meados do século XVI, acreditava-se que, além de possuir poderes afrodisíacos, o chocolate dava poder e vigor aos que o bebiam. Por isso, era reservado apenas aos governantes e soldados.

Além de afrodisíaco, o chocolate já foi considerado um pecado, remédio, ora sagrado, ora alimento profano. Os astecas chegaram a usá-lo como moeda, tal o valor que o alimento possuía.


Já no o século XX foram criados os bombons e os ovos de Páscoa, como mais uma estratégia de estabelecer de vez o consumo do chocolate no mundo inteiro. É tradicionalmente um presente recheado de significados. E não é só gostoso, como altamente nutritivo, um rico complemento e repositor de energia. E o coelho?

A tradição do coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães, em meados de 1700. O coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa.

Uma outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos, como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se, então, a história de que o coelho é que trouxe os ovos. Alguém duvida?

No antigo Egito, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. Alguns povos da Antiguidade o consideravam o símbolo da Lua. É possível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao fato de a Lua determinar a data da Páscoa.

Mas o certo mesmo é que a origem da imagem do coelho na Páscoa está na fertilidade que é marca registrada desses animais.


O ovo também simboliza o nascimento, a vida que retorna. O costume de presentear as pessoas na época da Páscoa com ovos ornamentados e coloridos começou na antiguidade.

Os egípcios e persas costumavam tingir ovos com as cores primaveris e os ofereciam a seus amigos. Os persas acreditavam que a Terra saíra de um ovo gigante.

Os cristãos primitivos da Mesopotâmia foram os primeiros a utilizar ovos coloridos na Páscoa. Em alguns países europeus, os ovos são pintados para representar a alegria da ressurreição. Já na Grã-Bretanha costumava-se escrever mensagens e datas nos ovos dados aos amigos. Na Alemanha, os ovos eram oferecidos às crianças junto de outros presentes, na Páscoa. Na Armênia decoravam ovos ocos com retratos de Cristo, da Virgem Maria e de outras figuras religiosas.

No século XIX, ovos de confeito decorados com uma janela em uma ponta e pequenas cenas no seu interior eram considerados presentes populares.

Mas os ovos ainda não eram comestíveis. Pelo menos como os conhecemos hoje. Atualmente as crianças encontram ovos de chocolate ou "ninhos" cheios de doces nas mesas, na manhã de Páscoa. No Brasil, as crianças montam seus próprios "cestinhos de Páscoa", enchem-no de palha ou papel, esperando o coelhinho deixar os ovinhos durante a madrugada. Nos Estados Unidos e outros países as crianças saem na manhã de Páscoa pela casa ou pelo quintal em busca dos ovinhos escondidos. Em alguns lugares os ovos são escondidos em lugares públicos e as crianças da comunidade são convidadas a encontrá-los, celebrando uma festa comunitária.
E então, vamos participar desta gostosa festa literária? A primeira história pertence a J. Morgado, que conta o delicioso embate entre um padre e um comerciante português, numa pequena cidade do sertão brasileiro, em plena Semana Santa, em... A Missa que não houve.

Fontes: Encarte do Jornal Zero Hora, de 29 mar 2009
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/kids/kidlink/kidcafe-esc/significado.html

segunda-feira, 29 de março de 2010

CONTOS E CRÔNICAS DE PÁSCOA

A MISSA QUE NÃO HOUVE


Naquela cidadezinha encravada no sertão brasileiro, não havia televisão, cinema e qualquer divertimento para a reduzida população existente. O rádio e a praça central com sua indefectível igreja católica e algum comércio era o ponto de encontro dos moradores.

A igreja era intensamente frequentada graças ao pároco local que se esmerava em “moralizar” aquele povo. Missa duas vezes por semana, cultos à noite e aulas de catecismo nos fins de semana para os pirralhos, além de um ou dois casamentos por ano e batizados.

Ferrenho em suas convicções, o padre ameaçava com o fogo do inferno quem não seguisse os mandamentos e, em especial, o ato da confissão e consequente comunhão na missa de domingo.

Na singela praça, com seu coreto simples existiam dois botecos, barbeiro, uma farmácia e um grande armazém. Armazém onde se vendia desde agulhas até arados, selas, mantimentos... Destes que existem por esse interior afora.

O proprietário do armazém era um português de meia idade que chegara àquela região não se sabia de onde e porque razão. Ali se estabelecera primeiramente com uma pequena loja e foi progredindo na medida em que migrantes foram desbravando a terra e montando fazendas.

O português e o padre andavam às turras. O padre insistindo para que ele frequentasse a igreja e o comerciante dizendo com franqueza que não gostava de padres. Um verdadeiro seguidor pombalino.

O padre metia o pau no português e ainda dizia para quem quisesse ouvir que um dia iria excomungar o incréu.

A Semana Santa estava chegando. Uma tradição seguida à risca por toda a população e presidida severamente pelo sacerdote. Ai daquele que não comparecesse aos cultos e procissões. Ameaças mil!

Joaquim, o comerciante, sentado em uma cadeira de balanço defronte ao seu comércio, tentava amadurecer uma idéia há tempos surgida. Enquanto saboreava sua cachaça preferida, uma luz surgiu! Provaria a todos que o padre Mateus estava errado e que a população local ainda não tinha sido colocada à prova para provar seus verdadeiros valores.

Idéia surgida, mãos a obra! Entrou e se dirigiu à salinha que lhe servia de escritório. Ali, do fundo de uma prateleira, retirou um mimeógrafo empoeirado. De outra gaveta, várias folhas de estêncil.
Com paciência e precisão, foi gravando com um ponteiro, esquemas ou pequenos mapas/roteiros.

Um único texto foi inserido abaixo dos “roteiros”. Como título; “Mapa do Tesouro”.

O texto dizia: “Moradores de D.... No dia 4 de abril (Páscoa), às 8h será dado o tiro de largada para a busca do tesouro. Esse tesouro consiste em seis caixas contendo meia dúzia de ovos de páscoa de bom tamanho cada uma. Iguais aos que estão expostos no armazém”.

Em número de seis eram os mapas/roteiros. Cada roteiro com pistas fáceis, médias e difíceis. Com paciência, imprimiu centenas de folhetos.

Terminado o trabalho, contratou vários rapazes e instruiu-os para distribuir os mapas de mão em mão, tanto nas fazendas como na área urbana.

Joaquim havia adquirido, dias antes, algumas caixas de ovos de páscoa na capital. Pretendia vendê-las com bom lucro.

No dia seguinte à distribuição, os moradores ocorreram ao armazém a fim de melhor se informarem.

Maquiavélico, o comerciante havia disposto os ovos de maneira bastante chamativa. Abriu alguns para degustação e explicou a cada um onde seria o tiro de largada; um sítio de sua propriedade distante um quilômetro da praça.

O padre tudo ignorava. Como todo o ano, a missa de páscoa seria campal, ou seja, na praça. A população sempre comparecia em massa.

Chegou o grande dia. O dia da renovação! O dia em que Cristo “ressuscitou”!

Altar pronto. Flores por todo o lado...

Sete horas da manhã. Sete e meia...! Os ponteiros do relógio se aproximavam da hora do início da missa (8h). Confiante, o padre Mateus se paramentava na sacristia, alheio ao que estava acontecendo.

Alguns minutos antes do início do ritual, o sacerdote dirigiu-se para o altar localizado na praça. Uma surpresa indescritível! Não viu nenhum habitante. Nem mesmo os carolas. Apoplético, desandou a falar impropérios em alemão, italiano... Um tiro de rojão ouviu-se ao longe!

------------------------------------------------------------------------------------
*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista pelo e-mail jgarcelan@uol.com.br
------------------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 25 de março de 2010



RÁDIO - PAIXÃO,

ROMANTISMO & REALIDADE (3)


Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida e viver com paixão,
perder com classe e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve.

(Charles Chaplin)

Meu primeiro encontro com o empresário Ulysses Newton Ferreira foi agendado por Pedro Dermínio, pressuroso em passar a gerência da Rádio Hertz. Embarquei num Douglas DC3 para São Paulo onde, as 10h30min, na Rua 24 de Maio, 7° andar, avistei-me com o líder.

Ele de fala tranquila e suave, mostrava cavalheirismo e conhecimento. Ouvi-o atento na descrição do perfil desejado para um organismo de seu grupo. Antigo funcionário do Banco do Brasil, mostrava preferência por alguém forjado na atividade bancária.

Depois de falar de minha experiência e passado de atividades, com agradecimentos pela oportunidade, fiz-lhe ver que havia entendido não ser o modelo adequado aos objetivos de sua empresa. Declarava-me um radialista envolvido com microfone, seu segredo na criação de programas, por gosto sua apresentação. Sem encerrar nossa entrevista, convidou-me para almoçar, período em que a conversação girou em torno de minhas andanças pelo rádio e sua vida pessoal. De volta ao escritório mostrou-me como funcionava Emissoras Coligadas S/A. Confesso não ter sentido qualquer atração por tudo aquilo diferente do ambiente vivo da estação de rádio. No entanto, o rol de franquezas que usamos nos aproximou, o respeito e segurança passados pelo baiano de boa estirpe fizeram que eu saísse com a carta de posse na gerência.

A função administrativa ocupava-me bastante, mas o radialista insistia em continuar acumulando horários de microfone em programas especiais.

Uma linda manhã de sol dois anos depois, por telefone, Ulysses fazendo uma convocação: - Venha a São Paulo amanhã e traga malinha para cinco ou seis dias fora de casa.

Voamos juntos para Curitiba. O grupo havia adquirido sua primeira emissora em capital brasileira, no Paraná. Rádio Tingui, Rua Pedro Ivo, lindo auditório enchendo os olhos do homem de rádio Garcia Netto que, sem aviso prévio, virou seu diretor-geral.

Lindas histórias passaram a integrar uma vida, política, social, não me lembro se mais, quem sabe? O jantar com o Rei da Suécia; o comensal de Moisés Lupion e dona Hermínia; a rigidez do chefe da Casa Militar, coronel Paredes; a retidão e amizade do secretário da Fazenda, Plínio Franco Ferreira da Costa; noites de luxo e luzes com Dino Almeida, cronista social de sucesso, para quem não havia portas fechadas. O alvorecer do coronel Ney Braga; a campanha de Nelson Maculam; fatos da vida paranaense, de sua política, de sua gente: eu estava lá.

Minha amizade de fé incluía Silvio Pessoa, secretário pessoal do governador que sempre acompanhei com fidelidade horária. Muitas vezes entrei sem bater à porta no gabinete do ministro de Viação e Obras Públicas, Almirante Amaral Peixoto, a contragosto de seu chefe de gabinete, doutor Areia Leão; saliente-se, sem obstáculo, já que acompanhava o governador Moisés Lupion. Vale recordar um diálogo meu com o governador Moisés, às 4h da manhã, no aeroporto do Rio. Era presidente Juscelino, cuja agenda em Brasília, naquela manhã, aguardava o governador. Dirigindo-se a mim, inquiriu-me: - Posso fazer uma pergunta, Garcia?

- Claro, governador! Não sei se poderei responder.

- Como se orienta sobre minha agenda e meus horários?

- Lamento governador. É uma pergunta que não pode ter resposta.

Ele sorriu com cortesia e sinalizou-me que embarcasse com a comitiva.

Tenho em minha casa até hoje uma relíquia, lembrança daquele dia em almoço no Palácio da Alvorada: uma xícara com o brasão dourado da República.

Ao lado da função gerencial da Rádio Tingui, fui acumulando literalmente a ocupação de adido diplomático de Emissoras Coligadas no Paraná. Entre as muitas conquistas, posso contar vitórias da época nas concorrências de emissoras em Londrina, Ponta Grossa, Maringá e Paranaguá que instalamos no período.

Os compromissos em Brasília iam se acumulando, com inibição de minha presença em Curitiba, fator que acabou determinando nova mudança no projeto que vínhamos cuidando na expansão da rede. Surgiram as negociações para aquisição da Rádio São Paulo, na capital paulista. Emissora tradicional de novelas pertencente ao grupo de Paulo Machado de Carvalho (Radio TV Record), detinha o maior elenco brasileiro de astros e estrelas de novela. Dulce Santucci e Fred Jorge produziam histórias em série a fim de alimentar o trabalho de Luiz Dias, Diva Lobo, Amélia Rocha, Santiago Neto, mais tantos outros já mencionados aqui.

A evolução exigiu meu concurso junto a Ulysses na superintendência do grupo, em São Paulo, onde assumi por sua determinação, assessoria. A expressão lobista ainda não era usada com frequência, sequer na interpretação de hoje, se ajustando mais no momento o uso (RP) relações públicas, encargo já adicionado às minhas atividades.

O vulto de negócios implicava em maior vínculo com órgãos do governo federal, mais nitidamente com o Ministério das Comunicações.

Tornou-se mais frequente minha presença nos congressos de radiodifusão, onde temas de interesse do empresariado de rádio e TV, reunidos na AESP e na ABERT, eram apreciados.

Nesses encontros foi gratificante o estreitamento de relações com João Saad (Bandeirantes), Joaquim Mendonça (Rádio Eldorado - Estadão), Edmundo Monteiro (Associadas), Paulo Machado de Carvalho (Rede Record), Borghetti (Globo) e Jayme e Maurício Sirotski Sobrinho (RBS). Muito foi acrescentado em minha jornada.

Foto 1, à direita - Garcia Netto e o ministro Higino Corsetti
Foto 2, à esquerda - Garcia Netto e o ministro Euclides Quandt de Oliveira
Foto 3, à direita - xícara com o brasão da República

-------------------------------------------------------------------------------------
*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. A Série Relembranças II será editada em capítulos semanais, às quintas-feiras - uma revisita do profissional de memória privilegiada, à história do Rádio Brasileiro, que se confunde com a sua própria história.
--------------------------------------------------------------------------------------

terça-feira, 23 de março de 2010

CARTAS MARCADAS


MORTE DE CELSO DANIEL

TERMINA EM PIZZA


Neste último final de semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello concedeu liminar em habeas-corpus a três acusados pelo assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT). O ministro acolheu pedido da defesa de José Edison da Silva, Elcyd Oliveira Brito e Marcos Roberto Bispo dos Santos, advertindo para o excesso de prazo. De acordo com o ministro, os acusados estão presos provisoriamente há quase oito anos, sem julgamento, e como não havia ainda uma sentença, o pedido do advogado de defesa do trio se tornou irrecusável.

Pouco antes de sua morte, Celso Daniel (E), então prefeito de Santo André, era o homem mais cotado para coordenar a campanha de Lula à presidência. Seu estranho assassinato atraiu suspeitas de se tratar de um crime político. No entanto, pouco tempo depois, tanto a polícia como o próprio PT afirmaram que se tratava apenas de um crime comum. Na época, o deputado Eduardo Greenhalgh foi designado pela cúpula petista para acompanhar o caso e reafirmou a tese.

COMO ACONTECEU O CRIME

Apesar de estar em um carro blindado, o ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT) não conseguiu escapar da morte. Ele foi sequestrado na noite de 18 de janeiro de 2002, quando saía de uma churrascaria localizada no bairro dos Jardins, em São Paulo. Segundo as informações, Celso estava dentro de um carro Mitsubishi Pajero blindado, na companhia do empresário Sérgio Gomes da Silva, conhecido também como o "Sombra" (E). O carro teria sido perseguido por outros três veículos: um Santana, um Tempra e uma Blazer. Na rua Antônio Bezerra, perto do número 393, no bairro do Sacomã, os criminosos fecharam o carro do prefeito. Tiros foram disparados contra os pneus e vidros traseiro e dianteiro de seu carro. Gomes da Silva, que era o motorista, disse que na hora a trava e o câmbio da Pajero não funcionaram. Os bandidos armados então abriram a porta do carro, arrancaram o prefeito de lá e o levaram embora. Sérgio Gomes da Silva ficou no local e nada aconteceu com ele.

Na manhã do dia 20 de janeiro de 2002, domingo, o corpo do prefeito Celso Daniel, com 11 tiros, foi encontrado na Estrada das Cachoeiras, no Bairro do Carmo, na altura do quilômetro 328 da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), em Juquitiba. Segundo inquérito concluído em 1º de abril de 2003 pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), o caso foi considerado crime comum, cometido por seis pessoas de uma quadrilha da favela Pantanal, da Zona Sul da capital paulista.

Conforme relatório da DHPP, o ex-prefeito teria sido sequestrado por engano e, quando a quadrilha percebeu o fato, seu chefe teria ordenado a soltura dele. Entretanto, outro integrante do bando teria entendido erradamente a ordem e determinado a um menor, membro do grupo, que matasse Daniel.

A família do ex-prefeito de Santo André não ficou satisfeita com o resultado do primeiro inquérito policial, pois admitia a possibilidade de crime político. Diante disso, o inquérito foi reaberto.


LULA PROMETEU E NÃO CUMPRIU

O assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT), executado após seu sequestro, foi planejado. Essa foi a afirmação em 2002 do pré-candidato do PT à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, cuja nota eu extraí da agência France Press. Num discurso inflamado e emocionado durante o funeral de Daniel, Lula declarou que o crime "não foi coincidência", e que "tem gente graúda por trás disso, e nós vamos descobrir quem é". E agora eu pergunto, foi mais uma promessa de campanha de Lula? Onde está essa gente “graúda” que não foi localizada nem presa? E os assassinos confessos do ex-prefeito, presos há 8 anos, qual a razão de não terem ido a julgamento, a ponto de receberem o habeas corpus concedido na última sexta-feira pelo Supremo Tribunal Federal?

Na verdade, depois de eleito, Lula nunca mais tocou no nome de Celso Daniel e nada fez para acelerar a sentença dos criminosos que tiraram a vida do ex-prefeito, aclamado como o maior administrador público da história do Grande ABC.

Um dos irmãos do ex-prefeito assassinado, João Francisco Daniel (D), fez sérias acusações logo depois da morte de Celso. Afirmou que ouviu, no apartamento do irmão, antes de sua morte, o então chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, revelar detalhes sobre o esquema de corrupção na prefeitura para arrecadar fundos para o Partido dos Trabalhadores (PT). Segundo João, Gilberto contou que ocorria um pagamento ilegal (propina) feito por empresas de ônibus de Santo André. João Francisco Daniel explicou como funcionava o suposto esquema de corrupção na prefeitura, que contava ainda, segundo ele, com a participação do deputado e ex-ministro José Dirceu que, na época, era o presidente do PT, tendo como mandante Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, que acompanhava Celso Daniel quando ocorreu o crime. Apontado pelo Ministério Público como o mandante do crime, Sérgio Gomes da Silva - conhecido como "Sombra" -, que chegou a ser preso, está em liberdade desde 2004. Segundo Francisco, Celso Daniel teria tentado acabar com o “caixa três” (dinheiro desviado das propinas ao PT) que Sombra estaria coordenando.


A CARTA DE BRUNO DANIEL

Depois de ter sido ameaçado de morte no Brasil, Bruno José Daniel (E), irmão do ex-prefeito Celso Daniel, vive com a família na França, numa situação que define como exílio. Ano passado Bruno enviou uma carta para a imprensa. Muito longa, extraí alguns tópicos interessantes, acompanhem:

”Hoje, 16 de abril, Celso Daniel, meu irmão, estaria completando 58 anos de vida. Como todos sabem, foi sequestrado, torturado e assassinado há mais de sete anos quando era prefeito de Santo André e coordenava a elaboração do programa de governo do então candidato à presidência da república, Luis Inácio Lula da Silva. Sérgio Gomes da Silva, que o acompanhava no momento do sequestro, foi denunciado pelo Ministério Público como mandante desse crime. Foi preso por um pequeno período, mas responde em liberdade, após obter habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, sob a alegação de que não representa perigo para a sociedade. Apesar de todas as evidências colhidas pelo MP que mostraram que o crime foi planejado e que há pelo menos um mandante, o Poder Judiciário ainda sequer decidiu se o julgamento deve ir a júri popular porque, segundo informações que obtivemos do MP, a última das testemunhas arroladas pela defesa de “Sombra” (conforme Sérgio é chamado pela imprensa e era conhecido nos meios petistas) ainda não foi ouvida, pois nunca é encontrada. Parece-nos que expedientes como esse e tantos outros são usados para que as tramitações legais se alonguem no tempo, de modo a tornar mais difícil sua solução. Inúmeros outros assassinatos que ganharam amplo espaço na imprensa já foram resolvidos ou a Justiça já se posicionou quanto ao encaminhamento a ser dado.

Como explicar que no Caso Isabella, de cinco anos, morta em 2008 ao cair do apartamento onde residia, seu pai e sua madrasta já tenham ido a júri popular e até hoje o processo de Celso segue sem essa decisão após mais de sete anos? Como explicar que o promotor Igor Ferreira, três anos após ter tirado a vida de sua esposa, já tenha sido julgado e condenado e o caso de Celso segue ainda sem resposta da Justiça? Como explicar que no crime de que foi acusado o promotor Thales Ferri Schoedl a decisão final tenha sido tomada em menos de quatro anos e os indiciados pelo crime contra Celso ainda sequer tenham ido a júri popular? Poderíamos citar outros crimes, mas esses já são exemplares para afirmar: há algo de estranho que impede que o julgamento dos responsáveis por seu sequestro, tortura e assassinato não seja solucionado. Quais são as razões dessa morosidade? Quais são as pessoas e instituições que têm interesse no sentido de que nada seja resolvido?

Que país é o nosso em que pessoas já condenadas em primeira instância podem ficar soltas até que todos os recursos nas demais instâncias sejam analisados enquanto nós, minha família e eu, tivemos que deixar o país em 2006 em função de intimidações, perseguições e ameaças que sofremos e depois de terem ocorrido oito mortes relacionadas à morte do Celso? Se é justo que um julgamento tenha que chegar a seu fim para que haja punições, é justo que os procedimentos legais possam se alongar quase que indefinidamente? Para aqueles que esperam que eu me cale, apesar da condição de exílio que hoje vivo, outorgado pelo Estado francês, uma vida que tem um lado amargo porque fico distante de meu País e sou impedido de ver amigos e parentes, quero dizer que o presente que tenho a dar ao meu irmão em cada um de seus aniversários é e será a minha luta, mesmo à distância, pelo aperfeiçoamento das nossas instituições através de nossas reivindicações de punição aos culpados pela morte de Celso e de mudanças ligadas às causas que lhe deram origem."


Perceberam? Como se tivesse uma bola de cristal à sua frente, Bruno José Daniel acertou na mosca. Sem julgamento, os criminosos foram soltos nesse último final de semana, terminando em pizza esse bárbaro assassinato de um jovem prefeito de uma das cidades mais importantes do País. Celso Daniel sofreu os piores castigos, sobretudo o da morte nas mãos de carrascos a soldo de interesses os mais espúrios. Numa república honesta, sua morte seria investigada com apoio universal e os criminosos devidamente punidos com a pena máxima.

-----------------------------------------------------------------------------------
*Edward de Souza é jornalista e radialista.
-----------------------------------------------------------------------------------

segunda-feira, 22 de março de 2010


SORTE, AZAR & DESTINO

Estava navegando nas páginas do Estadão online quando resolvi dar uma olhada nos blogs ancorados no site do jornal. Que sorte! Encontrei um excelente artigo do jornalista Herton Escobar, titular do blog Imagine Só! que tratava, vejam bem, de sorte e azar!

O texto me agradou porque o rapaz, de forma muito bem-humorada, processou os conceitos de sorte e azar da forma como geralmente os usamos - sorte é aquela força inexplicável a que atribuem aos acontecimentos e o seu desenrolar favorável. Já, azar é desgraça, fatalidade, falta de...sorte! – porém, aí o motivo da minha admiração -, agiu racionalmente, afastando os conceitos de sorte e azar da mesa das discussões. O que geralmente reputamos como sorte ou azar pode ter origem no imponderável, ou não.

O texto e a discussão começaram numa mesa de bar, entre amigos, em que o assunto era futebol. Todos concordavam que SORTE era o ingrediente mais importante do futebol, com fartos exemplos a confirmá-la. Uns diziam – Ah! O Brasil só ganhou a Copa de 94 porque o Roberto Baggio perdeu o pênalti ao final da partida! Foi pura sorte!

Nosso mediador racional pulou e redarguiu: - Discordo! E até duvido que haja essa coisa chamada sorte! Existem as probabilidades da coisa acontecer ou não...E começou a enumerar uma série de possibilidades que podem ocorrer quando uma pessoa atravessa uma rua (ou cada vez que dá um passo na vida). Provavelmente nada aconteça, mas você pode ser atropelado; tropeçar num buraco, cair e bater a cabeça; escorregar numa casca de banana e quebrar o cotovelo; ser atingido por uma bala perdida; ser atingido por um raio; esbarrar em sua futura esposa; achar uma mala de dinheiro que um assaltante atirou pela janela do carro em fuga da polícia, etc. É claro que as possibilidades são infinitas...

O jornalista das ideias lógicas continuou: - Sorte ou azar, tudo depende da pessoa que protagoniza o fato. E convenhamos, esses acontecimentos são imponderáveis, não temos controle sobre eles. “Podemos dizer que ser atingido por uma bala perdida é azar, ou que achar uma mala de dinheiro é sorte, porque são acontecimentos aleatórios sobre os quais não temos qualquer controle.”

Voltando ao caso do pênalti mal-cobrado por Baggio, que enseja essa pequena digressão sobre sorte e azar, nosso interlocutor deu uma aula, lembrando que nem à sorte, nem ao azar podem ser creditados os resultados de uma partida de futebol, porque os acontecimentos são influenciados diretamente pelos seus protagonistas: Baggio não errou o pênalti porque teve azar e nem o Brasil foi teracampeão do mundo porque teve sorte. “Baggio errou porque errou. Talvez estivesse cansado, ou distraído na hora de chutar. Talvez a bola não estivesse bem acomodada no gramado . Talvez o fato do Taffarel já ter defendido vários pênaltis naquela Copa o deixaram nervoso…. Enfim, há uma série de fatores que influenciam uma cobrança de pênalti e que não têm nada a ver com sorte ou azar. Se o Baggio tivesse sido o primeiro e não o último da lista de batedores, certamente a pressão psicológica sobre ele seria muito menor e sua chance de acertar o chute, muito maior. Se o goleiro fosse outro, se o lado do campo fosse outro…. Tudo isso influencia.”

Agradeci mentalmente ao Herton Escobar e fiquei pensando. Muitas pessoas têm a mania de explicar seus sucessos e fracassos reputando-os a doses de sorte ou azar, convenientemente medidas. Ou nem sempre. Quando obtemos sucesso em algum projeto, é claro que o atribuímos a nossa competência, virtudes e qualidades. Quando fracassamos, é lógico que tivemos azar, nos passaram a perna, fomos injustiçados...nunca vamos admitir que erramos, que não fomos suficientemente bons, que nos equivocamos...

Da mesma maneira, muitos atribuem ao destino os sucessos e os fracassos. Ah! Foi o destino que não quis assim...Mas será que existe o destino? Será que tudo já está escrito e não podemos mudar nada, temos que nos submeter?

Bala perdida, casca de banana, raio, são acontecimentos imponderáveis. Nada podemos fazer para evitá-los, mas cobrar um pênalti com perfeição depende de nós e de como nos preparamos para cobrá-lo, jogadores de futebol ou não. O destino a gente faz. Ou não.
------------------------------------------------------------------------------------
*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e vivências estão no blog Interface Ativa! Acesse http://niviaandres.blogspot.com
------------------------------------------------------------------------------------

domingo, 21 de março de 2010


O SUMIÇO DO MATADOR


Naquele fim de tarde quente e abafado o esquecimento principiava a se abater sobre o misterioso sumiço do matador Leopardo, goleador que maravilhava a galera com sua arrancada, com dribles estonteantes e gols de placa. O talento fora reconhecido pelos olheiros e a sonhada transferência para um grande clube, estava sendo ultimada. Em breve, seria convocado como salvação da seleção carente de craques fora de série.

No aguardo do negócio, afiançado por um empresário caçador de novos talentos, ansiando pelo contrato milionário que lhe fora proposto, e com a glória dos aplausos nos grandes estádios lotados de torcedores e admiradores, costumava fazer ponto no Bar do Sardinha, estabelecimento escuro e encardido de propriedade do português que lhe emprestava o nome e passava o dia limpando o balcão, com um pedaço de pano sujo. A voz estridente e carregada de sotaque luso ecoava ao instruir os seus ajudantes, dois inexperientes garçons, que se revezavam entre a minúscula cozinha e o salão, servindo sem pressa os pedidos dos fregueses, sempre os mesmos. Mais ao fundo, onde se via uma velha gravura reproduzindo cenas de incêndio na floresta, pendurada na parede, postavam-se os jogadores de dominó, entretidos, horas a fio, em bater as pedras na mesa e gritar, tanto nas vitórias quanto nas derrotas. Apostavam pequenas importâncias ou o pagamento do consumo, invariavelmente cerveja quente e tira-gosto.

Outros tipos formavam pequenas rodas ou se isolavam. Juca Poeta pedia duas doses de cachaça, mantinha acalorados debates filosóficos e existenciais com um ser invisível e se debruçava sobre pedaços de papel pardo, produzindo sonetos, com letras trêmulas e irregulares, que declamava em voz alta. Velho Ananias, fisionomia cansada, preferia o tosco banco junto ao balcão. Deixava a bengala ao lado, sorria com os poucos dentes que lhe restavam e relatava impossíveis aventuras noturnas, quando viajava em direção às estrelas jovens da nebulosa de Órion, a convite dos tripulantes de um esplêndido disco voador.

Às vezes entrava um menino de rua, esticava o olhar guloso em direção às vasilhas de comestíveis, recebia um torresmo esturricado seguido do grito “fora, rua, fedelho”.

O Bar do Sardinha era democrático e liberal, permitindo que todos se expressassem livremente, embora fossem poucos os que se dispunham a ouvir a conversa que vagava, solta, sobre receitas de medicamentos caseiros indicados na ocorrência de bronquite, náusea ou pedra nos rins, brigas entre vizinhanças por causa de arruaças de crianças ou alguma notícia fresca - crimes ou escândalos - e que ganhava novas cores nas bocas que temperavam os fatos, condimentando-os com apimentados acréscimos de informações.

Foi no momento em que Juca Poeta discursava sobre as fontes da inspiração na criatividade poética que apareceu o forasteiro. Entrou célere, ar arrogante, sem saudar os fregueses. Disse, de pronto, que era repórter e averiguava, para uma matéria especial que preparava, a vida pregressa do craque Leopardo, revelado nas divisões inferiores do Campeão Futebol Clube, agremiação local que já exportara muitos futebolistas para o exterior, alguns deles atuando com destaque em clubes da Espanha, França, Turquia, Japão e México.

As investigações realizadas indicavam que os últimos vestígios da presença do jogador, às vésperas de sua transferência, desandavam naquele estabelecimento e ele se dirigira para lá na expectativa de ouvir eventuais amigos e parceiros, pois acreditava tratar-se de caso de vingança, de assassinato e ocultação de cadáver. Ou mesmo de sequestro, considerando que Leopardo receberia uma gorda bolada, transformando-se, repentinamente, em milionário.

Houve silêncio e espanto, o jogo de dominó ficou interrompido, os fregueses, desconfiados, trancaram suas bocas. Segredos e intimidades, embora circulassem pelo recinto, não atravessavam as paredes nem chegavam aos ouvidos de estranhos. Súbito, Velho Ananias pigarreou, bateu a bengala no balcão e, com vagar, disse que se dispunha a revelar o mistério, que era tempo de relatar os fatos e pôr ponto final à enigmática questão.

Os homens se entreolharam, inquietos, sinal de desaprovação, temerosos de sofrerem consequências, serem chamados pela polícia, perderem tempo em exaustivos interrogatórios. Indiferente, resoluto, Velho Ananias explicou que o atacante Leopardo, grande artilheiro, não havia fugido para lugar incerto e não sabido com a finalidade de se livrar da fúria de algum marido ciumento, furioso com o sucesso do jogador que colecionava conquistas amorosas sem se importar com o estado civil da mulher, tivesse ela ou não companheiros. Afinal, não tinha culpa de despertar desejo, pois sua fama de garanhão chegava a superar a de goleador. Ele encaçapava de todas as maneiras, sabia encontrar, com facilidade, o caminho de todos os gols. Também não era verdadeira a suspeita de que pudesse ter sido assassinado ou mesmo sequestrado, caso em que não haveria pagamento de resgate por absoluta insuficiência de recursos dos familiares, que não recebiam ajuda do profissional da bola, mesmo porque ainda não havia recebido os dólares acertados para a assinatura do contrato.

A voz rouca e arrastada do Velho Ananias alertou para a veracidade do relato que se seguiria, verdade que ele abonava sob juramento, pois presenciara, ao longo da existência, coisas espantosas, inusitadas, “com a nitidez refulgente da luz do sol e os olhos arregalados pelo medo”. Antes de prosseguir, fez breve pausa, tateou as mãos sobre o balcão, segurou o copo que se encontrava à sua frente, levou-o à boca e bebeu a dose de cachaça de uma só talagada, reservando algumas gotas para homenagear os santos padroeiros. Depois, arrotou e retomou a prosa para detalhar os acontecimentos.

Confessou, diante da platéia atarantada, que fora o último vivente a se avistar com o craque Leopardo que, no seu entender, era melhor que Romário ou Ronaldinho, reunindo a categoria de Pelé e Garrincha. Disse que o vira, eufórico, riso escancarado iluminando o rosto, preparando-se para as entrevistas que concederia aos jornalistas de todo o país, orgulhoso com o fato de aparecer na mídia, manchete de primeira página dos jornais, destaque nos noticiários da tevê, além de ser paparicado e festejado, uma espécie de herói nacional, de salvador da pátria. Mas, ao vê-lo, contrariando seus hábitos efusivos, cumprimentou-o um tanto friamente, dizendo que tinha um encontro urgente, coisas relacionadas ao esporte, tinha de partir com urgência, reunião secreta, política de dirigentes que se preocupavam com suas imagens desgastadas com seguidas denúncias de trambicagens.

Velho Ananias balançou a cabeça, respirou profundamente e segredou que o matador Leopardo, num espanto súbito, como se tivesse avistado uma linda loira com cabelos de raios de sol, mudou o rumo de seus passos, despediu-se bruscamente, e caminhou ligeiro em direção ao mar, atraído por um ponto de luz que ganhava intensidade. A última visão foi a de um objeto luminoso que se elevou do oceano e riscou o céu na forma de um relâmpago.

Terminado o relato, arrependido pelas confidências, quedou-se em silêncio, nada mais respondendo, por mais que o jornalista insistisse. Quando o intruso se afastou, Velho Ananias foi questionado por Juca Poeta, que afirmou não compreender como ele, merecedor de respeito e consideração pela idade avançada, poderia ter acompanhado as cenas finais do sumiço do atacante Leopardo sendo cego de nascença.

-------------------------------------------------------------------------------------
*Guido Fidelis é jornalista e escritor.
-------------------------------------------------------------------------------------

sexta-feira, 19 de março de 2010


OS HOMOSSEXUAIS NA MÍDIA


Ultimamente, a mídia vem abordando, com muita ênfase, casos de homossexualidade no Brasil e no mundo. No dia 24 de maio de 2009, o programa “Domingo Espetacular”, levado ao ar pela TV Record, mostrou um garoto de sete anos que, desde os dois, insistia em se comportar como menina. Os pais dessa criança aceitaram a situação, não por conhecerem ou não o problema existencial “homossexualidade”, mas simplesmente por ser aquela criatura filho e, por essa razão, merecer todo o amor e proteção que um ente gerado por eles deve merecer.

Entretanto, a sociedade hipócrita e preconceituosa, não aceita que indivíduos violem leis ou regulamentos que eles acham corretos.


No caso, um colégio católico recusou rematriculá-lo no ano letivo, alegando seu comportamento estranho de querer ser e se comportar como uma menina.

Jornalistas fizeram uma enquete nas ruas e as respostas foram as mais diversas e surpreendentes. Não tão surpreendentes! Algumas responderam que o colégio agiu certo, pois seus filhos (dos entrevistados) deveriam ser protegidos. Outros acharam errada a postura da escola e outros, ainda, não tinham opinião.

A TV Bandeirantes mostrou nos dias 25 e 26 do mesmo mês, outra grande reportagem envolvendo jovens travestis. Só que desta vez, o sensacionalismo não foi levado muito em conta. O sentido social foi o mais importante! Uma rede criminosa chefiada por um bandido que, logo em seguida, foi morto em São Paulo pela polícia, em uma troca de tiros no dia 26 de maio.

Os meninos, todos menores de idade, eram aliciados no Pará, estados do Nordeste, Minas Gerais, etc. Depois de se submeterem a tratamentos hormonais, eram levados a se prostituirem nas ruas de São Paulo e outras capitais.

Esses casos relatados, entre outros que se encontram na mídia quase todos os dias, são um preâmbulo para se falar sobre a homossexualidade e a incompreensão desse estigma pela sociedade e por eles mesmos.

Uma frase me chamou a atenção quando da entrevista de um desses “párias” da sociedade. Respondendo a pergunta de um repórter o travestido respondeu: “as pessoas não sabem de nada; vem da alma; eles não nos respeitam!” E eu, no sofá, diante da TV assistindo-o, respondi em pensamento: “você também não se respeita”.


O homem tem a resposta para todos de seus males há mais de dois mil anos. Infelizmente, o próprio homem, infeccionado pelo poder, deturpou essas respostas escondendo-as, resultando daí, um atraso na evolução da humanidade.

A ciência e os incrédulos de má vontade, insistem em ignorar a Codificação Espírita. Ali, naquele volume editado em 18 de abril de 1857 (“O Livro dos Espíritos”) e suas subsequentes edições em muitas línguas, estão as respostas para os muitos males que afligem a humanidade. Nos outros quatro livros que compõem o Pentateuco – “O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e a Gênese” – os ensinamentos se completam ou ensinam uma direção segura para que o homem possa encontrar respostas para curar ou pelo menos minorar os sofrimentos.

Emmanuel, através de Francisco Cândido Xavier, nos deu “Vida e Sexo”; Divaldo Pereira Franco, pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda, o didático “Loucura e Obsessão; “Educação & Vivência”, psicografia de Raul Teixeira, etc.


Essas obras e muitas mais, nos dão respostas sobre o problema do sexo desvairado. No caso, a homossexualidade. Mas, infelizmente, o materialismo ou a “Porta Larga”, fala mais alto.


A sociedade e os próprios homossexuais não conseguem entender que “Deus não revoga suas próprias Leis”. Se eles resolvessem parar para raciocinar, veriam que esse problema é como disse o travesti acima, “da alma”. Só a reencarnação explica esse fenômeno.

Psicólogos, psiquiatras, terapeutas e outros que se dizem entendidos, e de plantão, dão entrevistas na mídia sugerindo soluções. Outros, religiosos e não religiosos, mas ignaros em conhecimentos, sugerem soluções absurdas e sem nexo.


A medicina espírita progride e é cada vez maior o número de associações médicos-espíritas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Daí, uma sugestão para aquele que quer realmente se encontrar na vida presente; procure um psiquiatra ou psicólogo espírita.


O Livro dos Espíritos, na Questão 200 e seguintes, nos elucida a respeito do sexo dos espíritos. A partir da Questão 330, fala sobre o “Retorno à Vida Corporal”. “Obstáculos à Reprodução” que começa na Questão de número 693, nos dão mais luz a respeito do que estamos abordando.


O que se entende de tudo isso é que, quando um homem ou mulher, retorna ao mundo corporal em sexo diferente daquele daquele que gostaria de ser ou está acostumado em encarnações anteriores, é resultado de uma vida sexual desvairada. A agressão sobre si e ao próximo extrapolou os limites. Daí, o retorno a pedido e às vezes compulsoriamente a um sexo diferente daquele em que praticou o desvario.


Os homossexuais perguntariam o que fazer? A resposta é muito clara. Se a provação é a de resgatar o que está inserido no perispírito ou consciência como quiserem, abstenham-se.


O que não pode e não deve acontecer é mergulhar novamente na alucinação do sexo. A prova pode se repetir em outras encarnações com agravantes terríveis. Basta olhar a sua volta para se ter uma idéia aproximada do sofrimento do próximo.

Alguns nascem cegos, outros sem audição, sem poder andar, sem poder falar, etc. Expiações e provas para resgatar débitos anteriores. Por que o controle da libido não está entre essas provações?

Insistindo nos erros cometidos no pretérito, em subsequentes encarnações, os homossexuais, entre outros, poderão ter suas situações agravadas cada vez mais. Assim, outros problemas poderão surgir até que, “lapidados” dessas imperfeições grosseiras, voltem a evoluir.

Termino, desejando aos nossos irmãos homossexuais forças, fé, amor ao próximo e firmeza quanto aos seus propósitos de vencer as tentações que os levaram à situação atual.


“A vida é realmente simples. Nós é que insistimos em
torná-la complicada” (Confúcio)

------------------------------------------------------------------------------------
*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista pelo e-mail jgarcelan@uol.com.br
-------------------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 18 de março de 2010


RÁDIO - PAIXÃO,

ROMANTISMO & REALIDADE (II)


"Deveríamos usar o passado como trampolim e não como sofá." (Harold Macmillan)

Muitas pessoas vivem vida longa e feliz adotando uma rotina pacata, sem passar por ondulações de um corcovear valente agitando emoções. Minha circulação ao longo da vida sempre se afinou com aventuras e decisões que me deram inteiro prazer. Seja nos afetos, em exercícios profissionais ou escolha de caminhos, fui cavalgando de maneira diligente minha história.

Não tenho críticas para quem adotou vida calma, todavia, não conseguiria dormir com a serenidade, sem busca e velocidade. Se existe antagonismo e aventura em ser hoje interno seminarista e amanhã servir em uma trupe circense, eu exercia funções antagônicas. Minha mãe desejava um padre na família, desejo que me levou interno ao Seminário Santo Afonso, em Aparecida do Norte, ordem religiosa Redentorista fundada em Nápoles (1732) por Santo Afonso de Liguori. A vocação sacerdotal não inibiu meu trabalho futuro como ponto de teatro, no centro do palco, oculto por um alçapão, apontando para os atores o texto da peça. Eis aí relembranças da adolescência.

A ausência do chefe da família, falecido aos 53 anos, cobrou-me participação mais presente na qualidade de mais velho dos descendentes. De retorno a minha cidade ocorreu minha contratação por forte empresa comercial que vendia do alfinete ao caminhão. Incluía em seu conglomerado uma Casa Bancária de alto poder e influência regional: Organização Hygino Caleiro. Passei a produzir e apresentar com seu patrocínio exclusivo o maior programa de auditório de toda a região, “Variedades Hertzianas”. Conseguimos nível elevado de sucesso e várias apresentações de nossos artistas de Franca no programa Cezar de Alencar, na Rádio Nacional.

Ao mesmo tempo, Silveira Lima, meu contemporâneo do Rio, inclusive da Rádio Mauá, foi contratado pela PRA7 de Ribeirão Preto. Fala fácil, atraente, em auditório era concorrente respeitável. Eu em Franca fui abordado pela Rádio 79, de Ribeirão, para lançamento de um programa. Acumulei Franca com Ribeirão, para onde viajava uma vez por semana - quintas -, nos ônibus de estradas poeirentas, vestindo o antigo guarda-pó. Provavelmente, minha platéia de hoje nem sabe o que é. Fui rivalizar audiência com Silveira Lima no programa que criei: “Enquanto o tempo passa”. Foram momentos e glórias maravilhosas, gente de nível musical acima da média, onde posso destacar Armandino no violão, com desempenho de mestre a dedilhar cordas que faziam chorar.

A Renner SA ganhara destaque nacional em roupas masculinas quando já contávamos com seu patrocínio: “Informativo Renner” na Radio Hertz, negociação que entabulei compromissando-me a apresentá-lo várias vezes por dia. Uma longa história do rádio será contada a seguir e relativa à formação de redes das emissoras do interior. Entre elas, participei do grupo de Emissoras Coligadas, empresa que chegou a deter o domínio de 33 organismos espalhados por São Paulo, Minas e Paraná. Ulysses Newton Ferreira, baiano, chegado ao Rio na adolescência para trabalhar na portaria do Hotel dos Estrangeiros, cujo cunhado Arthur era o gerente. Era o hotel de maior expressão no Brasil por volta de 1865 e assim permaneceu na Praça José de Alencar, próximo ao Largo do Machado, local do assassinato à traição de importante político brasileiro, natural de Cruz Alta, RS, o senador Pinheiro Machado, em 8 de novembro de 1915. No saguão do hotel, foi apunhalado pelas costas, perda irreparável para o mundo político.

Aprovado em concurso do Banco do Brasil, Ulysses assumiu sua função de funcionário da agência de Jaú, SP. Inicia-se, assim, a vida de um grande empreendedor na radiodifusão brasileira. Uniu-se por casamento com Maria da Gloria Fagundes Ferreira, de tradicional família jauense. Já atuando na área com sua primeira emissora na cidade, continuou no Banco do Brasil, adquirindo novas transmissoras em Marília, Lins, Presidente Prudente e Franca, concluindo por chegar ao domínio de 33 emissoras, nas mais expressivas regiões do país.

Vivendo exclusivamente como profissional de microfone, não me ocorrera em algum momento pensar em administração. Meu tempo era aplicado no rádio, preencher espaços com criatividade nos programas de auditório, - ainda hoje copiados pela TV - dinamizar e avançar na informação jornalística do rádio, dando-lhe urgência e instantaneidade. O rádio traduzia as esperanças de meu sonho que não era pequeno por fortemente vivo em meu projeto de vida.

Foi quando Pedro Dermínio, francano e contador, foi destacado por Ulysses novo gerente da Radio Hertz. Acostumado na capital, nos escritórios centrais da empresa, não sentia qualquer prazer em retornar ao ninho antigo. Atraiu-me para que assumisse a função de gerente, indicando-me ao diretor Ulysses Newton Ferreira. Atendendo a chamado, fui por primeira vez a uma entrevista com o líder que se tornaria meu grande instrutor de negócios, meu amigo detentor dos títulos que pude conhecer em um homem sério, arrojado e progressista. Participei de seu projeto com amor e fidelidade. Era ele nossa vocação a construir crescente desenvolvimento e modernidade no rádio brasileiro. (continua)

-------------------------------------------------------------------------------------
*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. A Série Relembranças II será editada em capítulos semanais, às quintas-feiras - uma revisita do profissional de memória privilegiada, à história do Rádio Brasileiro, que se confunde com a sua própria história.
------------------------------------------------------------------------------------