segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


SERÁ QUE ESTAMOS SOZINHOS?


A Terra é o terceiro planeta do Sistema Solar, situado na Via Láctea, galáxia constituída por cerca de 400 bilhões de estrelas. Abrigo de milhões de espécies de seres vivos, que incluem os humanos, a Terra ainda é o único lugar no universo onde a existência de vida é conhecida. O planeta formou-se 4,54 bilhões de anos atrás e as primeiras evidências de vida surgiram um bilhão de anos depois. Desde então, a biosfera terrestre alterou significativamente a atmosfera do planeta, permitindo a proliferação de organismos aeróbicos, bem como a formação da camada de ozônio que, em conjunto com o campo magnético terrestre, absorve ondas do espectro eletromagnético, permitindo a vida, em todas as suas manifestações. As propriedades físicas do planeta, bem como sua história geológica e sua órbita, permitiram que a vida persistisse durante este período. Acredita-se que a Terra poderá suportar vida por outros 1,5 bilhão de anos. Após este período, o calor do Sol terá aumentado, tornando inviável qualquer forma de vida aqui.

Data de tempos imemoriais a curiosidade do homem acerca da existência de vida extraterrestre. Gravuras rupestres desenhadas nas cavernas habitadas por nossos antepassados já mostravam a indagação, pois grafitavam nas paredes estranhas figuras, diferentes da humana anatomia. Comenta-se à larga que obras gigantescas construídas por antigas civilizações egípcias, maias, aztecas e incas cujo engenho e execução não é explicável nem pela moderna engenharia, teriam a parceria de civilizações de outros horizontes que não a Terra. Porém, o que falta é comprovação.

Há farto material sobre o assunto, que é fascinante e, por isso mesmo, objeto de muitos livros, filme e séries. Erich Von Däniken foi um dos primeiros a explorar a questão em seu célebre Eram os Deuses astronautas? Quem não assistiu Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos do 3º Grau, ET - O Extraterrestre, Guerra nas Estrelas, Taken, o novíssimo Avatar e outras tantas produções que tematizam a existência de vida extraterrestre, a invasão da Terra, o contato com os estranhos e assustadores seres e seus maravilhosos artefatos voadores, conhecidos como OVNI’s!

É certo que a ciência se ocupa em estudar e rastrear a possível existência de vida fora da Terra, analisando sinais do espaço em busca de emissões de ondas sonoras feitas por seres inteligentes, mas tudo o que conseguiram captar até hoje foi estática. Porém, notícias recentes revelam que as chances de se descobrir vida fora da Terra são maiores do que nunca, anuncia Martin Rees, o principal astrônomo britânico e presidente da Royal Society, a academia de ciências da Grã-Bretanha, que está organizando.uma conferência com pesquisadores de várias partes do mundo para discutir as perspectivas de se encontrar formas de vida extraterrestres. Uma descoberta como essa poderia representar um momento de mudança para a humanidade, alterando nossa visão de nós mesmos e de nosso lugar no cosmos.

Para Rees, o avanço tecnológico torna maior do que nunca a possibilidade de que essa busca se mostre frutífera e, pela primeira vez, possamos ter a esperança realista de detectar planetas não maiores do que a Terra orbitando outras estrelas, saber se eles têm continentes e oceanos, descobrir que tipo de atmosfera possuem. Apesar de ser um longo passo para sermos capazes de descobrir qualquer forma de vida nesses planetas, é um avanço importante a obtenção de algum tipo de imagem comprobatória. O envio ao espaço de telescópios capazes de detectar planetas semelhantes à Terra no entorno de estrelas distantes agora torna possível concentrar mais os esforços de busca.

Se encontrarmos vida, mesmo a forma mais simples de vida, fora da Terra, essa seria, claramente, uma das maiores descobertas do século 21. E o astrônomo inglês conclui: “Desconfio que pode haver vida e inteligência lá fora em formas que não podemos imaginar. E poderia, claro, haver formas de inteligência aquém da capacidade humana, mais avançada do que somos avançados em relação a um chimpanzé.”

Pessoalmente, nunca tive qualquer tipo de experiência que comprovasse a existência de seres extraterrestres ou avistei seus pretensos artefatos voadores, mas ouvi, certa vez, o relato surpreendente de uma colega de colégio e, por tratar-se de pessoa séria e equilibrada, não tive motivos para duvidar. Contou-me ela que, uma noite, estava viajando numa camionete, com o seu primo e a esposa, de Santiago para Itaqui. Estrada deserta, noite escura. Em certo momento, olhou no retrovisor e percebeu que alguma coisa se movimentava atrás do veículo. Parecia um contêiner e não fazia qualquer ruído, tampouco era iluminado por luz. Avistava apenas os vagos contornos. Ficou paralisada de medo. Alguns minutos depois, foi capaz de falar e contou ao primo o que vira. Ele olhou e confirmou a sua impressão, bastante assustado. Movido pela sensatez, continuou normalmente o percurso, seguido pelo estranho artefato que, segundo ela, às vezes, desaparecia, voltando, em seguida. Não houve contato, nem ruído ou abordagem. Algum tempo depois, o objeto sumiu, evaporou-se...e eles chegaram ao seu destino, sem saber o que e quem os tinha seguido...

Pela lei das probabilidades acredito que possa haver vida inteligente fora dos limites da Terra. E vocês, já tiveram alguma experiência que os levasse a acreditarem que é possível?

Ou será que estamos condenados à solidão eterna nesse universo sem confins?
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e vivências estão no blog Interface Ativa! Acesse: http://niviaandres.blogspot.com/
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


RELIGIÃO, MORAL E NIILISMO


O título deste artigo é para despertar aos menos atentos à leitura constante dos grandes problemas da humanidade. Dirijo-me às pessoas em geral e, principalmente, as que frequentam os Centros Espíritas em todo o Brasil, em busca de alívio para seus males e conhecimento da Doutrina Espírita. Não raro deparamo-nos com pessoas mal preparadas discorrendo sobre determinados assuntos sem ter conhecimento para tal. Não que não haja boas intenções desses nossos irmãos, mas, devido a interpretações errôneas e um conhecimento limitado o “recado” é mal dado, ocasionando alguns danos nefastos de colheita dolorosa para quem os pratique. Seguindo esta linha, perguntamos: É o Espiritismo Religião ou Moral?

Antes de respondermos essa questão, vamos deixar que o Dicionário Aurélio responda por nós a definição de Religião: Substantivo feminino - 1. Crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo, e como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s). 2. A manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual próprios, que envolvem, em geral, preceitos éticos. 3. Restr. Virtude do homem que presta a Deus o culto que lhe é devido.

Deste ponto em diante pulamos para o item número 8: Qualquer filiação a um sistema específico ou crença que envolve uma posição filosófica, ética, metafísica, etc.

Quem pesquisar a história verificará que a Religião é quase tão antiga quanto o homem. É evidente que há todo um estudo sobre o assunto. E não é difícil pesquisá-lo, basta ir a uma biblioteca ou a um computador e conectar a Internet que ali encontrará respostas a todas as indagações sobre o tema. Na sua infância, a humanidade elegia fatos que julgava sobrenaturais, ou seja, o raio, a chuva, o fogo, a água, animais, etc. e fazia deles suas divindades. Mais tarde, começou construir totens representativos desses componentes da natureza e os adoravam fazendo, inclusive, sacrifícios para conseguirem graças. A História prossegue seu rumo. A civilização adianta-se e grandes religiões surgem na antiguidade. Os Hindus, os Egípcios, os Hebreus com sua religião monoteísta, ou seja, crença que só admite um deus.

Antes de Cristo, cerca de 560 anos, nasceu Buda, que deixou uma filosofia que perdura até os dias de hoje (e para quem não sabe, o budismo é reencarnacionista) e é praticado como Religião em todo o mundo, principalmente no Oriente. As religiões hinduístas também acreditam na vida após a morte. É evidente que estas religiões têm uma visão filosófica diferente umas das outras, mas contam-se às centenas as seitas na Índia, muitas delas com versões diversas do que seria a vida além-túmulo.

Os Gregos, os Romanos, com seus deuses em que se mistura toda uma mitologia, mas que levavam a sério suas crenças como Religião.

Entre o povo Hebreu, havia aqueles que acreditavam na reencarnação, mas de uma forma ou de outra todas as religiões mencionadas eram ou são espiritualistas, ou seja, acreditavam ou acreditam que, de certa forma, há a sobrevivência do espírito.

Com o nascimento de Jesus, e tudo o que se passou até sua morte, principalmente nos seus últimos três anos de vida (pregação, prisão e morte) vamos verificar que os conceitos de Moral começariam a mudar na humanidade. O Mestre pregava amor, tolerância, caridade, esperança, perdão, etc. Naquela época quando a guerras de conquista, a escravidão, o ódio, a intolerância, o olho por olho, a miséria, o preconceito era a constante dos povos e não se poderia tolerar que alguém falasse alguma coisa que quebrasse o “status quo” então existente no dia-a-dia.

Perguntamos então: teria Jesus uma Religião? Porque Jesus nasceu entre o povo judaico? As respostas são simples. José e Maria eram Judeus e como tal eram religiosos e obedeciam as leis judaicas ou mosaicas. Era o único povo que se conhecia monoteísta, que realmente acreditavam e acreditam em um só Deus. Jesus passou pelo ritual da circuncisão e frequentava o templo judaico religiosamente. Há até uma passagem (verdadeira ou não) que Jesus aos 12 anos discutiu longo tempo com os tais doutores da lei mosaica e se saiu muito bem, vindo desse episódio provavelmente os primeiros resquícios de ódio contra o homem que trazia um novo código de moral (A Lei do Amor). Não que os Judeus não tivessem um Código de Moral (O Torah) cujo um dos itens trata exatamente das “regras determinadas por Deus para um Santo viver”. Mas Jesus trazia em sua “bagagem” as leis divinas imutáveis que sempre existiram para a evolução da humanidade onde quer que ela esteja. E isso quer dizer para as pessoas não terem dúvidas se devem fazer dessa Moral uma Religião. As pessoas normalmente costumam falar que Jesus não deixou nenhuma Religião. A Religião já existia, ou seja, o culto a Divindade DEUS.

Voltamos a consultar o Aurélio: Moral - Substantivo feminino - 1. Filosofia; Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada. 2. Conclusão moral que se tira de uma obra, de um fato, etc.
3. O conjunto das nossas faculdades morais; brio, vergonha.
4. O que há de moralidade em qualquer coisa.
5. Relativo à moral
6. Que tem bons costumes
7. Relativo ao domínio espiritual (em oposição a físico ou material).

Pois bem, verificamos então que, Jesus ao divulgar as Leis de Deus para a evolução do homem-espírito o fez sabendo que a semente levaria algum tempo para germinar. Disse algum tempo, pois sabemos que 2000 anos para a eternidade não é nada. O Cristianismo nascente sofreu horrores durante quase quatro séculos. A Religião Cristã evoluiu, foi deturpada, vilipendiada, mas sua moral foi espalhada para todos os cantos da Terra. Os valores foram mudados e até hoje há os que lutam contra a máxima “Amar o próximo como a ti mesmo” e ainda “Amar os próprios inimigos”.

Para dominar populações, mentes doentias criaram doutrinas e fizeram intensa propaganda. Para fazerem lavagens cerebrais criaram até slogans como “Religião é o ópio do povo”.

Em contrapartida, cumpriu-se o que Jesus prometera; a vinda do Espírito de Verdade e, em consequência, a Codificação do Espiritismo com o lançamento do Livro dos Espíritos, em 1857. Divulgam-se então, em toda a sua pujança e clareza, as Leis Divinas para a evolução do homem. Doutrina que se contrapõe ao materialismo e ganância do homem. Essas Leis, que poucos entenderam quando Jesus as divulgou devido ao estágio evolutivo da humanidade de então, estavam agora claras e objetivas.

NIILISMO

Desta vez vamos consultar a Wikipédia, a enciclopédia mais completa do mundo e que só pode ser acessada pela Internet: O niilismo (ou nihilismo), do latim “o nada”, é uma corrente filosófica que, a princípio, concebe a existência humana como desprovida de qualquer sentido, tendo sido popularizada primeiramente na Rússia do século XIX, como reação de alguns intelectuais russos, mormente socialistas e anarquistas à lentidão dos czares em promover as desejadas reformas democráticas.

A origem do niilismo vem de longe, mas vamos nos ater a Friedrich Nietzsche que se opunha frontalmente às religiões e principalmente ao cristianismo entre outras, como o budismo e autores Socráticos. Nietzsche nega que a vida deva ser regida por qualquer tipo de padrão moral tendo em vista um mundo superior, pois isso faz com que o homem minta para si próprio, se falsifique, enquanto vive a vida fixada numa mentira. Assim no niilismo não se promove a criação de qualquer tipo de valores, já que ela é considerada uma atitude negativa.

O assunto é extenso e quem se interessar por ele, é só buscar as fontes abundantes nas enciclopédias, internet e os livros do filósofo mencionado.

Para terminar, vamos transcrever aqui, o último parágrafo do Prefácio assinado por Emmanuel no livro Religião dos Espíritos, psicografado por Francisco Cândido Xavier. A Edição é de 1960 – FEB.

“... E aguardando por essas contribuições, na sementeira da fé viva, cremos poder afirmar, com o título deste volume, que o primeiro livro da Codificação Kardequiana é manancial tão rico de valores morais para o caminho humano que bem pode ser considerado não apenas como revelação da Esfera Superior, mas igualmente como primeiro marco da RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS, em bases de sabedoria e amor, a refletir o Evangelho, sob a inspiração de Nosso Senhor Jesus-Cristo.”
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, escrevendo crônicas, contos, artigos e matérias especiais. Contato com o jornalista pelo e-mail: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010



FLAGRANTES DA VIDA (II)


Chegando ao Rio, início de 1950, depois de ter passado por São Paulo e atuado nas rádios Cruzeiro do Sul - já sucedida por Piratininga no Largo do Patriarca - Bandeirantes e Cultura, andei quebrando pedras para conseguir o primeiro emprego na Rádio Relógio Federal. Minha carteira profissional no Rio carrega até hoje a glória de ter a assinatura de um dos mais importantes locutores do país: Cesar Ladeira. Ele havia sido da Rádio Mayrink Veiga e lia, na Rádio Nacional do Rio, às 13h, a “Crônica da Cidade” de Genolino Amado. Casou-se ele com a atriz Renata Fronzi, expoente do teatro de comédia e rádio-atriz de destaque.

Na história do rádio brasileiro, há que registrar-se a Rádio Nacional em certo momento, dando microfonia no Brasil com seus programas. A programação de auditório animada por Manuel Barcelos, às quintas-feiras, Cezar de Alencar no sábado, Renato Murce e Paulo Gracindo em apresentações especiais, descobriam astros e estrelas como Agnaldo Rayol, Nora Ney, Jorge Goulart, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dolores Duran, Francisco Carlos, Maysa, Anísio Silva, Dóris Monteiro, Lúcio Alves, Camélia Alves e Luiz Gonzaga que chegavam para juntarem-se aos já consagrados Vicente Celestino, Elizete Cardoso, Silvio Caldas, Marlene, Orlando Silva, Emilinha Borba, Nelson Gonçalves, Araci de Almeida, Ciro Monteiro, Ademilde Fonseca, Francisco Alves, irmãs Batista que o Rio Grande mandou - Linda e Dircinha - Izaurinha Garcia, Trio de Ouro, Gilberto Alves, Dalva de Oliveira, Ivon Cury, Heleninha Costa, Gilberto Milfont e Carlos Galhardo.

O Brasil ficava em silêncio quando os clarins anunciavam a potente e límpida voz do gaúcho Herón Domingues na apresentação do Repórter Esso.

No domingo, às 12h, uma voz era ouvida em todo o país: “quando os ponteiros do relógio se encontram no meio do dia, o Brasil se encontra com o Rei da Voz, Francisco Alves”. Sua morte em acidente ocorreu na via Dutra, altura de Pindamonhangaba, num sábado, 27 de setembro de 1952. O Rio de Janeiro ficou de luto e o Brasil chorou, em convulsão. Eu estava lá.

Os lares brasileiros viviam grandes emoções todas as noites com a radionovela “O direito de nascer”, em que o par romântico, artistas Nélio Pinheiro e Ísis de Oliveira arrancava suspiros dos ouvintes ainda não conhecedores do processo televisivo. Durante o forte sucesso que viveram seus intérpretes, viajamos todo o Brasil, Ísis, Nélio, o violonista Cezar Moreno e eu, fazendo apresentação de espetáculos, em finais de semana.

No Rio, o primeiro concurso de que participei para locutor foi na Rádio Clube do Brasil, depois Radio Mundial, atual Globo que, adquirida por Alziro Zarur, fundador da Legião da Boa Vontade, transformou-se em emissora da LBV. Fui reprovado. Havia naquela época a expressão: “sua fala é muito paulista” e a minha estava assim qualificada. Era membro da banca julgadora uma explosão de voz bonita dos microfones nacionais, locutor dos mais conceituados, mais tarde conhecido e famoso como apresentador de show e Rei das Mulatas, - lindas - de quem me tornei amigo: Oswaldo Sargentelli. Meu trajeto incluiu trabalhar com Chico Anísio na Radio Mayrink Veiga, ele então somente redator de humorismo para um programa de auditório do Trio de Osso: Lamartine Babo, Yara Salles e Heber de Bôscoli. Já naquele momento, Chico muito jovem, tinha nível intelectual e inteligência invejáveis indicando seu sucesso que haveria de chegar à estrutura do rádio brasileiro. A Mayrink pertencia ao empresário Antenor Mayrink Veiga, responsável por inúmeros sucessos desde 1926. Passou, posteriormente, ao domínio de Leonel Brizola, polêmico político que ali, ao microfone, concitou a atenção brasileira propondo o movimento de criação do Grupo dos 11. Embora se atribuísse ao deputado Miguel Leuzzi, diretor da Rede Piratininga de Rádio; a propriedade verdadeira da emissora, comentava-se: era Brizola o dono. A legislação e segurança nacional, sempre, na área da radiodifusão, determinaram posturas irretorquíveis.

Os personagens aqui citados, em sua quase totalidade, me deram a honra de relação bastante estreita. Se me permitem, farei referência a um deles: Anísio Silva me impôs ouvi-lo longas noites no Largo do Machado, em frente ao Restaurante Café Lamas, sentados na mureta do lago ali existente, sempre acompanhado do ritmo de sua caixa de fósforos. Eram suas canções que venderam depois, mais de dez milhões de exemplares. “Alguém me disse”, toquei-a em meu programa na emissora Continental pela primeira vez - inédita - muito mal gravada em acetato, de um arremedo de estúdio do edifício Dark, próximo ao Largo da Carioca... (continua)
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José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004) e Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007). Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. A série Relembranças será editada em cinco capítulos semanais, às quintas-feiras, em que o profissional revisita, com sua memória privilegiada, flagrantes da vida que fazem parte da história de nosso país.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

REFLEXÕES
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DE UM REGENTE OUTONAL

Solicitado a escrever sobre o fascinante e, ao mesmo tempo, árduo ofício de educador que tem a missão de informar e formar pequeninos cidadãos, preparando-os para a vida, inicio minhas reflexões a partir das competências que me levaram ao Magistério.

Comecei minha vida profissional como escriturário, em 1971. Em 1976 ingressei no funcionalismo público estadual, exercendo funções administrativas até o início de 1992, quando ingressei no Quadro do Magistério Estadual, ocupando do cargo de Professor I.

Na verdade, meu ingresso no Magistério não foi premeditado, porque no ano de 1990, o Governo de São Paulo promoveu um Concurso Público para o provimento de cargos vagos de Professor I. Prestei esse concurso, inicialmente, não com o intuito de tornar-me um regente, mas sim para verificar meus conhecimentos pedagógicos, ainda palpitantes, porque terminara a graduação de Pedagogia, na Faculdade Don Domênico, em Guarujá. Fiz este curso com vistas a atuar na área de Recursos Humanos, no IPESP, onde então ocupava o cargo de chefe de seção dos Recursos Humanos.

Fiquei surpreso com minha aprovação, tendo em vista a grande concorrência e minha falta de experiência docente. Isto posto, ingressei no Quadro do Magistério no ano de 1992 (em Guarujá, mais precisamente na Praia do Perequê...) muito apreensivo com minha inexperiência na área, além de já contar com quase 39 anos de idade. Mas minha inquietação se dissipou um pouco depois de ser investido no rol de atribuições atinentes à função de regente!... É evidente que o primeiro ano não foi fácil, além do fato da minha regência estar única e exclusivamente alicerçada nos livros didáticos.

No ano de 1993 fui efetivado no cargo de regente, na cidade de Diadema (Por Dionísio, já perdi a conta dos anos que subi e desci a serra diariamente, por conta dos meus ofícios!!!...). Nesta fase comecei a fazer cursos ministrados pela Diretoria de Ensino de Diadema e não parei mais!!!...

Em 2004 obtive o título de Mestre em Educação, pela Universidade São Marcos. Este título tornou-me hábil a lecionar no Ensino Superior, mas por opção, continuo atuando nas séries iniciais do Ensino Fundamental, porque é um deleite inefável mediar e facilitar o adentramento dos pequeninos no fascinante e interminável mundo do conhecimento!

Até o ano findo lecionei para turmas de faixa etária entre 9 e 10 anos. No ano em curso terei uma turma de 8 anos. Novos desafios me aguardam!!!... É inefável a sensação que dá quando percebo aqueles olhinhos primaveris brilharem quando vibram ao descobrirem algo que não sabiam ou então quando dizem: - Ah!!!!... Agora entendi!!!!...

Minha regência é alicerçada num foco interdisciplinar, isto é, abordo os conteúdos curriculares de várias disciplinas. Por exemplo, semanalmente tenho a rotina de trabalho com jornal (Alício Capel, proprietário do periódico “Diário Regional”, gentilmente reserva exemplares de uma edição recolhida das bancas suficientes para que cada aluno tenha o seu exemplar). Após o manuseio do jornal, escolho uma notícia, fotografia, charge, anúncio... e as exploro de modo a trabalhar os conteúdos das disciplinas. São muitas as possibilidades no trabalho interdisciplinar, porque não preciso necessariamente utilizar um livro didático para criar situações-problema a partir de um fato do cotidiano ou então enfatizar zona rural ou urbana, através de um texto ou fotografia que trata dos problemas de enchente. O grande desafio nesta abordagem interdisciplinar é que nem sempre é possível planejar previamente todos os conteúdos que poderão surgir do trabalho com o jornal.

Também tenho como premissa na minha regência tornar meus pupilos leitores vorazes, a exemplo do personagem do inesquecível conto “A paixão de Bastian”, em que o personagem, Bastian Baltazar Bux, um leitor apaixonado, finalmente encontra a história perfeita, com a qual havia sonhado muitas vezes: - aquela que nunca acaba, que não tem fim!:

No início de cada ano letivo, a princípio, os pais e os pequeninos estranham, primeiramente, o fato “insólito” de um professor lecionar para crianças e, depois, com minha metodologia de ensino, que utiliza somente um caderno para o apontamento das atividades desenvolvidas, deixando em segundo plano os livros didáticos, mas com o passar das semanas, os pais já notam que seus filhos estão mais “especulas” e querendo saber até quem eram os tataravós dos seus tataravós, bem como não pegam mais produtos das prateleiras dos supermercados sem verificar as datas de validade, além de gostarem mais de ler e ficarem deixando os pais atarantados para levá-los em museus, teatro e cinema!!!...

Quando este auspicioso fato ocorre, me dou conta que as sementes que lancei encontraram terreno fértil!

Claro que nem tudo é um “mar de rosas”, porque lido com uma clientela onde uma parcela significativa é oriunda de lares onde as competências leitora e escritora não fazem parte do cotidiano familiar, além de trabalhar numa estrutura de ensino que não oferece condições de colocar em prática o conceito de “cidade educadora” porque, neste viés, os espaços públicos tornam-se uma grande escola; entretanto, não esmoreço, pois de nada adiantarão também minhas lamentações sobre os parcos proventos recebidos ou então como é extenuante trabalhar os três períodos...

O que interessa dizer, ainda, se preciso for, é que aprecio o que faço. Ensino com amor!!!
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*João Paulo de Oliveira pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Tem 56 anos, além de Pedagogo é Mestre em Educação. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborador deste blog, João Paulo escreve, mais uma vez, um artigo neste espaço.
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domingo, 31 de janeiro de 2010


AONDE ANDAS, NOÉ?



Os últimos e trágicos acontecimentos envolvendo o meio ambiente e diretamente a humanidade como chuvas, nevascas e incêndios, tem locupletado o noticiário mundial. Nunca, em nenhuma época, o Brasil foi vítima de catástrofes naturais em escala cotidiana como nos últimos dois anos. Os entendidos, e os nem tanto, lançam suposições e palpites sobre as causas do chuvaréu que submerge as regiões Sul e Sudeste do país provocando deslizamentos de terra, enchentes, destruição e, principalmente, mortes.
As inundações que assolam o estado de Santa Catarina, a partir de 2008, e os recentes acontecimentos congêneres no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo, antes nunca vistos, certamente indicam que "este país" já não está imune aos espasmos da natureza, muito pelo contrário.

As tragédias nesse sentido ceifam milhares de vidas (humanas, animais e vegetais), destroem propriedades, matam no sertão, na floresta e na cidade, democraticamente, sem distinguir ricos, pobres ou miseráveis.

A chuva, no Brasil, a neve na Europa e na Ásia e as queimadas na Oceania indicam que a Natureza está reivindicando o espaço que lhe foi indevidamente surrupiado pelo Homem e, para tanto, não mede o custo e a intensidade dessa cobrança.

Há poucos dias, o jornalista Juliano Morgado abordou aqui neste mesmo espaço o problema gerado pelos chamados farofeiros, que invadem as praias, infernizam a vida do morador litorâneo e deixam no rastro toneladas de lixo. Os comentários que se seguiram, no blog, demonstram a indignação dos amigos que prestigiam este espaço.

No entanto, os estragos cometidos pelos praianos de última hora são apenas grãos de areia no universo das lambanças que o ser humano impinge à Natureza nos quatro cantos do planeta.

Considerando que o mundo abriga atualmente cerca de 6,5 bilhões de seres humanos, sendo 1,3 bilhão somente na China, o desequilíbrio entre pessoas, animais, vegetais e a natureza é perfeitamente previsível e inevitável. Provavelmente o espaço está pequeno para tanta gente. Mas, ainda há solução.

Os estragos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e as enchentes no Vale do Paraíba, em Atibaia, na Capital paulista e em toda Grande São Paulo, podem ser simples recados do que há por vir. Enquanto os danos ficam restritos à extinção das matas, dos animais e dos peixes, o homem está pouco se lixando, até porque ele conta com a conivência e ouvidos de mercador de algumas autoridades que fazem vistas grossas para construções irregulares de casas, casebres, mansões, hotéis, motéis e clubes de recreação e lazer em áreas aprazíveis, porém de alto risco. As tragédias, anunciadas, somente são notadas quando a água, literalmente, bate no traseiro ou no umbigo do ser humano que, mesmo assim, só lamenta caso ele ou um familiar participem da relação dos mutilados.

Estivesse por aqui, Noé certamente não encontraria meios nem motivação para construir imensa arca e tentar salvar algumas espécies, pois teria que enfrentar a burocracia e destinar propina a alguns fiscais, mesmo com sua intenção cristã de preservar espécies, como já fizera lá, atrás. De mãos atadas o bom homem não teria como poupar a humanidade do Apocalipse que se avizinha.

Caso alguém saiba da existência de um Noé, que faça a ele um apelo para que fique de plantão. Com boa dose de fé, sorte e perseverança, mesmo acreditando que essa espécie está em extinção, quem sabe ainda exista um perdido na mata ou na selva deste mundão. Tudo é possível...

Enquanto escrevo estas linhas, a escuridão em plena tarde, as nuvens carregadas, a ventania, os raios e trovões que rondam o ABC indicam que a tempestade está nas imediações e que logo chegará por aqui, certamente provocando novas tragédias na Grande São Paulo. Aonde andas, Noé ?
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Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


FLAGRANTES DA VIDA (I)


Pesquisando no arquivo de minhas Memórias, localizei fatos que ainda o tempo não conseguiu deletar. Senti-me afortunado com o rememorar pessoas, amizades, mulheres, amores, mágoas que não chegaram a molhar de lágrimas meu caminho. Se fortes, as perdoei; se brandas, deixei de considerá-las a fim de não se tornarem obstáculo à minha jornada.

Rio de Janeiro, Avenida Rio Branco - antiga Avenida Central, na Cinelândia - Palácio Monroe de saudosa memória, personagem de triste relato e negro crime a lamentar. O fato de citar o Palácio Monroe me permite uma digressão em virtude de nossa tão vergastada história.

A construção do Palácio Monroe ocorreu nos EUA, em 1904, projeto do engenheiro militar brasileiro, coronel Francisco Marcelino de Souza Aguiar, para representar o Brasil na exposição Internacional de Saint Louis. Na premiação de arquitetura ganhou medalha de ouro - primeiro prêmio - daquela exposição. Em sua inauguração, Souza Aguiar recebeu a visita de Theodore Roosevelt, presidente americano.

A armação e estrutura de aço do palácio permitiu sua transferência para o Rio de Janeiro, em 1906. Na 3ª Conferência Pan-Americana, o Barão do Rio Branco com apoio vibrante de todos, propôs a mudança de seu nome, homenageando o criador do Pan-Americanismo: Palácio Monroe. Em seguida, tornou-se sede de múltiplos eventos, congressos, comissões e exposições até 1914, quando o Palácio Monroe acolheu a Câmara dos Deputados.

O ano de 1920 marcou recepção com homenagem à visita do Rei da Bélgica, Alberto I. Em 1925 o Monroe passou a ser a sede, por 35 anos, do Senado Federal, até 1960, ao mudar-se para a nova capital, Brasília. Daí em diante foi hóspede do Estado Maior das Forças Armadas até chegar 1974. Neste momento, cuidou-se de urdir sua criminosa demolição em nome do progresso: o metrô carioca.

Das correntes que analisam o nefando crime contra a história do Palácio Monroe, em prejuízo da memória brasileira, uma aponta por mais incrível que possa parecer o laureado profissional Lúcio Costa (F), ainda Roberto Marinho e o Presidente Ernesto Geisel que assinou a autorização para o desmonte, em 1976.

A desculpa ou acusação foram as obras do metrô porém, segundo afirmações de Jorge Rubies, presidente da Associação Preserva São Paulo, não procede, visto o que o projeto do metropolitano naquele local ter previsto uma curva que até hoje prevalece no trajeto.

Voltemos à vaca fria. Minha relembrança estava exatamente em frente ao Palácio Monroe de tanta saudade, no início dos anos 50. O Senado e senadores não eram a excrescência do atual, corruptivo. Eram lindas as mulheres que ganhavam a vida dançando no Salão Avenida Danças, chamados taxgirls, daqueles de picar cartão e pagar por minutos dançados.

Ângela Maria, voz maravilhosa, ali se iniciou cantando, depois sucesso internacional, minha amiga por tantos anos de quem acompanhei frustrados amores. O Salão Avenida funcionava em um subterrâneo e,mais acima, no mesmo prédio, ficava a Executiva Nacional do PTB. Ali conheci e fiz amizade com um grupo macanudo de gaúchos: gauchada boa. Perí Coutinho, Perí Azambuja e João Goulart, entre outros.

Goulart, de presidente da Executiva Nacional do partido, foi guindado a Ministro do Trabalho e nós o acompanhamos para enfrentar de início, a greve dos marítimos, que era prenúncio do que viria mais tarde... (continua)

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Garcia Netto é jornalista, radialista e escritor francano.  Autor do livro "Filhos Deste Solo" - Medicina & Sacerdócio". A série Relembranças será editada em cinco capítulos semanais, em que o profissional revisita, em sua memória privilegiada, flagrantes da vida que fazem parte da história de nosso país.
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

ARMAZÉM DE AROMAS



Observa o velho homem ali deitado. Fisionomia tranqüila, embora abatida. Está magro, pálido, quase sem cor. Poucos cabelos brancos cobrem-lhe a cabeça, mas reconhece o rosto carinhoso dos bons tempos em que espalhava alegria. Dobra-se sobre ele e respira fundo para constatar se ainda exala aquele perfume tão característico da infância. Não. Não. Não. Agora, o cheiro é frio. Apenas lágrimas, flores e ausência. Não usa mais aquela blusa de lã tão impregnada dele. Está elegante de paletó e gravata, embora sem sapatos. Imagina que anjos flutuam, não precisam de nada nos pés, por isso ele calça somente meias. Fecha os olhos ardidos e ele ressurge, com os cabelos ainda pretos e poucas rugas. Está levantando novamente a antiga porta corrediça de aço. Gesto simples, mas que abre um horizonte mágico. O chão quadriculado de preto e branco, as prateleiras rústicas de madeira rigorosamente arrumadas, cheias de alimentos dispostos de maneira ordenada. Festival de cores, aromas, texturas e sabores que extasia as crianças. O armazém de secos e molhados guarda tesouros mais valiosos que qualquer pirata. Inspira e sente novamente a bruma de produtos diversificados, freguesas que apalpam o queijo faixa azul, feirantes suarentos em busca de mercadorias, dinheiro... Corre até o fundo do empório. Debruça-se sobre os imensos tonéis de madeira, que escondem em água salgada deliciosos petiscos. Azeitonas verdes, pretas, grandes, pequenas, chilenas, portuguesas. Com a grande escumadeira, retira um punhado e começa a devorá-las ali mesmo, ainda na ponta dos pés, sentindo cócegas no nariz pelo excesso de sal. Receia levar bronca se acidentalmente derrubar os caroços dentro de algum barril. E, pior, ser proibida de desfrutar novamente daquele festim. O armazém é um banquete para todos os sentidos. A boca se enche de saliva quando os olhos encontram gelatina colorida, doce de leite, rapadura, maria-mole... Sabores perfumados típicos do interior. Doces simples, com gosto de saudade. Os pelinhos das narinas fazem festa ao respirar aquele ar encantado. As mãos ficam molhadas e lambuzadas. E os ouvidos se alegram ao escutar o plec-plec-trim da máquina registradora. O auge da felicidade é ter permissão para operar o caixa. Apertar os botões, abrir as gavetas, contar notas e moedas. No fim do dia, sorri ao sentir no corpo a fragrância marcante de todos os negócios fechados ao longo do dia, dos queijos, das guloseimas, das brincadeiras, das explorações nos quatro cantos daquele estabelecimento. Uma vez por semana, repete o mesmo ritual: estaciona a antiga kombi azul em frente ao portão da casa cheia de jardins e de sóis. Toca a campainha e entra com passos impacientes, carregando uma sacola branca. Nela, queijos e manteiga fresca, que compra diretamente do produtor em Minas Gerais e entrega pessoalmente aos filhos e netos. Vai embora com a mesma pressa. Outra festa começa: espetar um pedaço de queijo no garfo para derretê-lo na chama do fogão. A cozinha fica impregnada daquela fumaça de felicidade interiorana, que abraça a família toda. Todos o cercam em retribuição ao amor daquele homem simples, nascido em cidade de nome tão apropriado para sua figura – Santo Antonio da Alegria. É o guardião da família, o centro de todas as reuniões e encontros, a força que move todos. Nas férias, o sítio que cultiva no interior é outro espetáculo para olhos, bocas, mãos e narizes, especialmente os infantis, tão ávidos por novas descobertas. O cheiro urbano do armazém se transporta para o mato, transforma-se em aventuras olfativas. Naquela casa rural, mostra outras habilidades, espalha novos aromas com as mãos habilidosas na cozinha. Prepara pão de queijo, assa pernil, frita mandioca, enrola pamonha, estoura pipoca. Adora observá-lo no fundo do quintal, sentado calmamente, debulhando os milhos plantados ali mesmo. No começo, pensa que a palha é um bicho muito feio. Mas ao ver o carinho com que separa as espigas, percebe que é coisa da natureza. Certa vez, nas travessuras com os primos, quase destrói o milharal com uma bombinha de São João. O artefato solta faíscas que, em questão de segundos, se transformam em labaredas. A tragédia é evitada pelos parentes, que apagam o fogo com a água do lago, o mesmo onde ainda percebe o forte odor das brincadeiras, dos mergulhos e do barco a remo, quase sempre rebocado pelo cachorro, para alegria geral. Os peixes – cascudos, bagres, traíras – saltitam felizes, dançando a pororoca com a criançada. Com os olhos ainda ardidos e o nariz entupido pelas lágrimas, percebe que é um bálsamo para a alma lembrar daquele aroma de tantos momentos bons da infância. Brincar com o bravo cão pastor, rodar a manivela da máquina de moer cana e beber garapa fresquinha, colher abacates no pomar, montar cabana de lençóis na cama beliche e criar um mundo à parte, balançar forte na rede, ter medo dos morcegos e dos fantasmas na porteira, ouvir os grilos da madrugada, correr atrás das galinhas e fazer greve de fome quando alguma aparece na panela, despertar com o perfume de café fresco passado em coador de pano, adormecer quentinha pelos cobertores de amor. Sacode a cabeça, como se pudesse espantar aquela triste imagem de sua frente. Não. Não é mais uma menina. E ele continua ali deitado, braços cruzados sobre o peito, terço enrolado nas mãos. Não. Não pode ir embora assim, sem pelo menos guardar numa caixa florida aquela blusa de lã com a qual a cobria quando sentia frio, tão repleta dos aromas alegres de quando era criança. Um armazém de cheiros das peripécias do sítio, das bonecas, dos abraços tímidos, da kombi barulhenta, dos queijos e azeitonas e guloseimas. Esticado no caixão, o avô leva embora sua infância. Resta apenas o perfume da ausência e da enorme saudade coalhada pelo tempo.
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Lara Pezzolo Fidelis é jornalista e escritora. Armazém de Aromas venceu o Mapa Cultural Paulista – Expressão Literatura, na categoria crônica, em 2008. O projeto está vinculado à secretaria de estado da Cultura e visa incentivar e identificar as diversas expressões culturais por todo o Estado de São Paulo. Na categoria crônica, a jornalista Lara Pezzolo Fidelis venceu com o texto Armazém de Aromas, que remete a seus tempos de criança. "É um texto memorialista da minha infância. Fala dos aromas que me lembro do armazém de meu avô", explica a moradora de Santo André, cidade que representou no concurso. Entre outras atividades profissionais, Lara mantém um blog na internet, o Lagarta de Fogo:
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DIVULGAÇÃO DE RESULTADOS

Bom dia, amigos e amigas do blog!

Com muita satisfação, vamos enviar os dois exemplares do livro O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, para os amigos

Dalva Regina, de Santo André, São Paulo e
Olavo Cortes Marques, de Londrina, Paraná.

Solicitamos que entrem em contato pelo e-mail niviaandres@gmail.com, enviando seus endereços completos, para que possamos fazer chegar até vocês o nosso presente.

Agradecemos a participação de todos e vamos continuar sugerindo obras literárias aqui neste espaço, com o objetivo de incentivar o saudável hábito da leitura - uma janela aberta para o mundo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA



Muito jovem, o telegrafista, violinista e poeta Gabriel Elígio García se apaixonou por Luiza Márquez, mas o romance enfrentou a oposição do pai da moça, coronel Nicolas, que tentou impedir o casamento enviando a filha ao interior, numa viagem de um ano. Para manter seu amor, Gabriel e seus amigos telegrafistas montaram uma rede de comunicação que alcançava Luiza onde ela estivesse. Essa é a história real vivida pelos pais de Gabriel García Márquez e foi ponto de partida de O amor nos tempos do cólera, que conta a paixão do telegrafista, violinista e poeta Florentino Ariza por Fermina Daza.

Há 25 anos, em 1985, época de seu lançamento, editado pela Record, parecia inacreditável, mas era verdade - a história de um amor improvável e impossível entre um homem e uma mulher liderava a lista dos livros de ficção mais vendidos no Brasil. E não se tratava de relação transcendental ou comédia romântica água-com-açúcar, e sim de uma narrativa encantadora, densa, carregada de paixão, ressentimento, mágoa, dor, ciúme e, essencialmente, de esperança, escrita pelo colombiano Gabriel García Márquez.

É nesta obra-prima que se desenha um dos mais espetaculares triângulos amorosos da literatura contemporânea – após um namorico com Florentino Ariza, a forte e sensível Fermina Daza se casa e vive muitos anos com o belo, mas frágil médico, Juvenal Urbino, personalidade respeitada da sociedade local, o bom partido que todas as mães desejam para suas filhas. Florentino, o inconstante, sobrou...Poeta fracassado, homem magro e mal-alimentado, apaixonado, músico, dionisíaco do Canal do Panamá à Terra do Fogo, transbordando de latinidade, vai passar a vida esperando, esperando, esperando...

Graças a esse triângulo desigual, O amor nos tempos do cólera é a parábola perfeita do caminho não trilhado, daquele amor - muitas vezes o primeiro - que não deu certo, mas que sobrevive e se alimenta por meio da esperança de um por-vir incerto, mas intensamente desejado.

Após o casamento de Fermina, por 50 anos, Florentino dedica-se a ser um homem digno do seu amor, trabalha, progride e chega a gerente de uma Companhia Fluvial do Caribe, um cargo muito importante na cidade, mas a sua vida reduz-se a ver de longe as mudanças que a vida produziu em Fermina Daza. Ele troca a sua paixão por relações fogosas e instáveis e a expressar o seu amor febril por meio de cartas que escreve a outras por obrigação. Só um pensamento o alenta e é a certeza de que Juvenal Urbino morrerá um dia e antes dele.

Afinal, o tão esperado dia chega e Juvenal Urbino morre. Para Florentino Ariza abre-se, enfim, a porta de uma possibilidade - transformado num homem culto, agradável e com brios renovados, retoma o seu amor devoto com cartas ainda mais fervorosas que as da sua juventude e que pretendem chegar ao duro e inflexível coração de Fermina. Uma história belíssima que retrata a perseverança tenaz de um amor que se prolonga até a morte, cheio de esperança. Dono de uma narrativa magistral e envolvente, Gabriel García Márquez nos leva numa viagem mágica à Cartagena do princípio do séc. XX e nos mostra do esplendor à decadência, da juventude à velhice e da nostalgia à realidade, num furor explosivo e pungente, desenhando um interessante percurso pelos recantos da cidade e na alma dos seus habitantes, revelados a partir de seu realismo cruel e poético.

O amor nos tempos do cólera narra, magistralmente, a história de Florentino e Fermina e o seu final até certo ponto insólito para os padrões estéticos de uma sociedade corroída, é inesquecível, por superar todas as barreiras e limites impostos pela hipocrisia e pelo preconceito vigentes. Basta dizer que a espera durou exatos 53 anos, sete meses e 11 dias!

Um incrível e irresistível romance que trata do amor, da velhice e da morte. O sentimento que persiste em todas as fases da vida, que mesmo que esteja destinado à morte, se mantém aceso enquanto a energia vital persistir. Com seu maravilhoso talento e seu estilo próprio de narração que insere o leitor num emaranhado de histórias sem nenhum tipo de sistematização, Gabriel García Márquez fala sobre um amor que desabrocha quando mais nada se espera da vida e, por isso mesmo, é tão intenso.

Esta obra de notável relevância que foi escrita após García Márquez receber o Prêmio Nobel de Literatura, foi levada para o cinema pelo diretor Mike Newel, com Javier Bardem interpretando Florentino; Giovanna Mezzogiorno como Fermina; Benjamin Bratt como Juvenal e a nossa Fernanda Montenegro como Trânsito Ariza, a mãe de Florentino.

Leia o livro, assista ao filme. Eu recomendo.
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010


TODOS OS CLONES DO PRESIDENTE

Certa vez vi uma foto do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, cercado de sósias, todos fardados, boina preta inclinada na cabeça e bigode, como ele. O terrorista, ou benfeitor da humanidade, depende só do ponto de vista de cada um, que tentasse matá-lo, ficaria atônito, sem saber quem era o verdadeiro Saddam Hussein. Aliás, ninguém garante que tenham enforcado o verdadeiro, pode ter sido um daqueles.

Mesmo detestando a figura, confesso que achei muito divertido e original esse esquema de segurança, que poderia ser adotado por outros ditadores ou mesmo presidentes democraticamente eleitos. Imaginem, por exemplo, o Lula cercado de lulas. Se um Lula falando bobagens já é material para o regozijo de qualquer humorista, imaginem então vários deles. A tática poderia ser adotada também por outros personagens, como o Arruda, do Distrito Federal, como também por deputados e senadores acusados de trambiques, envolvimento em mensalões e outros quetais. Os repórteres chegariam para entrevistar um desses pilantras e ouviriam: “Calma, meu filho, eu sou apenas clone! O verdadeiro Arruda é outro, mas não posso indicar por medida de segurança”.

Políticos clonados às centenas. Seria uma maravilha! Na campanha eleitoral poderiam se dividir, o mesmo candidato estaria ao mesmo tempo em muitos lugares, prometendo as mentiras de sempre e garantindo votos. Enquanto o verdadeiro candidato ficaria em sua mansão, coordenando tudo pelo celular e contando a grana que naquele dia carregou nas cuecas e meias. No fim da campanha se reuniria para comemorar numa pizzaria com sua equipe de clones, com direito a panetone na sobremesa.

No caso do Lula, teria que comprar um segundo avião só para carregar os diversos lulas. Seriam divididos entre as aeronaves, de modo que ninguém jamais saberia em qual delas estava o verdadeiro presidente. Quando cansado dos rapapés oficiais, poderia chamar seu melhor clone e instruir, com aquela voz rouca: “Companheiro, tô de saco cheio, hoje só quero tomar uma lisinha e dormir, vai lá e aguenta o Chaves”.

O Sarney não precisaria explicar as nomeações dos seus clones. Bastaria instruir para que não dessem bandeira em grupo, ninguém notaria. E todos teriam que carregar aquela expressão de eterno indignado, para dissimular sempre.

Outra vantagem dos clones é que haveria muito mais cuecas e meias disponíveis para carregar as doações das empreiteiras. Poderiam até pleitear um reajuste, considerando os novos custos de manutenção do pessoal. Só em ternos e gravatas estariam gastando uma fortuna, sem contar cabeleireiro e manicure.

Fica aí a sugestão para os encarregados da segurança das nossas queridas autoridades. E se alguém ler por aí alguma crônica parecida com esta, tenha certeza: é clone. A original é esta!
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*Milton Saldanha, 64 anos, é jornalista e dono de notável memória, que adora manter sempre viva.
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