quinta-feira, 7 de maio de 2009

CAREQUINHA, O TERROR DO ABC PAULISTA

Edward de Souza
*
Um capeta em forma de gurí

No final dos anos 70, a Vila Luzita, em Santo André, Região do ABC Paulista, estava em pleno crescimento. Muitos terrenos baldios espalhados, mas também existiam casas bem construídas, árvores que durante a primavera se coloriam de frutas e algumas ruas sujas e sem asfalto manchavam o nome do bairro de classe média e envergonhavam seus moradores "Alguém devia remover esse monte de ladrões", diziam os bem apessoados moradores do bairro. Alguns diziam que aquilo era uma maloca e a prefeitura deveria varrer "aquela sujeira". Ali nasceu Carequinha. Aos 11 anos de idade o menino já era temido por todos no bairro. Carequinha nunca quis estudar, nunca quis trabalhar, nunca foi à igreja, nem conhecia Deus! Só sabia roubar e fazer maldades. O pai estava preso e ele nem sabia o porquê. Vivia apenas com a madrasta e outros cinco irmãos. A viatura encostada naquela rua indicava o que já se esperava e lá se ia o carequinha entrando no camburão. Nunca era levado à Delegacia, muito menos ao Juizado de Menores. Sempre para as margens da Represa Billings, onde acabava levando uma bela surra dos policiais. Voltava para casa dolorido e cada vez mais revoltado. Aquele menino franzino, de cabeça raspada, ao completar 13 anos ficou conhecido da mídia. Numa sexta-feira eu estava na redação do Diário do Grande ABC, quando fui informado que um menor de idade havia entrado no pátio do 1º Distrito Policial de Santo André, onde delegados, investigadores e carcereiros guardavam seus carros. O menino, aproveitando de um descuido, entrou no carro do delegado Tiossi Bernardes, titular daquela delegacia e fugiu em alta velocidade pelas ruas da cidade. Com o carro do jornal acompanhei a perseguição policial. Até tiros foram dados para o alto, mas nada fazia aquele garoto parar. Ousado, atravessava semáforos com sinal fechado, provocou acidentes entre veículos, até que, depois de mais de duas horas, perdeu o controle do carro e chocou-se contra um poste. Com pequenas escoriações saiu do veículo e tentou fugir, mas foi detido pela Polícia. Levado ao 1° DP foi feito o boletim de ocorrências e Carequinha foi conduzido para uma pequena cela onde ficaria à disposição do Juizado de Menores. Quando conversei com aquele menino na delegacia, confesso, fiquei com pena. Uma criança indefesa, tímida. Seu olhar transmitia desconfiança e tristeza. Nesse dia Carequinha chorou, lembrando-se do dia em que, sem nada para comer em casa, roubou uma banana de um comerciante e levou uns bons tabefes do milico que o pegou. Deixei o Distrito Policial pensativo, principalmente quando soube que, naquela idade, sua ficha policial de furtos e roubos já passava de 3 metros de comprimento.
Foi a primeira vez que Carequinha saiu nas páginas policias do Diário do Grande ABC. Sua foto, de costas (menores não podem ter o rosto publicado), ilustrava a manchete policial daquele dia: “Carequinha rouba carro de delegado e provoca o caos no trânsito”. Dias depois ele estava nas ruas e voltava a atormentar a polícia. Usando um revólver de brinquedo, Carequinha invadiu um estabelecimento comercial no centro de Santo André, rendeu os funcionários da loja e se apoderou do dinheiro que estava no caixa. Quando tentou a fuga, foi perseguido por populares e acabou sendo detido. Mais uma vez na delegacia e depois ao Juizado de Menores. Desta feita, o menino, já com 13 anos, foi encaminhado à Febem no Tatuapé (na época a responsável pela guarda de menores). Tudo indicava que a população teria sossego por um bom tempo. Ledo engano. Em menos de uma semana Carequinha estava nas manchetes de todos os jornais de São Paulo e do ABC. Comandou uma fuga em massa daquele estabelecimento penal de menores, não sem antes ter ateado fogo nos colchões e provocado um estrago de monta. Desapareceu por umas duas ou três semanas, até que, numa sexta-feira, mais uma vez fui chamado para cobrir uma ocorrência policial, no mínimo estranha. Um ônibus repleto de passageiros havia sido sequestrado por um menor, e ziguezagueava em alta velocidade pelas ruas de Santo André. Carros saiam da frente, chocavam-se contra outros, batiam em muros e o ônibus desgovernado continuava rodando pelas ruas da cidade, nessa altura com muitas viaturas da Polícia Militar, civil e dos bombeiros em seu encalço. Eu não tinha dúvidas. Sabia que Carequinha estava ao volante daquele coletivo. Depois de muito trabalho a polícia conseguiu cercar o ônibus, que se enfiou pela Travessa Lourenço Rondinelli, no centro de Santo André e ficou sem saída. Passageiros deixaram o ônibus em pânico, outros, revoltados, queriam linchar o autor dessa façanha, mas foram contidos pela polícia. Cheguei a tempo de ver Carequinha descer do ônibus sorrindo, arrastado por um bando de policiais. Consegui me aproximar do menino e assim que me viu, foi logo dizendo: “viu só, fui dar uma voltinha de ônibus e me prenderam novamente”. Eu já era, nessa altura, velho conhecido do menino. Para encurtar a história, deixei de relatar muitas outras detenções de Carequinha que culminaram em nossos encontros. De volta à Febem, desta feita o gurí estava bem vigiado. Ficou por lá alguns meses até fugir novamente. Ousado, Carequinha aprontou sua última façanha em Santo André, ao completar 14 anos. Tentou furtar um carro do Corpo de Bombeiros, mas foi detido antes que saísse com o veículo. Carequinha foi levado ao 1° DP de Santo André, na rua Xavier de Toledo e colocado numa pequena cela que sempre improvisavam para deixar pequenos infratores por algumas horas. Contou-me muitas histórias, sua triste vida sem carinho, sem apoio dos pais e a vontade enorme de não ter nascido. Talvez por isso desafiava a todos sem nenhum receio. Mais uma vez saí triste desse encontro. Foi a última vez que conversei com Carequinha. No dia seguinte ele foi encontrado morto na cela fria. Com um lençol se enforcou durante a madrugada.
_____________________________________________________________
*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
_____________________________________________________________

quarta-feira, 6 de maio de 2009

MENINGITE MATOU CENTENAS DE CRIANÇAS

Édison Motta
*
Epidemia sob censura
*
Primeiro semestre de 1974. Após ter trabalhado durante nove meses na redação da Folha de S.Paulo, aceitei o convite de José Louzeiro, chefe de redação do Diário do Grande ABC para retornar, como faz o bom filho, á casa onde dei meus primeiros passos na função de jornalista. Havia pedido demissão, no ano anterior, a contragosto. Porque um desentendimento entre a diretoria do jornal e o Sindicato dos Jornalistas emperrava a obtenção de meu registro profissional. Embora jovem, quase menino, pertencia àquela leva de “velhos jornalistas” que poderiam obter o registro desde que comprovassem exercer a atividade em outubro de 1969 quando a profissão foi regulamentada. Para mim, nada era mais importante do que conquistá-lo. Fiz uma ousada manobra pedindo demissão sem ter outro emprego. Instalei-me na sede do sindicato e na Delegacia Regional do Trabalho, na rua Martins Fontes, ao lado do antigo prédio do “Estadão” em plantão diário, agindo como meu próprio advogado. Consegui o registro nº. 10.045, no dia 23 de março de 1973. No dia seguinte, por indicação do Louzeiro, que deixara a Folha para assumir o comando da redação do Diário, comecei a trabalhar na vaga dele, na FSP. Uma experiência de ouro. Porque me levou, do dia para a noite, ao time de uma “grande redação”, como chamávamos a Folha, o Estadão, o JT, Ultima Hora, NP, enfim aos jornais da Capital. Era como alguém que sai do “interior” – embora o ABC fique colado a São Paulo – para ir trabalhar na matriz.
Observava diariamente, quando chegava à redação, ao passar ao lado da sala de telex – o moderno sistema de transmissão de textos da época - que havia pendurados vários “avisos” em pedaços de papel impressos com as letras maiúsculas dos teletipos assinados pelo comando do II Exército. Informavam que estava terminantemente proibida a divulgação sobre isso ou aquilo. Como a imprensa vivia sob censura, e nem sempre a edição era revisada fisicamente pelos censores, os “avisos” bastavam para quem tivesse juízo. Foi assim que ficamos sabendo sobre a guerrilha no Araguaia; movimentos “subversivos” aqui e ali; fechamento de “células comunistas”; mortes de “terroristas” em acidentes de trânsito e por aí afora. O que mais me intrigava, naqueles meses de Folha de S.Paulo, é que meu querido Diário do Grande ABC jamais recebera um daqueles “avisos”. Quando voltei, alçado ao cargo de chefe de reportagem apenas com 20 anos, nada era mais importante do que o desafio de trabalhar para transformar o jornal num veículo respeitado. Nosso sonho, meu, do Louzeiro, da equipe e principalmente dos diretores: fazer do Diário o mais importante jornal regional do País.
Naqueles primeiros meses de nova função deparamo-nos com a maior epidemia de meningite da história do País. Disso sabemos hoje. À época era impossível saber por que a censura emitia aqueles “avisos” para a grande imprensa. Ocorre que na região do ABC percebemos o aumento do volume de pessoas nos Pronto-Socorros e hospitais com sintomas de uma doença grave que ninguém sabia dizer se era gripe, pneumonia, sarampo. Percebia-se que eram muitos os casos. Quando procurávamos as autoridades de saúde nenhuma delas ousava apresentar um diagnóstico preciso porque implicava em dizer que a população estava à mercê de uma epidemia; tudo aquilo que o regime militar jamais toleraria que fosse informado para não comprometer a “segurança nacional”.
Vi ali a oportunidade para fazer o Diário projetar-se nacionalmente. Conversei longamente com o prefeito de Santo André sobre a importância de realizar uma reunião com os demais prefeitos para tratar do assunto. Antonio Pezzolo, da Arena, concordou em parte com meus argumentos. Disse que, quando muito, abrigaria em seu gabinete uma reunião dos secretários de saúde para que fizessem um balanço regional da situação. Até porque – fiquei sabendo – a Secretaria da Saúde havia internamente passado instruções – sempre escondidas da imprensa – sobre a gravidade do problema. Percorri os sete municípios – Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra – conversando pessoalmente com cada um dos prefeitos. Cinco eram da Arena, o partido da “revolução”. Apenas dois, Ricardo Putz de Diadema e Amaury Fioravanti, de Mauá eram do MDB. Convenci todos sobre a necessidade de designarem seus respectivos secretários para a reunião no gabinete do prefeito Pezzolo, em Santo André.
Marcada dia e hora da reunião, executei a fase pré-final do meu plano: dirigi-me, também pessoalmente, ao Chefe da Divisão Regional da Saúde, médico José Oscar da Silva Bottas, até então avesso a qualquer contato com a imprensa e comuniquei-lhe sobre a reunião. Ele já sabia por que fora notificado por alguns dos secretários municipais. Voltei ao prefeito Pezzolo e implorei que insistisse na confirmação do dr. Bottas porque, afinal, era ele quem dispunha de informações e do precário aparato para enfrentar o problema.
Até então não se falava, seja na imprensa escrita e, muito menos, na mídia eletrônica – rádios, TVs – sobre a epidemia de meningite. Enquanto isso, a Grande São Paulo – Capital e ABC inclusos – registravam o maior número de óbitos de crianças que se tem notícia na segunda metade do século XX. Atualmente há farta literatura sobre o assunto. Basta pesquisar na internet. À época, a falta de informações evitava o pânico da população, tão temido pelo regime militar, ao preço de ceifar milhares de vidas humanas.
Chegado dia e hora, coloquei em prática a última fase do plano, avalizado e bancado pelos corajosos José Louzeiro, chefe de redação; Edson Danillo Dotto, Maury de Campos Dotto, Fausto Polesi e Ângelo Puga, diretores do Diário do Grande ABC. De surpresa, chegamos com os equipamentos da Radio Diário do Grande ABC e passamos a transmitir ao vivo, mesmo sem permissão, o desenrolar do encontro. Com direito a entrevistas com os secretários municipais de Saúde e também com o dr. Bottas, da Secretaria Estadual.
Não houve tempo para suspensão da transmissão. Vivíamos novos tempos da ditadura, sob a distensão “lenta, segura e gradual” do general Ernesto Geisel que havia assumido o poder algumas semanas antes.
E foi assim que a epidemia de meningite de 1974 rompeu a censura e “vazou” para a grande imprensa. Senti-me recompensado. A história tomou novo rumo, as autoridades providenciaram vacinação em massa para a população e, a partir daquele dia nosso querido Diário do Grande ABC passou a ser visto com outros olhos pelo País. Mas, assim mesmo, jamais recebemos os tais “avisos”.
_____________________________________________________________
*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.
_____________________________________________________________

terça-feira, 5 de maio de 2009

MENDIGOS VENDIAM PONTOS NA CATEDRAL

Edward de Souza
*
Estagiário do NP serve de cobaia e
quase é linchado
*
A Praça da Sé é o eixo da cidade de São Paulo. Quem for à praça, vai ver o marco zero da cidade, bem em frente à Catedral. Na metade dos anos 70 parecia um albergue a céu aberto, uma visão do inferno, como se a cidade tivesse enfrentando alguma guerra civil ou algo do tipo. A quantidade de mendigos espalhados pela praça chegava a ser absurda. A maioria dos pedintes utilizava os jardins da praça como banheiro público, tomando banho no chafariz central e fazendo suas necessidades em qualquer canto, tornando certos pontos não muito agradáveis. Alguns deles usavam drogas. O mau cheiro imperava. Lázaro Campos, nessa época editor de polícia do Jornal Notícias Populares, recebia dezenas de reclamações de leitores pedindo providências. O jornal, chegado ao mundo do crime, não se importava muito com notícias assim, até que um telefonema chegou à redação denunciando a venda de pontos de mendicância na praça, principalmente próximo às escadarias da igreja, a preços absurdos. Falavam em milhões por um pequeno espaço para se esmolar. Assim que colocou o telefone no gancho, Lázaro virou-se para o meu lado e me passou as informações que havia recebido. Isso significava que eu estava escalado para ir à Praça da Sé em busca dos famosos pontos de mendicância e os responsáveis por eles. Jornalistas, de um modo geral, têm verdadeira fissura em entrevistar, reportar, fotografar, documentar moradores de rua. De preferência, em preto-e-branco. Arrisco uma interpretação: sem consciência profunda dos problemas sociais do país, enxergam o que salta aos olhos, visão superficial porque, inclusive, vários moradores de rua lá estão por motivos diferentes da pobreza, como drogadições em geral, desentendimentos familiares e problemas mentais. Eu tinha certa experiência, depois de desmantelar uma rede de falsos mendigos no ABC, cujo relato farei nesse blog em outra oportunidade. Bolei um plano para tentar entrar na rede de mendigos que negociavam pontos na Praça da Sé, mas iria precisar de ajuda. Expliquei ao Lázaro a idéia que tive. Teria que infiltrar uma pessoa com aparência de mendigo na Praça da Sé. Ficaria à distância com o Tarcisio Leite, fotógrafo, documentando e acompanhando toda a movimentação. Mas quem seria nosso mendigo? Não poderia ser alguém com cara de bonachão e bem nutrido, claro está. Enquanto pensava, voltei-me para a sala de arquivos do jornal. Um jovem, recém-contratado, recortava jornais para arquivar matérias às pastas. Era magro, na verdade, esquelético, barba preta cerrada e com olheiras profundas. Seria o mendigo ideal, mas como convencê-lo a aceitar a empreitada? Mostrei o rapaz ao Lázaro e ele logo se animou. Fomos os dois falar com ele. Tinha o apelido de “Carne-Seca”, ficamos sabendo. Estagiário ainda no NP, “Carne-Seca” ficou entusiasmado em saber que participaria de uma reportagem policial, pouco se importando com os riscos que certamente correria, caso sua verdadeira identidade fosse descoberta pelos mendigos. Combinamos sair por volta das 3 horas da madrugada. Lázaro providenciou roupas velhas e rasgadas e um chapéu para o nosso mendigo. As roupas ficaram largas, o que, ao invés de atrapalhar, acabaram ajudando a moldar o perfil de pedinte que pretendíamos infiltrar nas escadarias da Praça da Sé. Como medida de segurança, comunicamos a um delegado amigo nosso a reportagem que iríamos fazer, pedindo que ele deixasse, nas proximidades das escadarias da igreja, um investigador de plantão. Antes das 3 da manhã chegamos à praça ainda deserta e soltamos o “Carne-Seca”. Teríamos que ficar à distância, mendigos detestam jornalistas e fotógrafos, já perceberam? Sempre que um carro de reportagem se aproxima eles fogem como o Diabo da cruz. Se estão em bando, muitas vezes atacam, buscando afugentar os repórteres. Sempre foi assim. Fazia frio naquela manhã em São Paulo. “Carne-Seca” se enrolou num velho cobertor “sapeca-neguinho” e sentou-se no começo da escadaria da igreja, chamado ponto de elite pelos pedintes do local. Estendeu o chapéu, com as mãos trêmulas por causa do frio e também pela tarefa espinhosa que teria a cumprir pela frente. Eu e Tarcisio ficamos à distância, dentro do carro sem logotipo, que arrumamos para fazer a reportagem e não chamar a atenção dos pedintes, que, aos poucos, foram chegando. Eram mais de 5 horas da manhã e o movimento começou. Estava divertido ver que, a cada três pessoas que passava, uma atirava moeda no chapéu de “Carne-Seca.” Agachado atrás do carro, com teleobjetiva, Tarcísio fotografava os melhores lances. Mais de 7 horas da manhã. Movimento intenso na Praça da Sé. Bom lembrar que não havia metrô na época, apenas ônibus e táxis circulavam pelas imediações. O chapéu de “Carne-Seca” estava cheio. Como tinha saído o sol, ele atirou as moedas no cobertor e deu um nó, deixando livre o chapéu para novas ofertas. Tinha se transformado num autêntico pedinte nosso estagiário. Melhor não poderíamos ter encontrado. Minutos depois, eu e Tarcísio notamos que três mendigos esconderam nossa visão e gesticulavam energicamente com “Carne-Seca”. Não dava para ouvir, claro, mas podia se perceber que nosso mendigo estava em apuros. Levantou-se e saiu do lugar que ocupava. Um desses três mendigos tomou seu lugar. Sem saber o que fazer, “Carne-Seca” procurou um ponto à frente para se sentar. Não ficou nem 5 minutos e foi cercado mais uma vez. A coisa estava feia! Tarcisio não perdia um lance, fotografava tudo. Em fração de segundos, nosso mendigo desapareceu, com chapéu e cobertor. Gritei para o Tarcísio e corremos, eu, ele e o motorista do jornal, que largou o carro aberto, para tentarmos ver o que tinha acontecido com “Carne-Seca”. No caminho topamos com o investigador Gilberto Moraes, que estava acabando de chegar a mando do delegado amigo nosso para dar cobertura àquela reportagem. Correndo em volta da igreja, escutamos gritos abafados de “Carne-Seca.” Gilberto, o investigador, sacou o revólver. Correndo na direção dos gritos, encontramos nosso “pedinte” cercado por um bando de mendigos. Estava sendo sufocado pelo próprio cobertor. O investigador efetuou dois disparos para o alto, dispersando os mendigos que fugiram. “Carne-Seca” mal podia respirar. Estava roxo e por muito pouco, frações de segundos, não perde a vida. Depois de tomar uns dois copos de água e um cafezinho numa lanchonete da Praça da Sé, “Carne-Seca” contou que desde cedo estava sendo molestado pelos mendigos da área. De acordo com ele, cada ponto tinha um dono. Caso ele quisesse continuar a esmolar no local, deveria pagar de 3 a 5 milhões de cruzeiros, muito dinheiro naquele tempo, o suficiente hoje para comprar um carro de marca, zero quilômetro, ou até uma boa casa. Como nosso mendigo improvisado resistiu e continuou no local, foi arrastado pelo bando de pedintes “donos da igreja”, e só não morreu porque, como foi relatado, acudimos a tempo. Foi feito um Boletim de Ocorrência e a matéria publicada dias seguidos no Jornal Notícias Populares, com fotos. Os “donos da boca” desapareceram. Quanto ao “Carne-Seca”, foi contratado pelo jornal, escondeu-se no setor de arquivos e nunca mais quis servir de cobaia para reportagem nenhuma.
_____________________________________________________________
*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
_____________________________________________________________

domingo, 3 de maio de 2009

EXPOSIÇÃO DE QUADROS DE J. MORGADO

O Jornalista e Pintor J. Morgado realiza desde o começo deste mês uma exposição de quadros na Casa da memória, localizada à Rua Brasília Teixeira Seckler, número 20, em Mongaguá. Tem tempo para os amigos e amigas desse blog comparecerem e admirar as belezas pintadas pelo J. Morgado. Essa exposição se estenderá até o dia 17 de maio. O jornalista Édison Motta compareceu ao evento para rever o velho amigo de longos anos e admirar sua obra. Fotos na Casa da Memória, residência de J. Morgado e de dois dos seus muitos quadros que estão em exposição.
O blog vai pegar fogo nesta terça-feira, com outra história verídica de uma reportagem investigativa na Praça da Sé, marco zero de São Paulo, onde pedintes vendiam pontos para explorar a mendicância nos degraus da catedral da Sé. Um estagiário de jornal se passou por mendigo, postou-se nas escadarias da igreja, foi descoberto e por pouco não foi linchado pelos mendigos que vendiam pontos por valores astronômicos, que hoje, dariam para comprar um carro de marca, zero quilômetro, ou até uma bela casa. Exclusivo no blog desta terça: "Estagiário do NP serve de cobaia e quase é linchado". (Edward de Souza ).

sábado, 2 de maio de 2009

O DIA EM QUE O AVIÃO POUSOU DE BARRIGA

Oswaldo Lavrado
*
TRAPALHADAS NA VIAGEM
PARA GOIÂNIA
*
Começo de Abril de 1992. Os times de futebol profissional do ABC estavam sem atividades. Para não deixar inativo o departamento de esportes da Rádio Diário do Grande ABC 1300, o qual dirigia, e o consequente desemprego, sugeri a opção de acompanhar os jogos do Santos no Brasileirão. Embora a rádio fosse sediada em São Bernardo, a iniciativa partiu em virtude das emissoras de São Paulo, obviamente, priorizarem Corinthians, Palmeiras e São Paulo. As rádios da Baixada faziam a cobertura de todos os jogos do time praiano, porém o alcance delas aqui no Planalto era mínimo e chegava com muito chiado. Como a maior parte da torcida do Santos está na Grande São Paulo, a Rádio Diário, cujo som era nítido num raio de 150 km, tentava abocanhar esse filão de audiência. E conseguiu, uma vez que chegou a ficar em quarto lugar no Ibope na Região Metropolitana de São Paulo, abaixo apenas de Bandeirantes, Globo e Jovem Pan. As transmissões dos jogos do Santos pelo Brasil trouxeram para a Rádio Diário 1.300, patrocinadores de porte, tipo Brahma, Casas Bahia e Ford, anunciantes quase impossíveis de serem conquistados transmitindo Santo André, São Bernardo ou São Caetano.
No começo de abril do ano de 1992 o Santos foi jogar em Goiânia, contra o Goiás. Pra lá embarcamos, eu (comentarista) e Edward de Souza (narrador). Por motivos econômicos o repórter e o operador de som foram dispensados. Pelo mesmo motivo (grana) viajamos de madrugada para aproveitar o desconto de 20% na passagem aérea. Pouco depois de alçar vôo, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, começava também nossa odisséia. Após sobrevoar o Estado de Minas uma forte turbulência chacoalhou a aeronave, obrigando a tripulação determinar aos passageiros que apertassem os cintos, não fumassem e devolvessem pratos e talheres, já que um substancial lanche estava sendo serviço. O avião estava lotado. Eu viajava no acento do meio de uma poltrona de três lugares, na frente. Do meu lado direito um padre e do esquerdo um francês. Em outra poltrona estava o Edward. Ao lado dele um jovem engenheiro e um cearense. Pelo tamanho da turbulência, o padre, que antes havia tomado um copo de vinho, rezava alto, o parisiense balbuciava coisas no idioma francês e o cearense, ao lado do Edward, em pânico, gritava que não podia morrer, porque tinha três filhos, a mulher e um cachorro o esperando em casa, além de, desesperado, proferir outras frases sem nexo. A coisa estava mesmo feia. Apenas eu, o Edward e o engenheiro mantínhamos uma falsa calma. No fundo, no fundo, estávamos apavorados. O jato já sobrevoava Goiânia quando fomos informados pela tribulação que havia um problema com o trem de pouso e a aeronave iria aterrissar de barriga. Ai o mundo veio abaixo dentro do avião. O padre tremia e rezava mais alto. Nervoso, vendo a viola em cacos, em determinado instante não me contive e exclamei: “olha, padre, se esse avião cair, não adianta nada suas preces, vamos morrer do mesmo jeito”. Arrependi-me depois. Uma aeromoça, nitidamente apavorada, começou a recolher os talheres dos passageiros, e travou um pequeno diálogo com o nosso Edward de Souza: ”por favor, seu copo, pediu gentilmente a garota. O narrador da rádio, com um copo de plástico na mão direita, ainda com metade do uísque, recusou: “moça, não entrego nada, se esta tranqueira cair, vou morrer agarrado ao copo”, sentenciou. A aeromoça, talvez pela turbulência do vôo e nervosa com a situação aflitiva do momento, deixou o Edward em paz, se é que havia paz ali naquele momento, e correu para sentar-se numa poltrona e colocar o cinto de segurança. Mais de uma hora da manhã o jato iniciou o processo de descida. Segundos depois um estrondo, as luzes se apagaram e o avião deslizou na pista, observado à distância pelos funcionários do aeroporto e soldados do corpo de bombeiros. Silêncio total. Repentinamente as luzes se acenderam. Sinal que o pouso havia dado certo. Todos se levantaram correndo, em busca da porta traseira do avião, onde uma rampa estava sendo colocada para todos saírem, deslizando por ela. Soubemos depois que foi verificada uma ocorrência nas tubulações que conduzem o fluido hidráulico do avião, o que impediu o baixamento do conjunto do trem de pouso A aeronave tocou o solo de barriga sobre uma espuma espalhada na pista, o que fez com que ele acabasse arrastando-se por, pelo menos, 400 metros.
Na saída, a tripulação, na porta, pedia desculpas pelo transtorno e agradecia os passageiros. Edward aproximou-se da mesma aeromoça e disse: "aqui está seu copo". A menina, educadamente, respondeu: "agora o senhor pode ficar com ele, leve-o de lembrança". Acho que esse copo está na casa do narrador da Rádio Diário até hoje.
O engenheiro que viajou ao lado do Edward e que tinha um carro esperando no aeroporto, nos ofereceu carona até o Hotel Samambaia, próximo ao Centro de Goiânia, onde, por coincidência, também estava a delegação do Santos. O padre, o francês e o cearense que estavam no mesmo vôo sumiram assim que o avião aterrissou. Soubemos que o cearense não quis seguir viagem em outro vôo, preferiu ir de ônibus para Fortaleza. A saga não termina ai...
Sempre viajamos com verba fornecida pela rádio e com a qual pagávamos todas as despesas. Nessa viagem, porém, o Edward arranjou um walsh (espécie de passaporte que garante ao portador passagem e hospedagem com pagamento futuro; (não sei se ainda existe). O documento era, acredito, da CVC, da qual um dos sócios, o Irineu, era amigo do Edward. Tudo bem, não fosse o nosso retorno na segunda-feira pela manhã. Pra fechar a conta do hotel teríamos que apresentar o walsh ao gerente. Malas arrumadas, prontos pra ir embora e... Cadê o papel. Tinha que estar com o Edward, claro. Mas não estava. Procura cá e acolá, revira as malas, o armário, o criado-mudo e até a bíblia (todo hotel sempre tem um bíblia no criado-mudo) e nada do tal walsh. O Edward tentou aplacar minha fúria, já que eu tinha compromisso importante e inadiável em São Bernardo na parte da tarde daquela segunda-feira. Ele ligaria para a empresa que emitiu o papel e solicitaria outro, via fax, uma vez que, à época, a informática ainda engatinhava no Brasil. Eu não podia esperar e depois de muito bate-boca entre nós dois o Edward decidiu: "vá embora que espero o walsh". Não queria deixá-lo sozinho refém no hotel, mas não tive alternativa. Se ficasse em solidariedade ao amigo, corria a risco de sair no braço com ele e perderia o compromisso aqui no ABC. Pequei minha mala e fui. O avião que me traria a São Paulo, por essas coisas do destino, ao deixar o aeroporto passou sobre o prédio do hotel Samambaia. Da janela do apartamento o Edward, que sabia o horário do meu vôo, viu a aeronave e rogou: "tomara que essa chaleira caia com aquele baixinho (eu)”. Soube mais tarde que foi apenas um desabafo, acreditei. O walsh chegou, por fax, e o narrador da Diário voltou no mesmo dia para São Paulo, num vôo da Vasp. Em tempo: O Goiás venceu o Santos por 1 a 0, gol de Túlio Maravilha, de pênalti.
_____________________________________________________________
*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
_____________________________________________________________

sexta-feira, 1 de maio de 2009

EXCLUSIVO: PARADOXOS EXISTENCIAIS

J. Morgado

“Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta; de homens altos e caráter baixo; de lucros expressivos, mas relacionamentos rasos. Estes são tempos em que se almeja paz mundial, mas perdura a guerra nos lares; temos mais lazer, mas menos diversão; maior variedade de tipos de comida, mas menos nutrição”. Essas linhas iniciais são um pequeno trecho de uma crônica de autoria desconhecida enviada por um leitor. Como se pode notar, o mundo atual é um paradoxo. Visitamos templos religiosos, nos confessamos na igreja católica, evitamos bebidas e determinados tipos de comida no islamismo, adoramos animais e deuses vários no hinduísmo, clamamos por entidades nas religiões afro-brasileiras, vamos ao centro espírita em busca de “milagres” de curas ou soluções para nossos problemas materiais, etc. No entanto procedemos completamente ao contrário daquilo que nos ensinam essas religiões citadas, ou seja, vivemos na “contramão”. No momento da reflexão, da oração para tentar se conseguir uma cura, um bem material, ou seja lá o que for, prometemos tudo. Prometemos até dividir o prêmio de uma loteria com os pobres se formos os felizardos. Realmente vivemos em mundo paradoxal. O materialismo fala mais alto. A gula, os lucros, os relacionamentos interesseiros, as guerras domiciliares, as noites de bebedeiras e comilanças em nome do lazer (?) é o que conta.
Alguns leitores que porventura estarão lendo este artigo poderão pensar: “acho que J. Morgado está exagerando!” E eu responderia: “caro leitor, basta observar a sua volta, ver os noticiários e se auto-analisar (eu faço isso todos os dias e os resultados não são muito agradáveis). Ainda somos por demais materialistas e, em conseqüência, egoístas e paradoxais.
“Temos casas maiores e famílias menores; mais medicina, mais menos saúde. Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral”.
Outro trecho da crônica que condiz com que foi comentado acima. Qual seria a explicação para esses fatos tão reais? A competição ou o esquecimento e total alheamento a respeito das leis morais ensinadas por Jesus? O comportamento humano em situações as mais diversas é surpreendente! Alguém já disse: “Essencial é lembrarmos que a nossa passagem por aqui é finita, e que em breve seremos chamados a partir...” Acontece que, em nosso estágio atual de evolução, ainda não conseguimos assimilar com a devida sensatez e realidade, que a oportunidade da vida encarnada para um aprendizado sadio é uma dádiva de Deus. Desde tempos imemoriais temos recebidos mensagens e lições para um comportamento moral saudável e assim nos livrarmos de sofrimentos inúteis.
“O Evangelho Segundo o Espiritismo” (IDE/1984), nos mostra no Capítulo II – Introdução – Sócrates e Platão, Precursores da Idéia Cristã e do Espiritismo -, nos mostra que quase 500 anos a.C. esses filósofos gregos já anunciavam ao povo a idéia da reencarnação e a imortalidade da alma.
“Enquanto tenhamos nosso corpo, e a alma se encontre mergulhada nessa corrupção, jamais possuiremos o objeto de nossos desejos: a verdade. Com efeito, o corpo nos suscita mil obstáculos pela necessidade que temos de cuidá-lo; ademais, ele nos enche de desejos, de apetites, de temores, de mil quimeras e de mil tolices, de maneira que, com ele, é impossível ser sábio um instante. Mas, se não é possível nada conhecer com pureza enquanto a alma está unida ao corpo, é preciso de duas coisas uma: ou que não se conheça jamais a verdade, ou que se venha a conhecê-la depois da morte.” A lição continua. Recomendo a leitura de todo o texto para se ter um melhor entendimento. Outros filósofos deixaram seus ensinamentos através dos séculos. Mas foi Jesus quem nos trouxe o “Código Universal de Comportamento Moral”, deturpado também através dos séculos para atendimento de desejos materiais. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec em 1857, esclareceu e recolocou em seus devidos eixos a doutrina cristã.
Tivemos e teremos ainda oportunidades sem fim para evoluir. Deus não nos abandona nunca, pois ele não é paradoxal. Nós, com nossa vil fraqueza, deixamo-nos envolver pelos prazeres enganosos de vícios morais e materiais, nos tornando contraditórios com o progresso que criamos para nosso próprio bem-estar. Encerro com a frase encontrada do “Aurélio”, na palavra paradoxo: tese socrática – paradoxo socrático; “Ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância, pois a sabedoria e a virtude são inseparáveis”.
_____________________________________________________________
*J. Morgado é Jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico: jgacelan@uol.com.br
_____________________________________________________________

quinta-feira, 30 de abril de 2009

COMO SE CONSTRÓI UMA GRANDE PAIXÃO

Nivia Andres

O Sport Club Internacional, mais conhecido como Colorado, completou 100 anos nesse mês de abril. Resolvi então contar uma historinha de como nasceu a paixão da família Andres pelo Grêmio. Nada a ver? Tudo a ver! Foi por causa do Inter! Isso foi lá pelo fim dos anos 60. Meu pai, Luiz Carlos, não tinha preferência clubística. Quando jovem, jogou no Juventude, aqui de Santiago, time da Igreja, organizado pelo Padre Assis. Mas era só um hobby. Minha mãe, Maria Lidia, também não era ligada em futebol. Nós éramos crianças – Nivia, Nina, Marcia, João Luiz e Carlos Max. Acontece que tínhamos dois vizinhos que eram colorados doentes - Godofredo Beltrão do Nascimento (Seu Godô) e Agostinho Rodrigues Martins (Seu Neto). Fanáticos. As famílias idem. Era necessário um contraponto. A Rua Barão do Ladário não podia ser só vermelha...
Antes que eu esqueça, nossas famílias eram amicíssimas, pais e filhos. Pois bem, meu pai começou a torcer pelo Grêmio, de forma a "incomodar" os amigos. Na hora do jogo, o rádio berrava. Se o Grêmio ganhava, era um escândalo, meu pai soltava foguetes, gritava, e nós também, todos gremistas de paixão recente. Até a mãe (seguramente uma das maiores gremistas que conheço, até hoje!). A antena da nossa TV era uma torre, com sete bandeiras do Grêmio, à época do heptacampeonato gaúcho - exageros do Seu Nenê Andres, como era conhecido o meu pai. Ainda tinha um quarto personagem, o Seu Romano, um negro alto e forte, que também era colorado e vinha participar, diariamente, na Madeireira Andres, da roda de chimarrão e das discussões futebolísticas acirradas... Todos eram "entendidíssimos" de futebol! Então resolveram os amigos apostar nos resultados dos jogos de Grêmio e Inter. O prêmio - latas de doce de pêssego! A aposta era paga nas segundas-feiras. Lembro que fiquei anos sem poder pensar em comer doce de pêssego, enfarada, de tantas latas que o pai ganhou na época das vacas gordas!
Uma coisa curiosa - se o Grêmio perdia, meu pai não se importava e recebia, de bom grado e sorridente, a flauta dos vizinhos colorados... Agora, se a derrota era do Inter, o Seu Neto aparecia só na terça-feira, para o mate e a prosa. O Seu Godô, só na quinta... E não se falava no assunto. Comentários? Só se fossem sobre a próxima partida... Mas as latinhas eram sagradas! Perdeu, pagou, mesmo sem palavras. Na "impossibilidade" do pai (de cabeça "inchada"), um filho trazia.
Aliás, o bom humor e o espírito do meu pai acerca dos assuntos de futebol eram notórios e soava estranho para nós, tenros torcedores azuis. Certa feita, o Inter ganhou o campeonato e os vizinhos comemoravam, felizes. Seu Nenê não se apertou, também estourou todos os foguetes que tinha reservado para a vitória que não veio... O João Luiz, meu irmão, não entendeu nada e foi procurar a mãe, com cara de choro: "- Mãe, afinal, a gente é gremista ou colorado?" A mãe o consolou: "- A gente é gremista, filho. O teu pai só está brincando com os vizinhos!". O João ficou aliviado e foi nos encontrar: "- Ainda bem, a mãe disse que a gente é gremista!"
Assim, aprendemos, em família, a respeitar a paixão que nasce das preferências do futebol. Como não vou cumprimentar todos os colorados desta terra, nossos irmãos, cuja paixão completou 100 anos? São boas recordações. Meu pai, Seu Godô, Seu Neto e Seu Romano, já se foram. Mas o exemplo de amizade, carinho, atenção e saudável maneira de torcer vai permanecer para sempre.
A família cresceu, mas continua gremista. Só o Plínio, falecido esposo da Marcia e a Cristina, esposa do Max e sua filha, Ana, preferiram o Inter (com todo o nosso respeito, conforme a melhor tradição e o exemplo do Seu Nenê). Assim, quando vi o anúncio do Grêmio, em Zero Hora, cumprimentando o Internacional, lembrei de contar essa história. Chorei às pencas ao escrevê-la. Doce recordação.
____________________________________________________________
Nivia Andres, jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008.
Acesse blog da jornalista: http://niviaandres.blogspot.com/
____________________________________________________________

quarta-feira, 29 de abril de 2009

PRESENTE INESQUECÍVEL DE ANIVERSÁRIO

Oswaldo Lavrado

Baltazar,
“Cabecinha de Ouro”

Se o futebol quisesse dar um presente ao meu pai, bastava que lhe desse um domingo inteirinho só de gols de Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”. Papai, corintiano roxo, sempre sonhava de olhos abertos. Imaginava um estádio embandeirado, ele na multidão, todo mundo cantando e pulando pela gloria do artilheiro inesquecível do Corinthians. Eu e meus quatro irmãos somos todos nascidos em São Caetano do Sul, no ABC, onde meu pai, Santiago Lavrado, chegou quanto tinha uns 4 ou 5 anos de idade, vindo de Araras, Interior de São Paulo. "Sêo" Santiago viveu, trabalhou, casou com minha mãe (dona Adélia, uma portuguesa de Trás-os-Montes), criou os filhos em São Caetano e ali morreu em 1991, aos 77 anos. Está sepultada no Cemitério das Lágrimas, no Bairro Mauá. Eu e meu único irmão, por influência de nosso pai, corintiano de vinte costados, também sempre torcemos pelo Corinthians. O velho Santiago foi, na juventude, apenas um razoável goleiro de times varzeanos de São Caetano do Sul.
Meu pai, como escrevi no início, era fã de carteirinha do centroavante Baltazar, que jogava no time mais lembrado da história do Corinthians: Gilmar, Olavo e Homero; Idário, Goiano e Roberto; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Simão - campeão do IV Centenário (1954) e que voltou a ser campeão somente 22 anos depois (1977) contra a Ponte Preta. Baltazar, nos anos 50/60, era um dos mais badalados atletas do Brasil. Emérito cabeceador, ganhou o apelido de “Cabecinha de Ouro” e teve várias músicas com seu nome, inclusive um filme. Depois de Baltazar, em popularidade, só mesmo o fenômeno Pelé. Em janeiro de 55, após ganhar o Campeonato Paulista de 54 - não havia outra competição a não ser o Paulista - o Corinthians veio fazer um amistoso em São Caetano, contra o São Bento, time profissional da cidade e originário de uma fusão entre o São Caetano e o Comercial, da Capital. O jogo foi no Estádio Lauro Gomes de Almeida, hoje Anacleto Campanella. O Corinthians trouxe todos os jogadores da escalação acima lembrada, com Baltazar, é claro. Meu pai quase não dormiu na semana que antecedeu o amistoso. No domingo, dia do jogo, "Sêo" Santiago dispensou o almoço. Arranjou uns trocados, pegou no meu braço e me carregou para o "Lauro Gomes" para ver o Mosqueteiro de Baltazar. Morávamos na, então, Vila Gerti, hoje Bairro Nova Gerti, não muito longe do estádio e fomos a pé, até porque não havia ônibus no trajeto e nem todos possuíam carro próprio. Nossa família estava inserida nesse contexto. Foi a primeira vez que eu coloquei os pés num estádio para ver um time profissional e logo o meu “coringão”. Vimos o jogo espremidos nas arquibancadas de madeira do precário "Lauro Gomes" e a vitória de 5 a 2 do Corinthians, com três gols do “Cabecinha de Ouro”. Meu velho estava eufórico por ter visto Baltazar bem próximo, cerca de 100 metros.O tempo passou e em 72, já repórter do Diário do Grande ABC, fui incumbido pelo editor de esportes, Josué Dias, como setorista, cobrir o dia-a-dia do Saad, time profissional de São Caetano e que disputou a Primeira Divisão de São Paulo. No começo de 1973, o Saad demitiu o treinador, ação rotineira já naquele tempo, e contratou Baltazar para dirigir o time. De chuteiras penduradas há alguns anos, o “Cabecinha de Ouro”, antes de aportar no Saad, havia sido técnico de equipes sem muita expressão e até comandado o time de futebol da, hoje extinta, Penitenciária do Carandiru. Bem, agora Baltazar estava no Saad de São Caetano, clube que eu fazia a cobertura cotidiana para o Diário. Em apenas algumas semanas ficamos amigos, além do relacionamento treinador/jornalista. Desse respeito mútuo, criou-se um laço forte entre ambos. A gente se tratava de "xará", até porque o nome de Baltazar era Oswaldo Silva. Oswaldo, com w, como eu. Uns dois meses depois, eu estava no carro do Diário - o motorista era o Barbosa, velho conhecido deste blog e o fotógrafo, Mário Otsubo, o "japonês" - rumo ao treino do Saad e meu imaginário bolou algo que marcaria para sempre algumas vidas. Era julho, mês de aniversário de meu pai. "Pô, por que não pensei nisso antes? Vou dar ao velho o melhor presente de sua vida". Combinei com Baltazar que fizesse uma visita à casa de meus pais, que moravam na Rua José Roberto, próximo onde hoje é o Fórum de São Caetano. O imóvel ainda está lá e pertence a nossa família. Foi de surpresa. Após um treino do Saad, tipo 6 horas da tarde, aportei na casa dos velhos com aquele "negão", bigodudo, alguns fios de cabelos grisalhos, sisudo e corpanzil de ex-atleta. Meu pai nos recebeu sem entender bem o que se tratava e quem era o cara que estava ao meu lado e invadindo a casa: "Filho, quem é esse senhor?" Resmungou "Sêo" Santiago.
- Viemos trazer nosso abraço pelo seu aniversário, disse eu.
- Pai, esse é o Baltazar, o “Cabecinha de Ouro” que o senhor tantas vezes amaldiçoou por ter perdido gols importantes para o Corinthians e abençoou pelos outros tantos que marcou nas vitórias do time. Seu ídolo de algumas décadas, disse eu. Faltou pouco para o "Sêo" Santiago não sofrer um piripaque. Abraçou o velho ídolo, sorriu feliz, sem disfarçar a emoção. Algumas lágrimas teimosamente desceram pelo seu rosto. Ele tentou, mas não conseguia esconde-las. Nem ele, nem Baltazar, nem eu.
Uma vez por mês, até deixar o Saad (quase dois anos depois), o "xará", passava na humilde residência da Rua José Roberto para uma pitada de prosa com seu velho fã. Baltazar e o "Sêo" Santiago já partiram, mas, com certeza, devem estar relembrando e vibrando com os gols marcados nos campos deste mundo pelo "imortal" “Cabecinha de Ouro”.

*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.

terça-feira, 28 de abril de 2009

LULA: PRÍNCIPE DA ABERTURA DE GOLBERY

Édison Motta
*
INÉDITO
NOS BASTIDORES DAS GREVES

Abertura política lenta, gradual e segura. Com este mote, o general Ernesto Geisel assumiu a presidência da República em 15 de março de 1974. Sucedeu ao general Emilio Garrastazu Médici, em cujo governo – 1969 a 1974 – ocorreu a maior repressão àqueles que eram considerados inimigos da “revolução”, ou seja, do golpe militar que em 1964 destituiu o presidente João Goulart.
A maior dificuldade de Geisel para devolver o país ao regime democrático não se encontrava no mundo exterior à caserna. Seus maiores oponentes eram integrantes da outra ala militar conhecida como “linha dura”. Geisel, amigo próximo de outro general, Golbery do Couto e Silva, criador do Serviço Nacional de Informações e Chefe da Casa Civil durante seu governo, fazia parte do grupo que se uniu em torno do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco no movimento “revolucionário” de 1964. Este agrupamento conspiratório era conhecido como pessoal da “Sorbonne”. Pessoas com formação intelectual e afeitas ao regime democrático mesmo que, para assegurá-lo, fossem necessárias medidas profiláticas baseadas na força das armas.
Ao retirar o poder de Goulart, os militares pretendiam – como se anunciou à época – fazer uma “limpeza” na vida pública do País, afastando a tendência de incorporação do Brasil ao movimento comunista internacional – durante os anos da “guerra fria” – ao qual Goulart mostrava-se simpático. Pretendiam, também, combater a corrupção e encerrar a carreira de políticos populistas que, com uma mão acenavam para o povo e, com a outra, locupletavam-se dos cofres públicos.
Os governos anteriores de Arthur da Costa e Silva (1967-1969) e Médici haviam se encarregado da “faxina”. Desmontaram a estrutura sindicalista criada por Getúlio Vargas, pelo seu Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB e incorporada, na clandestinidade, pelo Partido Comunista Brasileiro além de outras facções simpáticas ao comunismo internacional. Centenas de líderes de trabalhadores foram presos, interrogados e tiveram seus mandados cassados. A partir do Ato Institucional nº. 5, que deu plenos poderes autoritários ao presidente da República, a prioridade dos governos Costa e Silva e Médici foi desmontar a máquina de entidades com fachada trabalhista que quase conseguiu, com Goulart, instalar uma república sindicalista no País.
Em 1974 Luis Inácio da Silva, chamado pelos amigos por Lula, era diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Conheci-o nesta época na condição de correspondente do Jornal do Brasil no ABC e editor do Diário do Grande ABC.
O sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo sofrera uma intervenção no período anterior a Lula. Afastados os comunistas, elegera-se Paulo Vidal o homem que, efetivamente, deu um grande impulso à construção do novo sindicalismo do qual Lula seria mais à frente, como seu sucessor, o grande beneficiário. Paulo Vidal, assim como Lula, nunca foi comunista. Ao contrário, exigia que somente os trabalhadores sindicalizados votassem nas assembléias e, para tanto, exigia que os presentes apresentassem o documento – carteira sindical – que os habilitassem.
Através do governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, o “mago” da ditadura – general Golbery - procurava abrir portas para o processo de abertura anunciado por Geisel. Nos bastidores, longe dos holofotes da imprensa – que, aliás, vivia sob censura – Paulo Egydio “costurava” relações com os diversos setores da sociedade civil, inclusive com Paulo Vidal. No meio deste processo, quando os entendimentos entre o representante do regime e o dos trabalhadores amadurecia, um fato novo muda o rumo da história: a empresa à qual Paulo Vidal era vinculado mudou-se para Mauá. Estava fora, portanto da abrangência territorial do sindicato de São Bernardo e Diadema. Num só golpe, perpetrado sabe-se lá por quem além dos donos da metalúrgica, os entendimentos entre Egydio e Paulo Vidal caem por terra. Impõe-se a necessidade de eleger um novo presidente para o sindicato. Lula, a esta altura um cativante companheiro de diretoria, foi indicado para compor a chapa de novos diretores. Não como presidente, porque tal função deveria ser exercida por um outro diretor, mais antigo, conhecido por “Lulinha”. Mas eis que o destino prega suas peças e Lulinha morre, num acidente automobilístico, dias antes da eleição. De última hora, reúnem-se os diretores e indicam Luiz Inácio para a presidência, com o compromisso de que, durante o próximo mandato, Lula – que praticamente nada entendia de política sindical – seria assessorado por Paulo Vidal. A eleição acontece e Lula toma posse como presidente numa cerimônia que conta com a participação do governador Paulo Egydio Martins. Os entendimentos de Paulo Egydio prosseguem com Lula. O governador faz a doação de um grande terreno, em São Bernardo, para construção de um clube de campo dos metalúrgicos e cede, também, uma imponente colônia de férias, no Guarujá, anos depois assumida pela associação de funcionários do Banespa. O autor deste relato acompanhou, pessoalmente, todos esses episódios. E mais: criou, no Diário do Grande ABC, uma coluna denominada “movimento sindical” onde apareceram, juntamente com matérias do Jornal do Brasil, as primeiras linhas publicadas na imprensa sobre o dirigente sindical, hoje presidente da República.
Em 1978, Lula e a diretoria do sindicato é colhida de surpresa por um movimento espontâneo, liderado pelo então sindicalista Gilson Menezes, que entra na fábrica de caminhões Scania, em São Bernardo e cruza os braços. O movimento chama a atenção de toda a imprensa, do país e do exterior de vez que as greves estavam terminantemente proibidas pelo regime militar. Rapidamente, na medida do possível, os diretores do sindicato assumem o comando do movimento, negociam com a empresa e conseguem uma espetacular vitória, com aumento de salários e sem demissões. O restante do ano de 1978 e o começo de 1979 são dedicados à preparação daquela que seria conhecida como a principal greve do movimento trabalhista do país: a dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema que reuniu multidões no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo.
O estádio de futebol foi cedido pelo prefeito Tito Costa, do PMDB, a pedido de Lula, com intensa participação do autor deste relato, então assessor do prefeito e correspondente do JB. Uma decisão corajosa de Tito Costa que afrontava a “linha dura” do regime militar, mas que acabou consentida pelo presidente Geisel. Foi do palanque armado pela Prefeitura na Vila Euclides que Lula projetou-se para o Brasil e para o mundo. Naquela época, a imprensa internacional dava destaque a dois personagens: Lech Valeska e o seu sindicato solidariedade liderando uma greve no estaleiro de Gdansk, Polônia e ao pernambucano Lula da Silva, em São Bernardo.
A greve de 1979 durou 14 dias. No final, metalúrgicos e Fiesp assinaram um acordo que rendeu significativo aumento salarial aos trabalhadores e reverteu a demissão dos líderes. Um movimento vitorioso: para os trabalhadores que conseguiram seus objetivos – embora muitos desejassem mais – e para criação do caldo de cultura da greve de 1980, que durou 41 dias. Este último, um movimento predominantemente político. Que provocou intervenção no sindicato, prisão de Lula, dos diretores da entidade e serviu para ampliar a visibilidade de Lula e para a formação do Partido dos Trabalhadores que tanto interessava a Golbery e ao pessoal da “Sorbonne”. O “bruxo” conseguiu matar dois coelhos com uma só cajadada: criou o pluripartidarismo, dividiu as oposições até então encasteladas no Movimento Democrático Brasileiro, MDB e construiu o principal obstáculo para impedir a chegada de Leonel Brizola – o principal inimigo da “revolução” - ao comando da República. Dez anos depois, em 1989, Lula - e não Brizola, que ficaria em terceiro lugar no primeiro turno - disputaria o segundo-turno das eleições presidenciais.
O primeiro de maio de 1979, comemorado no Paço Municipal de São Bernardo do Campo, com a presença de Lula, D.Cláudio Hummes, Vinicius de Moraes, artistas, intelectuais, estudantes e trabalhadores foi, sem que soubéssemos, um marco exponencial da distensão lenta, segura e gradual do presidente Ernesto Geisel, resultante da fantástica maquinação de seu “bruxo” Golbery do Couto e Silva.

*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.

domingo, 26 de abril de 2009

AS ENGRAÇADAS HISTÓRIAS DO RÁDIO

Oswaldo Lavrado

Vôo atribulado
***
Dentro de cada Radialista existe um inexplicável sentimento de dedicação e o interesse pelo que faz. Hoje, o rádio perdeu o espaço na sala para a televisão, mas não perdeu o seu lugar no coração de todos nós. O Radialista é um sonhador, um apaixonado que faz parte do cotidiano das pessoas. O rádio tem mesmo muitas histórias. Tantas e tão fantásticas que nunca se sabe ao certo se são ou não verdadeiras. Neste domingo escolhi uma delas para lhes contar. Eu havia assumido a chefia do Departamento de Esportes da Rádio Diário do Grande ABC em janeiro de 1984, no lugar de Rolando Marques que, no entanto, continuou como narrador da equipe. Nesse ano, a equipe do Santo André disputou a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, fato inédito na história do ABC, que nunca teve um time incluído na divisão de elite do futebol nacional. A Rádio Diário 1.300, do grupo Diário do Grande ABC, realizava transmissões dos jogos de todos os times da região e, claro, mesmo com dificuldades iria acompanhar o Santo André no Brasileirão. E assim foi. A estréia do Ramalhão, apelido do Santo André, foi em 29 de janeiro na cidade de Alagoinhas, na Bahia, cerca de 120 quilômetros de Salvador. O jogo foi contra a Catuense, da cidade de Catu, próxima de Alagoinhas. Esta foi a primeira transmissão interestadual da Rádio Diário. Para lá embarcaram três integrantes da equipe “Os Craques do Rádio”: Rolando Marques (narrador), Oswaldo Lavrado (comentarista) e Jurandir Martins (repórter). A verba não permitia levar um operador de som (aquele que instala o equipamento eletrônico para as transmissões externas). Eu e o Rolando, que entendíamos um pouco da arte, executávamos o serviço. Estava batizada a equipe e a rádio em transmissões fora do Estado de São Paulo. O Santo André venceu por 1 a 0, gol de pênalti marcado pelo meia Rotta, à época a estrela do time. Depois vieram jogos em Recife, Porto Alegre, Natal, Curitiba, Campo Grande, Rio de Janeiro e Goiânia. Foi a caminho da capital do Rio Grande do Norte que aconteceu a história que estamos relatando aqui, no agitado blog do Edward de Souza, companheiro que participou de outras viagens e histórias engraçadas que serão contadas em outros capítulos. Nossas viagens aéreas eram sempre de madrugada por ser 20% mais em conta do que de dia e, como a verba da rádio era curta, não havia outra alternativa à equipe senão voar nesse horário. Embarcamos em Cumbica, eu e o Rolando, já que o repórter, também pela escassez de grana, foi dispensado. O avião deixou Guarulhos a meia noite de uma sexta-feira. Fez escala no Rio de Janeiro, em Salvador e em Recife. Até ai já eram quase três horas da madrugada do sábado. Na capital pernambucana houve baldeação de passageiros com outros destinos, tipo Fortaleza, Belém, Manaus etc. Uma tempestade atingia Recife na madrugada e para evitar transtornos, os passageiros do nosso vôo, um Airbus da Varig, teriam que deixar a aeronave direto para outro avião, sem passar pelo saguão do aeroporto dos Guararapes. Uma aeromoça, na porta do Airbus, entregava uma senha colorida, de plástico, que identificava o avião e o destino do passageiro. Eu recebi uma senha amarela e, devidamente escoltado por um funcionário do aeroporto com um enorme guarda-chuva, embarquei num avião bem menor que aquele que deixamos São Paulo. O Rolando, por sua vez, recebeu uma ficha verde e, também acompanhado do prestativo funcionário e sob outro guarda-chuva, seguiu em direção a uma aeronave.
Tive a nítida impressão que ele (Rolando) não havia entrado no mesmo avião que eu. No entanto, como chovia demais e havia muita gente na troca de aeronaves, pensei que poderia ter me enganado e Rolando, àquelas alturas, já estaria tranquilo, bem acomodado, numa poltrona no fundo do avião. O aparelho, que mais parecia uma chaleira fervendo, lotado, alçou vôo do Guararapes com destino a Natal, capital do Rio Grande do Norte. Então, levantei-me da poltrona e fui procurar o Rolando. Olhei, assuntei e nada do homem. Não achei, no avião, o nosso narrador. Pousamos no aeroporto de Natal e fiquei na recepção, onde passariam todos os passageiros, esperando pelo Rolando. O local ficou vazio e cadê o homem? Descolei um taxi e rumei para o hotel Reis Magos, na Praia do Meio, previamente reservado. E nada do Rolando aparecer. Fiquei preocupado, mais que isso, desesperado a ponto de pensar em acionar a polícia. Não sabia exatamente o que fazer. Por volta das 8h, já no sábado, um funcionário do hotel chega pra mim e pergunta: ”por favor, o senhor é Oswaldo Lavrado? Tem um telefonema a sua espera". Atendi sem atinar direito quem seria, preocupado que estava com o sumiço do Rolando. Mas, era ele.
- Onde diabos você se meteu? Disse eu, faiscando.
- Estou em Fortaleza, respondeu.
- E o que faz aí, se o jogo do Santo André é aqui em Natal? Como foi parar aí? Retruquei.
- Sei lá, disse ele - me deram uma senha verde em Recife e, pela cor, fui colocado num vôo para Fortaleza. Só percebi quando o avião taxiava pra levantar vôo e o comandante anunciou o destino, então já era tarde. Sugeri, ou determinei, já que era o chefe da equipe, que ele embarcasse rápido para a capital potiguar, onde seria realizada a transmissão do jogo. Felizmente deu tempo, uma vez que ainda era sábado e a partida só aconteceria no domingo. Ufa...
Em tempo: O Santo André venceu o América por 4 a 2. Rolando Marques morreu em 9 de julho de 1994. É importante ressaltar que a equipe de esportes da Rádio Diário sempre viajou por conta própria, dispensando convites de clubes, tornando-se mais respeitada pela sua independência.
____________________________________________________________
*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
____________________________________________________________