sexta-feira, 16 de abril de 2010

DÚVIDAS & SUGESTÕES


Deus, soberanamente justo, ainda não é compreendido pela maioria das populações do mundo ocidental e oriental. Qual seria a resposta? Não quero dar uma de pretensioso e responder a essa pergunta. Mas divagando, vou pensando aqui com meus botões: – Por que uns nascem saudáveis, bonitos, sem deficiências físicas ou mentais, ricos; enquanto outros nascem cegos, aleijados, feios, débeis mentais, pobres, miseráveis, etc. Outros são jogados nas sarjetas quando não são arrancados do ventre de mães despreparadas para o sagrado dever da maternidade.

Deus é amor e tenho certeza absoluta de que ele não castiga ninguém. Será que não somos nós que colhemos aquilo que plantamos? “De meu rebanho nenhuma ovelha se perderá”. O que Jesus, o enviado de Deus, quis dizer com essa frase. A que rebanho Ele se referia? Seria Ele preconceituoso? Também acho que não. O rebanho de Jesus não eram apenas os judeus daquela época, mas sim toda a humanidade.

Porque todos nós, ao nos envolvermos com os assuntos religiosos, nos deixamos levar pela opinião de padres, pastores, teólogos, sacerdotes das mais diversas crenças e até dirigentes espíritas. Será que cada um dos crentes ao ouvir um sermão se preocupou em saber o que estava sendo dito era ou não verdade? Isso não quer dizer que devemos deixar de seguir esta ou aquela religião. A história é rica em fatos, basta consultá-la. Contestar é um ato democrático, mas desde que seja feito com inteligência e conhecimento.

Acredito que apenas o estudo pode levar o ser humano a pensar e a raciocinar corretamente, ou pelo menos, quase.

Segundo pesquisa, os brasileiros lêem 1.8 livros por ano, enquanto os americanos do norte cinco e os europeus sete.

A Bíblia durante muito tempo, só estava disponível em latim, impossibilitando assim o acesso aos textos evangélicos.

Essa foi apenas uma causa que fez com que os homens deixassem de ler o livro dito sagrado. Mas, desde a tradução da Bíblia para o alemão, feita por Martinho Lutero, no século XVI e responsável pela Reforma, os textos receberam inúmeras traduções, não justificando ainda assim, as estatísticas recentes.

Uma agência de notícias – ANSA – publicou no dia 28 de abril/08: “CIDADE DO VATICANO, 28 abr (ANSA) – A Bíblia, apesar de ser o livro mais difundido e traduzido no mundo, com versões em 2.454 idiomas, continua sendo desconhecida em muitos países que se dizem católicos, segundo pesquisa encomendada pela Federação Bíblica Católica, apresentada segunda-feira, (28), no Vaticano.

Participaram da pesquisa 13 mil pessoas de nove países: Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda, França, Alemanha, Itália, Espanha, Polônia e Rússia. Somente 14% dos italianos entrevistados deram respostas corretas a perguntas básicas de conhecimento sobre a Bíblia, como - Os evangelhos são parte da Bíblia? Jesus escreveu livros da Bíblia? Quem, entre Moisés e Paulo, era um personagem do Antigo Testamento?
Os resultados não foram muito melhores nos outros países: somente 17% souberam as respostas nos Estados Unidos e na Inglaterra, 15% na Alemanha, 11 % na França e 8% na Espanha. Os mais bem classificados foram os poloneses, com 20% de respostas corretas, e os piores foram os russos, com 7% de acertos (...).

A notícia prossegue com desalentadoras informações. Outra notícia, desta vez difundida pela Agência Brasil, inserida na Folha Online, é ainda mais decepcionante. Não vou detalhar o resultado desta outra pesquisa, apenas escrever o seguinte, entre os vários segmentos cristãos, os espíritas estão incluídos em uma faixa que vão entre 4,5 a 19,2%. Trata-se das pessoas que praticam o aborto. Esta enquete científica foi efetuada pela Universidade de Brasília e pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Meus amigos, por que não conviver um pouco mais com a religião, buscando na história, nos grandes filósofos e, em nós mesmos, as respostas para nossos problemas existenciais?
Tales de Mileto, o Pai da Geometria, filósofo grego, quase 600 anos a.C., em sua sabedoria, respondeu a seguinte pergunta: “qual a coisa mais difícil do Universo”? A resposta foi: “conhecer-se a si próprio”.

O orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme e tantos outros defeitos morais são a causa de toda essa violência que aí está. Como mudar isso? A resposta está no imo de cada um!

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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

RÁDIO: PAIXÃO,

ROMANTISMO & REALIDADE (V)
No ano de 1952 foi lançada no Rio de Janeiro, para todo o Brasil, a revista que haveria de ocupar, em poucas semanas de circulação, o posto de mais vendida do país. “Manchete” seria a segunda revista em grau de importância no Brasil. Entrara no mercado para disputar com a associada “O Cruzeiro”, detentora do domínio entre revistas semanais.

Adolpho Bloch, empreendedor dinâmico de ampla visão, um dos mais próximos amigos de Juscelino Kubitschek de Oliveira, abraçou projeto ambicioso na mídia impressa, a cada semana, com uma revista inspirada na renomada francesa, a Paris Match. Sua clara linguagem se fundamentava no dorso superior de fotojornalismo, dotando-lhe de atração colorida e bela, com apoio em texto curto, objetivo e aclarador. Assim foi a revista que o velho Bloch fez editar de 1952 ao ano de 2000, quatro anos após sua morte, ocorrida em São Paulo, em novembro de 1995.

Sivam Castelo Neto, exigente e zeloso diretor de gravações de “jingles”, - anúncios gravados em acetatos – dirigia, no Largo da Carioca, seu studio especializado em cuidar do referido trabalho. Foi exatamente no studio do Sivam onde se reuniram as peças para desempenho da gravação do primeiro comercial amplamente divulgado no lançamento da Revista Manchete: Conjunto vocal feminino as “Três Marias”; compositor e cantor Ismael Neto, com seu conjunto “Os Cariocas”; Cid Moreira e Garcia Netto, ambos chegados ao Rio, ele de Taubaté e eu de São Paulo. Estávamos todos contratados para marcar em “jingles” a campanha da nova revista, com a seguinte mensagem:

- Carminha cantando: Eu leio Manchete! Eu leio Manchete...
- Três Marias: Nem que chooova canivete! Nem que choova canivete...
- Garcia Netto: Cinco pratas por uma revista que vale ouro!
- Cid Moreira: Manchete, a Revista que é um tesouro, nas bancas (...)
- Cariocas e Três Marias: Eu leio Manchete! Eu leio Manchete! Nem que chova canivete! Nem que chova canivete.

Devo falar por mim, no entanto, estou seguro de que todos os envolvidos naquele feliz lançamento viveram grandes alegrias pelo sucesso alcançado pela Revista Manchete, a que o senhor Adolpho Bloch emprestou dedicação e fidelidade.

Abrir um parágrafo para destacar um doce de criatura, além de prazer, renova esperanças e alimenta o espírito de justiça. Carmem Déia Santos Braga (E). A Carminha veio para o Rio bem menina, entrando no conjunto das Três Marias em 1950. Para substituir a cantora Regina Célia, Carmem Déia chegou ao conjunto para alteração de uma das muitas composições do trio fundado em 1940 e composto por Marília Batista, Bidú Reis e Salomé Cotélli. Trabalhou no período na Rádio Tupi e excursionou pelo Brasil com a orquestra de Ary Barroso. Ao deixar as Três Marias fez carreira solo, gravando inúmeras musicas de Nazareno de Brito, Ary Barroso, José Maria de Abreu, nos selos Mocambo e Polydor. A Carminha teve uma participação no filme de Luiz de Barros, “Era uma vez um vagabundo”.

Falar de Ismael Neto me obriga relembrar nossas tardes na Rua Prado Junior, onde vivíamos as tardes fazendo versos e cantando a vida, ele tomando invariavelmente Fernet. No mesmo canto, nas mesmas tardes, Dora Lopes, Dolores Duran, Macedo Neto, Lúcio Alves, Miltinho e até Manezinho Araújo em seu restaurante “Cabeça Chata”, curando ressaca com sopa de cabeça de peixe.

Também ao ir encerrando a presente série, não poderia deixar de prestar uma justa homenagem a dois cavalheiros da música sertaneja, Tonico e Tinoco. Figuras cunhadas na boa forja da moral, ética e cidadania, souberam mostrar seus valores não somente na feitura de música e sua interpretação. Representantes legítimos do sentimento caboclo, carregavam postura e alma de artistas. Recentemente, em especial de Roberto Carlos, lá estava Tinoco e seu risinho tímido, recebendo homenagem. Por alguns anos trabalhei com eles, gravando para uma rede brasileira de rádio o programa “Shell no Sertão”, onde interpretava um agrônomo aconselhando culturas e processos de produção. Para eles, eu era o “Dr. agrômo” na ironia do Tinoco, me envolvendo com a professora da fazenda, chegando juntos de charrete. A dupla gravou duas músicas minhas, tema de novela para a Rádio São Paulo.

Para os acadêmicos ou interessados que nos acompanham no blog, passo uma informação bastante próxima dos fatos ligados à rádiorreportagem e Emissora Continental do Rio de Janeiro. O trabalho de Flavia Lúcia Balzan Bespalhok representa bom documento para informações sobre o tema. Existem falhas, mas, ainda é o melhor que conheço. Meu nome não consta em sua pesquisa, embora eu tenha comigo carteira profissional assinada por Murilo Berardo, diretor da Emissora Continental e irmão do deputado Rubens Berardo, com admissão em 1952. A falha me parece tolerável, embora eu tenha trabalhado com todos os entrevistados, estes aposentados já com alguma idade, e muitos anos depois. Ausentei-me do Rio e certamente fui esquecido pelos colegas abaixo citados pela mestranda Flavia em agradecimento.

“Aos colaboradores entrevistados: Saulo Gomes, Ary Vizeu, Carlos Alberto Vizeu, Jorge Sampaio, Paulo César Ferreira, Paulo Caringi, Teixeira Heizer, Afonso Soares e Celso Garcia. Sem o ecoar de suas vozes esse passado não seria presente”.

Muitos outros companheiros da época não foram ouvidos, por não encontrados ou falecidos: Carlos Palut, Alba Regina, Manoel Jorge, Dalwan Lima, Hilton Araújo, Newton de Souza, Hermano Requião, Sergio Paiva, Waldir Amaral, Alziro Zarur, Fernando Salgado e outros.

O trabalho não faz referência a um incêndio de grandes proporções na favela do Esqueleto, ao lado do Maracanã, em um domingo de sol, enquanto Oduvaldo Cozzi cobria um Fla-Flu. Uma fuga na penitenciária da Rua Frei Caneca, também no domingo, em horário de futebol. Eu estava lá, como em outros tantos acontecimentos, relatados ou não.

Na noite de morte do Presidente Vargas, estivemos de plantão no Palácio do Catete, eu e Newton de Souza, durante toda a noite, prosseguindo no dia seguinte, na sofrida comoção do povo brasileiro durante o velório, em Salão da Casa Militar onde reinava o General Juarez Távora, segundo alguns, conspirador em favor da UDN. Era Ministro da Casa Civil o polêmico Lourival Fontes, que dirigira já em 1932, a propaganda do governo, o DIP.

A PRÁTICA DA REPORTAGEM RADIOFÔNICA NA
EMISSORA CONTINENTAL DO RIO DE JANEIRO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, da Universidade Estadual Paulista, Campus de Bauru, para a obtenção do título de Mestre em Comunicação.

Ao finalizar, devo externar a todos minha gratidão pela presença frequente e apoio na abertura de franco diálogo, onde primou pela elegância o comportamento de cada um. Muito obrigado. Doravante vocês estarão de férias.

Ao Edward de Souza, minha amizade e apreço pela criação deste importante veículo onde a tribuna é sempre livre e democrática.

A Nivia e Cris, um carinhoso abraço pelo carinho e cuidado com que me distinguiram no trato tão zeloso de nosso Blog.

Abraço a todos.
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*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. A Série Relembranças II foi editada em capítulos semanais, às quintas-feiras - uma revisita do profissional de memória privilegiada à história do Rádio Brasileiro, que se confunde com a sua própria história.
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

UMA SÉRIE INÉDITA ESCRITA POR JOSÉ MARQUEIZ - PRÊMIO ESSO DE JORNALISMO



"Essas recordações são de um homem que, apesar de tudo, ainda acredita valer a pena lutar pela vida".
José Marqueiz
*
“Yo confeso que viví”.
Pablo Neruda


Para
Ilca
, amor, coragem e perseverança.
Lívia Faé e Octávio Leite Vallejo, que tudo fizeram para a realização dos exames e do tratamento médico necessários.
Eva e Priscila, mãe e filha, pelas orações diárias.
Paulo Pereira e Severino Ferreira da Silva, o Jacaré, pelo apoio e pela força.
Meus irmãos Maria Madalena, Antonia, Sebastião e João Pedro, pela solidariedade.
Para a equipe médica do Hospital do Câncer, com agradecimento especial aos doutores José Ricardo Testa, Mauro Ikeda e Ulisses Nicolau – a quem devo a minha sobrevida.

PRIMEIRO CAPÍTULO

Como fazia todos os domingos pela manhã, caminhava pela praça central da cidade em companhia do meu amigo Paulo Pereira, quando comentei, em tom jocoso, que começava a sentir os primeiros sintomas da velhice: dificuldades em ouvir do lado esquerdo, justamente o lado onde há três anos passara por uma cirurgia para retirada de um tumor maligno.
Nós podemos nos considerar sobreviventes, observou o amigo, que também tivera retirado um tumor, ao lado do intestino. Ele dizia assim baseado na experiência médica, segundo a qual uma pessoa pode ser considerada praticamente curada desse mal quando ultrapassa os cinco anos depois da operação. Após esse período raramente o tumor reaparece e se isso ocorre antes os especialistas denominam de recidiva, o que significa, de acordo com o Novo Dicionário do Aurélio, “reaparecimento de uma doença algum tempo depois de se haver convalescido de um primeiro acometimento”. Foi o que ocorreu comigo.

Meus planos de reiniciar uma nova vida tiveram de ser relegados uma semana antes de completar três anos de alta hospitalar. A luta tinha de ser retomada, imediata e constante, contra a doença. Justo agora que estava começando a comemorar a deglutição de pequenos pedaços de pastel de palmito, regados com cerveja...
As primeiras imagens da cabeça e do pescoço revelavam a existência de necrose, provocada pela radioterapia. Exigiria uma cirurgia complexa, mas não demorada. Só que o médico avisou: quando abrisse atrás do ouvido para limpeza, aproveitaria para a retirada de material para uma nova biópsia. E foi essa biópsia a reveladora: o tumor, com quase 2,5 centímetros, avançava pela estrutura craniana e sua localização impedia nova cirurgia: surgira junto à veia carótida, artéria que liga o coração e o cérebro.

-É uma operação de altíssimo risco, diagnosticou o médico José Ricardo Testa, do Hospital do Câncer, em São Paulo. A opção mais indicada será tentar diminuir o tumor com químio e radioterapia.
Nesse dia, encontrava-se em companhia de minha mulher. De São Paulo para Santo André, onde moramos, ela veio dirigindo, tendo ao lado um marido abatido e taciturno.

Antes de banhar-me, saí. Precisava ficar sozinho, pensar, se é que reunia condições para pensar, para racionar como uma pessoa normal. Da primeira vez, ponderei, o tumor aparecera como castigo por eu ter fumado durante mais de trinta anos e ingerido bebidas alcoólicas pelo mesmo período. Na época, comemorava os doze anos sem fumar e tempo quase igual sem me embriagar com bebidas com alto teor alcoólico. E desta vez, por quê? Continuava longe do tabaco e me restringia a tomar cerveja, sem engolir nenhum produto destilado, capaz de ferir com maior agressividade meu organismo.

Seria um castigo divino? Ultimamente, eu e o Paulo vínhamos questionando a existência de um deus, de um ser supremo, onipotente, onipresente, capaz de manter a vida ou determinar a morte a seu bel-prazer, de acordo com o humor de seu dia.
Realmente, desde criança revelara-me descrente de seres superiores, santos. Só em alguns momentos de extrema aflição é que olhava alguma imagem, que minha mulher coloca no quarto onde durmo, para suplicar alguma ajuda – mas, sem fé, nem esperança de ser atendido. Também jamais entrei numa igreja, um templo religioso de qualquer seita, para ajoelhar-me, penitenciar-me e rogar algum perdão, alguma dádiva.


Eva, minha ex-mulher, de quem estou separado há quase trinta anos, se transformou de católica apostólica romana em uma devota evangélica, e vê na palavra de um senhor todo poderoso milagre e solução para todos os males. Diariamente ela me envia mensagens eletrônicas, com uma oração, outras com comparações bíblicas, onde a dor e o sacrifício são vistos como redenção para uma vida melhor e mais próxima de um ser superior, que habita outra esfera, muito distante, e, no entanto, sempre presente, pronto a ouvir os pedidos daqueles que creem em sua potencialidade divina.

Enfraquecido, sem forças muitas vezes para andar poucos metros, tenho vontade de me apegar a essas orações, acreditar em seu significado, orar, contrito, e esperar que a cura venha dos céus. Mas se não consigo enganar-me, como fazer crer aquele que tudo vê e tudo sabe?
Decidi, portanto, dar um testemunho dessa minha passagem pela dor, causada por um tumor no cérebro, que dificilmente poderá ser retirado por meio de uma cirurgia. A solução, insistem os médicos, está no tratamento quimioterápico, e, depois radioterápico, única forma de conter o avanço da doença. Em outras palavras, única forma de me proporcionar alguns anos a mais de vida.
Esse testemunho é, afinal, um pouco das lembranças do que foi minha vida – nunca deixei de amar, apesar de ser sempre mais amado, de ter recebido muito mais amor, amor que, sinceramente, não fiz por merecer.

SINTOMAS DA DOENÇA

Vivia uma fase de otimismo quando apareceram os sintomas da volta do tumor. Fazia pouco mais de um mês da visita periódica ao médico Mauro Ikeda, responsável pela primeira cirurgia, e este constatara que estava tudo bem – só deveria regressar seis meses depois, para o exame de rotina.
Semanalmente participava de uma sessão com uma fonoaudióloga, para reaprender a mastigar e a engolir alimentos sólidos. O problema, no entanto, estava na falta da saliva, uma vez que a radioterapia anterior havia secado as glândulas salivares. Sentia, aos poucos, o retorno da saliva e, com ela, a perspectiva de voltar a tomar refeições como qualquer pessoa normal.

Percebi a deficiência auditiva, pela primeira vez, quando estava entrevistando um advogado por telefonema, para elaborar um texto para o ABC Repórter, jornal para o qual trabalhava. Sem fazer qualquer correlação com o tumor extirpado, marquei consulta com um otorrinolaringologista, uma palavra tão comprida que os próprios profissionais do ramo decidiram abreviar para otorrino, o especialista em ouvido, nariz e laringe. Esse médico, consultado, me deixou otimista: era apenas catarro acumulado nessa área do ouvido e uma injeção resolveria o problema.
- Tome a injeção e volte daqui um mês. – sentenciou.
No prazo estipulado, regressei, com o problema auditivo agravado. Marcou novos exames e, quando lhe fui levar os resultados, a face esquerda começara a ficar paralisada e o olho esquerdo estático.

Diante desse quadro, esse mesmo médico desta vez solicitou tomografia computadorizada e ressonância magnética da área afetada. Ao ver as imagens, comentou laconicamente que o caso “era mais importante do que ele calculava” e, como se estivesse cumprido a sua missão, me encaminhou para uma especialista em ouvido. Pensei comigo: “E ele, era especialista em quê?”.
Esta médica, profissional bem mais responsável, ao analisar as imagens dos dois últimos exames, foi lacônica e taxativa:
- O melhor caminho é levar esses exames para o médico que o operou no Hospital do Câncer.
Quis saber se era grave a situação, e ela, manteve-se indiferente, me desejando apenas “Boa sorte”.

Preocupado, consegui marcar uma consulta urgente com o doutor Mauro Ikeda que, de início, também se mostrou otimista. Não era nada grave, apenas uma necrose. Talvez nem precisasse de cirurgia – medicamentos bastariam para eliminar esse problema. Mesmo assim, me indicou para outro médico: o otorrino José Ricardo Testa. Este também, com base nas imagens, acreditou ser apenas uma necrose. Uma cirurgia complexa, mas não demorada. Em pouco tempo, eu voltaria ao normal. Alertou, no entanto, que iria realizar a biópsia de outra parte, mais profunda do cérebro, para verificar se tudo se encontrava normal.

Essa biópsia deixou tanto o Dr. Testa com o Dr. Ikeda, apreensivos, mas como não tinham convicção do que realmente havia, solicitaram um exame ainda mais sofisticado: o Pet Scan, que exige paciência e serenidade do paciente, obrigado a ficar inerte por mais de duas horas, dentro de uma espécie de tubo compressor.
Esse exame não deixou dúvidas: houvera a recidiva e o tumor ressurgira em um local de alto risco cirúrgico. A solução foi por uma longa quimioterapia. Cada sessão duraria cinco dias, a cada 21 dias do mês, durante cinco meses. Não havia outra opção. Eu teria que vencer mais essa, se quisesse continuar vivendo...
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Na próxima quarta-feira, o segundo capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. (Edward de Souza / Nivia Andres / Arte: Cris Fonseca).
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terça-feira, 13 de abril de 2010

DIVULGAÇÃO DE RESULTADO

A leitora contemplada no sorteio do livro Crenças e Desavenças, de João Batista Gregório, foi a Melissa, da PUC, São Paulo. Boa leitura!

Aproveitem para conhecer o blog do João Batista Gregório, um espaço de bom humor, cheio de criatividade e, de quebra, com receitas culinárias deliciosas, em


Leia a nova crônica de Nivia Andres,
CADÊ O MEU LIVRO...
logo abaixo!

- CADÊ O MEU LIVRO...


...que estava aqui, ainda agorinha? - O gato comeu, diria algum engraçadinho!

- Não! A internet engoliu! Transformou-o numa mídia digital. Agora ele atende pelo nome glamuroso de e-book, a abreviatura em inglês para electronic book, o livro eletrônico.

A distância que separa o livro impresso do livro digital é a mesma que afasta a carta do e-mail, nosso método atual de enviar e receber mensagens por meio eletrônico, já tão comum quanto importante e imprescindível para agilizar a comunicação entre pessoas, empresas e o mundo. Comunicação rápida, precisa e eficiente é o que se quer.

A trajetória do livro eletrônico entre nós está apenas começando, tímida, mas progressiva e, certamente, avassaladora, logo mais, pelas vantagens que apresenta, uma delas, a da portabilidade – se eu preciso de uma publicação que só tem na Alemanha, posso adquiri-la e em segundos já estará em minhas mãos, digo, no computador ou no e-reader (o leitor eletrônico, já com vários modelos à disposição). Inclui-se, também, entre as virtudes do e-book, a facilidade de transporte, já que milhares de títulos podem ser confortavelmente acomodados num pendrive (dispositivo móvel) enquanto que carregar alguns livros impressos, dependendo de seu peso, pode causar sofrimento ao seu portador.

O preço também é um fator que torna o e-book muito interessante economicamente, devido ao baixo custo de produção, de divulgação e de entrega, podendo chegar a ser 50% inferior ao custo de um livro tradicional.

Pois bem, já descobrimos as inúmeras vantagens oferecidas pelo livro eletrônico, às quais devemos acrescentar a economia de papel, de celulose e de... árvores! Claro! O livro digital poupa árvores e vai merecer, em seguida, o galardão de “amigo da natureza”! Resta investigar se o e-book também é detentor do prodígio de baixa emissão de gases poluentes causadores do efeito estufa... Daí vai ser a glória!

Então, mercê dessas qualidades intrínsecas, o livro eletrônico, em breve, vai dominar o mercado editorial, desbancando, definitivamente, o modelo tradicional, que precisou de milênios para evoluir desde as tábuas da lei de Moisés, os papiros, as iluminuras, os incunábulos, as brochuras até as belíssimas impressões e encadernações que temos hoje. Bonitas, caras e pesadas.

Mas, há um senão. Decerto tem a ver com romantismo ou com algum outro sentimento não muito compatível com a realidade... Como amante da literatura, verdadeira devoradora de livros, ainda não tolero a ideia de comprimir meus autores preferidos num dispositivo eletrônico. Todos, ali, espremidinhos em arquivos. Pensem bem! É estranho ler Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Gabriel García Marquez e tantos bons autores sem poder folhear, refolhear e desfolhear as páginas de papel, fazer anotações laterais, escrever meu nome na primeira página, colocar um marcador, escondê-lo embaixo do travesseiro... Não! Decididamente, não é a mesma coisa... Como vou guardar uma florzinha para que seque entre as páginas, desejando encontrá-la, anos depois, amarelecida pelo tempo, mas plena de recordações? Tenho certeza de que esses autores, todos adeptos da caneta tinteiro, iriam odiar o e-book...

Mas... fazer o quê? Tenho a esperança de que, em breve, cada aluninho deste Brasil terá o seu e-reader e muitos livros para ler e se maravilhar com as fantásticas histórias neles contidas, pelo seu bem e para o bem de todos.

- Cadê o meu livro que estava aqui? - O gato comeu!

- Não! A internet engoliu!

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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e vivências estão no blog Interface Ativa! Para conhecer, acesse http://niviaandres.blogspot.com/
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segunda-feira, 12 de abril de 2010


A MARIA DO CARMO


Quando trabalhei em Brasilia, ainda na época da ditadura militar, tinha uma colega cearense chamada Maria do Carmo que namorava um dos chefões do Serviço de Censura, Coronel "Não Sei das Quantas".

A Do Carmo já era bem coroa e feia como o capeta, além de mancar da perna direita. O que tinha de feia, tinha de brava e ... coitado daquele que se tornava seu inimigo!

Certo dia ela convidou-me para um jantar em sua casa (em Brasília tinha muito disso), cujo prato seria o famoso "Baião de Dois", comida típica do Nordeste, feito por Severina, sua cozinheira. O tal do coronel da censura iria também (diga-se de passagem que a Do Carmo ganhava, em primeira mão, um exemplar de todos os discos que seriam ou não lançados, após o crivo da Censura).

Cheguei mais cedo para ouvir alguns dos "discos proibidos" e pude acompanhar a cozinheira na confecção do prato, anotando tudo, passo a passo.

A Do Carmo não tinha filhos e sua grande paixão era uma cadelinha (tão velhinha quanto a dona) chamada Champagne que soltava pelos e puns, pela casa toda. Estávamos sentados num sofá daqueles bem fundos e gordos, quando o "Coronel Censura" chegou. Ao levantar-me para cumprimentar o homem, pisei, com toda a força, sobre o quadril esquerdo da cadela e foi aquele escândalo: cadela latindo, Do Carmo gritando, coronel tossindo e eu gemendo, pela mordida que levei.

Ligamos para a médica da Champagne e fomos (eu e a Do Carmo) até a Clínica, aberta somente para atender a bichinha.

Resultado: saímos de lá depois da duas da matina com a cadela enfaixada da cintura para baixo (cachorro tem cintura?!) e a Do Carmo chorando e brava comigo pois, devido à idade avançada (da Champagne), a médica veterinária achava que os ossos não mais se soldariam.

Paguei a consulta, caríssima, e fiquei sem comer o "Baião de Dois" da Severina . A colega nunca mais conversou comigo, até o dia de sua morte, por síncope cardíaca após tomar um copo d'água gelada. Diz a lenda que quando o copo caiu ao chão, a cadela deu um longo uivo.

Depois disso, já fiz o tal prato várias vezes. É excelente, apesar de fazer-me lembrar daquela noite desastrosa. Vale a pena vocês experimentarem, portanto, anotem aí o famoso:

BAIÃO DE DOIS DA DO CARMO:

1 Kg de feijão-de-corda (na falta deste, experimente o feijão fradinho ou guandú); 1 kg de arroz; 1 kg de carne seca; 1 kg de carne de vaca (coxão mole ou músculo); 800 gramas de linguiça toscana ou calabreza; pimenta a gosto; cebola e cheiro verde picadinhos e 1 pimentão vermelho cortado em retalhos.

Cozinhe o feijão por 30 minutos, mais ou menos. Em outra panela, cozinhe a carne seca já dessalgada (para dessalgar,deixe-a de molho na água de um dia para o outro) juntamente com a carne de vaca, ambas cortadas em cubos pequenos, por 40 minutos. Afervente a linguiça, tire a casca e corte-a em cubos pequenos. Escorra bem todos os ingredientes. Numa panela grande, frite a cebola, o pimentão e o cheiro verde, juntando as carnes picadas, fritando mais um pouco. Em seguida, coloque o arroz lavado e escorrido. Junte o feijão já semi cozido (com tempero normal) com todo o caldo. Acrescente mais água fervente suficiente para cozinhar tudo. Prove o sal e deixe cozinhar em fogo baixo, de modo que fique um pouco úmido. Se necessário, coloque por debaixo da panela um "Chapex" para o Baião não grudar no fundo. É delicioso!

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*João Batista Gregório, 57, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Já publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e prepara novo livro, a ser lançado em breve. João Batista exercita seus dotes no Blog http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/ onde cada crônica pitoresca finda com uma receita culinária especial.
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domingo, 11 de abril de 2010

ALEGRIAS E TRISTEZAS DOS ANOS DOURADOS

ANOS INOCENTES
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As lembranças, mesmo que permaneçam no domínio da fantasia são sensacionais, possibilitam o ingresso em castelos encantados repletos de fantasmas, voltar ao tempo dos dinossauros e percorrer as estradas do futuro. Lembranças que remetem à infância, fantasias que transpõem o domínio da imaginação e se tornam reais diante de nossos olhos. São os doces mistérios da vida. Neste fim de semana, nuvens de saudade passeiam no céu da minha memória, formam desenhos de lembranças. Dos meus tempos de criança e de minha juventude na cidade de Franca. Das luzes do Natal e das folias carnavalescas. De alegrias e tristezas deixadas na esteira do tempo. A vida é colecionadora de saudade no vaivém cotidiano da existência. Como disse Machado de Assis, “saudade é o passar e o repassar das memórias antigas”.
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Anos 60 em Franca. Baladas ao cair da tarde, Roberto Carlos, música italiana, twist, hully-gully. Ray Conniff, obrigatório. As brincadeiras dançantes na AEC ou então na casa do Dr. Spinelli e à tarde de domingo no salão rosa do Hotel Francano. Isto sem falar nos bailinhos da Associação Rural e festas na escola normal Dr. João Ribeiro Conrado. Ninguém ficava sem dançar. Aqueles foram tempos em que se levantava no domingo com ressaca de uma festa de arromba, quando gatinhas ainda não tinham nascido e cachorra ainda era mulher de cachorro.
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"O Candelabro Italiano", filme do ano. Todas as mulheres ficaram enlevadas. "Al di la” estourava nas paradas. As meninas achavam Troy Donahue um gato. Suzanne Pleshette era tudo o que cada uma queria ser. E o "Jony Ghitar"? Toda moça achava que a música era feita para ela... Isso sem falar nos filmes do Tony Curtis. Nessa época do bambolê os westerns estavam na moda e John Wayne era o grande herói. Cada soco, um nocaute. E o chapéu nem se mexia. Mas ninguém se importava com essas imperfeições técnicas. O que valia era o enredo, a diversão. Os filmes de Tarzan nas matinês e as balas "Chita" sendo devoradas a cada ação do herói. Havia ainda os seriados do Tom Mix, Roy Rogers, Rocky Lane, Homem submarino e tantos outros...

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A primeira namorada. Beijos roubados no cinema. Coração batendo acelerado ao ver seu amor passar. O footing. Ridículo, pensando hoje. Dá pra imaginar uma legião de moças passeando de braços dados em volta de uma praça, enquanto os moços ficavam parados, só assistindo? Inimaginável! Mas assim começavam quase todos os namoros. No footing da Praça da Estação, ou em volta do coreto na praça central de Franca.

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O footing era um flerte em movimento, mas todo mundo ficava de olho era na "escapadinha" de casais ao caramanchão. O pipoqueiro sabia quem namorava quem e dava dicas se “ele” ou “ela” já haviam passado por ali. E, com isso, ia vendendo sua pipoca com pimenta. E as famosas enquetes? Circulavam tanto quanto as sofisticadas agendas atuais. Era pura emoção! “O que será que ela vai responder?”. Ansiedades a mil e os caderninhos com as frases criadas ou copiadas circulavam de mãos em mãos. Ainda me lembro do malabarismo que a moçada fazia para que viesse às suas mãos aquele da mulher amada...
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Carnaval... Época inocente, em que o lança-perfume era mesmo só pra perfumar a festa. Certamente, alguns já conheciam seus outros efeitos, mas guardavam segredo. Óculos de plástico para se proteger dos engraçadinhos que fulminavam os olhos dos distraídos com o jato do lança-perfume. Fantasias de cetim. Matinês nos clubes. Chuva de confetes e serpentinas. Isso sem falar nas festas do "sustado" em Patrocínio Paulista, das quadrilhas dançantes na fazenda dos Faleiros, em Restinga, e do prolongamento do carnaval na quarta-feira de cinzas na casa das carioquinhas.

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Vestido tubinho, minissais, vestidos de brocado nos bailes de formatura. A moda "vestido saco" querendo vingar. E as anáguas? Tudo superfashion. A primeira fotonovela de amor. Tardes de domingo na porta do cinema. A garotada trocando gibis, pura estratégia para distrair o porteiro do cinema e entrar nas sessões de filmes proibidos para menores de 18 anos, principalmente se a estrela principal fosse Brigite Bardot. O troca-troca de lugares no cinema e todo mundo adorando Doris Day...
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Desfile de 7 de Setembro, interminável. Sol do meio-dia. Pensamento longe, na comida da mãe, no sorvete do bar Tubarão. Ah, o inesquecível Bar Tubarão... Sem falar no Café Francano. A Colegial, ponto de encontro obrigatório das noites de sábados e entardecer de domingo. Os rapazes usavam ternos bem cortados, cabelos rigorosamente penteados. Nas mesas, saboreavam um gostoso "Hi-fi”, ou mesmo uma "Cuba Libre". As garotas sentavam-se em grupos, misturavam num copo enorme sorvete com Coca-Cola, bebida famosa que se chamava Kalu, e fingiam ignorar os olhares que recebiam.

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As paqueras aconteciam naturalmente. E nós, quando "durangos", tomávamos o "samba em Berlim", ou seja, coca-cola, gelo picado e pinga além da gorjeta para que o garçom pusesse uma rodela de limão na borda do copo, para dar impressão de um "sofisticado" Cuba-libre. No bolso, é claro, a famosa bala "pipermint" devidamente triturada para que, num caso de emergência, pudesse tirar o "bafo" da cachaça. Tinha ainda o parque na praça dos correios, sempre tocando as músicas da Emilinha Borba e Ângela Maria. As quermesses com os inesquecíveis "correio elegante"! Tempo de sonhos. Sonhos simples, realizáveis.
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Amigos de infância. Amigos da pré-adolescência. Saudade dos companheiros da época. Onde andarão aqueles que iam conosco desafiar a passagem na pinguela da rua da estalagem, dar um mergulho no córrego da Ponte Preta, comprar uma cerveja escondida no "Rabo Fino" ou no "Rabo Grosso", as duas famosas vendinhas da Praça João Mendes? Quando a menina queria um doce da padaria dos "Archettis" o jeito era comprar, uma delícia. Depois, uma corridinha até "pharmácia" do Orestes, em busca de um antiácido por conta do exagero.

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Às vezes, sente-se vontade, até mesmo curiosidade, de rever os amigos dessa época inocente. Mas o tempo, as experiências vividas, felizes ou infelizes, deixam marcas. Todos mudaram. Física e interiormente. Então, ao mesmo tempo em que se anseia por um reencontro, existe o medo de que essa volta ao passado seja frustrante e quebre a magia das lembranças. Será que a saída da missa das 10 horas ainda é o ponto alto das manhãs de domingo?

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As páginas desses anos dourados já estão arquivadas no caderno do passado. Agora há um breve intervalo, pequena pausa. E logo depois um novo tempo que se juntará à história de nossas vidas. Assim, vamos deixando ao passado o que é dele e vivendo apenas o presente, talvez não tão mágico, porque é real, porém o único tempo que temos para, de fato, viver. Aproveite o final de semana para celebrar a vida.
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*Edward de Souza é jornalista e radialista
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