terça-feira, 10 de março de 2009

ESMOLAS ALIMENTAM CRIME ORGANIZADO

Edward de Souza

Pés pequenos e descalços, um cobertor de papelão, roupas sujas, saquinho de cola para enganar a fome. O retrato do abandono infantil serve para explicar o avanço dos meninos de rua nas fileiras do tráfico. Seguindo a lógica econômica, eles são mão-de-obra barata. O "salário", como contam, muitas vezes é só uma pedra de crack. Viram "aviõezinhos" (vendem drogas e ficam de olho na polícia) atraídos pelo tênis de marca. Depois, acabam viciados e se arriscam no crime só para ganhar o sustento. Essa pesquisa que acaba de chegar às minhas mãos é de assustar, acompanhem: o delito mais cometido pelos menores de 14 anos que chegam à Fundação Casa é o roubo qualificado. Na sequência vem o tráfico. Dos 401 meninos e meninas desse grupo etário internados, 149 foram flagrados roubando e 132 viraram internos por vender drogas. De cada dez centavos que é dado aos pedintes nos semáforos, 90% desse dinheiro vai para o crime organizado.
É isso. Estamos financiando as drogas e o crime organizado sem se dar conta disso. Os traficantes agradecem aos cidadãos de bom coração, os que têm comiseração dos falsos “aleijados” e das “crianças delinquentes” (já não uso mais o trema) que atuam em pontos estratégicos de nossas cidades. Essas crianças crescem ganhando dinheiro fácil, quando chegam à idade adulta aderem ao mundo do crime, assaltando, matando, estuprando, prostituindo, traficando e cometendo pequenos furtos. Então, para eles, será preciso praticar atos ilícitos para que possam continuar sustentando os malditos vícios, aqueles que nós mesmos os incentivamos que adquirissem ainda na infância da vida.
Quando se oferece a uma criança uma moeda de dez centavos, também lhe é oferecida uma péssima oportunidade para a sua delinquência. Muitas vezes a próxima vítima é a própria pessoa que lhe dá na mão uma simples moeda. A moeda existe para o troco e não para as esmolas.
O Brasil é hoje um país onde o programa social do governo federal é o mais abastado de recursos. Entretanto, não se aplica devidamente esse dinheiro em benefício do povo. O que acontece é a compra da dignidade humana. Assim, o povo deixa de ser gente e passa a ser um objeto de manipulação dos maus políticos. Quem promete mais, tem mais votos. A fome é uma consequência do desemprego e por isso gera os pequenos furtos. Caso houvesse empregos não seria necessário o “bolsa família”. Aliás, sabemos muito bem que o “bolsa família” existe para delinquir e não para saciar o desejo dos esfomeados. Sem um programa social sério que venha a contemplar as camadas sociais mais necessitadas, a violência agiganta-se contra os homens bons.
Enquanto isso, o governo federal vai empurrando a nação para um buraco negro, que poderá no futuro acabar numa tragédia sem precedentes. Crianças não precisam de moedas, crianças precisam de amor. Crianças não precisam de esmolas, crianças precisam de escolas. Crianças não precisam de trabalho, crianças precisam de brinquedos. Só amor, escola e brinquedos é que serão necessários para dotarem as crianças de dignidade.

19 comentários:

  1. Prezado amigo Edward,
    Sinceramente, não sei onde você encontra fôlego para escrever tantos artigos assim. Um melhor que o outro. Esse de hoje, mais uma vez tiro o chapéu para você. Aquele velho Edward que traz poesia em seu artigos, como pude notar no lide dessa matéria. Um artigo forte, chocante até, mas que serve para abrir os olhos de muita gente. Satírico, você não deixou de dar sua espetadinha no "Bolsa-Família" e nos donos do Poder, que preferem esmolas para se elegerem, ao invés de escola para nossas crianças abandonadas. Que futuro pode ter um País que trata nossas crianças assim?
    Você sabe que sempre o admirei e continuo seu fã número 1, caro amigo. Parabéns pelo Blog, dá show em muitos jornais sem criatividade e inspiração. Isso sobra em você!

    Hélio Mauro - Jornalista- S.Paulo

    ResponderExcluir
  2. Prezado jornalista,
    Na maioria das nossas cidades há famílias miseráveis em que todos precisam contribuir. Como negar ajuda a esses pobres sofredores? O estatuto da Criança e do Adolescente deixa claro o papel do Estado em cuidar desses menores abandonados. Então, ele também é o culpado. Talvez, o maior culpado por esse estado lamentável em que se encontram nossas crianças de ruas.

    Mônica Drumond - Rio

    ResponderExcluir
  3. Já tive a oportunidade de manifestar-me a respeito do menor abandonado em outro artigo escrito pelo brilhante jornalista Edward de Souza.
    Não vou aqui repetir aquilo que acho serem as causas dessa miséria social. Mas uma coisa é certa, todos temos uma parcela de culpa. Ao darmos uma pequena esmola a uma criança abandonada nas ruas, hipocritamente estamos pensando que estamos contribuindo para o sustento aquele menor e ficamos com a consciência tranqüila (coloquei o trema, por estar ainda em uso).
    Se fosse adotada aqui no país a tal de “tolerância zero”, os primeiros a serem presos seriam os membros do próprio governo, tal o descaso para com as leis – Estatuto do Menor, do Consumidor, do Idoso e daí por diante...
    É há pessoas que contribuíram para a situação do menor abandonado, que se encontram ainda no poder!

    ResponderExcluir
  4. Admito que já dei esmolas várias vezes. Ao mesmo tempo que nutrimos a incerteza de não saber qual será a finalidade do dinheiro (será alimento, álcool, droga ou existe, outro problema crônico. Uma pessoa dependente química, independente da idade, é tão capaz de cometer um crime, um instinto consubstanciado pelo vício, quanto um pai que chega em casa e vê a mãe tentando fazer o pequeno filho faminto dormir. A degradacão leva o homem a violência. Isso me lembrar a frase de um juiz no filme "A fraternidade é Vermelha" do mestre Kieslowski. O personagem disse: "Eu, se estivesse na mesma situação que eles, será que não roubaria, não mataria?". Talvez, a decadência, esse híbrido de homem e animal que corrompe os homens e os degenera, só seja compreendido por aqueles que tal situação experimentaram. É fácil julgar a desgraça de outrem enquanto se está sentado em uma poltrona numa sala com ar-condicionado e um copo contendo bebida ao alcance das mãos. Acho que dar esmola é tão nocivo quanto não dar. A esmola pode alimentar o vício, assim como o ato de nada dar a quem lhe estender a mão ser o estopim de um crime prestes a acontecer em alguma rua a alguns metros dali. Situações como essa precisam de soluções, não ocasionalmente reflexivas, mas profundas e concretas.

    Shirley Nogueira - Santa Catarina

    ResponderExcluir
  5. Sou contra dar esmolas! Existem associações que ajudam Crianças carentes e, em sua grande maioria, estão quase fechando as portas. A esmola trás um certo comodismo para estas crianças, e ao invés de você ajudar, você contribui na destruição do futuro da mesma.

    João Paulo - Botucatu -SP.

    ResponderExcluir
  6. Menores de rua estão se multiplicando como ratos de esgoto, graças a uma politica social que só dá esmolas, em vez de oferecer meios para capacitação profissional e trabalho às familias desses menores carentes.
    Infelizmente, é uma situação que nós cidadãos enxergamos bem , mas que o governo parece querer ver, tampando com a peneira... O assistencialismo deve ser usado como alavanca para uma politica social mais abrangente, de forma a promover a capacitação e a inserção social dos individuos assistidos por esses programas e não como um fim em si mesmo, pois leva à dependência e perpetua a mendicância....
    Mas, promoção humana dá trabalho, não aparece a curto prazo e não dá voto......
    Cristina- SP

    ResponderExcluir
  7. Já que o governo é tão bonzinho, que tal ele passar a distribuir tb a bolsa frutas e legumes pra compleatra a cesta básica??. Talvez solucionasse a situação dos "sem terra" e dos "sem comida".
    To indo lá me cadastrar já que trabalho e renda não existe.
    Isildinha- Osasco

    ResponderExcluir
  8. Pedir esmolas já virou moda, aqui na Itália. Assim que cheguei (2001), não se via pedintes, mas com o passar dos anos, a mudança da moeda e o grande número de imigrantes a economia do país fragilizou muito. Com tudo isso, começou aparecer pessoas pedindo esmolas e a cada dia aumenta mais...O governo anda muito preocupado e, mesmo dando uma assistência muito boa aos carentes, isso não está evitando o problema. Fico preocupada, mas vamos ver, pois o governo promete resolver o problema e espero que consiga mesmo!

    Roberta - Roma - Itália

    ResponderExcluir
  9. Quero me retratar, porque cometi um engano ao postar meu comentário.
    Queria me dirigir à Cristina, que fez o comentario anterior, mas, em vez de colocar o nome dela no assunto, coloquei no postante.
    Portanto, peço desculpas à Cristina pela minha falha.
    Isildinha- Osasco

    ResponderExcluir
  10. Deu vontade de opinar.
    Quem sou eu para decidir que a comida é melhor que o dinheiro? Que o abrigo da prefeitura é melhor que a calçada? Que o pedinte será mais feliz assim, do que assado? Acho que esse é o ponto. O "bem", nesse caso, é ambíguo. Se dou a esmola, dei e ponto final. O fim que vai levar aquele dinheiro deixou de ser, literalmente, da minha conta.

    Luiz Antonio - Ribeirão Preto

    ResponderExcluir
  11. O fato de estarmos discutindo o problemas desses menores abandonados que pedem esmolas, já mostra que a miséria nos incomoda, nos faz pensar sobre o assunto e concluimos que precisamos agir.
    Vejo o ato de "pedir esmola como a ponta do iceberg". A origem dos problemas, está focada em uma sociedade egoista em sua maioria e que através do capitalismo selvagem, que estimula a competitivade predatória, produz a cada ano milhões de excluidos, que não têm acesso a ensino de qualidade, ao trabalho, e sem condições de ter suas necessidades mais básicas atendidas.
    Esta situação os mantém com poucas opções e precisando sobreviver. Tente se colocar no lugar de uma destas pessoas e avalie as opções!
    Acho que a grande questão é: De que forma posso contribuir para construir um mundo melhor? Vamos encontrar a resposta e o mais importante, fazer a nossa parte.

    Martha Cardoso - Londrina - PR

    ResponderExcluir
  12. Ficamos num beco sem saida, pois ao mesmo tempo que sabemos que não ajuda, tb não podemos virar o rosto para esses pedintes, pois sempre nos vem a lembrança as palavras de Jesus: "quem dá aos pobres, empresta a Deus" e "faze o bem e não olhes a quem". Assim vamos alimentando o circulo vicioso da pobreza, já que o governo nada faz de efetivo para resolver a situação. Agora, a crise mundial vai ser mais uma desculpa para adiar as soluções.

    Sônia - S M. Paulista

    ResponderExcluir
  13. Qualquer tipo de esmola é, em minha opinião, prejudicial a quem recebe, principalmente às crianças. Isso, porem, não nos livra de responsabilidades tanto na busca de soluções como ao eleger nossos representantes. O poder público não é uma entidade abstrata. Ele é eleito por nós e, portanto, nossa responsabilidade.
    Creio que com programas voltados a tirar crianças da rua dando educação, carinho e idéia de família poderemos, após algum tempo, melhorar esta situação. Com relação aos adultos acho que a formação de cooperativas de trabalho artesanal pode servir como um paliativo. Que não se espere, no entanto, soluções rápidas e milagrosas. É um trabalho longo e que deve ser feito pelo poder público e a sociedade, juntos.

    Armando Nocera - Belo Horizonte

    ResponderExcluir
  14. Creio que está tudo errado! Li uma matéria nesse blog e estou vendo comentários distorcidos, que nada tem a ver com o assunto tratado. O jornalista escreve que estamos alimentando o tráfico com esmolas, baseando-se numa pesquisa. Mais: estamos transformando nossos menores em viciados e mais tarde em traficantes, com as esmolas dadas em semáforos, ruas e avenidas. É um caso sério, não se trata de dar ou não esmola apenas. É preciso pensar antes de achar que deu um real ou dois para que a consciência não fique dolorida (sei lá se consciência dói?) Ficou bem claro no artigo. Não devemos dar esmolas se não quisermos mais tarde ser vítimas do tráfico que pode invadir nossas casas e corromper nossos filhos. Um alerta para que nossas autoridades entrem em campo imediatamente e coibam essa atividade, ajudando esses menores de uma outra forma. Tirando-os do vício da esmola, cujo dinheiro abastece o tráfico, é isso. Pensem bem e leiam com calma o artigo antes de opinar. Sem querer ser chato, desculpem-me.

    Lauro Meneghetti - São Paulo

    ResponderExcluir
  15. Prezado senhor Lauro (comentário acima).
    Eu não consigo deixar de dar esmolas, pois é tanta miséria que o que eu posso fazer é meter a mão no bolso e dar uma ajuda. Tenho consciência de que não é legal, mas infelizmente não tenho o poder de acabar com a miseria que existe em nosso país, não importa o que esses meninos e meninas façam com o dinheiro. Quem somos nós para adivinhar se vão comprar drogas ou um pão para matar a fome? Mesmo assim, para mim é impossível deixar de dar esmolas. Como eu gostaria de poder ajudar muito mais do que dar esmolas... Essas pessoas precisam é ser incluidas no meio social e não excluidas, precisam de emprego, ganhar o seu próprio salário, talvez assim conseguiríamos viver num mundo sem esmolas. E, o melhor, sem drogas!

    Emílio Barbosa - Ponta Porã

    ResponderExcluir
  16. Ana Célia de Freitas.terça-feira, 10 março, 2009

    Olá meu amigo.
    Parabéns pelo número de pessoas que acessam seu blog, isto é resultado desses belíssimos artigos que você escreve.
    Sinceramente não gosto de dar esmolas,prefiro oferecer algo para a criança comer.
    Já passou da hora do Governo implantar Escolas em período integral, assim as crianças não ficariam na rua,e aprenderiam coisas importantes.
    Ana Célia de Freitas. Franca/Sp.

    ResponderExcluir
  17. Náo acho que devemos dar esmolas. A esmola não resolve os problemas socias do nosso país. Ela só serve pra aliviar a consciencia de quem as dá e consequentemente acomodar quem as aceita. Temos é que cobrar de nossos governantes politicas públicas e ajudar instituições sérias que fazem esse serviço.

    Gabi - Rio

    ResponderExcluir
  18. As pessoas estão confundindo Caridade com dar ou não esmolas, principalmente estes que usam argumentos baseados em suas crenças religiosas. É deplorável ver esta péssima interpretação! Afinal, não dar esmolas não significa que a pessoa não faz caridade, muito pelo contrário. Caridade se faz com consciência, ajudando a mudar o país, cobrando do governo, participando de ONG's, construindo projetos de inclusão social e muitas outras maneiras que melhorem a vida das pessoas que pedem esmolas. Já dar esmolas porque Madre Tereza de Calcutá ou Betinho disse que se deve dar, é uma tosca interpretação das palavras destes íntegros nomes.

    Milton L. Coimbra - Aracaju - SE

    ResponderExcluir
  19. Oi Edward!

    Adorei seu artigo e concordo com o Milton, que comentou aí em cima. O importante é ser solidário e saber como ajudar as pessoas que realmente necessitam através da caridade. Acho que dar esmolas não é a solução pra nada. Talvez sirva pra "tranqulizar" a consciência daqueles que se sentem um pouco responsáveis pelo problema.

    ResponderExcluir