terça-feira, 7 de setembro de 2010

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Hoje, 7 de setembro, comemora-se oficialmente a Independência do Brasil, uma vez que nesse dia, no ano de 1822, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo, o Príncipe Regente D. Pedro, ao receber a correspondência da Corte, teria proclamado o chamado "grito da Independência" à frente da sua escolta, processo que culminou com a emancipação política do nosso país do reino de Portugal. O 7 de setembro simboliza a integração entre os diversos setores da sociedade. A garra de um povo que, desde 1822, unido ao longo do tempo diante de tantos desafios, vem conquistando vitórias e consolidando a soberania nacional.
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Sou do tempo em que havia dois desfiles para se comemorar o Dia da Pátria. Antes tinha um grande desfile escolar. Era muito bonita a participação dos colégios. No dia 7 de Setembro era a parada militar com o povo na rua. Havia uma vibração estonteante, todos com a bandeira do Brasil. Com a tão decantada “democracia” começou-se a se dizer que a parada de 7 de Setembro era coisa de militar. Deixou-se de se levar os colégios e foram colocando na cabeça do nosso querido povo que assistir os desfiles era coisa para gente atrasada. Homenagear o país, as suas datas nacionais, não tem nada de vergonhoso nem de atrasado, pelo contrário. Antigamente o 7 de setembro era realmente comemorado. Era uma semana sem aulas nas escolas em virtude dos preparativos para o desfile. Diariamente presenciávamos os colégios treinando a "marcha" pelas ruas do entorno dos colégios. Hoje tudo está mudado. E para pior. Observem as emissoras de televisão quando repórteres fazem entrevistas com pessoas de diversos níveis sociais e perguntam: "você sabe o que se comemora no dia 7 de setembro? Grande parte, pessoas até de idade, desconhecem o motivo da comemoração, mas sabem que é feriado. Os mais jovens, nem se fala, desconhecem totalmente o motivo. É uma vergonha o brasileiro não saber o dia da Independência de seu país.
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Nos meus velhos tempos de estudante, só eram iniciadas as aulas depois que todos os alunos assistissem ao hasteamento da Bandeira brasileira, do Estado, do colégio e da Capital, ao som deste belíssimo Hino Nacional Brasileiro. Com certeza Deus iluminou a mente dessas figuras exponenciais: Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada, para comporem este inigualável hino que, sem bairrismo nenhum, é o mais bonito do mundo. As autoridades do nosso país deveriam inspirar-se nesses dois monstros sagrados para governarem o Brasil.
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Não mais se vê pelas ruas crianças agitando bandeiras, com as cores do pavilhão nacional adornando os cabelos! As moças não mais se interessam em aplaudir os garbosos militares em seus trajes de gala. Triste saber que a maioria do povo brasileiro desconhece o que se festeja no dia 7 de setembro. E são poucos aqueles que sabem cantar, pelo menos a primeira parte, do Hino Nacional. O que fizeram com o nosso patriotismo? Por que não há mais nas escolas as aulas de Moral e Cívica? Aonde foram parar os famosos cadernos "Avante" contendo o Hino Nacional na contracapa? Basta o povo recobrar a auto-estima e conscientizar-se de que é o legítimo senhor de seus desígnios, capaz de construir um presente mais justo e tranquilo, com os olhos voltados para o futuro, sem olvidar as glórias do passado. Assim, consolida-se o patriotismo que torna a Pátria melhor.
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O Brasil precisa liberta-se do medo e do complexo de inferioridade. Soltar do peito oprimido o grito de independência dos maus políticos e também dos alimentadores de intenções escusas. Assumir as suas vontades e decidir os seus caminhos. O Brasil coberto de verde amarelo. Vamos despertar esse gigante adormecido. Vamos extirpar as ervas daninhas dos nossos bosques que outrora tinham mais flores. Temos que transmitir de geração para geração o orgulho que temos de nosso país e ensinar nossas crianças a importância de datas. Nossas escolas precisam intensificar o ensino do civismo realizando programas que demonstrem e esclareçam algumas datas e porque são importantes para nós brasileiros. Cantar o Hino Nacional é cantar o nosso próprio orgulho em ser brasileiro, de mãos dadas com a igualdade, com a felicidade, com a alegria em viver num país sem igual, mas que precisa ser realmente para todos na verdadeira acepção da palavra. E já que estamos num ano eleitoral, onde serão escolhidos os novos representantes do Brasil, nada mais apropriado do que refletir sobre a responsabilidade dos brasileiros em escolher os candidatos que comandarão os rumos do país. Votar é um ato de cidadania e de compromisso com o Brasil que queremos. Escolher com critério e seriedade as pessoas que representarão os interesses do povo brasileiro e não os seus interesses próprios é uma atitude que poderá mudar o futuro das novas gerações. Precisamos criar essa consciência cívica, escolher bem e cobrar dos escolhidos o dever de servir ao povo acima de tudo. Não fujamos à luta! Salvemos a Pátria Amada!
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UM POUCO DA NOSSA HISTÓRIA

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Alguns pontos da história da nossa independência sempre chamaram a minha atenção, ainda nos bancos escolares. Um deles sobre os reais motivos que levaram D. Pedro a se insubordinar e desobedecer ordens de seu pai para que voltasse para Portugal, se submetendo ao rei e às Cortes. Nesse ponto, os livros de história, pelo menos a maioria, são contundentes. Pesou nesta decisão uma carta enviada a D. Pedro por José Bonifácio de Andrada e Silva, Membro do governo provisório de São Paulo, que aconselhava o Príncipe Regente a romper com Portugal, e uma outra da esposa, Maria Leopoldina de Áustria, apoiando a decisão do ministro e advertindo: "O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece". Impelido pelas circunstâncias, D. Pedro pronunciou a famosa frase "Independência ou Morte!", rompendo os laços de união política com Portugal.

Outro ponto interessante é sobre o começo do endividamente externo do Brasil. Diz a história que, para ser reconhecido oficialmente, o Brasil negociou com a Grã-Bretanha e aceitou pagar indenizações de 3 milhões de libras esterlinas a Portugal. Alguns historiadores afirmam que foram 2 milhões de libras esterlinas. A Grã-Bretanha saiu lucrando, tendo início o endividamento externo do Brasil. Esse empréstimo ficou conhecido como "empréstimo português", destinado a cobrir dívidas do período colonial e que na prática significava um pagamento à Portugal pelo reconhecimento de nossa independência. A independência não alterou as estruturas sócio econômicas e restringiu-se a um movimento político muito limitado, mantendo o regime monárquico e o herdeiro português no trono, aliado aos latifundiários conservadores sob o comando de José Bonifácio de Andrada e Silva.

A aceitação do pagamento da indenização está ligada aos vínculos mantidos com Portugal e ao mesmo tempo aos interesses ingleses, que somente reconheceu nossa soberania após o acordo com Portugal. Em 1829 foi realizado novo empréstimo que passou para a história como "o ruinoso" e serviu para cobrir parcelas não pagas do empréstimo anterior. Do total tomado emprestado, o Brasil recebeu apenas 52%, pois o restante serviu para cobrir os juros da dívida anterior. Dois novos empréstimos importantes foram realizados durante o Império - em 1843 e 1852 - utilizados ainda para pagar débitos relativos ao primeiro empréstimo, que somente foi saldado em 1890.
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Durante esse período o Brasil ainda endividou-se ainda mais com a Guerra contra o Paraguai. A Inglaterra forneceu os navios e empréstimos ao Brasil para o conflito que também interessava à ela. Daí por diante a coisa descambou. Durante a república do "café com leite" o endividamento aumentou ainda mais, sempre para garantir os privilégios da elite, até chegarmos ao período que ficou conhecido como "milagre econômico", quando a indústria brasileira cresceu a taxas elevadíssimas graças ao ingresso maciço de capitais estrangeiros, fazendo com que a dívida saltasse de 4 para 12 bilhões de dólares.
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O endividamento pós 64 tem dois estágios. O primeiro é o dos governos Costa e Silva e Médici, nos anos 68-73, do "milagre econômico". Nesse período, os empréstimos foram usados para, ao cabo de tudo, realizar operações de crédito na compra de geladeiras, secadores de cabelo, automóveis e outros bens supérfluos e também para financiar ar grandes obras urbanas e serviços que viabilizaram a existência dos automóveis e das geladeiras, tais como estradas, viadutos e redes de energia elétrica. Em 1982 foi o ano da falência declarada do modelo brasileiro de desenvolvimento e o país recorre ao FMI. Ao final do governo Figueiredo, que encerra a ditadura militar, a dívida externa chegava a casa de 100 bilhões de dólares. A Dívida atual, que o Presidente Lula afirma ter pago, alcança a casa dos 231 bilhões de dólares. Estes dados consegui no site do Banco Central.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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Nesta quarta-feira, o vigésimo primeiro capítulo de "Memória Terminal", série inédita escrita pelo jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. Acompanhe!
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domingo, 5 de setembro de 2010

AS BELAS HISTÓRIAS DO RÁDIO ESPORTIVO

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O MENINO DO RETRATO
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Provavelmente, no jornalismo, o pessoal inserido em uma equipe de esportes (rádio, jornal ou TV) é o que mais bate pernas pelos mais distantes rincões. Vivência diferente nos costumes e jeito das pessoas nativas e, em muitas incursões, depara-se com fatos simples, que marcam a passagem, nada corriqueira, porém inesquecível.
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Uma quarta-feira de maio de 1988, a equipe de esportes da Rádio Diário foi até a bela Piracicaba, cerca de 230 quilômetros do ABC, para a transmissão de um jogo entre XV de Novembro x Santo André, então válido pelo Paulistão daquele ano. Um trabalho rotineiro em uma cidade por demais conhecida. Apenas o Edward de Souza (narrador) e eu (comentarista). Chegamos por volta das 18h e, claro, fomos fazer a refeição do começo de noite no Mirante, reduto obrigatório de quem vai a Piracicaba. Quem visita Roma tem que ver o Papa, quem chega a Ribeirão Preto tem que tomar o chope no Pinguim, portanto em Piracicaba é quase obrigatório degustar um pintado na brasa no Mirante. Faz sentido.
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Por volta das 19h rumamos para o Estádio Barão da Serra Negra, na Rua Silva Jardim, 849, Bairro Alto, ao lado do cemitério, onde o XV manda seus jogos. Naquele tempo havia, das 19h às 20h, o programa governamental de rádio A Voz do Brasil e o Projeto Minerva (também do governo federal), das 20h às 20,30h e, por isso, as transmissões eram iniciadas na sequência. Algumas vezes até com atraso, porque a maioria dos jogos naquela época começava 20,30h. Equipamento instalado e testado, eu e o Edward nos acomodamos aguardando o início dos trabalhos, quando um garoto que estava nas arquibancadas, no degrau próximo as cabines, começou puxar papo (deveria ter uns 12/13 anos). Perguntou ao Edward de onde a gente era, qual o nome da rádio, se a gente torcia para o Santo André, se conhecia o Pelé, etc., etc.? Roupa humilde, porém limpa, chinelo de dedos, boné surrado, cabelos longos em desalinho e dentes claros. Disse que entrou no estádio "de favor" já que não possuía sequer uma moeda para comprar pipoca, muito menos para o bilhete de entrada.
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Vendo a máquina fotográfica que o Edward sempre levava em nossas viagens (perdeu umas duas ou três, é verdade, esquecida nos botecos da vida), o menino pediu se a gente poderia tirar uma foto dele. Rapidamente, já que faltavam poucos minutos para o início do nosso trabalho, o Edward empunhou a máquina e pipocaram três ou quatro flash em direção ao garoto. Olhos brilhando, demonstrando felicidade, Marcelo - descobrimos seu nome depois - sorria exibindo os dentes alvos. Em seguida, como a nossa transmissão já estava no ar, o menino sumiu no meio da pequena torcida que estava no Barão de Serra Negra para o desinteressante jogo de campeonato que pouco ou nada alterava a posição mediana do XV ou do Santo André na tabela.
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No intervalo, o garoto reapareceu e, um tanto tristonho, disse: "Não valeu nada o senhor - encarando o Edward - tirar as fotos. Vocês vão embora e não poderão me entregar os retratos". O Edward não disse nada, mas eu notei (estava comentando o primeiro tempo do jogo) que algo não estava bem. No final de minha participação intermediária, no momento dos comerciais, meu colega de trabalho contou-me que o garoto estava triste porque não receberia as fotos: "Quem disse que não receberá?”, retruquei. Pedi ao menino seu endereço para enviar as fotos pelo correio. Argumentou que não tinha o CEP (acho que ele nem sabia do que se tratava). Anotei a rua, o número e o bairro, porém senti que ele não estava acreditando que as fotos lhes fossem remetidas. Acabou o jogo e, missão cumprida, retornamos ao ABC sem mais ter visto o adolescente.
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Dois ou três dias depois, o Edward me entregou as fotos, reveladas e nítidas (a máquina do cara era boa, pena que também tenha dormitado em um balcão de boteco e sumido). Em um envelope escrevi o endereço que o rapazinho havia fornecido (descobri o CEP em livro próprio) e mandei as fotos. Coloquei no verso nosso nome e o endereço da rádio, desejando felicidades ao garoto. Encerrei o assunto. Algum tempo depois (não consigo dimensionar) recebi, na rádio, uma correspondência oriunda de Piracicaba: era o Marcelo que, com letras bem legíveis, quase desenhadas, agradecia o senhor de bigodes (o Edward já os usava) e o outro mais baixinho que tiraram e lhes enviaram as fotos. Dizia estar muito feliz, porque havia contado à mãe e aos amigos de escola que tinha tirado fotos com um pessoal de rádio, mas não acreditava que seriam enviadas. Mostrei a missiva do menino ao Edward e ficamos emocionados, já que um simples gesto, de ambas as partes, proporcionou tripla felicidade.
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Nada nessa vida é tão de graça, mas se “darmos” sem pensar em “receber” em troca, seremos muito mais felizes, mais alegres e mais humanos, porque essa é a essência do ser humano, amar ao próximo sempre com um sorriso no rosto. Nunca mais tivemos notícia do Marcelo, mesmo retornando outras vezes a Piracicaba, mas não importa. São passados 22 anos, mas jamais esqueci o episódio, simples, banal, porém com reflexos eternos e, creio, o Edward e o Marcelo também jamais esquecerão. Outras histórias inusitadas, marcantes, alegres, tristes e corriqueiras aconteceram nessas longas e gratificantes esticadas por este mundão e que deverão ser contadas mais adiante neste espaço.
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Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC.
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

SÉRIE RECEBE PERTO DE 500 VISITAS
Registradas 482 visitas ao blog durante a postagem de mais um capítulo da série de José Marqueiz. Recebemos cerca de 40 e-mails pedindo explicações sobre o cancelamento dos comentários e o fim do ciclo de amigos neste espaço. Todos os e-mails foram respondidos e os esclarecimentos prestados. Na próxima quarta-feira voltamos com o 21º capítulo da série "Memória Terminal", escrita pelo saudoso amigo José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo. Até lá algumas postagens poderão eventualmente ocorrer, todas elas com os comentários suspensos.
*Edward de Souza

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


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A missionária demonstrava estar atordoada, sem saber qual providência adotar, ao me ver naquele estado deplorável. A cidade mais próxima era Normandia e, até lá, o percurso teria de ser feito a pé. E eu não tinha condições de caminhar sozinho. A não ser amparado e, mesmo assim, com muita dificuldade. Vi a missionária conversando com alguns índios, que foram até o interior da mata e voltaram, minutos depois, com uns galhos de árvores e pedaços de cipós. Eu apenas observava a movimentação em torno, sem quase nada compreender. Só entendi quando os índios, habilidosos, em pouco tempo improvisaram uma maca. Conclui: eles haviam decidido me levar para Normandia deitado naquela maca. Conclusão certeira.
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Lembro-me vagamente de ter sido uma longa viagem, ainda interrompida várias vezes devido aos meus desejos de evacuar – e expelia apenas sangue. A missionária, talvez mais que eu, temia que a situação se agravasse no meio da floresta e ela sem nenhum recurso para me socorrer. Em Normandia – onde há comentários de que Pappillon ali esteve após a fuga – quase não tem unidades médicas capazes de realizar atendimentos mais graves. O médico, ou enfermeiro que me atendeu, sugeriu a minha imediata transferência para Boa Vista, a capital. Para isso, a localidade dispunha de uma velha ambulância.

Também não sei como cheguei a Boa Vista. Só me lembro que, em consequência de longo tempo sem bebida alcoólica, fui apossado – pela primeira vez na vida – de delirium tremulus (?) e, traduzindo, comecei a delirar e a tremer. Via animais andando pelas paredes, pessoas tentando retirar a sonda de meu nariz e gritava, gritava, clamava por ajuda. Até que, num momento de completa loucura, arranquei todos os aparelhos que se encontravam grudados em meu corpo, levantei-me da cama daquele quarto do hospital, e fui até a sala da diretoria. Fui queixar-me dos animais nas paredes, das pessoas que me azucrinavam. O diretor do hospital se irritou com o meu gesto inconveniente e exigiu mais rigor dos enfermeiros para comigo. Passei a ser vigiado e, em vez de ter alta no dia seguinte, permaneci quase uma semana internado. Quando reagia, exigindo minha liberação, simplesmente me aplicavam uma injeção e eu desfalecia, sem nenhum poder de reação.
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Sei que numa tarde, ainda sonolento, recebi a visita de dom Aldo Mongiano. Aproveitei a sua presença para que interviesse e me retirasse daquele lugar. Queria voltar para São Paulo, ver minha mulher e, mais tranquilo, procurar assistência médica. O religioso ficou de me atender. Mesmo assim, só fui liberado num sábado, um sábado de Aleluia. Nesse mesmo dia, marquei meu retorno a São Paulo. O vôo sairia à meia-noite, faria escala em Manaus, Brasília e só depois pousaria na capital paulista. Telefonei para minha mulher e pedi que me esperasse na manhã seguinte no aeroporto de Guarulhos.

Para a missionária e o bispo prometi que escreveria o livro, sem mesmo entrevistar os índios, apenas baseado nos documentos que eles haviam me cedido. E cumpri minha promessa. Seis meses depois, entregava o manuscrito de Os Filhos da Serra do Sol. Nesse mesmo período, fiz as consultas e os exames necessários. Apesar de constatada a hemorróida, optei por não operar. O que ocorreria dois anos depois, quando não suportava mais o incômodo.
Há mais de três décadas, acredito que em uma crônica publicada em A Crítica, de Manaus, intitulada Lamento, expressei o amor que um homem sente por uma mulher. Nesse caso, meu amor pela Ilca. A crônica merece ser transcrita pela transparência, pela ausência total de pudor ao me revelar um homem apaixonado. Lembro-me apenas que estava morando sozinho em Manaus à espera da Ilca. Na data prevista, por razões explicadas depois, ela não compareceu. E fui então para a Escadaria dos Remédios, local que reunia os boêmios da capital amazonense, às margens do rio Negro e escrevi: .

A Escadaria dos Remédios está de luto. Seu povo está triste, cabisbaixo. Nas mesas, o quadro solitário do abatimento e da angústia. As garrafas de cerveja permanecem vazias. O silêncio amordaçou as vitrolas e as músicas não tocam mais. O rio Negro parou suas águas e as embarcações continuam ancoradas. Até a brisa, a doce brisa que vem da floresta, deixou de soprar. Uma densa nuvem escura encobriu o azul constante do céu amazônico. A chuva molhou o sol e a lua. Uma tristeza imensa, incomensurável como o rio Amazonas, parece ter inundado o território livre, romântico, promíscuo, puro, rebelde e violento da Escadaria dos Remédios.
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Não há movimento. Tudo está parado. E são de tristeza as poucas ondas do rio. O boto, antes tão exibido, não pula mais como um golfinho ao aproximar das embarcações. Os pássaros, em revoada, fugiram ninguém sabe para onde e não mais se ouve seus cantares ao amanhecer. Vitória-régia murchou, como que enfeitiçada pelo sopro de uma bruxa má.
Deixaram de pescar os caboclos; parece até que tucunaré e tambaqui fugiram no manancial escuro e profundo, doce e misterioso da bacia do rio Negro. As casas, flutuantes, perderam seu colorido, sua beleza primitiva, sua dócil rusticidade. Os bares flutuantes cerraram suas portas. Agora não dá mais para tomar um aperitivo nem comprar peixe e coco verde. O barco emperrou, não quer mais navegar. Ainda mais distante, quase invisível, ficou o horizonte da felicidade.

A natureza também tem seus sentimentos. Tanta festa ela fez, com tanta beleza se enfeitou, para depois se decepcionar. Pintou o céu de um azul jamais visto, enviou sua mais doce brisa, deu aos pássaros o seu mais belo cantar e transformou o rio Negro no mais doce dos mares. Reuniu todas as embarcações da região, deu alegria aos barqueiros e pescadores. Fez tremular ainda mais as bandeiras verde-amarela das embarcações. O entardecer ganhou novo colorido e ficou parecendo um cartão postal. À vida deu mais consistência. Manaus estava em festa. Tudo isso, todos esses preparativos para recepcionar a mais linda e mais amada das mulheres. A menina eterna, de lábios de anjo e cabelos de fada. A companheira, amiga e mãe de um homem solitário. A mulher que sabe sorrir para não fazer chorar e cantar no instante de lamentar.
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Mas você não veio. Não quis pisar no chão de Manaus e respirar o ar mais puro do mundo. Não quis conhecer o Teatro Amazonas, principal símbolo da fase áurea da borracha. Nem ir às praias fluviais. Visitar seus bares e restaurantes, tomar cachaça de Belém e comer uma peixada típica amazonense. Não aceitou meu convite para navegar pelos rios amazônicos. E conhecer o território livre da Escadaria dos Remédios, seus homens e suas mulheres. E todos a esperavam. De tanto eu cantar sua beleza, imaginavam que você viria por sobre as ondas do rio Negro, flutuando como a mais maravilhosa das ninfas. Escreve e diz apenas aguardar meu regresso, certa da minha partida imprevisível.
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Sua ausência está desmoronando o império dos românticos e dos loucos da Escadaria dos Remédios. Está alquebrando os homens de braços de aço e peito de ferro. Homens acostumados a enfrentar as mais violentas tempestades. A subviver onde a subsistência quase não existe. Homens valentes e destemidos como João Balduíno, de Jorge Amado. Homens que madrugam com um copo de cerveja na mão e uma prostituta nos braços. Mas que são dóceis quando amam. Frágeis, até. Muitos chegam a ser até piegas. Como eu. Mas o amor é uma lista telefônica de perdões. O Amazonas ainda espera por você, Ilca...
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo primeiro capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
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Edward de Souza
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*Os comentários para este capítulo, escrito pelo saudoso jornalista José Marqueiz, foram suspensos. Agradecemos sua compreensão.
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MEMÓRIA TERMINAL ENCERRA ESSE BLOG

NESTA QUARTA-FEIRA MAIS UM CAPÍTULO DE MEMÓRIA TERMINAL, SÉRIE INÉDITA ESCRITA PELO JORNALISTA JOSÉ MARQUEIZ, PRÊMIO ESSO NACIONAL DE JORNALISMO. OS COMENTÁRIOS SERÃO DESATIVADOS A PARTIR DE HOJE E ESTE BLOG TERÁ SUAS FUNÇÕES ENCERRADAS ASSIM QUE FOR PUBLICADO O ÚLTIMO CAPÍTULO DESTA SÉRIE, CUMPRINDO ASSIM NOSSO COMPROMISSO COM O LEITOR.
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GRATO...
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EDWARD DE SOUZA.

domingo, 29 de agosto de 2010

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Como contei no último final de semana neste blog, fui vítima de dois sequestros relâmpagos, ambos bem complicados e ameaçadores. O raio pode não cair duas vezes no mesmo lugar, mas sou testemunha, despenca mais vezes na mesma cabeça. Passados quase dez anos do primeiro, marcado por sequelas emocionais, o segundo, que completou uma década, igualmente deixou rastros que dificilmente se apagarão. Fisicamente sai ileso de ambos, mas as marcas das ações permaneceram.
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Uma tarde ensolarada de domingo, trafegava pela Avenida Robert Kennedy, Bairro Assunção, São Bernardo, quando fui abordado por um trio; dois rapazes e uma moça. Pelos meus cálculos, nenhum deles passava dos 25 anos. São Bernardo tem duas Avenidas com o nome Kennedy, ambas com intenso movimento de veículos e de pessoas que procuram as duas vias para o lazer. A Kennedy (John) fica no sofisticado Jardim do Mar, que abriga a classe média alta, mansões e hotéis de luxo; a Robert Kennedy, no Assunção, mais modesta, porém com moradores de bom poder aquisitivo. Na região da Robert Kennedy estão instaladas algumas empresas de porte como Scania, Rolls Royce, a Nestlé e também o heliporto, hoje utilizado pelo presidente Lula quando vem a São Bernardo, onde tem residência.
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Bem, meu caminho era o Bairro do Alvarenga, as margens da Via Anchieta e Imigrantes. Iria visitar um amigo adoentado e que residia ao lado da fábrica da Nestlé, mas não fui. Por ser uma tarde de domingo a Robert Kennedy estava com pouco ou quase nenhum movimento de veículos, o que permitia, se desejasse, cometer infração e ultrapassar os cruzamentos com o semáforo no vermelho. Como não era, e não é, o meu costume, parei no farol fechado em frente ao Mesc - um dos muitos clubes recreativos de São Bernardo. Percebi que no canteiro que separa as duas pistas havia uma moça e dois rapazes e imaginei, naturalmente, que fossem atravessar a via. O trânsito era zero naquele momento e poderia passar com o farol vermelho sem problemas, mas a prudência fez com que eu parasse. Em segundos estava com um revólver no meu ouvido, arrastado para o banco traseiro por um cara, o outro dirigindo meu Uno e a moça no banco do passageiro com a arma abaixada, mas na mão.
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A mesma ladainha: "calma tio - dizia o rapaz que estava ao volante - só queremos grana". O cara que estava comigo no banco traseiro pediu meu cartão do banco. Felizmente, não viu meus outros documentos, os "manos" odeiam jornalistas. Logo à frente de onde fui abordado, há uma rotatória chamada área verde, onde ficava uma dessas viaturas de policia comunitária e os caras sabiam disso: "vamos passar perto da viatura e se o senhor abrir a boca estará morto, fique quietinho ai e tudo irá bem", decretou o moreno de bigodes ralinhos que estava ao meu lado. Cruzamos a área verde sem problemas e descemos a Joaquim Nabuco, rua do pronto-socorro central, que normalmente tem viaturas da polícia, mas o motorista se apressou em me alertar de novo que poderia me matar ali, caso desse qualquer alarme. Seguimos em direção ao Centro de São Bernardo, onde ficam as agências bancárias da região central. Com pouco de coragem, ou burrice, arrisquei: "olha amigos (amigos?), acho que vocês pegaram o cara errado e estão perdendo tempo, além do risco da casa cair" - não dei tempo para apartes e prossegui: "a agência do meu banco fica exatamente na esquina da rua que eu moro (Marechal Deodoro com Rio Branco, ao lado da Praça da Matriz). Além de estar sem saldo no banco (não menti), sou muito conhecido no pedaço e sempre há na praça da igreja uma viatura. Se vocês pararem ali e os taxistas da praça me virem certamente irão acionar a polícia".
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Sei lá se meu anjo da guarda, novamente, não estava na televisão vendo o jogo do Timão, mas os "manos", assim que entraram na Marechal Deodoro, pararam próximo a Praça Lauro Gomes, onde está a famosa feirinha paraguaia do ABC e muitos camelôs também me conhecem. Pararam, mas não desligaram o motor do Uno. Ao lado havia uma banca de jornais, cujos donos e empregados são meus amigos: "oi Lavrado, tudo bem?" disse a mulher da banca: "tudo bem", respondi, com o coração saindo pela orelha, mas foi a hora. O "mano" que dirigia engatou uma primeira e saiu devagar para não despertar suspeitas. Estávamos cerca de 150 metros do banco e não havia como retornar sem passar em frente da agência, da igreja matriz, da viatura e de uma meia dúzia de taxistas do ponto. Então os caras resolveram me deixar. Falavam entre eles que não valia a pena ficar comigo e correr riscos desnecessários, uma vez que eu não tinha grana, ao menos naquele banco. Mesmo assim eu tremia, pois na praça, quando a mulher da banca me cumprimentou achei que tinha chegado o fim da linha, já que o trio estava nervoso e o cara, que havia pego o revólver da menina, tremia mais que eu.
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Pela Marechal Deodoro fomos em frente, o piloto entrou na Avenida Faria Lima, ao lado do corredor do trólebus, e quando chegamos na rotatória do Paço Municipal, encostou o carro em frente ao Conjunto Anchieta. Descemos todos e eu já me apressava em cair fora e largar o carro com os caras, mas eles saíram correndo, apressados, rumo a favela do DER, que fica na região do Paço. Sorte minha, porque minutos antes, o “mano” que dirigia meu Uno sugeriu rumar para o Rio Pequeno, na Represa Billings, onde resolveriam o que fazer comigo, pois temiam que, me liberando no Centro, eu poderia acionar a polícia. Ainda bem que desistiram da ideia e se mandaram a pé. Minhas pernas tremiam e, diabético que sou, achei que não sairia dali. Mas consegui. Como deixaram as chaves no contato, para minha sorte, liguei o carro e voltei para casa. Meu amigo (doente), que eu iria visitar, economizou algumas xícaras de café ou umas latas de cerveja.
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Não fui ao boteco da Praça da Matriz para o tradicional papo de encerramento do domingo. Sem opção, vi a tranqueira do final do Faustão e a mesmice do Fantástico inteiro. No apto que morava, ainda tremendo, agradeci a Deus por mais esta chance, pois pensava que meu crédito com Ele havia se esgotado no primeiro sequestro. Bem possível que essa tenha sido a primeira vez na história que alguém agradeceu aos céus por estar com a conta bancária no vermelho.
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Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no ABC
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010


SÓ NOS RESTA A ESPERANÇA

J. MORGADO

Dia deste acordei um tanto descrente quanto ao destino de nosso país. Acho que, como diz o dito popular, “levantei com o pé esquerdo”.

Os cartazes com candidatos a cargos eletivos sorrindo. Sorrisos cínicos e hipócritas. A maioria, nunca pôs os pés em minha cidade. E agora aparecem em grandes pôsteres dizendo: votem em mim!

Na televisão, discursos com as mesmas promessas de sempre.

Interrogados por jornalistas inteligentes (alguns nem tanto) saem pela tangente tentando, com respostas prolixas, driblar o entrevistador e os telespectadores.

Todos têm soluções milagrosas para os problemas da saúde, da educação, da segurança, do transporte... Mas eles (os problemas) continuam, governo após governo.

Na saúde, a culpa é sempre do governo federal, do estado ou do município. Um jogo de empurra que já se tornou bastante indecente. Filas quilométricas e agendas com datas a perder de vista para consultas ou procedimentos para mitigar ou diagnosticar doenças graves. Velhinhos em longas filas de espera.

Cadê os políticos que só se apresentam para fazer propaganda enganosa?

Na educação, um ensino cada vez mais decadente.

Na segurança, a desvalorização do policial.

Acabei de fazer uma viagem por estradas paulistas e mineiras. 1800 quilômetros percorridos. Sabem quantos policiais eu vi fiscalizando ou fazendo policiamento preventivo? Nenhum! Salvo os que se encontravam nos postos fixos.

Nos transportes, nota-se o lobby junto ao governo para que as coisas continuem como estão. Cadê o transporte ferroviário e fluvial?

Falando em transporte fluvial, nos faz lembrar as inúmeras promessas para “desintoxicar” o Rio Tietê. Há dezenas de anos isso vem acontecendo. Empréstimos são efetuados para deixar o histórico rio livre do caldo maldito que as indústrias (todos sabem quais) despejam diariamente no caudal que nasce e deságua no estado de São Paulo.

Parece-me que quase vinte municípios da Grande São Paulo utilizam o rio para despejar suas imundícies.

"-Vamos fazer com o Tietê o que os europeus fizeram com o Tâmisa e o Sena (rios outrora poluídos e hoje totalmente limpos e piscosos) -". Promessas feitas por vários governadores. O dinheiro aparece, mas as toneladas de esgoto não tratado não desaparecem!

Falo do Tietê como poderia falar da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro ou do Guaíba, em Porto Alegre e de milhares de outros rios e ribeirões que servem de despejo para grandes, médias e pequenas cidades de nosso imenso Brasil.
As favelas outrora inexistentes em médias cidades brasileiras proliferam! E dizem que os pobres estão menos pobres. Não dá para acreditar!

E agora, vejo na internet, uma lista enorme de “cigarras” se candidatando para os cargos legislativos federais e estaduais.

Parece que a fábula de Esopo e recontada por La Fontaine nunca esteve tão viva entre nós:

“Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!”(...)

Palhaços, cantores, lutadores, jogadores de futebol, mulheres-frutas... E sei mais lá o quê!

E o pior de tudo isso é que os “fãs clubes” desses indivíduos, ignorando a importância do voto para melhorar a democracia (disciplina e responsabilidade), irão votar neles ignorando que se tornarão guitarras e nada mais!

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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010


O CINISMO E SEUS REQUINTES


Filosofia surgida na Grécia antiga, o cinismo caracterizava-se pelo desprezo às convenções sociais e a procura da felicidade através de uma vida reta e virtuosa, liberta da servidão dos costumes e instituições humanas. Com o tempo, o termo adquiriu conotação pejorativa, pela contradição verificada entre o ideal ascético divulgado e o hedonismo vivido. O cinismo despreza todas as fórmulas da decência e da ética e parece que tem aumentado muito o seu séquito de seguidores nos tempos atuais. No Brasil, então, nem se fala! Os nossos políticos exibem um cinismo profundo cada vez que precisam defender-se, negando até mesmo a própria realidade que, muitas vezes, aparece, escancarada.

Os cínicos são malandros da pior espécie, hábeis e ousados, experientes na arte de mentir e encontrar desculpas para o seu ultrajante comportamento, mesmo que lhes seja impossível ocultar a verdade, porém, sempre há um jeitinho, uma manobra, um acordo de compadres, geralmente celebrado com o apoio de seus pares, sejam do governo ou da oposição, mostrando que o corporativismo reina nas instâncias do poder e, como sempre, uma mão lava a outra...

Certo é que o cinismo demonstrado pelos políticos corrobora a máxima, mais cínica ainda, de que “a mentira muitas vezes contada, se transforma em verdade” ou, “a acusação, muitas vezes negada, inocenta o acusado”. Está claro que nada vai mudar esse inferno ético e moral em que vivemos enquanto não for afastada, definitivamente, a certeza da impunidade, o mal do século (ou do milênio), alegria e inspiração dos corruptos.

Estamos em plena campanha eleitoral e pressinto, com temor, que está em marcha, maquiavélica e cuidadosamente arquitetada, uma farsa destinada a institucionalizar o populismo, de fundo messiânico, em que o pai de todos entrega o povo para a mãe de todos, como se a sociedade não tivesse querer e nem escolha. De certa maneira, não tem, mesmo, porque a mentira, tantas vezes reiterada, acaba sendo a única verdade.

Pior mesmo é perceber que esse festival de cinismo e frouxidão moral acabou por contaminar toda a sociedade. Decência, honradez, honestidade, lealdade e competência já não são consideradas qualidades que podem levar uma pessoa ao sucesso, seja em que seara for. Agora, oportunismo, hipocrisia, esperteza, má-fé e mais uma lista infindável de safadezas, estas sim, são atributos que asseguram carreira meteórica, por mais inexpressivo que seja o cidadão. O que vale é o pendor para a venalidade, essa sim, considerada uma competência sine qua non para o êxito de qualquer empreendimento.

Como parece impossível combater a corrupção e bastante difícil acabar com a impunidade na atual conjuntura, parece que o combate à retórica do cinismo passa por conservarmos, a todo custo, uma mídia livre e autônoma, que privilegie a liberdade de informação e continue denunciando os cínicos de plantão e de ofício. Entretanto, percebo, desolada, que aquela mídia combativa e incorruptível até há pouco tempo está sucumbindo, em troca de um punhado de moedas, assegurada pela veiculação de anúncios institucionais, gordos financiamentos para expansão e rolagem sine die de dívidas. Bem poucos resistem e continuam autônomos, éticos e honrados. Prefiro continuar nesta trincheira e me nego a usar o véu do cinismo fundamentalista que está contaminando o último bastião da democracia.

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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letra. Suas experiências e vivências estão no blog Interface Ativa! Dê uma espiadinha em http://niviaandres.blogspot.com
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