quinta-feira, 8 de julho de 2010


O Centro de Tratamento e Pesquisa A. C. Camargo, mais conhecido como o Hospital do Câncer de São Paulo, é um dos maiores e mais modernos complexos hospitalares da América especializados no tratamento dessa doença. Por seus corredores já passaram e passam centenas de milhares de pessoas à procura de solução para os seus problemas, seja por meio de cirurgia ou pelo tratamento quimioterápico ou radioterápico. Nas horas em que não há médicos nem enfermeiros visitando os pacientes na cama, costumo andar pelos corredores, carregando um saco plástico com os medicamentos e duas máquinas – uma para filtrar a dieta e outra a quimioterapia -, para melhorar o fluxo sanguíneo.

Numa dessas caminhadas, foi que avistei – seria ele mesmo? – o maestro Flavio Florence, 50 anos – oito a menos que eu – e que há vinte anos rege a Orquestra Sinfônica de Santo André. Fui ao seu encontro e nos cumprimentamos. Ele demonstrava tranquilidade e a resignação necessárias para tratar um câncer de cólon, diagnosticado em novembro de 2006. Espera, apenas, que os médicos da Clínica Oncológica definam em que estágio se encontra a doença. Vem preparando-se, também, psicologicamente. Uma de suas leituras é o Câncer como Ponto de Mutação, do psicoterapeuta Lawrence LeShan. Possui dois livros de cabeceira: Grandes Esperanças, de Charles Dickens e As pequenas Memórias, de José Saramago.
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Ao contrário de muitos acometidos pelo mal, o maestro tomou a iniciativa de comunicar à Imprensa de que, neste ano de 2007, devido ao tratamento, irá diminuir o número de suas regências. Florence não se oculta sob o manto da fortaleza masculina e reconhece: “Foi devastador saber da doença. Cresci imaginando o câncer como uma sentença de morte sofrida. Esse pensamento vem com frequência, principalmente na quimioterapia. Não tenho perfil desse câncer, que afeta pessoas com mais de 50 anos. Levo vida saudável, corro, me alimento bem. Não consigo ver porque esse raio caiu na minha cabeça”.

Admite que o seu estado físico seja bom e não o faz sentir com câncer. Mas é inevitável – reconhece – não pensar na morte, no trabalho, na orquestra, nas partituras que deixara. Florence reconhece que a doença transformou a sua vida. Acredita que está mudando, começando tudo a partir do zero, dando atenção ao que não via antes. Sente que pertence ao grupo de sobrevivente, não ao dos condenados, e que a sua obra será a chance de sua sobrevida.

Essa passagem, quando conto, a pessoa pensa ser uma anedota. Ocorreu quando eu estava na sala de espera do Centro de Quimioterapia. Ao meu lado, um senhor, com pouco mais de cinquenta anos de idade. Um pouco aborrecido, comentei com ele sobre o meu receio de perder a voz. E ele, de pronto, sério, me disse: E eu, que perdi o pinto. De princípio, nem acreditei. Considerava que o câncer não atingia o órgão sexual masculino. Mas era verdade. Reconheceu que os médicos se esforçaram ao máximo para evitar a castração, mas foi impossível e, para que a situação não se agravasse, foram obrigados a adotar essa atitude drástica e irreversível.
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Estou me lembrando desse fato em razão de uma reportagem publicada na revista Foco, do Hospital do Câncer, abordando a incidência do câncer no pênis. A capa chama a atenção. Abaixo do título Assumindo o controle, vêm três linhas: Estudo com marcadores moleculares mostra que é possível evitar três em cada quatro cirurgias reparadoras do câncer de pênis, doença que atinge quatro mil brasileiros a cada ano. Foi, então, que me interessei mais atentamente por esse tipo de doença no órgão sexual. Até esse dia, sabia apenas que as células cancerígenas se alojavam em várias partes do corpo, mas sequer imaginei sua estada no pênis. Nas páginas internas, o texto de abertura faz o alerta: fartamente citado em tratados do pai da psicologia Sigismund Freud e acostumado a ser o centro de atenções quando o assunto é a superioridade masculina, o pênis anda meio esquecido no meio oncológico. Ou melhor, andava meio esquecido, pois uma série de pesquisas realizadas por especialistas do Hospital do Câncer A C. Camargo está colocando o órgão na pauta do dia de algumas das mais importantes publicações científicas internacionais, como o Urology Lancet Oncology e Nature Oncology.

O mérito é notável, sobretudo porque o câncer de pênis, tema dessas pesquisas, não passa nem pela cabeça dos cientistas das grandes potências da América do Norte e Europa, já que muitas vezes sequer é estudada nas escolas de Medicina. Pois aqui no Brasil não é bem assim. A reportagem revela que esse interesse surgiu depois dos estudos desenvolvidos pelo oncologista Gustavo Guimarães, após análise retrospectiva de 1953 a 2000, sobre um grupo de 125 pacientes do departamento de cirurgia pélvica do Hospital do Câncer. Esses estudos foram publicados pela revista Urology, em abril e julho de 2006 e, depois, republicados nos editoriais da Nature e da Lancet, duas das principais revistas médicas internacionais.

Relata: os estudos indicam que mais de 50% dos pacientes portadores de câncer de pênis com metástase morrem da doença em menos de dois anos. As pesquisas avaliaram fatores clínicos, anatomopatológicos e moleculares, para identificar marcadores genéticos que indicam grupos de risco para metástase linfonodal. A partir da identificação, será possível apontar a necessidade de uma segunda cirurgia para extração dos gânglios. Em outro trecho, numa entrevista com o oncologista Gustavo Guimarães, a reportagem esclarece: a doença é caracterizada pela presença de uma ferida expressiva, pouco dolorosa e com cicatrização lenta, na pele da cabeça do pênis (glande). O diagnóstico é realizado por meio de exame médico clínico e, para que não restem dúvidas, o médico pede confirmação por meio da biópsia – que consiste na análise do patologista, em laboratório, de uma amostra do tecido atingido.

Diz, ao final: os tratamentos não costumam afetar definitivamente a fertilidade, mas, nos casos de amputação, afetam diretamente a vida sexual do paciente. O grande desafio proposto pelos especialistas é avaliar o prognóstico do paciente e a presença de marcadores moleculares que indiquem a real necessidade de exposição a outros riscos cirúrgicos que, além de tudo, potencializam o trauma e complicam na sua recuperação.

Janeiro de 1977. Regresso há quatro meses de Manaus, encontrava-me bastante confuso em Santo André, ou melhor, sem saber com quem morar. Por enquanto, ficava na casa de meus pais, enquanto a Eva na casa de seus avós paternos e a Ilca com os seus pais, mas já trabalhando como secretária em uma empresa de São Bernardo. Quando fui para Manaus ser correspondente do Jornal do Brasil, deixei a Eva morando em uma casa que havia começado a pagar – ia ter uma casa própria pela primeira vez - e ela, quando foi morar comigo, abandonou a casa e doou os móveis e eletrodomésticos para seus parentes, uma vez que havia mobiliado a residência na capital amazonense.

E, em outubro de 1976, quando deixei Manaus, também abandonei a casa, com aluguel atrasado, e deixei os imóveis e eletrodomésticos, inclusive o aparelho de telex do jornal – o que causou a ira do repórter que me substituiu e chegou a dizer que eu “deixara penhorado até o telex” – soube anos depois, num retorno a Manaus.

Ao receber o pouco do fundo de garantia por tempo de serviço, a Eva me convenceu a morar com ela em um pequeno quarto, anexo à casa de uma de suas tias. Comprei colchão e alguns apetrechos necessários e aceitei, sem quase alternativa. Mesmo assim, continuava encontrando-me diariamente com a Ilca, esperando-a na saída do trabalho. Só que estava difícil arrumar emprego. E eu bebia cada vez mais, desanimado, sem esperança... Ficava a maior parte do tempo em um bar, defronte à casa de meus pais, jogando sinuca e tomando cachaça com limão – despesas com a qual eu pedia para marcar.

Até que, final deste ano de 1977, arrumei emprego como redator do Notícias Populares, jornal que mantinha a mesma turma na redação da época da criação do bebê-diabo, o Ebrahim Ramadan, como diretor, e o Lázaro Campos como editor de polícia. Só Edward de Souza havia saído do jornal, estava no Sistema Globo de Rádio. Lázaro Campos morreu anos depois, sem dinheiro e esquecido, derrubado pelo álcool. Por desacerto com o pessoal, acabei sendo demitido antes de um ano e voltei a ficar desempregado. Meses apenas. O então prefeito de Santo André, Lincoln dos Santos Grillo, me arrumou um emprego como assessor da Prefeitura e comecei a ganhar algum dinheiro – o suficiente para tomar cachaça, comprar cigarros e arcar com algumas pequenas despesas.

Acumulei esse cargo de assessor, como correspondente da sucursal do jornal O Globo em São Paulo e, então, passei a ganhar um bom salário, também apenas por pouco tempo. A cachaça me impedia de manter um bom trabalho em jornal e só permanecia na Prefeitura porque, em serviço público, você é um ilustre desconhecido. Ainda nesse período, aproveitei e reuni em livro as entrevistas com os irmãos Cláudio e Orlando Villas Boas, as memórias gravadas com Orlando no Posto Leonardo Villas Boas e a série vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo, nacional, de 1973. A primeira edição, lançada em Ubatuba, Litoral Norte paulista, fez relativo sucesso...
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Na próxima quarta-feira, o décimo terceiro capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza/ Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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SEMIFINAIS DA COPA DO MUNDO 2010 NA ÁFRICA DO SUL. QUARTA-FEIRA (07-07) ESPANHA 1 X ALEMANHA 0 (A ESPANHA É FINALISTA). JOGA DOMINGO CONTRA A HOLANDA, 15H30 DE BRASÍLIA. SÁBADO, ALEMANHA E URUGUAI DISPUTAM O TERCEIRO LUGAR, TAMBÉM ÀS 15H30 DE BRASÍLIA.
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terça-feira, 6 de julho de 2010

ORGULHO DE SER BRASILEIRO!


Responda, rápido, sem pestanejar! Você lembra em quem votou para deputado federal e deputado estadual, nas últimas eleições? Em caso afirmativo, se foram eleitos, você acompanhou o desempenho desses parlamentares na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa ou, pelo menos, se interessou em investigar, agora, se eles têm a “Ficha Limpa”? Aliás, você sabe o que é “Ficha Limpa”?

Tenho certeza de que, se essas perguntas fizessem parte de uma pesquisa, 90% das pessoas responderiam que não lembram, não se interessaram e não sabem o que é a tal de ficha limpa...Igualmente, estou certa de que, pelo menos, 70% dos entrevistados saberiam citar a escalação da Seleção Brasileira, quem fez os gols na África do Sul e quais são os possíveis candidatos a técnico para a Copa de 2014 que eles sabem, vai ser no Brasil..

É impressionante a capacidade que tem o futebol de mobilizar o povo brasileiro. Há poucos dias, tudo era festa, alegria e encantamento. Bandeiras tremulavam em todos os cantos do país e a nossa gente explodia nas ruas o seu orgulho verde, amarelo, azul e branco. A Câmara Federal não trabalhou no mês de junho, entrou em “recesso branco”; os bancos ajustaram o horário de atendimento; universidades, escolas, empresas e até mesmo órgãos governamentais adotaram horários especiais que permitissem a todos assistirem os jogos da Seleção.
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Após a derrota para a Holanda, restaram a tristeza e a frustração. É como se fosse uma epidemia patriótica, com requintes de tragédia - da euforia da vitória à dor da derrota em curto espaço de tempo, ultrapassando o significado da derrota esportiva, entranhada na vida brasileira e no nosso cotidiano político-social. Parece que tudo o mais não tem importância, nem mesmo a dura realidade do dia-a-dia. Ainda persiste um vazio que não tem preenchimento...
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Será que já não chegou a hora de crescermos como povo e nação? Abandonando aquela sina que nos acompanha desde o tempo do descobrimento, de povo colonizado, acorrentado e manso, que espera e aceita migalhas e ainda agradece as benesses da corte? Será que já não passou o tempo da simples indignação e chegou o da ação?
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Logo mais, em outubro, o povo brasileiro precisa tomar uma decisão importante. Vai escolher um novo mandatário para o país. A época pré-eleitoral confundiu-se com a Copa do Mundo de Futebol, abafada pelo som das vuvuzelas africanas multicoloridas e estrondosas.
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Claro, é muito melhor, mais prático, confortável e cômodo apenas torcer, emocionar-se e gritar gol, ou chorar e sofrer pela derrota...isso não envolve a nossa vida, o nosso emprego, o nosso estudo ou falta dele; não interessa como está o mercado de trabalho; o câmbio; a cesta básica; a taxa de juros; o salário mínimo; a fila do SUS; a morte na curva da estrada esburacada; o preço da gasolina; a epidemia de dengue; o crack destruindo famílias inteiras; o crime organizado ditando regras; a enchente; a seca; a poluição; a falta de ética; a corrupção que campeia no executivo, no legislativo e no judiciário...Deixa que o governo resolva, ele é muito bem pago para isso!
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Perfeito. Chegamos ao ponto. O governo é tão bem pago, tão livre, leve e solto que se arvora em dono da consciência de quase todos os brasileiros, daqueles que, por séculos, se deixaram enganar, se calaram e esqueceram, até, que têm voz, por absoluta falta de uso.

Mas o governo vai mudar ou não vai mudar, porque se aproximam as eleições. A decisão, como em outras vezes, passa pelo voto. Será que já não chegou a hora de qualificarmos a maneira de escolhermos nossos representantes, acrescentando informação consistente sobre os candidatos que se apresentam? Por que não aproveitamos um pouquinho do orgulho de ser brasileiro que restou da Copa e arregimentamos as energias para provocar mudanças na nossa vida? O mínimo que podemos aprender é que podemos ser protagonistas.

A dor de agora, decorrente de uma derrota no futebol, é mais uma advertência à nossa secular mania de criar deuses e incensá-los.

Precisamos crescer como povo para que a nação tenha identidade em todas as suas ações. Vamos torcer, sim, mas por dignidade, consciência crítica, qualidade de vida, inclusão social, solidariedade. Só assim podemos ser felizes, sempre!
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas experiências e vivências estão no blog Interface Ativa! Dê uma espiadinha em http://niviaandres.blogspot.com
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SEMIFINAIS DA COPA DO MUNDO 2010 NA ÁFRICA DO SUL. TERÇA-FEIRA - 06-07:
HOLANDA 3 X URUGUAI 2 (HOLANDA FINALISTA)
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Problemas técnicos impossibilitaram a publicação, nesta quarta-feira, de mais um capítulo da série "Memória Terminal", escrita pelo jornalista José Marqueiz. O texto, excepcionalmente, será postado nos primeiros minutos desta quinta-feira. Gratos pela compreensão. Edward de Souza/Nivia Andres
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

O APAGÃO QUE TIROU O BRASIL DA COPA

DOMINGO, 4 DE JULHO DE 2010
Após a desclassificação da nossa Seleção Brasileira, correto seria ter postado minha opinião de imediato neste blog. Li, na matéria da amiga jornalista Nivia Andres, comentários cobrando o texto que, só neste domingo, 48 horas depois da derrota do nosso selecionado canarinho frente à Holanda, resolvi escrever. Fiquei triste com a desclassificação do Brasil, menos por mim, mais pela desolação que toma conta de todos. Agora todo analista ou metido a analista é dono da verdade: "Se eu fosse o Dunga, teria convocado esse ou aquele, trocado Fulano"... O mesmo filme que assisto sempre que nossa seleção não vence um mundial. É fácil falar de fora, principalmente depois que passa. Prefiro não escolher culpados em campo, mas acreditar que o momento é de repensar a grande paixão brasileira, hoje entregue a pessoas que não inspiram nenhuma confiança. Chegou a hora de iniciar mudanças profundas, a começar pela classe dirigente, à frente Ricardo Teixeira, homem sem profissão definida que em nenhum instante serve ao futebol, somente serve dele.

A Seleção Brasileira é idolatrada por milhões de torcedores espalhados não só em nosso país, mas em todo mundo, basta ver o noticiário. No Haiti, quatro pessoas morreram depois da derrota frente à Holanda. Duas delas, com camisas da Seleção Brasileira, saltaram na frente de carros e morreram atropeladas. Aeroportos do mundo todo pararam pra ver em telões o jogo Brasil x Holanda. E a grande surpresa. Jogando os melhores 45 minutos desta Copa do Mundo, dominando a Holanda e vencendo o primeiro tempo até com certa facilidade, um inesperado apagão tomou conta dos nossos jogadores na etapa final e decisiva do jogo. Tivesse nosso selecionado forçado o jogo teria decidido a partida ainda no primeiro tempo.

Um jogo se ganha não apenas com os pés, mas também com a cabeça. Não, não estou falando dos dois gols da Holanda na vitória sobre nosso selecionado, despachando-o nas quartas dessa Copa da África do Sul. O Brasil voltou mais cedo do que todos esperavam porque não teve, no jogo, cabeça equilibrada como teve a Holanda, que não se desesperou quando levou o gol de Robinho, ainda aos 9 do primeiro tempo e, sentindo que o time de Dunga partiria para decidir o jogo, usando os contra-ataques, não saiu afoita à procura do empate. Desde o começo do jogo estava fácil perceber que os holandeses usavam uma tática que apelidei de “pipocar”. Não o “pipocar” cujo significado podem os leitores entender como fugir do jogo. Mas o da pipoca, literalmente falando. Ou seja. Os jogadores brasileiros encostavam e os holandeses saltavam longe, como se tivessem recebido faltas violentas.

No segundo tempo, tocando a bola no seu estilo e percebendo o buraco existente na lateral esquerda da zaga brasileira, onde Michel Bastos, nervoso, cometia muitas faltas, os holandeses entraram no jogo. E numa das faltas, cometida pelo lateral brasileiro, que minutos depois receberia cartão amarelo, surgiu o gol de empate da Holanda. O goleiro Júlio César saiu atabalhoado do gol, chocou-se com Felipe Melo e, caprichosamente a bola tocou na cabeça do jogador brasileiro, indo para o fundo das redes. E não tinha nenhum holandês por perto. A tática de deixar irritados os jogadores brasileiros começava a dar certo e a Holanda partiu para cima, sentindo que o momento de desespero da nossa seleção era o ideal para fechar o jogo. Foi assim que, numa bobeada de Juan, jogando a bola para escanteio, quando tinha toda a lateral à sua disposição, aconteceu o segundo gol. O que aconteceu dali para frente foi um apagão e o desespero que nos tirou da Copa.

Deixo claro que aponto as falhas ocorridas nesta derrota do Brasil, mas, como disse no começo deste texto, não pretendo nomear culpados pela derrota. Nem mesmo Felipe Melo pela expulsão. Precipitou-se, quando Robben caiu, depois de uma “pipocada”, do ídolo holandês, que deu um show de cai cai na partida, deixando Neymar, jogador do Santos, com inveja. Como o craque da Holanda retinha a bola entre suas pernas, Felipe Melo, com a intenção de tirá-la para que o jogo continuasse, pisou na coxa do jogador e foi expulso. Essa foto a esquerda distribuída pela France Press mostra com clareza a chuteira de Felipe Melo tocando a bola e a coxa do holandês.
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A derrota para a Holanda doeu, é verdade. E doeu mais porque dessa vez a gente viu que o time sofreu como todo mundo. Não foi nada daquilo de 2006, quando uma seleção apática perdia para a França. Não foi tão traumática como 1982, quando saímos da Copa com o título de campeão moral, pelo futebol maravilhoso exibido pela seleção de Telê Santana, nem tão frio como 1990. A derrota, em Port Elizabeth, aconteceu porque o adversário era bom e soube aproveitar o “apagão” de nossa defesa no início do segundo tempo. Não dá para crucificar o Dunga porque perdemos uma Copa, porque aí teríamos que também fazer o mesmo com Telê Santana, Zagallo, Parreira, Cláudio Coutinho e tantos outros. Resta pensar em 2014. Assim como a Argentina que caiu de quatro frente a Alemanha e outras grandes seleções que saíram mais cedo da Copa, como a Itália, Inglaterra e França.

A título de curiosidade, lembro que escrevemos uma crônica na abertura da Copa do Mundo da África do Sul e apontamos as cinco seleções favoritas ao título. São elas: Espanha, Alemanha, Holanda, Brasil e Argentina. Estas duas últimas saíram nas quartas de final, mas as outras três disputam o título com o Uruguai, agradável surpresa da Copa de 2010. Pena que tem sérios desfalques para encarar a Holanda, para mim favorita para decidir o título, contra Espanha e Alemanha. Bom destacar que a Alemanha cresceu assustadoramente na Copa, goleou a Argentina por 4 x 0, mas tem pela frente a poderosa Espanha, que a derrotou na Copa dos Campeões e ficou com o título.
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*EDWARD DE SOUZA é jornalista e radialista
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RESULTADOS DE SÁBADO, 03-07, PELAS QUARTAS-DE-FINAL DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL:
ALEMANHA 4 X ARGENTINA 0
ESPANHA 1 X PARAGUAI 0
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sábado, 3 de julho de 2010

.SEXTA-FEIRA, 2 DE JULHO DE 2010
Amigos e amigas do blog!

Escrevi o artigo que está abaixo antes da partida entre Brasil e Holanda e resolvi mantê-lo, a título de informação e curiosidade, pois o pênalti tem sido, historicamente, encarado como uma loteria e nem sempre é garantia de gol, que o digam os goleiros e os jogadores escolhidos para baterem a falta máxima.

Quanto ao resultado que nos tirou a possibilidade de seguirmos em busca do hexacampeonato mundial, creio que a Seleção Brasileira foi a responsável direta pelo infortúnio, pois não soube aproveitar a imensa vantagem que adquiriu no primeiro tempo de jogo, onde deveria ter liquidado a fatura. No segundo tempo, os gols da Holanda, que aconteceram por falta de atenção da nossa defesa, a imbecilidade cometida por Felipe Melo, a falta de banco e o desquilíbrio infantil que acometeu os nossos jogadores, sem a mínima capacidade de reação, sepultaram de vez o sonho do hexa. Paciência. E que sirva, mais uma vez, de lição: o campeão mundial será o time que for mais competente e tiver equilíbrio emocional para superar as dificuldades havidas durante a partida. A Holanda estava morta e ressuscitou. Teve força e controle, o que não soubemos administrar.

A derrota é um dos resultados possíveis em qualquer empreitada. Cabe que tenhamos força e ousadia para empreender a virada! Em 2014 será outra história! E vamos em frente!

O PÊNALTI PERFEITO

Nas fase das oitava-de-finais da Copa do Mundo de Futebol 2010, quando 16 seleções disputaram as oito vagas das quartas-de-finais, nenhum jogo poderia terminar empatado. Em caso de escore igual, a regra vigente, fixada pela Internacional Board, órgão da FIFA, determina que haja prorrogação de 30 minutos, em dois tempos de 15. Persistindo o empate, serão cobradas penalidades máximas, os populares e terríveis pênaltis...em séries iniciais de cinco cobranças alternadas, para cada time, até que se defina o vencedor. Se ainda assim a igualdade no placar persistir, serão cobradas séries de um, alternadas, na espera do desempate. A mesma regra será observada nas semifinais e na grande final, que vai apontar a Seleção Campeã do Mundo.

Pois bem, o pênalti, nas circunstâncias mencionadas, é a medida extrema para resolver um imbróglio provocado pela inoperância dos atacantes ou pela excelência dos defensores das equipes contendoras. Muita gente diz que pênalti é loteria, mas esse pensamento está mudando, a partir de estudos e ensaios científicos exaustivos, que utilizam tecnologia de ponta e apontam uma série de providências para que esse tiro seja o de misericórdia...

Adrian Lees, da Liverpool John Moores University realizou experimentos através da medição do tempo em que o goleiro demora para chegar nos diferentes pontos do gol. De posse dessa informação, é fácil calcular a velocidade que a bola deve atingir para que o goleiro não tenha tempo de chegar nela. Em outros dois estudos, um do Prof. Dr. Ronald Dennis Ranvaud e sua equipe, do Laboratório de Fisiologia do Comportamento, da USP e outro, igualmente, de Lees, foram identificadas as áreas do gol em que, historicamente, é raríssimo o goleiro conseguir defender. Assim, pode-se determinar uma estratégia que garanta ao cobrador fazer o gol - Chutando no meio dos quatro retângulos superiores da goleira, pois é um lugar difícil para o arqueiro defender, a uma velocidade superior a 80 km/h, propiciando que a bola chegue no ponto pretendido antes do goleiro, mesmo que ele se antecipe em 500 milésimos de segundo ao chute..

Para os diletantes, os que querem aprender e, especialmente, para os curiosos, como eu, algumas dicas para que a cobrança do pênalti seja perfeita, segundo os entendidos:

- Fique no lugar certo, posicionando-se de quatro a seis passos atrás da bola, pois a distância possibilitará uma combinação perfeita entre velocidade e força. Assim, a bola chegará ao gol na velocidade ideal que situa-se entre 90 e 104Km/h;

- Após o apito, seja muito rápido, para surpreender (três segundos) ou muito lento, para que o goleiro fique nervoso (13 segundos);

- Bata com a parte de dentro do pé, o que aumentará em 25% as chances de marcar;

- Mire o centro do gol pois, em 93,7% dos casos os goleiros pulam para os lados porque não aguentam ficar parados e deixam o meio do gol aberto, influenciados pelo que cientistas israelenses chamam de “tendência à ação”.

Porém, mesmo com toda a técnica moderna, é preciso ter categoria para chutar bem e marcar mesmo se o goleiro adivinhar o canto.

Há, entretanto, outro detalhe ao qual nenhuma técnica resiste – a condição psicológica do jogador que vai bater o pênalti já que, na maioria das vezes, o ambiente é tenso, de elevada ansiedade e expectativa e no atleta estão concentradas todas as esperanças do time, da comissão técnica e dos torcedores. O psicólogo Greg Wood, da inglesa Exeter University, avisa que a ansiedade exacerbada faz com que o batedor concentre sua atenção no goleiro, facilitando a defesa. Assim, sugere que o jogador mantenha o controle emocional, desviando o olhar do adversário, concentrando-se apenas na bola e no canto em que vai desferir o tiro mortífero!

Como apreciadora do bom futebol, agradou-me conhecer as novas técnicas empregadas para que a cobrança de penalidades máximas seja eficiente, ainda mais nessa fase da Copa do Mundo pois, segundo as estatísticas existentes, de mundiais anteriores, a seleção campeã terá mais de 50% de probabilidade de ter que enfrentar uma ou mais decisão por pênaltis em sua trajetória rumo ao título.
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letra. Suas experiências e vivências estão no blog Interface Ativa! Dê uma espiadinha em http://niviaandres.blogspot.com/
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RESULTADOS DE HOJE, SEXTA-FEIRA, 02-7, PELAS QUARTAS-DE-FINAL DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL:
HOLANDA 2 x 1 BRASIL
URUGUAI 1 x 1 GANA
(NOS PÊNALTIS, URUGUAI 4 x 2 GANA)
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quinta-feira, 1 de julho de 2010


AS COPAS E O

COMPORTAMENTO DAS MASSAS



De tudo que vi na minha vida, que em julho completa 65 anos, e ajudado por privilegiada memória, aponto a vitória na Copa de 1958 como a maior explosão popular de alegria já ocorrida no Brasil. Nenhum fato histórico, antes disso, justificou algo parecido. É fácil entender: foi nossa primeira vitória numa Copa e o povo vinha de duas grandes frustrações, as derrotas de 1950 e 1954.

A vitória no Estádio Nacional de Santiago, no Chile, em 1962, como esperado colocou nas ruas também uma grande festa. Mas nada foi comparável a 1958. Meu próprio sentimento na época ajuda a explicar isso: já tínhamos nos acostumado com a idéia de ser campeões do mundo. Quatro anos curtindo a posse da Taça Jules Rimet injetaram no imaginário popular essa “naturalidade”. Creio que seja por isso, agora que somamos cinco títulos, que nós, brasileiros, tenhamos tanta dificuldade em lidar com a derrota.

Não entendo nada do assunto, mas sempre achei fascinante ler e ouvir análises e tentativas de interpretação do comportamento das multidões. O futebol e a política ensejam cardápio rico e variado para isso. Vejam o Corinthians, por exemplo: ficou muitos anos sem ganhar o campeonato paulista. Naquela fase de vacas magras a torcida comparecia aos estádios para dar força ao time. Foi só vencer e o pessoal sumiu dos estádios. Ou seja, a torcida já estava realizada, satisfeita.

Para nós, ganhar a Copa virou uma espécie de obrigação, como é para os norte-americanos vencer o mundial de basquete, ou para os quenianos ganhar maratonas. Quando isso não acontece a tristeza e frustração são brutais, deixam o país literalmente prostrado, em luto. Jamais vou esquecer daquela tarde vazia e silenciosa, em São Paulo, logo depois que perdemos para a França, e ainda humilhados pela goleada e chapéus do Zidane. Qualquer outro país (de menores chances no futebol) teria festejado o vice no mundial como uma fabulosa vitória, como realmente é. Para nós foi algo próximo da morte. Nas demais grandes potências do futebol mundial não é diferente. Vice, e nada, acabam sendo a mesma coisa. Ou até pior, porque o esquadrão chegou até lá, esteve a poucos passos e minutos do título, sentiu o aroma do ouro, viveu o sonho.

Trabalhando na indústria automobilística, na assessoria de imprensa da Ford, aprendi que numa segunda-feira pós-derrota corintiana a produção na linha de montagem dava problemas. A peãozada estava furiosa, ou triste, e trabalhava mal. Foi sempre assim. O inverso também era verdadeiro. Eis, pois, uma das razões que me levam a querer muito essa Copa de 2010. Estamos num momento bom da economia, reservas cambiais e superávit primário saudáveis, safras gordas, o país tem repercussão no exterior, há avanços inegáveis em vários setores, existem perspectivas, com o Pré-Sal. A auto-estima do brasileiro neste momento é positiva, e uma prova disso é o altíssimo índice de aprovação do governo, jamais visto antes, em tempo algum. Calma, não estou fazendo aqui proselitismo pró-Lula ou Dilma. Estou constatando apenas um fato real e indiscutível, sob uma ótica de observador. A gente pode brigar com o governo, mas não pode brigar com os fatos reais, nem com a História. Você poderá odiar Hitler, como também odeio, mas jamais poderemos dizer que não teve apoio do povo alemão. Só não interpretem isso como algum comparativo, seria absurdo demais, além de injusto. Estamos apenas falando sobre comportamento de multidões e objetivamente de coisas factuais. Quem acompanha este blog já cansou de ler críticas que faço ao Lula, sobretudo nas suas alianças com corruptos notórios. E isso não significa que eu goste da oposição, pois quando chega ao poder age da mesma forma.

O comportamento das multidões é sempre interessante, curioso, intrigante e, por vezes, até desconcertante. Pode ser até insondável. Há o risco de Collor ganhar em Alagoas, eis um exemplo. Existem tiranos idolatrados. Notórios ladrões têm liderados. A massa oscila entre a mais pura ingenuidade e infantilidade a momentos de luz, quando rejeita a opressão. A Primavera de Praga, esmagada pelos tanques soviéticos, e muito depois a queda do Muro de Berlim, foram momentos de luz. O ensaio de rebelião popular espontânea, sem lideranças, na morte do Getúlio, em 24 de agosto de 1954, foi outro. Entenda-se aqui luz não como erro ou acerto, aprovação ou desaprovação, mas apenas como capacidade de reagir e tentar algo melhor para seu destino, direito básico da humanidade.

Estes exemplos mostram que as multidões são também diferentes, movidas pelas mais diversas motivações. Algumas enfrentam a polícia nas ruas por causa de um jogo de futebol. Outras porque buscam dignidade no seu direito de viver. Comparando, é a alienação primitiva de um lado; a consciência e politização de outro. Dificilmente elas se misturam. Há multidões manipuláveis. Jânio Quadros foi o mestre disso, com seu populismo de caspas e sanduiches de mortadela. Mas já estive no meio de um milhão de pessoas, no Vale do Anhangabau -- que pediam Diretas Já! -- com um comportamento maduro e impecável, entendendo o conteúdo jurídico e aplaudindo o discurso elegante de Sobral Pinto.

As chamadas elites conservadoras odeiam as multidões, exceto quando se trata de ganhar dinheiro a custa da ignorância delas. Já os políticos populistas precisam delas para sobreviver. E sejamos francos: pode haver algo mais coletivamente imbecil do que uma multidão num estádio soprando cornetas? Ou consumo de massa induzido por novela de TV?


Esse humor popular, contudo, é volátil. Pode despencar em poucos dias, ou até horas. Que o diga Sarney, na época do Plano Cruzado. Que o digam políticos que perderam eleições depois de um debate. Que o diga Dunga, se perder a Copa. Duvido que ache alguém que ainda o defenda. Do mesmo jeito que pode voltar como grande herói. E que assim seja! O povo estará feliz, isso é o que importa. Circo é bom e faz parte da vida. Se tiver pão, melhor ainda.

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*Milton Saldanha
é jornalista e tangueiro. Mas dança também samba e torce contra a Argentina. www.jornaldance.com.br
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quarta-feira, 30 de junho de 2010



Apesar de pertencer a uma família pobre, posso dizer que levei uma infância de rico. Nasci em Santo André numa fria madrugada de junho de 1948 e, dois meses após, fui no colo de minha mãe para Bálsamo, para onde minha família passou a morar. As ruas ainda eram de terra. As casas térreas, com amplos quintais, todos com árvores frutíferas. As residências dos meus avós eram as preferidas. A dos meus avós maternos possuía mangueiras com os mais diversos tipos de manga – a que eu mais apreciava era a Bourbon. Havia, ainda, rente às cercas de arame farpado no quintal, pés de abacaxi, que eu saboreava ali mesmo quando eles amadureciam. A dos meus avós maternos era preferida por causa de suas jabuticabeiras, das pequenas às grandes. Doces como mel, eu as saboreava nos próprios pés, diante do sorriso maroto do meu avô Angelim, um tipo pequeno e simpático.
Na outras casas, também, nada era proibido. Por isso, eu, sempre quando tinha vontade, invadia os quintais dessas casas e pegava minha fruta preferida - laranja, caju, melancia, dependendo da época. As mangueiras predominavam na maioria dos quintais.
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Antes de completar seis anos de idade, ingressei na escola municipal, denominada Modesto José Moreira. Lá fiz o primário e, no mesmo edifício onde funcionava a escola, tinha também o ginásio, onde cursei até o segundo ano – foi quando minha família transferiu-se novamente para Santo André. Em Bálsamo, além de estudar, cheguei a trabalhar como bóia-fria catando algodão e, depois, amendoim. Depois, passei a visitar os sítios dos arredores da cidade com um carrinho puxado à mão, arrecadando garrafas que, posteriormente, vendia no comércio da cidade. Minha última profissão em Bálsamo foi a de engraxate. Acredito que fui um dos primeiros a implantar o atendimento de engraxate em domicílio. Enquanto os demais engraxates ficavam na praça central ou andando pelas ruas à cata de cliente, eu visitava as casas, no horário marcado, e engraxava os sapatos de toda a família. Um negócio mais garantido, que foi copiado posteriormente pelos demais colegas de profissão.
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Jogava também futebol. Diziam que tinha um chute potente. Não segui carreira por ter-me contundido, lesado o tornozelo da perna direita. Nunca mais chutei uma bola com força. Aprendi a nadar nos rios e lagoas existentes nos sítios instalados ao redor da cidade. Esse aprendizado salvou a minha vida quando, ao regressar em um barco da Ilha Anchieta com destino a Ubatuba, no litoral norte paulista, o barco naufragou. Mesmo diante de ondas altas e violentas, consegui nadar até à praia da ilha. Nesse dia, foi impossível não lembrar os rios de Bálsamo.
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Em Bálsamo é que tomei gosto pela leitura. Meu pai era assinante da revista Cruzeiro, já extinta, e da Readers Digest e, nas horas de folga, eu ficava lendo em sua barbearia. Na Cruzeiro, não deixava de apreciar a última página, com a crônica de Rachel de Queiróz. Ambas, proporcionam boas leituras, bom passatempo, principalmente para uma criança que começava a descobrir o mundo exterior.
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Namorar com aquela idade era sonho e brincadeira. Cheguei a paparicar uma das meninas, da qual nem me lembro o nome. Mas lembro, não só do nome, mas também do rosto de uma por qual me apaixonei, se é que se pode chamar de paixão o sentimento de um menino com menos de dez anos. Chamava-se Alaíde, era morena, tinha cabelos negros e um sorriso encantador. Eu a via com mais freqüência aos sábados, pela manhã, quando ia até a sua casa engraxar sapatos. Ingênuo, ignorava que ela jamais iria se enamorar por um engraxate, sabendo que os garotos de família rica também a desejavam. Já se passaram quase meio século e eu ainda tenho essa menina em meu pensamento: Alaíde, minha paixão infantil.
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Em Bálsamo, fiz muita amizade e poucos amigos. Dois deles: Ismael e Tico. Ismael mudou-se de lá nos anos seguintes e só o vi, depois, uma vez. Como repórter, viajava com destino ao norte de São Paulo, quando o encontrei num posto de gasolina, pedindo carona para um motorista de caminhão. Conversamos rapidamente e ele se foi. Nunca mais o vi. Tico, cujo nome era Heider José Borduqui, permaneceu meu amigo até a sua morte. Toda vez que eu visitava Bálsamo, ia ao seu encontro. Nos dias em que lá ficava, estávamos sempre juntos, nos bares, bebendo cerveja e conversando sobre a infância passada. Quando o vi pela última vez, apesar de ter parado com as bebidas alcoólicas, aceitei tomar um copo de cerveja com ele. Brindamos a nossa saúde. Ele morreu no ano seguinte.
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De Bálsamo, tenho boas lembranças. Nos finais de ano, quando tudo dá certo, revisito a cidade. Está muito modificada. As ruas pavimentadas, o número de carros aumentou de maneira extraordinária. Não é mais nem sombra do que foi no passado. Perdeu a sua paz... Assim como eu perdi a minha saúde. Faz tempo que não volto a Bálsamo. Talvez volte um dia. Sinto que, se voltar, será uma visita nostálgica, com ar de despedida. Uma visita de quem vai para se despedir. É o que sinto. É o que o meu coração me faz dizer.
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Quando da minha infância em Bálsamo, a imagem que tinha de Bagdá era aquela dos castelos gigantes e misteriosos, de ruas estreitas, de bares camuflados nos porões, nos tapetes voadores, nos reis e nas rainhas e, principalmente, de Ali Babá e os 40 ladrões – este último que ficou mais famoso no Brasil depois que políticos confundiram Ali Babá como chefe dos 40 ladrões e não como o seu o seu implacável perseguidor. Bagdá me lembrava – e ainda me lembra na imaginação – a cidade dos sonhos, das lâmpadas maravilhosas realizadoras de desejos impossíveis. Jamais – mesmo nos dias de hoje – deixei que a guerra desfechada por sanguinário norte-americano, no suposto extermínio de armas nucleares, na conquista permanente da paz mundial, eliminasse de minha mente essa visão romântica.
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Bagdá me lembra, ainda, as mulheres com véus transparentes, deixando ver a suavidade de suas faces, o misterioso e envolvente olhar feminino que só as mulheres árabes conseguem ter. Assim, caminhando pelo corredor do terceiro andar no Hospital do Câncer, para melhor circulação do sangue, é que via, bem ao final, a figura de uma mulher que, por motivos ainda desconhecidos, me levavam em sonho para Bagdá. Ela estava lá, aparentemente só, à espera não se sabe do quê. Mais tarde, fiquei sabendo que era o seu cunhado que ali estava internado e só estava aguardando determinação para ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva. O motivo da doença, não fiquei sabendo. Só a vi, sozinha, o olhar perdido em algum lugar de seu deserto particular e, com o cansaço natural provocado pela quimioterapia, parei estático, escorando-me na parede. Respirava com dificuldade e ela me ofereceu uma cadeira.
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- Se quiser, pode entrar e descansar. Meu cunhado já foi para a UTI.
Agradeci, respirei, como se ali estivesse um oásis. Restabelecida a respiração normal, ia recomeçar a caminhada de volta ao meu quarto, quando ela formou uma espécie de triângulo com seu braço esquerdo e ofereceu a ajuda, com uma ternura, com uma meiguice jamais sentida em toda a minha vida. Não afeito à delicadeza tão espontânea, me neguei a aceitar e ela insistiu, formando de novo o triângulo com o braço esquerdo: "Aceite, por favor".

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E nessa sua insistência, por instantes, senti parte da milenar solidariedade do povo árabe. Se aceitasse, agora compreendia, estaria aceitando a ajuda que ela não poderia mais dar ao cunhado ausente. Deixei-a me conduzir até ao meu quarto e lá mesmo ela se identificou: "Meu nome e Daguirra. Nasci em Bagdá". Antes que eu a questionasse, ela complementou: "Não nessa Bagdá atual. Mas a Bagdá do meu tempo criança, dos castelos e das mil e uma noites".
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Na próxima quarta-feira, o décimo segundo capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza/ Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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