segunda-feira, 22 de junho de 2009

VIAJANDO COM PORCOS, GALINHAS E CABRAS PARA TRANSMITIR UM JOGO

ALAGOINHAS, INTERIOR DA
BAHIA DE TODOS OS SANTOS
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OSWALDO LAVRADO
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Começava o ano de 1984. O Santo André havia acabado de entrar na Primeira Divisão do Brasileirão e toda a região do ABC estava eufórica com a façanha do Ramalhão (apelido do clube). O primeiro jogo de uma maratona que só acabaria em julho, aconteceu no dia 29 de janeiro daquele ano. Foi na cidade de Alagoinhas (Bahia), cerca 100 quilômetros de Salvador.
A Rádio Diário passava por momentos conturbados em virtude de uma virada no comando interno da emissora. Essa mudança, ocorrida no final de dezembro de 83, provocou a demissão de companheiros (uns 30), que integravam vários departamentos (produção, programação, repórteres, locutores e operadores). O setor de esportes, com 20 profissionais, foi reduzido para 8, exatamente quando assumi o comando do setor.
A rádio tinha tradição em acompanhar os times do ABC e, com ou sem crise, iria transmitir os jogos do Santo André no Brasileirão. Até o dia 10 de janeiro, 19 dias antes da estréia do time na Bahia, o esporte não contava sequer com um patrocinador para "cacifar" a empreitada. Situação que impediria o deslocamento da equipe e, consequentemente, o cancelamento da primeira transmissão externa da emissora. Mas, a luz no final do túnel clareou e dois iluminados patrocinadores surgiram quase no apagar das luzes. Casas Bahia (sim, a sempre presente Casas Bahia, do solidário Samuel Klein), e as Lojas A Esportiva (da família Silvio Duarte, tradicional na região) patrocinaram a transmissão. De acordo com os recursos e condições da época escalamos a equipe que iria até Alagoinhas acompanhar o jogo do Santo André: Rolando Marques (narrador), o gaúcho Jurandir Martins (repórter) e o comentarista Oswaldo Lavrado - que não por acaso sou eu - estava de bom tamanho.
Embarcamos num vôo da Varig das 2h da madrugada (que à época ainda saia de Congonhas). Os bilhetes para viagens noturnas ofereciam um desconto de 20% e, como éramos um trio, a economia foi considerável. A viagem, com uma escala de quase 2h, no Galeão, no Rio de Janeiro, durou 3h30. Desembarcamos em Salvador por volta das 7h30 da manhã. No aeroporto 2 de Julho (atual Carlos Eduardo Magalhães), nos aguardava o gerente de esportes do Santo André, Roberto Nasser Bartoli, o Turcão, que hoje ocupa o cargo de diretor do Departamento de Lazer da Prefeitura de Santo André. Ao grupo, juntou-se o jornalista Divanei Guazzeli, enviado especial do Jornal Diário do Grande ABC, que faria a cobertura do jogo. Aboletados num táxi reservado pelo Turcão percorremos, num calor de quase 40 graus, a interminável avenida beira-mar de Salvador até a Praça Castro Alves, onde desembarcamos em uma garagem de ônibus da empresa Catuense, de propriedade do empresário Antônio Pena, magnata do transporte coletivo na Bahia e presidente da Catuense, time que o Santo André enfrentou em Alagoinhas.
Num ônibus meia-boca embarcamos eu, o Rolando e o Divanei. O Turcão e o Jurandir Martins, mais espertos enfrentaram de carro os 100 quilômetros da precária estrada que liga Salvador a Alagoinhas. Pior que a rodovia foi a via sacra no ônibus. Como era um sábado, tipo 12h, o coletivo parava onde havia alguém para embarcar (uma árvore ou um raro poste faziam a vez de uma parada convencional de ônibus). Crianças, adolescentes, adultos, sacos de farinha, um cão, um porco, algumas galinhas e uma cabra completavam a, para nós, inusitada carga do coletivo. Um calor infernal. A capacidade de 60/80 pessoas do ônibus pulou para 100 ou mais. No percurso, apenas as cidades de Camaçari (pólo petroquímico baiano) e a pequena Catu, que não possuía estádio, dai a Catuense jogar no município vizinho.
Após quase 3h de viagem, ufa!, chegamos a Alagoinhas. O motorista estacionou o veículo numa casa cercada por árvores para todos dos lados (também pertencia ao Antônio Pena), mas não ficamos lá. Saímos com a bagagem a procura de hotel. Só havia um na cidade e estava reservado à delegação do Santo André. Nestas alturas os relógios marcavam 21h. Com um jeitinho e após a aprovação do presidente do Santo André (Lourival Passarelli) e do técnico (Jair Picerni), o gerente do hotel arranjou um quarto onde nos instalamos - Eu, Rolando, Jurandir e Divanei. O "cicerone" Turcão sumiu. No domingo pela manhã, depois do café (café? deixa pra lá), topo com Miguel de Oliveira, massagista do Santo André, hoje no Palmeiras, que convida: "Lavrado, vem comigo que preciso encontrar gelo e o hotel não tem". Juntos percorremos, a pé, quase toda Alagoinhas e nada de achar o bendito gelo para o Miguel e seus jogadores. Os termômetros marcavam 41 graus na cidade. Pavio curto e com cara de poucos amigos o massagista do Santo André blasfemava: “que diabo de lugar é este que nem gelo tem?". Eu fiquei na minha uma vez que, como o Miguel, eu estava ressabiado com Alagoinhas. Salvo pelo gongo, Miguel de Oliveira conseguiu duas panelas com gelo, fornecidas pelo dono de um boteco (tirou da sua geladeira), que se apiedou com a angústia de meu amigo. Antes de chegar ao hotel passamos por uma feirinha, sem nenhuma banca, com toalhas e lençóis esparramados pelo paralelepípedo de uma rua imunda e calorenta. Sobre esses panos estavam espalhados sacos com farinha, rapadura, carne de todo tipo, frutas, verduras e outros alimentos. Ao lado, porcos, cabras, patos e galinhas (vivos) expostos para venda. Com o sol a pino, o mau cheiro era insuportável.
Bem, tipo 12h30 nossa equipe, já na companhia do pessoal da Rádio ABC de Santo André, rumou para o estádio. Para as duas e únicas rádios que estavam naquela praça de esportes havia linha de transmissão, instalada pela TeleBahia, mas não tinha terminal para o repórter de campo, que na Bahia e no Rio de Janeiro são chamados de repórter de pista. Após algum entrevero com a inexperiente turma da telefônica baiana, o problema foi resolvido e a Diário e a ABC conseguiram cumprir com seu dever "cívico" de transmitir a partida, que terminou com a vitória do Santo André sobre a Catuense por 1 a 0, gol do meia Rotta.
Dois ônibus apanharam a delegação do Santo André e também nós, das duas rádios. Sem ninguém consultar se a gente queria ou não, rumaram para a mesma casa, tipo mansão, com piscina interna e cercada por muitas árvores. Ali residia o glorioso Antônio Pena, já conhecido neste relato. O magnata havia convidado (ou obrigado), a turma de São Paulo, jogadores, comissão técnica, dirigentes do Santo André e nós, da Imprensa, para um jantar em sua casa. E que jantar... Numa sala enorme foram dispostas três grandes mesas com toalhas impecavelmente brancas e sobre as quais aportavam os mais variados tipos de comida baiana. O anfitrião não economizou nos detalhes. Mulheres vestidas de baianas (sic) pajeavam os convidados. Pratos de porcelana legítima, copos de cristal para cada tipo de bebida, que variava na qualidade e sabor. Tudo perfeito, não fosse um pequeno detalhe, fatal para nós paulistas: não havia nenhum tipo de talher, nem cadeiras. Os convivas se serviam, acreditem, com as mãos e comiam em pé.

Já passava da meia noite quando o empresário Antonio Pena colocou todos novamente nos dois ônibus, determinando aos motoristas que nos deixassem no aeroporto em Salvador, onde de madrugada retornamos, com escalas em Belo Horizonte e no Rio, a São Paulo, sem nenhum problema. Em Congonhas, claro, lá estava o nosso Lampião, motorista da rádio, sempre sorridente nos aguardando com a clássica pergunta: "e aí, tudo bem na viagem?" E a resposta de sempre, para encurtar conversa: "tudo Lampião, tudo."
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Oswaldo Lavrado - jornalista/radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, (rádio e jornal), e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário por 10 anos. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
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sábado, 20 de junho de 2009

PREFEITURA DE FRANCA VAI HOMENAGEAR
HISTORIADOR WANDERLEY DOS SANTOS
Edward de Souza

O Prefeito Sidnei Franco da Rocha, de Franca, atendendo nosso pedido, vai homenagear o historiador Wanderley dos Santos. Leiam parte de minha coluna publicada na última quinta-feira no Jornal Comércio da Franca: “Sempre se apela para a memória quando se quer buscar alguma coisa que se perdeu no tempo, distante de nossa visão. Mas há que se distinguir duas formas de memória. A recordação é o ato de trazer ao presente o que ficou no passado, no baú dos guardados. Mas memória também é a capacidade, a disposição, a faculdade que leva a transformar sonhos em realidade.
Segundo William James, podemos ter memória só de certos estados de ânimo que duram algum tempo. Importante é que a memória, em sua maior abrangência, deve se referir ao passado, de estar acompanhada de um processo emotivo. A memória, principalmente a histórica, não deve se perder precisa ser resgatada, perpetuada, de forma que as gerações que se sucedem se ilustrem com exemplos que devem ser seguidos.
Há cerca de um mês, em contato com o amigo Ademir Medici, jornalista que assina há mais de 30 anos a coluna “Memória”, no Jornal Diário do Grande ABC, soube de sua amizade antiga com o historiador Wanderley dos Santos, que morreu no dia 16 de janeiro de 1996 na Santa Casa de Franca, aos 44 anos de idade. Durante anos o jornalista trocou correspondência com o historiador e têm em seus guardados dezenas de cartas enviadas por ele, além de folhetos de encontros de historiadores da região de Franca, promovidos pela Prefeitura, Secretaria de Educação e Cultura e Fundação Municipal Mário de Andrade no Edifício Champagnat, todos enviados pelo Wanderley. Fiquei surpreso quando Ademir Medici me contou que Wanderley dos Santos, em agosto de 1989 fundou o Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antonio Pinheiro, de Franca. Mais surpreso ainda fiquei ao descobrir que Wanderley dos Santos estava esquecido. Nada constava no arquivo que lembrasse seu fundador. Enviei um e-mail ao prefeito Sidnei Franco da Rocha notificando-o da injustiça que estava sendo cometida. Nesta segunda-feira, Marcelo Facuri, Assessor Especial de Comunicação da Prefeitura de Franca nos respondeu, informando que, em nome do prefeito Sidnei Franco da Rocha, a direção do Arquivo Histórico já está providenciando a identificação da Sala Wanderley dos Santos, incluindo fotografia e biografia do homenageado. Enfim, o reconhecimento que se fazia necessário”.
Na íntegra, o e-mail enviado pela Assessoria Especial de Comunicação da Prefeitura de Franca confirmando as homenagens a Wanderley dos Santos:

Caro Edward,
Em nome do prefeito Sidnei Franco da Rocha, registro o recebimento de seu email (enviado em 09 de junho de 2009, às 16h39). Agrademos a sugestão, ao mesmo tempo em que aproveito para informar que a direção do Arquivo Histórico já está providenciando a identificação da Sala Wanderley dos Santos, incluindo fotografia e biografia do homenageado.
Com saudações,

Marcelo Facuri

Assessor Especial de Comunicação

Prefeitura de Franca


NR:
Bom que se faça justiça. O Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antonio Pinheiro foi criado na gestão do Prefeito Maurício Sandoval Ribeiro, em 1989, que assinou o decreto.
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O EXEMPLO QUE VEM DE FRANCA
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Ademir Medici

A notícia que chega de Franca aqui no Grande ABC é alvissareira. O prefeito Sidnei Franco da Rocha homenageará o historiador Wanderley dos Santos, criador do Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antonio Pinheiro.
Criar a Sala Wanderley dos Santos, com fotos suas e a biografia em destaque, é a prova maior de que: 1) a Imprensa – no caso o Blog de Edward de Souza e sua coluna no Jornal Comércio da Franca – ainda consegue sensibilizar; 2) a Prefeitura de Franca mostra que é sensível à causa da Memória; 3) a homenagem que se prestará a Wanderley dos Santos demonstra que ele é merecedor disso, pois temos certeza que antes de responder ao jornalista Edward de Souza o prefeito Sidnei Franco da Rocha determinou à sua assessoria que pesquisasse a presença de Wanderley na cidade e observasse que o seu trabalho, plantado em agosto de 1989, frutificou e deixou seguidores.
Foi assim no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo. Wanderley deu vida ao acervo da Igreja de São Paulo. E formou seguidores. Hoje quem toca o Arquivo da Cúria é gente competente que conheceu e trabalhou com Wanderley. Muito provavelmente, em Franca, independente das questões partidárias, quem está à frente do Arquivo Histórico local trabalhou com Wanderley ou soube do seu trabalho e pôde aquilatar toda a sua competência e seriedade.
Solicitamos a Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Franca nos envie, com regularidade, as notícias ligadas ao projeto de reconstrução da História de Franca, a começar pelas homenagens a serem prestadas a Wanderley dos Santos. Publicaremos com alegria tais notícias na coluna “Memória”, que é diária e pode ser acompanhada no site do Diário do Grande ABC. Será o nosso jeito de também homenagear Wanderley e um exemplo para que as autoridades das sete cidades do Grande ABC também dele se lembrem.
Infelizmente, a exemplo do que vinha ocorrendo em Franca, também no Grande ABC Wanderley dos Santos não recebeu, até aqui, o reconhecimento que lhe é devido. Gente boa de Franca, parabéns. Vocês são 10.
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FRANCA E SUAS LINDAS MULHERES
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Édison Motta

Nascido na capital paulista e radicado desde a infância no ABC tive a oportunidade, uma única vez, no início dos anos 80, de conhecer rapidamente, a trabalho, a próspera cidade de Franca. E fiquei francamente encantado com o que vi: cá entre nós, deparei-me com a comunidade que reunia as adolescentes mais lindas por metro quadrado que já houvera descoberto. Lembro-me perfeitamente: quando chegávamos à cidade, num final de tarde, fazia parte de nosso trajeto passar defronte duas ou três escolas exatamente no momento em que terminavam as aulas. E as colegiais se dirigiam em grupos para suas casas. Como observador atento e discreto, contentei-me em apreciar a saúde, alegria e disposição daquelas jovens interioranas.
Hoje, bem sei através de meu amigo e irmão Edward Souza que Franca evoluiu, cresceu, mas preserva o pulsar vigoroso de seus melhores momentos do passado embora tenha se transformado numa cosmopolita cabeça de região. Não conheço pessoalmente o prefeito Sidnei Franco da Rocha. Mas sei que ele é amigo do Edward e, por tabela, meu amigo também. Aceite, portanto, caro prefeito, meus solenes e sinceros cumprimentos pelo singelo gesto de reconhecer Wanderley dos Santos como personalidade francana. Terei o prazer, assim que for possível, de visitar o espaço nobre ao qual será destinado seu nome e um resumo de sua importante biografia. Aquelas adolescentes de outrora ainda vivem no imaginário de beleza do meu passado. Fiz uma tênue descoberta sobre os valores de Franca. Nada que se compare ao intenso trabalho de Wanderley dos Santos que soube garimpar grandes preciosidades desta cidade que agora, aos poucos, estão sendo valorizadas.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

JOÃO GOULART, ÚNICO PRESIDENTE BRASILEIRO
QUE MORREU NO EXÍLIO
Quarenta e cinco anos depois de derrubado, João Goulart – o presidente que morreu no exílio – continua sendo um personagem esquecido pelos brasileiros. Ele dobrou o salário mínimo, recebeu o legado do mito Getúlio Vargas, aproximou o Brasil da China, governou no parlamentarismo e no presidencialismo, impôs à agenda nacional a reforma agrária e o limite de remessa de lucro das multinacionais e, derrubado pela última das ditaduras, foi o único presidente a morrer no exílio. Só os detalhes explosivos da biografia do gaúcho João Belchior Marques Goulart já seriam suficientes para alçá-lo à galeria das grandes figuras do País, batizar praças e ocupar espaços nobres nos livros de história. Trinta e três anos depois de sua morte e quatro décadas e meia após o golpe que derrubou o fazendeiro-sindicalista do poder, observadores da política ainda se debruçam sobre um dos enigmas da República: por que a figura de João Goulart é tão esmaecida? Por que Jango foi esquecido? Acompanhem agora o último capítulo dessa série assinada pelo jornalista Milton Saldanha.
(Blog Edward de Souza)
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Milton Saldanha
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Do livro inédito “Periferia da História”, adaptado para nosso blog.
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A LEGALIDADE
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EPÍLOGO
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A campanha da Legalidade acabou com uma conciliação, aceita por Jango, para evitar o confronto militar: seria implantado o regime parlamentarista. O presidente indicava o primeiro ministro, que por sua vez tinha que ser aprovado por dois terços do Congresso Nacional. No parlamentarismo o Congresso pode também retirar a confiança no primeiro ministro, derrubando-o.
A viagem de Jango de Porto Alegre para Brasília foi uma operação complicada, planejada pelo general Amaury Kruel, que tinha ido para o RS para lutar ao lado das forças legalistas. Depois, em 1964, comandando o II Exército, em São Paulo, esse general ajudou a derrubar Jango.
Vazou a informação de que oficiais da Força Aérea, inconformados, planejavam abater no ar o Boeing da Varig, especialmente cedido, que levaria o presidente. O próprio presidente da empresa, comandante Rubem Berta, pilotou o avião. Esse plano dos militares ficou conhecido como “Operação Mosquito”. Jango só deixou Porto Alegre quando recebeu garantias dos sargentos de Brasília, informalmente, nos bastidores, e formalmente do general Ernesto Geisel, então comandante da guarnição do Distrito Federal e chefe da Casa Militar do presidente interino Raniere Mazzili. No livro com as memórias de Geisel ele confirma esse episódio e conta como neutralizou os militares radicais. A atitude de Geisel não foi ideológica, ele tinha sido inclusive contra a posse de Jango e chegou a sugerir um plano de resistência à Legalidade a partir da tomada de Curitiba. Foi apenas uma questão de caráter pessoal, de honra, para cumprir a qualquer preço a palavra empenhada. Essa atitude engrandeceu a biografia do general, que muito depois, na ditadura, chegaria à presidência.
Tancredo Neves abriu a lista de primeiros-ministros. O tal parlamentarismo era ridículo e tornou o país ingovernável. Nenhum primeiro ministro durava no cargo e cada vez que mudavam era uma crise danada. O Exército vivia de prontidão. Para resolver o problema foi convocado um plebiscito. O povo decidiria Sim (ao parlamentarismo) ou Não. A campanha pelo Não ganhou as ruas. Brizola, Jango, Juscelino e muitos outros líderes faziam campanha pelo Não. O carro da minha família tinha um adesivo enorme, em vermelho e preto (as cores do PTB), com uma única palavra: Não! Esse adesivo estava por toda parte. O resultado do plebiscito foi esmagador, coisa assim de 90% em favor do Não. Com a irrefutável decisão popular ficava restabelecido o presidencialismo. Jango, finalmente, começava a governar, depois de vários meses de crises.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho da fronteira, é jornalista profissional, com mais de 40 anos de atividades. Começou em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1963. Foi repórter e exerceu cargos de chefia em alguns dos principais veículos do Brasil, como Rede Globo, jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, revista Motor 3, Folha da Manhã (RS) e outros. Foi repórter em Última Hora, trabalhando com Samuel Wainer. Já assinou artigos e reportagens em mais de uma centena de publicações de todo o Brasil. Trabalhou também em assessoria de imprensa, para empresas e entidades públicas, como Ford Brasil, Conselho Regional de Economia e IPT- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. É autor do livro “As 3 Vidas de Jaime Arôxa”, pela Editora Senac Rio, e participou como cronista da antologia “Porto Alegre, Ontem e Hoje”, pela Editora Movimento, do Rio Grande do Sul. Assinou também orelhas de diversos livros sobre dança e música, de autores brasileiros. Um ano antes de se aposentar, quando era editor-chefe do Jornal do Economista, em São Paulo, fundou o jornal Dance, que em julho completa 15 anos. Tem novo livro pronto, ainda inédito. É “Periferia da História”, onde conta de memória 45 anos da recente história brasileira. Trabalha em novos projetos editoriais, como jornalista e escritor. Na área de dança, organiza uma coletânea com os melhores editoriais publicados no Dance. Atualmente prepara um livro sobre Maria Antonietta, grande mestra da dança de salão carioca, que morreu recentemente. Apaixonado por viagens conhece quase todo o Brasil e já visitou cerca de 40 países. Por hobby e paixão é dançarino de tango.
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quinta-feira, 18 de junho de 2009

O RIO GRANDE EM PÉ, PELA LEGALIDADE
TERCEIRA PARTE
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Capítulo inédito do livro “Periferia da História”.

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Milton Saldanha
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No dia seguinte à renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, começou a crise político-militar. Vou resumir e simplificar ao máximo o que ocorreu: os ministros militares, liderados pelo general Odilo Denys, ministro da Guerra, achavam que Jango (João Goulart), o vice de Jânio, não poderia assumir o poder. Motivos: era comunista (nunca foi), ou simpático ao comunismo; defendia interesses populares; dizia-se herdeiro político de Getúlio Vargas; tinha pacto com sindicatos, etc. Os ministros tentaram o golpe, aproveitando que Jango estava em visita oficial à China, do outro lado do mundo. Tinha ido por delegação de Jânio, como parte da sua estratégia no frustrado golpe da renúncia.
Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, colocou a Brigada Militar protegendo o Palácio Piratini, desceu para o porão já armado de metralhadora, e requisitou com força policial a rádio Guaíba, do grupo Caldas Júnior , uma das mais potentes do Estado. Antes tomou o cuidado de colocar um batalhão inteiro da Brigada protegendo os transmissores e antena. Diretamente do porão do Piratini, microfone na mão, Brizola anunciou ao país que não aceitaria a ditadura militar, defendeu a posse do vice-presidente constitucional, e anunciou que não recuaria, nem que isso lhe custasse a vida. A partir daquele momento o Rio Grande do Sul começava a parar e se engajava maciçamente na resistência, movimento que ficou conhecido como Legalidade.
A Legalidade começou num dia bonito em Santa Maria, a 307 km de Porto Alegre, com céu muito azul, temperatura agradável. Ligamos o rádio por volta das 10 horas da manhã, acho que era um sábado ou domingo, porque a família estava toda em casa. As quatro rádios da cidade (Imembui, Santamariense, Medianeira e Guarantã) já estavam em rede com as rádios de Porto Alegre. Com profunda emoção, cheio de ênfase, mas ao mesmo tempo mantendo uma serenidade admirável, o escritor regionalista Manoelito de Ornellas, um grande prosador, locutor número 1 da Cadeia da Legalidade, diretamente do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, convocava o povo para a luta de resistência armada:
- O Rio Grande está em pé pela Legalidade!
- Querem rasgar a Constituição brasileira, mas o III Exército não aceita a ditadura!
- Salve o III Exército, salve o glorioso exército de Caxias!
E assim prosseguiu horas, com palavras de ordens. Em todas as rádios, mais de cem em cadeia, cobrindo todo o Estado, de ponta a ponta, só se ouvia aquilo. Nada de programação normal, nem de comerciais.
A voz de Manoelito de Ornellas, uma dicção privilegiada, mestre do improviso e de transformar qualquer fato numa história saborosa, tinha como fundo marchas militares, que subiam de volume e ocupavam os intervalos entre cada proclamação à nação. De vez em quando o próprio Brizola voltava ao microfone, com discursos contundentes da sacada do palácio, sob aplausos da multidão que já se formara ali na frente, na Praça da Matriz. A Rede da Legalidade se propagou cada vez mais, incorporando inclusive os rádio-amadores, com seus equipamentos domésticos, para que seu som chegasse nos mais remotos rincões dos pampas. Tinha também emissoras de Santa Catarina e Paraná.
Brizola passou todo o tempo entrincheirado no palácio, sob proteção do Batalhão Bento Gonçalves, da Brigada Militar. Porto Alegre vivia a maior ebulição de sua vida, com uma multidão cada vez maior se aglomerando na praça, onde já estavam instalados alto-falantes. Até se confirmar a notícia da adesão do general Machado Lopes, comandante do III Exército, a tensão foi enorme. Na preparação para a luta cinco mil revolveres e caixas de balas foram distribuídos a civis. Esse contingente armado ficou conhecido como Patrulha Taurus, a marca da arma. Foram distribuídos também lenços de pescoço para identificar os membros da patrulha. Quando a crise acabou poucas armas foram devolvidas.
O general Machado Lopes havia recebido ordens de Brasília para prender o governador e calar a Rede da Legalidade, a qualquer custo. Consta que Lopes num primeiro momento ficou indeciso, mas acabou aderindo à resistência por pressão de alguns oficiais e principalmente sargentos, dispostos inclusive a tomar o quartel. Meu tio, Paulo Drozinski, era sargento, servia justamente no QG, e foi um dos que se ocultou numa espécie de sótão, com armas, inclusive metralhadoras ponto 50, as maiores, aguardando pela definição do comando. Foram momentos de extrema tensão naquele quartel. Numa situação parecida a V Zona Aérea, da Força Aérea Brasileira, seguiu o Exército. Lá a situação também não foi fácil, ou bem pior. Os golpistas expediram uma ordem de bombardeio aéreo do palácio. Sargentos legalistas sabotaram aviões e colocaram tonéis na pista. Em discurso dramático, Brizola anunciou que resistiria até a morte, se preciso fosse. Teve a adesão e solidariedade de D. Vicente Scherer, arcebispo metropolitano. A Igreja Matriz fica ao lado do Piratini.
Quando a notícia da adesão do III Exército foi divulgada o povo entrou em delírio na praça. O general Machado Lopes se dirigiu do seu QG para o palácio, não muito longe dali. Lá formalizou a aliança e a subordinação da Brigada Militar ao seu comando.
Nós, lá de casa, em Santa Maria, acompanhando tudo pelo rádio (ainda não existia TV), chorávamos de emoção. Meu pai, oficial do exercito já na reserva, e que serviu muitos anos no Rio Grande do Sul, tinha um nó na garganta. “Este é o meu Exército, sinto orgulho do meu Exército”, dizia. Logo depois do almoço, sempre com o rádio ligado, fui com ele para o centro da cidade, onde já tinham colocado postos de alistamentos. Por toda parte, nas ruas centrais, tinham instalado equipamentos de som que reproduziam a Rede da Legalidade. Meu velho, em terno de linho branco e chapéu, todo orgulhoso, entrou na fila e assinou a lista, antecedendo seu nome com o título de tenente-coronel. Os encarregados do posto gostaram, fortalecia o movimento. Depois dele eu me alistei. Aquele alistamento, na verdade, era simbólico, mais uma forma de mobilização e comprometimento moral das pessoas. Não se pedia documento, não importavam sexo e idade. Se tivessem que recrutar combatentes civis para valer, com certeza a coisa seria bem diferente. Mesmo assim, quando chegamos em casa e contei, excitado, com pose de herói, que estava alistado, minha mãe ficou assustada, como se a gente fosse no dia seguinte para o front. Imaginem, eu não sabia atirar nem com espingarda de rolha. Muito menos tinha idade para isso. A mobilização do Estado para a luta foi total. Ninguém, nem um político sequer, ousava dizer uma única palavra contra aquele movimento. Os mais ferrenhos inimigos do PTB simplesmente ficaram quietos em suas casas, entre eles o famoso e conceituado advogado Walter Jobim, nosso vizinho, filho de um ex-governador e pai do atual ministro da Defesa, Nelson Jobim. Detalhe: brinquei na rua algumas vezes com Nelson Jobim e seus irmãos. Mas nunca existiu uma amizade forte entre a gente, como tive com Tarso Genro.
O movimento da Legalidade aglutinou totalmente o povo gaúcho. Foi inclusive mais forte do que a união paulista na Revolução Constitucionalista de 1932, porque em São Paulo havia federalistas declarados e claras divisões no meio militar, logo neutralizadas. Já o RS se levantou em bloco, inclusive com a imediata adesão do general Pery Bevilacqua, que comandava a 4ª Divisão de Infantaria, em Santa Maria, a mais poderosa do Estado. O mesmo aconteceu com as tropas da fronteira, sob o comando do notável general Oromar Osório, sediado em Santiago, que, aliás, já havia aderido antes mesmo de Machado Lopes.
Porto Alegre era o foco de todas as atenções. No centro da cidade havia um pavilhão grande, dos serviços de turismo, conhecido como Mata Borrão. Gaúchos tradicionalistas, com todo aquele aparato de desfiles, lanças e bandeiras, enfiados nas suas botas, bombachas, lenços no pescoço e chapéus de abas largas, acamparam no Mata Borrão. Ficavam lá tomando chimarrão e enchendo o tempo com fanfarronices de machões, tudo muito divertido. A guerra parecia também uma grande festa. O trabalho e as aulas estavam suspensos. Os bancos fechados e os postos de gasolina com restrições severas de consumo, para que não viesse a faltar combustível para as viaturas militares.
Ali aprendemos com nosso pai, ex-oficial de estado maior, duas medidas indispensáveis numa ameaça de guerra civil: 1) Tirar rápido todo o dinheiro do banco. 2) Encher o tanque do carro e não rodar, se possível guardando um galão extra de combustível, como ele fez. Numa guerra isso é um bem precioso.
Em Santa Maria as emoções eram também muito intensas, por todas as características da cidade, então centro ferroviário e estudantil, e principalmente porque tem até hoje uma das principais guarnições militares do Brasil. O general Pery Bevilacqua depois se tornou muito famoso e influente no meio militar. Conforme ele próprio contou, e disso fui testemunha ao ouvir seu pronunciamento na Semana da Pátria, na Praça Saldanha Marinho, no auge da crise Brizola ligou do palácio querendo saber sua posição. Pery respondeu prontamente: “Governador, como soldado não sei o nome do presidente da República. A Constituição tem que ser respeitada”. Isso, decisivamente, seleva a unidade do Rio Grande, em pé, em armas, em defesa da democracia.
Santa Maria, com suas bandas marciais, adorava desfiles. A Legalidade também teve o seu. Marcharam pela avenida Rio Branco, central, milhares de alistados, inclusive enfermeiras e médicos, com seus uniformes brancos, e representações dos militares. Como eu era escoteiro, fui fardado, por minha conta, porque o grupo ainda não estava oficialmente inserido no movimento. Só no dia seguinte o comissário distrital, uma espécie de chefe geral dos escoteiros da cidade, reuniu todos os grupos, com seus chefes, e informou que seríamos acionados no momento oportuno, em tarefas urbanas de apoio ao Exército e à Brigada Militar. Isso incluía, por exemplo, dirigir o trânsito, já que todos os PMs seriam mobilizados para ações armadas. Poderíamos também ser estafetas, com bicicletas, levando mensagens, medicamentos, o que precisassem. Essa perspectiva de convocação mexia com nosso imaginário, nos excitava, gerava muita vontade de entrar em ação. A gente se inseria mais ainda no clima geral, pois a população toda estava ouriçada.
O dia de maior emoção foi o do embarque de tropas, na estação de trens, deslocadas para a divisa com o Paraná. Os soldados, com mochilas e fuzis pendurados ao ombro, ganharam alguns minutos para as despedidas pessoais, na plataforma abarrotada de gente. A banda tocou o Hino Nacional e a Valsa do Adeus. O trem, “maria fumaça preta”, soltando vapores para os lados, apitou três vezes, patinou ruidosamente nos trilhos e arrancou, com a soldadesca debruçada nas janelas, abanando e deixando para trás um vale de lágrimas de mães, esposas, namoradas, amantes, crianças, autoridades e curiosos. Tínhamos, ao vivo e reais, aquelas cenas clichês tão conhecidas dos filmes de guerras.
Numa tarde, quando menos se esperava, apareceu sobre Santa Maria um avião T-6, aqueles caças barulhentos, remanescentes da Segunda Guerra Mundial. Despejava panfletos sobre a cidade, inclusive sobre os quartéis. Lembro-me do avião em rasante, ainda bem que em vez de tiros e bombas despejando só papéis. Vinha tão baixo que dava para ver que era pilotado por um homem só. O panfleto defendia o golpe, acusando Jango. Mal feito, uma bobagem. Numa guerra de verdade o caça teria sido abatido, mas voou livremente e fugiu. Não resta dúvida que o piloto foi ousado, ou talvez se tratasse de um belo porra louca. Foi o único incidente de maior repercussão em termos de oposição à Legalidade.
Outro pequeno episódio foi pitoresco. Um avião trouxe dois oficiais, em nome do ministro golpista, que foram tentar aliciar o comando local. Os oficiais foram detidos tão logo definiram sua missão no QG. Aí os legalistas mandaram uma patrulha num caminhão para tomar o avião e prender o piloto, na base aérea de Camobi. Só que havia um código qualquer combinado entre o piloto e os dois oficiais. Quando o caminhão verde-oliva apareceu na estrada e não parou, não piscou faróis, não sinalizou nada, o piloto sacou que o esquema tinha furão, ligou às pressas os motores e decolou. Ainda teve tempo, olhando pela janela aberta, de fazer uma banana com o braço para o caminhão que já se aproximava da pista. O avião fez uma curva no ar, antes de se mandar, sob os olhares de bobos dos milicos, em pé ao lado do caminhão, com suas armas na mão.
No rio Guaíba, em Porto Alegre, estava ancorada uma canhoneira da Marinha de Guerra, em visita ao Estado. Zarpou, solidária aos golpistas. Outro barco de guerra, chegando no porto de Rio Grande, teve um motim a bordo, liderado por um tenente telegrafista, e aderiu à Legalidade. Ficou lá até o fim do movimento. Correu também um grande boato de que o porta-aviões Minas Gerais estava descendo o Atlântico para atacar o Rio Grande do Sul.
Ex-recrutas que participaram das tropas legalistas deslocadas de Santa Maria para o Paraná contavam depois, em mesas de bares, que tinham ficado separados das tropas “inimigas” apenas por uma ponte, num rio qualquer de divisa estadual. Sargentos e oficiais, dos dois lados, costumavam atravessar a ponte para bater papo e até mesmo compartilhar, na mais autêntica confraternização sulista, de uma roda de mate, com a cuia passando de mão em mão enquanto a prosa rolava solta. Dá para acreditar que iriam trocar tiros depois?
A guerrinha foi assim, pacífica, tolerante, folclórica, ainda que muito bonita. Na Faculdade de Medicina de Santa Maria estudavam alguns bolivianos, nossos amigos. Eles acompanhavam tudo aquilo incrédulos. “Se fosse no meu país já teriam matado uns duzentos”, comentou um deles. (Amanhã o último capítulo da série, aguardem)
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho da fronteira, é jornalista profissional, com mais de 40 anos de atividades. Começou em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1963. Foi repórter e exerceu cargos de chefia em alguns dos principais veículos do Brasil, como Rede Globo, jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, revista Motor 3, Folha da Manhã (RS) e outros. Foi repórter em Última Hora, trabalhando com Samuel Wainer. Já assinou artigos e reportagens em mais de uma centena de publicações de todo o Brasil. Trabalhou também em assessoria de imprensa, para empresas e entidades públicas, como Ford Brasil, Conselho Regional de Economia e IPT- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. É autor do livro “As 3 Vidas de Jaime Arôxa”, pela Editora Senac Rio, e participou como cronista da antologia “Porto Alegre, Ontem e Hoje”, pela Editora Movimento, do Rio Grande do Sul. Assinou também orelhas de diversos livros sobre dança e música, de autores brasileiros. Um ano antes de se aposentar, quando era editor-chefe do Jornal do Economista, em São Paulo, fundou o jornal Dance, que em julho completa 15 anos. Tem novo livro pronto, ainda inédito. É “Periferia da História”, onde conta de memória 45 anos da recente história brasileira. Trabalha em novos projetos editoriais, como jornalista e escritor. Na área de dança, organiza uma coletânea com os melhores editoriais publicados no Dance. Atualmente prepara um livro sobre Maria Antonietta, grande mestra da dança de salão carioca, que morreu recentemente. Apaixonado por viagens conhece quase todo o Brasil e já visitou cerca de 40 países. Por hobby e paixão é dançarino de tango.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009

BRIZOLA SOBE, JÂNIO QUADROS RENUNCIA

SEGUNDA PARTE
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Do livro inédito “Periferia da História”, adaptado para nosso blog.
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Milton Saldanha

Naquela encarniçada disputa pelo governo gaúcho chegou a vez do comício do Brizola em Santa Maria. O palanque era enorme, construído na Praça Saldanha Marinho para os festejos do centenário da cidade, ao longo do ano, em 1958, e acabou virando uma grande tribuna livre, usada para todo tipo de evento, de Carnaval à festa de igreja. O PTB conseguiu reunir de 50 a 60 mil pessoas, até ali, com certeza, a maior concentração política que a cidade já conhecera. Era uma grande festa, com luzes, rojões, bandeiras e alto-falantes instalados por toda a praça e esquinas mais próximas. Consegui subir no palanque, tinha só 13 anos. A segurança nem ligou. Levava uma bandeira na mão e fui me enfiando por entre a multidão de políticos. De repente estava lá na frente, ao lado do próprio Leonel Brizola, a grande estrela da noite, e ali fiquei durante todo o comício, agitando a bandeira, gritando, aplaudindo, com o entusiasmo de um militante. Um deputado estadual, Croacy de Oliveira, raposa velha, ficou observando tanta vibração e me falou, naquele tom dos sábios mais velhos e de quem está acostumado a fazer demagogia com todo mundo: “você vai ser um grande político!” Enganou-se o deputado. Na verdade não me tornei grande em coisa nenhuma, exceto em caráter.
Brizola era muito jovem, usava um bigodinho estilo Clark Gable, cabelo bem preto e crespo, puxado para trás, com brilho de algum fixador, como era moda. Estava com paletó xadrez, mas sem gravata, sorria e abanava para a multidão o tempo todo. Ao seu lado, muito simpática, sorridente, dona Neusa, sua mulher, irmã do presidente Jango. Lá do alto a gente via aquele mar de cabeças, faixas, cartazes, bandeiras, mãos erguidas aplaudindo, punhos fechados esmurrando o ar. Rostos, só de quem estava mais perto do palanque. O resto era uma massa sem face, que gritava de tudo e ao mesmo tempo, ninguém sem entender ninguém, só muito barulho.
Brizola ganha a eleição, foi um passeio. Até ali, contudo, pouco se sabe sobre ele, exceto que fora um bom prefeito de Porto Alegre. Seu primeiro ano de governo do Estado transcorre opaco, até que vira líder de massas populares da noite para o dia, em poucas horas, algo realmente impressionante. Logo você saberá como isso aconteceu.
No centro da Praça Saldanha Marinho, a principal de Santa Maria, havia um potente som, instalado sobre a cobertura de um coreto. Pertencia a rádio Santamariense e ligavam todos os dias às 6 da tarde, quando era transmitida a Hora da Ave Maria, um momento bonito da cidade, com a prece e a música. Mas sempre que havia alguma notícia em edição extraordinária eles também ligavam o som da praça, momento em que os transeuntes paravam qualquer coisa que estivessem fazendo para ouvir. Eu estava passando na frente da praça na tarde daquele 25 de agosto de 1961 quando o som entrou de repente: “E atenção, Brasília, urgente! O presidente Jânio Quadro acaba de renunciar. Deixou uma carta e já saiu do Palácio do Planalto, tomando rumo ignorado. Repetimos: o presidente Jânio Quadros acaba de renunciar!
Todas as pessoas por ali ficaram mudas e inertes por alguns segundos. O choque foi brutal, principalmente porque quase todo mundo já estava começando a gostar do Jânio, em seu sétimo mês de governo, inclusive eu, que ainda não votava, mas tinha sido um incisivo defensor do seu principal adversário, o marechal Teixeira Lott, candidato do PTB, o “Homem da Espada”, contra o “Homem da Vassoura”. Aquelas loucuras populistas do Jânio eram gostosas para o povão. E, para nós da esquerda estudantil, a condecoração a Che Guevara, então ministro da Fazenda de Cuba, tinha sido um gesto tão surpreendente quanto simpático. Qualquer coisa que pudesse irritar os norte-americanos nos alegrava. Jânio, eleito pela UDN – União Democrática Nacional, semente daquilo que virou PFL e atual DEM, só que pior ainda, como se sabe tentou um golpe e caiu do cavalo. Tinha sido eleito com mais de 5 milhões de votos, recorde absoluto até ali na história republicana. Tinha apoio e simpatia nas Forças Armadas. Seu marketing populista era eficiente, ainda que barato, envolvendo coisas minúsculas como proibição de briga de galos e biquínis nas praias. Tinha acariciado a esquerda com Guevara e deixado desconfiada a direita. Quebrava protocolos e inventava modas, como seu famoso jaleco, sem gravata, com mangas curtas. Estava intensamente presente na mídia, todos os dias, pelos mais variados e até banais motivos. Dava a impressão que estava começando a endireitar o país. Pena que era só impressão. Por tudo isso, superestimou suas chances de se tornar ditador, com o plano de fechar o Congresso. Voltaria da renúncia nos braços do povo, como se dizia, só que o povo ficou em casa ouvindo a crise pelo rádio. Ninguém, absolutamente ninguém, de norte a sul, saiu sequer na calçada da própria casa para chamar Jânio de volta. Ele ficou várias horas na base aérea de Cumbica (não existia o atual aeroporto internacional), em Guarulhos, com a faixa presidencial na mala. Esperando, evidentemente, para usar no triunfal retorno. Depois embarcou num navio cargueiro, iniciando seu exílio voluntário, numa solidão deprimente.
E assim o louco, insensato, jogou o país numa crise institucional gravíssima, que nos custou muito caro, ou mais do que isso, danos irreparáveis, sobretudo a partir da ditadura militar implantada em 1964.

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AMANHÃ, O CAPÍTULO FINAL AQUI NO BLOG: O RIO GRANDE DO SUL SE LEVANTA EM ARMAS E DIZ NÃO À DITADURA. COMEÇA A CAMPANHA DA LEGALIDADE. É 1961.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho da fronteira, é jornalista profissional, com mais de 40 anos de atividades. Começou em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1963. Foi repórter e exerceu cargos de chefia em alguns dos principais veículos do Brasil, como Rede Globo, jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, revista Motor 3, Folha da Manhã (RS) e outros. Foi repórter em Última Hora, trabalhando com Samuel Wainer. Já assinou artigos e reportagens em mais de uma centena de publicações de todo o Brasil. Trabalhou também em assessoria de imprensa, para empresas e entidades públicas, como Ford Brasil, Conselho Regional de Economia e IPT- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. É autor do livro “As 3 Vidas de Jaime Arôxa”, pela Editora Senac Rio, e participou como cronista da antologia “Porto Alegre, Ontem e Hoje”, pela Editora Movimento, do Rio Grande do Sul. Assinou também orelhas de diversos livros sobre dança e música, de autores brasileiros. Um ano antes de se aposentar, quando era editor-chefe do Jornal do Economista, em São Paulo, fundou o jornal Dance, que em julho completa 15 anos. Tem novo livro pronto, ainda inédito. É “Periferia da História”, onde conta de memória 45 anos da recente história brasileira. Trabalha em novos projetos editoriais, como jornalista e escritor. Na área de dança, organiza uma coletânea com os melhores editoriais publicados no Dance. Atualmente prepara um livro sobre Maria Antonietta, grande mestra da dança de salão carioca, que morreu recentemente. Apaixonado por viagens conhece quase todo o Brasil e já visitou cerca de 40 países. Por hobby e paixão é dançarino de tango.
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terça-feira, 16 de junho de 2009

ASSISTINDO A GUERRA PELA JANELA

General Lott coloca Lacerda pra
correr e garante a posse de JK
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PRIMEIRA PARTE
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Do livro inédito “Periferia da História”, adaptado para nosso blog.
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Milton Saldanha
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11 de novembro de 1955. Quem conhece a História contemporânea do Brasil sabe a importância desta data. Para quem não sabe, mais adiante eu explico. Foi há 54 anos, eu tinha 10. Aquele dia ficou na minha memória nos mínimos detalhes. Garoava e fazia até um pouco de frio, raro no Rio de Janeiro. Acordei bem cedo, com minha mãe agitada, quase aos gritos, repetindo: “O Lott deu o golpe!” Corri à janela e vi o quartel do 1º Regimento Escola de Infantaria, do outro lado da avenida de duas pistas, na maior agitação. Centenas de soldados com fuzis embalados, baioneta calada, e sargentos com metralhadoras Ina e bornais de munição a tiraloco caminhavam de um lado para outro ao longo da calçada que acompanhava o extenso muro. No portão tinham colocado sacos de areia e metralhadoras pesadas.
Não demorou muito e meu pai, capitão, voltou da ESAO – Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, em uniforme de campanha, revólver no coldre, calçando coturnos pretos, reuniu a família e deu instruções: “se a aviação atacar vocês deitem todos no chão, deixando os colchões em pé, contra a parede, para ajudar a proteger”.
Pertinho dali, o Campo dos Afonsos estava cercado por tanques e canhões. Nesse local eram treinados os jovens pilotos de guerra da Aeronáutica, nos barulhentos e temíveis aviões T-6 (falava-se “T-meia”). Para quem, como eu, crescia praticamente dentro de quartéis, sem chance até então de ver aquele aparato todo em uso real, e que só via guerra no cinema, aquilo tudo era demais! Realmente uma festa, fantástico! Meu irmão mais velho, Rubem, parecia o único ali com juízo. Eu e minhas duas irmãs, todos crianças, ficamos realmente eufóricos com aquela situação, principalmente com a possibilidade de presenciar um ataque aéreo, tiros, bombardeio. Torcemos para que acontecesse, era excitante ver e viver ação. Não tínhamos pálida noção da tragédia iminente, muito menos do nosso próprio risco, morando a poucos metros do quartel, na Vila Militar do Rio de Janeiro.
Felizmente, não houve ataque, nem aéreo, nem terrestre. Mas ficamos acompanhando pelo rádio e pela janela do nosso apartamento, no primeiro andar de um pequeno prédio, aquela grave crise político-militar que culminou com a deposição do presidente da República interino Carlos Luz pelas forças leais ao general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra (cargo que depois passou a se chamar ministro do Exército). Lott, alguns anos depois, perderia de lavada para Janio Quadros a eleição para presidente.
Na verdade, não foi um golpe e sim um contragolpe desfechado por Lott, com apoio de outros generais influentes, como Odilo Denys, para assegurar a posse constitucional de Juscelino, o popular JK. Setores mais retrógados da Aeronáutica e da Marinha, tendo em Carlos Lacerda sua inspiração, tentavam impedir a posse de JK, democraticamente eleito pelo povo. A alegação era de que JK não tinha alcançado maioria, porque a soma dos votos dos demais candidatos (Juarez Távora e Adhemar de Barros) era maior. Naquele tempo não havia segundo turno e a legislação eleitoral permitia essa possibilidade, ou anomalia, como queiram. JK, portanto, estava legalmente eleito, não havia o que contestar. E o vice-presidente era eleito em separado. Podia-se votar para presidente num candidato de um partido e, para vice-presidente, de outro partido. Deu João Goulart, o Jango, com mais votos que JK. Depois Jango foi vice de Jânio e assumiu o poder com a renúncia.
O general Lott, respeitadíssimo no Exército, militar inflexível na disciplina e de honra pessoal inatacável, famoso pela honestidade (e mais tarde também pela ingenuidade política), colocava toda sua força e prestígio a serviço da legalidade constitucional e da democracia. Lançou suas tropas na rua, tomou o Rio de Janeiro, e botou o deputado federal Carlos Lacerda para correr. Lacerda se refugiou no encouraçado Almirante Tamandaré, que saiu da Baia de Guanabara para alto mar sob tiros de advertência dos poderosos canhões do célebre Forte de Copacabana, hoje museu do Exército e área de lazer, aberta ao público. Ou os caras eram muito ruins de pontaria, ou houve uma deliberada intenção de não acertar o navio, o que é mais provável. Da nossa casa, do outro lado da cidade, em Deodoro, na Zona Norte, é claro que não deu para ouvir os tiros. Mas quem estava na Zona Sul ficou muito assustado.
Lott derrubou Carlos Luz porque ele estava fazendo abertamente o jogo do golpe para impedir a posse de JK, ocorrida em 1956. Luz foi presidente só 3 dias, de 9 a 11 de novembro de 1955. Estava substituindo, como presidente da Câmara, a Café Filho, vice que assumiu com o suicido de Vargas. Café tinha se licenciado para uma cirurgia. Nunca mais reassumiu. Nereu Ramos exerceu mandato tampão até 31 de janeiro de 1956, quando entregou a presidência a JK.
Lott, se quisesse, teria se tornado ditador naquele 11 de novembro. Mas o fato é que mandaria prender na hora qualquer pessoa que lhe fizesse tal sugestão. Meu pai era fã assumido do Lott. Quando se formou na ESAO recebeu seu diploma das mãos dele. Nossa família toda estava lá. Nós, crianças, fazíamos farra com a careca suada e muito brilhante do Lott, um tipo germânico, sisudo, de tez avermelhada.
Na noite de 13 de novembro, eu e minhas irmãs, Sonia e Vera, ficamos na sacada acompanhando, ao vivo, nova saída de tropas. Parecia um 7 de setembro especial para nós. Jipes e caminhões rebocando canhões, carros de combate, tanques, foram deixando em fila o Regimento de Infantaria. Aquilo parecia que não tinha mais fim. Recordo que, apontando com o dedo, num gesto bem infantil, contamos uma a uma as viaturas, que totalizaram 160. Teríamos, naquele momento, sido notáveis fontes para qualquer jornal, porque com certeza só nós tínhamos esse dado com exatidão. Fizemos aquilo meramente por curiosidade, sem perceber que naquele momento éramos testemunhas da História, ainda que três crianças.
Nosso pai contou depois uma versão sobre essa saída de tropas, destinadas a substituir aquelas que já estavam na rua, cansadas. Oficiais golpistas teriam tentado impedir a saída do comboio. Sargentos se rebelaram, prenderam os golpistas no cassino dos oficiais e, com apoio de oficiais legalistas, garantiram o acatamento às ordens de Lott. O Brasil daquele período, ainda com o trauma do suicídio de Getúlio Vargas não cicatrizado, era um país tenso. Lembro-me que a todo momento o Exército entrava em prontidão. Nós, de família militar, sabíamos. Os civis nem ficavam sabendo.
Eu pensava e agia como criança, o que era o normal, mas hoje percebo como mesclava isso com um impressionante e precoce interesse pela política. Acompanhava tudo de perto, atentamente, e até já assumia posições, influenciado pelas conversas que ouvia em casa, claro. Tinha a maior bronca do Lacerda, por exemplo, e simpatia pelo Lott. Aquela coisa despida de malícia política, tudo no plano pessoal mesmo, bem maniqueísta. Pô gente, eu tinha só 10 anos!
Esse interesse aguçava minha curiosidade sobre o que pensavam os oficiais ali da Vila Militar, mais próximos de casa. Sabendo que não podiam se manifestar, e jamais faziam isso, fui gradualmente descobrindo o pensamento político de cada um de uma maneira muito simples: sondando a garotada, os filhos, em certos momentos até de maneira provocativa. Os filhos reproduzem o que ouvem dos pais. Todos iam abrindo. Era um horror, só havia oficiais simpáticos a golpes de direita. Apenas um, médico, era legalista, como meu pai, veterinário. Ambos, portanto, oficiais de apoio, sem comando de tropa e sem liderança na caserna. A mãe de um dos garotos percebeu meu interesse e ficou desconfiada. De uma hora para outra, eles que eram lacerdistas roxos, viraram “lottistas”. Eu chegava para brincar na casa deles e a mulher e o garoto, visivelmente instruído para isso, achavam um jeito de me dizer que eram a favor do Lott. Certamente pensaram que meu pai pudesse ser de algum esquema de informações, de quem estava no poder, e que eu puxasse tais assuntos para depois dar o serviço em casa. Os receios deles não eram infundados. Muitos oficiais golpistas foram removidos para unidades distantes, sem expressão, geralmente nas fronteiras, ou para postos burocráticos, sem tropa com poder de fogo.
O clima de guerrinha ainda durou uns dois meses em toda Vila Militar, depois daquele 11 de novembro. A gente percebia claramente, pela experiência de vida, que os quartéis permaneciam de sobreaviso. A Guerra Fria, com Estados Unidos e União Soviética disputando o mando do planeta, tinha fortes reflexos na nossa política interna, estimulando as radicalizações.
Nossas emoções foram se dissipando junto com as dos militares, na volta gradual à rotina. Eu esquecia a política e voltava a ser moleque, com a turma da vizinhança. Tínhamos um “forte”, na verdade um buraco no gramado do prédio, com “canhão” e tudo, que certo dia foi tomado num ataque de surpresa pela turma do quarteirão ao lado.

(Capítulo de amanhã: Brizola sobe, Jânio renuncia).
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho da fronteira, é jornalista profissional, com mais de 40 anos de atividades. Começou em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1963. Foi repórter e exerceu cargos de chefia em alguns dos principais veículos do Brasil, como Rede Globo, jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, revista Motor 3, Folha da Manhã (RS) e outros. Foi repórter em Última Hora, trabalhando com Samuel Wainer. Já assinou artigos e reportagens em mais de uma centena de publicações de todo o Brasil. Trabalhou também em assessoria de imprensa, para empresas e entidades públicas, como Ford Brasil, Conselho Regional de Economia e IPT- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. É autor do livro “As 3 Vidas de Jaime Arôxa”, pela Editora Senac Rio, e participou como cronista da antologia “Porto Alegre, Ontem e Hoje”, pela Editora Movimento, do Rio Grande do Sul. Assinou também orelhas de diversos livros sobre dança e música, de autores brasileiros. Um ano antes de se aposentar, quando era editor-chefe do Jornal do Economista, em São Paulo, fundou o jornal Dance, que em julho completa 15 anos. Tem novo livro pronto, ainda inédito. É “Periferia da História”, onde conta de memória 45 anos da recente história brasileira. Trabalha em novos projetos editoriais, como jornalista e escritor. Na área de dança, organiza uma coletânea com os melhores editoriais publicados no Dance. Atualmente prepara um livro sobre Maria Antonietta, grande mestra da dança de salão carioca, que morreu recentemente. Apaixonado por viagens conhece quase todo o Brasil e já visitou cerca de 40 países. Por hobby e paixão é dançarino de tango.
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

60 SEMANAS ENTRE OS MAIS VENDIDOS

Nivia Andres
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"A sombra do vento"
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Obra sedutora e comovente
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Em meio à diversidade de títulos lançados a cada ano no mercado editorial, poucos conseguem conquistar ao mesmo tempo o público e a crítica. A sombra do vento é uma dessas raridades. Por mais de 60 semanas na lista dos livros mais vendidos da Espanha, o romance já vendeu mais de 10 milhões de cópias em todo o mundo.
A sombra do vento, do espanhol Carlos Ruiz Zafón, é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar.
Tudo começa em Barcelona, em 1945. Daniel Sempere está completando 11 anos. Para consolar o filho triste por não conseguir mais se lembrar do rosto da mãe já falecida, seu pai lhe oferece um presente inesquecível - em uma madrugada fantasmagórica, leva-o a um misterioso lugar no coração do centro histórico da cidade, o Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de "A sombra do vento", do também barcelonês Julián Carax. O livro desperta no sensível Daniel um enorme fascínio por aquele autor desconhecido e sua obra. Obcecado, Daniel começa então uma busca pelos outros livros de Carax e, para sua surpresa, descobre que alguém vem queimando sistematicamente todos os exemplares de todos os livros que o autor já escreveu. Na verdade, o exemplar que Daniel tem em mãos pode ser o último existente. Daniel logo irá entender que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles a que ama poderão ter um destino terrível.
Em sua busca, Daniel conhece uma galeria de personagens que vão ajudá-lo a resolver o mistério de Carax. Dom Gustavo Barceló, livreiro barcelonês, seriamente interessado em comprar o exemplar de A sombra do vento que Daniel lhe mostra; sua bela sobrinha cega, Clara Barceló, que revela a Daniel os primeiros elementos do mistério que cerca Carax e sua obra e por quem o menino se apaixona perdidamente; Fermín Romero de Torres, mendigo de passado glorioso e aguçado senso de humor que se tornará o maior aliado de Daniel na busca da verdade; Nuria Monfort, mulher triste que guarda grande e doloroso segredo; e Javier Fumero, o cruel policial que também parece dedicar a vida a perseguir o fantasma de Julián Carax.
À medida que vai descobrindo mais sobre a vida de Carax, Daniel entende que o mistério de sua obra está de alguma forma relacionado à história de amor entre dois jovens do início do século: o próprio Carax, filho de um modesto chapeleiro, e Penélope Aldaya, filha de uma família da alta sociedade de Barcelona. E enquanto a cidade e seus personagens vão aos poucos revelando a Daniel os segredos e as consequências dessa história de amor do passado, ele também descobre o verdadeiro amor nos braços de Bea, irmã mais velha de seu melhor amigo, Tomás Aguilar.
A sombra do vento usa o cenário grandioso de Barcelona da época, com suas largas avenidas, casarões abandonados, atmosfera gótica e espectral, para ambientar um romance arrebatador que é também uma reflexão sobre o poder da cultura e a tragédia do esquecimento. A busca de Daniel marca sua transformação de menino em homem, e desperta no leitor um fascínio renovado pelos livros e pelo poder que eles podem exercer.
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*Nivia Andres, jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008. Blog da jornalista:
http://niviaandres.blogspot.com/
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domingo, 14 de junho de 2009

MEMÓRIAS DE BRASÍLIA, A CAPITAL DA ESPERANÇA, NA ÉPOCA DA DITADURA

Oswaldo Lavrado
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Viajando com um defunto
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Meados da década de 80 e a ditadura militar que comandava este país estava nos estertores, porém ainda vigorava, mandava e comandava com força total. Um belo sábado de maio embarcamos, eu e o Edward, num vôo da Varig, de Cumbica, rumo a Brasília. Nosso destino era Anápolis, em Goiás, para a transmissão do jogo Anapolina x Santo André, pela Série B do Brasileirão. Viagem tranquila e sossegada e até a Capital da República. Mas, a partir daí começava a saga. Um táxi nos conduziu até a estação rodoviária de Brasília, onde deveríamos embarcar num ônibus até Anápolis. A rodoviária imunda, poeirenta e desconfortável estava apinhada de gente e, claro, muitos militares. Eu me acomodei, com nossas malas e os apetrechos da rádio, em um banco sujo e cheio de pó, enquanto o Edward foi comprar os bilhetes do ônibus que nos conduziria a Anápolis. Em determinado momento ouvi uma gritaria e um barulho no guichê onde ele estava. Cheguei perto e em tempo de evitar o pior: “que houve cara, porque está tão bravo", disse eu. Nervoso, ele respondeu: "essa besta (a menina que vendia os bilhetes) me disse que só tem ônibus para o meio dia. Falei pra ela se não poderia arrumar dois lugares em horário mais cedo, tipo 9 ou 10 horas. Que nada! Parecia que eu era um monte de m... Ela nem olhou em minha direção. Ai dei um murro no balcão (por pouco quebra o vidro) e disse que ela precisava ter um pouco de educação, afinal, não estava lidando com gado. No mínimo sua obrigação seria olhar no rosto do passageiro e responder o que lhe foi perguntado". A menina estava pálida, coitada. Tirei o Edward correndo de lá, peguei os bilhetes para o meio dia mesmo, pedi desculpas à moça e saímos dali. Ficamos aguardando no mesmo banco imundo e cercado por soldados do exército (nunca vi tantos). Deu o horário, o ônibus chegou, lotou e rodamos 155 quilômetros por uma estrada de uma pista só, porém asfaltada e em boas condições. Desembarcamos em outro lixão: a rodoviária de Anápolis, tão imunda e empoeirada, ou pior, que a de Brasília. Ali mesmo notamos uma placa, do outro lado da rua, "hotel" e pra lá nos dirigimos. Na recepção uma garota ruiva nos atendeu, pegou a grana da hospedagem e deu a chave. Disse que o aposento ficava no andar de cima (o único que havia). Subimos por uma rangente escada de madeira (tipo velho oeste) e entramos no quarto. Barbaridade. Uma pocilga; roupa de cama que parecia nunca ter sido lavada e um banheiro que não via água há alguns meses. Como as diárias estavam pagas, deixamos lá as malas e as tranqueiras da rádio e fomos para o centro da cidade. Na praça central de Anápolis deparamos com o hotel Palace (não sei se ainda existe, tenho fotos). Entramos e uma moça muito gentil nos mostrou os quartos: limpos, higienizados e confortáveis. O Edward (sempre ele) foi até a espelunca do hotel da rodoviária, inventou uma história qualquer, deu uma caixinha para a moça da portaria, pegou nossa bagagem, a grana e nos hospedamos no Palace. Ufa...
À noite fomos para um boteco, tipo lanchonete, na praça principal de Anápolis, embaixo do hotel onde eu e o Edward estávamos. Lá encontramos o pessoal da Rádio ABC (Ivanor e Giba), o massagista do Santo André, Miguel de Oliveira (hoje trabalhando no Palmeiras) e Germano Schmidt, gerente de futebol do Santo André e meses depois, presidente do clube. Aqui vai a publicidade de uma cerveja, mas faz parte do relato. Ninguém de nossa turma tomava outra cerveja, a não ser Antarctica e nesse boteco ela não estava gelada ainda. O calor era forte. Miguel de Oliveira, também fanático por Antarctica, não teve dúvidas. Pediu permissão ao dono do bar, arrumou cascos com ele e saiu para buscar, em outro botequim, uma dúzia delas, bem geladas. Papo vai, cerveja vem, até que resolvemos ir a um restaurante próximo. Mais cerveja antes, durante e depois do jantar. Já de madrugada, o Germano resolveu ir embora. Saímos juntos. O gerente de futebol do Santo André atravessou a rua, viu uma porta de vidro iluminada e bateu, julgando ser o hotel onde estava alojada a delegação do Santo André. Mas, nada do porteiro abrir. Meio sapecado pelo excesso de cerveja, o cartola deu um murro na porta e por pouco não estoura o vidro. Desistiu quando o Giba gritou: "Germano, seu hotel fica um pouco mais acima. Aí é uma porta de banco".
Nenhuma outra novidade em Anápolis. No domingo fomos ao simpático estádio do Anapolina e cumprimos nossa missão. O Santo André venceu por 1 a 0. Normal. Ainda no domingo retornamos a Brasília, certos de que voltaríamos a São Paulo numa boa, puro engano. Ficamos num hotel da Asa Norte onde dormimos o sono dos justos pelo dever cumprido e pela manhã da segunda-feira fechamos a conta no hotel e rumamos ao aeroporto. Nosso vôo estava marcado para as 14h, chegamos às 9h e ficamos numa lanchonete da praça de alimentação, instalada no segundo piso do aeroporto. Um café da manhã, dois lanches, refrigerantes e salgadinhos. Depois, deu 13h. Desci sozinho para o indefectível check-in e o Edward ficou na lanchonete. No balcão da Varig, a linda recepcionista (em empresa aérea não trabalha gente feia), viu nossos bilhetes e deu a má notícia: “os senhores só podem embarcar no vôo das 4 horas da madrugada". Calmo, respondi: “mas eu transferi o horário sábado, assim que chegamos aqui". A garota, sem dar muita atenção foi incisiva: "houve algum engano e não posso liberar para outro vôo, desculpe senhor". Esqueci da bendita ditadura militar e armei um pequeno circo. Foi meu primeiro erro. Um milico do exército pegou no meu braço e me conduziu para uma salinha estreita e meio escura. Lá havia mais outros três. Um deles, com a gentileza de um hipopótamo, esbravejou: "seus documentos". Mostrei a credencial de Imprensa. Foi o segundo erro. "Tem mesmo que ser esses metidos pra criar problema", vociferou um cara com algumas divisas no braço que eu não sabia o que significavam, continuo não sabendo e nem interessa. Um outro, não menos arrogante, sentenciou: "olha, cai fora daqui sem chiar que será melhor pra você". Lembrei então que: manda quem pode, obedece quem tem juízo, juntei os bilhetes, meus documentos que tinham ficado com os milicos e me mandei.
Já eram 5 horas da tarde quando cheguei a lanchonete onde o Edward me esperava. Estampava no rosto as três cores do seu São Paulo: branco, preto e vermelho. Com um caminhão de pedras nas mãos, fulo da vida, por pouco não me enche de porradas. Afinal havia ficado "refém" na lanchonete, já que não podia sair (a grana estava comigo), a conta estava alta, pois enquanto me esperava foi consumindo e do patamar onde se encontrava viu vários aviões chegarem e saírem de Brasília, inclusive o nosso, das 14h. Imaginou duas coisas: eu havia embarcado sem ele ou estava preso. Quase acerta a segunda, já que à época qualquer birra era motivo pros milicos enquadrarem a gente, principalmente da Imprensa. Enfim, paguei a lanchonete e nos despedimos do garçom que, ressabiado, não perdia o Edward de vista um segundo, desconfiado que fosse tomar um “cano”. E agora, o que fazer? Sem alternativa e com pouco dinheiro nos bolsos, tomamos um táxi e arriscamos voltar ao hotel e tentar um pernoite de bonificação. Conseguimos. Outro ufa... O motorista que nos conduziu do aeroporto até o hotel, num carro antigo caindo pelas tabelas, foi com a nossa cara. A minha nem tanto, mas com a do Edward que, agora calmo, fez amizade com o taxista. O "chofer" disse chamar-se Marujo, contou algumas histórias quando era marinheiro (certamente não foi em Brasília, que não tem mar) e nos pegou na madrugada para o nosso vôo das 4h. Marujo gostou mesmo do Edward, tanto que fez as duas viagens pelos trocados que ainda nos restavam. Despedimos-nos com um grande abraço e até com troca de cartões. Embarcamos no vôo Varig das quatro horas. O avião, procedente de Manaus, trazia alguns passageiros. E para completar uma viagem inesquecível, no lugar das poltronas, pouco atrás de nós, havia uma maca e um corpo coberto por um véu. Exatamente o que imaginaram. Era um defunto, certamente uma companhia não muito agradável num vôo. Porém, isso foi apenas mais um detalhe de uma viagem de trabalho. Desembarcamos em São Paulo, dever cumprido e ainda ouvimos do nosso famoso motorista Lampião, que foi nos apanhar com o carro da rádio no aeroporto de Cumbica a pergunta: "Foi tudo bem na viagem?” Olhamos um para o outro e respondemos: “foi Lampião, claro que foi”. Nada mais foi dito nem perguntado.
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*Oswaldo Lavrado - jornalista/radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC (rádio e jornal). Comandou a equipe de esportes da Rádio Diário por 10 anos. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.

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sexta-feira, 12 de junho de 2009

O MOMENTO DO DESESPERO É CRUCIAL

J. Morgado
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Em Franca, jovens são religiosos
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Não raro assistimos pela televisão ou lemos nos jornais casos de pessoas desesperadas que tentam o suicídio ou se matam usando armas, atirando-se de viadutos ou de outros locais altos, ou ainda afogando-se, enfim, usando métodos que “nossa vã filosofia poderia imaginar”. Enforcam-se em canos de chuveiros, atiram-se defronte a veículos, inclusive trens, e assim por diante. O momento do desespero é crucial. Se a vontade de fugir de seus problemas é maior do que viver com eles, o fato irremediavelmente acontecerá, a não ser que apareça alguém nesse momento, com bondade e palavras certas e o faça mudar de idéia. Difícil de acontecer, pois geralmente o desesperado encontra-se só, salvo aqueles que se exibem mostrando ao mundo o seu problema, na esperança de que alguém possa resolvê-lo.
Há um ditado chinês que diz “Jamais se desespere em meio às mais sombrias aflições da vida, pois das nuvens negras cai água límpida e fecunda”.
Mas o desespero nem sempre leva ao suicídio; na maioria das vezes, leva o indivíduo a cometer atos contra a sociedade. O roubo, o furto, atos de terror como assassinatos em massa, temos visto não só no Brasil, como também em outras partes do mundo. Às vezes esses atos são seguidos de suicídio, após o desesperado se conscientizar do que fez.
Neste mundo de Expiação e Provas, fato desconhecido ainda pela maioria da sociedade ocidental (principalmente), pois as religiões que encaram a reencarnação como um fato, são orientais. Os hinduístas e suas centenas de facetas, budistas, esotéricos, etc. que se somam as centenas de milhões ou mais, parte delas com muitos adeptos aqui no Brasil.
Isso quer dizer que o mal abordado desta maneira sugere ignorância. Os suicidas por pensarem que estão se livrando de seus problemas; os que saem fora-da-lei dos humanos por agirem dessa forma poder-se-ia dizer, revolucionária ou revoltados contra o “status quo” dessa mesma sociedade em que vive. Evidentemente, não estou me referindo aos verdadeiramente maus, que prefiro chamar de doentes. Pois esses cometem a maldade por vingança, rancor, ódio, e todos aqueles males morais que conhecemos, mesmo porque são estes que intuem aqueles a fazerem o que fazem aproveitando-se da fraqueza moral de suas vítimas.
O Capítulo V (Bem-Aventurados os Aflitos), item 14 – do Evangelho Segundo o Espiritismo (edição IDE/1984) – O SUICÍDIO E A LOUCURA – diz: “a calma e a resignação hauridas na maneira de encarar a vida terrestre, e na fé no futuro, dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos é devida à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem força de suportar; se, pois, pela maneira que o Espiritismo lhe faz encarar as coisas deste mundo, ele recebe com indiferença, com alegria mesmo, os revezes e as decepções que o desesperariam em outras circunstâncias, é evidente que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, preserve sua razão dos abalos que, sem ela, o sacudiriam”.
Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês – 18l3/1855 –, foi um dos fundadores da Filosofia Existencialista. Advogou um Cristianismo autêntico baseado na fé e na Conversão. De acordo com Kierkegaard, (Wikipédia) “um indivíduo está em desespero se sua vida se encontra em desalinho com DEUS. Deste modo ele perde o seu eu, a sua personalidade própria. Definida pelo filósofo como o relacionamento da própria relação consigo mesma na relação. O eu humano é uma síntese entre o finito e o infinito, o possível e o real, identificável com o equilíbrio dialético entre essas características opostas. Não estar em desespero é haver reconciliado o finito e o infinito; é existir, estando ciente do próprio eu e de DEUS. Kierkegaard define o oposto do desespero especificamente como FÉ, descrita pelo pensador da seguinte forma: “no relacionar-se consigo mesmo, e em objetivar ser ele mesmo, o EU jaz transparentemente no poder que o estabeleceu”.
Recentemente, tomei conhecimento que na cidade de Franca, no Estado de São Paulo, oito em cada dez jovens professam uma religião. Isso me deixou muito feliz, pois é por ai que o ser humano deve seguir. Kierkegaard como tantos outros filósofos seguiam uma religião, no caso do dinamarquês, o Luteranismo.
Lendo Eliseu Mota Júnior, articulista da Editora O CLARIM, na Revista Internacional de Espiritismo/junho/07 “Começo e término da Vida Humana”, aplico com o devido respeito, o último parágrafo, ao problema que estamos abordando. Explico-me: Aos psiquiatras e psicólogos um recado: A chave para resolver esses problemas está na Doutrina Espírita. Basta aceitá-la para resolvê-los.
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*J. Morgado é Jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

DIA DOS NAMORADOS
O amor supera tudo pela grandeza do sentimento. Desconhece a angústia das esperas prolongadas porque tem a calma das certezas. Não se atribula demais, tem a serenidade de quem passeia sem outro compromisso além da felicidade. Tudo é simples para o amor, que inventa a si mesmo todos os dias, por isso é sempre novo, como no princípio. O amor não tem calendário, desconhece datas. Tudo começou ontem, mesmo sendo antigo. Tudo é futuro nesse agora. Tudo é feito neste momento para ser saboreado no mesmo instante. É um prato que não esfria quando o tempo passa, sempre está com o mesmo sabor, porque se renova e refaz o convívio. Quem ama sempre se rejuvenesce, apesar das rugas, dos cabelos brancos e do corpo que tiver. Por isso, todas as pessoas amadas estão cheia de virtudes que alguns não compreendem. Sexta-feira ( 12-06) é o Dia dos Namorados, esse blog se antecipa e presta uma homenagem a todos os casais apaixonados, com uma linda história de um casal que se ama há mais de 56 anos...
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UMA LINDA HISTÓRIA DE AMOR
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J. MORGADO
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Tudo começou com dois pés se roçando por baixo de uma enorme mesa. Sim! Dois pés namorando (devidamente calçados). Um “amasso” como diriam os jovens de hoje. Só que o aconchego era entre os membros inferiores. Por cima da mesa, os olhares se encontravam. Olhares de cumplicidade e de terno carinho... Em volta, outras pessoas completamente alheias ao que acontecia.
Ali, naquela empresa, em um segundo andar de um edifício da Rua Direita, começava um namoro que perdura até os dias de hoje. Cinqüenta e seis anos! Primeiro a voz que me enfeitiçou de imediato. Uma voz levemente rouca e cativante...
De uma sala, cerca de um mês antes, escutara a menina-moça (15 anos) sendo entrevistada pelo patrão. Fui chamado para conhecer a nova funcionária, pois ela trabalharia sob minhas ordens. Apresentado, eu disse: – nós nos conhecemos de algum lugar? E ela respondeu que não, mas que eu não lhe era estranho! Na verdade, nunca havíamos nos encontrados antes. Morávamos em bairros completamente opostos. Coisas que “nossa vã filosofia desconhece”. Desconhece?
Um olhar, um sorriso, uma amabilidade, um gesto cavalheiresco (naquela época havia gestos desse tipo), até o roçar de pés. Depois, o pedido para acompanhá-la até o ponto de ônibus e o “quer namorar comigo?”. O sim foi gostoso de ouvir. O coração rugia! Batia forte! A separação já era dorida. Teria que esperar até o dia seguinte para vê-la. No início, apenas o pegar nas mãos, braços dados... Depois o braço já a enlaçava carinhosamente quando caminhávamos.
Algum tempo se passou até o primeiro beijo. Ah! O primeiro beijo! As pernas tremiam. O desejo de abraçá-la bem apertado e não nos separamos nunca mais era forte. Uma cena que se eternizou em meu pensamento. Aquela rua no bairro do Ipiranga... Se pudesse...Se pudesse...
O namoro escondido! Como era gostoso namorar escondido. Era o termo que se usava naquela época. Os pais (os das moças) colocavam mil e um empecilhos para evitar que suas filhas, principalmente menores de idade, namorassem. Irmãos mais velhos eram promovidos a guarda-costas com autorização de massacrar o atrevido que se aproximasse das garotas.
Na primeira oportunidade, surgiu a “segura às pontas”. No caso uma irmã mais velha. Ai veio as matinês e depois as soirées de cinema nos fins de semana. Uma época em que as salas destinadas à projeção da 7ª, arte proliferavam no centro e nos bairros de São Paulo.
O cinema era um lugar seguro para se namorar. Se bem que não eram permitidas muitas intimidades! O guarda civil ali de serviço, era o guardião da moral! Bons tempos...
As colegas eram os álibis para a minha garota... Não havia outro jeito. Só assim podíamos passear. As tardes de domingo eram destinadas ao cinema ou a longos passeios pelas redondezas. O Museu do Ipiranga era o predileto, no meu caso. Aquele parque maravilhoso, livre de malandros, freqüentado por famílias e casais de namorados. Havia também os bailes. Na época, minha turma de colégio promovia bailes para arrecadar fundos para financiar os gastos com a formatura. Nas matines dançantes, minha namorada driblava a família para poder comparecer aquelas tardes agradáveis e iluminadas, sempre acompanhada de sua (ou mais) cúmplice, é claro!
Coladinhos, dançávamos os boleros, sambas canções, chorinhos, sambas, mambos e até tangos. As valsas estavam sempre presentes. As carícias também!
Parafraseando Ataulfo Alves com sua música “Meus Tempos de Criança”, onde ele diz: “Onde andará Mariazinha... Meu Primeiro Amor, onde Andará?”, E eu respondo, a minha Mariazinha (esse é seu apelido) está aqui ao meu lado, para todo o sempre.
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*J. Morgado é Jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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