terça-feira, 26 de maio de 2009

SUFOCO PARA TRANSMITIR UM JOGO DE FUTEBOL NO ESTÁDIO DO FLUMINENSE

O AMIGO HUGO CARVANA
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OSWALDO LAVRADO
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Começo dos anos 90 e a Rádio Diário do Grande ABC acompanhava os jogos do Santos no Brasileirão. Como os times aqui do ABC - Santo André, São Bernardo e São Caetano - estavam sem atividades, a equipe de esportes da Rádio Diário transmitia as partidas do “Peixe” em qualquer lugar do Brasil. Um belo domingo de fevereiro de 1991, o Santos enfrentaria o Fluminense, no Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Trocamos o conforto da viagem de 45 minutos de avião entre São Paulo e Rio e embarcamos de carro encarando seis horas de viagem pela Via Dutra num já rodado Gol do Diário. Aboletados na lata de sardinhas, eu, o Edward, o Maurício Muniz (operador de som) e o motorista preferido da equipe, José Moraes, o "Lampião". A viagem foi tranquila, apesar dos vacilos do Lampião, cuja visão e golpe de vista ao volante deixavam qualquer um com o coração na mão, especialmente em longos percursos. Batemos no campo do Fluminense por volta das 13h e nos dirigimos à cabine de imprensa, onde deveria estar à nossa disposição uma linha telefônica para a devida transmissão do jogo. Deveria, mas não estava. Era o começo de mais um drama.
No estádio havia uma equipe da Telerj - Telefônica do Rio de Janeiro - para dar assistência às rádios. Não encontrando nossa linha, me dirigi a um funcionário da Telerj solicitando ajuda para entrar em contato com nossa rádio, no ABC. O rapaz, demonstrando não estar muito disposto a resolver nosso problema, consultou uma lista e decretou: "acho que vocês não vão transmitir nada aqui. Acontece que são muitas emissoras de rádio de várias localidades do Brasil e não há linha para todas. Algumas foram cortadas e a Rádio Diário é uma delas". Fiquei lívido com a explicação do rapaz da Telerj. Fui ao chefe dele e mostrei um documento comprovando que a Diário havia reservado a linha com antecedência e alguém da Telerj teria que dar uma solução. Sem transmissão nossos empregos estavam a perigo, principalmente o meu, então chefe da equipe de esportes da rádio. Acompanhando o Santos, a Diário tinha alcançado excelente audiência em toda a Grande São Paulo. Por essa razão, nosso compromisso era enorme com a direção da empresa, patrocinadores e principalmente o ouvinte. A credibilidade da rádio e nosso emprego estavam em jogo.
Enquanto eu espinafrava o cara da Telerj, o Edward desceu das cabines e foi para lanchonete do estádio pra não ver a discussão entre eu e o rapaz da Telerj. Em pé, encostado no balcão da lanchonete, saboreando uma cerveja, estava o ator e diretor global Hugo Carvana, torcedor fanático do Fluminense. Nem saberia explicar direito o que aconteceu, mas Edward e Carvana ficaram amigos, uma amizade que nasceu em segundos. Eu percebia da cabine de rádio, enquanto brigava pela linha com a Telerj, que ambos conversavam como velhos conhecidos.
Preocupado com a transmissão e também comigo que estava a ponto de explodir com o rapaz da Telerj, Edward expôs o drama ao paciente Hugo Carvana - mais tarde soubemos, o ator tinha um cargo na direção do Fluminense. Carvana se propôs a dar uma mão, mas não sabia como. Afinal se todas as linhas existentes no estádio estavam ocupadas pelas inúmeras emissoras, o que fazer?
Então, se fez a luz. O Edward, assessorado pelo Hugo Carvana, foram procurar o chefe da Telerj e, os três, solucionaram a pendenga. O diálogo que os dois "atores" tiveram com o homem da telefônica carioca foi mágico." Veja ai o que o senhor pode fazer. O rapaz (Lavrado) está nervoso porque a gente pode ser demitido se esta transmissão não sair. Dá uma forcinha", implorou o Edward, enquanto o Carvana dava um tapinha nas costas do funcionário da Telerj e ao mesmo tempo atendia uma jovem linda, cabelos longos e bronzeada, que estava em busca de autógrafos.
Muito mais pela presença do Hugo Carvana do que pela súplica do Edward, o chefe da telefônica carioca respondeu: "vamos ver, vamos ver". O tempo passava rápido e se aproximava a hora da rádio entrar no ar. Alguns minutos depois o homem sobe para as cabines e berra:" Sêo Lavrado, pode tentar contato com sua rádio no ABC, a linha está liberada".
O expediente que o chefe da Telerj utilizou para arrumar uma linha não vai ao caso e nem importa. Transmitimos o jogo, cumprimos nosso trabalho, agradecemos Hugo Carvana, o mais recente amigo do Edward e nosso também, que continuava encostado no balcão do boteco de madeira do estádio tomando sua Antarctica e retornamos a São Paulo, não sem antes passar por outros sufocos no caminho de volta, nas mãos do nosso querido motorista “Lampião”. Mas essa parte fica para outra oportunidade.
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*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

TIRO DE GUERRA, OS TERRORISTAS E UMA INGÊNUA E SEDUTORA HISTÓRIA DE AMOR

Ademir Medici
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A ordem era atirar no meio da testa
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Os acordes de “Pra não dizer que não falei de flores”, na voz do seu criador, Geraldo Vandré, vinham fortes e sem censura da Secretaria do Tiro de Guerra de São Bernardo. Era o segundo semestre de 1969, tempo de ditadura militar e de políticos que, na sua grande maioria, alojavam-se nas fileiras do partido oficial, a Arena, de Aliança Renovadora Nacional. E a ordem que chegava ao TG era para que a guarda de quartel fosse dobrada, reforçada, para impedir o que os sargentos chamavam de ação de guerrilheiros, subversivos, terroristas e inimigos da Pátria amada Brasil no industrializado ABC que corria o risco de ser transformado em área de segurança nacional.
Os jovens recrutados de 18, 19 anos, tinham formação política quase nula. Estavam mais interessados nos bailinhos do Odeon, da Dulcora e do Bochófilo. Mas o comentário de que ninguém desligou o rádio durante a execução daqueles versos que falavam em “caminhando e cantando” era uma prova de que, mesmo sem tanta profundidade, havia entre os atiradores os que sabiam que aquela era uma música maldita, odiada pelos militares. Mesmo assim, a canção foi tocada por inteiro no rádio e sucedida pelo sucesso mais recente do rei Roberto.
O TG de São Bernardo ficava no “fim da Rua Marechal Deodoro”, ao lado da Churrascaria Pára Pedro. No comando, o subtenente Bataglia e as turmas dos sargentos Ludovico (muito severo), Gumercindo (de formação evangélica), Mário (bonachão), Miranda (mais ou menos) e Valdir (muito severo). O tempo de serviço militar era ainda de 10 ou 11 meses – somente no ano seguinte, já nas atuais instalações do TG, pelo lado do Jardim Silvina, o tempo cairia para seis meses, com dois pelotões servindo anualmente.
A temperatura era fria e úmida quando chegou a ordem de reforço da guarda. Além dos atiradores que se revezavam nas duas guaritas, outros dois se revezariam nos jardins da casa do comandante – uma casa antiga ao lado do quartel – e nos fundos da Travessa Monteiro Lobato, que hoje dão acesso à TV dos Trabalhadores, à gráfica, ao Centro de Formação Celso Daniel e a outros setores do poderoso Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ainda sem uma sede definitiva e que, para as assembléias maiores, como as dos dissídios coletivos, reunia-se em espaços cedidos, como a sede do Odeon Clube e da Associação dos Funcionários Públicos.
Os atiradores viam contradição na filosofia da chamada Revolução Militar. Os milicos tomaram conta do País sob a alegação de que era preciso vencer as forças vermelhas e também a corrupção. Mas muitos dos atiradores foram abordados, antes do início das atividades, por um funcionário fuinha do Departamento Estadual de Saúde que propunha encontrar um meio de liberar o exercício militar mediante uns trocados. Ou seja: a corrupção não havia sido de todo eliminada.
Já as forças vermelhas, ou os comunistas, incomodavam em plena vigência do Ato Institucional nº 5 e da Guerra Fria. Somente podia ser isso, dada a ordem de reforçar a guarda do TG.
Numa das preleções, o atirador Roberto ousou indagar do sargento Gumercindo qual a atitude deveria tomar em caso de ocupação, durante o seu período, das instalações do Tiro de Guerra. A resposta veio rápida e encerrou qualquer diálogo.
- Atire para assustar: mire no meio da testa do terrorista...
Os fuzis eram carregados com pentes de balas, os melhores armamentos disponíveis, pouco mais modernos do que os usados nas marchas e desfiles cívicos como os de 20 de agosto, aniversário de São Bernardo, ou os dois realizados em São Paulo, no Anhangabaú e Praça da Sé – dizia-se que aqueles tinham sido fabricados no final do século 19. E a ordem era clara: atirar na testa do infeliz que ousasse invadir o glorioso tiro de guerra.
Até então, a preocupação maior dos atiradores era com o juramento à Bandeira no final do exercício militar, o que significaria estar quites com o Serviço Militar e poder, enfim, tocar a vida. Agora, mais essa: o reforço da guarda, mais sentinelas a postos – o intervalo entre uma e outra guarda ficaria menor.
“Há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos com armas na mão. Nos quartéis nos ensinam antiga lição: de viver pela Pátria ou morrer sem razão”...
E eis que chega a noite de Roberto fazer parte do reforço da guarda. Um frio de matar. E como cenário a frente da casa do comandante. Mal dá para avistar a Rua Marechal Deodoro, devido à neblina que desce vinda da Serra. Atrás de uma árvore, fuzil pendurado às costas, uma vontade enorme de tirar uma soneca, e eis que o atirador tem a atenção despertada por uma perua que estaciona bem em frente à casa do subtenente Bataglia.
Faróis e lanternas permanecem acesos. Passam-se alguns segundos. Ninguém desce. De repente, alguém abre a porta do veículo e procura por alguns papeis enrolados no interior da perua. Segura o que parece ser um rolo de cartazes. Leva o material até a mureta da casa do comandante. Coloca sobre a mureta. Pronto, ele vai querer pular a mureta e invadir o quartel pelo jardim da residência.
“Mire no meio da testa” – repete a voz do sargento Gumercindo no subconsciente do atirador inexperiente e cagão.
E agora: atirar ou sair correndo? O tempo parece uma eternidade. Finalmente, o rapaz começa a grudar alguns cartazes na banca de revistas ao lado. Termina o seu serviço e busca novamente a perua, naturalmente em direção à próxima banca.
Afasta-se a perua. Pé ante pé, o atirador dirige-se até o ponto mais próximo da banca e observa que os cartazes colados eram da edição daquele mês da revista Capricho, com notícias do rádio, TV e cinema e, como atração maior, uma fotonovela que, absolutamente, não trazia qualquer tema político, apenas uma ingênua e sedutora história de amor.
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*Ademir Medici é jornalista e escritor, formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Trabalha na imprensa do Grande ABC desde 1968 e especializou-se na área de resgate e reconstituição da memória. Possui um acervo de 32 livros escritos, sendo 24 publicados e oito inéditos. Ademir também ganhou, em 1976, o Prêmio Esso de Jornalismo, em parceria com o jornalista Édison Motta, pela série “Grande ABC: A metamorfose da industrialização”. Atua no jornal Diário do Grande ABC desde 1972. Foi repórter especial, editor de Cidades e Política e secretário de Redação. Atualmente é responsável pela coluna Memória, uma das mais lidas do jornal e do quadro "MEMÓRIA", no programa "ABCD Maior em Revista".
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domingo, 24 de maio de 2009

CHEGOU O DOMINGO, PÉ DE CACHIMBO...

Edward de Souza
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A GOSTOSA ROTINA DE DOMINGO
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... O cachimbo é de barro bate no jarro, o jarro é fino bate no sino, o sino é de ouro bate no touro, o touro é valente, bate na gente a gente é fraco cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo. Todos os domingos pela manhã meu pai fazia questão de recitar esses versos. Eu tinha 4 ou 5 anos e isso marcou. Essas frases ficaram gravadas em meu cérebro e nunca mais as esqueci. Passei boa parte de minha infância imaginando como seria um pé de cachimbo. Sonhava com uma enorme árvore retorcida cheia de cachimbos pendurados, pode isso? Imaginação fértil de uma criança. A beleza desses versos de infância é que, através deles, a gente se comunica, se anuncia, deixa sinais de que viveu um tempo feliz. São marcas, pegadas, trilhas, caminhos e estradas que vão sendo abertas através de um movimento circular de produção de conhecimentos que, desde os saudosos tempos de Mário de Andrade, chamamos de bens culturais: dizeres e saberes que promovem todo um conjunto de discursos que, incorporados ao dia-a-dia de uma comunidade, organizam e elaboram os mitos, as lendas, as histórias, brincadeiras, as crenças, os valores e os conceitos que configuram a identidade de um determinado grupo social. A isso denominamos cultura. E é através da cultura que nos conhecemos, conhecemos o outro e formamos nossa identidade, pessoal e coletiva, criando raízes.
Porque tudo isso me veio à mente? Ora, porque hoje é domingo, dia de sair da rotina, de acordar mais tarde, ou mais cedo, dependendo do programa. É dia de reunir os amigos para jogar conversa fora, avaliar a vida, recordar o passado que não volta mais, contar vantagem e planejar o futuro. É dia de almoçar com a família, de dormir depois do almoço e demorar-se mais na leitura do jornal. É um dia preguiçoso, com menor movimento nas ruas, e silencioso, desde que longe dos estádios de futebol e dos bares.
Para muitos é um dia triste, para outros é o dia de ir à missa, de jogar bola, de ir ao cinema ou ao teatro. Triste mesmo é ficar o dia inteiro na frente da televisão, aí não é opção, é falta de criatividade, é reconhecer a derrota, é render-se à mediocridade. Um domingo por semana é pouco para tanta coisa que temos de fazer, para tantas providências que adiamos no aguardo de que venha o intervalo domingueiro. Ele acaba e não atingimos nossas metas dominicais, mas isso já é jargão empresarial e conversa de segunda-feira.
Domingo bom é o que passa rápido, é o que ninguém se machuca, e que o seu time de futebol ganha o jogo. É aquele em que conseguimos terminar a leitura de um livro e começar um novo. É dia de macarronada, de churrasco e de pensar no regime que prometemos que começará na segunda-feira. Muita gente fica desorientada num dia assim. São os que não dão conta de não fazer nada, que não conseguem deixar de pensar no serviço, que se recusam a diminuir o ritmo, a correria. Estes se chateiam com a chuvinha que cai tranqüila e estimula o descanso, ou com o sol forte que premia os que se aventuram num programa diferente, que vão acampar, viajar, fazer uma caminhada.
Bobagem pensar no dia seguinte. Pra quê? Ele vai acontecer mesmo. É melhor aproveitar o dia para ir a um restaurante que ainda não conhecemos, ou ajeitar a estante que caiu, consertar a torneira que está pingando ou arrumar gavetas. Se arranjarmos bons parceiros dá até para jogar baralho, atividade que o sentimento de culpa não permite nos dias de semana.
Domingo bom é quando conseguimos reunir os amigos ao redor de uma boa mesa para trocar informações e receitas. Conversar sobre temperos, sobre preferências culinárias, sobre quais as pimentas que mais agradam ao paladar e qual o melhor jeito de usar o alho no preparo de diferentes tipos de arroz. De pimentas, alhos e cebolinhas vamos aos livros lidos e aos que não temos vontade de ler, aos filmes da temporada e às contradições do cenário político. Podem-se comentar as separações, os desentendimentos conjugais e a ousadia das mocinhas. O dia rende, a conversa flui, a gente custa a levantar-se da mesa. Até abusa, come uma sobremesa, um doce de pêssego, repete, aceita mais uma xícara de café e depois se estica numa gostosa cadeira de balanço e recorda dos tempos felizes da infância, quando inocentemente sonhávamos com um pé de cachimbo. Tem coisa melhor?
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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sábado, 23 de maio de 2009

É MUITA SUJEIRA DEBAIXO DO TAPETE


Édison Motta
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PORTA ABERTA
PARA O CRIME
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Final
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Com todo respeito que devemos ter à religião das pessoas, os ventos do século XXI indicam que é preciso, ainda, remover muita sujeira escondida debaixo do tapete daquilo que convencionamos denominar sociedade. Se no primeiro mundo fatos estarrecedores como os relatados no artigo de ontem (logo abaixo) aconteceram, o que dizer daquilo que se passa entre nós, tupiniquins, sob a linha do equador? Alguém já se atreveu buscar informações concretas sobre o que acontece nas escolas públicas da periferia? Moralistas e puritanos de fachada não faltam. Não apenas entre padres e freiras. Pululam em nosso meio os falsos profetas do apocalipse que vendem espaços no céu em troca de generosas contribuições daqui, da vida terrena. Poucos se importam de verdade com a opressão a que estão submetidas milhares de vidas, na flor da puberdade. Os pequenos explorados não têm a quem recorrer. Nem mesmo junto às religiões.
Abusos contra crianças e adolescentes revelam a face terrível de barbárie de uma sociedade que se diz civilizada. Na Irlanda, as vítimas de ontem são hoje adultos. Tratando-se de um País com severas leis contra o crime carecemos de maiores informações sobre os desdobramentos que o trauma de muitas infâncias provocou na sociedade contemporânea. Mas não é difícil imaginar o que acontece aqui entre nós. No País da impunidade, os abusos sobre crianças se transformam num celeiro fértil para produção de criminosos. A revolta plantada na infância e a falta de perspectivas de ascensão social para a maioria de filhos do sexo inconseqüente entre adolescentes criam, progressivamente, o grande monstro que atormenta o nosso dia a dia, poluem a beleza da vida e nos faz a todos inseguros. O perigo nos espreita nas esquinas. Sobreviver nunca foi tão difícil!
O verdadeiro enfrentamento ao quadro de miséria que anda de mãos dadas com o crime em nosso país passa, necessariamente, pela discussão sobre controle da natalidade. Um tema tabu, proibido. Qualquer parlamentar que ouse tocar no assunto enfrentará um turbilhão de reações por parte da Igreja Católica e da bancada evangélica no Congresso. O papa condena a pílula e qualquer tipo de controle da natalidade no que se faz acompanhar de muitos pastores.
Cerca de 8.200 crianças nascem por dia no Brasil. Num país insistentemente desigual, cada um desses meninos e meninas já vem ao mundo com mais ou menos chances de superar a pobreza de acordo com sua etnia, a renda de sua família, a escolaridade de seus pais e a região onde nasceu. O relatório Situação da Infância e Adolescência Brasileiras da Unicef traz dados sobre as diferenças de acesso a serviços de saúde e educação entre crianças pobres e ricas, que vivem em áreas rurais ou urbanas, que crescem no Sul ou no Norte do país e mostra como estes fatores determinam as oportunidades que aquele bebê, que acaba de nascer, terá na vida.
Desses 8.200 brasileiros que nascem por dia, cerca de 1.500 são da região Nordeste. Cada um deles terá um quarto da chance de completar o primeiro ano de vida dos nascidos no Sul ou no Sudeste. Quase metade deles serão negros e terão duas vezes mais chance de não freqüentar o ensino fundamental, em comparação com as crianças brancas.
A violência praticada contra menores é apenas a ponta de um imenso iceberg da explosão demográfica em nosso território, alimentada com o bolsa-familia, de um lado e com a frenética construção de presídios no outro. Jamais seremos uma nação desenvolvida enquanto não rompermos esse ciclo vicioso.
Não é incrível que a distribuição de renda, no Brasil, através dos programas sociais do governo, incentivados pelas religiões e pelos políticos que delas se beneficiam esteja fundamentalmente assentada no tamanho da prole dos ajudados? Quais famílias têm o maior número de filhos senão as mais pobres? Falta educação e sobra manipulação política das massas. No meio disso tudo estamos nós, pobres mortais, as maiores vítimas desta sociedade encurralada.
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*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

EXPLORAÇÃO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS

Édison Motta
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PORTA ABERTA PARA O CRIME
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PRIMEIRA PARTE
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Pouca gente percebeu, mas durante esta semana diversos órgãos de governo e instituições não governamentais estão realizando eventos para lembrar o Dia contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nacionalmente fixado em 18 de maio. As tímidas manifestações encontram frieza e apatia da maioria das pessoas. Algo que parece distante do cotidiano de cada um, mas que, paradoxalmente, coloca em risco a vida de todos no submundo de violência e criminalidade em que estamos todos envolvidos.
Infelizmente, no Brasil, são múltiplos e incontáveis os casos de abusos, frequentemente não registrados nas páginas policiais. Nossas precárias estatísticas apontam que a violência é praticada, na maioria das vezes, nas próprias residências envolvendo pais e enteados e até mesmo pais e filhos.
Também nesta semana, o jornal O Globo trouxe matéria ainda mais estarrecedora ao revelar que cerca de 12 mil meninos e meninas de escolas e orfanatos sofreram abusos sexuais de padres e freiras da Igreja Católica da Irlanda. Segundo uma investigação iniciada em 2000 e publicada nesta quarta-feira em Dublin, o governo fez pouco para impedir as violações, que ocorreram entre as décadas de 1930 e 1990. O juiz da Suprema Corte, Sean Ryan, ainda segundo a matéria de O Globo, afirmou que o resultado conta com 2.600 páginas, organizadas pela Comissão para a Investigação de Abusos a Crianças com base em testemunhos de milhares de ex-alunos e funcionários das cerca de 250 instituições dirigidas pela Igreja. Quase todas elas foram fechadas nos anos 80 e 90. No entanto, houve casos de abusos, em menor escala, registrados até o ano 2000. Há relatos de crimes até mesmo em hospitais para crianças com necessidades especiais. Mais de 30 mil crianças acusadas de roubo, abandono de escola e filhas de mães solteiras foram enviadas para a sombria rede de escolas técnicas, reformatórios, asilos e orfanatos católicos por cerca de 60 anos. "As escolas eram administradas de forma severa, impondo uma disciplina opressiva e não razoável às crianças e funcionários", diz o documento.
O relatório concluiu que os líderes da Igreja sabiam sobre os crimes - inclusive sobre os abusos sexuais de meninos, cometidos por padres e funcionários -, mas acobertaram de forma sistemática a prática. Ainda assim, o documento não aponta responsabilidades nem recomenda abertura de processos.
Os abusos sexuais eram "endêmicos" dentro das instituições para rapazes, dirigidas principalmente pela ordem dos Irmãos de Cristo. As meninas eram subjugadas principalmente pela ordem das Irmãs da Misericórdia, que as humilhavam e as faziam se sentir desprezíveis.
A Igreja Católica tentou repetidamente impedir a publicação do relatório elaborado por uma comissão independente irlandesa, que ouviu os depoimentos de milhares de pessoas, atualmente com idades entre 50 e 70 anos.
"Em algumas escolas os rituais aconteciam rotineiramente. As meninas eram golpeadas em todas as partes do corpo com objetos desenvolvidos para provocar o máximo de dor", informa o relatório.
Há muito tempo as vítimas do sistema exigem que suas experiências sejam documentadas e publicadas para que as crianças irlandesas não voltem a padecer com os mesmos sofrimentos. No entanto, a maioria dos líderes das ordens religiosas nega as denúncias, afirmando que as declarações são exageradas e mentirosas.
Dia desses, nosso considerado amigo e colaborador deste blog Oswaldo Lavrado lançou um desafio geral para que alguém se habilitasse escrever sobre Adão e Eva. O Edward de Souza, matreiro, pulou fora. Diz serem impublicáveis seus pensamentos sobre o assunto. Tentam marginalizar o padre, freqüente leitor e comentarista, ato que não compartilho. Creio seja importante trazer o padre para comentar o que pensa sobre a “santa” Igreja Católica Apostólica Romana em cujas instituições “educacionais” proliferaram casos de abusos como estes relatados sobre os reformatórios religiosos da Irlanda.
Ficamos com a nítida sensação de que estamos todos, como sociedade, no foco errado: a pregação dos púlpitos a respeito do Paraíso, do Jardim do Éden, Adão e Eva, pecado e salvação encontra pouca ressonância junto à realidade praticada nos escuros corredores dos colégios correcionais mantidos sob a fachada da misericórdia e do amor ao próximo. Em nosso país, não alcança a favela, os cortiços e os rincões das periferias dos grandes centros urbanos onde predomina a lei do cão sob o manto do tráfico de drogas. Vivemos como o avestruz, com a cabeça enterrada na areia.
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No capítulo final de amanhã, você vai saber que a violência praticada contra menores é apenas a ponta de um imenso iceberg da explosão demográfica em nosso território, alimentada com o bolsa-familia de um lado, e com a frenética construção de presídios na outra ponta.
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*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação. _____________________________________________________

quinta-feira, 21 de maio de 2009

DA IMPORTÂNCIA DE DIZER EU TE AMO

Eduardo Melo Valente

Como é importante dizermos essas três palavrinhas. O significado tem o poder de transformar coisas ruins em coisas maravilhosas. Quando um filho enlaça com seus braços e diz ao pai ou à mãe: eu te amo, transcorre um feixe de luzes em volta dos dois, construindo e fortalecendo os liames que os une, de forma a consolidar aqueles laços de afetividade, de amor, de querer bem. Como é bonito viver esses momentos! Estou acostumado a ouvir pacientes que sofrem demasiadamente e relatam a sua dor, por um ente querido não manifestar seu apreço, seu carinho, sua estima, seja sua esposa, marido, filho, filha, nora, neta e por aí vai.
Engraçado o ser humano. As coisas evoluem, as descobertas do homem moderno com sua tecnologia de ponta, os laboratórios com suas pesquisas nos apresentando remédios fantásticos, a tecnologia com a velocidade da informação onde em tempos recentes nem havíamos condições de imaginar. E o ser humano, ainda hoje, fazendo uso de suas queixas habituais. Um pai, uma mãe, defronte um terapeuta, falando de forma triste, sentida, que trocaria muitas e muitas coisas que lhe são caras, gratas e importantes, por um gesto de carinho de um ente querido. Meu Deus! Com toda a evolução acima citada, e o que ainda está por vir nos próximos anos, o ser humano pouco sabe de si próprio. E, quando sabe, não consegue lidar consigo mesmo. Não é verdade? Quantos e quantos se vêm nesta situação, de ter o que querem, porém, o que gostariam mesmo de ter, pouco ou nada têm. O carinho, o afeto, o reconhecimento e a gratidão poucos realmente vivenciam. Uns privilegiados, com certeza.
Mas, gente! Vamos ser honestos e sinceros. Pouco se faz para que isso aconteça. Aí vem a pergunta, por quê? Porque somos duros, turrões, envergonhados, sem jeito, preconceituosos... De darmos um abraço cheio, gostoso, aquele abraço integral, maravilhoso, que nos transporta a sensações de esplendor de amor. Amor por todos os lados e poros. Beijar a quem amamos, às vezes, é algo intransponível aos nossos preceitos, preconceitos, formação, vergonha... Por isso sofremos. E, diante do terapeuta, envergonhados de não sabermos e/ou não conseguirmos fazer, contamos nosso sofrimento interior por não ouvirmos essas três palavrinhas eu te amo!
Não é fácil... Porém, nada intransponível. Uma paciente, com extremo retardo físico, olha sempre para seus pais – adotivos – e os abraça, feliz, muito feliz, irradiando amor para todos os lados, e emite seus sons de alegria, carinho, candura e querer bem. Ela assim se manifesta quando quer expressar seu sentimento de amor e reconhecimento. Que felicidade nessa família, apesar da provação muito forte! A experiência do amor fraternal nos faz mais dóceis, mais pacientes, calmos, tranqüilos. Faz-nos estar de bem conosco mesmo e dilata e expande nossos valores morais, como a capacidade de amar, a capacidade de perdoar, inclusive a nós mesmos, a capacidade de tolerar, de sublimar e por aí vai.
Vamos exercitar essas três palavrinhas iniciando para conosco mesmo. Quem não consegue se amar integralmente precisa rever o que não se perdoou ainda. Busque, analise e reflita, para então, se perdoar de suas faltas, das coisas que deixou de fazer, do que fez de forma errada... E bola pra frente, pois nunca é tarde para dizer verdadeiramente aos seus pares, entes queridos, as três palavrinhas: eu te amo!
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*Eduardo Melo Valente é o novo colaborador deste blog. Tem 58 anos, casado, doutorado em administração pela Fundação Getúlio Vargas. Terapeuta utilizando a terapia de vidas passadas, regressões e cromoterapia. Dezenas de artigos publicados em jornais; inúmeras palestras ministradas. Autor do livro “Regressões Des-com-pli-ca-das”.
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

UM DOS LIVROS MAIS VENDIDOS DO BRASIL

Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.
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Nivia Andres
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"1808", do jornalista e escritor paranaense Laurentino Gomes, editado pela Planeta, é um grande sucesso – já vendeu quase 500 mil exemplares, ocupa a sexta posição no ranking dos mais vendidos da revista Veja, onde aparece há 83 semanas e ganhou o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de 2008, na categoria não-ficção. O troféu representa a premiação máxima concedida anualmente pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Esse é o segundo prêmio Jabuti conferido ao autor de "1808" desde o lançamento da obra na Bienal do Rio de Janeiro de 2007. A obra já havia sido apontada pela CBL como o melhor livro-reportagem de 2008. Além disso, o livro foi eleito o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras. “1808” é o resultado de dez anos de pesquisas do autor, que consultou mais de 150 livros e fontes impressas e eletrônicas sobre a vinda da família real para o Brasil.
O Brasil foi descoberto em 1500, mas só reconheceu-se como país em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. Até então, o Brasil ainda não existia - pelo menos, não como é hoje: um país integrado, de dimensões continentais, fronteiras bem definidas e habitantes que se identificam como brasileiros. Até 1807, era apenas um grande fornecedor de riquezas de onde Portugal tirava sustento e mantinha a opulência.
A vinda da corte transformou radicalmente o cenário. Em apenas treze anos, entre a chegada e a partida, o Brasil deixou de ser uma colônia atrasada, proibida e ignorante para se tornar uma nação independente. Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, tão decisivas e em tão pouco tempo. Foi também um evento sem precedentes na história da humanidade. Nunca antes uma corte européia havia cruzado um oceano para viver e governar do outro lado do mundo. D. João foi o único soberano europeu a colocar os pés em terras americanas em mais de quatro séculos de dominação.
“1808” é um livro interessante, um relato sério, porém bem-humorado, rico em detalhes. Seu propósito é resgatar e contar de forma acessível a saga da corte portuguesa no Brasil e devolver seus protagonistas à dimensão de sua real importância histórica. Até então, D. João VI era conhecido como uma figura caricata - lembram do gorducho preguiçoso que só se interessava por comida e a escondia nos bolsos da casaca, do filme Carlota Joaquina, de Carla Camuratti? - um homem medroso, indeciso, sem idéias próprias, solitário e mal-casado... Um tanto diferente da figura que, acossada por Napoleão, tomou a decisão de fugir e instalar o reino do outro lado do Atlântico, numa colônia continental, sem identidade territorial, mas foi o principal responsável pela independência do Brasil. É interessante a comparação que se instala quando fazemos um paralelo entre as comodidades e a tecnologia que temos atualmente e as agruras que a corte enfrentou na travessia do Atlântico – navios velhos, sujos, pequenos demais para comportar os milhares de passageiros, que se entupiam em todos os compartimentos, sem infraestrutura; comida e água racionadas e de má qualidade; suprimentos médicos inexistentes; vestuário incompatível com o gélido Atlântico setentrional e o calor dos trópicos. O exercício se torna mais real se visualizarmos as naus e nos colocarmos na pele de nossos pregressos colonizadores. O livro também privilegia a gradativa urbanização do Rio de Janeiro Em 1808, havia tudo por fazer no Brasil. A colônia precisava de estradas, escolas, tribunais, fábricas, bancos, moeda, comércio, imprensa, biblioteca, hospitais, comunicações eficientes. Necessitava de um governo organizado.
Além de abrir os portos ao comércio com outras nações, pondo fim do monopólio português, D. João autorizou a construção de fábricas, a abertura de estradas e a inauguração de escolas de ensino superior. Também criou o Banco do Brasil, a Imprensa Régia e o Jardim Botânico e elevou o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, promovendo o Rio de Janeiro à sede oficial da coroa. Dom João também se dedicou a promover as artes e a cultura. Além disso, mudou os hábitos da colônia, dando-lhes mais refinamento e bom-gosto. A gênese dessa transformação você vai conhecer lendo “1808”.
Se depois de ler este breve comentário você ainda não encontrou motivos para ler “1808” e conhecer um pouco mais a história do Brasil e de Portugal, faça um favor a si mesmo – adquira o livro e presenteie seus filhos (há uma edição especial, mais compacta e ilustrada, dirigida aos jovens). Garanto que logo, logo, o livro estará em suas mãos, por exigência e sugestão dos guris e gurias...
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*1808 pode ser encontrado em qualquer livraria ou supermercado que se preze. Os preços variam de R$ 24,90 a 35,90 e a edição juvenil, de R$ 22,10 a 29,90. Boa leitura! Depois me contem se valeu a pena a sugestão.
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Nivia Andres, jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008. Blog da jornalista: http://niviaandres.blogspot.com/
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terça-feira, 19 de maio de 2009

TRAPALHADAS NA CIDADE SEM LIMITES

Oswaldo Lavrado
Estádio Dr. Alfredo Castilho, em Bauru
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MAIS HISTÓRIAS DO RÁDIO

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Nas andanças pelo Brasil para transmissões da Rádio Diário do Grande ABC, a equipe de esportes da emissora passou por várias situações, algumas monótonas, outras irritantes, muitas emocionantes e poucas curiosas. Quando a distância superava 400 quilômetros, a equipe viajava de avião e em distâncias menores com um veículo da empresa devidamente identificado. Não havia um motorista específico para conduzir os integrantes da rádio, porém alguns como Zé Moraes (Lampião), Aníbal, Poletto e o Zé Vieira (este compadre do Edward), eram os que mais viajavam com o pessoal. O Lampião, apelido herdado graças a sua semelhança com o famoso Virgulino Ferreira da Silva, “O Rei do Cangaço”, era o preferido, portanto o recordista. Foram muitas as viagens com ele ao volante e muitas as situações complicadas que, futuramente, desfilarão neste já consagrado blog.
Começo dos anos 90 fomos eu e o Edward de Souza a Bauru, para a transmissão de um jogo entre o Noroeste e o Santo André, pelo Paulistão de 1992. Desta vez, para quebrar a rotina, dispensamos o veículo da rádio e viajamos de ônibus. Era um sábado à tarde. Chegamos a recém inaugurada rodoviária de Bauru por volta das 19h e nos apressamos a tomar um táxi. Ai começava a pequena saga de nossa estada na “Cidade sem Limites”, onde fomos outras tantas vezes e sempre sem grandes novidades. Assim que deixamos a rodoviária, aboletados no táxi, meio calhambeque e já um tanto rodado, o Edward, pra puxar papo comigo e com o motorista, inocentemente disse: “a nova rodoviária fica um tanto distante do Centro, né?". Eu ia responder qualquer coisa, mas fui interrompido pelo taxista que, com cara de poucos amigos, disparou: "você queria o quê, uma rodoviária na praça central de Bauru?". Pela ríspida resposta, até o nosso destino nada mais foi dito, nem perguntado. O bom senso assim recomendava. No fundo, no fundo, minha vontade era rir a mais não poder, só de ver a cara do Edward, que engoliu a seco a resposta mal educada que recebeu, coisa rara para seu sangue italiano.
Chegamos ao Centro, descemos, pagamos a corrida e nem um até logo foi falado entre as partes. Com as malas e os apetrechos eletrônicos da rádio na calçada fomos à procura de um hotel que estivesse nos padrões de nossa verba. Como fazer para saber o preço da diária? Como sempre, aliás, o Edward teve uma idéia luminosa: "Vamos entrar neste hotel. Eu pergunto à recepcionista se tem um hóspede com o nome de Arlindo Mariano de Souza e você aproveita e olha na tabela o preço da diária. Pra quem não sabe, Arlindo é o nome do pai do Edward. Ufa, felizmente não havia nenhum homônimo e o preço da diária estava ao alcance do recurso disponível na carteira. Subimos na modesta suíte e o assunto, como não poderia deixar de ser, foi a grosseria do taxista e a simulação na entrada do hotel. Mas a noite estava só começando.
Razoavelmente instalados, banho tomado, um calor próprio do Interior, saímos a procura de um lugar pra esperar chegar a hora de dormir. Não foi difícil achar já que Bauru era nossa velha conhecida. Certamente não fomos a igreja, instalada na praça central da cidade cujo badalar dos sinos indicava 22 horas. Encontramos, na famosa e longa Avenida Rodrigues Alves, principal corredor comercial de Bauru, um local aprazível para nossa parada. Nos acomodamos numa das mesas instaladas na larga calçada e fomos atendidos por um garçom, que providenciou nosso pedido, logicamente, duas cervejas super geladas. O garçom, jovem ainda, ficou ao redor e, por acaso ou não, ouviu nossa conversa. O rapaz se afastou e logo voltou, porém com o dono do boteco. Pelo que conversávamos (eu e o Edward) o garçom percebeu que éramos do ABC. O proprietário do bar, cujo nome não lembro, era de Santo André. Aí não prestou. Abraçou o Edward, morador em Santo André, cumprimentou-me com um aperto de mão, puxou uma cadeira e sentou-se ao nosso lado. Chamou o garçom e ordenou: "traga aquela da casa aqui para meus amigos". Era uma espécie de tequila que o dono do bar afirmava ser de sua invenção e fabricação e que era uma delícia. A bebida só desceu porque fomos educados e não queríamos decepcionar o anfitrião. Mas era o diabo dentro de um copo. Entendendo que a gente estava gostando daquele ácido engarrafado, o homem obrigava o garçom a trazer mais e mais. Uns três copos depois nos despedimos do atencioso dono do boteco, não sem antes ouvir: "obrigado pela visita e, se der, voltem aqui amanhã". Nem mortos! Ao deixar o bar, tipo uma hora da madrugada, encontramos o pessoal da equipe esportiva da Rádio ABC de Santo André, nossos concorrentes, mas não inimigos. O trio, Ivanor Batista, Antônio Solla e Alcides Corrêa, nos convidaram pra uma rodada de bilhar em um salão ali ao lado. (desse pessoal da ABC, Ivanor Batista atualmente é narrador da Rádio Atual, de São Paulo, Antônio Solla morreu jovem, aos 40 anos - em 1996 - e Alcides Corrêa reside com a família em Potirendaba, sua terra natal). Deixamos o snoker por volta das 4 da matina, quando todos já trocavam a bola sete pela três, ou vice-versa. Tudo porque, na casa, infelizmente, não serviam leite com groselha, então, deu no que deu...
No domingo, tipo 11 horas, acordamos com o inevitável gosto de cabo de guarda-chuva na garganta e barulho de roda de carroça na cabeça. Alguns "epoclers" goela abaixo amainaram a maldita ressaca. Entramos num restaurante, localizado em uma travessa da Rodrigues Alves, e fomos direto ao buffet de saladas. Fazia amplo sentido. Na mesa ao lado, um quarteto de homens bem vestidos também descobriu que eu e o Edward éramos jornalistas do ABC. Dois chegaram até nossa mesa e um deles, educadamente, foi disparando: "vocês são da imprensa de Santo André, não é, mas não vão ganhar hoje da gente de jeito maneira". Eu engoli seco, mas o Edward, sentindo os efeitos da noitada, pavio menor que o meu, respondeu curto e grosso: "de fato não vamos ganhar, não jogamos bola. Somos apenas jornalistas. Se o Santo André vencer o bicho será dos jogadores e não nosso; se perder pra nós não altera nada". Os dois, percebendo que o papo não seria muito amistoso, retornaram à mesa, juntando-se a dupla que lá estava. Descobrimos ainda no restaurante que os quatro faziam parte do departamento médico e da diretoria do Noroeste, adversário do Santo André naquela tarde quente de Bauru. Fomos para o estádio, cumprimos com nosso dever profissional e à noite embarcamos num ônibus de volta para São Paulo. Na viagem não reclamamos de nada a não ser do jogo ruim e sonolento que terminou num enfadonho zero a zero. A Cidade sem Limites ficou para trás. Voltamos lá mais vezes, mas isso faz parte de outras histórias.
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*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

NAQUELE TEMPO NEM TUDO ERA DOURADO

Milton Saldanha
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AH, OS BAILES DE ANTIGAMENTE...
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Comecei a dançar aos 14 anos, naquelas festinhas de garagem dos anos 50 e 60, regadas a cubra libre (coca-cola, gelo, rodela de limão e uma dose moderada de pinga). Rolavam em intermináveis tardes domingueiras (o tempo antes parecia mais longo), sob os olhares censores de mães que conversavam sentadas num cantinho, simulando distração, quando estavam mesmo era de olho nos rapazes loucos por um bom amasso em suas filhas. O som provinha de LPs de vinil, geralmente com seis faixas de músicas de cada lado, que rodavam em grandes eletrolas de madeira e eram parte do mobiliário da casa. As eletrolas mais sofisticadas tinham dois alto-falantes que dividiam o som. Se hoje isso é banal, naquele tempo era o máximo em tecnologia.
Os rapazes, de cabelo puxado e engomado, usavam ternos e sapatos bem lustrados. Bastavam algumas nuvens no céu para, preventivamente, acrescentarem à indumentária guarda-chuvas pretos e enroladinhos, que manuseavam como se fossem charmosas bengalas. O chapéu já entrava em decadência, mas os mais velhos, como meu pai, mantinham o hábito. As meninas iam com vestidos bem comportados, que desciam abaixo do joelho. Decote ousado ou costas de fora, nem pensar. E jamais calça comprida, seria um escândalo. O jeans começava a aparecer e a se espalhar, mas as mulheres ainda demoraram algum tempo para aderir. Mas jamais iriam numa festa em jeans. O maior estímulo veio do cinema de Hollywood. Se atrizes famosas podiam, ainda mais americanas, todas também podiam. Pode parecer bobagem, mas foi um símbolo de liberação feminina. Nas ruas, por onde circulavam ruidosos bondes elétricos, com seus motorneiros e cobradores de quepe e farda amarela, começavam a surgir os primeiros espécimes da recém nascida indústria automobilística brasileira, como o Gordini, DKW, Fusca, Kombi, caminhões Ford, que se misturavam aos mais variados modelos importados que ainda circulavam em grande quantidade. Para proteger a indústria nacional a importação foi totalmente proibida. A construção de Brasília, com seus imensos canteiros de obras, era tema de todas as edições da revista Manchete, enquanto O Cruzeiro dedicava páginas aos concursos de Miss Brasil e Miss Universo. A Tupi, em ondas curtas, repleta de chiados, era a rádio de maior alcance. O Carnaval era tão forte, e realmente popular, que a Tupi mantinha o ano inteiro um programa diário com o nome de “Sempre é Carnaval”. Pulamos muitos carnavais fantasiados, em pequenos blocos de amigos, ou mascarados.
A soja e suas possibilidades era restrita a poucos pesquisadores e curiosos, enquanto o café se mantinha como principal produto de exportação. A renúncia irresponsável de Jânio Quadros, em agosto de 1961, quase jogou o país numa guerra civil. O Rio Grande se levantou em armas e evitou a antecipação da ditadura. Vou contar isso aqui no blog brevemente. O sucessor, João Goulart, montou um ministério híbrido, onde misturava os mais típicos expoentes do conservadorismo paulista, como Carvalho Pinto, com estrelas da esquerda intelectual, como Celso Furtado e Darci Ribeiro. A salada não impediu a eclosão do golpe militar de 1964, que vinha sendo tentado e planejado desde a crise de 1954, que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas. Para orgulho nacional, conquistamos a primeira Copa do Mundo, na Suécia, em 1958, revelando um garoto de 17 anos com o apelido de Pelé. Quatro anos depois, a segunda Copa, no Chile, com um desempenho de Garrincha jamais igualado por nenhum outro jogador em todos os tempos. Viajava-se muito sobre trilhos, em alguns casos com ousadia. Havia até um trem de passageiros, o Paulista, com Maria Fumaça, entre São Paulo e Porto Alegre. E duas empresas de cabotagem (navegação nacional), a Costeira e o Loyd Brasileiro, que transportavam simultaneamente cargas e passageiros, subindo e descendo toda a costa, para o Norte até Manaus, entrando pelo rio Negro; para o Sul até Porto Alegre, entrando pela Lagoa dos Patos. Minha família viajou duas vezes na Costeira, nunca esqueci, foram incríveis e belas aventuras. Eram navios precários e lentos, balançavam muito. Levamos 15 dias de Pelotas ao Rio, com várias escalas, no Itatinga. Viagem que hoje, de avião, leva uma hora. Um ano depois voltamos no Itaquatiá, fazendo tudo de novo. Nasceu disso meu fascínio por ferrovias e navios.
Era o Brasil e os tais anos dourados, que hoje nostálgicos tentam resgatar em bailes temáticos que misturam as épocas, confundindo modas e hábitos dos anos 60 com seus antecessores dos anos 50 e sucessores dos anos 70. Alguns confundem também o cardápio musical. Nos anos 60 a gente dançava ao som principalmente de Miltinho, King Kole, Caubi Peixoto, Maysa, Nelson Gonçalves, Frank Sinatra, Carlos Gardel, clássicos das big bands de New Orleans e dos grandes musicais americanos. Enquanto isso, uma garota tentava a sorte em famoso programa dominical de calouros da rádio Farroupilha (Porto Alegre), o Clube do Guri. Seu nome: Elis Regina.
Certo dia, em Santa Maria, chegou com estardalhaço um grande circo. Faziam carreatas pela cidade, exibindo animais em jaulas e palhaços fazendo estrepolias em caminhões coloridos. A maior atração era a banda, que prometida revelar um novo e revolucionário ritmo. O tal ritmo, diziam, era irresistível, ninguém agüentava ficar parado, todo mundo iria se sacudir. Fomos ao circo com a ansiedade de conhecer a tal hipnose sonora. Será que ficaríamos em nossas cadeiras ou sairíamos dançando freneticamente? O nome, recém surgido nos Estados Unidos, tirado de uma gíria americana que significava “fazer amor no banco traseiro do carro”, era Rock and Roll. Quase no final do espetáculo, finalmente, a bandinha atacou. Os músicos tocaram em pé, balançando o corpo e quase se arrebentando, vermelhos, de tanto esforço para tocar rápido e alto com seus metais. Não saímos do lugar, apáticos. Foi uma grande decepção.
Nossos bailinhos estavam longe de ser a maravilha que alguns hoje tentam contar. Havia preconceito de todo tipo: racial, físico, de idade, condição social. Um homem não podia dançar com uma mulher mais alta, ou mais velha. Negros e brancos não se misturavam, nem as classes sociais. As roupas eram incômodas, e impostas por uma etiqueta opressora. Dentro dos ternos com ombreiras, que nos deixavam quadrados, todos escuros e de tecidos pesados, a gente suava muito. O ar condicionado era uma novidade ainda restrita a poucos ambientes luxuosos do Rio e São Paulo. Em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, onde eu morava, nem pensar. Quando minha família foi morar no Rio, em 1955, recordo que os ônibus da Cometa tinham ar condicionado na linha SP-Rio. A empresa esnobava com a informação escrita na lataria. Nós ficávamos muito curiosos querendo experimentar um ar condicionado. No calor carioca havia uma delícia recentemente lançada, vendida nas ruas só por ambulantes em bonitinhos carrinhos amarelos. Os sorvetes Kibon, com seu picolé Chicabon que enlouquecia a criançada. Levou um tempão para se espalhar pelo Brasil.
De repente surgiu uma novidade, o radinho de pilha. Os homens iam para o footing no centro de Santa Maria carregando seus radinhos com antenas esticadas. Era um grande status ter um radinho daqueles. O segredo da engenhoca era algo chamado “transistor”, que permitia, pela primeira vez na História, ouvir rádio sem necessidade de um fio ligado à tomada. Alguns dias depois anunciaram outra novidade: a TV chegaria à cidade. A maioria da população nunca tinha visto uma TV, então algumas lojas colocaram aparelhos ligados nas vitrines, sem imagens, claro, só com chuvisco. Como as estações só tinham alcance municipal, tiveram a idéia de fazer linhas com aparelhos retransmissores em postes. A imagem, emitida de Porto Alegre, ia diluindo pelo caminho e chegava precária nas antenas do interior, com vários segundos de atraso. Tudo, lógico, só em preto e branco.
O maior impacto naqueles anos 60 foi o lançamento do primeiro satélite artificial em torno da terra, pelos russos. O Sputinik, do tamanho de uma bola de basquete e cheia de antenas, emitia um som, bip, bip, bip, que virou marchinha de Carnaval e deu motivo para todo tipo de piada. O satélite ficou muitos meses rodando em torno do planeta. Todas as noites, quando o céu estava limpo, nós víamos sua passagem sobre nossa cidade, várias vezes, como se fosse uma pequena estrela caminhando lentamente pelo espaço.
As fantasias de então sobre o futuro tomavam como referência o ano 2000, que nos parecia absurdamente distante. Os carros e as cidades do ano 2000 eram desenhados das mais variadas formas futurísticas, com todos os exageros, e, lógico, nenhuma delas correspondeu à realidade.
Nossos bailinhos, caseiros e nos dois melhores clubes da cidade, estavam longe de ser tão bons quanto os bailes de hoje, em todos os sentidos, principalmente de integração racial e social. Mas era o que a gente tinha e naquele tempo achava legal. Eles jamais nos permitiriam prognosticar o que um dia aconteceria com a dança de salão, transformada num verdadeiro movimento artístico, educativo e de convivência. Nem eu poderia imaginar que continuaria sempre dançando, e amando como nunca fazer disso uma das razões da minha felicidade.
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho da fronteira, é jornalista profissional, com mais de 40 anos de atividades. Começou em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1963. Foi repórter e exerceu cargos de chefia em alguns dos principais veículos do Brasil, como Rede Globo, jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, revista Motor 3, Folha da Manhã (RS) e outros. Foi repórter em Última Hora, trabalhando com Samuel Wainer. Já assinou artigos e reportagens em mais de uma centena de publicações de todo o Brasil. Trabalhou também em assessoria de imprensa, para empresas e entidades públicas, como Ford Brasil, Conselho Regional de Economia e IPT- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. É autor do livro “As 3 Vidas de Jaime Arôxa”, pela Editora Senac Rio, e participou como cronista da antologia “Porto Alegre, Ontem e Hoje”, pela Editora Movimento, do Rio Grande do Sul. Assinou também orelhas de diversos livros sobre dança e música, de autores brasileiros. Um ano antes de se aposentar, quando era editor-chefe do Jornal do Economista, em São Paulo, fundou o jornal Dance, que em julho completa 15 anos. Tem novo livro pronto, ainda inédito. É “Periferia da História”, onde conta de memória 45 anos da recente história brasileira. Trabalha em novos projetos editoriais, como jornalista e escritor. Na área de dança, organiza uma coletânea com os melhores editoriais publicados no Dance. Atualmente prepara um livro sobre Maria Antonietta, grande mestra da dança de salão carioca, que morreu recentemente. Apaixonado por viagens conhece quase todo o Brasil e já visitou cerca de 40 países. Por hobby e paixão é dançarino de tango.
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sábado, 16 de maio de 2009

ADEMIR MÉDICI É HOMENAGEADO NO ABC PELA CÂMARA MUNICIPAL DE DIADEMA

Édison Motta

Da Wikipédia: “Diz-se um missionário alguém que tem por função a pregação. É uma figura comum dentro de diversas crenças. Na verdade dentro da concepção cristã, missionário é a figura do plantador de igrejas”.

ADEMIR MÉDICI- MISSIONÁRIO DO JORNALISMO

Missionário do jornalismo, permitam-me apresentar, é o plantador da história. Aquele que segue rota oposta ao fato do momento, do circunstancial e mergulha no passado. E dele recolhe o conhecimento de que não há nada de novo entre o céu e a terra. A não ser nós mesmos. Ser jornalista é, antes de tudo, ser militante da história. Missionário do jornalismo é ser dela um arauto.
O repórter do momento, do fato, vive o presente e o registra para a história. Que poderá servir – ou não - como referência nas horas difíceis do futuro. Porque, afinal, a escalada da vida oferece a graça de permitir que amealhemos frutos do verdadeiro conhecimento, aquele que vem dos que vieram antes de nós, que ajuda no enfrentamento de nossas mais temidas agonias do presente. Soubessem disso os contemporâneos, especialmente os nossos jovens e o País conseguiria evoluir.
Esta pesada herança ocidental de desprezar o velho pelo novo se encontra em rota oposta à sabedoria oriental. Que, felizmente, começa a alcançar o mundo no início deste novo milênio. E se descortina, talvez, como salvadora da atual e profunda crise planetária em que todos estamos submergidos.
Missionário do jornalismo, Ademir Médici é soldado e general desta luta, ainda pouco compreendida, de garantir espaço na mídia para a história. Permitir que chegue à nós a experiência daqueles que têm , efetivamente, sabedoria para ser compartilhada com quem a procura.
Desde aqueles dourados anos setenta, na “casinha” - como carinhosamente chamávamos aquela nossa redação do Diario do Grande ABC - Ademir Médici faz seu voo pela história e com ele nos leva ao encontro de nossa própria cultura. Em seus livros, resgata qualidades e virtudes que perdemos ao longo do tempo. Amplia a voz do rádio com a divulgação dos programas que também cumprem esta admirável profissão de fé.
Ademir: Aproveito esta oportunidade para oferecer-lhe meus sinceros parabéns pelo título de cidadania de nossa querida Diadema, o “D” do Grande ABCD.
Seus admiradores sabem que você merece ainda mais. No mínimo, um titulo de cada uma de nossas comunidades às quais você tem sabido tão bem prestigiar em sua coluna diária “Memória”, do Diario do Grande ABC.

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Cumprimentos ao grande Ademir Médici dos amigos jornalistas deste blog: Edward de Souza, Édison Motta, J. Morgado, Oswaldo Lavrado, Milton Saldanha e Nivia Andres.