quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Prezados amigos(as). Problemas técnicos ainda não detectados nos impediram de postar um novo texto nesta quarta-feira. Estamos trabalhando para restabelecer o sistema e voltarmos em breve. Contamos com a compreensão de todos!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010


CORPO, ALMA E

CARTÃO DE CRÉDITO

Bufff! Partindo do nada, um flash estoura na cara e você não sabe onde, como, quando e por quê. As pernas tremem, o coração dispara, milhares de borboletas começam a dançar dentro do estômago. Danou-se. Você se apaixonou. Não entende bem o que aconteceu, mas percebe que abriu uma porta misteriosa. Não sabe qual a saída daquele corredor enorme e claro. Contudo, é impulsionada a desbravar o novo território. Na hora, não pensa se será feliz ou infeliz. Simplesmente mergulha. Splash! E entra no coração do outro para tentar uni-lo ao seu, numa espécie de rave sem hora para acabar. Pula, sacode, mexe todo o esqueleto naquele ritmo frenético. Toca telefone, não toca, é ou não é? Por que não liga? Está com defeito? Puuuuu... Não, ufa, a linha não está muda. Quer tanto ouvir a voz do outro lado que permanece com o aparelho colado nas mãos. É capaz de dar loopings no ar quando consegue se comunicar com aquele ser estranho, até desconhecido, mas que gera uma verdadeira descarga elétrica em seus nervos. É, minha cara, o amor escancarou os dentes para você, num sorriso indecifrável, mais misterioso que o da Monalisa. Será bom ou ruim? Sempre soa como a oitava maravilha do mundo. Quando encosta em você, então, é como se os anjos tocassem trombetas nos ouvidos. Parece que passou gel em todos os pêlos do corpo de tão arrepiada. O mundo sai de baixo dos seus pés, os joelhos dobram, e você ali, de língua de fora, parecendo um cachorro olhando para a vitrine do açougue. Sim, seu olhar abobado, parado no ar, é notado por todo mundo. Não adianta disfarçar, usar maquiagem de drag queen, óculos ou máscara de dormir em avião. Quem olha para um ser apaixonado, logo sente o cheiro de enrascada no ar. Mesmo assim, você se entrega totalmente. Doa tudo: corpo, espírito e até as prestações da loja de departamentos. Gasta horrores em vestidos esvoaçantes, perfumes sensuais, cremes poderosos, poções milagrosas que deixam a pele viçosa e tiram a aparência de casca de laranja do bumbum. Escolhe os melhores filmes românticos, embora a outra parte prefira fitas de luta. Você detesta violência, no entanto passa a enxergar a singela beleza dos golpes de caratê. Comem pipoca, entrelaçam os dedos, sussurram, fazem juras de amor eterno, grudam como gêmeos siameses. Tudo é lindo, até mesmo a baba que escorre da boca enquanto permanecem abobados olhando nos olhos, querendo entender o que o outro diz, imaginando que a felicidade é eterna. Um dia, porém, ao acordar, a dura realidade grita na sua orelha. Um berro de terror. Assim como veio, o amor partiu. Foi embora sem explicações. Sem ao menos assinar o bilhete de despedida. Páaaaaa. A porta se fechou bruscamente. As luzes se apagaram, o corredor sedutor se transformou numa passagem estreita, abafada, escura. O coração saltita de novo, dançando um novo e frenético ritmo. A música do ódio toca no mais alto volume. Você atira cinzeiros cheios na parede, se arrasta pelo chão feito lagartixa, gasta o resto do salário em antidepressivos, caixas e caixas de lenços de papel, óculos escuros novos para ninguém perceber seus olhos inchados de choro e noites mal dormidas. Afinal, a dor também precisa ter classe. Procura a cigana, faz amarrações, pede o dinheiro de volta porque nada funcionou, investe em livros de autoajuda. Nada resolve. A tristeza dilacera o peito. Você deseja a morte. Arrasta-se até a loja de ferragens, escolhe a maior arma que consegue enxergar por trás das lágrimas. Quanto é? Dá para embrulhar? Chega em casa, vai para a frente do espelho, arranca a roupa, segura com as mãos desajeitadas a tesoura de cortar grama e, num gesto dramático e rápido, faz cléc. Pronto. Arrancou a erva daninha do coração. Cortou o amor pela raiz, tirou toda a terra que ainda restava ali dentro e ainda deu uma espanadinha. Doeu, é verdade. Mas, agora, é só passar mertiolate, tomar anti-inflamatório e comprar roupas novas que a ferida cicatriza. Logo, logo mesmo, corpo, alma e cartão de crédito estarão prontos para outro flash.
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*Lara Pezzolo Fidelis é jornalista, escritora e colaboradora especial deste espaço. Entre outras atividades profissionais, Lara mantém um blog na internet, o Lagarta de Fogo. Clique para acessar:
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


DISCUSSÃO ESTÉRIL

Desde os meus tempos de garoto, pelas mãos de minha mãe era semanalmente levado até a Rua da Glória em São Paulo, onde se situava a Federação Espírita do Estado.

Evidentemente, criança ainda, dormia eu a sono solto na maior parte dos trabalhos espirituais ali realizados. Mais tarde a instituição mudou-se para a Rua Brigadeiro Tobias. As sessões eram realizadas em um enorme salão de uma antiga mansão então existente naquela região paulista e eu continuava a tirar minhas sonecas. As reuniões eram públicas naquela época. Lembro-me vagamente de um tio, irmão de minha genitora, com um livro nas mãos doutrinando os espíritos doentes que ali iam ter em busca de esclarecimento e lenitivo. Naquele tempo, fins da década de 30 e início da de 40, não havia o que há hoje – Juventude Espírita, Educação para crianças através de livros infantis e adaptados para compreensão dos jovenzinhos, etc. Os adeptos do Espiritismo eram tratados como párias da sociedade. Os vizinhos nos tinham como bruxos e coisas do “diabo”. Nós pequerruchos podíamos sentir isso nas perguntas de nossos amiguinhos de folguedos; “vocês são macumbeiros não é”? Não sabíamos o que responder. Mais tarde, já na pré-adolescência, partíamos para uma briguinha cada vez que nos interrogavam a respeito do assunto. A história sobre essa época é longa e interessante. De qualquer forma há uma semelhança (ressalvando as devidas proporções) quando dos primeiros cristãos perseguidos, primeiro pelos soldados a serviço do clero judaico e em seguida pelos romanos. No século XX, os espíritas sofreram muitas perseguições e eram até alvo de investigações pela polícia que exigiam licença e outros documentos para o funcionamento de uma Casa Espírita. A coragem de muitos pioneiros na divulgação da Doutrina sobressaiu-se e venceu os detratores e aqui estamos cada vez mais lúcidos e imbuídos de nossa responsabilidade perante a humanidade.

São muitos os fatos que enriquecem a História do Espiritismo no Brasil que vão desde as polêmicas em torno da figura de Jesus até a desagregação de entidades e a formação de outras.

Mas, uma delas nos causa desprazer; é quando se referem ao Cristo como “Político”. Foram muitas as ocasiões em que escutamos ser Jesus “O maior socialista que já existiu”. Com paciência, fiz ver as pessoas de quem ouvi essa frase a diferença entre política e a Moral pregada pelo Mestre. Muitas dessas pessoas ou pelo menos a maior parte delas se deixam envolver com “doutrinas milagrosas utópicas”, criadas pelo homem e divulgadas pela mídia comum e publicações que até pouco tempo eram proibidas pelo governo; não se preocupam em ler nas suas minúcias os livros de Kardec e principalmente o Evangelho Segundo o Espiritismo, onde certamente deixariam de ter tais idéias.

Não foram poucas as pessoas, ou melhor, interesses políticos que tentaram usar o Espiritismo para tirar proveito. Aconteceu no passado com outras religiões resultando no atraso moral em que nos encontramos. Só que na Doutrina dos Espíritos não há brechas (pelo amor ou pela dor).

As definições estão claras nos dicionários da Língua Portuguesa, tanto para Socialismo que é um conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista tentando diminuir um pouco as desigualdades, quando para a Moral que se refere aos bons costumes e um conjunto de regras de conduta consideradas válidas, quer de modo absoluto em qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada.

E vai por ai a fora.


EVOLUÇÃO

Quando será que o homem entenderá que apenas a evolução espiritual resolverá os problemas da humanidade? Que a matéria carnal é provisória e que “ao pó voltará”? Pudemos verificar que muitas coisas estão acontecendo em várias partes do mundo. Por exemplo: a mídia vem divulgando (não com tanta ênfase) que grupos de jovens estão saindo algumas vezes por semana vasculhando o lixo e verificando o desperdício que acontece em restaurantes em casas de família (sejam elas de que classe for) e outros lugares. Interessante que eles pertencem à classe média e sem nenhum pejo comem daquilo que recolhem. É verdade que são assistidos por médicos e outros profissionais; mas é uma idéia maravilhosa, pois mostra ao mundo verdadeiramente o que poderíamos fazer com o excesso que guardamos ou jogamos fora.

Mesmo Antes de Cristo apareceram muitos homens que nos ensinaram filosofias dignificantes e durante os séculos que se passaram até os dias de hoje foram muitos os exemplos de como deveríamos nos comportar para termos uma felicidade relativa e uma vida sem muitos problemas.

Não quero dizer aqui que a Sociedade não tenha que se organizar para que haja uma civilização ordeira visando o progresso do ser humano. Aliás, essas questões estão muito claras no Livro dos Espíritos na pergunta 711 e seguintes. Refiro-me sim ao excesso de materialismo e imediatismo que cega o indivíduo e faz “ouvido mouco” as preleções e aos conselhos evangélicos que surgem a cada momento e cada vez mais a “Porta Estreita” é preterida porque não oferece o que o ser humano deseja, ou seja, manter seus vícios morais e materiais que lhe dão prazeres imediatos. “Meu Reino não é deste Mundo” disse Jesus. As pessoas ainda não conseguiram assimilar que eles são espíritos imortais e não matéria que um dia poderia “ressuscitar”. Por essa razão Kardec não admitia que pessoas participassem das sessões mediúnicas ou práticas apenas por curiosidade. Exigia que a o pleiteante lesse as obras codificadas e só depois então, se convencidos, participassem das reuniões.

A moral de Jesus através do Evangelho e da Codificação Espírita nos mostra claramente conforme frase de Kardec que “Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”. Assim sendo, só existe um caminho para a nossa evolução: REFORMA ÍNTIMA.

Os homens através de seus arroubos idealistas inventam ou criam filosofias para a melhoria da sociedade; ótimo, pois é esse o seu dever. Só que na medida em que o tempo avança deixa-se se levar pela ânsia do poder ocasionando sofrimentos e amarguras.

Poucos, muito poucos foram os homens que ao assumirem a responsabilidade de dirigirem nações o fizeram com o coração limpo de qualquer resquício de orgulho ou ganância. No século que passou lembro-me de dois e os escrevo com letra maiúscula NELSON MANDELA E MAHATMA GANDHI. O primeiro depois de 28 anos de prisão tornou-se presidente de seu país (África do Sul) e instituiu pequenos tribunais populares para julgar os pedidos daqueles que solicitavam anistia pelo que fizeram no regime da Apartheid e praticamente os perdoou a todos, instituindo assim a “Lei do Perdão”. O segundo, com sua filosofia hinduísta, conseguiu libertar o seu povo (Índia) do jugo estrangeiro sem usar da violência, mas infelizmente, os desejos pelo poder ocasionaram seu assassinato, em 1948.

A consulta de jornais escritos, televisivos, revistas, rádio, etc., todos os dias, nos dão uma idéia do que vai pelo mundo. A evolução moral é lenta e uma boa parte da população prefere o misticismo e os milagres para resolverem seus problemas. Deus, nosso Pai não revoga suas próprias Leis, daí, o sofrimento constante e as reencarnações múltiplas até que o ser humano entenda o que o “Verdadeiro Cilício” é o combate de seus defeitos morais, ou seja, o orgulho, o ódio, o rancor, a mágoa, a vaidade e assim por diante. Daí, só há uma solução “AMAR O PRÓXIMO COMO A TI MESMO”. Quando chegarmos a cumprir esse mandamento, o mundo terá atingido o que Jesus apregoou para quem quisesse ouvir e seremos todos felizes...

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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista pelo e-mail jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010



FLAGRANTES DA VIDA (IV)


Quatro horas da manhã/Sai de casa o Zé Marmita/Pendurado na porta do trem/Zé marmita vai e vem/ (...)

Hoje iremos reviver histórias do Rio, a terra do carnaval, de tórridos amores, das
escolas de samba, dos puxadores onde sempre estará no primeiro trono Jameão (D), que conheci em São Paulo, cantando no Salão Verde (taxi girls) inicialmente no Edifício Martineli, depois na Rua São Bento, ao lado do largo do mesmo nome, onde há uma estação do metrô. Era cantor efetivo de uma gafieira do Rio, proximidade da Lapa, acima do Arcos. Eram comuns as gafieiras na cidade como entretenimento popular. Jorge Veiga (E), cantor da Rádio Nacional, fez enorme sucesso com a música “Pistão de Gafieira”, inspirado nelas: Na gafieira, segue o baile calmamente/Com muita gente dando volta no salão/Tudo vai bem, mas, eis, porém, que, de repente/Um pé subiu, alguém de cara foi ao chão. (...)

Ainda em ressaca do carnaval que acabou, sigo cantando para minha colombina: você partiu/ saudades me deixou/ eu chorei/ o nosso amor foi uma chama/ o sopro do passado desfaz/ agora é cinza/ tudo acabado e nada mais/(...)

Eu falava no capítulo anterior, da carreira de Bob Nelson; no entanto, o Brasil não conhece uma particularidade de sua vida atrelada ao grande Lua, o mestre sanfoneiro Luiz Gonzaga. O sanfoneiro começou no Rio, tocando nos cabarés da Lapa e ainda não cantava. Ao final de cada apresentação, corria a bacia para recolher gorjetas e manter-se. Contava Bob Nelson que a primeira contratação do Lua foi arrumada por ele, na Rádio Nacional. Bob ao assinar seu próprio contrato, sugeriu o sanfoneiro que queria como acompanhante: Luiz.

A emissora Continental do Rio, pertencente ao grupo de Rubens Berardo, era projeto ambicioso no rádio carioca. Gestor de sonhos, Gagliano Neto (D) foi seu fundador, em 1948
, ele o homem que transmitiu a primeira Copa do Mundo, realizada na França, em 1938. Imaginava a Continental integralmente dedicada à notícia e esportes. Chegava a adiantar em meios radiofônicos: “um dia teremos, no Rio, a Emissora Continental cobrindo tudo, com carros de reportagem equipados para transmissão, ombreando-se com a rádio-patrulha em número de veículos”. Não viu realizado o desejo, voltou a São Paulo onde se dedicou a transmitir corridas de cavalos, no Jockey Clube.

Temos entre nossos leitores um número considerável de universitários, sempre interessados em avaliar acontecimentos importantes da história. Em minha opinião, a Emissora Continental do Rio de Janeiro, embora conte com escassez documental de seu passado e, até prova oral, pelo desaparecimento de muitos que viveram seus momentos, merece estudo mais acurado de sua ação e efeito na vida da rádiorreportagem. O sonho, a abnegação, o amor ao sempre presente “Comando Continental,” falando de todos os pontos do Rio, seu pioneirismo e sua utilidade pública, faz pertinente pesquisa mais aprofundada.

Carlos Palut, Ary Vizeu, Manoel Jorge, Paulo Caringi, Dalwan Lima, Perez Júnior, Jorge Sampaio, Paulo Cesar Ferreira eram jornalistas do microfone volante, rondando a cidade nas 24 horas. A reportagem externa contava com a retaguarda dos informativos de meia em meia hora: Repórter Carioca (local) e Repórter Continental (internacional).

Fui contratado, inicialmente, para leitura dos informativos. Acumulei, mais tarde, a apresentação de um musical na madrugada; Boate dos 1.030, onde promovia lançamentos musicais. Era muito frequente a visita de um grande repórter, com suas produções musicais - David Nasser (E), com quem alonguei papos nas noites do Rio.

Por indicação do deputado Rubens Berardo, fui prestar serviços à dona Darcy Vargas, no Palácio do Catete, na elaboração e distribuição de informações da LBA, Legião Brasileira de Assistência, entidade por ela criada em 1942, em cuja presidência se mantinha.

Em Copacab
ana, longe de pensar na violência que hoje assola o Rio, a noite cheia de mistério e romantismo era constante convite aos prazeres e à boemia. Minha morada, antes no Flamengo, passou a ser na Rua Viveiros de Castro, no Posto 2 de Copacabana. Participei, com Fernando Salgado, crítico de cinema, Ângela Maria, Esther de Abreu, Marly Sorel, Manoel Jorge e outros, da fundação do Clube de Cinema em espaço cedido pelo Barão Von Stuckart. Ali ao lado funcionava a Boate Vogue, de sua propriedade, cujo prédio veio a incendiar-se em 1955, deixando trágico resultado. Parece ser sabido o gosto de Silvio Caldas pela arte da culinária. O barão abriu no local um fino restaurante chamado Casa Grande e Senzala; Silvio assumiu a cozinha, área Brasil. Eu estava lá: era seu convidado às quintas feita.

Uma pequena casa noturna em frente ao Vogue, de nome Tasca, pilotada por seu proprietário, músico e compositor, Djalma Ferreira (D), era ponto obrigatóri
o das mais lindas mulheres. Eu estava lá. Foi transformada, mudou de nome: Boate Drinks. As lindas mulheres permaneceram. Entrou Miltinho (E), esbanjando sucessos musicais. A bola da vez era: Você, mulher/Que já viveu, que só sofreu/Não minta/Um triste adeus nos olhos seus/A gente vê, Mulher de Trinta/No meu olhar, na minha voz/Um novo mundo, sinta/É bom sonhar, sonhemos nós/Eu e você, Mulher de Trinta/Amanhã sempre vem/E o amanhã pode trazer alguém/

Eu fiquei lá...(continua)
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José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004) e Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007). Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. A Série Relembranças será editada em cinco capítulos semanais, às quintas-feiras, em que o profissional revisita, com sua memória privilegiada, flagrantes da vida que fazem parte da história de nosso país.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010


UM OLHAR SOBRE A

CAIXA PRETA DE MADONNA



A visita de Madonna, um dos maiores ícones internacionais, ao governador e presidenciável José Serra fornece apenas mais uma chance para que se discuta assunto que escapa da reflexão da maioria das pessoas. E há até algumas justificativas para essa omissão.

Diante de tantos escândalos, as atividades do chamado terceiro setor – encravado entre o Estado e empresas particulares – permanecem em uma espécie de limbo midiático. Pouco se comenta a respeito do que fazem e como agem cerca de 400 mil organizações não governamentais sediadas no Brasil e outras de origem internacional que aqui também desenvolvem suas operações.

O manto das causas nobres tem enorme poder de camuflar amplo leque de operações de entidades que não têm valor jurídico e são criadas com enorme facilidade. É tal sua importância que hoje contam até com operações financeiras transacionadas na Bolsa de Valores Sociais e Ambientais, instalada em São Paulo e destinada a negociar doações e aporte de recursos para as mesmas.Criadas originalmente no Exterior, as Ongs encontraram no Brasil amplo leque de setores para atuar, visto o histórico abismo entre as necessidades sociais e a atividade do Estado. Esse lado positivo, que reúne grupos da sociedade civil para agir em áreas nas quais o poder público se ausenta, é inquestionável bandeira de captação de recursos.

Criam Ongs desde simples cidadãos de alguma comunidade perdida sabe-se lá onde, até milionários, artistas, defensores de indígenas, gays e lésbicas, do ouriço preto, da perfuração de cisternas no agreste e até para festivais de teatro e cinema.

A lista de idiossincrasias e exotismos seria hilária, não fosse patrocinada com recursos públicos. Os mesmos que faltam para reajustes aos aposentados, honrar precatórios, à saúde, à educação e segurança do cidadão comum. O mesmo cidadão que colabora de coração aberto para tais entidades, algumas dignas do maior respeito e admiração. Mas uma grande parte, apenas aproveitadora das facilidades do sistema.

Assim, para que as coisas sejam colocadas em seus devidos lugares é fundamental que o governo – Executivo, Legislativo e Judiciário – acorde e trate de abrir essa caixa preta, mais uma das tantas que solapam a riqueza incalculável do país e insistem em manter as gritantes aberrações sociais que tanto nos envergonham perante o mundo.

Mas, principalmente, que quem doa recursos ou trabalho a entidades do terceiro setor, saiba bem com quem coopera e como tais recursos são empregados.
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*Virgínia Pezzolo é jornalista, advogada e bacharel em Ciências Sociais
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010


ROSAS DE FOGO

Fogueteiro ergue o rojão, acende o pavio, olha o céu estrelado e sorri com a explosão do artefato. Depois, ajeita a toca preta na cabeça e passa os dedos sobre a tatuagem estampada no braço: uma tocha, as labaredas camuflando a feia cicatriz, lembrança de uma briga de rua quando ainda era menor e foi atingido por uma faca. É um homem forte, físico avantajado, queixo quadrado, nariz achatado em muitas lutas, vingativo e respeitado no pedaço. Demonstra contentamento e vontade de agir:
- Carnaval taí, A folia pinta logo mais, é preciso participar, gingar e sambar, galera. Queria muitos morteiros, fogos de artifício, adoro o batuque dos fogos explodindo no céu. Fui aprendiz de fogueteiro, queria fabricar, produzir cascatas de fogo, aquele jogo de luz é do cacete. Fui demitido, levei um punhado de foguetes para o campo de futebol, sabe como é, cada gol uma bomba. Não fui preso, o dono ficou com medo de me denunciar, a fábrica era clandestina, ele podia se enrolar.
- É isso – diz Vaga-lume, um cara grandalhão e desengonçado, que tem o hábito de acender e apagar a lanterna que carrega no bolso. - Concordo, é hora de festejar. Conheço uma parada legal, rola muito barato, pauleira, meu. E mina de sobra, garotinha da sociedade, madame, cara, tudo a fim de curtição. Zoeira, mano, é chegar lá e levar pro abraço. A mulherada é ligada nas lideranças, quer ficar junto do poder. Entende?
Cabeça, apelido que indica ser possuidor de uma cabeça desproporcional ao corpo, bate nos ombros dos companheiros, alerta:
- Tem problemão, mano.
- Qual?
- Grana. Sem lubrificante não entra, segurança barra. Tem de pagar o consumo, meu. Grana pra cerveja, pro pó, pra amaciar as minas. Ficar de fora, cheirar fumaça e chupar dedo não dá. Certo?
Fogueteiro funga, nariz entupido de droga:
- Alguma ideia pra arrecadar fundos?
Cabeção estala os dedos, sugere:
- Solução é o que não me falta. Sempre saco alguma ideia, tenho um plano. É topar a parada, sem erro. A gente assalta um ônibus. É tempo de viagem, muita gente chega para a farra, os desfiles, basta expropriar os abonados. Negócio limpo, seguro, não dá truta.
- Positivo, tô nessa – diz Fogueteiro.
Vaga-lume concorda:
- Ação, mano.
Fogueteiro indaga:
- E as armas? Não largo minha pistola nem morto. E vocês?
- A 45 tá azeitada.
- É só disparar, a minha tá carregada, munição de primeira, trazida do quartel da PM, um cabo me fornece.
- Então vamos ensaiar a brincadeira. Artista tem de ensaiar pra não errar. O espetáculo vai ser lindo. Ali adiante tem um posto de gasolina. Moleza, mano.
O bando não tem dificuldade em render os frentistas, que são trancados no banheiro. Arrecadada a féria, Fogueteiro enche um galão com gasolina.
- Pra quê isso, cara?
- Sei não, pode ter utilidade.
Noite adentro os bandidos circulam com um carro puxado, escolhem a presa, caçadores impiedosos na espreita. Súbito, avistam um ônibus de turistas.
- Na mosca, é este, cara, vamos limpar os bacanas. Bora, bora, bora.
Aceleram o motor do automóvel, ultrapassam e fecham o veículo com uma brusca brecada. Obrigam o motorista a abrir a porta e invadem. Gritam e gesticulam, apavoram os passageiros com a exibição das armas:
- Quietos, em seus lugares. Depressa, dinheiro, logo. Que tá esperando, veado de merda?
Um cidadão gordo, idoso, tenta argumentar:
- Calma, calma. Somos pais e mães de família, temos filhos.
- Filhos? Bobagem, tá cheio de filhos no mundo. Crescem de qualquer jeito. Pai não faz falta, meu. Um a mais ou a menos dá no mesmo. Tem crianca azarada em toda parte. Chega de papo furado, cara, tô perdendo a paciência.
Fogueteiro abre o galão, despeja a gasolina, o combustível escorre, molha os bancos, encharca o veículo. Ele gesticula, segura firme a pistola, grita:
- Depressa, dinheiro e valores, nada de bagulho. Se bobear risco o fósforo, vai ser divertido, um inferno.
Vaga-lume acende a lanterna, aponta o facho para uma garota miúda, magra, olhos que espelham espanto e medo, rosto angelical, encolhida no banco. Assobia:
- Olha que pitéu, Fogueteiro, tá no ponto, miau. A mina tá pra mim, tô com tesão.
- Que é isso, mano? Endoidou? É magrela, mulher tem de ter bunda, peitaço. Quem gosta de osso é cachorro e cemitério. To te estranhando. Quer roer osso? Que merda.
- Ora, só uma rapidinha.
- Negativo, mano, mulher tem de se entregar numa boa, com lábia, droga ou grana. Vamos pra cabeça. Entendido?
- Tá bem.
- Tchau, gente. Acabou, agora é dar no pé. Bora, gente, bora.
Cabeça se apressa, recolhe bolsas, carteiras, joias e relógios.
Fogueteiro gargalha:
- Simbora, mano, vou iluminar o espetáculo.
Com uma risada maligna ele enche os pulmões de ar, o rosto se arredonda. Risca um fósforo e se gratifica com a explosão e o fogaréu que se alastra. Os gritos de dor soam em seus ouvidos como sinfonia.
Cabeça faz um gesto com os ombros, pergunta, sem emoção:
- Pra que queimar, cara?
- Experiência, queria ver se os passageiros explodiam como fogos de artifício. Adoro fogos, amo aquelas flores coloridas no céu, cachoeiras de luzes. Achei que o sangue subia dos corpos como rosas vermelhas, desenhos bacanas nas alturas. Pena, queimou tudo como lenha, virou carvão. Bem, em frente, vamos curtir a balada. Quem sabe na próxima vez a coisa funciona. Banco a primeira cheirada. Espírito de carnaval, vamos embalar na folia.

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*Guido Fidelis, jornalista, escritor cosmopolita, também advogado é outro dromedário da imprensa paulista. Ex-Última Hora, Diário do Grande ABC, A Nação e A Gazeta, sua pulsante literatura deixa pouca dúvida a respeito de suas preferências: drama policial com um aroma decididamente neonaturalista. Guido Fidelis tem mais de uma dúzia de livros publicados. A última obra de Fidelis, "Dádiva", foi lançada no final do mês passado pela RG Editores, de São Paulo.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SAUDADES

DOS ANTIGOS CARNAVAIS


Velhos carnavais. Moreninhas, loirinhas e mulatas do Brasil. Belas em suas fantasias, rodopios no salão. E que dizer das marchinhas? Ingênuas umas, provocativas outras. O que valia era a alegria contagiante, os galanteios, o convite matreiro em busca da dama de vermelho, da colombina, os cochichos no meio da folia e uma inocente lança-perfume para espargir cheiro bom. Breves intervalos para refrescar a boca com cuba-libre e retomar o ânimo para nova maratona.

Onde foi parar o romantismo de outrora? Onde estão os fanáticos de Momo, a participação popular na qual se viam misturados foliões de todas as categorias sociais? Por que não mais participar? Por que a mudança de hábito? Carnaval teria virado apenas espetáculo destinado a fria platéia que vê de longe e nem cantar sabe? Vamos lá, minha gente, que é tempo de recordar e viver.

Vai ter quem reclame, por certo, da postura saudosista. Mas nem por isso vou deixar de dizer, com bastante ênfase, que os carnavais de outrora, dos bons e irrecuperáveis anos 60, eram infinitamente mais joviais e prazerosos.

O carnaval, sempre foi a mais democrática das festas, bastava se enrolar numa toalha ou o folião colocar o vestido da irmã ou da mãe e sair requebrando por aí. Os bailes nos clubes eram concorridíssimos, predominando belas fantasias na esperança de serem premiadas na última noite. Havia prêmios para o mais animado, para a fantasia mais bonita, para a mais original e para o bloco - sempre havia vários - que mais se destacavam. A alegria rolava solta nos salões decorados com esmero, na base da serpentina, balões, máscaras, figuras de cartolina a até bonecos sustentados em estruturas de madeira, com farto emprego de papel machê, tinta, algodão e lantejoulas. A esmagadora maioria dos foliões, incluídas aí famílias inteiras, fazia dos clubes o centro preferencial de diversão no chamado “tríduo momesco”. Naqueles tempos nenhum carnavalesco que se prezasse abria mão de trazer ao alcance, para pronto uso, o seu tubo de lança-perfume marca Rodouro, de alumínio bronzeado, fabricado pela Rhodia Química de Santo André. Tinha também os de vidros. Borrifar com jato de perfume uma conhecida equivalia a uma saudação amistosa.
Alvejar os cabelos ou o colo de uma jovem com um esguicho, acompanhando a cadência bonita do samba, representava uma forma galante de exprimir simpatia e afetividade. Ficava-se a aguardar pelo esguicho de volta, um sinal promissor de correspondência. A bisnaga perfumada era considerada, assim, imprescindível dentre os apetrechos carnavalescos. Tanto quanto a fantasia, o confete, a serpentina. Entrava e saía Carnaval, e de nenhuma voz autorizada se fazia ouvir qualquer tipo de advertência relativa à insuspeitada toxidade do produto. Não passava pela cabeça de qualquer folião a “extravagante” idéia de que o lança-perfume pudesse, em algum momento, ser equiparado a drogas da pesada, capaz de provocar dependências químicas. A visão que dele se tinha, de modo geral, era de um brinquedo divertido, para adultos e crianças. Nas matinês, a meninada trazia pendurado na cintura ou preso nas mãos o seu tubo de lança-perfume. Jogar perfume, confetes e serpentinas nos outros tinha tudo a ver com o espírito da festa. Infelizmente, acabou nosso Carnaval em salões, desapareceram as velhas marchinhas, ninguém passa mais brincando e cantando feliz: “Ai, ai, ai, ai... Tá chegando a hora, o dia já vem raiando meu bem, eu tenho que ir embora”.

Hoje em dia a certeza de que as escolas de samba do Rio e São Paulo podem ensinar tudo, menos samba. Cada ano as agremiações se afastam mais de suas raízes, do samba no pé e partem para espetáculos elaborados que mais parecem superproduções de Hollywood em vez do ritmo nascido nas favelas e becos das grandes cidades. Tudo começou a mudar nas escolas com a chegada da figura do carnavalesco, essa espécie de ditador que planeja desde as cores da fantasia ao tamanho do carro alegórico que vai desfilar. Normalmente, não são pessoas da comunidade, mas profissionais de cenografia ou arquitetura que usam a avenida para dar vazão aos seus sonhos com enredos que parecem mais teses de Mestrado pela sua elaboração e pelo distanciamento da realidade onde as escolas estão encravadas.

E, melancolicamente, vemos as escolas passando, shows espetaculares de luzes e néon, baianas de plástico, alegorias monstruosas, enredos delirantes, tudo longe, bem longe do samba de quintal que originou a mítica das escolas e que era sua razão de ser, até descobrirem que Carnaval também pode gerar dinheiro e poder. Nos corações, saudades e cinzas dos velhos e bons carnavais. Foi o que restou...
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou em vários jornais, emissoras de rádio e tv do Grande ABC e de São Paulo. Medalha João Ramalho, principal comenda do município de São Bernardo do Campo, outorgada pela Câmara Municipal daquela cidade pelos relevantes serviços jornalísticos prestados à região. Troféu PMZITO, entregue pelo alto comando da Polícia Militar de Santo André por ter se destacado como o melhor repórter policial do ABC nos anos 70. Menção Honrosa entregue em 2007 pela Câmara Municipal de Franca e outra pelo Rotary Clube Norte pela atuação brilhante na radiofonia e jornalismo da cidade. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal "O Comércio da Franca", o mais antigo jornal do interior, com 95 anos de atividades.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010



FLAGRANTES DA VIDA (III)

Abrirei um parêntese para levá-los comigo a São Paulo, à relembrança do rádio paulista, pois seus altos valores artísticos sempre foram destaque na história do rádio brasileiro. A controvérsia no registro de fatos do rádio é comum e constatada com muita frequência. Bastaria a afirmação de que o Brasil fez sua primeira transmissão de voz em 1892, na cidade de Campinas, para alterar a história do rádio no mundo. O fato conferiu-nos a primazia de pioneiros, visto que o italiano Gughielmo Marconi somente em 1895, seguindo estudos do alemão Henrich Rudolf Hertz, logrou passar sinais de telegrafia. O estudioso brasileiro responsável pelo crédito que temos foi o gaúcho padre Roberto Landell de Moura.

Entre as inverdades circulantes na trajetória de figuras importante do rádio, tratarei de apenas duas, por ter delas absoluto domínio. Vicente Leporace (E) e Pedro Luiz Paoliello (D), ambos nascidos em São Tomaz de Aquino, bem próximo a cidade de Franca. Os dois viveram os dias da adolescência na cidade, onde já funcionava a Rádio Clube Hertz, fundada como clube, em 8 de novembro de 1923.

Naquele velho microfone a carvão em que foi gravado o primeiro prefixo - SQBL - que entreguei ao museu, iniciaram os dois, suas carreiras brilhantes. Atualmente preparo a reunião de documentos e informações que haverão de comprovar a Rádio Clube Hertz de Franca S/A como quarta do país em ordem de surgimento.

Tergiversar não era o caso, mas apesar de varias publicações, entrevistas na internet, o causo do rádio, ainda não foi adequadamente contado. Se não tenho a pretensão de tudo saber sobre o tema, me ocupo em corrigir informações a partir 1864, quando o físico escocês James Clerk Maxwell iniciou estudos, tendo morrido sem concluir seu intento. Deixou, no entanto, a teoria de que uma onda luminosa poderia se propagar no espaço vazio, atraída pelo éter.

Era a década de 40, no século passado, Ita Ferraz dirigia a recém-inaugurada Piratininga que o ouvinte insistia em chamar Cruzeiro do Sul, por força do hábito. Manoel de Nóbrega e o Torre de Babel, a jovem dupla sertaneja Tonico e Tinoco, com quem gravei para todo Brasil muitos anos mais tarde, uma série de programas: “Shell no Sertão”, direcionada à agricultura brasileira. O conterrâneo, Pedro Luiz, apesar de encerradas as inscrições, inscreveu-me em concurso no Largo do Patriarca. Eram 1.200 candidatos disputando duas vagas; fui o terceiro. A desistência de um aprovado assegurou-me o primeiro emprego em São Paulo. Foi de curta duração minha permanência naquela casa. Fui chamado a ficar ao lado de um símbolo da notícia no rádio brasileiro. Conheci José Carlos de Morais na Rádio Bandeirantes, instalada no centro de São Paulo, na Rua Paula Souza. Citar seu nome, para muitos, pode nada significar, no entanto, o Tico-Tico, o jornalista que criou a entrevista de rua, gravou de maneira forte o grande repórter. Fui com ele dividir as apresentações do informativo “Antárctica Informa”, da Rádio Bandeirantes, levado ao ar de hora em hora. Estava eu a partir do encontro com o mestre Tico-Tico, inserido na mídia política: comícios, candidatos, governos e outros que tais do setor. Mesmo não mais trabalhando na Rádio Bandeirantes, nos estávamos juntos nos palanques quando Ademar de Barros reconduzia Getúlio ao poder federal, ressurgido de um recolhimento em São Borja. Rememoro uma frase de Getúlio pronunciada naquela campanha de 50, ao lado de Ademar, em Franca: “trabalhadores do Brasil, trago minhas vestes cobertas pela poeira dourada de vossas estradas”. Um estadista daquele porte, dourar o pó de uma região, orgulhando-se de carregá-lo em sua roupa, motivava o povo feliz a cantar: “bota o retrato do velho outra vez/ bota no mesmo lugar/ o sorriso do velhinho/ faz a gente trabalhar.”

Alternando momentos, imaginando e sonhando que meu futuro haveria de sedimentar-se no Rio de Janeiro, passei a prestar serviços à Rádio Cultura de São Paulo, propriedade dos irmãos Dirceu e Olavo Fontoura. Seu diretor, José Nicolini. Hélio Araújo comandava, aos sábados, um programa de calouros, com duração de 4 horas, das 14 às 18h: Peneira Rhodia, entre tantos, descobriu Ronald Golias e Francisco Egídio, extraordinários: humorista e cantor. Poucos estarão lembrados de Bob Nelson - como dizia o doutor Assis Chateaubriand - “o cowboy sem cavalo”, campineiro, também revelado nos calouros da Rhodia na Cultura com sua adaptação de “Ó Suzana”. Ele foi o astro do olereeeiiiiiiiii, em homenagem à “Vaca Salomé”. Foi na Rádio Cultura onde conheci participando de programas, uma forte expressão da cultura brasileira: Menotti Del Picchia.

Também foi lá, durante as apresentações que fiz de shows internacionais pela Boate Arpèje - a mais requintada do Brasil - onde circulei pela mais destacada cúpula da sociedade do país. A Rádio Cultura e a Boate Arpèje uniam interesse do mesmo grupo de Olavo Fontoura.

A Boate Arpèje tinha entrada pela Avenida São Luiz, interligando-se com a Rua Basílio da Gama, bem próximo da tradicional Escola Caetano de Campos...(continua)

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José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004) e Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007). Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. A série Relembranças será editada em cinco capítulos semanais, às quintas-feiras, em que o profissional revisita, com sua memória privilegiada, flagrantes da vida que fazem parte da história de nosso país.
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