terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SEGUNDA-FEIRA, 20 DE DEZEMBRO DE 2010

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Nasci em 1941, na região central de São Caetano do Sul, cidade que compõe o Grande ABC, aqui na Grande São Paulo. São Caetano era, então, a cidade das olarias; Santo André dos ceboleiros e São Bernardo dos batateiros, pelo óbvio. Apesar do progresso vertiginoso, São Caetano, a época, ainda possuía muitas ruas de terra, inclusive no centro. Foi em uma delas que nasci, cresci, estudei e somente sai de lá para morar em casa própria, no Bairro Nova Gerty, com meus pais, por volta de 1951. A narrativa abaixo ocorreu em um mês de dezembro de 1949, portanto, eu estava com 8 anos. Éramos quatro amigos na mesma faixa etária.

O ano de 1949 estava nos extertores, era véspera de Natal. Sem nenhuma perspectiva de receber presentes e ainda acreditando que Papai Noel preferia sempre visitar os meninos mais comportados, arrumamos uma forma de ganhar algum mimo. Na rua de trás de nossa casa havia uma olaria, cujo dono, um português de vastos bigodes, reunia seus empregados e alguns garotos sem sonhos para lhes dar um presentinho na véspera de Natal. Deveria ser para aplacar sua consciência, talvez corroída pela presunção.

O “portuga” deixava um porteiro na olaria para impedir a entrada de garotos negros. O preconceito, a época, era latente, e o "Seu" Anísio, (esse era o nome do pulha), escancarava seu escárnio pela raça. Nós éramos quatro, (todos na faixa dos 8/9 anos). Eu, Leonardo, Chico e Adão, estes dois últimos, negros. Na portaria o vigia liberou minha entrada e a de Leonardo, porém barrou os outros dois. Na saída, com um copo de guaraná na mão, um carrinho e uma bola, eu e o Léo não sabíamos o que fazer para disfarçar a tristeza ao ver algumas lágrimas nos olhos dos amigos negros, nem tanto pelo presente não recebido, mas por serem expurgados, como se humanos não fossem. Não saímos dali. Havia a necessidade imperativa de fazer com que nossos coleguinhas recebessem um presente e ao mesmo tempo estragar a hipócrita festa do “portuga” e seu arrogante vigia, era o troco pelo estúpido preconceito, no mínimo.

No interior da fábrica havia uma mesa com comes e bebes só para os familiares do dono. Umas três senhoras, todas enfeitadas com seus vestidos largos e cintilantes, (nesse tempo mulher não usava calças... compridas) e cinco ou seis crianças, todas brancas, claro, rodeando a mesa e desfrutando dos refrigerantes, balas, bolos e outras atrativas guloseimas. A olaria fazia fundo com outra rua, exatamente a que eu morava com meus pais e irmãos. No muro havia um pequeno buraco por onde empurramos o Chico e o Adão pra dentro da festa. Foi um desastre: antes que chegassem onde estava a mesa com os comes e bebes, os "negrinhos" foram descobertos para deleite do português que, armado com um pau, surrou meus dois amigos até desfalecerem. Contou com a ajuda e colaboração de alguns empregados, brancos, ávidos em fazer média com o patrão e patroa.

Chiquinho e Adão foram atirados à rua de terra, feridos e sangrando. Foi um pavor. Eu e o Léo não sabíamos o que fazer, porém uma alma caridosa que passava conduziu ambos ao Pronto Socorro. Chiquinho tinha apenas algumas escoriações, porém Adão, com fratura do crânio, estava à morte. A noite chegando e o desespero tomando conta de todos nós que rezávamos pela vida do nosso companheiro. Com ou sem presentes, nosso Natal acabara ali. Eu e o Léo, então, resolvemos apelar para a instância que restava já que os médicos garantiam que Adão não passaria das próximas horas. Final de tarde, rumamos para a igreja Matriz (Sagrada Família) e pedimos ao Papai Noel (a gente ainda acreditava Nele) que nos desse o melhor dos presentes. A vida de Adão.

Fomos para casa sem festejar a noite de Natal, uma vez que nossos pais decidiram cancelar a humilde reunião familiar em virtude do estado de saúde do Adão que, como o Chico e o Léo, era muito querido por nossos familiares. Se o nosso pedido a Papai Noel funcionou a gente nunca ficou sabendo, mas a verdade é que o "neguinho" sobreviveu, embora tivesse ficado paraplégico sem nunca mais ter voltado a andar. Viveu de acordo com seus recursos físicos, construiu família e morreu há exatos dois anos, também em uma véspera de Natal, aqui em São Bernardo. Leonardo e Chico tomaram os caminhos indicados pelo destino. Eu mantive alguma ligação com Adão e sua família ainda por alguns anos. Léo e Chico nunca mais vi.

Desde esse dia, todo final de dezembro, lembro dos três amigos e da cena pungente daquela véspera de Natal. Apesar de um tanto cético, pelo passar dos anos que petrificam o ser humano, nada me tira da cabeça e do coração que Alguém resolveu nos dar o melhor dos presentes: um milagre naquela triste e inesquecível véspera de Natal: a vida do querido Adãozinho. Quem sabe o nome tenha ajudado.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC.
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domingo, 19 de dezembro de 2010

SEXTA-FEIRA, 17 DE DEZEMBRO DE 2010
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“Bate o sino, pequenino/sino de Belém/ Já nasceu Deus menino/Para o nosso bem (...). Gostaria que esta crônica começasse tocando esta música tradicionalíssima. Mas, contento-me com os toques que neste momento soam em meu interior. Quanta saudade! Músicas sacras e próprias para a época. "Bate o Sino" é uma das músicas de natal mais conhecidas em todo o mundo. Esta letra foi escrita por James Lord Pierpont, (1822-1893), em 16 de setembro de 1857.
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Tradição? As Compras de Natal... Nozes, avelãs, amêndoas, frutas secas... Pernil, peru ou cabrito... Exagero? Sim. Mas um exagero ingênuo realizado entre as famílias em momentos de paz e até reflexão. Havia mais calor humano. Mais proximidade com o próximo. Cartões de Natal escritos e enviados pelo correio. Era gostoso recebê-los pelas mãos do carteiro ou encontrá-los na caixa apropriada. Um costume que se acaba. Enfim, a tecnologia chegou para facilitar ou esfriar o relacionamento? Com a resposta os possíveis leitores “destas mal traçadas linhas”.
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As visitas entre parentes e amigos na manhã ou tarde do Dia de Natal. Papos longos e cheios de afeto... Enfim, já vai longe tudo isso e muito mais. A ciência avançou. E a moral? A moral não seguiu no mesmo ritmo! Daí, os desacertos que a vida nos apresenta. A expectativa de vida hoje é bem maior do que cinquenta anos atrás. Um tempo ganho que poderia ser usado para aprender a amar o próximo e ser capaz de evitar o consumismo exagerado e tão selvagem nesta época do ano. Milhões de pessoas nas ruas fazendo compras. Futilidades... Empenhos que se arrependerão mais tarde, quando as prestações começarem a vencer.
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Meu tempo aqui na Terra está chegando ao fim. Como será quando eu voltar? A Humanidade terá mudado para melhor? A lógica diz que sim. Mas, como encarar todo esse modernismo? Modernizando-nos seria a resposta. E os valores de hoje? Ficarão apenas no passado, ou gravados e melhorados em nosso íntimo?Perguntas, perguntas... Só o futuro dirá. Uma colheita daquilo que cada um de nós plantar.
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Sei que os tempos atuais me chocam! Tudo se mistura! Tradições, festas religiosas e pagãs. Uma anarquia moral! Bebidas e barulhos! Embriaguês, viciados... Desrespeito total ao semelhante. Chamam a isso de "carnatal"! Uma mistura de natal com carnaval. Pode? Uma micareta nordestina que se espalha rapidamente pelo Brasil. Tudo acontece nessa festa popular, menos momentos de reflexão que a data exige ou oferece para quem quiser aproveitar. Vamos nos distanciando dos valores morais. Isso me faz lembrar a passagem bíblica onde Moisés se afastou das tribos para receber os dez mandamentos. Em sua ausência, estabeleceram-se os festins e orgias pagãs em torno de um ídolo feito de ouro.
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Jesus nasceu em uma manjedoura, rodeado de animais. Em termos simbólicos, a manjedoura revela o caráter humilde e simples daquele que seria o maior revolucionário de todos os tempos, sem que precisasse escrever uma única palavra. Os exemplos de sua simplicidade devem nortear os nossos passos nos dias que correm. De nada adianta dizermo-nos adeptos de Cristo e agirmos de modo contrário aos seus ensinamentos. Até quando vamos adorar o ídolo chamado materialismo?
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Aos meus amigos e a toda a humanidade, um Feliz Natal e um ANO NOVO com muita prosperidade espiritual.
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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui: jgarcelan@uol.com.br
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

SÁBADO, 11 DE DEZEMBRO DE 2010

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Com o objetivo é reduzir o risco de falsificação, nos casos em que cédulas de menor valor são "lavadas" em processos químicos e reimpressas com valor maior, a nova família das cédulas do real será lançada nesta segunda-feira, dia 13. Inicialmente, apenas as notas de R$ 50 e R$ 100 chegarão aos bancos. Para os demais valores, a previsão do BC é lançar as novas cédulas de R$ 10 e R$ 20 em 2011. Em 2012, será a vez das notas de R$ 2 e R$ 5.

A principal novidade da nova família de cédulas do real são os tamanhos diferentes, que variarão conforme o valor de face da nota. Mesmo com a entrada em vigor das cédulas novas, as atuais continuam em circulação e serão gradativamente retiradas do mercado, conforme o desgaste natural. A cerimônia de lançamento será na sede do Banco Central (BC), em Brasília. Além do tradicional caviar deve rolar champagne, ocasionalmente aportuguesado para champanha ou champanhe, especialmente da França, para esse evento de suma importância, acompanhado de bons vinhos e uísque escocês. Charutos cubanos ficam para o final da farra, ou melhor, festa.
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As novas cédulas do Real terão em uma das faces a efígie da República e um exemplar da fauna brasileira no verso. Os animais impressos nas cédulas continuaram os mesmos (Tartaruga de pente na de R$2,00, a garça na nota de R$5,00, a arara na de R$10,00, o mico leão-dourado na de R$20,00, a onça na nota de R$50,00 e a garoupa na nota de R$100,00). Essas espécies estão em risco de extinção. Todo o trabalho de mudança das cédulas terá um custo calculado em 1,15 bilhões de reais, convenhamos, uma nota preta saindo do bolso do povo.

Alguns amigos juram de pés juntos que o Ministro Guido Mantega, que assina as novas notas, vai ajudar muito os fabricantes de carteiras, em baixa nos últimos tempos. Isso porque, como cada nota terá um tamanho, serão necessários vários compartimentos numa carteira para abrigá-las. Como Franca é a Terra do couro, cidade que fabrica os melhores calçados do Brasil e tem a Francal, Feira do Calçado que é sucesso no Anhembi, em São Paulo, já entrei em sociedade com um amigo e, em breve, estaremos fabricando as melhores carteiras do Brasil. Claro, com divisões para cada tamanho de uma destas novas cédulas, começando pela de dois reais, a menor de todas elas.

A princípio, lançaremos carteiras em legítimo couro alemão e pelica, mas a intenção será pedir permissão ao Ibama e fabricá-las também em couro de jacaré. Carteiras de lonas ou plásticos com logotipos de clubes para camelôs venderem a 5 reais nas esquinas, nem pensar, recuso-me a fabricar tranqueiras, até porque, certos torcedores de um time de futebol costumam ter o dinheiro só para comprar a dita cuja e nenhum para recheá-la. Gostam de exibi-la, principalmente em botecos da periferia quando tomam uma cachaça.

Na verdade, vou confessar, meu sonho seria fabricar carteiras com couro de político, grosso, encardido e resistente, mas a espécie é arisca, apesar de ser facilmente encontrada em qualquer canto deste país, principalmente em Brasília, onde surgem ideias como estas, de jogar mais de um bilhão de reais pela janela para trocar cédulas e perpetuar o nome de um ministro na história.
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Estivesse Walt Disney vivo, com toda a certeza levaria o professor Pardal para Brasília, onde sua mente privilegiada ficaria a disposição dos nossos criativos políticos, sempre inventando novidades, principalmente para esvaziar os cofres públicos. Para quem não sabe ainda, a desculpa para o lançamento destas novas cédulas é que as antigas são de pouca durabilidade. Como exemplo, afirmam que a vida útil de uma nota de 2 reais é de somente 1 ano.
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Os gênios de plantão garantem que o novo tipo de impressão, cédulas envernizadas, fará com que as notas tenham uma vida útil até 30% mais longas. E porque não pensaram nisto antes? Não seria preciso jogar agora mais de um bilhão de reais pela janela. Esse é o nosso Brasil e quem tem juízo cala-se e aplaude, do contrário é chamado de “zelite” pelo nosso presidente, que já colocou seus “Armanis” nas malas e prepara-se para uma longa temporada na agricultura, cultivando cana.
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*Edward de Souza é jornalista e radialista
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

QUINTA-FEIRA, 9 DE DEZEMBRO DE 2010


Nunca, em tempo algum, o sistema de saúde brasileiro esteve tão debilitado como agora. Os recentes casos, mostrados ao mundo via Imprensa, chocam, revoltam e desacreditam as instituições e as pessoas ligadas ao setor. É verdade que a ciência médica tem evoluído nos últimos anos. Também não é falso que novas doenças surgem e a medicina engatinha no encontro de tratamentos que possam curar ou radicar de vez males modernos, mas não se pode negar que erros clínicos vêm aumentando cada vez mais, causando uma grande preocupação em toda a sociedade.

O caso mais recente da incúria médica e que abala a opinião, menos ou mais esclarecida, é o da menina Stephanie dos Santos Teixeira (foto), (12 anos), aqui de São Paulo, vítima fatal da inabilidade de uma atendente de enfermagem, que inadvertidamente, trocou um frasco de soro por outro de vaselina líquida. A desatenção ou inabilidade da funcionária foi fatal para a garota, sua família e, não fosse este país, o Brasil, poderia ser irreversível aos causadores do trágico engano. A menina Stephanie iria completar 13 anos em janeiro e tinha duas irmãs.
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Stephanie chegou ao hospital apresentando vômito e diarréia. Na ala de pediatria infantil, a paciente foi medicada na veia com 50 ml de vaselina, que após oito horas de aplicação causou sua morte. A menina começou a passar mal na terceira bolsa da substância aplicada. Especialistas em toxicologia dizem que a vaselina líquida não se mistura no sangue. No corpo humano, causa obstrução ou entupimento de várias veias e artérias. Levando-se em conta que a negligência ocorreu no hospital São Luiz Gonzaga (foto), no Jaçanã, zona norte, tradicional estabelecimento de saúde, terceirizado para a Santa Casa de São Paulo, a maior cidade brasileira e uma das mais pujantes do planeta, a repercussão foi imediata. O caso mobilizou vários setores nacionais, especialmente a mídia festiva, ávida em assuntos dessa natureza. A área de Saúde Pública da Promotoria de Direitos Humanos da capital instaurou um inquérito civil para apurar denúncias de mau atendimento e de falta de funcionários.

O caso da menina também não é o único a ser questionado. Desde 2003, pelo menos 10 famílias acusaram o hospital de erros médicos às autoridades policiais. Todos sem morte. O despreparo que atinge grande parte do pessoal que trabalha ou presta serviços em hospitais, públicos ou privados, salta aos olhos e, invariavelmente, provoca mortes e desestruturação de famílias. Nesta quarta-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad (foto), admitiu que as instituições que preparam enfermeiras e atendentes hospitalares necessitam urgente de reciclagem.

Decisão tardia para muitos pacientes, que sucumbiram diante da inabilidade de quem deveria estar preparado para cuidar e salvar vidas. Já o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, arranca os cabelos tentando encontrar solução mais eficiente no atendimento e tratamento ao paciente. Os problemas são muitos, deste o atendimento adequado, o tempo de marcação de consultas, as instalações hospitalares e, principalmente, a competência e sensibilidade humana. Por ter em suas mãos o futuro do paciente, boa parte da classe médica desdenha sua função por entender ser superior ao cidadão que está na maca ou mesa de operação.

Faz dois anos que sou visita frequente de hospitais, UBS, Pronto Socorro, clínicas e centros de saúde, públicos e particulares, alguns de referência nacional. Não foi necessário muito esforço para detectar a ineficiência das instituições médicas brasileiras. Tenho observado, in loco, as instalações hospitalares menos dignas do que pocilgas, médicos (as) absortos enquanto atendem pacientes, enfermeiros (as) em bate papo de “candinhas de cortiço” enquanto aplicam curativos, atendentes que encaram o doente como se este fosse o monstro do lago Ness, além de truculentos seguranças, que se julgam "otoridades" hospitalares. Isso, em casas de saúde aqui no ABC, composto por cidades tidas como pujantes, ricas e atualizadas. Imaginemos, pois, o que acontece em regiões mais afastadas e menos aquinhoadas de progresso.

O caso de Stephanie dos Santos, ocorrido na capital paulista, de imediato chamou a atenção da Imprensa e, por consequência, do Brasil. Ministros, governadores, deputados, prefeitos e vereadores deitam falação via Embratel, exigindo providências imediatas, sem atinar, por dolo ou conveniência, que a solução está dormitando em suas mãos e cabeças. Um despropósito com a chancela tupiniquim. Stephanie foi apenas mais uma vítima da incúria nacional em relação à saúde. Certamente nos fundões do Estado de São Paulo, nos rincões das fronteiras brasileiras e nas caatingas do sertão, acima e abaixo da linha do equador, muitas tantas “Stephanies” estão sepultas em virtude da banalização do sistema de saúde e da insensibilidade de grande parte de uma classe, cuja função, após juramento solene, é salvar vidas humanas. Nesta sublime missão, data vênia, a Providência Divina caminha sozinha.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista e radialista, radicado no Grande ABC.
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O RESUMO COM O ÚLTIMO CAPÍTULO DA SÉRIE HISTÓRIAS DE ADHEMAR, ESCRITO PELO JORNALISTA CARLOS LARANJEIRA, SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA.
PROBLEMAS IMPEDIRAM SUA POSTAGEM HOJE.
PEDIMOS DESCULPAS.
EDWARD DE SOUZA


Foi uma festa midiática a tomada do Complexo do Alemão que rendeu espaço do Al-Jazira a Gazeta de Restinga, sempre mostrando que o mocinho vence o bandido. Uma ação para limpar o nome do Rio de Janeiro prestes a sediar uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos e muito necessitado de propaganda positiva. Há muito tempo que a televisão brasileira não se deliciava com uma semana da mais pura ação com bandidos temíveis, policiais heróicos e os inefáveis especialistas em segurança opinando sobre tudo e todos. Tomamos Monte Castelo pela segunda vez.


Na semana passada li um artigo contundente assinado pelo jornalista Sylvio Guedes, editor-chefe do Jornal de Brasília, criticando o “cinismo” dos jornalistas, artistas e intelectuais ao defenderem o fim do poder paralelo dos chefes do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Guedes desafia a todos que se drogaram nas últimas décadas que venham a público assumir: “eu ajudei a destruir o Rio de Janeiro". O jornalista pega pesado, quando escreve que... “Quando a cocaína começou a se infiltrar de fato no Rio de Janeiro, lá pelo fim da década de 70, entrou pela porta da frente. Pela classe média, pelas festinhas de embalo da Zona Sul, pelas danceterias, pelos barzinhos de Ipanema e Leblon. Invadiu e se instalou nas redações de jornais e nas emissoras de TV, sob o silêncio comprometedor de suas chefias e diretorias. Quanto mais glamuroso o ambiente, quanto mais supostamente intelectualizado o grupo, mais você podia encontrar gente cheirando carreiras e carreiras do pó branco. Em uma espúria relação de cumplicidade, imprensa e classe artística (que tanto se orgulham de serem, ambas, formadoras de opinião) de fato contribuíram enormemente para que o consumo das drogas, em especial da cocaína, se disseminasse no seio da sociedade carioca - e brasileira, por extensão. Achavam o máximo; era, como se costumava dizer, um barato. Festa sem cocaína era festa careta”.

Sylvio Guedes foi além: “as pessoas curtiam a comodidade proporcionada pelos "gentís" fornecedores que entregavam a droga em casa, sem a necessidade de inconvenientes viagens ao decaído mundo dos morros, vizinhos aos edifícios ricos do asfalto. Nem é preciso detalhar como essa simples relação econômica de mercado terminou. Onde há demanda, deve haver a necessária oferta. E assim, com tanta gente endinheirada disposta a cheirar ou injetar sua dose diária de cocaína, os pés-de-chinelo das favelas viraram barões das drogas”.
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Pela minha experiência acumulada em mais de 30 anos como repórter de polícia, o editor-chefe do Jornal de Brasília está correto. O narcotráfico tem três vertentes. O produtor, o distribuidor e o consumidor. No Rio, a polícia conseguiu desmontar um desses pilares, ferindo gravemente o setor de distribuição com a tomada do Complexo do Alemão, mas os outros dois vetores continuam firmes e ilesos, prontos para continuar sua caminhada. Os fabricantes de Bolívia e Colômbia não vão querer parar esse lucrativo e fácil comércio carioca e, os viciados, esses esperam com maior ansiedade que a briga esfrie para que eles possam, outra vez, desfrutar seu veneno em paz e a preços mais módicos.
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São poucas as providências que o Brasil pode tomar para, quem sabe, deter a fabricação e importação das drogas. Vigiar melhor suas fronteiras, que são enormes, tentar contar com o apoio dos governos dos países onde a droga é plantada e a pasta base produzida, e solicitar a ajuda de organismos internacionais com um serviço de inteligência maior e mais bem montado. No âmbito interno, a saída seria criminalizar igualmente o consumo que trata o dependente - talvez a ponta mais importante desse triângulo, pois é quem financia - como uma vítima e não um contraventor.
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Tudo bem que o drogado precisa de apoio, mas esse apoio deve vir de forma mais contundente, com o Estado voluntariamente internando ou não os viciados em clínicas de recuperação, para ver se detém com isso o fluxo de financiamento que é a base do narcotráfico. Prender e soltar é realimentar uma máquina que não para, pois a primeira providência do dependente é procurar o traficante na esquina mais próxima e voltar a se drogar. Pode-se questionar que esse tratamento forçado não seria eficaz, mas a sociedade não pode mais passar a mão na cabeça de um viciado apenas porque ele resolveu nadar contra a Lei.
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Há muito ainda para ser feito e ninguém pense que as drogas vão desaparecer do Rio por mágica, até porque o proibido, o raro, exerce ainda mais fascinação sobre quem consome. Sempre haverá um viciado, e para ele, haverá um traficante. Romper esse triângulo maldito que reúne produtor, vendedor e consumidor é a única forma possível para acabar definitivamente com o reino de terror dos narcotraficantes.
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*Edward de Souza é jornalista e radialista
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VELHAS HISTÓRIAS DO RÁDIO ESPORTIVO

DOMINGO, 5 DE DEZEMBRO DE 2010


A decisão do Campeonato Brasileiro de 1987, em dois jogos, ficou entre Flamengo e Internacional. Cariocas e gaúchos estavam afinados para as partidas, sendo que a primeira seria, e foi, no Estádio Gigante da Beira-Rio, em Porto Alegre. Para lá se deslocou a equipe de esportes da Rádio Diário do Grande ABC, desta vez com o narrador Rolando Marques, o repórter Sidney Lima e eu, comentarista. A viagem de Cumbica (São Paulo) ao Salgado Filho (Porto Alegre), com uma paradinha no Afonso Pena (Curitiba) transcorreu sem problemas e no prazo previsto. De táxi, rumamos para o estádio. O entorno do Beira-Rio parecia um cupinzeiro, com gente por todos os lados, e claro, cambistas e vendedores de tudo que é tranqueira e vários tipos de comida e bebida. A especialidade do gaúcho, todos sabem, além do indefectível chimarrão é o churrasco, e eles capricham, inclusive no especial de gato, oferecido aos berros para os torcedores.


Com a parafernália necessária para uma transmissão externa, inclusive 100 metros de fios, entramos no estádio, não sem antes apresentar as nossas credenciais umas 10 vezes para fiscais do Inter, da Federação Gaúcha, da CBF e de mais um punhado de entidades. Por isso a gente nunca entendeu como entram tantos penetras, em campo e nas cabines. Mas deixa pra lá. Perguntei a um funcionário do estádio onde ficavam as cabines e, lógico, a da Rádio Diário. Educadamente o gaúcho alertou: "Olha, as cabines estão reservadas para rádios de Porto Alegre, Rio de Janeiro e as grandes de São Paulo". Traduzindo: as emissoras do Interior do Rio Grande do Sul e outras tantas que não fossem as citadas - inclusive do Rio e São Paulo - não ficariam em cabines. Escolado e prevendo complicações, disse ao funcionário: "Bem e a gente vai ficar onde?". Apontando para o campo, o rapaz respondeu: “Lá embaixo, na pista de atletismo". Descemos por escadas, uns três lances com todos os apetrechos.

Na pista, ao lado do gramado, foram colocadas mesinhas, aquelas do tipo "bater um dominozinho" de botecos de periferia. Eu resmungando (não sei que diabos estou fazendo aqui), fui acalmado pelo paciente e sempre tranquilo Rolando Marques (foto): "Calma Lavrado, segura as pontas com classe". Não contei, mas havia seguramente umas 40 mesinhas (com duas cadeiras) em fila indiana na pista e um punhado de cronistas esportivos do Brasil todo. Do nosso lado direito, uma rádio de São José do Rio Preto/SP e do esquerdo outra de São Bento do Sul/SC.

O Sidney Lima (foto), seguia esticando o pesado fio sem saber exatamente pra que serviria, pois se estávamos ao lado do gramado as entrevistas poderiam ser feitas por mim, pelo Rolando ou pelo próprio Ney, mas tudo bem. Outra grande preocupação, talvez a maior, era com o tempo. Um cara que irrigava a grama falou que talvez não chovesse, porém com o calor que fazia não era necessário ser gaúcho para prever que mais à tarde a chuva viria assistir o jogo. E não deu outra. Pouco mais de 5 ou 10 minutos do segundo tempo, pintou um aguaceiro de fazer inveja aos caronas da Arca de Noé. Os plásticos que arranjamos serviam apenas para cobrir os equipamentos eletrônicos de transmissão. A maioria dos colegas, que estava na mesma situação, não portava qualquer tipo de cobertura e, como não poderia ser diferente, saíram do ar, para desespero deles. Não haviam inventado, ainda, um casamento entre água e equipamentos eletrônicos e o contato entre ambos era desastroso.

Concluímos o nosso trabalho super molhados, mas sem outras pendengas, pois esta não era a nossa primeira transmissão com transtornos, nem seria a última. Não entrevistamos ninguém e, rapidinho, rumamos, de táxi, para o aeroporto. Já era noite, o que serviu para aliviar o constrangimento de estar com a roupa absolutamente ensopada e com o ”Salgado Filho” lotada de gente bem vestida. No mesmo avião, ao nosso lado, o então árbitro José Roberto Wright (foto), que foi assistir ao jogo e viria a São Paulo tratar de assuntos particulares. No papo, ele nos perguntou com aquela voz rouca que o identifica nas transmissões da TV Globo: "como foi que vocês se molharam"? Resposta desnecessária.

Flamengo e Inter empataram em 1 a 1, e haveria o jogo de volta no domingo seguinte no Maracanã, mas essa é uma história, não menos atribulada, para outro artigo neste blog. No Brasil existem apenas rádios grandes e pequenas e a Diário, embora muito respeitada aqui em São Paulo, sempre foi considerada pequena, porque sua sede não é na Capital, mas no Grande ABC, daí a discriminação e as consequentes dificuldades, como ocorre com todas do mesmo porte que não estão localizadas nas grandes metrópolis.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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