sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

QUINTA-FEIRA, 9 DE DEZEMBRO DE 2010


Nunca, em tempo algum, o sistema de saúde brasileiro esteve tão debilitado como agora. Os recentes casos, mostrados ao mundo via Imprensa, chocam, revoltam e desacreditam as instituições e as pessoas ligadas ao setor. É verdade que a ciência médica tem evoluído nos últimos anos. Também não é falso que novas doenças surgem e a medicina engatinha no encontro de tratamentos que possam curar ou radicar de vez males modernos, mas não se pode negar que erros clínicos vêm aumentando cada vez mais, causando uma grande preocupação em toda a sociedade.

O caso mais recente da incúria médica e que abala a opinião, menos ou mais esclarecida, é o da menina Stephanie dos Santos Teixeira (foto), (12 anos), aqui de São Paulo, vítima fatal da inabilidade de uma atendente de enfermagem, que inadvertidamente, trocou um frasco de soro por outro de vaselina líquida. A desatenção ou inabilidade da funcionária foi fatal para a garota, sua família e, não fosse este país, o Brasil, poderia ser irreversível aos causadores do trágico engano. A menina Stephanie iria completar 13 anos em janeiro e tinha duas irmãs.
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Stephanie chegou ao hospital apresentando vômito e diarréia. Na ala de pediatria infantil, a paciente foi medicada na veia com 50 ml de vaselina, que após oito horas de aplicação causou sua morte. A menina começou a passar mal na terceira bolsa da substância aplicada. Especialistas em toxicologia dizem que a vaselina líquida não se mistura no sangue. No corpo humano, causa obstrução ou entupimento de várias veias e artérias. Levando-se em conta que a negligência ocorreu no hospital São Luiz Gonzaga (foto), no Jaçanã, zona norte, tradicional estabelecimento de saúde, terceirizado para a Santa Casa de São Paulo, a maior cidade brasileira e uma das mais pujantes do planeta, a repercussão foi imediata. O caso mobilizou vários setores nacionais, especialmente a mídia festiva, ávida em assuntos dessa natureza. A área de Saúde Pública da Promotoria de Direitos Humanos da capital instaurou um inquérito civil para apurar denúncias de mau atendimento e de falta de funcionários.

O caso da menina também não é o único a ser questionado. Desde 2003, pelo menos 10 famílias acusaram o hospital de erros médicos às autoridades policiais. Todos sem morte. O despreparo que atinge grande parte do pessoal que trabalha ou presta serviços em hospitais, públicos ou privados, salta aos olhos e, invariavelmente, provoca mortes e desestruturação de famílias. Nesta quarta-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad (foto), admitiu que as instituições que preparam enfermeiras e atendentes hospitalares necessitam urgente de reciclagem.

Decisão tardia para muitos pacientes, que sucumbiram diante da inabilidade de quem deveria estar preparado para cuidar e salvar vidas. Já o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, arranca os cabelos tentando encontrar solução mais eficiente no atendimento e tratamento ao paciente. Os problemas são muitos, deste o atendimento adequado, o tempo de marcação de consultas, as instalações hospitalares e, principalmente, a competência e sensibilidade humana. Por ter em suas mãos o futuro do paciente, boa parte da classe médica desdenha sua função por entender ser superior ao cidadão que está na maca ou mesa de operação.

Faz dois anos que sou visita frequente de hospitais, UBS, Pronto Socorro, clínicas e centros de saúde, públicos e particulares, alguns de referência nacional. Não foi necessário muito esforço para detectar a ineficiência das instituições médicas brasileiras. Tenho observado, in loco, as instalações hospitalares menos dignas do que pocilgas, médicos (as) absortos enquanto atendem pacientes, enfermeiros (as) em bate papo de “candinhas de cortiço” enquanto aplicam curativos, atendentes que encaram o doente como se este fosse o monstro do lago Ness, além de truculentos seguranças, que se julgam "otoridades" hospitalares. Isso, em casas de saúde aqui no ABC, composto por cidades tidas como pujantes, ricas e atualizadas. Imaginemos, pois, o que acontece em regiões mais afastadas e menos aquinhoadas de progresso.

O caso de Stephanie dos Santos, ocorrido na capital paulista, de imediato chamou a atenção da Imprensa e, por consequência, do Brasil. Ministros, governadores, deputados, prefeitos e vereadores deitam falação via Embratel, exigindo providências imediatas, sem atinar, por dolo ou conveniência, que a solução está dormitando em suas mãos e cabeças. Um despropósito com a chancela tupiniquim. Stephanie foi apenas mais uma vítima da incúria nacional em relação à saúde. Certamente nos fundões do Estado de São Paulo, nos rincões das fronteiras brasileiras e nas caatingas do sertão, acima e abaixo da linha do equador, muitas tantas “Stephanies” estão sepultas em virtude da banalização do sistema de saúde e da insensibilidade de grande parte de uma classe, cuja função, após juramento solene, é salvar vidas humanas. Nesta sublime missão, data vênia, a Providência Divina caminha sozinha.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista e radialista, radicado no Grande ABC.
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O RESUMO COM O ÚLTIMO CAPÍTULO DA SÉRIE HISTÓRIAS DE ADHEMAR, ESCRITO PELO JORNALISTA CARLOS LARANJEIRA, SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA.
PROBLEMAS IMPEDIRAM SUA POSTAGEM HOJE.
PEDIMOS DESCULPAS.
EDWARD DE SOUZA


Foi uma festa midiática a tomada do Complexo do Alemão que rendeu espaço do Al-Jazira a Gazeta de Restinga, sempre mostrando que o mocinho vence o bandido. Uma ação para limpar o nome do Rio de Janeiro prestes a sediar uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos e muito necessitado de propaganda positiva. Há muito tempo que a televisão brasileira não se deliciava com uma semana da mais pura ação com bandidos temíveis, policiais heróicos e os inefáveis especialistas em segurança opinando sobre tudo e todos. Tomamos Monte Castelo pela segunda vez.


Na semana passada li um artigo contundente assinado pelo jornalista Sylvio Guedes, editor-chefe do Jornal de Brasília, criticando o “cinismo” dos jornalistas, artistas e intelectuais ao defenderem o fim do poder paralelo dos chefes do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Guedes desafia a todos que se drogaram nas últimas décadas que venham a público assumir: “eu ajudei a destruir o Rio de Janeiro". O jornalista pega pesado, quando escreve que... “Quando a cocaína começou a se infiltrar de fato no Rio de Janeiro, lá pelo fim da década de 70, entrou pela porta da frente. Pela classe média, pelas festinhas de embalo da Zona Sul, pelas danceterias, pelos barzinhos de Ipanema e Leblon. Invadiu e se instalou nas redações de jornais e nas emissoras de TV, sob o silêncio comprometedor de suas chefias e diretorias. Quanto mais glamuroso o ambiente, quanto mais supostamente intelectualizado o grupo, mais você podia encontrar gente cheirando carreiras e carreiras do pó branco. Em uma espúria relação de cumplicidade, imprensa e classe artística (que tanto se orgulham de serem, ambas, formadoras de opinião) de fato contribuíram enormemente para que o consumo das drogas, em especial da cocaína, se disseminasse no seio da sociedade carioca - e brasileira, por extensão. Achavam o máximo; era, como se costumava dizer, um barato. Festa sem cocaína era festa careta”.

Sylvio Guedes foi além: “as pessoas curtiam a comodidade proporcionada pelos "gentís" fornecedores que entregavam a droga em casa, sem a necessidade de inconvenientes viagens ao decaído mundo dos morros, vizinhos aos edifícios ricos do asfalto. Nem é preciso detalhar como essa simples relação econômica de mercado terminou. Onde há demanda, deve haver a necessária oferta. E assim, com tanta gente endinheirada disposta a cheirar ou injetar sua dose diária de cocaína, os pés-de-chinelo das favelas viraram barões das drogas”.
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Pela minha experiência acumulada em mais de 30 anos como repórter de polícia, o editor-chefe do Jornal de Brasília está correto. O narcotráfico tem três vertentes. O produtor, o distribuidor e o consumidor. No Rio, a polícia conseguiu desmontar um desses pilares, ferindo gravemente o setor de distribuição com a tomada do Complexo do Alemão, mas os outros dois vetores continuam firmes e ilesos, prontos para continuar sua caminhada. Os fabricantes de Bolívia e Colômbia não vão querer parar esse lucrativo e fácil comércio carioca e, os viciados, esses esperam com maior ansiedade que a briga esfrie para que eles possam, outra vez, desfrutar seu veneno em paz e a preços mais módicos.
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São poucas as providências que o Brasil pode tomar para, quem sabe, deter a fabricação e importação das drogas. Vigiar melhor suas fronteiras, que são enormes, tentar contar com o apoio dos governos dos países onde a droga é plantada e a pasta base produzida, e solicitar a ajuda de organismos internacionais com um serviço de inteligência maior e mais bem montado. No âmbito interno, a saída seria criminalizar igualmente o consumo que trata o dependente - talvez a ponta mais importante desse triângulo, pois é quem financia - como uma vítima e não um contraventor.
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Tudo bem que o drogado precisa de apoio, mas esse apoio deve vir de forma mais contundente, com o Estado voluntariamente internando ou não os viciados em clínicas de recuperação, para ver se detém com isso o fluxo de financiamento que é a base do narcotráfico. Prender e soltar é realimentar uma máquina que não para, pois a primeira providência do dependente é procurar o traficante na esquina mais próxima e voltar a se drogar. Pode-se questionar que esse tratamento forçado não seria eficaz, mas a sociedade não pode mais passar a mão na cabeça de um viciado apenas porque ele resolveu nadar contra a Lei.
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Há muito ainda para ser feito e ninguém pense que as drogas vão desaparecer do Rio por mágica, até porque o proibido, o raro, exerce ainda mais fascinação sobre quem consome. Sempre haverá um viciado, e para ele, haverá um traficante. Romper esse triângulo maldito que reúne produtor, vendedor e consumidor é a única forma possível para acabar definitivamente com o reino de terror dos narcotraficantes.
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*Edward de Souza é jornalista e radialista
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VELHAS HISTÓRIAS DO RÁDIO ESPORTIVO

DOMINGO, 5 DE DEZEMBRO DE 2010


A decisão do Campeonato Brasileiro de 1987, em dois jogos, ficou entre Flamengo e Internacional. Cariocas e gaúchos estavam afinados para as partidas, sendo que a primeira seria, e foi, no Estádio Gigante da Beira-Rio, em Porto Alegre. Para lá se deslocou a equipe de esportes da Rádio Diário do Grande ABC, desta vez com o narrador Rolando Marques, o repórter Sidney Lima e eu, comentarista. A viagem de Cumbica (São Paulo) ao Salgado Filho (Porto Alegre), com uma paradinha no Afonso Pena (Curitiba) transcorreu sem problemas e no prazo previsto. De táxi, rumamos para o estádio. O entorno do Beira-Rio parecia um cupinzeiro, com gente por todos os lados, e claro, cambistas e vendedores de tudo que é tranqueira e vários tipos de comida e bebida. A especialidade do gaúcho, todos sabem, além do indefectível chimarrão é o churrasco, e eles capricham, inclusive no especial de gato, oferecido aos berros para os torcedores.


Com a parafernália necessária para uma transmissão externa, inclusive 100 metros de fios, entramos no estádio, não sem antes apresentar as nossas credenciais umas 10 vezes para fiscais do Inter, da Federação Gaúcha, da CBF e de mais um punhado de entidades. Por isso a gente nunca entendeu como entram tantos penetras, em campo e nas cabines. Mas deixa pra lá. Perguntei a um funcionário do estádio onde ficavam as cabines e, lógico, a da Rádio Diário. Educadamente o gaúcho alertou: "Olha, as cabines estão reservadas para rádios de Porto Alegre, Rio de Janeiro e as grandes de São Paulo". Traduzindo: as emissoras do Interior do Rio Grande do Sul e outras tantas que não fossem as citadas - inclusive do Rio e São Paulo - não ficariam em cabines. Escolado e prevendo complicações, disse ao funcionário: "Bem e a gente vai ficar onde?". Apontando para o campo, o rapaz respondeu: “Lá embaixo, na pista de atletismo". Descemos por escadas, uns três lances com todos os apetrechos.

Na pista, ao lado do gramado, foram colocadas mesinhas, aquelas do tipo "bater um dominozinho" de botecos de periferia. Eu resmungando (não sei que diabos estou fazendo aqui), fui acalmado pelo paciente e sempre tranquilo Rolando Marques (foto): "Calma Lavrado, segura as pontas com classe". Não contei, mas havia seguramente umas 40 mesinhas (com duas cadeiras) em fila indiana na pista e um punhado de cronistas esportivos do Brasil todo. Do nosso lado direito, uma rádio de São José do Rio Preto/SP e do esquerdo outra de São Bento do Sul/SC.

O Sidney Lima (foto), seguia esticando o pesado fio sem saber exatamente pra que serviria, pois se estávamos ao lado do gramado as entrevistas poderiam ser feitas por mim, pelo Rolando ou pelo próprio Ney, mas tudo bem. Outra grande preocupação, talvez a maior, era com o tempo. Um cara que irrigava a grama falou que talvez não chovesse, porém com o calor que fazia não era necessário ser gaúcho para prever que mais à tarde a chuva viria assistir o jogo. E não deu outra. Pouco mais de 5 ou 10 minutos do segundo tempo, pintou um aguaceiro de fazer inveja aos caronas da Arca de Noé. Os plásticos que arranjamos serviam apenas para cobrir os equipamentos eletrônicos de transmissão. A maioria dos colegas, que estava na mesma situação, não portava qualquer tipo de cobertura e, como não poderia ser diferente, saíram do ar, para desespero deles. Não haviam inventado, ainda, um casamento entre água e equipamentos eletrônicos e o contato entre ambos era desastroso.

Concluímos o nosso trabalho super molhados, mas sem outras pendengas, pois esta não era a nossa primeira transmissão com transtornos, nem seria a última. Não entrevistamos ninguém e, rapidinho, rumamos, de táxi, para o aeroporto. Já era noite, o que serviu para aliviar o constrangimento de estar com a roupa absolutamente ensopada e com o ”Salgado Filho” lotada de gente bem vestida. No mesmo avião, ao nosso lado, o então árbitro José Roberto Wright (foto), que foi assistir ao jogo e viria a São Paulo tratar de assuntos particulares. No papo, ele nos perguntou com aquela voz rouca que o identifica nas transmissões da TV Globo: "como foi que vocês se molharam"? Resposta desnecessária.

Flamengo e Inter empataram em 1 a 1, e haveria o jogo de volta no domingo seguinte no Maracanã, mas essa é uma história, não menos atribulada, para outro artigo neste blog. No Brasil existem apenas rádios grandes e pequenas e a Diário, embora muito respeitada aqui em São Paulo, sempre foi considerada pequena, porque sua sede não é na Capital, mas no Grande ABC, daí a discriminação e as consequentes dificuldades, como ocorre com todas do mesmo porte que não estão localizadas nas grandes metrópolis.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

As armas (duas metralhadoras e bazucas, além de granadas) que haviam sido encontradas no jornal são enfatizadas no inquérito instaurado pela secretária da Segurança Pública e a família proprietária de O Estado de S. Paulo não apresenta formalmente nenhuma contestação, só Júlio de Mesquita chama Adhemar de “um fantoche a serviço de Vargas.”

“As armas não teriam sido depositadas na sede de O Estado por pessoas interessadas em calar o único jornal que luta para romper a censura à imprensa?” pergunta-se nas ruas. O Interventor Federal nem dá ouvidos. O inquérito o convence que se trata de um complô para derrubar Vargas e, além de Júlio de Mesquita Filho e Paulo Duarte (foto), ele manda prender 41 pessoas, inclusive o jurista Francisco Morato, colaborador de O Estado de S. Paulo e, até então, o único brasileiro com o título de professor emérito da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e homem de uma oratória instigante. Ao ser preso, Morato organizava as celebrações do centenário de nascimento do conselheiro Antônio Prado, fundador do Partido Democrático, o qual havia sustentado a candidatura presidencial do ex-governador Armando de Salles Oliveira. No entendimento do Interventor, essas comemorações seriam utilizadas como um pretexto para os seus organizadores promoverem manifestações de rua contra o Estado Novo, inclusive com o uso de armas.

Concluído o inquérito, o governo federal confisca as ações da empresa jornalística O Estado de S. Paulo por 20 mil contos de réis, mas a família Mesquita recusa-se a receber sua parte, preferindo manter o direito de um dia recomprar as ações confiscadas e tê-las de volta. O jornal havia sido fundado em 1875 por um grupo liderado por Américo Brasiliense e Campos Salles, com o nome de Província de S. Paulo e desse grupo Júlio de Mesquita, representante da elite agrária paulista, o patriarca da família, comprou a maioria das ações, alcançou a direção e nela permaneceria, exceto numa rápida passagem de Rangel Pestana.
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Boa parte dos paulistas não se conforma com o fato de o jornal ter sido retirado à força por Getúlio Vargas e esse inconformismo deixa-o em situação incômoda. Então, por intermédio do chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), Lourival Fontes (foto), tenta repassar as ações à Associação Paulista de Imprensa, que rejeita a oferta. Lourival sugere ao governo transferir as ações aos funcionários do próprio jornal para eles o gerenciarem por meio de cooperativa, mas Vargas não aceita a proposta e, a despeito das pressões do povo paulista, decide continuar a tocar o Estadão, como o jornal passaria a ser conhecido.

Em consequência dessas notícias e de que no relatório final do inquérito do delegado Hugo Auler, enviado ao Tribunal de Segurança Nacional, é citado como um dos incentivadores do plano contra o Estado Novo, Armando de Salles Oliveira vê a saúde declinar no exílio. Ele dá conferências nos Estados Unidos, mas a vontade de retornar ao Brasil não o abandona, então para ficar mais próximo do país de origem decide transferir-se para a Argentina, mas o ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha (foto), dificulta na diplomacia americana o endosso no passaporte para ele deixar o país e, assim, Armando fica mais indignado e deprimido.
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A doença do ex-governador chega ao conhecimento de Adhemar de Barros, este chama ao seu gabinete o poeta Cassiano Ricardo, funcionário público estadual lotado na Secretaria de Governo, figura de proa do movimento modernista de 1922 e escritor consagrado, por quem o Interventor tem especial admiração. Adhemar pede-lhe para escrever uma carta a Getúlio Vargas, na qual, em nome da pacificação do estado, sugere o retorno de Armando de Salles Oliveira ao país e a sua presença na vida pública, sem retaliações. Cassiano redige então um documento que seria apontado como um dos melhores já escritos na política brasileira, mas Adhemar, precavido por não saber qual será a reação de Vargas, não o divulga.

Ao receber a carta e lê-la, o ditador considera o pedido de perdão típico de um homem ingênuo, que não sabe tratar inimigo como inimigo. Então, de uma hora para outra, Adhemar torna-se alvo de uma forte campanha iniciada por Epitácio Pessoa Cavalcanti, o Epitacinho, (foto), amigo pessoal de Getúlio e por Coriolano Góes, ex-secretário da Fazenda do Interventor. Eles preparam um dossiê entregue a Vargas no qual alegam ser a administração paulista perdulária, de ter ligações com integralistas, que teriam informado ao Interventor as reuniões secretas na sede de O Estado de S. Paulo. Ainda lembram os discursos antigetulistas que Adhemar pronunciava na Assembléia Legislativa como deputado estadual.
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No Rio, Getúlio Vargas havia esmagado a “revolução verde”, liderada por um outro paulista, Plínio Salgado (foto), chefe dos integralistas, também preso e enviado ao exílio em Portugal. Plínio havia sido enganado: Getúlio lhe prometeu o Ministério da Educação se contasse com o apoio dos integralistas para derrotar os comunistas. Teve esse apoio e não cumpriu a promessa, então os “camisas verde”, como os integralistas eram chamados, realizaram um movimento armado contra a ditadura, que os dominou. No Ministério da Educação, sonho de Salgado para infundir na juventude a sua doutrina, continuou o político mineiro Gustavo Capanema, assessorado por um outro mineiro, o poeta Carlos Drummond de Andrade.
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Mas, nesse ano, não era Drummond quem brilhava no mundo das letras e sim a poetisa, professora e jornalista Cecília Meirelles (foto), autora de artigos incisivos contra a ditadura Vargas, no Diário de Notícias: “Educação, para mim, é botar, dentro do indivíduo, uma estrutura de sentimentos, um esqueleto emocional,” escrevia a jornalista e poeta, que possuía um rosto afável, mas um gênio de revolucionária. A ela recorre um jovem com o desejo de se introduzir nos mistérios da arte da palavra escrita e falada, para vingar o pai que havia sido preso e humilhado sucessivas vezes pelo ex-presidente Wenceslau Braz e por Getúlio. Nome: Carlos Lacerda. Assim como o pai, jornalista Maurício de Lacerda, Carlos havia comungado do ideal comunista, o qual renegou ao descobrir que se tratava de “uma ditadura mais organizada que a de Vargas.”
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Carlos Lacerda (foto), aproxima-se dos opositores de Vargas, inclusive das famílias Mangabeira (João e Otávio) e Mesquita (Júlio de Mesquita Filho e Júlio de Mesquita Neto) e começa a articular a cisão das forças armadas. Ele entende que a queda de Getúlio passa por um processo de desunião da Marinha, Exército e Aeronáutica e com este pensamento conquistaria à sua causa a simpatia de oficiais graduados como o general Juraci Magalhães e o Brigadeiro Eduardo Gomes, que o ajudariam a costurar amplo acordo nacional e formalizar a criação da UDN (União Democrática Nacional).
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Getúlio Vargas (foto), demite da Interventoria Federal em São Paulo Adhemar de Barros, de quem passou a desconfiar com o pedido de perdão para Armando de Salles Oliveira. Então Carlos Lacerda, que se transformaria em gênio da oratória política e jornalista panfletário e combativo, encontraria campo fértil para espalhar a idéia de que movimentos de rebeldia isolados não adiantavam e só uma união nacional possuiria as característica para derrubar o ditador. Ele seria preso mais vezes do que o pai, e a cada prisão cresce o sentimento de ódio à ditadura e não o faria desistir da ação de aplicar quantos golpes fossem necessários à queda de Getúlio Vargas.
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CARLOS LARANJEIRA
começou no Jornal da Bahia, Salvador, no ano de 1968, época em que Glauber Rocha era o editor do Suplemento Cultural no qual escreviam João Ubaldo Ribeiro, Caetano Veloso, Tom Zé, Tuzé de Abreu, Capinam e outros menos conhecidos no Sudeste, a exemplo de Florisvaldo Matos, um dos poetas mais consagrados do estado, hoje editor-chefe do jornal A Tarde. Na Bahia, trabalhou também na Rádio Cruzeiro e na Semana Católica, criada por Dom Eugênio Salles, Arcebispo de Salvador e Cardeal Primaz do Brasil. Diretor do POLÍTIKA DO ABC e do JORNAL DO LIVRO, o jornalista é autor de vários livros, o mais recente, POLÍTICA PARA PRINCIPIANTE.
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Na próxima quarta-feira o quinto capítulo da série “Histórias de Adhemar”, escrita por Carlos Laranjeira com exclusividade para este blog. (Edward de Souza).
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

As transmissões esportivas de rádio invariavelmente reservam emoções diferenciadas para quem ouve e, especialmente, para os que estão diretamente nela inseridos. Nos quase 30 anos que fizemos parte da equipe de esportes da Rádio Diário do Grande ABC, tivemos aventuras gratificantes (outras nem tanto) pelos estádios deste Brasil que, parece, será sede da Copa do Mundo em 2014.
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Corria o ano de 1992 e o Campeonato Brasileiro estava chegando ao final com Botafogo, Flamengo, Atlético/MG e Internacional disputando as semifinais. A equipe de esportes da Rádio Diário iria acompanhar, in loco, ao menos um jogo por rodada em qualquer lugar do Brasil. Uma quarta-feira, eu (comentarista) e Rolando Marques (narrador), embarcamos, em avião, para Belo Horizonte, onde à noite o Galo enfrentaria o Mengo, no Mineirão. Nossa desdita começou no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde o vôo para Belo Horizonte, marcado para as 12h saiu às 17h. Nosso bilhete marcava como destino o aeroporto da Pampulha, ao lado do Estádio Magalhães Pinto, o Mineirão. No entanto, por problemas técnicos, a aeronave aterrissou no aeroporto dos Confins, na região Metropolitana de Belo Horizonte e a quilômetros de distância da Pampulha. Eram, então, 18h30, pois teve uma escala, não programada, no Galeão, no Rio de Janeiro. Nossa adrenalina já estava a mil pelo receio de começar a transmissão com atraso, falha imperdoável em se tratando de rádio.

Chegando a BH, um amigo nosso aqui de São Bernardo, José Chéu da Silva, então árbitro de futebol da CBF - Edward de Souza o conhece bem - nos aguardava no aeroporto, (previamente alertado que o desembarque seria no Confins). O Chéu residia em Belo Horizonte e estava escalado pela CBF como quarto árbitro do jogo. Gentil e prestativo, ele nos levou ao Mineirinho, ginásio de esportes de BH, anexo ao Mineirão, na Pampulha, onde arranjou acomodações para o pernoite. Outro desastre, embora o preço da pousada fosse simbólico (tipo R$ 6 por pessoa) as instalações eram precárias. Debaixo das arquibancadas do ginásio os espaços foram transformados em hospedagem para atletas, com camas em concreto, colchões que mais pareciam capachos e roupas de cama que certamente seriam recusadas por moradores de rua.

Não havia saída para recusa por dois motivos: o anfitrião era nosso amigo de longa data e não seria educado declinar da oferta e não havia mais tempo a perder porque em menos de meia hora teríamos, o Rolando e eu, que entrar no ar. Catamos nossa parafernália de rádio e rumamos para o Mineirão (foto a esquerda), que formigava de gente. Por ser a fase semifinal do Brasileirão, centenas de emissoras de rádio, TV, jornais e revistas do Brasil e, quem sabe, do mundo, estavam no estádio e, claro, não havia cabines para acomodar todos. Como era esperado, a Rádio Diário e todas as outras que não fossem de Belo Horizonte e São Paulo, foram jogadas para as arquibancadas cobertas, no reservado, que estava mais para galinheiro. Propositadamente, as rádios do Rio de Janeiro também foram pra lá, já que os mineiros estavam bronqueados com a imprensa do Rio e enfiaram as emissoras cariocas no pardieiro.

Alguns torcedores, reconhecendo uma equipe carioca, não deixaram por menos e fustigavam os profissionais da rádio com palavrões, xingamentos, bolas de papel, copos com urina e tudo que podiam arremessar. Como eu e o Rolando estávamos ao lado da Tupy carioca, sobrou também pra gente, pois a torcida sabia que quem estivesse no espaço não era mineiro. Então, salve-se quem puder. Antes mesmo do jogo começar, o comentarista Luiz Mendes (Rádio Tupy do Rio) recebeu um pedaço de concreto na testa e desmaiou sangrando. Fui o primeiro a socorrer o companheiro acionando um policial que se encarregou de levar o veterano radialista ao centro médico do estádio.

A situação se complicou quando o árbitro paulista, Dulcídio Wanderley Boschila (foto a esquerda), falecido em São Paulo, em 14 de maio de 1998, aos 59 anos), marcou um pênalti para o Flamengo e convertido por Bebeto. Parecia que o estádio viria abaixo. Sobre nossas cabeças, na jaula destinada às emissores excedentes, voava todo tipo de objeto. Uma latinha de cerveja vazia (uma pena) veio me cumprimentar diretamente no rosto. Uma sandália acertou a cabeça do Rolando, que tentava disfarçar sua calvície com um boné tipo padeiro lusitano e que voou para longe e não mais foi encontrado. Um sufoco interminável, transformado em pavor, ao sentir um bando de celerados descarregar sua ira e frustração nos profissionais forasteiros que estavam no Mineirão.

Encerrado o jogo com a vitória do Flamengo, e os impropérios e ameaças dos atleticanos que ainda restavam, encontramos na porta do estádio o companheiro Luiz Mendes com uma faixa na cabeça que encobria sua careca e o ferimento provocado por um insano. Agradeceu nossa solidariedade e sumiu em direção a viatura com o logotipo de sua rádio, mas não sem antes garantir que nunca mais voltaria a Belo Horizonte, principalmente ao Mineirão, onde, segundo ele, passou um sufoco nunca antes visto em sua já longa carreira de comentarista esportivo.

Para nós, Rolando e eu, restava ainda a odisséia de passar a noite sobre uma cama de concreto, num espaço úmido e frio. O Rolando, que era espírita, arranjou em uma banca noturna um livro próprio. Eu, sem essa prerrogativa, não por falta de alternativa, preferi passar a noite no boteco ao lado do Mineirão, acompanhado por umas cervejas no ponto. Pela manhã, num vôo direto, Pampulha/Congonhas, rumamos para São Paulo, deixando para trás mais uma missão cumprida. Outras viriam. Sim, antes que me esqueça... O Flamengo foi campeão daquele Brasileirão.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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