quarta-feira, 6 de outubro de 2010


O meu reencontro com a Eva, a mulher do primeiro casamento, ocorreu 28 anos após o nosso rompimento, que, aliás, não foi nada amigável. Na despedida, ela me pediu, irada e aos gritos, que a partir daquele dia eu jamais lhe telefonasse ou lhe escrevesse. Eu cumpri à risca o seu pedido. Nosso reencontro pode ser considerado um ardil das casualidades. Um dia, ao abrir a caixa de entrada do meu computador, um e-mail me chamou a atenção pelo título: sou amigo do seu filho... A mensagem era assinada por Marciel Zonta, farmacêutico e psicólogo de profissão. No início, ele me parabenizava pelo Prêmio Esso e depois, escrevia, romântico: “Namoro e espero me casar com Priscila Gusmão Carvalho, o amor de minha vida, irmã de Danyelle Gusmão Carvalho de Marqueiz, esposa de Marcelo de Marqueiz... seu filho.”

Ao ler essa frase final, fiquei estático. Quase três décadas sem ouvir falar de Marcelo e, agora, graças à informática, soubera um pouco de sua existência. Dizia mais: “Sou muito amigo do Marcelo, uma pessoa maravilhosa, carismático, adora passarinhos, trabalha em uma loja de tintas, em suma, um grande concunhado”. Fiquei extasiado com a notícia e, na mesma semana, procurei uma das tias da Eva e comuniquei o ocorrido. Essa tia, a Claudina, também ficou satisfeita que nós estávamos começando a viver como civilizados. Aproveitando, me deu o número do telefone da casa onde a Eva residia, na Vila Velha, em Vitória, Espírito Santo. Fiquei de telefonar, mas não tive coragem, ou melhor, considerava não ter moral para tentar uma aproximação com a mulher que eu abandonara com um filho com menos de três anos de idade.
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Num sábado à tarde, dia em que completava mais um ano de vida, estava sozinho em casa, quando o telefone tocou. Atendi e uma voz masculina, serena, perguntou, educadamente: É da casa do Sr. José Marqueiz. Respondi positivamente e, só então, ele completou: Aqui é o Marcelo, pai. Senti que o mundo desmoronava. Fiquei sem pronunciar palavra e ele continuou e disse que eu tinha sido muito importante em sua vida. Tentei pedir desculpas, explicar o porquê o deixara e a sua mãe, mas não consegui. Ele me deixou o número dos telefones de sua residência e do seu local de trabalho. Fiquei de telefonar, mas até hoje ainda não tive coragem.
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Não demorou muito depois do contato com Marcelo, outro telefonema. Desta vez, era uma voz feminina. Disse, apenas: Sou eu. De imediato, reconheci a voz da Eva e, quase instintivamente, falei: Oi, amor. Uma expressão que saiu natural, como se eu nunca tivesse me separado dela, como se eu houvesse permanecido sempre junto com ela. Conversamos por alguns minutos e ela me avisou que viria para Santo André visitar seus parentes, principalmente uma tia que estava muito doente. Ficamos de nos ver.

Não demorou nem quinze dias, e a tia Claudina me perguntou se eu teria disponibilidade para buscar a Eva no Aeroporto de Congonhas. Prontifiquei-me a buscá-la e ela me deu o dia e a hora em que estava previsto o desembarque. No dia marcado, peguei o meu carro e segui em direção ao aeroporto, com duas horas de antecedência. Não queria chegar atrasado. Estava, no entanto, apreensivo: como eu iria, depois de quase trinta anos, reconhecer a Eva? E ela, me reconheceria?

Fiquei de olho nos avisos eletrônicos do saguão e quando vi anunciarem a chegada do vôo previsto, rapidamente fui para a sala de desembarque. Não demorou muito e começaram a descer os passageiros. Eu, atento, não perdia a saída de nenhum deles. E nada de ver a Eva. Teria ela já passado sem eu perceber? Sim. Só quase uma hora depois vi uma senhora sentada em um dos bancos, ainda na sala de espera, e, chegando mais perto, tive a certeza de que era ela. Quando Eva me viu, procedeu como se nunca tivéssemos nos separado, e, mostrando que ela em nada havia mudado, me repreendeu pelo atraso, sem me dar nenhuma chance de explicação.

Como ainda era hora de almoço, convidei-a para comer alguma coisa, explicando que eu não poderia participar, a não ser se fosse servido sopa. No caminho para Santo André, viemos conversando – e ela quase nada falou de sua vida. Mostrava mais interesse em saber como eu estava. Nesse dia, ela comeu peixe e, eu, engoli um pouco de sopa. E tomei cerveja, para surpresa dela, que achava que, por ter parado de beber, não ingeria nada de bebida alcoólica. Só cerveja, justifiquei. No começo da tarde, a deixei na casa de sua tia, com a promessa de nos encontrar no dia seguinte. Tínhamos muito o que conversar, ela avisou. Num desses dias, na residência da tia, ela me mostrou o álbum de nosso casamento, com destaque para uma foto: ela, de véu e grinalda, e, eu, de terno completo e de bigode. Ela, com 20 anos, eu, com 22 – dois jovens, dois sonhos que não se realizaram.
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Saímos outras vezes e a levei para passear por Santo André. Fiz questão de passar defronte às casas onde morávamos quando casados. A primeira, agora se transformara em um salão de cabeleireiros; a segunda, um sobrado, virara um pequeno escritório; e, a terceira e última, em um conjunto de sobrado, continuava como antigamente, apenas com um muro mais alto. Numa dessas saídas, ela me pediu para parar o carro e, olhando bem nos meus olhos, disse com uma sinceridade jamais percebida por mim: Apesar de tudo o que aconteceu entre nós, eu continuo apaixonada por você. Estupefato diante da confissão, só fiz acariciar seu rosto, seus cabelos e a olhei com doçura, como se olha um anjo, como se olha a imagem de uma santa.
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Depois, fiquei sabendo as demais razões que a levaram a deixar Santo André e a viver com outro homem. Na casa onde vivia com os tios, ela sentira não ser mais benquista. A tia encontrava-se doente e, o tio, lhe dera sinais de que ela deveria encontrar um local para viver e criar o seu filho, então com menos de três anos de idade. Sem alternativa, deixou-se levar por o único homem que lhe havia prometido uma casa e a promessa de ajudá-la a cuidar do Marcelo.

Assim, disse ela, mesmo sem sentir amor por esse homem, ela aceitou – em nome do pequeno menino adotado em Manaus e que levava o meu sobrenome. Pouco mais de um mês depois desse encontro, ela regressou. Levei-a até o aeroporto e esperei que ela subisse para a sala de embarque. Antes de entrar e desaparecer de minha vista, ela olhou para trás e me acenou e, depois, colocou a mão direita nos lábios e, sorrindo, me enviou um beijo de despedida.
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo sexto capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza).
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

SEGUNDA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO DE 2010


Não sei por que tanta surpresa e indignação contra o Tiririca, se o Brasil sempre foi assim. Errado não é ele nem são os espertalhões que lançaram sua candidatura para surfar docemente no voto de legenda. Errada é a lei que permite esse absurdo. Com Tiririca, estão indo de carona mais quatro desconhecidos, com meia dúzia de votos de suas famílias. É mais uma brincadeira dessa lei eleitora totalmente maluca. O problema é que nós vamos pagar a conta, não só com a grana dos nossos impostos, mas também com as consequências de longo prazo no campo legislativo.

Defendo a tese de que todo candidato só poderia ter seu nome homologado após aprovação num vestibular, que teria outro nome, mas seria um vestibular. Se o sujeito não souber responder, por exemplo, o que significa Comissão de Constituição e Justiça, perde dois pontos. Se não souber explicar o que vem a ser “acordo de lideranças”, perde mais dois pontos. E que tal estas perguntas: Qual a diferença entre Câmara dos Deputados e Senado? O que é um projeto de lei? Um decreto? Uma resolução? Uma norma? Em que circunstância ocorre uma sanção ou veto presidencial? Como saber que uma lei é inconstitucional? Quais são as instâncias judiciais e quais as atribuições dos tribunais? E vai por aí, entrando também no campo do Executivo, seus ministérios, estrutura, etc.
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Surgiriam, então, os cursinhos pré-vestibulares para candidatos a candidatos, o que seria uma maravilha. Os vestibulares são filtros para evitar, teoricamente, que despreparados venham a ser tornar médicos, advogados, engenheiros, etc. Por que esse mesmo filtro não é aplicado também a quem vai pretender legislar e governar uma cidade, um estado, o país? O que é mais grave, um advogado de porta de cadeia despreparado ou um governador no lugar errado? Em respeito à inteligência do leitor torno a resposta dispensável.

Se existisse esse processo depurador jamais um Tiririca da vida chegaria lá, ainda mais com essa votação assustadora, retrato da miséria mental de tanta gente alienada e irresponsável. Porque o problema é que não são só eles que pagam. Nós também pagamos, e muito caro, por essa palhaçada sem nenhuma graça.
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*Milton Saldanha - Jornalista profissional e escritor, 65 anos, SP. Acesse: jornaldance@uol.com.br
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Não deixem de acompanhar nesta quarta-feira, o 25º capítulo de "Memória Terminal", série inédita escrita pelo saudoso jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo.
(Edward de Souza)
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domingo, 3 de outubro de 2010

SÁBADO, 2 DE OUTUBRO DE 2010


Na esteira do momento, quando o cidadão é a caça e o caçador é o franco atirador, o assunto remete ao caldeirão que "fabrica" ídolos em uma terra onde a visão da maioria não se esforça para ir além do que exige a lei do menor esforço. Nem sempre os grandes ídolos são exatamente como desejamos. Isso em todos os setores do cotidiano. Proliferam nas telinhas brasileiras, cuja função precípua é proporcionar lazer, cultura e informação, programas de maior audiência e lucratividade, que fabricam pérolas, comovem e levam às lágrimas considerável camada da população; programas que deixariam corados de vergonha o mais simples cidadão de um lugarejo pouco mais evoluído.
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Pululam agora gaiolas de gosto duvidoso e qualidade deteriorada tipo Hipertensão (Globo), Buzão (Band), Fazenda (Record) e, já, já, o execrável BBB que, pelo sucesso e audiência, sugere claramente os motivos de aparecer no Brasil aproveitadores, muitos deles atingindo picos da fama, fortuna e Poder. Todos com forte apelo e grande chamariz da massa alienada ao populismo inútil, produzem ídolos calcados na ignorância e ausência absoluta de cultura da comunidade. Os participantes dessas excrescências, escolhidos a rigor pela aparência física e não pelo conteúdo, ganham visibilidade que camufla inteiramente a falta de inteligência e reforça a possibilidade de ganhar dinheiro sem a necessidade de qualquer esforço mental, ausente nas cabeças ocas da manada integrante do picadeiro e adrede fantasiada pelo apresentador.
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Homens e mulheres mostrando o corpo até onde a censura permite ou, em alguns casos, um pouco mais, têm a força de máquina que hipnotiza o telespectador um tanto distante da leitura e da informação. Entre os produtos destes falsos líderes, incluem-se novelas, esportes, (especialmente o futebol) e balcões da música, argolada ao besteirol nacional que funciona como usina produtora em série de ídolos, cuja maioria de desfaz como castelos de areia ou pirâmides de cartas e que o povo brasileiro, até por uma questão de cultura, idolatra e eterniza.
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A corrente se estica ao campo político onde, salvo raras exceções, emergem vigaristas oriundos de safra capenga e que são inseridos no cenário como verdadeiro Adônis forjado nos salões dos horrores para acalentar um povo carente de visões mais concretas. Igual ao participante do reality, o jogador de bola, o mocinho da novela, o cantor (gerado no palco de show mambembe), o político, mesmo sendo um pandego e desaculturado, acaba tornando-se ídolo e líder de certa platéia que perdoa, finge não enxergar e ignora as consequências das estrepolias e fanfarronices do astro enfeitado de estadista. É aí que mora o perigo.
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As sandices passam ao largo da percepção da patuléia, mais interessada no esvoaçar do pano circense tremulando pela ventania do que na realidade que empobrece a carteira e deixa à míngua a despensa familiar. Assim, com os olhos ofuscados pelo brilho do ídolo e o coração superando a razão, o povo crente na ilusão elege o bam bam bam do imaginário reality show que se transforma no palhaço das repetidas pilhérias transformando o palco em picadeiro que, na suntuosidade da arena, não exibe a decadência que torna o inocente espaço em circo dos horrores.
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Nesse contexto, um País que carece de seriedade e competência, nunca deixará de ser terceiro-mundista, mesmo ignorando onde estão situados os de segundo mundo. A cultura tupiniquim tem guindado a picos inimagináveis ídolos inexpressivos que somente desaparecem quando se transformam em cacos. O Brasil registra casos semelhantes que cicatrizaram nossa história, cujo ônus estamos pagando e o qual, possivelmente, nossos descendentes irão quitar. Com as instituições, outrora livres, insubordinadas e independentes, agora submissas, as liberdades constitucionais e democráticas poderão naufragar ao menor chocalho provocado por ondas um pouco mais forte.
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Às vésperas de eleições nacionais, a reflexão acerca do tema é extremamente oportuna, pois se não mudarmos o que somos intimamente, continuaremos a passar a mão na cabeça de nossos ídolos e, por consequência, nos tornaremos vítimas de seus escândalos. Um ídolo e um grande líder não podem ser forjados em picadeiros nem alavancados por galhofas, sob risco do porvir ser negro e irreversível.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista e radialista radicado na Região do Grande ABC.
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010


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O vocábulo do titulo pode estar em desuso, pelo que citam alguns dos mestres da língua, mas, ainda assim, ocorreu-me lembrar da prestidigitação – do bem – desenvolvida pelo mestre Thiany, dono de circo, arrebatando alegria por toda a América Latina. Fazer desaparecer um cavalo em cena ou cortar ao meio uma mulher e a seguir mostrá-la gostosa e escultural para o aplauso da platéia embevecida era fácil para sua magia divertida que não fazia mal a ninguém. O ludibrio estava implícito no espetáculo rico de um guarda-roupa principesco cobrindo lindas mulheres a despertar cobiças ou inveja. Ao prestidigitador da nova história não se pode comparar os efeitos do ilusionismo do Thianny, grande mágico do circo.

O circo instalado no Brasil revelou um novo prestidigitador – do mal – para incentivar a mentira que melhor explore a fé publica em seu benefício, acoitando os apaniguados da corte onde exercita o absolutismo. Seria impossível ignorar sua inteligência, entretanto, acreditar que Lula soubesse alguma coisa sobre o filósofo iluminista Charles Montesquieu, defensor da tripartição do poder, não se pode. Ele, que confessa não ler os jornais, mas se arroga o direito de criticar a imprensa acusando-a de ter candidato e partido, na verdade procura esconder suas criminosas lambanças, blindando-se em sequazes, esparros a seu serviço.

Na realidade a imprensa investiga – função dos poderes ignorados pelo absolutismo – e cumpre seu dever, informando a sociedade das mazelas se avultando na corrupção em que se afoga o Brasil. Uma arrogância salta aos olhos de quem quiser ver, exacerba-se no falso profeta a confiança de tudo poder, incluindo transferir suas culpas à imprensa, aos aloprados, aos mensaleiros, à Casa Civil ou Erenice. Berço desmascarado da obscuridade das negociatas iniciadas pelo Zé no governo, sob as barbas do presidente e a sombra de seu guarda-chuva.
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Apesar da proximidade que pautou suas vidas e interesses, o sindicalista, rejeitando a leitura, jamais tomou conhecimento dos fatos à sua volta registrados. Companheiros supostamente expurgados do governo por força de golpes, enxurradas de escândalos, nunca deixaram a proteção do guarda-chuva oficial. Muitos estão ativos e com destaque na campanha que ambiciona o novo ciclo da continuidade para dar seguimento ao jeito de conduzir política de absolutismo.

Três dias apartam o eleitorado brasileiro de uma decisão extremante importante no destino de cada um, sejam eles eleitores ou não, fato que aumenta a responsabilidade daqueles obrigados à manifestação cidadã nas urnas. Raciocinar sobre uma crença nas armações da prestidigitação pode ressuscitar João e o apocalipse, quando forças do mal vencem o bem.

A consciência popular começa a mostrar sabedoria ao alimentar desejo de levar a campanha para o segundo turno. O feito ensejará oportunidade de melhor discussão entre os candidatos, focando suas capacidades e conteúdos ideários anteriores e atuais. Uma perda de 6 milhões de votos em uma semana, tem profunda significação, mostrando arrogância no totalitarismo proposto para nosso futuro. Não é justo o jeito insano do ditador. Entre os muitos impropérios ouvidos nos últimos tempos, um esmagou a sensibilidade nacional, sua fé e esperança da boa construção: “nem Jesus Cristo vai me tirar a vitória nas eleições”.
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*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 82, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os Contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. Garcia Netto é amigo e colaborador deste blog.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010



Por mais paradoxal que possa parecer, os médicos ao verem o resultado dos meus exames elogiam o meu estado de saúde, dizendo ser invejável para pessoas de minha idade, como se já tivesse ultrapassado a barreira dos 80. Até a pouco, não esperava completar 59 e, agora, anseio para chegar aos 60 – mas sem dor, sem cirurgias, sem sessões de rádio e quimioterapia. Se for considerado o tempo em que infernizei meus pulmões com nicotina de cigarro e o meu organismo com bebidas alcoólicas, até que posso ser considerado um protegido de Deus, o real significado do nome José em grego, conforme me informaram.
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Em toda minha vida, me recordo de ter perdido a batalha, ainda por um curto período, só uma vez na juventude. Foi quando contrai malária, durante minha estada nas florestas amazônicas. Como desconhecia os sintomas, acreditava ser ação de alguma virose. Os médicos consultados ignoravam a doença – o governo militar, à época, havia abolido a existência da malária no país. Coube ao médico Newton Brandão (foto a direita), cardiologista especializado em doenças tropicais, que diagnosticasse a malária e me indicasse o remédio correto. Foi a minha salvação.
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Mas durante o período em que convivi com essa que chamei de “maldita angústia amarela” sofri bastante, tendo ao lado a Eva. Ela permanecia ao meu lado, na cama, os olhos vermelhos. Deveria chorar escondido para não me entristecer ainda mais. Nesse período, admirei a sua devoção, o seu amor por mim. No entanto, só foi me recuperar e voltei a ser um homem perdidamente atraído por outras mulheres, como se a conquista fosse parte de um jogo do qual eu era um viciado incorrigível.
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Lembrando dessa época, me vem à mente o meu convívio com os índios. Aprendi muito, a amar a natureza, sua fauna, sua flora. A respeitá-la, sobretudo. O Xingu é um parque nacional que fascina, encanta. Como fascinou e encantou os escritores Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que lá estiveram nos primeiros anos da década 50 do século XX. Na mesma época, o Xingu recebeu a visita de outros escritores, como Jorge Amado, Zelia Gattai e José Mauro de Vasconcelos e, ainda, do rei Leopoldo, da Bélgica, persuadido a não levar para a sua terra um filhote de pássaro por um dos índios, que lhe ensinou: o pássaro nasceu para ser livre.
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Com os índios aprendi uma lição numa noite, véspera de Natal. Estávamos pescando no rio Xingu, eu e mais uns quatro indígenas, entre eles Aritana, o grande capitão da tribo iulapiti, campeão de Uka-Uka, luta tradicional realizada durante o Quarup, a festa em homenagem aos mortos. Á certa altura, me empolguei com a grande quantidade de peixes no rio e comentei alto que naquela noite iríamos encher o barco de tanto peixe. Aritana, pouco depois, interrompeu a pescaria, justificando: já havíamos pescado o suficiente para nos alimentar. Uma lição inesquecível de que só devemos extrair da natureza o essencial, o necessário para a nossa sobrevivência.
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MEUS PAIS
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Minha mãe, analfabeta, sempre cuidou da casa, sem se preocupar com ela. Era um tempo em que a mulher era destinada a procriar, criar os filhos, respeitar o marido e servi-lo, como amante e empregada. Viveu resignada e servil. Seu olhar, escuro brilhante, era um mar de ternura. Meu pai, barbeiro de profissão, homem rude, fumante inveterado, apreciava uma boa cachaça, embora às vezes passasse dos limites e, então, tornava-se violento, com a mulher e os filhos.
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Minha mãe morreu dormindo, a cabeça estirada no ombro de minha irmã Antonia, no banco de um hospital público municipal, à espera de atendimento médico. Meu pai sofreu para morrer, de embolia pulmonar. Fumou e bebeu até os dias finais de seus 77 anos de vida. Morreu cinco anos depois de minha mãe e, nesse período, aproveitou para trazer mulheres para casa e praticar atos libidinosos – tinha a mania de andar nu pela casa, junto com a companheira. Não tinha a mínima vergonha de se expor...
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De minha mãe, guardo apenas boas lembranças. Uma delas, ocorrida em minha infância, me marcou muito. Tinha pouco mais de seis anos de idade e a acompanhava pelos sítios da redondeza de Bálsamo, que ela visitava para vender roupas e bijuterias e ganhar algum dinheiro para ajudar na manutenção da casa. No meio do caminho, com o tempo nublado ameaçando chuva, decidi voltar sozinho com o intuito de jogar bola com meus colegas de escola. Receosa de que eu me perdesse, ela retornou com as sacolas de roupa – e a chuva, torrencial, nos pegou a caminho. Toda a mercadoria que ela levava nas sacolas se perdeu e até hoje não me perdôo pelo prejuízo que lhe causei. Ela nunca tocou nesse assunto.
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Do meu pai, uma triste lembrança. Numa noite, ele flagrou minha irmã Antonia namorando em um jardim da praça e a trouxe para casa segurando pelos cabelos. Antonia apelava para que ele a largasse. Em casa, minha mãe intercedeu e, em resposta, meu pai lhe deu uma pancada na cabeça, utilizando-se de um pedaço de lenha. A imagem da minha mãe, a cabeça sangrando, agarrada à minha irmã Antonia, jamais saiu de minha lembrança.
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Pelos meus irmãos, sou considerado o protegido por meu pai. Fui, dos quatro filhos mais velhos, o único que pôde cursar o ginásio e teve um curso de datilografia pago. Era, portanto, um privilegiado perante os outros: Maria Madalena, a primogênita, Sebastião, Antonia e eu. Eu, também, fui o único dos filhos nascido em Santo André. Os demais nasceram em Bálsamo.
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo quinto capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
(Edward de Souza).
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DOMINGO, 26 DE SETEMBRO DE 2010
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Durante muito tempo, quem sabe séculos, a corrupção tem sido um dos maiores elos que alia corruptos e corruptores em suspeita e condenável cumplicidade. No Brasil, governados e governantes em todos os escalões, ricos, pobres e remediados, fazem parte de uma lista suja que nosso País jamais conseguiu se desvencilhar. Há corruptos e corruptores na cidade, sítio, fazenda, casebres, casas, barracos, sob pontes e em mansões e castelos.
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A nebulosa história do descobrimento do Brasil conta em verso e prosa que Cabral e seus assessores (já havia aspones na comitiva que aqui aportou trazendo os patrícios), foram admitidos pelos índios em virtude dos presentinhos oferecidos e aceitos pelos caciques, pajés e a raia miúda coberta apenas com penachos estilizados nas coloridas penas de araras e pavões tupiniquins. Aos poucos, os caciques que comandavam os pelotões, armados de arco, flecha ou tacape, foram atiçando seus desejos por espelhos, tabaco, chapéus, pulseiras e outros penduricalhos que os portugueses ofereciam pelo ouro que os indígenas carregavam, sem conhecer o valor do que entregavam aos visitantes.
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Aí deve ter começado a corrupção com a compra ou troca de favores e, para os descobridores, o poder definitivo com a aprovação total e irrestrita dos nativos. A carta de Vaz Caminha provavelmente tenha alertado o Rei de Além Mar que aqui nas terras de Santa Cruz os habitantes, um tanto estranhos, também gostavam de um agradinho e, assim, as pendengas se resolviam com civilidade. Na sequência, pouco ou quase nada mudou, apenas a oferta e os pedidos foram sendo atualizados.
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Passaram 510 anos e nesse tempo, governantes e governados seguem a linha do jeitinho para todas as situações. Claro que também as trocas evoluíram do espelhinho para dólares, viagens, casas, barcos, carros e, para os menos exigentes, uma bike, ou um empreguinho em estatal paga o favor. Poucos, desde o indígena até o nerd atual, tem se dado conta que existem corruptos e corruptores nas diversas áreas, mas a fatura vem para todos, indistintamente. Isso, infelizmente, está arraigado na cultura do brasileiro que corrompe ou é corrompido em todas as esferas e instituições, porém o efeito é idêntico para todos, mesmo um simples furar fila para receber a hóstia na igreja.
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Nesses cinco séculos muita coisa mudou, mas a corrupção não, apenas evoluiu. No caso da política e dos políticos, o fato do voto ter passado da cédula de papel, em escrutínio simples, para as sofisticadas máquinas não altera o produto. A compra de votos campeia solta e todos ficam felizes, eleitores e eleitos e, mesmo com todos os instrumentos de fiscalização, a mutreta segue mais viva do que nunca, instalada exatamente nos poderes que deveriam combatê-la. Cada dia mais cintilante e aos olhos do mundo, a corrupção está enraigada no sangue verde-amarelo e já não ruboriza o povo que, sem se indignar, não só aceita como faz parte dela.
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Vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores, presidentes, escalões menores, que são eleitos para salvaguardar os interesses do povo, são alvos de CPIs cotidianas. Ou seja, os caras que foram votados para cuidar do bem público criam mecanismos para fiscalizar eles mesmos. São pagos com o dinheiro do povo para apurar bandalheira própria. As CPIs, na maioria dos casos, funcionam mais ou menos como “colocar tamanduá para cuidar das formigas".
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Enfim, malandragem aplicada, Cabral e sua turma, em 1.500, evoluíram até chegar aos chamados - mensalões, dólares na cueca, quebra de sigilos, compra e venda de estatais, privatização de rodovias ou apenas uma boquinha no guarda-chuva alheio - ficou embutida no cotidiano do brasileiro como regra para uma vida feliz e promissora. Outros cinco séculos, talvez, serão necessários para consertar o estrago que, pela esperteza do "levar vantagem em tudo" aqui instalada nos tempos de Cabral, poderá proliferar por mais um milênio. A Grande Família, da TV, tem em cada um de seus personagens o clone do brasileiro em busca de seus objetivos.
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Que Alá proteja os puros, caso encontre um.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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