domingo, 19 de setembro de 2010

ESTAMOS CRIANDO ÍDOLOS DE BARRO?

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SÁBADO, 18 DE SETEMBRO DE 2010

O REIZINHO ESTÁ NU

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Poucos são os jovens, hoje, que desfrutam de prestígio, respeito, consideração, equilíbrio, fama e grana, conquistados com pouco ou quase nenhum esforço. O talento, herdado da providência, resolve tudo, ou quase tudo. Nos dias atuais, mais que quaisquer outros, estão nessa raia o garoto mato-grossense Luan Santana, 19 anos, cantor popular, e Neymar (18 anos), das praias paulistas, que, como poucos, faz da bola instrumento extremamente obediente.
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O primeiro, data vênia, cumpre o ritual de astro famoso e rico comparecendo religiosamente a seus shows e outros tantos compromissos. Pelo visto, Luan é centrado, bem criado, de família regrada e bem sucedido. Apenas segue ensinamentos herdados dos pais e caminha célere para garantir seu sucesso, sem grandes riscos. Neymar, por sua vez, tropeça na vida turbulenta do mundo da bola, que exige malabarismo em campo e fora dele. Um neófito ofuscado pelas luzes que embaça a conduta dos que não estão devidamente preparados. Nascido de família humilde e sem muitos recursos para a criação, o menino prodígio está agora enfrentado os brucutus do cotidiano. Imberbe, Neymar não está suportando a carga imposta pela fama e riqueza que lhe caem nos ombros.
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O fardo lhe parece pesado, mas seus olhos estão em outro horizonte. Até pouco tempo a vida não permitia à sua família, a ele e seus irmãos, luxos de gente mais abastada; uma bola usada e um par de chuteiras de segunda mão, mesmo apertando os pés, bastava para o sorriso do menino luzir como estrelas. O dinheiro para o ônibus, quando havia, era rigorosamente contado, que não permitia o cobiçado sorvete no retorno. Voltando a pé, economizava para o picolé. Quando menos se esperava, na cronologia do tempo, Neymar via nas manchetes esportivas que valia milhões de euros. "Quem? Eu?", questionava, sem entender bem. A família, igualmente, não atinava com a realidade e passou a acreditar que no filho malabarista da bola estava o baú para a emancipação definitiva e o apagão dos tempos de pés no chão e panelas quase vazias.
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Assim, rápido como raio, surgiu o novo Rei do esporte das multidões que passou a ser paparicado, como todo aprendiz de Majestade tem direito. Deslumbrado, o menino-rei não tem dado conta do labirinto em que está e qual o caminho que deve seguir para não derrapar nos obstáculos e impedir o curso normal das coisas. Parece não estar preocupado. As lambanças dos últimos tempos tem lhe custado constrangimentos e pedidos de desculpas, evitáveis se tivesse orientação familiar e dos superiores no clube. No entanto, ambos paparicam o garoto sugerindo que pais e cartolas estão mais interessados no que o menino possa lhes render financeiramente.
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Carente de pessoas que possam lhe indicar o trilho do porvir grandioso, Neymar prossegue chutando a bola e tudo que aparece à frente para controlar seu estrelismo. Esquece, por exemplo, que Robinho, seu companheiro de bola e igualmente oriundo de casebres que cercam as praias, passou, a algum tempo, dias de dor e desespero por expor ostentação e opulência, chamariz para os mal intencionados. O caso (sem entrar no mérito), Bruno, do Flamengo, ainda está quente o suficiente para queimar as mãos de quem insiste em achar que tudo pode.
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Enquanto o também menino Luan Santana, aqui comparado, encontra nas melhores mãos e cabeças (família e empresário) estrutura para conduzir seus passos a horizontes sólidos, sem ter que se curvar a hipocrisias, Neymar, na contramão, não vê, em casa e no clube, braços e cabeças que possam indicar o caminho menos perigoso para um porto seguro e confiável. Neymar, o reizinho, ainda está desnudo; Luan, um príncipe centrado a caminho do sol. Destinos iguais que somente o tempo poderá se encarregar de fornecer o instrumento certo para alavancar a longa trilha que leva ao sucesso definitivo. Histórias de êxitos (poucos) e fracassos (muitos) contam a sina dos que não foram ofuscados pelos holofotes e dos que sequer viram as luzes que poderiam fazê-los brilhar.
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Um adágio chinês já alertava: o importante não é ser o melhor, é permanecer no topo, com humildade, muita humildade.
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*Oswaldo Lavrado é radialista/jornalista radicado no Grande ABC
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

SEM CERVEJAS DESTROEM UM CLUBE SOCIAL

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Estas 15 fotos abaixo, enviadas por um amigo pela internet, foram tiradas na madrugada desta última segunda-feira, no clube Castelinho, em Franca. Se você imaginar que o causador desta destruição foi um terremoto que atingiu a cidade, enganou-se. Tampouco um vendaval. Acreditaria se eu responsabilizasse a falta de cerveja por este estrago colossal? Não se espante, a classe dos “sem bebidas” ainda não foi criada, pelo menos que eu tenha conhecimento. Continuamos ainda com os “sem terra”, “sem teto” e os “sem vergonhas” que invadiram a política neste país. .
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Franca, com quase 400 mil habitantes, conhecida internacionalmente como a “Capital do Calçado”, pode em breve ser também a “Capital dos Sem Cervejas”, caso as conhecidas festas open bar continuem agitando os clubes da cidade. A cerveja, fabricada há milhares de anos, se tornou a mercadoria principal na Idade Média, quando as pessoas começaram a viver em cidades onde quarteirões espremidos e a falta de saneamento dificultavam a tarefa de encontrar água limpa. O álcool da cerveja a tornou mais segura de se beber do que a água. Não é o caso de Franca, com 100 por cento de saneamento e com a água de primeira qualidade.
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No entanto, existem muitos que fogem desse líquido precioso como o diabo foge da cruz. Não conseguem viver sem a cerveja e ficam furiosos sem ela, isso ficou provado quando destruíram um dos mais tradicionais clubes da cidade, onde a bebida não foi suficiente para matar a sede de todos os frequentadores de uma tal “Festa da Flavinha”. Pior, crianças que mal deixaram a mamadeira também estavam de madrugada nesta festinha de embalo, onde maconha e cerveja estavam sendo disputadas a tapas. Bom explicar que nestas festas open bar, o preço cobrado no ingresso inclui as bebidas que serão consumidas, não importa a quantidade.
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A promotora de eventos Flávia Cristina Richinho, culpa a segurança. Alegando que contratou 40 homens e só 11 compareceram. Alega ainda que mais de 500 pessoas saltaram o muro do clube, por isso faltou cerveja na festa. Seriam esses invasores os “sem cervejas”? Ou o olho gordo dos promotores, visando um troco a mais, acabou funcionando nesta festa de embalo?
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No boletim de ocorrências da Polícia Civil consta que várias portas do clube foram arrombadas e quebradas, bolsas de funcionárias foram levadas com seus pertences, malotes de dinheiro e até um revólver calibre 38 de um segurança foram arrastados pelos vândalos. Sem contar os danos causados em muitos veículos estacionados em frente ao clube.
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Em muitas cidades do interior, festas open bar estão proibidas. Em Franca não existe uma legislação específica e a baderna deve continuar por mais um bom tempo, até que morram muitas pessoas. A população é a maior prejudicada quando acontecem festas assim na cidade. Imaginem... No mínimo 70% dos participantes são motoristas e condutores de seus veículos.
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Certamente estarão transitando embriagados pelas ruas da cidade, provocando acidentes e até atropelando e matando pessoas nas ruas. E a lei seca? Seria necessário avisar a polícia que os frequentadores de uma festa deste tipo vão sair do clube, bêbados? Uma blitz resolveria o problema. Só enquadrar uma dezena de “tontos” para deixar os outros espertos. Mas, sempre escrevo isso. Lei neste país é igual vacina. Umas pegam, outros não. A lei seca não pegou.
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A DESTRUIÇÃO
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___________________________________________________________________ *Edward de Souza é jornalista e radialista
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010




Fausto Polesi apareceu, como sempre, como meu anjo salvador. Era o ano de 1993. Por sua indicação, fui contrato para chefiar a reportagem do serviço de comunicação social da Prefeitura de Mauá, setor no qual já tinha uma boa experiência. Ainda no início de carreira, quando começava a trabalhar no Estadão, prestei assessoria para a Prefeitura de São Caetano do Sul, na época comandada por Oswaldo Samuel Massei e, meses depois, para a Prefeitura de Santo André, cujo prefeito era o médico Newton Brandão, aquele meu padrinho dos dois casamentos e que me demitiu as duas vezes da Prefeitura e, mais tarde, alegou estar atendendo aos meus pedidos, conforme informaram seus assessores mais diretos.

Durante dois anos vivi razoavelmente e chegava a ajudar nas despesas de casa. Mas nada de economizar. Gastava o que tinha, sem pensar que, talvez, futuramente, fosse precisar de dinheiro para qualquer emergência, como tratar de uma doença. Gastei, sim, para extirpar a hemorróida. Como não tinha plano de saúde, contribui com o que tinha para a execução da cirurgia pelo médico Paulo César Ribeiro, um dos mais conceituados proctologistas brasileiros da época. A operação foi com raios laser e quase nada senti. No dia seguinte, havia recebido alta do hospital e retornado para casa, à espera da primeira evacuação – essa, sim, dolorida, tanto que a recomendação é colocar, na hora, um pedaço do pano nos lábios e evitar o atrito dos dentes.
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No final de 1995, o prefeito José Carlos Grecco, de Mauá, decidiu mudar o diretor de comunicação, a quem considerava amigo. Este me orientou a não comparecer mais ao setor, me prometendo vaga de assessor especial. A manobra dele – não vou citar o nome – era evitar que eu permanecesse na Prefeitura, como queria – fiquei sabendo depois – o novo diretor. Ausente vários dias, consideraram que eu era um grande vagabundo e, como consequência, fui demitido. Uma coisa eu pedi para minha mulher: eu não quero a presença desse cidadão nem no meu velório.
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Desempregado, e sem querer tornar-me repetitivo, Fausto Polesi reapareceu novamente e me indicou para assessor de mais um candidato a prefeito de São Caetano. Como sempre, me apresentei e, surpresa: o candidato a vice era Moacyr Rodrigues – o que tinha sido candidato em 1992 e, mais tarde, tornara-se vereador, depois de candidatura frustrada para deputado estadual. Desenvolvi um bom trabalho de comunicação, mas não foi possível vencer de novo aquele que se tornara um monstro sagrado no município: Luiz Tortorello, o candidato a prefeito de novo.
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Ao mesmo tempo em que fazia a campanha, colaborava também com o jornal Tribuna do ABCD, um semanário novo a circular na região, dirigido por J. Pavani e Antonio Pedroso de Moraes, ambos publicitários. Este último alimentava sonho de se tornar jornalista – e acabou conseguindo o registro, só que como proprietário de jornal, bem melhor do que ser empregado. Quando terminou a campanha – geralmente as campanhas duram apenas três meses – fui convidado a integrar a equipe do jornal, uma equipe que nem merecia ser chamada de equipe, tão pequena era – mais um repórter, um fotógrafo – meu bom amigo Claudio Polesi - dois ou três colaboradores, dois diagramadores e uma recepcionista.
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Nesse ínterim, ano de 1997, minha mulher adquiriu a nossa casa, financiada pela Caixa Econômica Federal. E, quatro meses depois, no dia de seu aniversário, parei com a bebida alcoólica, da mesma forma com que tinha parado de fumar. Apenas disse: a partir de hoje, não bebo mais. E o que mais me levou a tomar essa decisão foi um comentário do doutor Paulo Ribeiro. Numa tarde, quando ele fazia o exame pós-operatório da hemorróida, eu lhe perguntara se eu poderia morrer se continuasse bebendo. Ele, secamente, não sei se com ironia, me respondeu: Eu não iria morrer por causa da bebida; iria viver, mas só que paralítico. Explicava: o álcool já estava afetando o meu sistema nervoso e, não demoraria muito, atingiria braços, pernas. Como já havia conhecido uma pessoa que ficara paralítica em consequência do excesso de bebida, fiquei temeroso de ser vítima do mesmo mal. No início, ninguém acreditou. Só eu. Por isso mesmo, é que mantive a decisão. E como ficou comprovado que o alcoolismo é uma doença, nunca disse ser um ex-alcoólatra. Sou um alcoólatra. E quando posso tomo uns copos de cerveja.
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Desde o término das sessões de rádio e quimioterapia permaneço em casa e, quando solicitado, colaboro com o jornal Tribuna do ABC e a revista Jornauto. Sabendo da minha situação, os editores limitam-se a me enviar matérias que podem ser feitas via e-mail, sem a necessidade de eu me deslocar ou, ainda, utilizar a voz, que ainda não apresenta a devida articulação e o que falo quase pouca gente entende. Ainda recentemente, fiz o exame denominado tomografia computadorizada da cabeça e do pescoço. O objetivo é colher imagens para saber em que situação o tumor se encontra e se ainda será necessário o reinicio da quimioterapia. Essa espera me angustia, uma vez que um dos médicos que me analisou logo após o tratamento, suspeitou da existência de algumas células cancerígenas na descida da garganta.
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Procuro passar as horas de ócio lendo, escrevendo ou tentando me familiarizar com a tecnologia do computador. Dia desses, entrei na internet e, apenas como curiosidade, quis saber se meu nome estaria incluído naquele universo de informações. E, para minha surpresa, lá estava, e, logo no primeiro item, figurava a minha conquista do Prêmio Esso de Jornalismo. Prossegui com a pesquisa e um outro item me chamou a atenção: a venda de um exemplar da revista Planeta, de abril de 1976, com uma reportagem minha sobre a lenda da cidade submersa, que fiz no rio Urubu, interior do Amazonas, em companhia da Ilca. A reportagem fora escrita para o Jornal do Brasil, do qual eu era correspondente, mas o editor Juarez Bahia julgou melhor não publicá-la e liberou o texto, vendido em seguida para a Editora Três, após contato com o escritor Ignácio de Loyola Brandão, então redator-chefe da revista.
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A reportagem tem chamada que suscita a atenção. Em caixa alta e negrito, o pequeno título: A Lenda da Cidade Perdida. E, embaixo, sobre a foto do arqueólogo, a legenda-pergunta: Conseguirá o arqueólogo Pires Roldão encontrar a cidade perdida que ele procura há dezenas de ano? Nas páginas internas, o texto ocupando seis páginas, com fotos. A primeira mostra o arqueólogo com o dedo apontado para inscrições que mais parecem hieróglifos e a frase: Há três mil anos, uma civilização avançada habitou o Amazonas. Estas inscrições podem provar isso. Este homem tenta decifrá-las e só vai sair do Amazonas quando conseguir.
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A abertura da reportagem: “o fantástico, o absurdo e o real se confundem com inscrições estranhas, indícios da existência de povos pré-históricos, cidades submersas e navios naufragados, envolvendo lendas e superstições de índios e caboclos. Tudo isso está em uma pequena área do rio Urubu, pequeno afluente do rio Amazonas, distante 260 quilômetros de Manaus e onde se encontra acampado o arqueólogo Roldão Pires Brandão, presidente da Associação Brasileira de Arqueologia e Pesquisa”.
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Essa reportagem é uma das poucas que a Ilca nunca esqueceu. Nós descemos de barco, em companhia de um fotógrafo e um remador. Para descer, como dizem, tudo é fácil. Na hora de subir, o remador tentou uns poucos metros e, olhando para trás, desolado, decidiu que eu e a Ilca precisaríamos descer. A solução foi voltar pelo meio da densa floresta e a minha mulher não se encontrava preparada para essa longa caminhada: viera de tamanco, um calçado nada indicado para andar pela mata. Nervosa, poucos metros depois jogou o par de tamancos e seguiu a pé. Até hoje, passados mais de três décadas, ela diz ainda ter as cicatrizes dessa aventura...
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Acompanhe na próxima quarta-feira, o vigésimo terceiro capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
(Edward de Souza).
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

SEGUNDA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO DE 2010
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JANELA INDISCRETA


Uma praça, uma igreja, o velho coreto, árvores em profusão, ipês floridos, flores... Gente indo e vindo. Grupos de pessoas idosas conversam. Um engraxate, um artesão expondo seus trabalhos de bijuterias. Além, um cidadão só. Corpo mirrado, roupas toscas e um enorme chapéu de abas largas. Seu olhar é triste e sua expressão é de pessoa com problemas íntimos e graves. Uma hora depois, afasta-se. O que será que o afligia?

Noto três cães vira-latas. Moradores da praça certamente. Magricelas, judiados... Olhares meigos e cobiçosos. Ficam perambulando nas proximidades de bares e lanchonetes na esperança de serem premiados com migalhas doadas pelos seres humanos. Pessoas de meia idade se reúnem aqui e ali. Parecem sitiantes ou fazendeiros prósperos. Soube depois que são agiotas. Uma tradição bem mineira. Logo adiante vejo através de minha janela indiscreta, um casal de jovens apaixonados, estudantes certamente. Beijos e abraços prolongados. Arroubos da juventude. Saudade do meu tempo...

Neste momento avisto um jovem comprar um pequeno colar e experimentá-lo no tornozelo. O hippie mostra outros objetos de sua arte. Dois rostos satisfeitos; o que vendeu e o que comprou. Nos bancos espalhadas pela linda praça, pessoas solitárias se aquecem do frio da manhã e, provavelmente, refletem sobre seus problemas pessoais. Observo agora que o rapaz que comprou o enfeite para seu tornozelo (estamos no período da tarde) voltou com dois amigos e todos fizeram compras. O hippie com um linguajar peculiar e até chulo se esforça para vender mais. Mostra os bolsos dizendo que está sem nenhum e que ainda não se alimentou.

Soube ontem por um morador da cidade, que o lindo solar situado na esquina da praça com a rua comercial é assombrado. Pelo menos é o que dizem. Uma placa de aluga-se encontra afixada nas grades que cercam o imóvel. Uma mulher teria ali falecido louca e, por ser muito materialista, continua ali como fantasma. As pessoas que se dispõe a alugar o solar não esquentam a moradia. Barulhos, arrastar de pés... Fogem apavoradas. Ninguém se habilita. A placa “aluga-se” ficará lá até que algum exorcista resolva agir!

Um dia antes (domingo), no período da tarde, hospedei-me no hotel localizado em plena praça. À noite, uma retreta no coreto. “O Guarani” foi à música inicial. Outras se seguiram. Há muito não via uma bandinha do interior. Observar pessoas através de uma janela indiscreta é muito interessante e até divertido. Nada tem haver com o voyeurismo. É como observar pássaros. E por falar em pássaros, o barulho quando as aves se recolhem para dormir e quando acordam para a “faina” do dia é infernal para alguns e divino para outros, como eu.

Por hoje é só.

16 de agosto de 2010.

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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui: jgarcelan@uol.com.br
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sábado, 11 de setembro de 2010

AS POLÊMICAS CADEIRINHAS PARA BEBÊS

SEXTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2010

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CLASSE POBRE É DESCARTÁVEL

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O recente exemplo que obriga motoristas a usarem em seus carros cadeirinhas para babes e crianças pequenas, lei que passou a vigorar dia primeiro deste mês, mostra claramente que, como sempre, pensaram apenas nos ricos, e que têm apenas um filho. É incrível como a classe mais pobre é tratada legalmente como algo descartável e que pode ficar sujeita a todos os perigos que os mais ricos são poupados. Este efetivamente é um país da estupidez. Imaginem a situação de uma família pobre que tem quatro filhos com idade entre 4 e 7 anos. Mesmo que entendam que a nova lei traz segurança para suas crianças, onde vão colocar os assentos elevados que esta nova lei obriga? Na cabeça do gênio que fez a lei? Ou seria melhor a família do pobre coitado comprar outro veículo para transportar todos os seus membros? Tem mais: agora não se pode dar uma carona a uma mulher com um bebê de colo se não tiver a tal cadeirinha... Mas, ela pode pegar um táxi ou um ônibus, que estão desobrigados a ter esses dispositivos de segurança, não é um absurdo?
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Lembram da lei que obrigava o motorista a carregar um kit de primeiros socorros e que não pegou? Não sei... Tem alguma coisa parecida e que cheira muito mal nessa história, ou melhor, nessa lei, embora deva reconhecer sua capacidade de salvar ricas vidas. Esse tal kit de primeiros socorros deixou dezenas de empresários milionários. Tenho um guardado em casa como lembrança, caixinha azul e na época paguei 10 reais por ele. Comprei na estrada, quando viajava pela Anhanguera, de São Paulo para Franca, com receio de ser multado e ainda ter o carro apreendido. Era composto pelos seguintes materiais: dois rolos de ataduras de crepe, um rolo pequeno de esparadrapo, dois pacotes de gases, uma bandagem de tecido de algodão triangular, dois pares de luva de procedimento, uma tesoura de ponta romba. E a Lei do Trânsito é clara. É proibido colocar as mãos em acidentados para não agravar seu estado de saúde, deve-se preservar o local e chamar as autoridades competentes. Pergunto: para que servia então aquele bagulho a não ser enriquecer favorecidos do Poder?
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A resolução que obriga o uso de cadeirinhas em carros de passeio entraria em vigor em junho, mas teve de ser prorrogada por mais dois meses devido à falta do produto no comércio, dando chance para os motoristas se adaptarem. A partir do dia primeiro deste mês, independentemente de ter o produto nas lojas, a norma passou a valer. A lei é rigorosa com os pais que possuem carros e exige deles a compra de cadeirinhas e absoluto cuidado com os filhos.
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São três tipos de assentos diferentes até os sete anos e meio, cada um para certa idade e a multa vai chegar a quase R$ 200 e punição de sete pontos na carteira de habilitação. Hoje há modelos no mercado que variam de R$ 150 a mais de R$ 1 mil, valores altos para a população de baixa renda. E não há variedade de marcas populares, na avaliação da Associação Brasileira de Produtos Infantis. Para as crianças pobres que andam de ônibus isso não é exigido o que deixa implícito que o próprio Estado permite que as crianças de baixa renda sofram impactos violentos desde que os meninos de bem estejam protegidos.
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Como se não bastasse tal privilégio a Lei ainda é clara ao afirmar que em carros antigos, anteriores a 1998 que só possuem cintos de duas pontas que não aceitam as cadeirinhas, os motoristas estão isentos de multa. Ora, quem possui carro velho são os mais pobres e mais uma vez a questão financeira se sobrepõe a questão da vida. Se existem carros com cintos subabdominais que se obriguem os fabricantes a produzir equipamentos compatíveis com esse tipo de veículo. Mais ainda. Se a lei é para ser cumprida e pode salvar preciosas vidas, que seja estendida para todos os veículos, entre eles táxis e vans escolares. Eu pergunto: seu filho está mais seguro em um táxi ou no transporte escolar do que no carro do pai dele, do lado da mãe?
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Igualmente a Lei do Cinto não chegou aos coletivos e volto a perguntar: qual é a dificuldade de se instalarem cintos de segurança nos ônibus coletivos urbanos e exigir seu uso pelos passageiros como é feito em automóveis particulares? Poderia haver resistência no inicio como houve com os motoristas de carro, mas depois todo mundo se habituaria em caso de colisões e não teríamos mais as dezenas de acidentados, quase todos com lacerações na face porque simplesmente o cinto é coisa de rico. Para o Contran, pobre pode e deve esbagaçar-se no banco da frente dos coletivos, meter a fuça nas ferragens para deixar de ser pobre. O danado já se acostumou até a ficar em pé, espremido em ônibus lotados e não reclama, quer coisa mais errada? Sempre que acontece uma colisão com um destes ônibus urbanos, observem as notícias em jornais, o pobre é o primeiro a ser arrebentar todo, e depois, se der sorte e sair com vida, ainda se vê obrigado a enfrentar a fila do PS em busca de socorro...
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Nunca se viu tanto descaso pelos mais humildes que compõem a grande massa de nossa sociedade e acredito que poucos países teriam a coragem de excluir assim legalmente seus mais necessitados dos instrumentos e das normas de segurança apenas porque eles são pobres. No Brasil isso é feito de modo acintoso e com o aval da lei que distingue claramente quem pode ou não pode morrer, quem deve ou não deve acidentar-se baseado unicamente em sua renda financeira e nos seus bens materiais.
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ENTENDA A LEI

Crianças com até um ano devem utilizar, obrigatoriamente, o “bebê conforto ou conversível”. As crianças com idade superior a um ano e inferior ou igual a quatro anos devem andar na “cadeirinha”. Já as crianças com idade superior a quatro anos e inferior ou igual a sete anos e meio deverão utilizar o dispositivo de retenção denominado “assento de elevação”.
Somente a partir dos sete anos e meio, a criança pode ir sentada no banco usando o cinto de segurança do veículo.
No caso de veículos que só possuem banco dianteiro, caso das cabines de caminhonetes, é permitido o transporte de crianças com menos de dez anos no banco da frente, desde que viaje no dispositivo de retenção.
A multa para quem descumprir a nova regra é gravíssima. A punição é de sete pontos na carteira e multa de R$ 191,54. Na cidade, o carro fica retido até que se providencie a cadeirinha adequada. E durma-se com um barulho desses...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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