domingo, 17 de outubro de 2010

SÁBADO, 16 DE OUTUBRO DE 2010


Para quem está em casa estatelado na poltrona ouvindo o jogo de seu time preferido pelo rádio, ou assistindo pela televisão, nem de longe imagina os momentos de angústia que passa o narrador esportivo em determinado momento. Para o atleta que faz o gol, o momento é divino, repleto de glória e prazer, mas para o locutor é a hora do perigo. Afinal, que ameaça poderia oferecer um gol, momento mais aguardado para quem está no estádio?
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Presenciei, como comentarista esportivo em meus cerca de 35 anos de labuta por este nosso Brasil afora, situações inusitadas e até perigosas, algumas das quais ao lado do considerado Edward de Souza, brilhante narrador esportivo. Acompanhe: na maioria das vezes as equipes esportivas (rádio ou TV), são acomodadas em cabines que ficam no setor de numeradas cobertas do estádio e próximo a torcida que pagou mais caro pelo ingresso e, supostamente, mais educada e ordeira.
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Quando o gol é para o time da casa, a torcida vibra e o berro do locutor se perde no burburinho do grito da galera. Porém, quando acontece o contrário (gol do adversário), o bicho pega, pois a torcida da casa silencia e o vozeirão do narrador (todos têm vozeirão) se espalha pelo estádio, impulsionado pela arquitetura e acústica da praça esportiva. Foram muitos os casos em que foi preciso fazer malabarismo para não ser atingido por pedras, chinelos, garrafas, copinhos plásticos, pilhas e até guarda-chuvas em alguns estádios, atirados por torcedores irritados com o brado de gol inimigo ecoado por um narrador mais afoito e de grito mais estridente.
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Uma tarde de domingo, com sol a pino, na aconchegante cidade de Jundiaí/SP jogavam Paulista e Santo André, que teve o acompanhamento da Rádio Diário do Grande ABC, com Rolando Marques (narrador), Sidney Lima (repórter) e eu (comentarista). Os dois times estavam em situação crítica no campeonato e ambos ameaçados pelo rebaixamento. O Paulista, mandante do jogo, abriu o placar e, claro, o grito do nosso Rolando Marques foi encoberto pela vibração do torcedor da equipe da casa, feliz pelo prenúncio da vitória e a possibilidade de escapulir da queda à Segunda Divisão.
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No começo do segundo tempo, no entanto, o Santo André empatou e o grito de gol proveniente das cabines foi o suficiente para que dezenas de torcedores em frente se virassem e passassem a ofender os homens de imprensa que estavam logo acima. O jogo seguiu, com a torcida perdendo a paciência com seu time, que não conseguia, por mediocridade, vencer o também limitado adversário. Em seguida o Santo André fez 2 a 1 e aí o mundo veio abaixo, com os torcedores postados em frente as cabines atirando tudo que havia em mãos sobre os narradores ainda na metade do grito de gol que o fôlego permite. Eram tantos os objetos, principalmente pedras (parte do estádio estava em construção), que obrigou todos os jornalistas instalados nas cabines a procurar abrigo. Teve radialista que largou microfone, maleta de transmissão e escuta e caiu fora. A polícia interveio, mas a balburdia foi tanta que houve a necessidade de o árbitro paralisar o jogo. Felizmente ninguém se feriu seriamente.
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Outra noite, em Bauru, lá estavam, pela Rádio Diário, o narrador Edward de Souza (foto) e o comentarista Daniel Lima. As cabines acanhadas do estádio Alfredo de Castilho ficavam exatamente atrás das cadeiras numeradas. No intervalo do jogo o comentarista Daniel Lima, que nunca fez muito esforço para esconder sua simpatia pelo Santo André, exagerou nas críticas ao Noroeste que então perdia de 2 a 0 para o time do ABC. Nas cadeiras, ao nível das cabines, alguns torcedores enfurecidos saltaram o pequeno balcão que separava público e imprensa e partiram pra cima do comentarista da Rádio Diário e quem mais se colocasse à frente. Depois de alguns catiripapos, Daniel x torcedores, nosso Edward e outros colegas de rádios de Bauru conseguiram acalmar os ânimos. A não ser uns pequenos arranhões, nossos companheiros puderam retornar com o mesmo número de dentes que daqui saíram.
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Uma das situações mais complicadas que a equipe de esportes da Rádio Diário do Grande ABC viveu foi no Pacaembu, em jogo do Corinthians com o São Caetano. As cabines reservadas às rádios do Interior ficam localizadas a esquerda de quem entra pelos portões principais do Pacaembu. Têm visão privilegiada para o gramado, mas fica em espaço onde circulam normalmente os torcedores das arquibancadas. O Corinthians não vinha bem das pernas naquele Paulistão e a Fiel estava meio ressabiada.
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Neste jogo, o São Caetano fez 1, 2, 3 gols, contra apenas um do Timão. Os gritos dos narradores nos gols do Azulão (São Caetano) ecoavam pelo Pacaembu deixando os corintianos furiosos. Não foi necessário esperar o jogo acabar para que, enfurecida, parte da torcida postada nas arquibancadas arrebentasse as portas da cabine e foi um salve-se quem puder. A gente não sabia por onde escapulir daquilo que poderia se transformar em massacre.
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No reservado à imprensa do Interior, no Pacaembu, existe apenas uma porta e, naquele momento, não havia como fugir. Quem estava fora não entrava e quem estava dentro apanhava indiscriminadamente. Para acabar com a "farra" dos corintianos a polícia teve que intervir com rigor, entrando pelas janelas (espaço usado pelos locutores e comentaristas para verem o jogo). A dramática situação durou pelo menos uns bons 20 minutos, mas ninguém se feriu com gravidade, porém foi mais assunto, claro, que o próprio jogo.
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São tantos os casos nessa linha que o espaço não permite relatar e que, certamente, ficarão para outros artigos, como, por exemplo, aquele em que as equipes de esportes das rádios Diário e Emissora ABC tiveram que deixar o estádio da Esportiva, na cidade de Guaratinguetá, aboletados no camburão da Polícia Militar. Mais do que da voz, os jornalistas de rádio e televisão tem que cuidar do físico, pois a qualquer momento podem necessitar de pernas saudáveis para uma rápida e providencial escapadela.
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* Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

QUINTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 2010


No passado, geralmente, aos 18 anos, as mocinhas tinham acabado de debutar, estavam nos inocentes bailinhos, escrevendo diários românticos com capas cor de rosa, sonhando com belos jovens para namorar, ou deles desfrutando num banco de pracinha... Nem todas.
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Quando Dilma Rousseff tinha 18 anos havia uma feroz ditadura militar no Brasil. Esse regime mantinha um Congresso como fachada democrática, ao mesmo tempo em que censurava a imprensa, cometia impunemente todo tipo de corrupção, nomeava governadores e senadores biônicos, torturava e matava presos políticos, inclusive aqueles que não concordavam com a luta armada e combatiam a ditadura de forma pacífica. Os casos são numerosos, mas o mais emblemático foi o do jornalista Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura, que causou grande comoção. Foi nessa idade que Dilma se engajou na luta contra a ditadura. Até para os padrões de hoje, ou principalmente nestes tempos de individualismo exacerbado, tem que se reconhecer nisso uma precocidade especial, de maturidade política. O sentido aqui não é de experiência e sim de consciência social. Dilma não era caso isolado. Foram os jovens, em esmagadora maioria, que tiveram coragem de reagir com ações práticas contra a ditadura. A maior prova disso foi o movimento estudantil, universitário e secundarista, com suas passeatas nas ruas, duramente reprimidas pelas forças policiais, bem equipadas e treinadas para esse objetivo. A segunda prova foi a luta armada. Ainda que equivocada, sem qualquer chance de vitória no campo militar, e deflagrada no momento errado, quando a classe média vivia a euforia do “milagre econômico”, fruto na verdade de uma grande oferta internacional de crédito, a luta armada precisa ser respeitada pelo ideal dos jovens nela engajados, egressos do movimento estudantil.
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Foi um erro? Sem dúvida, principalmente porque fortaleceu a ditadura, na medida em que o povo não entendeu o que estava acontecendo, manipulado por forte contrapropaganda, e porque unificou bolsões de discórdia dentro do próprio regime, principalmente nas Forças Armadas. Foi um grande erro da esquerda, que aumentou a sobrevida da ditadura e deu os motivos que eles queriam para seu maior radicalismo. Só que essa análise fica fácil hoje, transcorridos quase cinquenta anos desde 1964, ou exatamente 42 anos, desde 1968, quando a resistência democrática foi para as ruas e partiu para a ação. Naquele momento, quando se vivia o medo físico do Estado, arrocho salarial, intervenção e controle dos sindicatos, inflação descontrolada superando os dois dígitos, todo tipo ostensivo de opressão, corrupção generalizada e impossível de denunciar, fechamento de jornais pela força, falta de liberdade de opinião, proibição de votar para cargos majoritários, entre outros horrores até de maior gravidade, ficava mais difícil adotar uma posição com visão crítica totalmente lúcida e pragmática, e sobretudo isenta e desprovida de emoção.
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Se hoje, com toda a paz e liberdade democrática em que vivemos, com a chance do povo escolher soberanamente seus governantes, as eleições já despertam paixões e ódios, alguns cegos e quase incontroláveis, com visões maniqueístas dos dois lados, imaginem então como eram os sentimentos das pessoas sob um regime sem esperanças e de absoluta opressão. Esperar o quê, principalmente dos jovens politizados? Paciência e resignação? Centenas de jovens morreram no sacrifício da luta democrática, ou padeceram nos centros de tortura patrocinados por banqueiros, grandes empresas nacionais e multinacionais, em colaboração e conivência com o estado autoritário. Os nomes dessas empresas já foram exaustivamente divulgados na literatura sobre o tema, é uma lista longa, e entre elas se destacou a Ultragaz, então presidida pelo tristemente célebre empresário norueguês Henning Albert Boilesen, que participava pessoalmente das torturas e recentemente virou tema de filme. O financiamento para a montagem do aparato repressivo, em 1969, foi a partir de uma reunião com empresários liderada em São Paulo por Delfim Netto, juntamente com o lobista de empreiteiras Luiz Macedo Quentel. Mas o maior incentivador foi o banqueiro Gastão Vidigal, dono do Banco Mercantil de São Paulo, que convocou seus colegas. (Fonte: trilogia de autoria do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura).
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Para quem passou toda a vida acompanhando atentamente a política, meu caso desde os dez anos de idade, parece quase inacreditável, hoje, que nomes que fomentaram a repressão ditatorial e deram suporte financeiro aos torturadores, como Delfim Netto e o então prefeito Paulo Maluf, agora estejam alinhados com o governo Lula e até declarem o voto em Dilma, a mesma que foi presa e torturada indiretamente por eles. Porque o crime, como já preconizava Sófocles na tragédia grega, no belíssimo texto da peça Elektra (“a mão foi minha, o gesto foi teu”), não é só pela mão que o comete, mas também pela que o induz. Ou nada fez para impedi-lo. Assim é a política. Fria e calculista. Atrelada ao jogo da busca do poder por todos os meios, não raro os mais condenáveis e manipuladores, como mostra claramente esta eleição, que remete o Brasil ao início do século passado quando questiona a fé religiosa dos candidatos. Um pouco mais e teremos de volta a Santa Inquisição. Nesse retrocesso assustador, avança o poder de padres e pastores que fariam os piores chefões da máfia se sentirem amadores. Mas duro mesmo é ver todos os candidatos se dobrando a isso.
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Voltando ao passado recente, a quem tiver especial e mórbido interesse por detalhes da tortura recomendo a leitura do livro “A Ditadura Escancarada”, página 182, do insuspeito jornalista Elio Gaspari, que na ditadura chefiava a redação da revista “Veja” e era amigo íntimo do general Golbery do Couto e Silva, homem forte do regime. Lá está o depoimento de um torturador, com detalhes. No mesmo livro ele conta que em 1970 “o regime tinha cerca de 500 pessoas nos seus cárceres. Mais da metade deles eram estudantes, com idade média de 23 anos”. O lado do governo também teve baixas a se lamentar, mas em número muito menor, e nenhum torturador e estuprador foi punido.
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É indispensável perceber que esses jovens não estavam lá para enriquecer, muito menos para fazer carreira política, pois viviam na clandestinidade, sem usar sequer o próprio nome. Na vida legal seria mais fácil, e oportunidades de carreira não lhes faltariam, principalmente no caso de Dilma, de uma família mineira próspera, frequentando boas escolas particulares católicas. Viver na clandestinidade e sendo caçado pela polícia política significou imensos sacrifícios, como a restrição de movimentos, alimentação precária e irregular, não ter um teto e uma cama própria para dormir na próxima noite. Fora a tensão permanente, o medo natural e humano, do confronto armado, ser preso, torturado, morto. Cada passo, na rua, tinha que ser em estado de alerta, observando o entorno, se não havia alguém seguindo. E, dentro de casa, nunca definitiva, a mesma tensão a cada ruído, sirene, gente ou carro parando na frente.
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Essa luta consumiu de forma dramática aqueles que seriam os melhores anos na vida daqueles jovens. E quem passou pela tortura, ainda que controle seus sentimentos e tente erradicar isso da memória (esforço inútil), carregará para sempre, em menor ou maior grau, conforme cada pessoa, um trauma irreversível e irreparável em qualquer sentido. Não serão, portanto, as reparações financeiras aos anistiados que irão apagar seus pesadelos depois de tanto sofrimento. Inimaginável sofrimento. Isso apenas lhes assegura um certo conforto na velhice e o reconhecimento de que o Estado errou ao fechar os olhos aos mais básicos direitos humanos daqueles que estavam sob sua tutela. Dilma Rousseff fez parte dessa geração. Teve a sorte de não tombar, mas sofreu a prisão e tortura. Por má fé, ou ignorância histórica, é apontada por alguns como “terrorista”. Quem fala isso desconhece, ou finge desconhecer, que o termo foi criação da ditadura para desqualificar a luta dos seus opositores. Qualquer pessoa que caísse nos porões do DOI-CODI, chefiado por majores do Exército, ou do Deops, chefiado pelo delegado Romeu Tuma (ele mesmo, o atual senador que fala em Cristo), era chamada de terrorista. Eu sou prova disso. Nunca tive treinamento militar, sequer sei atirar com espingarda de rolha, jamais vi de perto uma bomba, mas quando fui preso, em dezembro de 1970 (no mesmo ano e local onde Dilma foi presa), e novamente detido “para averiguações”, em 1975, sofrendo coação moral, lá fui tratado e chamado como “terrorista”. Para a ditadura não havia democratas ou simplesmente opositores, todos eram “terroristas”, este ser covarde que ataca oculto e busca alvos civis sem capacidade de defesa. Coisa que nossos combatentes jamais fizeram. Muito menos Dilma, com seu humanismo que a projetou naquelas trevas.
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Ainda que equivocada e grande erro estratégico, a luta armada tem que ser interpretada como um tempo de guerra civil. Nisso pesa uma grande contradição dos militares. Eles não reconheciam seus inimigos como combatentes, também soldados. Para eles eram apenas “terroristas”, sem direitos humanos. Mas os militares envolvidos na repressão eram considerados formalmente como combatentes em tempo de guerra. Havia até condecorações, em solenidades internas. Ganhavam soldos dobrados e contavam tempo de serviço também em dobro, entre outras regalias não extensivas aos seus colegas em tarefas rotineiras da caserna. E as equipes de buscas, aquelas que saiam para prender as pessoas, efetivamente com risco de vida, tinham o prêmio do saque nas casas que invadiam. É claro que isso não era oficial, mas tolerado clandestinamente pelos comandos.
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Meu apartamento foi invadido e enquanto estive preso eles levaram tudo, à luz do dia, sem ligar para o testemunho dos vizinhos. Quando voltei para casa sequer tinha cuecas para vestir. Por sorte, eles desprezaram um velho calção de banho. Fizeram o saque como se fosse uma mudança normal, contaram depois os vizinhos. Vejam, não estou falando de assaltantes comuns e sim de agentes do Estado, investidos de autoridade sem limites. Existem centenas de histórias sobre seus abusos. Quando meu irmão, também preso comigo há 11 dias, sem direito sequer a advogado, reclamou do saque a um oficial do DOI-CODI, ele respondeu com a ameaça de nos manter presos por mais tempo. Isso, amigas e amigos, era a ditadura!
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Dilma dedicou grande parte de sua juventude a essa luta sem nenhum glamour e sem nenhuma perspectiva real de vitória. Rodeada de incerteza e medo cotidiano, a cada minuto. De desconfiança de tudo e todos. Resumindo: um inferno. Não muito diferente do mesmo inferno que José Serra também viveu, como ex-presidente da fase mais radical da UNE (que apoiava Cuba), em 1964; clandestino; depois no exílio; e no golpe do Chile. Estavam do mesmo lado, só que lutando com métodos diferentes. A luta armada não era para qualquer um. Requeria sólida estrutura moral e ideológica, e acima de tudo aceitação do risco de morrer. Este último quesito não se encaixava na personalidade de Serra, nem poderia, com sua ambição doentia de algum dia se tornar presidente. Para isso ele joga pesado e mente, prometendo tudo que não fará, e faz aliança até com o diabo. Que o diga esse DEM, reunião de tudo de ruim que existe na política brasileira.
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A opção de morrer também não me empolgou, por isso não avancei, o que significaria ir para a clandestinidade e receber treinamento militar. Mas reconheço que a coragem de Dilma foi admirável, pois era uma garota idealista. O oposto não era covardia, apenas a opção de cada um. Eu comecei a militar na política aos 17 anos, em 1963. Em 1970 já estava convencido que o povo pelo qual lutava não merecia minha vida. Povinho ordinário, que anos depois me provou isso elegendo o desvairado Collor, hoje em repugnante aliança com Lula. Argumentam que desejavam trocar uma ditadura de direita por outra, de esquerda. Isso contém verdade e mentira. A mentira fica por conta da generalização, pois a esquerda, assim como a direita na época, também era dividida nas mais diversas correntes. Nos dois lados havia facções radicais e também democratas. Os militares atrapalhavam os projetos também dos políticos da direita, acirrando suas contradições. E não custa lembrar que até o conservador jornal “Estadão”, que não apoiava a luta armada, se tornou opositor ao regime, lutando contra a censura. O mesmo “Estadão” que em 1964 conspirou para derrubar João Goulart, o Jango.
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Que cada eleitor faça sua opção de forma muito consciente e responsável. Por falta de melhor opção, já que anular é pior, e considerando que ladrões existiram em todos os governos, não tem jeito, vou votar em Dilma. Bem ou mal, ruim por ruim, como diria o filósofo Tiririca, me agradam mais as políticas sociais do governo Lula do que as privatizações irresponsáveis e lesivas ao Brasil da era FHC. Minha escolha não é a infantil da simpatia pessoal, e sim da discussão no campo macroeconômico. Se é para falar de escândalos, então vamos puxar o pior da História, que foi o PROER, do FHC, quando socializaram o rombo dos bancos, sem colocar nenhum banqueiro na cadeia. Já os lucros astronômicos nunca pensaram em socializar. O povão, coitado, imerso em sua ignorância sobre economia e finanças, pagou e nunca soube disso.
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Mas a biografia da Dilma não pode ser deturpada e cruelmente manchada como fruto, repito, de má fé ou ignorância. Ou, certamente, ambos. É levianamente chamada de assassina sem que se aponte o nome de uma única vítima. Cadê a prova, pedra basilar da Justiça? Falam que assaltou bancos, sem apontar quais e onde. Quem acusa tem que provar. Ou não é mais assim? E mais: é injusto discutir sua militância, isso é passado, porque com culpa ou sem culpa ela já cumpriu duplamente sua punição: primeiro, sendo torturada, uma violência inaceitável e inqualificável sob qualquer prisma; segundo, ficando 3 anos na cadeia. O que querem mais? Até quando? Em que limite? Não é a pessoa de Dilma que incomoda e sim o que ela representa, como antítese da acomodação e das ambições mais mesquinhas da classe média, que só aspira ao dinheiro, desprezando valores morais e humanos, sem o mínimo sentimento de solidariedade social. Basta ver como gritam contra o Bolsa Família, para socorrer miseráveis, com um valor microscópico perto de tudo que os barões já roubaram e continuam roubando neste país. Mas a esses barões eles se curvam em admiração submissa e servil. E não percebem o principal: o Bolsa Família não é a fundo perdido. O dinheiro volta positivamente, pois a formação de classes consumidoras irriga a economia, gerando investimentos e empregos. Isso está acontecendo no interior do Nordeste e explica a larga vantagem de Dilma naquela região.
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Se existiu violência, ela começou no golpe de 1964, com a derrubada pela força de um governo constitucionalmente eleito, pelo voto popular. Se havia alguma razão para tirar o presidente João Goulart, lá estava, pela via legal, o Congresso Nacional. Como aconteceu depois com Collor. Equivocada ou não, a luta armada foi uma resposta a uma violência que começou antes, subtraindo os direitos e garantias dos cidadãos. Em última análise, foi legítima defesa, comparável aos movimentos civis de resistência ao nazismo durante a II Guerra Mundial. Os assaltos a bancos, financiadores diretos da repressão, eram a fonte de sustentação das organizações. Nessas ações jamais tocavam num único centavo de qualquer correntista presente. Tiravam, portanto, dinheiro do inimigo, no contexto da luta nacional. Quem fizer julgamento moral tem que ser isento e considerar também o financiamento da tortura pelos banqueiros. A militância engrandece a história de Dilma, porque representou um ato de muita coragem e de renúncia ao conforto pessoal. Foi doação sacerdotal de uma jovem idealista ao seu povo e ao seu país, enquanto outros se aliavam ao arbítrio e se lambuzavam em sua lama.
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*Milton Saldanha - Jornalista profissional e escritor, 65 anos, SP.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010




Minha família é tradicionalmente católica. Meus avós e meus pais sempre foram da religião católica, embora não praticantes. Segui os passos de meus pais e meus irmãos mais velhos até a adolescência. Analisando o meu comportamento na infância, acredito que nem nos meus primeiros anos fui de confiar muito em religião. Tanto que, logo após a cerimônia em que fui batizado, sai com uns colegas para roubar abacaxi numa chácara nos arredores de Bálsamo. Anos mais tarde, talvez mais por curiosidade, frequentei centros de umbanda, participei de sessões espíritas e estive em templos evangélicos. De todas, a que mais me atraiu foi o espiritismo, talvez pelo que essa religião tem de mágico ao pregar a interrelação de pessoas vivas com as mortas. Só que das sessões das quais participei, nunca tive o privilégio de manter contato com nenhum espírito. Pode ser por falta de preparo, não sei.

Voltei a questionar a religião depois que a Eva, católica desde criança, se tornou evangelista, já adulta, com os filhos criados. A sua fé é tamanha que chega a causar espanto. Para ela, Jesus Cristo cura todos os males. Nesse meu período de recuperação, ela mantivera um contato diário comigo, via correio eletrônico. A maior parte das mensagens enviadas era bíblica, mostra que o homem deve sempre ser corajoso, jamais esmorecer diante das dificuldades e manter sempre a esperança de que um Ser Superior o quer bem e o livrará de todos os males. Chegou inclusive a me mandar um vidro contendo mel ungido. Esse material, abençoado, é para ser colocado no local afetado pela dor e, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pedir que a dor desapareça.

Uma pessoa com um tumor maligno infiltrado na cabeça, por mais que deseja, não consegue continuar com um procedimento normal. É induzido a se apegar a tudo com o significado de esperança de cura. Essa a principal razão que me leva a seguir as orientações da Eva. Geralmente à noite, sozinho, coloco a unção na direção do tumor e peço o seu desaparecimento e a devolução de minha saúde. Reconheço, no entanto, que se Ele é realmente onipresente, onisciente, sabe do pouco de fé existente em mim. Reconheço, também, que se for curado, não terei pudor em dizer, a quem me perguntar, que houve a intercessão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que orientou os médicos responsáveis pelo meu tratamento.
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Ilca, vida e amor

A Ilca me acompanha desde os seus 18 anos de idade. Quando a conheci no parque, durante um festival de aperitivos, jamais imaginaria que aquela menina seria a minha companheira por toda a vida. Posso dizer que devo a ela o fato de hoje não ser um molambo a perambular pelas ruas ou um indigente internado em algum asilo de loucos. Não esmoreceu nem no auge de minha fase de alcoólatra. Suportou meu bafo podre de cachaça sem nunca reclamar. Também nunca interferiu em minha vida para que eu parasse com a bebida ou com o cigarro. Sempre me deixou ser um homem livre em minhas decisões. Caso ela tivesse me abandonado durante meus longos períodos de desemprego e aumento do consumo de bebidas alcoólicas, certamente não teria em quem me apoiar.

Costumo dizer que a Ilca é, para mim, cinquenta quilos de amor e um metro e cinquenta de coragem, referindo-me ao seu peso e à sua estatura. Uma pequena grande mulher, que aprendi a admirar e a amar mais e mais a cada ano em que passamos juntos. Ao contrário de mim, ela se apega ao emprego. Nesse mais de trinta anos em que a conheço, só trabalhou em três locais: em uma metalúrgica, durante quase quinze anos, em uma concessionária revendedora de veículos, o mesmo período e, depois de aposentada, continuou na ativa, como secretária executiva, sua profissão, em um sindicato patronal.

Com os recursos obtidos com o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço conseguiu dar entrada na compra da casa onde moramos, financiada que foi pela Caixa Econômica Federal. O financiamento era por vinte anos – em menos de cinco ela quitou o imóvel que, agora, ela está modificando e deixando-o como sempre sonhou seria a sua casa.

Mesmo querendo esquecer, no início, eu a hostilizava, tentando com esse procedimento testar se ela realmente me amava. Ela, resignada, percebia meu estado alcoólico e fingia nada ter ocorrido. Poucas vezes discutimos e, quando houve discussão, foi por motivos banais. Apesar de minha fama de conquistador, mulherengo, confiou e confia em mim. Nunca me atanazou a vida por minhas viagens nos finais de semana com destino a Ubatuba, a Iguape, ou a outros locais onde poderia levar outras mulheres. Nas poucas vezes em que adoeci, ela foi a primeira a providenciar assistência médica. A mais dolorosa e angustiante foi a constatação de câncer em minha garganta. Estupidamente, a comuniquei por telefone o diagnóstico da doença.

Nunca me deixou só no hospital. Quando não podia me fazer companhia, arrumava alguém que pudesse me dar assistência. Desta última vez, se empenhou de maneira fantástica em conseguir o remédio para o meu tratamento, produzido na Alemanha, que o plano de saúde negava-se a custear. Contou com a ajuda valiosa da advogada Livia Faé Valejo, que obteve liminar para a liberação do medicamento. Um dia, ainda, escreverei um livro somente sobre a Ilca e a sua vida ao meu lado. Acredito que será uma linda história de garra, desprendimento e muito, muito amor. Se me perguntarem o que a Ilca significa para mim, eu direi sem vacilar: ela representa a vida, ela representa o amor, no mais amplo e sublime sentido que essas palavras possam ter. Ilca, vida e amor.
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo sétimo capítulo de "Memória Terminal", o penúltimo escrito pelo jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza).
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terça-feira, 12 de outubro de 2010


“As crianças acham tudo em nada, os homens acham nada em tudo”. Esse pensamento, atribuído ao poeta italiano Giacomo Leopardi, é de uma profundidade fabulosa. A criança, seja ela rica ou pobre, em sua idade inocente desconhece a realidade que a cerca. Os ricos ignoram o mundo além deles. Os pobres vão um pouco mais além, pois vivem em condições subumanas em meio à riqueza materialista sem poder ter acesso a ela. E pior ainda! São invisíveis aos olhos da população indiferente.


Uma data muito especial o dia de hoje. Dois eventos são comemorados. O Dia da Padroeira do Brasil (Nossa Senhora Aparecida) e o Dia da Criança. Nada como reverenciar a inocência, a alegria espontânea e a singela sabedoria presentes nesses pequenos seres que vêm a terra, como anjos, para nos alegrar, e nos mostrar o quanto faz bem, vez ou outra, voltar a ser criança. Com sua ternura, fazem nosso coração transbordar de encantamento, magia, cores e de tudo que é belo. Possuem o dom de sempre nos fazer lembrar, ao atingirmos a maturidade, que a criança que fomos um dia permanece dentro de nós, por toda a nossa existência. Feliz sensação que nos impulsiona vida afora e nos faz, em certos momentos, encarar com menos seriedade problemas de um cotidiano às vezes tão desanimador.

O Dia da Criança se transformou, na verdade, numa data comercial, destinada a difundir o consumismo com a finalidade de aferir lucros. A figura homenageada parece permanecer em plano secundário, como vítima de atentados à formação de sua personalidade, tudo pela subestimação de itens fundamentais à construção de um sistema no qual a dignidade prevaleça. O quadro precisa ser superado: a criança, esse ser indefeso deve ser protegido vinte e quatro horas por dia tal como o fomos ou deveria ter sido, é o futuro da Nação.

Em contraponto às características festivas às quais habitualmente se associa a data em homenagem à criança, a ausência da devida assistência familiar, omissão constatada não apenas nas camadas mais carentes, mas também existente nas classes média e alta, em que a dependência das drogas entre menores tem dado causa a fatos desoladores. Ainda o crucial problema das crianças abandonadas que continua em busca de possível solução. Mas passa ao largo, ninguém ousa buscar entrar a fundo no cerne da questão. As igrejas incentivam à procriação posicionando-se contrariamente ao efetivo controle da natalidade. Do mesmo modo, os políticos se arrepiam, fogem como se avistassem um tenebroso fantasma.

As mães e pais que abandonam seus filhos; jogam em córregos; em latas de lixo ou em matagais, deveriam receber tratamento do Estado como criminosos hediondos, com pena de detenção inafiançável não superior a 30 anos e nunca inferior a 20 anos. Seus filhos poderiam ser encaminhados à adoção e as identidades e endereços dos pais adotivos, mantidos em sigilo absoluto pelo resto da vida. Estas pessoas, os pais que cometem este tipo de crueldade, por mais bárbaro que possa parecer, teriam que passar por cirurgias de esterilização, para não poderem ter mais filhos. Pessoas que agem assim serão um risco eterno e a psiquiatria moderna jamais conseguirá decifrar os códigos e reações que estas mentes podem produzir.
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O abandono de crianças é um assunto complicado, diante de valores religiosos, familiares. Mas não se pode permitir que a praga se alastre. Não podemos deixar que tudo role como se nada estivesse acontecendo. E ainda, pra complicar, a burocracia que inibe adoções. Pobre Brasil, pobres crianças abandonadas... Será que um dia alcançaremos a civilização, com a desejada inclusão social e a liberação feminina de preconceitos?

Mas, de uma forma ou de outra, as crianças sonham. Um brinquedo de última geração, uma boneca ou bola achada nos lixões... Momentos em que nada importa, pois eles acham tudo em suas ilusões fantasiosas. Ao contrário dos adultos que não acham nada, apenas uma visão egoística de um mundo muito particular e que deixam como herança aos pequeninos seus defeitos e poucas virtudes. Um círculo vicioso que se repetirá...

Este e todos os demais dias do ano deveria ser dedicado a preparação das crianças para o futuro. Uma preparação para aprimoramento do ser humano, sem o consumismo exagerado que ocorre nos dias de hoje. Infelizmente, os apelos consumistas falam mais alto. Os mais privilegiados receberão presentes mil, e os deserdados da sociedade? Párias envolvidos nas misérias ocasionadas pela própria humanidade! Como seria bom se os mandatários da nação voltassem suas atenções para as 27 milhões de crianças que vivem abaixo da linha da pobreza e que hoje estão condenadas - se sobreviverem - a uma vida sem qualquer perspectiva.

Estes são alguns dos principais desejos daqueles que se preocupam com o bem-estar de suas crianças e que, lamentavelmente, não são os mesmos que os detentores do poder comungam. Como diz o ditado popular, "enquanto há vida, há esperança", e talvez seja esta a única tábua de salvação em que se agarra a grande maioria dos pequenos deste nosso país.
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*Edward de Souza e J. Morgado são jornalistas profissionais
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LUTO - Faleceu no final da noite de ontem, o amigo Clarindo Ferracioli (53 anos), o Belão, Prefeito da cidade de Restiga, localizada há 12 quilômetros de Franca, vítima de um acidente na Rodovia João Traficante, entre Franca e Ibiraci. O funcionário da Prefeitura de Restinga, Celso Cordeiro, que o acompanhava, também morreu. Os dois, ocupantes de um Fiat Línea que capotou no quilômetro 17 desta rodovia, foram arremessados para fora do veículo. Unidades de Resgate do Corpo de Bombeiros providenciaram o socorro das vítimas e realizaram todo o trabalho de preservação da vida, mas Belão e Celso não resistiram e deram entrada na Santa Casa de Franca sem vida. A cidade de Restinga estará de luto por três dias. Os corpos foram sepultados na manhã desta quarta-feira, no cemitério público daquela cidade.
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

DOMINGO, 10 DE OUTUBRO DE 2010
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Na esteira do burburinho do primeiro turno das eleições e nas especulações e expectativa do segundo turno, as atenções ficam voltadas para qual banda a terceira colocada na etapa anterior vai se argolar agora na reta decisiva. Certamente, Marina Silva (PV) tem código do GPS que conduz ao Palácio do Planalto. Sem a menor pretensão, já que, mesmo com muito otimismo, Marina ou seu partido imaginaram que de repente poderiam obter mais votos do que o pândego e simpático Plínio de Arruda Sampaio.
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Como um jogo de futebol, onde o antecipado favorito derrapa e acaba perdendo para o teoricamente mais fraco, Marina saiu do pé da escada e, de forma surpreendente subiu para perto do topo e transformou-se na bola da vez. A chave do baú está devidamente pendurada no pé de coelho na algibeira da acreana.
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Não foi complicado, e os amigos que degustam este blog puderam constatar, já no domingo passado, dia das eleições, nas conversas de porta de colégio onde o voto seria teclado, que a dúvida do eleitor sobre seu candidato apontava que o cidadão iria cravar a "zebra". O rosto de muitos amigos (as) eleitores (as) já demonstrava que a ex-ministra do PT, bandeada mais tarde para o PV, iria pegar, como pegou, muita gente de calças curtas. Os quase 20 milhões de votos cravados no 43, mudaram o rumo das coisas e alteram o panorama de todo o processo neste segundo turno.
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Pela simpatia que despertou no eleitorado brasileiro, por suas propostas menos mirabolantes e por ser via diferenciada para os indecisos, Marina abocanhou uma quantidade respeitável de seguidores. Acredito que, pelas circunstâncias destas eleições, a fatia que sufragou Marina votou nela e não no Partido Verde, que no decorrer de sua ainda curta história, jamais obteve 5% de votos.
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A condição de barganhar com os dois postulantes foi conquistada por Marina Silva e ela sabe disso. Estivesse em qualquer outra sigla o resultado não seria diferente. Assim, fica implícito que o candidato que tiver seu apoio será o novo inquilino do Palácio do Planalto. Com isso, a simplória camponesa analfabeta, formada depois na perseverança, foi ministra, balançou o coreto de pretensos gigantes e mudou a rota do comboio.
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Ela, Marina, é a detentora dos 19.636.359 votos no primeiro turno, o equivalente a 19,33% dos votos válidos, ficando em terceiro lugar na disputa de sufrágios e, para onde mirar sua varinha de condão, certamente irá alterar o resultado das eleições, como e principalmente, mudar os destinos do Brasil. Petistas e tucanos, que antes desdenhavam a humilde, paciente e simpática acreana, estão aos seus pés, apenas aguardando o sinal para beijá-los. PT ou PSDB, quem fizer isso primeiro, tem que ser antes do dia 17, levará de presente uma faixa presidencial e quatro anos ou mais de residência grátis no Palácio do Planalto, com muita mordomia. Quem viver verá.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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