quinta-feira, 23 de setembro de 2010


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Encontro, no meio de vários envelopes, umas folhas dobradas, já amareladas com o passar do tempo. Abro-as e verifico que se trata de meu mapa astral feito há muitos anos. Procuro saber o que assinalava esse mapa, se não me engano, elaborado por uma jornalista que, nas horas de folga, exercia o papel de astróloga. Ela escreve:
Parto do princípio de que o seu ascendente é Peixes, uma pessoa afinadíssima com o mar, com características inspiradas: amor à arte, às letras, à música, enfim, formas embriagantes de expressão e percepção.
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Coloco Netuno, que é o regente de Peixes, também no ascendente, o que reforça essas características. Netuno é inspiração, o fio de ligação entre o ser humano e o seu criador. Vejo haver algo de místico neste planeta que rege o místico Peixes. Mas este misticismo normalmente não se manifesta nas formas de dogmas, de carolice, mas sim na forma de embriaguez. Netuno é solvente, ele desfaz, como uma lente de água, todas as formas. Tudo em Netuno é confuso, distorcido, caótico, oceânico. Os valores do planeta são muitas vezes tão confusos que este filho de Netuno se afoga em anestésicos em geral: álcool, drogas, sexo, enquanto desligamento do concreto, música, muita música e poesia.
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O ascendente também se refere ao corpo físico. Então, do lado ascendente, está, em conjunção quase exata, o planeta Plutão. Isto porque, segundo os astros, você é suicida. Esta coisa de meta de vida associada à dissolução do corpo, a tal libertação final, a união do finito com o infinito (morte e vida se casam no momento do suicídio) me soou como um encontro de Netuno com Plutão, colocados no signo de Peixes, em aproximação com o ascendente. Plutão é o regente de Escorpião, esse bichinho que se mata, dizem com o próprio veneno, quando acuado. Plutão simboliza a morte, a água parada, a podridão da vida, os esgotos, os cantos da mente onde se escondem os símbolos relacionados à morte, os mitos, os monstros, tudo o que é destrutivo. Plutão mata o que está velho, desde afetos, idéias, valores, até o próprio corpo. E, depois, a pessoa renasce, como fênix, das próprias cinzas. Plutão no ensina a autopurificação por meio de um mergulho profundo na miséria da nossa própria existência.
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Plutão, assim como Netuno, em seu mapa astral, está em aspecto muito tenso com o Sol, o que explica ainda mais a tendência suicida. O aspecto chama-se quadratura. Plutão, a morte, está desafiando o Sol, que é vida, calor, coração, pulsação. Netuno confunde o Sol. Plutão o mata. Traduzindo: o caos desafia a vida, distrai, confunde, vem a morte e a neutraliza. De novo, surge Plutão e Netuno em aspecto tenso com a Lua... Lua, que é igual à mulher, sentimentos, intuição, maternidade, proteção, também é assassinada por Plutão. A Lua está num ponto do mapa chamado meio-céu, superimportante. Você também é lunar, ou seja, almeja, com todo o romantismo que a Lua lhe confere, o amor da mulher, da mãe, a proteção. E, ao mesmo tempo, teima em se colocar neste papel, de superior. Você ama a intensidade. Mas também inconstantemente. Por que a Lua está em Sagitário, signo de muita liberdade, signo de viagens, de autonomia, signo que acha que o gramado do vizinho é mais verde. Então sempre que consegue uma coisa (uma mulher, por exemplo) já enjoa e começa a cobiçar a do próximo.
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A Lua está em oposição ao Sol. O Sol está colocado no fundo do céu, que dá um certo amor à estabilidade (conjugal, familiar, apego às raízes). O Sol, mesmo conservador, se revela ainda como inconstante porque está colocado em gêmeos, signo da comunicação, dos contatos rápidos. Quase todo geminiano é namorador, beija-flor, borboleteador. Ele vai para cá e para lá. Sol está ainda em conjunto (muito próximo) à Vênus, o que faz com que você seja charmoso, e que acredite sinceramente em cada paixão. Esta será a definitiva. Mas não será. De novo, cheio de boas intenções. Outra característica de um tipo namorador, que invariavelmente termina sozinho, sem ninguém, sem afeto: Saturno (solidão, conservadorismo) conjunto à Marte (tesão, ação, iniciativa) no descendente. Outro ponto importantíssimo do mapa diz respeito à nossa procura e ao nosso encontro com o outro.
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E, ao final, um recado para mim: Olha, um mapa é um negócio interminável, e eu só disse algumas poucas coisas. Acho que é difícil você entender tudo isso, por que não está acostumado com nada desses símbolos. Eu lamento se não deu para entender. Tentei ser clara, juro por Deus. Em tempo: Saturno do descendente é que deve fazê-lo sofrer por ter magoado às ex-mulheres. Urano, na 12ª casa talvez explique a sua “tristeza existencial a respeito das injustiças sociais. Urano é socialista, revolucionário e está colocado na casa que diz respeito ao destino, à moira, ou seja, desgraças inevitáveis com as quais você não se conforma.
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Assinado: Liliana.
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Ao ler esse nome, lembro-me então da jornalista, jovem e simpática, que
trabalhava em Santo André, na Sucursal de O Estado de S. Paulo. Devo confessar que, apesar de ser um mapa astral, repleto de simbolismos, reconheço haver, em suas previsões, mais acertos do que erros. Só não previu essa doença, que continua a me maltratar e a me entristecer. Os diagnósticos dos médicos do Hospital do Câncer, depois de verem as últimas imagens feitas da minha cabeça e do meu pescoço, me deixaram intrigado. Primeiro, o otorrinolaringologista Ricardo Testa desconfiou da existência de vestígios de células cancerígenas nas proximidades da laringe. Não confirmou nada, porém. O cirurgião Mauro Ikeda, que me operou da primeira vez, ao analisar as imagens, mostrou-se satisfeito com o que viu. Ressalvou, no entanto, que eu deveria passar, a partir daquela data, por um tratamento alternativo, menos agressivo ao organismo. Essa decisão teria que ser tomada pelo oncologista Ulisses Nicolau. Iria depender dele o meu futuro...
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Minha consulta com o doutor Ulisses estava marcada para dois dias depois, no período matutino. Seria um dos primeiros a ser atendido. No dia e na hora marcada, para minha frustração, fui atendido por um de seus auxiliares que, mesmo de posse do meu prontuário, fez as perguntas banais de quem vê o paciente pela primeira vez: quanto tempo fumou, bebeu muito, e outras mais que já respondera desde a primeira vez quando passei por cirurgia. Esse médico-assistente, depois de analisar as imagens, me disse que tudo estava bem. Tentei ainda argumentar, lembrando que seus colegas médicos haviam indicado a provável necessidade de se fazer um tratamento alternativo devido às suspeitas de haver resquícios de células cancerígenas. Ele mostrou-se irredutível em seu diagnóstico, que foi comprovado por um dos médicos titulares que compareceu logo depois. Marcou a próxima consulta com o doutor Ulisses para daí a três meses. Sai do hospital apreensivo, tendo ao lado o inseparável Jacaré. E se realmente existir essas células cancerígenas? Elas terão mais de noventa dias para se proliferarem e, então, será tarde demais para controlá-las. Esse era e ainda é o meu pensamento, o meu temor, que prolonga a minha agonia.
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Menos de um mês após essa consulta, comecei a sentir enjôos e a perder o apetite. Dos dez quilos que ganhara em quinze dias, quatro sumira em apenas dois. Não conseguia comer. Para agravar a situação, tive diarréia e vômitos seguidos, o que me deixou ainda mais intrigado. Mesmo assim, angustiado pela dúvida, procuro continuar a viver, passando por sessões de fonoaudiologia para ver se consigo voltar a mastigar e a engolir normalmente. A falta de saliva impede que isso ocorra. Tenho que me utilizar de caldos, cremes de legumes, para induzir goela abaixo pequenos pedaços de peixes sem espinho. Experimentei carne e linguiça, para diversificar. Foi inútil. Só mesmo o peixe, leve e macio, passa pela goela, sem provocar engasgos.
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Conformado, sinto inveja, quando num bar ou numa padaria, vejo as pessoas mastigando lanches de pão com mortadela ou comendo pizzas e elas parecem não entender o porquê desse meu sentimento. Meses antes de ser acometido da recidiva, eu já demonstrava estar me recuperando aos poucos, comendo pequenos pedaços de pastel de palmito, regados à cerveja. Agora, nem esse pequeno prazer estou tendo. E dou graças por estar me alimentando sem a ajuda de aparelhos. A vida continua...
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo quarto capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
(Edward de Souza).
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Prezados amigos (as) leitores deste blog...
Nesta quarta-feira seria publicado mais um capítulo inédito da Série Memória Terminal, do saudoso jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo. Problemas ocorridos ontem com a CTBC, cujos reparos ainda não foram devidamente sanados, impediram a postagem do texto, o que deve ocorrer excepcionalmente nesta quinta-feira, já nos primeiros minutos da madrugada. Agradecemos a atenção e deixamos o convite para logo mais acompanharem o capítulo desta série que está chegando ao seu final, e faz um enorme sucesso, recebendo normalmente acima de 600 visitas.

Grato...

Edward de Souza

terça-feira, 21 de setembro de 2010

SEGUNDA-FEIRA, 20 DE SETEMBRO DE 2010


Este texto escrevi em abril de 2007 e foi publicado em jornal. Três anos e cinco meses depois poderia ter feito desta crônica, um livro, tantos os escândalos que tomaram conta do noticiário, principalmente este último, sobre as acusações feitas contra a Casa Civil, de que um balcão de negócios foi montado lá dentro. Todos os envolvidos nas maracutaias da Casa Civil saíram, esbravejando contra a Imprensa e pedindo provas. Engraçado, concordam? Se os acusados nada tem a temer, porque então pediram demissão? A Erenice pediu demissão, os assessores dela também e, agora, o diretor dos Correios que era sócio da empresa com quem firmou um "contrataço", diz que vai pedir demissão, porque a família está "destroçada". Dá uma pena deles, vocês não acham?
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LEIAM O QUE ESCREVI EM 2007.
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O QUE RESTA...
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Quando os ideais falecem e são sepultados nas covas rasas do mais evidente descaso, o que resta ao idealista nesta vida? Será que apenas resta o ensejo de assistir aos funerais e ouvir o lamentoso réquiem do triste final? Ou resta também a chance de presenciar o cortejo desagradável dos que lutam pela posse dos despojos?
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É muito triste imaginar o que resta neste mundo, se visto pelo ângulo das coisas palpáveis do dia-a-dia. Resta talvez, por esse aspecto, os rostinhos súplices das crianças que, maltrapilhas, ainda perambulam com inocente esperança. Resta quem sabe a espuma enegrecida pelo óleo e detritos do mar que, indiferente, bate nos rochedos. Resta o verde imóvel e aterrorizado das poucas matas que aguardam silenciosas o fim que se aproxima. Resta o formigar desumano, desconexo e dantesco dos grandes aglomerados humanos, as caóticas megalópoles que espremidas agarram-se à sobrevivência a todo custo, pura e simplesmente.
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Chega um momento que me assusto tentando decidir afinal, o que é o certo neste mundo perdido. Temos hoje um marketing formando pessoas individualistas, pregando o “se dar bem” a qualquer preço.
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O dinheiro tornou-se mais importante que a sensatez, a prudência, a responsabilidade e a justiça. As graves desigualdades sociais são encaradas como normais e, por vezes, chego a ouvir que são males necessários.
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Vejo a morte de milhares de pessoas de bem, e outras tantas mantidas em cativeiros, e roubadas em seu direito de liberdade. Juízes, desembargadores, delegados e procuradores da República envolvidos na exploração de jogos ilegais, principalmente bingos e caça-níqueis. Advogados em conluio com marginais ou com comportamento nada exemplar, tudo “dentro da lei”. Hoje em dia basta ter dinheiro ou um amigo no poder para que as consequências por atos atrozes sejam perdoadas e esquecidas.
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Observo adolescentes que não sabem escrever uma palavra corretamente e, menos ainda, conseguem construir uma frase ou uma idéia. Os doentes estão morrendo em filas de hospitais públicos e outros tantos, mal atendidos por certos médicos incompetentes, em hospitais e clínicas particulares. O pior: políticos de assembléias, câmaras e senados, mais preocupados com aumento de salários, benefícios e privilégios, tomando o lugar da policia com inúmeras formações de CPI's com o único objetivo de livrar a cara daquele que se comportou sem o menor decoro com o povo que representa. Tenho à frente de meus olhos, a prova de que estamos à deriva.
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Enquanto isso mostramos o quê aos nossos filhos? O que devemos ensinar a eles? O que devemos esperar desse mundo? Resta, quem sabe, esperar pelo fim, pelo estrondo colossal que estourará de imediato os tímpanos e a seguir derreterá os corpos e com eles pulverizará todos os monumentos materiais da miséria humana.
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*Edward de Souza é jornalista e radialista
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domingo, 19 de setembro de 2010

ESTAMOS CRIANDO ÍDOLOS DE BARRO?

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SÁBADO, 18 DE SETEMBRO DE 2010

O REIZINHO ESTÁ NU

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Poucos são os jovens, hoje, que desfrutam de prestígio, respeito, consideração, equilíbrio, fama e grana, conquistados com pouco ou quase nenhum esforço. O talento, herdado da providência, resolve tudo, ou quase tudo. Nos dias atuais, mais que quaisquer outros, estão nessa raia o garoto mato-grossense Luan Santana, 19 anos, cantor popular, e Neymar (18 anos), das praias paulistas, que, como poucos, faz da bola instrumento extremamente obediente.
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O primeiro, data vênia, cumpre o ritual de astro famoso e rico comparecendo religiosamente a seus shows e outros tantos compromissos. Pelo visto, Luan é centrado, bem criado, de família regrada e bem sucedido. Apenas segue ensinamentos herdados dos pais e caminha célere para garantir seu sucesso, sem grandes riscos. Neymar, por sua vez, tropeça na vida turbulenta do mundo da bola, que exige malabarismo em campo e fora dele. Um neófito ofuscado pelas luzes que embaça a conduta dos que não estão devidamente preparados. Nascido de família humilde e sem muitos recursos para a criação, o menino prodígio está agora enfrentado os brucutus do cotidiano. Imberbe, Neymar não está suportando a carga imposta pela fama e riqueza que lhe caem nos ombros.
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O fardo lhe parece pesado, mas seus olhos estão em outro horizonte. Até pouco tempo a vida não permitia à sua família, a ele e seus irmãos, luxos de gente mais abastada; uma bola usada e um par de chuteiras de segunda mão, mesmo apertando os pés, bastava para o sorriso do menino luzir como estrelas. O dinheiro para o ônibus, quando havia, era rigorosamente contado, que não permitia o cobiçado sorvete no retorno. Voltando a pé, economizava para o picolé. Quando menos se esperava, na cronologia do tempo, Neymar via nas manchetes esportivas que valia milhões de euros. "Quem? Eu?", questionava, sem entender bem. A família, igualmente, não atinava com a realidade e passou a acreditar que no filho malabarista da bola estava o baú para a emancipação definitiva e o apagão dos tempos de pés no chão e panelas quase vazias.
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Assim, rápido como raio, surgiu o novo Rei do esporte das multidões que passou a ser paparicado, como todo aprendiz de Majestade tem direito. Deslumbrado, o menino-rei não tem dado conta do labirinto em que está e qual o caminho que deve seguir para não derrapar nos obstáculos e impedir o curso normal das coisas. Parece não estar preocupado. As lambanças dos últimos tempos tem lhe custado constrangimentos e pedidos de desculpas, evitáveis se tivesse orientação familiar e dos superiores no clube. No entanto, ambos paparicam o garoto sugerindo que pais e cartolas estão mais interessados no que o menino possa lhes render financeiramente.
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Carente de pessoas que possam lhe indicar o trilho do porvir grandioso, Neymar prossegue chutando a bola e tudo que aparece à frente para controlar seu estrelismo. Esquece, por exemplo, que Robinho, seu companheiro de bola e igualmente oriundo de casebres que cercam as praias, passou, a algum tempo, dias de dor e desespero por expor ostentação e opulência, chamariz para os mal intencionados. O caso (sem entrar no mérito), Bruno, do Flamengo, ainda está quente o suficiente para queimar as mãos de quem insiste em achar que tudo pode.
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Enquanto o também menino Luan Santana, aqui comparado, encontra nas melhores mãos e cabeças (família e empresário) estrutura para conduzir seus passos a horizontes sólidos, sem ter que se curvar a hipocrisias, Neymar, na contramão, não vê, em casa e no clube, braços e cabeças que possam indicar o caminho menos perigoso para um porto seguro e confiável. Neymar, o reizinho, ainda está desnudo; Luan, um príncipe centrado a caminho do sol. Destinos iguais que somente o tempo poderá se encarregar de fornecer o instrumento certo para alavancar a longa trilha que leva ao sucesso definitivo. Histórias de êxitos (poucos) e fracassos (muitos) contam a sina dos que não foram ofuscados pelos holofotes e dos que sequer viram as luzes que poderiam fazê-los brilhar.
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Um adágio chinês já alertava: o importante não é ser o melhor, é permanecer no topo, com humildade, muita humildade.
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*Oswaldo Lavrado é radialista/jornalista radicado no Grande ABC
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

SEM CERVEJAS DESTROEM UM CLUBE SOCIAL

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Estas 15 fotos abaixo, enviadas por um amigo pela internet, foram tiradas na madrugada desta última segunda-feira, no clube Castelinho, em Franca. Se você imaginar que o causador desta destruição foi um terremoto que atingiu a cidade, enganou-se. Tampouco um vendaval. Acreditaria se eu responsabilizasse a falta de cerveja por este estrago colossal? Não se espante, a classe dos “sem bebidas” ainda não foi criada, pelo menos que eu tenha conhecimento. Continuamos ainda com os “sem terra”, “sem teto” e os “sem vergonhas” que invadiram a política neste país. .
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Franca, com quase 400 mil habitantes, conhecida internacionalmente como a “Capital do Calçado”, pode em breve ser também a “Capital dos Sem Cervejas”, caso as conhecidas festas open bar continuem agitando os clubes da cidade. A cerveja, fabricada há milhares de anos, se tornou a mercadoria principal na Idade Média, quando as pessoas começaram a viver em cidades onde quarteirões espremidos e a falta de saneamento dificultavam a tarefa de encontrar água limpa. O álcool da cerveja a tornou mais segura de se beber do que a água. Não é o caso de Franca, com 100 por cento de saneamento e com a água de primeira qualidade.
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No entanto, existem muitos que fogem desse líquido precioso como o diabo foge da cruz. Não conseguem viver sem a cerveja e ficam furiosos sem ela, isso ficou provado quando destruíram um dos mais tradicionais clubes da cidade, onde a bebida não foi suficiente para matar a sede de todos os frequentadores de uma tal “Festa da Flavinha”. Pior, crianças que mal deixaram a mamadeira também estavam de madrugada nesta festinha de embalo, onde maconha e cerveja estavam sendo disputadas a tapas. Bom explicar que nestas festas open bar, o preço cobrado no ingresso inclui as bebidas que serão consumidas, não importa a quantidade.
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A promotora de eventos Flávia Cristina Richinho, culpa a segurança. Alegando que contratou 40 homens e só 11 compareceram. Alega ainda que mais de 500 pessoas saltaram o muro do clube, por isso faltou cerveja na festa. Seriam esses invasores os “sem cervejas”? Ou o olho gordo dos promotores, visando um troco a mais, acabou funcionando nesta festa de embalo?
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No boletim de ocorrências da Polícia Civil consta que várias portas do clube foram arrombadas e quebradas, bolsas de funcionárias foram levadas com seus pertences, malotes de dinheiro e até um revólver calibre 38 de um segurança foram arrastados pelos vândalos. Sem contar os danos causados em muitos veículos estacionados em frente ao clube.
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Em muitas cidades do interior, festas open bar estão proibidas. Em Franca não existe uma legislação específica e a baderna deve continuar por mais um bom tempo, até que morram muitas pessoas. A população é a maior prejudicada quando acontecem festas assim na cidade. Imaginem... No mínimo 70% dos participantes são motoristas e condutores de seus veículos.
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Certamente estarão transitando embriagados pelas ruas da cidade, provocando acidentes e até atropelando e matando pessoas nas ruas. E a lei seca? Seria necessário avisar a polícia que os frequentadores de uma festa deste tipo vão sair do clube, bêbados? Uma blitz resolveria o problema. Só enquadrar uma dezena de “tontos” para deixar os outros espertos. Mas, sempre escrevo isso. Lei neste país é igual vacina. Umas pegam, outros não. A lei seca não pegou.
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A DESTRUIÇÃO
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___________________________________________________________________ *Edward de Souza é jornalista e radialista
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010




Fausto Polesi apareceu, como sempre, como meu anjo salvador. Era o ano de 1993. Por sua indicação, fui contrato para chefiar a reportagem do serviço de comunicação social da Prefeitura de Mauá, setor no qual já tinha uma boa experiência. Ainda no início de carreira, quando começava a trabalhar no Estadão, prestei assessoria para a Prefeitura de São Caetano do Sul, na época comandada por Oswaldo Samuel Massei e, meses depois, para a Prefeitura de Santo André, cujo prefeito era o médico Newton Brandão, aquele meu padrinho dos dois casamentos e que me demitiu as duas vezes da Prefeitura e, mais tarde, alegou estar atendendo aos meus pedidos, conforme informaram seus assessores mais diretos.

Durante dois anos vivi razoavelmente e chegava a ajudar nas despesas de casa. Mas nada de economizar. Gastava o que tinha, sem pensar que, talvez, futuramente, fosse precisar de dinheiro para qualquer emergência, como tratar de uma doença. Gastei, sim, para extirpar a hemorróida. Como não tinha plano de saúde, contribui com o que tinha para a execução da cirurgia pelo médico Paulo César Ribeiro, um dos mais conceituados proctologistas brasileiros da época. A operação foi com raios laser e quase nada senti. No dia seguinte, havia recebido alta do hospital e retornado para casa, à espera da primeira evacuação – essa, sim, dolorida, tanto que a recomendação é colocar, na hora, um pedaço do pano nos lábios e evitar o atrito dos dentes.
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No final de 1995, o prefeito José Carlos Grecco, de Mauá, decidiu mudar o diretor de comunicação, a quem considerava amigo. Este me orientou a não comparecer mais ao setor, me prometendo vaga de assessor especial. A manobra dele – não vou citar o nome – era evitar que eu permanecesse na Prefeitura, como queria – fiquei sabendo depois – o novo diretor. Ausente vários dias, consideraram que eu era um grande vagabundo e, como consequência, fui demitido. Uma coisa eu pedi para minha mulher: eu não quero a presença desse cidadão nem no meu velório.
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Desempregado, e sem querer tornar-me repetitivo, Fausto Polesi reapareceu novamente e me indicou para assessor de mais um candidato a prefeito de São Caetano. Como sempre, me apresentei e, surpresa: o candidato a vice era Moacyr Rodrigues – o que tinha sido candidato em 1992 e, mais tarde, tornara-se vereador, depois de candidatura frustrada para deputado estadual. Desenvolvi um bom trabalho de comunicação, mas não foi possível vencer de novo aquele que se tornara um monstro sagrado no município: Luiz Tortorello, o candidato a prefeito de novo.
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Ao mesmo tempo em que fazia a campanha, colaborava também com o jornal Tribuna do ABCD, um semanário novo a circular na região, dirigido por J. Pavani e Antonio Pedroso de Moraes, ambos publicitários. Este último alimentava sonho de se tornar jornalista – e acabou conseguindo o registro, só que como proprietário de jornal, bem melhor do que ser empregado. Quando terminou a campanha – geralmente as campanhas duram apenas três meses – fui convidado a integrar a equipe do jornal, uma equipe que nem merecia ser chamada de equipe, tão pequena era – mais um repórter, um fotógrafo – meu bom amigo Claudio Polesi - dois ou três colaboradores, dois diagramadores e uma recepcionista.
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Nesse ínterim, ano de 1997, minha mulher adquiriu a nossa casa, financiada pela Caixa Econômica Federal. E, quatro meses depois, no dia de seu aniversário, parei com a bebida alcoólica, da mesma forma com que tinha parado de fumar. Apenas disse: a partir de hoje, não bebo mais. E o que mais me levou a tomar essa decisão foi um comentário do doutor Paulo Ribeiro. Numa tarde, quando ele fazia o exame pós-operatório da hemorróida, eu lhe perguntara se eu poderia morrer se continuasse bebendo. Ele, secamente, não sei se com ironia, me respondeu: Eu não iria morrer por causa da bebida; iria viver, mas só que paralítico. Explicava: o álcool já estava afetando o meu sistema nervoso e, não demoraria muito, atingiria braços, pernas. Como já havia conhecido uma pessoa que ficara paralítica em consequência do excesso de bebida, fiquei temeroso de ser vítima do mesmo mal. No início, ninguém acreditou. Só eu. Por isso mesmo, é que mantive a decisão. E como ficou comprovado que o alcoolismo é uma doença, nunca disse ser um ex-alcoólatra. Sou um alcoólatra. E quando posso tomo uns copos de cerveja.
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Desde o término das sessões de rádio e quimioterapia permaneço em casa e, quando solicitado, colaboro com o jornal Tribuna do ABC e a revista Jornauto. Sabendo da minha situação, os editores limitam-se a me enviar matérias que podem ser feitas via e-mail, sem a necessidade de eu me deslocar ou, ainda, utilizar a voz, que ainda não apresenta a devida articulação e o que falo quase pouca gente entende. Ainda recentemente, fiz o exame denominado tomografia computadorizada da cabeça e do pescoço. O objetivo é colher imagens para saber em que situação o tumor se encontra e se ainda será necessário o reinicio da quimioterapia. Essa espera me angustia, uma vez que um dos médicos que me analisou logo após o tratamento, suspeitou da existência de algumas células cancerígenas na descida da garganta.
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Procuro passar as horas de ócio lendo, escrevendo ou tentando me familiarizar com a tecnologia do computador. Dia desses, entrei na internet e, apenas como curiosidade, quis saber se meu nome estaria incluído naquele universo de informações. E, para minha surpresa, lá estava, e, logo no primeiro item, figurava a minha conquista do Prêmio Esso de Jornalismo. Prossegui com a pesquisa e um outro item me chamou a atenção: a venda de um exemplar da revista Planeta, de abril de 1976, com uma reportagem minha sobre a lenda da cidade submersa, que fiz no rio Urubu, interior do Amazonas, em companhia da Ilca. A reportagem fora escrita para o Jornal do Brasil, do qual eu era correspondente, mas o editor Juarez Bahia julgou melhor não publicá-la e liberou o texto, vendido em seguida para a Editora Três, após contato com o escritor Ignácio de Loyola Brandão, então redator-chefe da revista.
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A reportagem tem chamada que suscita a atenção. Em caixa alta e negrito, o pequeno título: A Lenda da Cidade Perdida. E, embaixo, sobre a foto do arqueólogo, a legenda-pergunta: Conseguirá o arqueólogo Pires Roldão encontrar a cidade perdida que ele procura há dezenas de ano? Nas páginas internas, o texto ocupando seis páginas, com fotos. A primeira mostra o arqueólogo com o dedo apontado para inscrições que mais parecem hieróglifos e a frase: Há três mil anos, uma civilização avançada habitou o Amazonas. Estas inscrições podem provar isso. Este homem tenta decifrá-las e só vai sair do Amazonas quando conseguir.
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A abertura da reportagem: “o fantástico, o absurdo e o real se confundem com inscrições estranhas, indícios da existência de povos pré-históricos, cidades submersas e navios naufragados, envolvendo lendas e superstições de índios e caboclos. Tudo isso está em uma pequena área do rio Urubu, pequeno afluente do rio Amazonas, distante 260 quilômetros de Manaus e onde se encontra acampado o arqueólogo Roldão Pires Brandão, presidente da Associação Brasileira de Arqueologia e Pesquisa”.
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Essa reportagem é uma das poucas que a Ilca nunca esqueceu. Nós descemos de barco, em companhia de um fotógrafo e um remador. Para descer, como dizem, tudo é fácil. Na hora de subir, o remador tentou uns poucos metros e, olhando para trás, desolado, decidiu que eu e a Ilca precisaríamos descer. A solução foi voltar pelo meio da densa floresta e a minha mulher não se encontrava preparada para essa longa caminhada: viera de tamanco, um calçado nada indicado para andar pela mata. Nervosa, poucos metros depois jogou o par de tamancos e seguiu a pé. Até hoje, passados mais de três décadas, ela diz ainda ter as cicatrizes dessa aventura...
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Acompanhe na próxima quarta-feira, o vigésimo terceiro capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
(Edward de Souza).
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