sábado, 12 de março de 2011

SEXTA-FEIRA, 11 DE MARÇO DE 2011
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Vivemos em uma era em que a fome, a peste, a guerra e a morte são uma constante em nossas vidas. A guerra em países africanos e no Oriente Médio entre outros locais, a fome, nesses mesmos países e em nosso rincão brasileiro, a peste representada por muitas doenças, entre elas a AIDS, a sífilis, a febre amarela, dengue, etc., e a morte... Uma certeza!

É certo que desde que o mundo é mundo, essas tragédias sempre estiveram no cotidiano de cada ser humano. A lei do mais forte sempre prevaleceu, continua a prevalecer e salvem-se quem puder! A que se devem todas essas tragédias no reino dos seres humanos? A ignorância e o excesso de materialismo seria a resposta certa. O homem é um fraco. Ainda devemos percorrer centenas ou milhares de anos até que um dia o ser humano se conscientize que todos esses males poderão ser extirpados com a mudança de comportamento individual.

Por não serem religiosos (apesar de dizerem que são), os homens se deixam levar pelos prazeres da carne, da ambição desmedida, da vaidade, dos vícios... É claro que existiram e existem algumas exceções que confirmam a regra. Alguns leitores deste artigo poderão até se rebelar quanto ao que foi escrito no parágrafo anterior e dirão; sou católico, sou evangélico, sou protestante, sou espírita, sou muçulmano, sou budista ou até sou ateu. Mas, se pararem para raciocinar, verão que os códigos religiosos dessas religiões não são seguidos como deveria ser. Os prazeres materialistas sempre falarão mais alto. As reuniões religiosas foram e ainda são simples obrigações sociais. O homem é na realidade, o único ser que pode forjar o seu destino, embora esteja restrito aos ditames da soberana lei da vida. Quando, com o uso indevido do livre arbítrio, ele ameaça a estabilidade geral da obra divina, limites naturais lhe são impostos, a fim de que não interfira negativamente. “A cada um, colher conforme a semeadura”.
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O homem tem menosprezado por séculos ou milhares de anos se preferirem, os apelos que o Alto lhe envia. Em sua ânsia de poder e no orgulho a que se entrega, tem provocado o caos no ambiente em que está situado. Foram muitos os profetas que se referiram sobre os males da humanidade e consequentes malefícios. Entre eles, o próprio Jesus, há mais de dois mil anos. Mas, foi João, um dos apóstolos do Messias quem de maneira terrificante fez previsões sobre os males da guerra, da fome, da peste e da morte. Cada um desses males representado por um cavaleiro alegórico.

É verdade que muitas interpretações místicas foram colocadas em torno dessas profecias. Mas, não podemos negar que elas revelam os males da humanidade e são causadas pelos seus indivíduos que ignoram os estatutos de bem viver divulgados pelas religiões entre eles o “Novo Testamento”. Não será Deus que despejará sua pretensa indignação sobre a morada dos homens; o próprio homem que acumulou, em si e no ambiente onde se processa sua evolução, os fluídos mórbidos da guerra, da indisciplina, da maledicência, da sensualidade e de todas as formas de paixões que caracterizam sua inferioridade.
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Allan Kardec afirmou: “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade”. Pois bem, vamos nos tornar religiosos. Religiosos coerentes e em sintonia com o Criador. Aliás, religião quer dizer ligar-se com a divindade. Os homens estão ligados com a divindade maior? Creio que não! O dia que isso começar a acontecer, certamente o homem finalmente encontrará a paz que tanto almeja.
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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui:
jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 10 de março de 2011

Prezados amigos e amigas que acompanham este blog. Sérios problemas nos impedem de atualizá-lo, como sempre fazemos. Mesmo com pouco tempo sobrando, nos esforçamos para publicar, nesta sexta-feira, o artigo quinzenal do jornalista J. Morgado. A série que escrevo: "O dia em que gravei o Jornal Nacional", assim que possível terá sequência, comunicaremos isso antecipadamente. No momento acompanhamos, na UTI de um hospital, a recuperação de um ente querido, vítima de um AVC - Acidente Vascular Cerebral - terça-feira de carnaval. Contamos com a compreensão de todos, deixando o convite para que leiam e comentem: "Os Cavaleiros do Apocalipse", nesta sexta-feira.

Um forte abraço!

Edward de Souza
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terça-feira, 8 de março de 2011

Na esteira do artigo publicado ontem, segunda-feira, e assinado pelo escritor e jornalista Guido Fidelis, em plena terça-feira “gorda” de carnaval e quase nas cinzas da quarta-feira, resolvi escrever sobre os bons tempos dos bailes carnavalescos nos salões que reuniam adolescentes, jovens e adultos dos anos 1970, e que a partir da década de 80, foram escasseando até sucumbirem aos desfiles de rua, hoje existentes em cidades grandes, pequenas e nos vilarejos.
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Como hoje é 8 de março, Dia Internacional da Mulher, seria imperdoável caso não deixasse minhas homenagens à grande deusa de nossa existência. A ela a nossa reverência e o preito de gratidão pelo que nos ensina e incentiva, e as palmas mais vibrantes. Ela merece os aplausos. Viva a mulher!
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Corria o ano de 1975 e, como já era tradição, a Rádio Diário do Grande ABC realizava transmissões ao vivo dos principais salões da região. Para tanto, era escalada uma equipe de locutores, operadores, plantonistas e motoristas. Eram quatro noites, todos os profissionais sem dormir, com a atenção voltada exclusivamente ao trabalho de relatar, com o maior número possível de detalhes, o que ocorria de bom e de ruim nos salões onde estava um representante da Diário.

Nesse ano (1971), o time era comandado pelo locutor Rolando Marques e pelo diretor artístico Paulo César, ambos falecidos. Foram então requisitados sete locutores para cobrir a mesma quantidade de postos de transmissão: Rolando Marques, na Associação dos Funcionários Públicos de São Bernardo, Sidney Lima, no Clube Aramaçan (Santo André), Jurandir Martins, no Volkswagen Clube (São Bernardo), Oswaldo Lavrado, no Clube da General Motors (São Caetano), Márcio Santos, no Meninos FC (São Bernardo), Wilson Nascimento, no Primeiro de Maio. (Santo André) e João Motta, no plantão da rádio, em São Bernardo.

A primeira noite tudo transcorreu normalmente com o trabalho sincronizado entre os experientes locutores. O comando partia de Rolando Marques, que acionava, de acordo com determinado cronograma, os demais integrantes da equipe e cada um executava seu trabalho conforme o andamento do baile no salão onde estava e, claro, como rádio não tem imagem, com cavalar dose de imaginação do colorido das mais esdrúxulas fantasias e estereótipos dos foliões.

Na noite de domingo, no entanto, o panorama se transformou radicalmente. O salão onde eu estava, na GM, na Avenida Goiás, em São Caetano, teve um princípio de incêndio, sem causar vítimas, mas provocou alvoroço e pânico geral. A transmissão da Rádio Diário, naquele instante, estava com Sidney Lima, no Clube Atlético Aramaçan. Do local privilegiado em que eu estava instalado na GM presenciei o início do fogo, originado nas serpentinas que enfeitavam o salão, próximo a uma das portas de saída. De imediato interrompi o companheiro que estava em Santo André e comecei a narrar o incêndio. Estava em pé sobre uma mesa num canto estratégico do salão. O povão, que lotava o clube, entrou em pânico, uma vez que as chamas atingiam algumas cortinas e outros adereços do salão. As pessoas se empurravam, gritavam histericamente e procuravam as portas. Como o estouro de uma boiada, derrubava tudo que encontrava pela frente, a procura do objetivo que era um vão para escapulir do imenso salão e das labaredas que se alastravam.

Eu seguia transmitindo do meu posto até o instante que uma turba, quase tresloucada, arrebatou minha mesa, meus papeis e, claro, fui atirado ao chão segurando apenas o microfone, já fora do ar. O rompimento da linha de transmissão provocou um forte e estranho barulho. Os companheiros ficaram entre apavorados e apreensivos, pois a forma abrupta em que eu havia saído do ar sugeria a todos um desenlace trágico. O chefe, Rolando Marques, na Associação de São Bernardo, chamava aos berros (como se isso fosse necessário) a presença dos bombeiros, ambulância e médicos no Clube da GM. Os demais postos de transmissão da rádio emudeceram, como em solidariedade e apreensão ao que estava ocorrendo em São Caetano.

Acionada, a Brigada de Incêndio da própria General Motors, cuja fábrica ficava cerca de 200 metros do clube, apagou o fogo, molhou alguns foliões, as mesas foram colocadas em seus lugares e a banda seguiu com as velhas e boas marchinhas carnavalescas. De um orelhão, depois de recomposto da queda e do pânico da possibilidade de ser pisoteado, entrei em contato com a rádio, onde o plantonista João Motta se encarregou de acalmar os companheiros e os poucos ouvintes que a transmissão deveria ter, até porque era um domingo de madrugada.

A Telefônica restabeleceu a nossa linha no salão da GM e o nosso trabalho prosseguiu, sem as preocupantes interrupções. Na pista, os foliões, felizes, cantavam: Lencinho Branco, Lata d'Água na Cabeça, Bandeira Branca, Jardineira, Máscara Negra, Me dá um dinheiro aí, Cabeleira do Zezé e outros inocentes e agitados acordes carnavalescos da época, até o amanhecer da segunda-feira. As cenas de pânico na GM foram, naturalmente, por mim relatadas inúmeras vezes aos companheiros, à direção da Rádio e para alguns ouvintes pessoalmente, nos dias posteriores. Um tanto assustado, mas seguro retornei ao Clube da GM nas noites seguintes (segunda e terça), afinal o samba e nosso trabalho não poderiam parar.

Os bailes realizados nos salões praticamente sucumbiram, mas a Rádio Diário prosseguiu com sua equipe transmitindo os desfiles de rua nas principais cidades do Grande ABC e, especialmente, na Capital Paulista. E assim foi durante muitos anos, também com fatos inusitados, hilários e pitorescos que poderão ser relatados neste espaço mais à frente. Afinal, a imortal marchinha: “Ô abre alas, que eu quero passar" ainda está sendo executada nas ruas ou mesmo nos simplórios salões de periferia.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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segunda-feira, 7 de março de 2011


Jarbas era um homem sério. Compenetrado em suas atividades profissionais. Orgulhava-se de jamais ter perdido dia de trabalho. E de se dedicar com afinco. Um funcionário exemplar, como dizia o chefe.
Muitas vezes dobrava o expediente. Horas extras que complementavam o orçamento. Nada faltava em casa. Atendia todas as vontades da mulher. E dos filhos, fascinados com as novidades do mundo virtual. Viciados em vasculhar os meandros da internet.

Naquela manhã de segunda-feira acordou preocupado. Passara a noite de domingo acompanhando, pela televisão, o desfile das escolas de samba. Encantara-se com o espetáculo. Carros alegóricos, fantasias, alegria. E os aplausos do público. Lembrou-se, ainda, dos antigos bailes. Quando jovem, pisara em alguns salões. Pulava-se ao som de marchinhas. Sozinho ou acompanhado. Pouco importava. Valia a folia. Bem comportada, apesar das brincadeiras de lançar perfume. Prática proibida. Ficaram as drogas.
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Durante o café, na conversa com a mulher, lastimou-se.
- Pois é, meu bem, o chefe não deu trégua. Diz que preciso executar um serviço especial. Tenho de terminar ainda hoje. Resultado: vou entrar noite adentro. Ele é crente, detesta este período. Diz que folga somente no sétimo dia, quando Deus descansou.
A mulher apenas balançou a cabeça. Não chegava a ser um drama. A recompensa vinha no final do mês. Salário mais gordo.

Despediu-se com um beijo. Durante a tarde ligou duas vezes para informar que estava envolvido com números. Todas as operações a fim de deixar os balanços concluídos. Trabalheira dos diabos. Concentração total.

A noite chegou e as estrelas cobriram o céu de beleza. A mulher preparou um prato especial para o marido. Deixou no micro ondas. Quando chegasse bastava aquecer. Os filhos foram para o escritório, entretidos com a navegação.
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Súbito, um deles gritou:
- Mãe, corre aqui.
Assustada, ela se apressa:
- O que foi?
Desapontados, os garotos indicam:
- Veja o que achamos. Olha. Transmissão ao vivo. Papai na folia. Fantasiado de Madonna. Num baile gay.
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*Guido Fidelis é advogado e jornalista, dedica-se às letras.
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Nesta Terça-feira o jornalista e radialista Oswaldo Lavrado escreve um fato real, ocorrido num carnaval dos anos 70, no ABC Paulista, quando estava em ação a equipe esportiva dos "Craques do Rádio", da Diário, transmitindo os bailes carnavalescos dos clubes da região. Lavrado cobria o carnaval da GM, de São Caetano. A folia corria solta, até que... "Pegou fogo no salão". Na quarta-feira de cinzas, conforme anunciado, o quinto capítulo da série "O dia em que gravei o Jornal Nacional". Acompanhe!
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domingo, 6 de março de 2011

SÁBADO, 5 DE MARÇO DE 2011
Apesar de usarmos oficialmente o calendário gregoriano que tem seu início em 1º de janeiro, no Brasil nada acontece ou se move até depois do carnaval. O inconsciente coletivo determinou que a primeira segunda-feira após os festejos de Momo seja o início oficial do ano e até lá não adianta forçar a barra que nada funciona. Assembléias e Câmaras param, o governo entra em hibernação, os médicos viajam, as escolas dão férias, o comércio liquida e até mesmo os marginais dão um refresco para tecer suas alegorias com que desfilarão na avenida.

Tente o desavisado cidadão programar ou resolver alguma coisa nos meses de janeiro e fevereiro e fatalmente ouvirá a resposta: depois do carnaval. E não adianta insistir que somente depois do carnaval é que o motor pega e esse Brasil velho de guerra começa a andar em sua marcha lenta de quase quinhentos anos. Com exceção de carnavalescos, costureiras e autores de samba-enredo, todo o princípio de ano é para descansar e preparar-se para os quatro dias de folia.

O carnaval tinha de dar certo no Brasil. Seria aqui ou em nenhum outro país que essa festa pagã por excelência, embora baseada no calendário da Igreja, ganhasse asas e voasse até o delírio. Os portugueses trouxeram seu tímido “entrudo”, que se resumia a batuques e laranjinhas de cheiro jogadas nas ruas. Foi preciso o tempero negro para o carnaval ganhar forma e fama e se tornar a apoteose nacional, nosso maior produto de exportação turística e nossa marca registrada.
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Para o resto do mundo, existem duas logomarcas do Brasil. Uma é Pelé (foto), esmurrando o ar depois de um gol majestoso, a outra é uma rebolativa mulata com todos os adereços do samba. Não adiantam Drummond, Paulo Coelho nem mesmo Jorge Amado. Somos o país do futebol e do samba e com essa marca registrada é que vamos empunhando nossa bandeira por esse mundão. O som do batuque e a cadência das baianas encantam e divertem milhares de visitantes que todos os anos lotam a Marquês de Sapucaí em busca do maior espetáculo ao ar livre onde nossas raízes são expostas.

Nós somos um povo alegre por formação. A miscigenação entre índios, negros, portugueses e as pitadas de japoneses, italianos e alemães criaram uma espécie de raça que segundo o samba “não tem medo de cachaça” e já definiu que escorregar e cair é jeito que o corpo dá. E assim vamos de crise em crise gozando de nossa própria miséria com uma bola no pé e um estandarte na mão para enfrentar esse mundo velho e globalizado.
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Maravilhoso país esse que se dá ao luxo de parar dois meses e agora mais uma semana para que seus filhos brinquem a maior festa popular do mundo, se entupam de cerveja, virem carros pelas estradas, se droguem, joguem pra fora suas porções escondidas e traiam a mulher, a Pátria e até Deus, nesse frenesi que toma conta de nós todos, foliões ou não, sujeitos a essa ditadura da alegria onde samba, suor e cerveja molham até a alma. Tudo é permitido em nome da alegria. Vestir-se de mulher, pintar o rosto, fantasiar-se de Batman, usar a lingerie da esposa, mamar numa garrafa até ver o mundo rodar, nada disso é ignorado e pouco é punido. Cria-se um frenesi de alegria que faz com que foliões solitários cortem toda a avenida batendo numa lata e cidadãos de cãs brancas percam totalmente a compostura atrás de alguma colombina desgarrada.

As televisões se voltam totalmente para o carnaval, muito embora no resto do mundo existam fatos, como a crise econômica dos americanos, a matança na Líbia, as idiotices de Chávez, a saúde de Fidel. Nada disso importa. O que vale é mostrar baianos atrás do trio elétrico e as mesmas escolas de samba pasteurizadas, que só se diferenciam uma das outras pela cor de cada uma. E tem até o carnaval em São Paulo, carnaval de japonês e polacos, de miúdas gueixas tentando sambar desajeitadamente, de gordas germânicas dando no pé e mulatos, porque mulatos e mulatas são a matéria-prima essencial do nosso carnaval e, porque não dizer, deste país. Vamos, pois, cair no ritmo, com moderação, e sempre rezando para que a companheira Dilma arregace as mangas e comece a trabalhar e não nos apronte maldades, como por exemplo, a volta da CPMF.
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Não sei o que seria desse Brasil sem o carnaval, sem essa maravilhosa válvula de escape social que nos iguala e nos anima a mais um ano. Essa catarse coletiva que permite loucos, bichas, turistas, ricos e pobres num mesmo cordão sem preconceitos e sem regras. Até a Igreja com toda sisudez nos deixa pecar desde que tomemos as competentes cinzas da quarta quando purgamos todos os males do corpo e da carne. Portanto, vivamos essa festa nacional com a certeza de que ninguém como nós sabe transformar um gato irritado num alegre tamborim e que, como nós, ninguém é capaz de sorrir com a barriga vazia e a cabeça cheia de problemas e da mais pura aguardente nacional. Graças a Deus o carnaval existe e o ano oficial de 2011 espera pelo soar do último clarim na Praça Castro Alves para então colocarmos o terno e a gravata e partir para a ação.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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Na próxima quarta-feira, o quinto capítulo de: “O dia em que gravei o Jornal Nacional”.
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sexta-feira, 4 de março de 2011

QUINTA-FEIRA, 3 DE MARÇO DE 2011



No começo dos anos 70, o rádio AM estava incluído entre as instituições consideradas subversivas, mas sua popularidade e credibilidade continuavam intactas. A juventude ouvia as emissoras AM, mesmo tendo o rádio FM, que surgiu em 67, como segunda opção. Os meios de comunicação do Grande ABC sofriam influência direta da imprensa da Capital Paulista, devido à proximidade territorial, tanto que possuía, naquele tempo, apenas quatro emissoras de rádio em sete das suas cidades, duas delas, Rádio Emissora ABC e a Clube, em Santo André. A Rádio Diário, antiga Independência, estava em São Bernardo e a Cacique, em São Caetano. Na década de 70, a região do ABC Paulista era uma das mais ricas do país, detinha praticamente a totalidade da produção nacional de veículos. O sonho de muitos trabalhadores era estar empregado numa grande empresa metalúrgica da região.

Neste clima favorável, a Rádio Clube, onde eu estava a espera de conseguir meu primeiro emprego, depois que cheguei do interior, tinha um bom faturamento e liderava, ao lado da Rádio Diário, a audiência na região. Subimos alguns degraus até chegarmos às instalações da Rádio Clube, no primeiro andar de um prédio localizado na Rua Coronel Oliveira Lima, próximo ao Largo da Estátua, centro da cidade. Não havia elevador. José Astolphi mostrou todas as dependências da rádio antes de entrarmos em sua sala. Percebendo que melhor seria deixar-nos a sós, meu tio Ivan inventou uma desculpa qualquer e despediu-se do diretor e sócio da rádio. Conversei durante alguns minutos com Astolphi, contando sobre as experiências que tive em rádio. Ele nunca me encarava, parecia até que nem estava ouvindo. Mantinha a cabeça baixa, ar debochado (com o tempo notei que era esse mesmo seu jeito, nada mudaria), até que se levantou e convidou-me a fazer um teste.

Seguimos para um estúdio de gravações especiais, desocupado naquele momento, onde nos esperava um senhor de óculos, pouco mais de 1,50 de altura, operador de som da Clube. Chamava-se Simão, uma simpatia. Seria ele o responsável pela gravação do teste. O diretor da rádio entregou-me um texto, em português, nada de outros idiomas e desejou-me boa sorte. Enquanto eu desempenhava o meu trabalho no estúdio, Astolphi conversava com Simão e gesticulava sem parar. Deixei de olhar na direção onde estavam, poderia ficar nervoso e colocaria tudo a perder. Terminei a gravação e saí do estúdio. Simão não se conteve, e mesmo com o olhar de reprovação do diretor da rádio, exclamou: “o menino é bom demais”. Voltamos para a sala de Astolphi e recebi a proposta que não esperava.

Para começar, teria um programa somente aos sábados, no período da tarde e durante a semana seria o responsável pela redação dos noticiários daquela emissora. Claro estava que o meu papel seria cobrir a folga no fim de semana do locutor do horário e assumiria a responsabilidade de redigir os noticiários da rádio, que estava carente no setor. Levantei-me para recusar a proposta, tinha pouca experiência como redator de notícias, quando um vozeirão se fez ouvir na sala. Um sujeito bonachão, alegre, invadiu a sala da direção e entregou uma pasta ao Astolphi, que agradeceu. Em seguida, esticou a mão em minha direção e se apresentou: “como vai, eu sou o Lombardi”. O nome nada significava para mim, afinal, quem era o tal Lombardi? Um locutor da Clube, isso era certo, pela voz clara e possante. Astolphi percebeu minha dúvida e esclareceu: “Luiz Lombardi apresenta um programa em nossa rádio, é o chefe dos locutores da TV Globo e participa do programa do Silvio Santos naquela emissora. Tomamos um café, esperei o Lombardi sair e perguntei ao Astolphi quanto eu ganharia se aceitasse a sua proposta. Era um bom salário, além do registro em carteira. A ideia de recusar a oferta desapareceu, assim que soube quem era Luiz Lombardi. O futuro mostrou que eu estava certo.
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Fui encaminhado até a uma pequena sala, nos fundos dos estúdios da rádio, onde havia um enorme gravador, aparelhos de rádio, mesa e uma máquina de escrever Olivetti (foto). Seria ali o meu local de trabalho durante a semana e a minha função, gravar os noticiários das grandes emissoras, principalmente o Jornal da Jovem Pan, onde Antonio Del Fiol, sócio de Astolphi, era o apresentador. Depois passaria para o papel as principais notícias e as levaria para o locutor- noticiarista, na época Marcio Santos. A primeira semana foi um desespero, imagine só deixar pronto um noticiário de hora em hora, sem atraso! Com sacrifício e apanhando, dei conta do recado, contando com a ajuda do Marcio Santos, que se transformou numa grande amigo que tive naquela emissora. O outro, Reinaldo Nascimento, operador de som, que mais tarde seria também meu companheiro na Rádio Diário do Grande ABC.

Sábado, o dia da apresentação do meu primeiro programa na rádio. O operador de som era o Reinaldo Nascimento, mais tarde apelidado pelo Jurandir Martins, repórter esportivo da Rádio Diário, de “Bisão”. Para quem não sabe, bisão é um dos grandes mamíferos ruminantes da mesma família do boi e da vaca. Pode chegar a quase quatro metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. Tem os olhos vesgos e da cor marrom, daí o apelido colocado pelo Jurandir em Reinaldo. Percebendo meu nervosismo na estréia, Reinaldo Nascimento procurou tranquilizar-me e deu enorme força para o sucesso do programa, que passou a ser um dos líderes de audiência da emissora. Era isso que pretendia Astolphi. Preparar-me, para depois que eu estivesse adaptado ao esquema da rádio, poder oferecer um programa diário. Não tinha ainda total confiança naquele “menino”, como sempre fui chamado por ele. Quando queria falar comigo, gritava para o “Joãozinho”, Office-boy da rádio. “vá à redação e peça para o menino vir aqui, agora”.
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Já acostumado com o noticiário, eu não mais gravava e copiava as notícias de outras emissoras para levar ao ar. Passei a manter contato com a Polícia Militar, Bombeiros e delegacias. Notícias "frescas" da região eram levadas ao ar, aumentando com isso a audiência da Clube. As poucas notícias de fora, eu as modificava, não o sentido, mas o texto. E criei um modelo para anunciar a temperatura que Del Fiol, mais tarde, introduziu na Jovem Pan, com real sucesso. Ao invés de, “tempo ruim, chuva e temperatura registrando tantos graus”, comum em todas as emissoras de rádio, eu escrevia: “use guarda-chuvas ou sombrinhas, vai chover hoje em São Paulo e na Região do ABC Paulista. Previna-se e agasalhe-se bem, promessa de vento e frio”. E assim era com o trânsito e outras informações de utilidade pública. O sucesso na redação desta rádio levou Del Fiol a prometer que eu teria uma vaga na Cásper Líbero, para cursar jornalismo, no próximo ano...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista.
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*Em virtude das festividades do Carnaval, o quinto capítulo da série “O dia em que gravei o Jornal Nacional”, será apresentado apenas na próxima quarta-feira de cinzas. Mas, nossa programação continua, com o blog sempre atualizado.
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quarta-feira, 2 de março de 2011

TERÇA-FEIRA, 1 DE MARÇO DE 2011


Enquanto aguardava ser atendido pelo locutor francano que trabalhava na Rádio América, notei que um homem alto e forte aproximou-se da portaria e se fez anunciar em voz alta: “o diretor artístico da rádio me aguarda, sou seu amigo e vim fazer um teste para a vaga de locutor, anunciada”. Então havia uma vaga e eu não sabia. Não tinha como ficar contente com a notícia, afinal o cidadão apresentou-se como amigo do diretor da rádio, mesmo assim, encheu-me de esperança. Ainda na recepção, o candidato a vaga falava com desembaraço e convicção. Citava pessoas famosas que conhecia, países onde esteve, e dizia para a recepcionista, já com expressão aborrecida por aguentar tremendo chato de galocha, que falava fluentemente o inglês.

A bela recepcionista sentiu-se aliviada quando o diretor artístico pediu para ela conduzir o tal amigo e pretendente à vaga de locutor até a sua sala. A jovem disparou rapidamente, pedindo que ele a seguisse. E voltou lívida, deixando escapar essa frase: “aguento cada uma nessa rádio”. Comecei a rir e ela percebeu. Acalmou-se, abriu um lindo sorriso e ofereceu-me um café. Conversamos um pouco e contei a ela que também estava em busca de uma vaga para locução na rádio. A jovem recepcionista disse-me com franqueza que torceria pelo meu sucesso, mas achava difícil, porque mais de 30 locutores já haviam feito o teste em dias anteriores, entre eles, velhos profissionais de rádio.

A chegada do Adilson interrompeu nossa conversa. Cumprimentou-me efusivamente e convidou-me para acompanhá-lo. Contou-me no trajeto que havia trabalhado na Rádio Hertz de Franca, nos anos 60, uma concorrente da Rádio Difusora. Naquela época só havia aquelas duas emissoras de rádio na cidade. Foi uma conversa agradável entre eu e Adilson, que confirmou, a rádio estava à procura de um locutor. Iria levar-me até a sala do diretor artístico da emissora. Em minutos fui apresentado a ele pelo Adilson, mas não recordo seu nome. Pediu-me que aguardasse alguns minutos porque outro concorrente a vaga estava num dos estúdios fazendo um teste. Logo chegou a minha vez e fiz o que pediram. Assim que o teste terminou voltei à sala do diretor artístico que solicitou um tempo até que fossem feitas as avaliações de todos os candidatos testados naquele dia. Sentado confortavelmente na sala, como se fosse o dono da rádio, estava o amigo do diretor artístico, que havia feito o teste anterior ao meu. Seu primeiro nome era Carlos, fiquei sabendo.

Uma hora depois fui chamado e soube que de todos os candidatos apenas eu e o Carlos fomos selecionados. A rádio precisava apenas de um locutor, por isso seríamos novamente submetidos a um teste. O reprovado poderia até ser chamado em outra oportunidade, prometeu o diretor artístico. As cartas estavam marcadas. Carlos leu alguns pequenos textos em português e eu, uma lista com nomes de músicas em alemão, francês, italiano e inglês. Se tivesse tempo suficiente, o diretor artístico da rádio teria acrescentado nomes de músicas em polonês, japonês, chinês e dinamarquês. Pacientemente tentei, não deu. E não daria para nenhum locutor da época, por mais experimentado que fosse. Desconheço um só daquele tempo e mesmo hoje, que fale fluentemente quatro línguas. Cá entre nós. Hoje em dia não passaria por este vexame. Teria rasgado aquelas folhas e mandado o diretor pilantra enfiá-las no... Lixo, juro!

Despedi-me de Adilson Machado, que lamentou minha reprovação depois de ter superado quase todos os demais candidatos. Agradeci-lhe pela atenção e antes de sair do prédio da rádio, passei pela portaria. Queria despedir-me da jovem recepcionista e ainda agradecer-lhe pela atenção e gentileza comigo, durante o tempo em que fiquei na rádio. Ela estava ansiosa para saber o resultado do teste. Contei-lhe o ocorrido e a jovem, fitando-me com seus dois belos olhos azuis, lamentou: “temia por isso”. Pediu o número do meu telefone para contato. Hesitei, sabia que, a exemplo da TV Tupi, eu não seria chamado. Ela insistiu, entregando-me um cartão com seu nome e telefones: “ligue, sempre estou informada sobre uma nova oportunidade, quem sabe possa ajudá-lo”.

Na porta de saída da rádio, um minuto de silêncio. Reflexão, pensamento positivo. Era preciso manter a confiança e enfrentar a vida com a sensação da segurança conferida pela determinação e o espírito altaneiro de quem sabe que é possível superar imprevistos e vencer. Momento de colorir o horizonte com as cores da esperança e acreditar que tudo não passou de duas tentativas que não deram bons resultados naquele dia. Estava pronto para seguir o caminho de volta a Santo André. Um menino cruzou alegremente o meu caminho. Segurava um enorme rádio que funcionava a pilhas, sorriu de uma maneira contagiante, abanou a mão e desapareceu. A vida é este mesmo círculo, sempre renovado, entre o trabalho e nossos desejos de realizar os sonhos que nos movem.

Acostumado a se deitar muito cedo, meu tio mudou sua rotina naquela noite. Estava a minha espera na cozinha, com seu velho rádio ligado no programa do Moraes Sarmento, na Rádio Tupi de São Paulo. Queria saber como foi o meu dia. Contei tudo o que havia se passado e ouvi dele uma sugestão. Desistir momentaneamente de São Paulo e tentar uma rádio no ABC. Na manhã seguinte ele me apresentaria a um amigo seu, dono de uma rádio, com reais possibilidades de dar certo, então eu teria um emprego e a chance de mais tarde ser contratado por uma grande emissora de São Paulo. Meu tio Ivan, carinhosamente chamado pelos amigos de “Delegado”, era chefe dos fiscais da Prefeitura de Santo André e como todo o chefe que se preza, não fazia nada, assinava o ponto pela manhã e voltava à tarde para encerrar o expediente da mesma forma.
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Era divertido ver meu tio sair pela manhã para o trabalho – entenda assinar o ponto. Depois de um banho rápido e de tomar seu café, segurava uma enorme pasta que pesava horrores, nunca pude ver, mas com certeza carregada de chumbo, e seguia rumo a prefeitura, poucos quarteirões da casa onde morava, no centro de Santo André. Minha tia Dionir corria para o quarto dos fundos - a casa era alta - e da janela acenava se despedindo. Amoroso, ele respondia, esticando um dos braços. A impressão era que ficariam dias sem se ver. Meu tio entrava as 8h00, assinava o ponto e as 9h00 estava de volta, isso quando não resolvia dar um passeio a pé pelo centro da cidade. Enquanto esperava a volta do marido, minha tia tocava acordeon.
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Naquela manhã, no começo dos anos 70, fiquei esperando sua volta e fomos ao encontro deste seu amigo, dono da Rádio Clube de Santo André, atual Trianon de São Paulo. Tratava-se de José Astolphi (nada a ver com o árbitro de futebol), na verdade, sócio na emissora com Antonio Del Fiol, conhecido radialista da Jovem Pan de São Paulo, falecido em 2002. Del Fiol destacou-se como o mais famoso garoto-propaganda da TV brasileira, quando por décadas foi porta-voz das campanhas publicitárias do saudoso Mappin e também do Jumbo Eletro. A Rádio Clube ficava na Rua Oliveira Lima, hoje calçadão coberto de Santo André. Não precisamos entrar, o amigo do meu tio estava num café, ao lado da Rádio Clube. Astolphi era um senhor de idade, vestia um terno escuro, enorme para o seu tamanho, ficando a nítida impressão que o defunto, ex-dono daquelas vestes, era bem maior que ele. Como não abotoava o paletó e carregava alguma coisa pesada num dos bolsos, um lado ficava bem maior que o outro. Para resumir, era bem desengonçado. E mal encarado. Assim que fui apresentado a ele, olhou-me da cabeça aos pés, como se estivesse vendo o ET de Diadema. Quando soube que eu era locutor, faltou apenas dizer: “isso aí?” Mesmo assim nos convidou para entrar na rádio e garantiu, para minha surpresa, que eu teria emprego. Antes faria um teste, caso não fosse aprovado como locutor, poderia oferecer-me uma vaga no jornalismo, precisava de um redator de notícias...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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*Acompanhe nesta quinta-feira o quarto capítulo da série, “O dia em que gravei o Jornal Nacional”.
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