terça-feira, 21 de julho de 2009

"O HOMEM É ESCRAVO DE SI MESMO"
VIDA MODERNA

Você sabia que há 24 anos o brasileiro trabalhava apenas 42 horas por semana e hoje esse número atinge cerca de 51 horas de jornada de trabalho semanais? Atualmente 82% dos brasileiros nos centros urbanos admitem que o nível de ansiedade subiu nos últimos anos e com ele os índices de stress e de cansaço físico e mental. A vida moderna mostra indícios jamais vistos antes em toda história da humanidade. Cada vez mais as pessoas vão ocupando seu dia somente com tarefas e afazeres e esquecem o lazer. O tempo está se reduzindo tanto que nem sempre é possível fazer o que se gosta ou ainda, o pouco que se precisa. Em uma sociedade extremamente capitalista o Homem está se tornando cada vez mais o alvo de seus próprios interesses e de suas ambições. As pessoas sem perceberem estão se tornando escravas de si mesma. Vivemos num mundo acelerado, com inversão de valores muito feroz e uma mudança de conceitos, sobretudo morais, contundente. As culturas se misturam, os velhos sótãos se abrem para um mundo claro e nu. A dor impera e a cada dia que passa ela vai tomando conta da Terra. Guerra, desavença, etnia, politicagem, picaretagem e assim vai. Para piorar tudo, ainda assistimos um sujeito ganhar um Big Brother e se tornar autoridade para opinar sobre tudo. Até sobre física quântica se quiser. Juntando isso tudo, imagine o que uma criança de 10 anos acrescenta em seu começo de vida?
Não há ídolos, não há privacidade, não há respeito e a água está acabando. As drogas estão mais fortes e a demanda por elas é cada vez mais clara. Nossa reação beira a indiferença.
Um passado não tão distante as pessoas viviam em chácaras, fazendas, sítios, distantes da correria, mas onde a qualidade de vida é incomparavelmente superior a de hoje. A paz e o sossego encontrados antigamente nesses lugares, que nos proporcionam um contato direto com a natureza, os rios, o vento suave que entra pela janela, o pôr-do-sol único, perderam espaço para os computadores, os celulares, o escritório, as obrigações com entregas, com prazos, a falta de tempo, o note-book, enfim... Hoje o mesmo Homem que tanto lutou e ainda luta pela modernização da sociedade olha para trás com a vontade de voltar o tempo, de recomeçar, de resgatar o que foi perdido: aquela vidinha pacata, mansa, mas muito mais prazerosa de se viver. O refúgio de muitos hoje em dia é o isolamento total, a fim de buscar o equilíbrio da mente e do corpo. Uma tentativa muitas vezes frustrante de reencontrar tudo aquilo que há tempos foi deixado para trás, e tudo isso pela tão sonhada "vida moderna" que nos circunda. Mas é preciso muito mais do que saudade de tudo isso, pois o passado não volta mais. O tempo não pára para que possamos reconstruir a história. A realidade é uma só: cada um é dono de si mesmo. E por isso, depende só de você mudar seu presente para que seu futuro seja tão bom quão foi o passado.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

LITERATURA & MEMÓRIA. E JORNALISMO...

ADEMIR MEDICI
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Início dos anos 1970. O “Jornal da Tarde”, na sua fase pioneira, de tanto sucesso entre os estudantes de Jornalismo, principalmente, publicava uma reportagem especial de página dupla com o título “A crônica está morrendo”. Falava dos grandes jornalistas que se especializaram na área, acentuando a importância de Otto Lara Rezende, Rubem Braga, Vinicius de Morais, etc. E analisava a questão da objetividade da mídia impressa, a tal de imparcialidade da notícia, o “lead” importado da imprensa americana, das celebres questões que deveriam estar acomodadas e reunidas no primeiro e/ou segundo parágrafos de qualquer notícia: quem, quando, como, onde e porque.
Na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero aprendíamos estas coisas. A fórmula da pirâmide numa reportagem especial, das informações básicas das primeiras linhas de um texto e a narrativa do fato nas laudas seguintes. Devíamos, em especial no chamado jornalismo informativo, evitar a alternativa da pirâmide invertida, isto é, deixar para o final, a informação mais importante, tal e qual as novelas de antigamente e de todo o sempre. Ensinava-se: “O leitor moderno tem pressa, não tem tempo a perder”.
Numa reportagem especial, quando muito, poderíamos utilizar a regra da pirâmide mista: o “lead” na cabeça e a história contada a seguir. O jornalismo dividia-se em três: informativo, interpretativo e opinativo, este último reservado, no mais das vezes, ao editorial, que encerrava a opinião do próprio jornal. Estes ensinamentos provocavam grandes debates em sala de aula: nós, alunos, discutindo e duvidando da isenção do profissional que elabora uma notícia, por mais simples que seja; os mestres pregando a objetividade.
Vários dos colegas de classe já estavam na labuta das redações. Um deles era setorista do JT no Corinthians e havia brigado com a direção do clube por ter pegado muito no pé de um time que não ganhava um campeonato de importância desde o IV Centenário de São Paulo. Vibrávamos com as suas histórias, narradas aqui e ali pelos corredores da Gazeta. Às segundas-feiras os alunos ligados ao futebol assistiam às aulas até às 9 da noite. Depois subiam dois andares para acompanhar nos estúdios o programa semanal esportivo que analisava a rodada anterior. Ali, sim, se fazia jornalismo, e não na faculdade... Era o que mais se falava. Outra polêmica era provocada pelo Vicente Leporace, com o seu programa “O Trabuco”, da Rádio Bandeirantes. Era ética a ação do radialista, de recorrer basicamente ao noticiário dos jornais para fazer os seus ácidos comentários matinais? Não era muito cômoda esta prática do “gilete press”? Por que a rádio não investia mais na sua própria equipe de repórteres?, sem ter que recorrer sempre aos jornais e abrindo mais espaço a uma mão-de-obra faminta para mostrar a sua força.
Tínhamos os professores literatos. Um deles, do tipo “show”, vivia apregoando as virtudes de um Machado de Assis. Eu adorava o professor de Literatura Brasileira, José Geraldo Vieira, o “Vieirinha”, já velhinho, cabeços brancos. Ele nem completava o número de minutos de cada aula. Chegava, dava o seu recado, mergulhava em reminiscências deliciosas e despedia-se meia hora depois – deixando uma vontade na vida da gente: que a semana passasse depressa para podermos ouvir novamente as suas histórias.
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JOSÉ GERALDO VIEIRA (1897-1977). Obras referenciais: “A ladeira da memória”, “A quadragésima porta”, “Território humano”, “A túnica e os dados”, “Terreno Baldio”.
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Num dos trabalhos em equipe levamos o autor Emil Farah à sala de aula. Ele havia terminado de escrever o livro “O país dos coitadinhos”, e foi muito bom ouvi-lo durante toda uma aula. Politicamente, havia algumas disputas naqueles tempos de ditadura militar e censura: a briga do pessoal da noite com o da manhã pelo conquista do diretório acadêmico. A turma da noite bolou a chapa “Corujão”, cheia de bossa e cartazes, que ganhou a parada e dominou o diretório.
Outra briga era com a direção da escola. Dizia-se: “só tem cara do TFP no comando”. Havia uma unanimidade: a faculdade de jornalismo só serve mesmo para a obtenção do “canudo” – e com ele o registro de jornalista profissional no MTPS, obrigatório ao exercício da profissão desde 1969. Todos concordavam: jornalismo a gente aprende é na redação de um jornal.
Lembro de um desentendimento que tive com o tal professor do “Machado de Assis”. Suas observações num trabalho qualquer não me convenceram. Discuti o assunto, na redação do Diário do Grande ABC, com o secretário, José Louzeiro, um ídolo pra nós todos pela sua formação de repórter e escritor. E o Louzeiro, ranzinza e tudo o mais – só do lado externo do coração – ficou do lado da gente, rabiscando algumas linhas no próprio trabalho e lascando o malho no professor. Este nem respondeu. Dizíamos: “Como é que um professor de faculdade de jornalismo vem dar aula sem nunca ter pisado numa redação de jornal”?
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JOSÉ LOUZEIRO. Maranhense. Mora atualmente no Rio de Janeiro. Obras referenciais: “Lúcio Flávio, passageiro da agonia”, “Aracelli, meu amor”, “Biografia de Elza Soares”.
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Devorávamos as reportagens do JT, de tantos ídolos. E agora estávamos diante daquele material especial sobre a crônica, que estava morrendo. Estava?
Lourenço Diaféria era leitura obrigatória no “Folhão”. Houve aquele caso em que ele peitou as Forças Armadas dizendo que o sargento que salvara uma criança no zoológico de Brasília dos ataques de uma ariranha – que lhe custou a própria vida – era muito mais herói que o próprio Duque de Caxias. A censura caiu matando e pelo menos um dia a “Folha” deixou em branco o espaço do cronista censurado na última página do caderno de variedades.
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Paro por aqui. O relato prossegue. Não é novo. Usei-o numa palestra sobre literatura alguns anos atrás. A íntegra do trabalho está reunida em livro. Lembrei-me dele nesta segunda-feira quando o nosso editor, Edward de Souza, pediu socorro para alguns textos nesta semana em seu Blog.
Já havia lembrado do texto quando alunas da minha “Cásper Líbero” se manifestaram nesse mesmo Blog sobre seu cotidiano de acadêmicas. E achei que seria justo passar a ela alguns dos pensamentos que a gente tinha numa geração ou duas anteriores a delas. Hoje entendo que algumas certezas do tempo de estudante são questionáveis. Acho que o professor que defendia o Machado de Assis – Ciro Nepomuceno – estava certo. Penso que deveria ter levado mais a sério o curso de Jornalismo, que é importante – defendo-o hoje, assim como o diploma profissional. Mas, enfim, aí está a narrativa de um repórter que volta à juventude. Pelo menos serve de calhau ao blog que nos une.
PS – Não deixem de ler José Geraldo Vieira, em especial “A Ladeira da Memória”.
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*Ademir Medici é jornalista e escritor, formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Trabalha na imprensa do Grande ABC desde 1968 e especializou-se na área de resgate e reconstituição da memória. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Possui um acervo de 32 livros escritos, sendo 24 publicados e oito inéditos. Ademir também ganhou, em 1976, o Prêmio Esso de Jornalismo, em parceria com o jornalista Édison Motta, pela série “Grande ABC: A metamorfose da industrialização”. Atua no jornal Diário do Grande ABC desde 1972. Foi repórter especial, editor de Cidades e Política e secretário de Redação. Atualmente é responsável pela coluna Memória, uma das mais lidas do jornal e do quadro "MEMÓRIA", no programa "ABCD Maior em Revista".
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domingo, 19 de julho de 2009

BARRA DOS GARÇAS, A BOCA DO SERTÃO

UMA PESCARIA FRACASSADA
PARTE FINAL

J. MORGADO

Bem amigos (as), no final do capítulo de ontem já estávamos em Aragarças, às margens do ainda tímido Rio Araguaia. Iniciava-se alí a segunda parte de nossa aventura. Barra do Garças, na época, era uma cidade em ebulição. Pequenos municípios e lugarejos num raio de centenas de quilômetros dependiam daquela que poderia se chamar “boca do sertão”.
Não gostei quando o amigo dos meus companheiros ficou surpreso com nossa presença. Notava-se pela expressão de seu rosto que ele havia exagerado na dose, ou seja, nos barcos prometidos, na condução para chegar até o local, etc. De qualquer forma, ele nos atendeu com presteza. Hospedou-nos em sua casa e desapareceu por algum tempo!
Horas depois disse que estava tudo arrumado. No dia seguinte, com uma camionete emprestada, depois de providenciarmos combustível e alimentos, entre outros itens, iniciamos a viagem. Cerca de 150 ou 170 quilômetros nos separavam da barranca do rio Corrente, na região de Nova Xavantina. Engolimos um bocado de pó. Quatro ou cinco horas de viagem e lá estávamos. Passamos por algumas fazendas em formação. Gaúchos, paranaenses e mineiros. A derribada do cerrado para o plantio de arroz e soja começava. Os mineiros se contentavam com a criação extensiva de gado bovino. O rio Corrente que não consta na maioria dos mapas, é um afluente do rio Pindaíba que por sua vez desemboca no das Mortes. Na barranca do rio, dois barcos, um em péssimas condições e o outro em condições ruins. O tal amigo disse que apesar do aspecto, as embarcações davam para viajar. Olhamos um para o outro e, mudamente resolvemos arriscar! Só os fanáticos caçadores e pescadores para se expor a perigos imprevisíveis como esse!
A paisagem e a beleza do rio nos enfeitiçaram. O amigo da onça ali nos deixou com a promessa de voltar uma semana depois. Acampamos. Partiríamos no dia seguinte. Ali mesmo, pegamos alguns pacus, pequenos na verdade, mas que deram um ótimo jantar. Pela manhã, o motor foi engatado no melhor dos barcos. O outro seguiria corrente abaixo com o controle de varejões. A correnteza era razoavelmente forte, as águas transparentes e o fundo do rio pedregoso. Na volta, o barco seria rebocado. Eu segui com o italiano, que pilotava o barco. Apesar de meus avisos, o companheiro insistia em manter uma velocidade acima do que a situação permitia. De quando em quando, fazíamos uma parada para esperar o outro barco. A carga estava dividida. Barraca e toda uma parafernália para o mínimo de conforto. A viagem ia bem até que o apressado do piloteiro, com sua incompetência e desatenção aprontou!
O pequeno rio era cheio de curvas. Corrente forte (daí seu nome), apresentava muitas galhadas e paus avançando das margens. E foi numa dessas curvas que uma dessas galhadas nos surpreendeu! O barco bateu feio! O canal se apresentava violento! Praticamente quase toda a água descia por um estreito de pouco mais de seis ou sete metros. O piloteiro (o italiano) caiu e ficou na parte rasa. Eu, não tive a mesma sorte. O barco afundou! Agarrei-me a galhada! Queria sair nadando, mas estava por demais vestido, coisa que sempre evitava quando embarcado. Porém havia parado algum tempo antes a fim de caçar um mutum que havia piado. A caça seria o jantar daquele dia. Botas, cinturão com cartuchos, entre outras coisas, atrapalhavam meus movimentos! Domênico, já na margem direita, buscava uma forma de me socorrer! Foi ai que encontrou um cipó salvador! Lançou-o, uma, duas vezes. Na terceira consegui agarrá-lo, saindo daquela situação desagradável. O outro barco com os outros dois companheiros chegaram logo em seguida. Juntos, com cordas e muito esforço, conseguimos içar o barco afundado. Comestíveis, material de pesca, meu óculos entre outros itens ali ficaram. Ainda bem que tínhamos dividido o material. Assim, o combustível e mantimentos tinham sido preservados, O café? Foi pro fundo daquela “linda” correnteza.
Não podíamos mais prosseguir viagem. O motor precisava ser desmontado. Era necessário secar suas peças. Coisa de alguns dias. Restou-nos escolher uma barranca alta logo abaixo e ali acampar. Sem material de pesca e com poucos cartuchos intactos de munição que teriam de ser gastos parcimoniosamente ali ficamos jogando truco, esperando que o motor estivesse em condições de nos levar de volta.
Uma manhã, um lindo espetáculo se nos deparou. Uma subida de cacharas (pintados) tomava todo o leito do rio. Os peixes pareciam ter o mesmo tamanho (cerca de 40 a 50 centímetros). As águas límpidas e rasas daquela corrente eram como uma tela de cinema passando um filme sobre belezas naturais. Uma fisga de quatro dentes de aço tinha sido salva. E foi com ela que fisgamos um bom número de peixes. O cardápio enriquecia-se com aquela pescaria tão oportuna.
Finalmente, o motor voltou a funcionar. Desmontado o acampamento e carregado os barcos, começamos a subir o rio. Foi um sacrifício insano. O rio muito baixo dificultava a ação do motor. Da partida até a chegada ao nosso destino inicial, 39 pinos se quebraram. Cada vez que um pino se quebrava tínhamos que descer e segurar o barco para a troca. Era perigoso! Apesar de um rio de águas claras e correntosas, podia se avistar vez ou outra, as perigosas e venenosas arraias.
Finalmente chegamos! E agora? Cadê o tal amigo? Acampamos. Em lugar não muito distante, na vinda, encontramos uma fazenda. O Oswaldo e o Lúcio saíram em busca de ajuda. Horas depois, voltaram com uma camionete dirigida por um dos fazendeiros. Alegria! Tralha embarcada, e lá fomos nós para a fazenda. Ao chegarmos, fomos atendidos por uma senhora bastante gentil. A casa, toda de madeira, era bem típica de quem está começando uma fazenda. Fogão à lenha, amplos cômodos. Gaúchos que estavam se estabelecendo. A mulher, prontamente nos serviu um café em canequinhas de ágata. Eu, cara de pau, há uma semana sem tomar café (o nosso se perdeu no naufrágio), corri em direção a minha mochila e de lá peguei minha caneca de ¼ de litro. Com olhos de peixe-morto, roguei à cabocla: ”por favor, encha minha caneca”.
Acampamos ali e, no dia seguinte, retornamos a Barra do Garças de carona, graças a boa vontade daquela gente boa. Ao chegarmos a Barra, nos dirigimos até a casa do tal amigo. Adivinhem o que estava acontecendo? O cara estava internado no hospital com um ataque de malária! Nós o visitamos, agradecemos e nos despedimos. A volta se deu por outras estradas, passando por Goiânia, capital daquele lindo Estado. Lindas paisagens, a balsa sobre o rio Claro, etc. Não há fotos desta aventura. A máquina, uma Olympus, ficou danificada ao mergulhar junto com o barco. Restaram as lembranças de uma aventura e de pessoas que conhecemos nessa pescaria desastrada!
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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sábado, 18 de julho de 2009

UMA PESCARIA FRACASSADA
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Primeira parte
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J. MORGADO

Truco! Seis! Ladrão dos meus tentos! Esse jogo de cartas tão a gosto do pessoal do interior e nas barrancas dos rios, durante as pescarias, já durava mais de cinco dias dentro de uma tenda armada na barranca do Rio Corrente, afluente do Rio das Mortes. A cidadezinha mais próxima era Nova Xavantina, em Mato Grosso. Um acidente poucos dias antes, fizera com que a pescaria virasse um torneio de truco entre quatro amigos. Isso aconteceu em julho de 1973. Dois meses antes, eu havia sido procurado pelos outros três aventureiros, um italiano de nome Domênico, o Osvaldo e o Lúcio, todos moradores em Santo André-SP. Eu era bastante conhecido por causa da minha coluna semanal sobre pesca esportiva publicada na Seção de Turismo do Diário do Grande ABC. Frequentemente pescadores da região me procuravam para participar de suas excursões piscatórias. Aceitei o convite e a sugestão de que o destino seria o Rio Corrente. Esclareceram que no Município de Barra do Garças (MT), havia um amigo (deles) que tinha se prontificado a arrumar as embarcações. O motor de popa e o veículo, uma Variant do ano, eram dos meus novos amigos. Acertado os detalhes sobre data e demais “salamaleques”, faltava apenas traçar o roteiro para a viagem. E isso caberia a mim. Assim, no início do sétimo mês daquele ano, logo de madrugada, saímos de São Bernardo do Campo, rumo a mais uma aventura.
Rodovias Anhanguera, Washington Luiz, Brigadeiro Faria Lima, passando por Jaboticabal, Barretos até o Rio Grande, divisa entre São Paulo e Minas Gerais, foi o trecho inicial percorrido. A seguir, pela BR-050, Uberaba e Uberlândia. A partir daí, o cerrado com toda a sua exuberância, intocável, com sua fauna, riachos cristalinos e rios caudalosos. Mas, esperem um pouco... Isso foi em 1973. Tudo acabou! Cana, soja, etc. O cerrado? O cerrado... Sumiu! Ficaram os rios, acho eu!
Do entroncamento – Uberlândia – Brasília – Ituiutaba – seguimos em direção a esta última cidade e fomos adiante até alcançarmos a divisa com o Estado de Goiás, onde o Rio Paranaíba, mais abaixo, encontra-se com o Rio Grande, formando o majestoso Rio Paraná, despejando suas águas de mais de 500 metros de largura em um canal que não passa dos 80. Águas turbulentas e profundas. Outra maravilha da natureza desaparecida em nome da evolução ou da ganância...
Desde o entroncamento, a estrada era de terra e assim prosseguiria até o destino final. O cerrado, com sua flora típica, árvores retorcidas e floridas e animais silvestres encantavam-nos. O pescador amador é antes de tudo um amante da natureza e se aborrece quando tudo isso desaparece. No caminho, boiadas com seus boiadeiros. O berrante à frente. Quem viajava por essas estradas sabia com algumas horas de antecedência, que no caminho encontraria uma boiada. O “maleteiro”, um peão com sua animália carregando malas e engradados, se adiantavam algumas horas. Era o cozinheiro. No local destinado, geralmente a beira de um rio ou riacho, a bóia fumegante.
Depois de mais de 900 quilômetros percorridos, “arranchamos” em uma fazenda entre os municípios de Cachoeira Alta e Caçu, em Goiás. O dono da fazenda era meu amigo e lá ia eu ter vez outra passar alguns dias. Era época em que as perdizes, jaós e inhambus começavam a cantar. Seu canto era para atrair as fêmeas para o acasalamento. Suas “vozes” soavam de maneira como que nostálgica ou melancólica. Que saudade!
Pela manhã, partíamos. Centenas de quilômetros nos separavam do objetivo. Muitas alegrias e surpresas nos aguardavam durante o percurso. Os postos de gasolina em que abastecíamos a nossa Variant eram movidos a manivela. Sim, a manivela, não havia energia elétrica nessas estradas do sertão. A Variant estava pesada, além dos quatro marmanjos, toda a bagagem e mais um motor de popa. A conversa entre nós girava em torno de caçadas e pescarias. A cada animal silvestre que surgia na estrada era um frenesi. Veados, tamanduás, tatus, irararas, lagartos, etc. eram uma constante. Infelizmente, tudo acabou! E os culpados não foram os caçadores. A soja, a cana e sei mais lá o que, tomou conta de tudo. O cerrado, pobre cerrado... O bicho homem comeu! Os bandos de araras vermelhas, azuis... Maritacas, periquitos, papagaios, tucanos, coloriam o espaço a nossa frente! Procurávamos evitar que outro veículo passasse a nossa frente, se bem que eram poucos. O pó era terrível. Quando isso acontecia, as janelas eram fechadas senão teríamos que cuspir barro. Passamos por vários lugarejos com nomes interessantes. Lembro-me de termos feito refeições em Piranhas. Um pequeno município de Goiás. Caiapônia, entre outros lugares na região, começava a se desenvolver. Viajávamos entre as duas grandes bacias hidrográficas, a Platina e a Amazônica. Ora encontrávamos rios correndo para o sul, ora para o norte.
Enfim, chegamos a Aragarças, as margens do ainda tímido Rio Araguaia. Essa cidade foi outrora (se não estou enganado 1957/58), palco de uma rebelião militar, que como tudo aqui no Brasil, acabou em pizza. Do outro lado, Barra do Garças, município mato-grossense. Local onde estabelecemos contato com o tal amigo. Mas, essa segunda parte de nossa aventura eu conto amanhã, domingo, aqui no blog do Edward de Souza, prometo...
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

HISTÓRIAS DE UM AMIGO QUE NOS DEIXOU

OSWALDO LAVRADO
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Rubens Fenili, o Rubão, da Folha de São Paulo
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No dia de ontem, quinta-feira (16), ao abrir a página 2 do caderno "Setecidades" do Diário do Grande ABC, como faço todos os dias, para acompanhar a saborosa coluna Memória do nosso Ademir Medici, levei um susto. Mesmo antes de bater os olhos na manchete da página deparo com três fotos de rostos por demais conhecidos. Acima, o título: "Rubens Fenili, mas podem me chamar de Rubão...”
Rubens Fenili morreu no último dia 9, feriado paulista. Competente fotógrafo profissional, requisitado e respeitado em todos os espaços, Rubão, apesar do aumentativo, era magro, fininho e não passava de 1,70 de altura. Uma figura impar, amante do rock e do Corinthians. Prestou relevantes serviços à Câmara Municipal de São Bernardo e mais ainda ao jornal Folha de São Paulo. Culto, irreverente e polêmico, Rubão tinha acesso livre em todas as camadas sociais aqui no Grande ABC. Conheci o italiano, sua origem, lá pelo começo dos anos 70 quando ingressei na Imprensa. À época ele já era macaco velho nos labirintos da profissão onde a maioria dos focas, como era meu caso, tropeçava e batia cabeça. Talvez por temperamentos próximos ficamos amigos em curto espaço de tempo.
No começo dos anos 70, deixei o Diário do Grande ABC, em Santo André, e fui para a Rádio Diário, do mesmo grupo do jornal, em São Bernardo. O contato com Fenili não sofreu solução de continuidade porque o fotógrafo da Folha de São Paulo tinha entre seus melhores amigos Rolando Marques, editor de jornalismo da rádio e citado neste blog inúmeras vezes. Rubão teve em um episódio da minha vida significativa importância para que tudo acabasse da melhor maneira possível. Em 1976, um fim de tarde de sábado, voltava da sede do clube Fundação, em São Caetano, onde passei o dia batendo um barulhento truco de parceiro com o prefeito Walter Braido (falecido em novembro passado), contra seus assessores Mariano Gutierrez (também falecido em 2008) e Antonio José Dal’anese, que seria prefeito de São Caetano nas décadas 80/90.
Na direção de meu Opala amarelo, quatro portas, câmbio no volante e ano 74, subia a rampa do viaduto dos Autonomistas, sobre a estrada de ferro que divide o Centro de São Caetano e o Bairro Fundação, quando tive um pequeno entrevero com o motorista de uma Rural Willis. Não houve batida entre os veículos, porém o rapaz da Rural decidiu não deixar barato o que entendeu ser uma provocação. Já na Rua Conselheiro Antonio Prado, que margeia a estrada de ferro, o cidadão resolveu fechar a passagem, forçando minha parada. Quando desceu percebi que se tratava de um policial militar, pois estava fardado. Fiquei no meu Opala esperando. Furioso, o PM chegou até onde eu estava e, irado, passou a me agredir. Colocou o corpo para dentro do meu carro e arrancou as chaves do contato. Defendi-me como podia até o instante em que um soco do celerado acertou em cheio meu supercílio esquerdo que sangrou. Fiquei possesso e empurrei a porta na tentativa de prensar o agressor contra a Rural dele, mas o cara esquivou-se, foi até seu carro e voltou de revólver em punho. Desesperado, tentei ligar meu Opala para cair fora dali, mesmo que tivesse que passar sobre o brutamontes, mas a chave não estava no contato; o PM havia tirado um pouco antes. Fechei a porta e o rapaz batia com o cabo da arma no pára-brisa. Algumas pessoas que assistiam a patética (ou dramática) cena tentavam acalmar o policial, mas eram por ele ameaçadas com a arma. Então chegou um carro de polícia. Dois agentes desceram do fusquinha vermelho e preto, cores da época, e foram direto ao meu agressor, agora mais calmo. Conversaram e determinaram que eu os acompanhasse até a delegacia, cerca de uns 500 metros do local. Um deles pediu meus documentos e mostrei a carteira de Imprensa. Mesmo com minha camisa suja de sangue e transtornado ouvi o PM murmurar ao agressor: "Sujou, o cara é jornalista e tá cheio de gente ai a favor dele". Fomos para o 1º DP, na Avenida Goiás. Fiquei numa sala e o PM em outra com o delegado de plantão daquele sábado, Luiz Marinaro. O policial de sobrenome Cabrera contou sua versão. Após um belo chá de cadeira, a autoridade me chamou e determinou: “O senhor pode ir embora", e devolvendo meus documentos, acrescentou: "deixa tudo isso pra lá". Pedi para telefonar, mas o delegado não permitiu. Peguei os documentos e a chave do carro e parei no primeiro orelhão que encontrei. Liguei para a Rádio Diário e o Rolando Marques atendeu: "Onde você está "?, perguntou. Nervoso, respondi: "Estou em São Caetano. Fui agredido por um policial, coagido por um delegado e estou com o rosto sangrando". Rolando sugeriu que eu fosse ao PS de São Caetano e lá aguardasse. Meia hora depois ele, Rolando, apareceu no Pronto-Socorro acompanhado do Rubens Fenili, o Rubão. Fiz exame de corpo de delito e voltamos à delegacia. Já era noite, tipo 20h, e o delegado havia terminado seu plantão. Fomos então ao 1º Batalhão da PM, em São Bernardo, responsável pelo destacamento de São Caetano, onde fiz um boletim de ocorrência. O coronel Oswaldo Machado, que nos atendeu, disse que iria precisar de testemunhas para confirmar onde eu estava, o que fazia, se eu era gente boa e blá, blá, blá. Arrolei o prefeito de São Caetano, Walter Braido e meus companheiros de mesa de truco. Era minha intenção envolver o parcial delegado de São Caetano na denúncia e acabei conseguindo já que, fiquei sabendo depois, o Braido não ia com a cara do majorengo, que também morava em São Caetano.
Dias depois, recebi, na rádio, um telefonema do PM Cabrera ameaçando: “Olha, se você não retirar esse BO que está no comando algo de ruim pode lhe acontecer. Sei onde você mora em São Caetano e que é casado e tem uma filha. Sei também de seus pais que residem na Vila Gerty". Fiquei preocupado e, agora entra novamente o Rubão da Folha na história. Por sua sugestão voltamos ao comando da PM em São Bernardo. Contei o que estava ocorrendo e fui aconselhado a encerrar o caso, as ameaças seriam esquecidas e seria melhor para todos. Inconformado e não aceitando a sugestão, Rubão deu um murro na mesa de um sargento e berrou: "Ninguém vai afinar e muito menos abafar o caso. O Lavrado foi agredido, humilhado e está sendo ameaçado; a coisa não pode ficar assim". Um graduado berrou: "Cala a boca, pois pode sobrar também para o senhor". Enfurecido, o fotógrafo da Folha respondeu: ”Acompanho o caso desde o começo e não estou aqui para barganhar; se for preciso mobilizo agora mesmo toda a imprensa de São Paulo e a gente vê no que vai dar". Exigiu ainda que durante o processo administrativo uma viatura da PM ficasse defronte a casa onde eu morava, como velada proteção à minha família, no que foi feito. O processo prosseguiu, o policial foi punido de acordo com os padrões militares, o comando da PM enviou-me um ofício e outro à Rádio Diário comunicando das providências tomadas. Nunca mais vi o PM Cabrera e nem o delegado empombado que, segundo o prefeito Walter Braido havia me informado, foi cantar em outra freguesia. Rubão faleceu agora em 9 de julho, 15 anos depois, no mesmo dia da morte do nosso outro amigo-irmão Rolando Marques. O corpo de Fenili foi cremado no Cemitério da Vila Alpina, em São Paulo, ao som de rock, porque ele era fã número um de Elvis Presley e coberto por uma bandeira do Corinthians. Até seus últimos dias morou na Rua Martini, travessa da Avenida Caminho do Mar, em Rudge Ramos, São Bernardo. Descanse em paz, Rubão.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista. Trabalhou no Diário do Grande ABC - rádio e jornal - e dirigiu por 10 anos a equipe de esportes da Rádio Diário. Recebeu a Medalha João Ramalho, segunda condecoração em importância concedida pela Câmara de São Bernardo, por organizar, junto com a equipe de esportes da Rádio Diário do Grande ABC, duas edições da Copa Infantil de Futebol, que reuniu cerca de 1.7 mil jovens entre 7 e 14 anos.
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Foto: Rivaldo Gomes/DGABC (2004)
COLUNA MEMÓRIA
DIÁRIO DO GRANDE ABC
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ADEMIR MEDICI
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Uma pena que as gerações passem e os nossos valores sejam esquecidos. Mas quem conheceu Rubens Fenili (foto), o Rubão da Câmara e da Folha, terá conhecido um jornalista e repórter fotográfico que não conseguia separar o seu trabalho profissional do humano. Até por isso Rubão foi um excelente companheiro jornalista.
Fixemos um período: anos 1980. O Grande ABC talvez vivesse a sua década mais rica em termos de imprensa, com o nosso Diário e várias sucursais e correspondentes dos grandes jornais brasileiros. Rubens Fenili fazia o seu trabalho de fotógrafo da Câmara de São Bernardo, cobrindo as sessões solenes e mil cerimônias oficiais, mas a figura de repórter fuçador era vivida como correspondente do Grupo Folha, que envolvia não apenas a Folha de S. Paulo como os jornais Notícias Populares e Folha da Tarde.
Na cobertura do cotidiano, Rubão transformava-se em líder de todos nós, dividindo gostosamente as suas descobertas na cobertura policial e numa atividade que fervia, a sindical. Memória publicou uma foto de Lula e seus companheiros de diretoria numa grande mesa do DOPS, à espera de audiência. Ao fundo, os jornalistas Roberto Baraldi (do Diário) e Rubão, o "italianinho" ferrarista, olhos atentos, sorriso desbocado: "O que será desses sindicalistas?", parecia indagar Rubão.
Margarete Acosta (ex-Diário) agora estava em O Globo; Edison Motta no Jornal do Brasil, Edward de Souza no sistema Globo - Excelsior de Rádio, Hildebrando Pafundi no Estadão, José Roberto Marques na Rádio Bandeirantes e Rubão ligando a todos para passar a última. O jornalismo do Grande ABC devia mais uma a ele, que jamais guardou um furo para si. Feliz dia em que o ex-vereador Américo de Morais repassou à Memória um conjunto de fotos de um velho Carnaval de Rua em São Bernardo. "Foi o Rubão quem tirou" - disse-me Morais. Mas, onde estaria Rubão? Aposentado, deixara a Rua Martini em Rudge Ramos e morava agora - com sua Matilde, é claro - no bairro Jordanópolis. Foi um belo reencontro. Rivaldo Gomes tirou fotos do colega mais velho Rubão. E, tempos depois, ano passado mais precisamente, Rubão ligou para falar dos seus discos e dos seus ídolos. "Você quer meus discos?" A oferta rendeu uma bela gravação de TV, que perpetua a imagem e as tiradas do querido Rubão.
Rubens Fenili - "mas podem me chamar de Rubão" - estava adoentado. Partiu ao som de Elvis Presley há uma semana. "Ele era corintiano fanático", confidenciou Matilde aos funcionários do crematório de Vila Alpina. E o Hino do Timão foi tocado três vezes naquele dia, mesclando com as canções de Elvis. No dia seguinte Rubão completaria 70 anos.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

BRASILEIRO É MESMO UM CARNEIRINHO?

NIVIA ANDRES
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Reflexões sobre a omissão coletiva
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Acredito, sinceramente, que todos os cidadãos brasileiros dignos e decentes estejam muito insatisfeitos com os desmandos que estão acontecendo na política. Mas o que fazemos para demonstrar contrariedade? Nossa insatisfação é passiva, constrangida, inerte, envergonhada. Rima com omissão. Os políticos perderam todos os limites impostos pela ética, solapam escancaradamente o patrimônio público e devem rir muito dos poucos que se atrevem a denunciá-los. A ousadia e o cinismo dos corruptos é respondida com uma espécie de conivência angelical por aqueles que se julgam "do bem". É a aceitação silenciosa de todos os abusos, expressada na mansidão de um dócil rebanho...
Na verdade, não queremos nos incomodar, porque o protesto, a denúncia, implicam no abandono da tranquilidade da vida privada, significam que teremos de suportar eventuais pressões, ameaças e perigos outros inerentes à iniciativa de mexer com o poder da corrupção secularmente entranhado neste país.
A questão crucial é que, intimamente, todos acreditamos que a situação é insolúvel - a corrupção já faz parte da vida dos brasileiros, entranhada até nos mais recônditos e honoráveis bastiões da vida nacional. Mais, ou menos, todos são corruptores e corrompidos. Depende do interesse que move cada um. O afrouxamento dos valores e a impunidade, de fartos e fortes exemplos diários, contaminaram a quase todos. E os bons modelos não contagiam mais ninguém. Se é muito mais fácil conseguir o que se quer pelo caminho mais curto, por que optar pelo correto, que é tortuoso, demanda tempo e nada garante?
Cada dia traz à luz novo espetáculo da corrupção que grassa nas instâncias de poder mais altas da república, onde se pratica os mais variados trambiques voltados a embolsar o dinheiro público. Mais uma leva de servidores do Estado, governantes, deputados e senadores envolvida no escândalo. Fica muito claro que o exercício da política no Brasil se resume a lances de esperteza, malandragem, compadrio e tráfico de influência.
A grande maioria dos políticos, hoje, não se interessa mais pela responsabilidade que lhes foi imposta pelos eleitores. O poder é apenas a porta de entrada para um mundo mágico onde tudo é possível. Tão possível que agora o fruto da gatunagem viaja em malas, cuecas, caixas de bebida e outros tantos invólucros nada ortodoxos. Sucesso político não mais se traduz em bons projetos, programas e leis que beneficiem a população, mas em iates, helicópteros, carrões importados e mansões. Quanto mais, melhor.
Triste mesmo é constatar que os cidadãos não têm mais instrumentos efetivos para interferir nos procedimentos da política já que abdicaram de exercer, com responsabilidade e senso crítico, o poder de escolha pelo voto. Preferiram, mais uma vez, eleger malandros, delinquentes, aproveitadores, cínicos e espertalhões, que continuam a dilapidar os cofres públicos, sem o mínimo pudor, crentes que a impunidade, mais uma vez, os privilegiará.
Assim, seria absolutamente injusto não mencionar aqui outro importante comparsa da quadrilha: o povo brasileiro que, agora, se queda, como marionete inerte, a assistir o espetáculo proporcionado por brilhantes atores de estrelas reluzentes, numa cena que seria cômica se não fosse trágica. Um país que trata com seriedade suas questões políticas jamais reconduziria notórios corruptos e corruptores a cargos eletivos. O povo compactuou com a esparrela, sim. Continuou a validar e aplaudir quem o ludibriou. Mas, e aqueles brasileiros que ainda acham que vale a pena lutar, têm coragem e ainda conhecem o significado da palavra vergonha, o que podem fazer? Estes têm que gritar, exigir seriedade e decência, pois a democracia não sobrevive sem a devida responsabilização dos agentes públicos. Nós temos o ônus de cobrá-la. Podemos até pensar em mudar, mas isso não significa que a situação vai melhorar, a menos que haja uma reforma democratizante da política, que só vai se concretizar se houver pressão da sociedade e uma quantidade suficiente de inovações que instituam regras para resgatar a política do buraco profundo em que se meteu. Com as regras que estão aí o jogo não muda.
Chegamos a uma situação-limite da vida política brasileira: ou reagimos e fazemos valer as regras do sistema democrático-constitucional ou vamos ser dizimados por um movimento político de dominação definitiva da coisa pública para fins privados e partidários. Se conservarmos a atitude cordata, apática, será tarde para lutarmos pelos direitos inarredáveis da liberdade e até ela, a liberdade, já vai nos ter sido roubada.
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*Nivia Andres,
jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008.
http://niviaandres.blogspot.com/
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sarney apronta, mas a culpa é da imprensa

Milton Saldanha
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REI DO MARANHÃO PEGO COM A BOCA NA BOTIJA

A revista Veja desta semana vem se somar ao Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo e outros veículos de alcance nacional e denuncia mais uma sacanagem do nosso ex-presidente e ilustre presidente do Senado Federal, José Sarney, também conhecido como Rei do Maranhão. Desta vez, amigas e amigos, é a denúncia da Veja sobre uma conta de nada menos que US$ 870.000,00 (haja zeros) no exterior. Vejam, não estamos falando de reais, o que já seria uma bela grana, estamos falando em dólares, movimentados através do Banco Santos, de triste memória. Não vou aqui entrar em detalhes, recomendo a leitura, na fonte original. Está tudo documentado, revelando a conta secreta. Seria a primeira e única? Como não acredito em Papai Noel já há algum tempo, acho que nem precisamos responder.
Mas a culpa é da mídia, diz o Rei do Maranhão, colocando-se como vítima de uma campanha de desmonte da sua imagem. Imagem? Que imagem? A do homem que se tornou parlamentar de alta confiança da ditadura militar e presidiu a antiga Arena? A do presidente que fez um governo falido e repleto de denúncias de corrupção? A imagem do presidente do Senado que montou uma verdadeira máquina de produção de escândalos, apostando na impunidade e na impossibilidade de ser descoberto? “Tenho 50 anos de vida pública”, alardeia o rei maranhense, como se isso fosse credencial e passe livre para tanto descalabro. Com tal folha corrida, seria melhor o silêncio.
Enquanto isso, o presidente Lula, que no passado baixava o pau no Sarney sem escolher palavras, tornou-se seu defensor perpétuo e juramentado. Quem mudou, o Lula ou o Sarney? Creio que nenhum mudou. No fundo, sempre foram iguais. Eles se merecem. Isso nada teria de ruim, seria problema deles, se pagassem suas contas. O problema é que tudo sai do bolso do sofrido povo brasileiro. Desde os tempos do José Dirceu na Casa Civil, ele mesmo, aquele do mensalão, o governo Lula vem usando uma palavra para definir sua política: governabilidade. Na teoria retórica, isso significa conciliação, paz, entendimento com todos. Na prática é bem diferente. É fechar os olhos a tudo, e fazer qualquer tipo de aliança, para que o governo seja minimamente incomodado. Já que fiz tantas perguntas, não custa fechar este comentário com mais uma, convidando todos ao debate democrático aqui no blog: alguém pode me provar o contrário?
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho da fronteira, é jornalista profissional, com mais de 40 anos de atividades. Começou em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1963. Foi repórter e exerceu cargos de chefia em alguns dos principais veículos do Brasil, como Rede Globo, jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, revista Motor 3, Folha da Manhã (RS) e outros. Foi repórter em Última Hora, trabalhando com Samuel Wainer. Já assinou artigos e reportagens em mais de uma centena de publicações de todo o Brasil. Trabalhou também em assessoria de imprensa, para empresas e entidades públicas, como Ford Brasil, Conselho Regional de Economia e IPT- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. É autor do livro “As 3 Vidas de Jaime Arôxa”, pela Editora Senac Rio, e participou como cronista da antologia “Porto Alegre, Ontem e Hoje”, pela Editora Movimento, do Rio Grande do Sul. Assinou também orelhas de diversos livros sobre dança e música, de autores brasileiros. Um ano antes de se aposentar, quando era editor-chefe do Jornal do Economista, em São Paulo, fundou o jornal Dance, que em julho completa 15 anos. Tem novo livro pronto, ainda inédito. É “Periferia da História”, onde conta de memória 45 anos da recente história brasileira. Trabalha em novos projetos editoriais, como jornalista e escritor. Na área de dança, organiza uma coletânea com os melhores editoriais publicados no Dance. Atualmente prepara um livro sobre Maria Antonietta, grande mestra da dança de salão carioca, que morreu recentemente. Apaixonado por viagens conhece quase todo o Brasil e já visitou cerca de 40 países. Por hobby e paixão é dançarino de tango.
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terça-feira, 14 de julho de 2009

BILLINGS AINDA SOFRE COM A POLUIÇÃO

ÉDISON MOTTA
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O VÔO CEGO DAS METRÓPOLES

Mergulhar no futuro desconhecido pode ser uma encantadora utopia. Podem-se construir os castelos que a imaginação alcança, adorná-los com grandes tesouros e edificar um mundo de confortáveis fantasias. Porém, com um pé na realidade do presente e um pouco de conhecimento do passado é preciso ser muito otimista para não imaginar a evolução e o agravamento do caos em que nos encontramos. Porque não há nenhum indicador, no momento, que permita sonhar com um Grande ABC livre de seus principais problemas nas próximas décadas. Pelo simples fato de que não existe esforço coletivo e tampouco mecanismos institucionais que permitam, ao menos, instituir um planejamento sobre a estrada que vamos percorrer logo mais à frente.
No início dos anos 70, a pequena redação do Diário do Grande ABC estava instalada na Rua Catequese, numa casa de quatro cômodos que já não existe mais. A poucos metros do terreno que abrigava as oficinas e escritórios do News Seller e onde seria construído o imponente edifício do jornal.
Numa tarde quente de verão lá apareceram dois leitores indignados. Eram Fernando Vitor de Araújo Alves e Jorge Ubirajara Cardoso Proença, moradores do bairro Eldorado, em Diadema. Eles acabavam de criar a Comissão de Defesa da Billings, uma entidade civil rara naqueles tempos de regime militar. A indignação de ambos era a transformação da represa, outrora um aprazível local de lazer, onde empresários da Capital construíram casas de veraneio às suas margens. Ali se praticavam esportes náuticos nos anos 50 e até mesmo uma incipiente indústria de construção e reparos de embarcações florescia. Porém, o crescimento vertiginoso da produção industrial da Grande São Paulo e a decisão de tecnocratas, abraçada pelo governo, de reverter o curso do Rio Pinheiros para jogar suas águas na Billings e, com isso, garantir o volume necessário para fazer girar as turbinas da Usina Henry Borden, de Cubatão, para produção de energia elétrica, destruira os melhores sonhos dos desencantados moradores do Eldorado. O paraíso agora estava sendo um verdadeiro inferno malcheiroso e impregnado de ratos, insetos com suas águas putrefatas do esgoto da região metropolitana.
Naqueles tempos não se falava em defesa do meio ambiente. O “milagre brasileiro” pulsava com intensidade nas chaminés das fábricas do Grande ABC com seus equipamentos obsoletos e poluentes, grande parte deles importados como sucata do primeiro mundo. O “eldorado”, para muitos, era transferir-se das zonas rurais e da seca inclemente dos Estados do Nordeste, de Minas, do Paraná e do interior para um local onde existiam muitos empregos.
Fernando Vitor e Jorge Ubirajara estavam na contramão da tendência generalizada daquele momento. Sentiam na própria pele que o “desenvolvimento” tão apregoado pelos defensores das chaminés acabaria por alcançar, mais tempo menos tempo, toda a sociedade. Eles eram as primeiras vítimas, porém muitas outras viriam.
Foi o que aconteceu. A poluição da Billings tornou-se de tal forma avassaladora e insuportável que, duas décadas depois, foi efetivamente enfrentada. E a Constituição Estadual de 1988 proibiu a reversão do Rio Pinheiros e o bombeamento dos esgotos para a represa. Porque se descobriu que o manancial tinha uma importância maior do que servir à produção de energia elétrica. As pessoas do Grande ABC e de parte da Grande São Paulo precisavam da represa como reservatório de água.
Na verdade, o bombeamento diminuiu, mas não cessou de vez. Ainda é utilizado nos dias atuais conforme decisões técnicas – ou tecnocratas – às quais a sociedade pouca informação recebe.
Ao mesmo tempo, ainda vai demorar para que as águas da Billings sejam consideradas livres da poluição. O adensamento populacional e a expansão irrefreada sobre as áreas de mananciais, no entorno da Billings, trouxeram outro problema, tão grave como o primeiro: agora, é o esgoto das precárias habitações construídas naquelas áreas de invasão quem compromete a represa, de vital importância para o suprimento de água para os mais de 2,5 milhões de habitantes da região.
A história da Billings ilustra o que acontece em praticamente todos os setores do Grande ABC e também nas periferias das regiões metropolitanas do País. Decisões de vida ou morte são tomadas em escalões onde a sociedade e a cidadania não têm acesso. Não que existam barreiras legais ou força militar que as impeçam. O que existe é uma apática distância entre os mecanismos institucionais de nosso regime democrático do cotidiano das pessoas.
Anel (in) Viário
O Grande ABC – como de resto toda a Grande São Paulo e as demais regiões metropolitanas - navega um vôo cego sem qualquer rumo planejado para o futuro. Existe um conflito natural entre a autonomia municipal e as questões regionais. Porque a água, a coleta e destinação dos esgotos, do lixo, o trânsito, a saúde, educação, habitação, o meio ambiente e até mesmo o lazer estão interconectados na região. Não há como tratar dessas questões de forma isolada, no âmbito municipal.
A represa Billings foi poluída sem que qualquer vereador ou prefeito pudesse opinar sobre seu destino. Assim está acontecendo com a construção do elo Sul do Anel Viário que vai despejar em Mauá o tráfego pesado de carretas e caminhões que atravessam o País de Norte a Sul, Leste a Oeste. Incompleto nesta primeira fase, ainda longe da Via Dutra e da Rodovia Ayrton Senna, fará com que a região importe um grave problema que hoje congestiona as marginais do Tietê e Pinheiros e também a Avenida Bandeirantes, na Capital.
Ainda nos anos 70 foi iniciada a obra de coletores de esgotos ao longo do Rio Tamanduateí e do Ribeirão dos Meninos. O projeto é retirar os despejos até agora jogados in-natura nesses afluentes do Tietê para tratá-los na Estação de São Caetano. Ocorre que ainda falta interligar a grande maioria das tubulações que neles deságuam para conectá-las aos emissários. Quando isso ira acontecer? Não há autoridade, em qualquer dos escalões administrativos capaz de responder à pergunta. Significa que a população da região ainda terá que conviver com seus principais rios poluídos durante muito tempo.
As Prefeituras não têm jurisdição sobre as águas e, conforme a Lei Orgânica dos Municípios estão impedidas de aplicar um único centavo na recuperação de seus rios. Soluções paliativas, aqui e ali, são adotadas como a canalização de córregos, algo como varrer o problema para debaixo do tapete.
Situações assemelhadas acontecem com a destinação final do lixo. Cada qual procura resolver à sua maneira. Ocorre que São Caetano já não dispõe, a muito tempo, de espaço para tratar seus próprios resíduos. Por enquanto, se socorre de Mauá, mas até quando? Na divisa da Zona Leste da Capital com Mauá a construção de um novo aterro sanitário está tirando o sono dos moradores das imediações.
Nos tempos antigos, um “slogan” era muito conhecido dos paulistas. O de que “São Paulo não pode parar”. Até que o engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, um competente urbanista transformado em interventor da Prefeitura paulistana pelo governo militar teve a lucidez de contrariar a corrente ufanista e declarar que São Paulo precisava sim, parar. Para pensar e para planejar seu futuro. Não é diferente com o Grande ABC e com as outras regiões do país que se industrializam. O Consórcio Intermunicipal e a Agência do Grande ABC jamais conseguiram ordenar nem mesmo uma pauta de prioridades para o futuro regional. Não se pode, a bem da Justiça, penalizar os prefeitos e técnicos que formaram os quadros dessas duas instituições. Porém a raiz do problema é que elas não dispõem de autonomia legal, institucional e nem mesmo de recursos para enfrentar aquela que seria sua verdadeira missão.
Nosso “eldorado” tupiniquim ufana-se de ser o terceiro maior mercado consumidor do País. Recuperou seu pulsar desenvolvimentista após o susto e a desconstrução da década de 90. Vivemos o céu e o inferno nos últimos 30 anos. E ainda não paramos para pensar como serão os próximos 30. No momento, preocupa a população os problemas da saúde, da violência e o congestionado trânsito de nossas ruas e avenidas além da falta de transporte coletivo com dignidade.
Mas alguém já parou para pensar que esses problemas – sentidos no dia-a-dia das pessoas – são apenas a ponta de um gigantesco iceberg? Que não se resolvem com medidas isoladas deste ou daquele Município?
É razoável pensar que nada vai mudar enquanto a sociedade, cada cidadão, não se preocupar em formar uma massa crítica e se organizar politicamente para exigir mudanças. E são mudanças profundas que devem começar com uma revisão da Constituição Federal. As regiões metropolitanas e suas subdivisões (no caso, o Grande ABC é formalmente a Região Sudeste da Grande São Paulo) precisam deixar o papel e passar a existir de fato e de direito. No regime militar, ainda nos anos 70, foram criadas no âmbito do Governo do Estado a Secretaria de Negócios Metropolitanos, a Emplasa – empresa pública destinada ao planejamento - o Consulti - Conselho Consultivo da Grande São Paulo e o Codegran, Conselho de Desenvolvimento. Formulações teóricas e tecnocratas que serviram, tão somente, para acomodar apadrinhados políticos.
Há um conceito generalizado de que a classe política é o espelho da sociedade. E será melhor ou pior conforme a cidadania tiver ou não interesse em assumir as rédeas de seu próprio destino. Para que o Grande ABC possa evitar a repetição de erros como o da represa Billings – que, infelizmente, ainda ocorrem em todos os rincões do País – e construir seu futuro será necessário um novo despertar de seus habitantes. Que os seres humanos acordem, deixem de ser autômatos e escravos da noção de que progresso é apenas e tão somente dinheiro. Afinal de que vale um bom emprego se o acesso a ele, desde o momento em que se deixa a residência com destino ao trabalho é uma perigosa aventura? Uma partida onde não se têm certeza da volta? Uma verdadeira maratona diante do caos do trânsito, da epidemia egocêntrica do individualismo, sob o terror da criminalidade cada vez mais violenta? Estamos todos embarcados numa grande nave espacial que faz vôo cego. Os que podem, andam escondidos atrás de vidros escuros, recolhidos no interior de carros blindados. Ofuscados pela reluzente ilusão dos shopping-centers cada vez mais sofisticados. Uma precária e fútil sensação de segurança que faz lembrar, para quem tem alguma consciência, a precariedade social da decadente qualidade de vida em que, apáticos, estamos inseridos.
Os pivetes colocados à margem da ilusória opulência de uma sociedade apartada do coletivo e, portanto, sem compromissos com a cidadania, estão à espreita, destilando fel em seus corações, nas esquinas e nos cruzamentos de nossos caminhos. Desprezamos os erros do passado e não temos nenhuma noção para onde estamos indo como coletividade. Porque, ao abrir mão da cidadania, não valorizamos a democracia – tão arduamente conquistada através de muitas lutas e até mesmo através do sangue dos resistentes – e não nos damos ao luxo de ir perguntar e aprender, nos países desenvolvidos, o que podemos fazer para construir o cenário que vamos deixar para as futuras gerações. Oxalá por elas sejamos perdoados.
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*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.
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sábado, 11 de julho de 2009

Uma volta à Imprensa de Franca: era 1934
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ADEMIR MEDICI
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Uma das diferenças entre o documento oficial e as notícias de um jornal é que o oficial traz a data, os nomes corretos dos envolvidos, a versão jurídica e administrativa do acontecimento, tudo isso numa linguagem em que os que o assinam não podem se contradizer e precisam sempre se resguardar – daí porque aquela linguagem burocrática, formal, repetitiva e sem graça. Já o jornal focaliza o mesmo assunto, dá a notícia com vida, com os detalhes que um jornalista - e só ele - consegue pinçar, sintetizar e passar a limpo. A boa notícia é gostosa de ler, segura o leitor, é lida, relida, recortada e guardada. Um não vive sem o outro: o documento oficial e o jornal. Nos dois casos é preciso saber ler o que lhe é apresentado.Toda essa introdução - ou nariz-de-cera, na linguagem jornalística - é para apresentar este número isolado do jornal AEC (nº 2, ano I) editado em Franca em 12 de abril de 1934.
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HISTÓRICO
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Alguém enviou o número isolado do AEC ao farmacêutico Pedro Fiorini, de Santa Rita do Passa Quatro, e por um motivo que não sei explicar o exemplar caiu nas mãos de um amigo da juventude chamado Márcio Pelanchi, engenheiro da Brastemp, residente no Bairro Jordanópolis, em São Bernardo do Campo, e que depois se mudou para o Bairro de Santana, na Zona Norte de São Paulo, onde o visitei e depois perdemos contato.
Márcio e Maria Inês, sua jovem esposa, acompanhava o nosso trabalho jornalístico e sabia que eu gostava dessas coisas da Memória, daí terem me repassado o jornal. Isso faz uns 30 anos. Se interessar, repasso o exemplar com muito prazer ao Arquivo Histórico Capitão Hipólito Antonio Pinheiro, da Prefeitura de Franca, via Blog do Edward de Souza.
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MEMÓRIA

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Mas, aqui está o jornal: formato quase tablóide (28 cm x 38 cm), quatro páginas, com artigos, poesias, notas sociais e esportivas, deliciosos anúncios e uma linda seção de Memória, assinada pelo seu redator, José Chiachiri, cujo título, no alto da primeira página, destaca "Chico Amor", simplesmente.
E lá vai Chiachiri escrevendo: "Para além do rio Fartura, num grotão soturno e cavo, rodeada de imensa mataria e de esguios coqueirais, fica a palhoça de Chico Amor. Como se fosse um tonel, que tem por cobertura o céu, a lua e as estrelas, a pobre palhoça fica noites a fio, durante horas inteiras, a ouvir os dolorosos gemidos, repassados de saudosas recordações, que o solitário caboclo dedilha na sua viola querida. Essa humilde palhoça é a única recordação que resta a Chico Amor. É toda o seu passado".
Não é bonito? A crônica prossegue, neste mesmo tom gostoso. Fica a sugestão para que seja republicada na íntegra pelo Blog do Edward.
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GUERRA E REVOLUÇÃO
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Era 1934, e o AEC focaliza, ainda na primeira página, o que era uma memória contemporânea: a morte, em 1932 - na Revolução Constitucionalista - de Ângelo Macatti, sepultado em São José do Rio Pardo. Uma morte perversa, na Ilha das Flores, por fios de arames eletrificados.
A notícia não deixa claro se o soldado morto era de Franca, mas traz o nome de Pedro Fiorini, farmacêutico, filho de Vargem Grande, a quem o exemplar do AEC foi encaminhado. Fiorini ofereceu ao jornal a canção "Ilha das Flores", cuja letra é transcrita na primeira página do jornal. Canção oferecida ao soldado morto e que era entoada no presídio.
No mesmo artigo, o nome de Machado Sant’Anna, que no número 1 do AEC publicou o artigo "A sepultura 91", que recordava a visita feita ao túmulo de Ângelo Macatti, em São José do Rio Pardo.
Um terceiro artigo de primeira página do jornal já previa a II Guerra Mundial. Justino d’Avellar escreve: "O mundo todo, nestes dias em que vivemos, cheira a pólvora e a gás asfixiante. Fala-se em guerra por toda a parte".
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BAILES A ESCOLHER
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Viramos a página. E vamos anotando novos artigos. Uma notícia do Grêmio Cívico e Literário Ruy Barbosa e a comissão que tentava o reativar: Xisto Guzzi, Aurélio Luiz Bettarelo, Victorio Constantino, Joaquim Molina e Aníbal Moreira França.
Dois bailes estavam programados e anunciados: o do Espanha FC, na sede do Centro Espanhol, cuja madrinha era a senhorita Maria Morales; e o do Centro Recreativo Amor à Mocidade, em comemoração ao primeiro aniversário do jazz do clube.
Na página 3, o futebol: Francana 4, Uberaba Esporte 2, no campo adversário - com enviado especial e tudo. Ricardo Pinho e Ricardo Pucci chefiaram a delegação francana, que levou a campo Ié, Felipe e Melani, Alemão, Waldomiro e Juca, Durvalino, Carlito, Walter, Lopes e Felício. Três gols em apenas sete minutos.
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DE SANTO ANDRÉ A FRANCA
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Na última página, anúncios, com um destaque: "No uso do álcool-motor Quito consiste sua demonstração de patriotismo; 50% mais barato que a gasolina. Andrade & Cilurzo, distribuidores das Usinas Junqueira".
(O álcool como combustível, anos, décadas antes do Pró-Álcool e da transformação do Estado de São Paulo num imenso canavial).
Mas o que nos interessa são os anúncios de 1934 na imprensa de Franca. Entre os demais que anunciavam estavam: a Leiteria Polar, o doceiro e pipoqueiro Lázaro Gorga, o cirurgião-dentista Luiz Pimentel, o Salão Paulista (do cabeleireiro Nicola), a Sorveteria Francana, a Alfaiataria Aparecida (de Heitor Medeia), os impressos da tipografia do "Comércio de Franca", Dr. Valeriano Gomes do Nascimento (médico).
Havia uma doce rivalidade: Café Central (de David Oliveira, “o melhor café de Franca”, estabelecido na Praça Barão da Franca, 1165) e seu vizinho Café Globo, da mesma praça, nº 1195: “Ora! Todo mundo já está ciente de que o café e os pasteis mais saborosos são os do Café Globo, a nossa casa”.
Uma ligação com o Grande ABC? O anúncio de Castro Alarcon Fernandes, "o único representante dos afamadíssimos 'Adubos Químicos', de Fernando Hachrat e Cia". Sabem onde ficava a fábrica de Fernando Hachrat? Em Utinga, Santo André.
O jornal AEC tinha o patrocínio da Associação dos Empregados no Comércio de Franca e no seu logotipo de primeira página trazia os nomes de J. C. Oliveira (diretor), J. Chiachiri (redator) e G. Dias (secretário).
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EDWARD DE SOUZA RESPONDE MEU E-MAIL
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Chiachiri, de pai para filho...
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Quando enviei um e-mail contando detalhes ao Edward de Souza sobre esse jornal, ele me pediu que escrevesse toda a história para o blog. O e-mail resposta que Edward me enviou completa a história desse tradicional clube de Franca, acompanhem na íntegra:
“Meu Deus! Este jornal é uma relíquia, Ademir. O Chiachiri é o responsável pelo Museu Histórico de Franca e outro historiador da cidade. É o nosso Ademir Medici daqui. Perdeu a visão depois dos 30 anos, mas tem um bom humor de deixar qualquer um de queixo caído. Espera aí. Vamos corrigir tudo, caro Ademir. Pela data do jornal, o Chiachiri é o pai desse meu amigo deficiente visual, que também dirigia o Museu Histórico de Franca, já falecido. Sobre os demais nomes, não posso precisar quem sejam. Até pelo ano do jornal, concorda?
Olha o detalhe. Esse clube, a AEC, foi o mais tradicional da cidade. Fica no centro de Franca, a quatro quarteirões da casa de meus pais. Era o ponto de encontro da juventude dos meus tempos, nos anos 60 e frequentado pela nata da cidade. Problemas financeiros, no entanto, decretaram o fim de todas as atividades nesse enorme prédio de um quarteirão, com dois andares, sendo o térreo restaurante e o superior salão de bailes. Está à venda para pagar dívidas, de acordo com notícia publicada semanas atrás pelo Jornal Comércio da Franca. Outro problema. Essa informação não é oficial e ainda precisa ser confirmada junto ao Corpo de Bombeiros de Franca, mas a estrutura do prédio está comprometida, é o que se comenta na cidade. Ainda não há informações sobre o preço exato da venda desse prédio, onde muitas gerações de francanos se divertiram nos bailes carnavalescos tradicionais e ao som de orquestras famosas, como Silvio Mazzuca e outras. Há outro clube social ligado a AEC. Sua sede de campo foi construída bem depois. O clube se chama "Castelinho". A venda da AEC (Associação dos Empregados no Comércio) seria para pagar dívidas deste clube de campo, que há muitos anos não está “bem das pernas”.
Edward de Souza
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*Ademir Medici é jornalista e escritor, formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Trabalha na imprensa do Grande ABC desde 1968 e especializou-se na área de resgate e reconstituição da memória. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Possui um acervo de 32 livros escritos, sendo 24 publicados e oito inéditos. Ademir também ganhou, em 1976, o Prêmio Esso de Jornalismo, em parceria com o jornalista Édison Motta, pela série “Grande ABC: A metamorfose da industrialização”. Atua no jornal Diário do Grande ABC desde 1972. Foi repórter especial, editor de Cidades e Política e secretário de Redação. Atualmente é responsável pela coluna Memória, uma das mais lidas do jornal e do quadro "MEMÓRIA", no programa "ABCD Maior em Revista".
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sexta-feira, 10 de julho de 2009

EM QUE GASTAMOS O NOSSO FUTURO

Foto: J. Morgado - Especial para este blog
J. MORGADO
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Deus não é um gênio
dos contos da carochinha
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Mais uma vez, um título estranho para o que pretendo abordar nas próximas linhas. “Em que gastamos o nosso futuro”. É evidente que “pisaremos” no improvável, no provável ou simplesmente no hipotético. Ao reencarnarmos, e isso se dá em situações as mais diversas, pois recomeçaremos uma caminhada interrompida no pretérito. Podemos nascer com boa ou má saúde, ricos ou pobres, aleijados ou não, enfim, uma forma de vida carnal que escolhemos na Pátria Espiritual para resgatarmos nossos erros do passado e assim evoluir. Vez ou outra, nossos Irmãos Maiores, devido ao nosso estado, planejam compulsoriamente o nosso reencarne, uma vez que não conseguimos nos concatenar devido ao estado consciencial em que nos encontramos.
A vivência neste mundo é para que, através do amor, possamos lapidar as imperfeições morais que carregamos. Assim, reencarnamos no meio familiar ou entre aqueles que nos foram afins ou em que vivemos juntos ou próximos no passado. O ódio, o rancor, o egoísmo e tantos outros males morais deverão ser vencidos; os vícios materiais, que muitas vezes nos levaram a desencarnes prematuros, deverão ser extirpados (o fumo, o álcool, entre outros tóxicos). Chegamos, enfim, no ponto em que escreveremos sobre “Em que gastamos nosso Futuro”. Para ilustrar este artigo vamos abordar o livro psicografado por Yvonne A. Pereira, em 1954, “Memórias de um Suicida”, um best-seller da literatura espírita, publicação FEB/1955. A história teria sido ditada pelo espírito de Camilo Castelo Branco, o famoso escritor português que viveu entre os anos de 1825 e 1890. Esse personagem, que tinha uma vida desregrada, desencarnou praticando o suicídio porque ficou cego ao contrair uma doença (a biografia completa do escritor poderá ser encontrada na internet). Na apresentação feita pela própria Médium ela dá o nome do autor – Camilo Cândido Botelho, “contrariando (conforme suas próprias palavras), todavia, seus próprios desejos de ser mencionado com a verdadeira identidade.” Depois de passar por sofrimentos indescritíveis durante muitos anos, o escritor é socorrido e se dedica a sua recuperação e estudos até que um dia resolve finalmente reencarnar. A programação seria a de passar pelo mesmo transe e vencer a prova, expiando sua provação até o fim de sua vida carnal, naturalmente com estoicismo.
Assim se dá com todos nós. Ignorando o “Estatuto do Universo” ensinado por Jesus e esclarecido pela Doutrina Espírita 1857 anos após, a humanidade continua a gastar o seu futuro, programada por eles mesmos, e desencarnam antes do que deveria. Aí escutamos nos velórios: “coitado, tão bom e Deus o levou tão cedo” ou “porque Deus não levou fulano de tal que é tão ruim”.
A gula, o ódio, o rancor, a vingança, o ciúme, a falta de caridade (fora da caridade não há salvação), o egoísmo, a luxúria, etc., males morais de que somos possuídos. A falta de amor e de respeito para com próximo, não nos levará ao “céu” ou equivalente como é denominado por inúmeras religiões. Cada item violado do “Estatuto” é imediatamente inserido no perispírito que por sua vez se vê afetado no órgão equivalente no corpo mais denso, que é a nossa carne. Por exemplo, se levarmos uma vida desregrada e totalmente imprópria a nossa existência. Devemos seguir a sabedoria popular e os conselhos médicos: “comer para viver e não viver para comer”. O fígado, o coração, os rins, o pâncreas, órgãos vitais de nosso organismo, além de outros, são também feridos por doenças incuráveis e degenerativas que nos causam aborrecimentos e dores.
“Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Outro dito popular bastante interessante. Uma pessoa viciada em vícios materiais como o álcool e o fumo e ainda acostumada a dizer palavrões, agressiva, mal humorada, etc., sempre terá como companhia espíritos neuróticos e possuídos de uma infinidade de mazelas. Esses espíritos se aproveitam das emanações negativas que são produzidas por nossos irmãos desavisados para se alimentarem e satisfazerem sua “fome de prazer”.
Uma boa parte da sociedade de hoje, consumista e devoradora dos prazeres carnais, egoísta, nem mesmo imagina que a vida tem sua continuidade após o desencarne. Culpam Deus por não os atenderem em seus pedidos feitos de forma mecânica, pensando, provavelmente, ser Deus um gênio dos contos da carochinha, que basta esfregar uma candeia mágica ou invocá-lo com uma fórmula mística e, assim, ter seus desejos atendidos. No caso, a maioria desses desejos é para que suas doenças adquiridas por incúria sejam curadas de imediato. Se as pessoas se dispusessem a raciocinar com lógica, notariam que suas mazelas foram adquiridas ao longo da vida e que Nosso Pai nada teve com isso, pois no momento do prazer, do crime e de tantas outras desvirtudes, ele nem mesmo pensou em qualquer divindade.
Ao programarmos nossa reencarnação para resgatarmos um pouco do muito que devemos nos impomos um objetivo, que é o de fazer o bem, aplicando o amor onde outrora semeamos o ódio, a miséria, a morte prematura, a fome ou simplesmente nos prejudicamos em sujar nosso sagrado corpo, templo de nosso Espírito.
No momento em que escrevia este artigo o noticiário da TV mostrava dois acidentes automobilísticos com vítimas fatais. As vítimas todas de uma mesma família, provavelmente deveriam desencarnar dessa forma. Mas os causadores da tragédia, ao que pareciam embriagados e praticando excesso de velocidade, não seriam necessariamente os “algozes” desse desastre. Abusaram do álcool e ultrapassaram os limites de velocidade usando seu livre-arbítrio e, continuando nesse ritmo, desencarnarão mais cedo, gastando assim seu futuro num ato ou atos impensados.
O fumo e o álcool levam milhões de pessoas ao desencarne prematuro todos os anos. Cirroses, câncer e outras doenças causadas por esses vícios têm levado muitas pessoas ao sepulcro antes do planejado e seus espíritos a sofrerem nos umbrais conscienciais criados pelo remorso ou o “mea-culpa”. Tornou-se comum nos últimos tempos o abandono de crianças recém nascidas, atiradas no lixo, em rios, deixadas em calçadas, etc. Os médicos explicam que, em alguns casos se dão em razão da Depressão Pós-Parto que leva até a uma Psicose puerperal, estado em a mulher perde completamente o senso de responsabilidade e pode fazer qualquer coisa com os recém-nascidos. Mas, a maioria é viciada em drogas e não deseja criar uma criança que “nasceu por acaso”. A droga e a vida desregrada encurtarão sua vida programada para um período maior, uma oportunidade que lhe foi dada para resgate de erros do passado e conseqüente evolução.
Encerrando este artigo, transcrevemos aqui o item 647 do Livro dos Espíritos – DIVISÃO DA LEI NATURAL – “Toda a lei de Deus está contida no ensinamento de amor ao próximo ensinado por Jesus? – Certamente esse ensinamento contém todos os deveres dos homens entre si; mas é preciso vos mostrar sua aplicação, senão deixareis de cumpri-lo como fazeis até hoje; aliás, a lei natural compreende todas as circunstâncias da vida e esse ensinamento é apenas uma parte da lei. Os homens necessitam de regras precisas. Os ensinamentos gerais e indefinidos, por serem muito vagos, possibilitam diversas interpretações” – Petit Editora/ edição/2006.
“Por mais numerosos que sejam os meandros do rio, ele termina por desembocar no mar” – provérbio chinês.
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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