quarta-feira, 15 de setembro de 2010




Fausto Polesi apareceu, como sempre, como meu anjo salvador. Era o ano de 1993. Por sua indicação, fui contrato para chefiar a reportagem do serviço de comunicação social da Prefeitura de Mauá, setor no qual já tinha uma boa experiência. Ainda no início de carreira, quando começava a trabalhar no Estadão, prestei assessoria para a Prefeitura de São Caetano do Sul, na época comandada por Oswaldo Samuel Massei e, meses depois, para a Prefeitura de Santo André, cujo prefeito era o médico Newton Brandão, aquele meu padrinho dos dois casamentos e que me demitiu as duas vezes da Prefeitura e, mais tarde, alegou estar atendendo aos meus pedidos, conforme informaram seus assessores mais diretos.

Durante dois anos vivi razoavelmente e chegava a ajudar nas despesas de casa. Mas nada de economizar. Gastava o que tinha, sem pensar que, talvez, futuramente, fosse precisar de dinheiro para qualquer emergência, como tratar de uma doença. Gastei, sim, para extirpar a hemorróida. Como não tinha plano de saúde, contribui com o que tinha para a execução da cirurgia pelo médico Paulo César Ribeiro, um dos mais conceituados proctologistas brasileiros da época. A operação foi com raios laser e quase nada senti. No dia seguinte, havia recebido alta do hospital e retornado para casa, à espera da primeira evacuação – essa, sim, dolorida, tanto que a recomendação é colocar, na hora, um pedaço do pano nos lábios e evitar o atrito dos dentes.
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No final de 1995, o prefeito José Carlos Grecco, de Mauá, decidiu mudar o diretor de comunicação, a quem considerava amigo. Este me orientou a não comparecer mais ao setor, me prometendo vaga de assessor especial. A manobra dele – não vou citar o nome – era evitar que eu permanecesse na Prefeitura, como queria – fiquei sabendo depois – o novo diretor. Ausente vários dias, consideraram que eu era um grande vagabundo e, como consequência, fui demitido. Uma coisa eu pedi para minha mulher: eu não quero a presença desse cidadão nem no meu velório.
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Desempregado, e sem querer tornar-me repetitivo, Fausto Polesi reapareceu novamente e me indicou para assessor de mais um candidato a prefeito de São Caetano. Como sempre, me apresentei e, surpresa: o candidato a vice era Moacyr Rodrigues – o que tinha sido candidato em 1992 e, mais tarde, tornara-se vereador, depois de candidatura frustrada para deputado estadual. Desenvolvi um bom trabalho de comunicação, mas não foi possível vencer de novo aquele que se tornara um monstro sagrado no município: Luiz Tortorello, o candidato a prefeito de novo.
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Ao mesmo tempo em que fazia a campanha, colaborava também com o jornal Tribuna do ABCD, um semanário novo a circular na região, dirigido por J. Pavani e Antonio Pedroso de Moraes, ambos publicitários. Este último alimentava sonho de se tornar jornalista – e acabou conseguindo o registro, só que como proprietário de jornal, bem melhor do que ser empregado. Quando terminou a campanha – geralmente as campanhas duram apenas três meses – fui convidado a integrar a equipe do jornal, uma equipe que nem merecia ser chamada de equipe, tão pequena era – mais um repórter, um fotógrafo – meu bom amigo Claudio Polesi - dois ou três colaboradores, dois diagramadores e uma recepcionista.
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Nesse ínterim, ano de 1997, minha mulher adquiriu a nossa casa, financiada pela Caixa Econômica Federal. E, quatro meses depois, no dia de seu aniversário, parei com a bebida alcoólica, da mesma forma com que tinha parado de fumar. Apenas disse: a partir de hoje, não bebo mais. E o que mais me levou a tomar essa decisão foi um comentário do doutor Paulo Ribeiro. Numa tarde, quando ele fazia o exame pós-operatório da hemorróida, eu lhe perguntara se eu poderia morrer se continuasse bebendo. Ele, secamente, não sei se com ironia, me respondeu: Eu não iria morrer por causa da bebida; iria viver, mas só que paralítico. Explicava: o álcool já estava afetando o meu sistema nervoso e, não demoraria muito, atingiria braços, pernas. Como já havia conhecido uma pessoa que ficara paralítica em consequência do excesso de bebida, fiquei temeroso de ser vítima do mesmo mal. No início, ninguém acreditou. Só eu. Por isso mesmo, é que mantive a decisão. E como ficou comprovado que o alcoolismo é uma doença, nunca disse ser um ex-alcoólatra. Sou um alcoólatra. E quando posso tomo uns copos de cerveja.
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Desde o término das sessões de rádio e quimioterapia permaneço em casa e, quando solicitado, colaboro com o jornal Tribuna do ABC e a revista Jornauto. Sabendo da minha situação, os editores limitam-se a me enviar matérias que podem ser feitas via e-mail, sem a necessidade de eu me deslocar ou, ainda, utilizar a voz, que ainda não apresenta a devida articulação e o que falo quase pouca gente entende. Ainda recentemente, fiz o exame denominado tomografia computadorizada da cabeça e do pescoço. O objetivo é colher imagens para saber em que situação o tumor se encontra e se ainda será necessário o reinicio da quimioterapia. Essa espera me angustia, uma vez que um dos médicos que me analisou logo após o tratamento, suspeitou da existência de algumas células cancerígenas na descida da garganta.
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Procuro passar as horas de ócio lendo, escrevendo ou tentando me familiarizar com a tecnologia do computador. Dia desses, entrei na internet e, apenas como curiosidade, quis saber se meu nome estaria incluído naquele universo de informações. E, para minha surpresa, lá estava, e, logo no primeiro item, figurava a minha conquista do Prêmio Esso de Jornalismo. Prossegui com a pesquisa e um outro item me chamou a atenção: a venda de um exemplar da revista Planeta, de abril de 1976, com uma reportagem minha sobre a lenda da cidade submersa, que fiz no rio Urubu, interior do Amazonas, em companhia da Ilca. A reportagem fora escrita para o Jornal do Brasil, do qual eu era correspondente, mas o editor Juarez Bahia julgou melhor não publicá-la e liberou o texto, vendido em seguida para a Editora Três, após contato com o escritor Ignácio de Loyola Brandão, então redator-chefe da revista.
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A reportagem tem chamada que suscita a atenção. Em caixa alta e negrito, o pequeno título: A Lenda da Cidade Perdida. E, embaixo, sobre a foto do arqueólogo, a legenda-pergunta: Conseguirá o arqueólogo Pires Roldão encontrar a cidade perdida que ele procura há dezenas de ano? Nas páginas internas, o texto ocupando seis páginas, com fotos. A primeira mostra o arqueólogo com o dedo apontado para inscrições que mais parecem hieróglifos e a frase: Há três mil anos, uma civilização avançada habitou o Amazonas. Estas inscrições podem provar isso. Este homem tenta decifrá-las e só vai sair do Amazonas quando conseguir.
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A abertura da reportagem: “o fantástico, o absurdo e o real se confundem com inscrições estranhas, indícios da existência de povos pré-históricos, cidades submersas e navios naufragados, envolvendo lendas e superstições de índios e caboclos. Tudo isso está em uma pequena área do rio Urubu, pequeno afluente do rio Amazonas, distante 260 quilômetros de Manaus e onde se encontra acampado o arqueólogo Roldão Pires Brandão, presidente da Associação Brasileira de Arqueologia e Pesquisa”.
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Essa reportagem é uma das poucas que a Ilca nunca esqueceu. Nós descemos de barco, em companhia de um fotógrafo e um remador. Para descer, como dizem, tudo é fácil. Na hora de subir, o remador tentou uns poucos metros e, olhando para trás, desolado, decidiu que eu e a Ilca precisaríamos descer. A solução foi voltar pelo meio da densa floresta e a minha mulher não se encontrava preparada para essa longa caminhada: viera de tamanco, um calçado nada indicado para andar pela mata. Nervosa, poucos metros depois jogou o par de tamancos e seguiu a pé. Até hoje, passados mais de três décadas, ela diz ainda ter as cicatrizes dessa aventura...
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Acompanhe na próxima quarta-feira, o vigésimo terceiro capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
(Edward de Souza).
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

SEGUNDA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO DE 2010
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JANELA INDISCRETA


Uma praça, uma igreja, o velho coreto, árvores em profusão, ipês floridos, flores... Gente indo e vindo. Grupos de pessoas idosas conversam. Um engraxate, um artesão expondo seus trabalhos de bijuterias. Além, um cidadão só. Corpo mirrado, roupas toscas e um enorme chapéu de abas largas. Seu olhar é triste e sua expressão é de pessoa com problemas íntimos e graves. Uma hora depois, afasta-se. O que será que o afligia?

Noto três cães vira-latas. Moradores da praça certamente. Magricelas, judiados... Olhares meigos e cobiçosos. Ficam perambulando nas proximidades de bares e lanchonetes na esperança de serem premiados com migalhas doadas pelos seres humanos. Pessoas de meia idade se reúnem aqui e ali. Parecem sitiantes ou fazendeiros prósperos. Soube depois que são agiotas. Uma tradição bem mineira. Logo adiante vejo através de minha janela indiscreta, um casal de jovens apaixonados, estudantes certamente. Beijos e abraços prolongados. Arroubos da juventude. Saudade do meu tempo...

Neste momento avisto um jovem comprar um pequeno colar e experimentá-lo no tornozelo. O hippie mostra outros objetos de sua arte. Dois rostos satisfeitos; o que vendeu e o que comprou. Nos bancos espalhadas pela linda praça, pessoas solitárias se aquecem do frio da manhã e, provavelmente, refletem sobre seus problemas pessoais. Observo agora que o rapaz que comprou o enfeite para seu tornozelo (estamos no período da tarde) voltou com dois amigos e todos fizeram compras. O hippie com um linguajar peculiar e até chulo se esforça para vender mais. Mostra os bolsos dizendo que está sem nenhum e que ainda não se alimentou.

Soube ontem por um morador da cidade, que o lindo solar situado na esquina da praça com a rua comercial é assombrado. Pelo menos é o que dizem. Uma placa de aluga-se encontra afixada nas grades que cercam o imóvel. Uma mulher teria ali falecido louca e, por ser muito materialista, continua ali como fantasma. As pessoas que se dispõe a alugar o solar não esquentam a moradia. Barulhos, arrastar de pés... Fogem apavoradas. Ninguém se habilita. A placa “aluga-se” ficará lá até que algum exorcista resolva agir!

Um dia antes (domingo), no período da tarde, hospedei-me no hotel localizado em plena praça. À noite, uma retreta no coreto. “O Guarani” foi à música inicial. Outras se seguiram. Há muito não via uma bandinha do interior. Observar pessoas através de uma janela indiscreta é muito interessante e até divertido. Nada tem haver com o voyeurismo. É como observar pássaros. E por falar em pássaros, o barulho quando as aves se recolhem para dormir e quando acordam para a “faina” do dia é infernal para alguns e divino para outros, como eu.

Por hoje é só.

16 de agosto de 2010.

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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui: jgarcelan@uol.com.br
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sábado, 11 de setembro de 2010

AS POLÊMICAS CADEIRINHAS PARA BEBÊS

SEXTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2010

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CLASSE POBRE É DESCARTÁVEL

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O recente exemplo que obriga motoristas a usarem em seus carros cadeirinhas para babes e crianças pequenas, lei que passou a vigorar dia primeiro deste mês, mostra claramente que, como sempre, pensaram apenas nos ricos, e que têm apenas um filho. É incrível como a classe mais pobre é tratada legalmente como algo descartável e que pode ficar sujeita a todos os perigos que os mais ricos são poupados. Este efetivamente é um país da estupidez. Imaginem a situação de uma família pobre que tem quatro filhos com idade entre 4 e 7 anos. Mesmo que entendam que a nova lei traz segurança para suas crianças, onde vão colocar os assentos elevados que esta nova lei obriga? Na cabeça do gênio que fez a lei? Ou seria melhor a família do pobre coitado comprar outro veículo para transportar todos os seus membros? Tem mais: agora não se pode dar uma carona a uma mulher com um bebê de colo se não tiver a tal cadeirinha... Mas, ela pode pegar um táxi ou um ônibus, que estão desobrigados a ter esses dispositivos de segurança, não é um absurdo?
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Lembram da lei que obrigava o motorista a carregar um kit de primeiros socorros e que não pegou? Não sei... Tem alguma coisa parecida e que cheira muito mal nessa história, ou melhor, nessa lei, embora deva reconhecer sua capacidade de salvar ricas vidas. Esse tal kit de primeiros socorros deixou dezenas de empresários milionários. Tenho um guardado em casa como lembrança, caixinha azul e na época paguei 10 reais por ele. Comprei na estrada, quando viajava pela Anhanguera, de São Paulo para Franca, com receio de ser multado e ainda ter o carro apreendido. Era composto pelos seguintes materiais: dois rolos de ataduras de crepe, um rolo pequeno de esparadrapo, dois pacotes de gases, uma bandagem de tecido de algodão triangular, dois pares de luva de procedimento, uma tesoura de ponta romba. E a Lei do Trânsito é clara. É proibido colocar as mãos em acidentados para não agravar seu estado de saúde, deve-se preservar o local e chamar as autoridades competentes. Pergunto: para que servia então aquele bagulho a não ser enriquecer favorecidos do Poder?
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A resolução que obriga o uso de cadeirinhas em carros de passeio entraria em vigor em junho, mas teve de ser prorrogada por mais dois meses devido à falta do produto no comércio, dando chance para os motoristas se adaptarem. A partir do dia primeiro deste mês, independentemente de ter o produto nas lojas, a norma passou a valer. A lei é rigorosa com os pais que possuem carros e exige deles a compra de cadeirinhas e absoluto cuidado com os filhos.
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São três tipos de assentos diferentes até os sete anos e meio, cada um para certa idade e a multa vai chegar a quase R$ 200 e punição de sete pontos na carteira de habilitação. Hoje há modelos no mercado que variam de R$ 150 a mais de R$ 1 mil, valores altos para a população de baixa renda. E não há variedade de marcas populares, na avaliação da Associação Brasileira de Produtos Infantis. Para as crianças pobres que andam de ônibus isso não é exigido o que deixa implícito que o próprio Estado permite que as crianças de baixa renda sofram impactos violentos desde que os meninos de bem estejam protegidos.
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Como se não bastasse tal privilégio a Lei ainda é clara ao afirmar que em carros antigos, anteriores a 1998 que só possuem cintos de duas pontas que não aceitam as cadeirinhas, os motoristas estão isentos de multa. Ora, quem possui carro velho são os mais pobres e mais uma vez a questão financeira se sobrepõe a questão da vida. Se existem carros com cintos subabdominais que se obriguem os fabricantes a produzir equipamentos compatíveis com esse tipo de veículo. Mais ainda. Se a lei é para ser cumprida e pode salvar preciosas vidas, que seja estendida para todos os veículos, entre eles táxis e vans escolares. Eu pergunto: seu filho está mais seguro em um táxi ou no transporte escolar do que no carro do pai dele, do lado da mãe?
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Igualmente a Lei do Cinto não chegou aos coletivos e volto a perguntar: qual é a dificuldade de se instalarem cintos de segurança nos ônibus coletivos urbanos e exigir seu uso pelos passageiros como é feito em automóveis particulares? Poderia haver resistência no inicio como houve com os motoristas de carro, mas depois todo mundo se habituaria em caso de colisões e não teríamos mais as dezenas de acidentados, quase todos com lacerações na face porque simplesmente o cinto é coisa de rico. Para o Contran, pobre pode e deve esbagaçar-se no banco da frente dos coletivos, meter a fuça nas ferragens para deixar de ser pobre. O danado já se acostumou até a ficar em pé, espremido em ônibus lotados e não reclama, quer coisa mais errada? Sempre que acontece uma colisão com um destes ônibus urbanos, observem as notícias em jornais, o pobre é o primeiro a ser arrebentar todo, e depois, se der sorte e sair com vida, ainda se vê obrigado a enfrentar a fila do PS em busca de socorro...
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Nunca se viu tanto descaso pelos mais humildes que compõem a grande massa de nossa sociedade e acredito que poucos países teriam a coragem de excluir assim legalmente seus mais necessitados dos instrumentos e das normas de segurança apenas porque eles são pobres. No Brasil isso é feito de modo acintoso e com o aval da lei que distingue claramente quem pode ou não pode morrer, quem deve ou não deve acidentar-se baseado unicamente em sua renda financeira e nos seus bens materiais.
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ENTENDA A LEI

Crianças com até um ano devem utilizar, obrigatoriamente, o “bebê conforto ou conversível”. As crianças com idade superior a um ano e inferior ou igual a quatro anos devem andar na “cadeirinha”. Já as crianças com idade superior a quatro anos e inferior ou igual a sete anos e meio deverão utilizar o dispositivo de retenção denominado “assento de elevação”.
Somente a partir dos sete anos e meio, a criança pode ir sentada no banco usando o cinto de segurança do veículo.
No caso de veículos que só possuem banco dianteiro, caso das cabines de caminhonetes, é permitido o transporte de crianças com menos de dez anos no banco da frente, desde que viaje no dispositivo de retenção.
A multa para quem descumprir a nova regra é gravíssima. A punição é de sete pontos na carteira e multa de R$ 191,54. Na cidade, o carro fica retido até que se providencie a cadeirinha adequada. E durma-se com um barulho desses...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010



Nesse mesmo ano em que estive em Roraima, em julho, Fausto Polesi novamente me arrumou um novo encargo: prestar assessoria para Moacyr Rodrigues, candidato a prefeito de São Caetano do Sul. Seria uma batalha dura, advertiu, uma vez que Moacyr era procurador da Justiça do Estado de São Paulo com pouca vivência política e não muito conhecido na cidade, ao contrário de seu pai, homônimo, já falecido, que inclusive dava nome a uma instituição local. Para agravar a situação, Moacyr enfrentaria o candidato apoiado por Luiz Tortorello, atual prefeito, que gozava de ampla popularidade. Comecei a campanha elaborando um folheto com um apelo materno. A mãe de Moacyr garantia: tenho certeza de que meu filho será o melhor prefeito que São Caetano já teve. E arrematava: coração de mãe não falha.
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Como Fausto havia previsto, essa foi uma campanha difícil para Moacyr Rodrigues. Ele sequer tinha sido vereador e partia para disputar o cargo máximo no município, apesar de contar com o apoio do Diário do Grande ABC, o mais influente jornal da região, e do então governador Luiz Antonio Fleury, do qual era amigo. No meio da campanha, numa tarde, Moacyr me chamou em sua sala e me advertiu: uma das autoridades que eu entrevistara para a campanha havia telefonado, dizendo que eu estava com um hálito de cachaça insuportável. “Veja se beba quando não estiver em campanha”, aconselhou. Esse meu procedimento, tinha consciência, me prejudicava e prejudicava também o Fausto, que me havia indicado. Era quase certo que Moacyr, ao encontrá-lo, iria reclamar: “Fausto, você me recomenda um bêbado para ser meu assessor de comunicação”.
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Era assim. Por onde passava, deixava minha marca de alcoólatra, de cachaceiro, embora nunca irresponsável. Realizava o serviço direito, com categoria, mas sempre ficava essa nódoa do vício da bebida. Não conseguiria parar de beber, concluía. Até quando meu organismo iria suportar? Dizia tanto em cirrose hepática, mas eu nada sentia.
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Como era de se esperar, Moacyr perdeu para o candidato de Tortorello. No entanto, ele se tornara mais conhecido durante a campanha e, dois anos depois, sairia candidato a deputado estadual, sem sucesso. Ganharia, nas eleições seguintes, para vereador e provaria ser um exemplo de parlamentar, procurando sempre fazer o melhor pelo município e por seus moradores. Moacyr, não posso deixar de registrar, eu admirava e até invejava pela sua capacidade em mudar de mulher. Cansava de uma e arrumava outra, e cada vez mais jovem. A última vez que o vi, na Câmara de Vereadores de São Caetano, me revelou que agora decidira ficar com a atual, vinte anos mais nova que ele. Encontrara a mulher ideal, disse ele. A mulher dos seus sonhos. Fingi acreditar.
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Numa tarde, na sala de espera reservada para os pacientes do setor de Cabeça e Pescoço, enquanto aguardava ser atendido pelos doutores Ricardo Testa e Mauro Ikeda, interessei-me por uma revista esquecida na cadeira ao lado – ABCâncer, da Associação Brasileira do Câncer, editada sob a coordenação geral de Marília Casseb. Comecei a folheá-la quando uma reportagem de página dupla me chamou a atenção. O título: Quando a morte é inevitável, com texto de Eduardo Cosomano. Cita estudo da União Internacional do Câncer, segundo o qual o câncer mata “anualmente mais pessoas no mundo que a tuberculose, a malária e a Aids juntas”. A pesquisa também revela que em 2030 o número de doentes de câncer por todo o planeta deve chegar a trinta milhões, dos quais 18 milhões morrerão devido à doença, 50% a mais do que atualmente.
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Uma das pessoas ouvidas pela reportagem é a professora Maria Júnior Kováes, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, que observa: alguns pacientes sentem muita raiva, acham que é uma traição da vida. Outros acham que merecem. Às vezes, o paciente aceita e a família também. Mas, como fator fundamental, posso afirmar que oferecer espaço de escuta, tanto para o paciente como para seus familiares, é o início do caminho. Observa ainda que o câncer, por muitas vezes, gera um processo de culpa, no qual todos tentam resolver questões que estavam em aberto. É a psicóloga quem diz: “é muito importante tentar eliminar essa culpa. Nos pacientes mais velhos, grande parte da incidência da doença está relacionada ao estilo de vida da pessoa, que contempla hábitos como o fumo ou a bebida. Mas, às vezes não está. Por conta disso, o objetivo é trabalhar para a aceitação do fato, sem encontrar culpados”.
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Lida a reportagem, fiquei a pensar. Quando das primeiras entrevistas, os médicos que me consultaram foram logo perguntando se eu bebia e fumava. Respondi que não fumava há mais de uma década e estava quase o mesmo período sem beber nada contendo álcool. Diante de minha resposta, alegaram que eu adquirira câncer porque havia plantado a semente e agora colhia os frutos. E as crianças com menos de cinco anos que aparecem com câncer? Abusaram do fumo, da bebida? Melhor se conformar e lutar para vencer e, após pensar assim, logo fui chamado e recebi uma boa notícia: o tumor diminuíra com as sessões de rádio e quimioterapia e continuaria nesse ritmo regressivo até o final dos efeitos da medicação. Era, portanto, uma esperança de prolongamento da vida...
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo segundo capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.

(Edward de Souza).
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*Os comentários para este capítulo, escrito pelo saudoso jornalista José Marqueiz, foram suspensos. Agradecemos sua compreensão.
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

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Hoje, 7 de setembro, comemora-se oficialmente a Independência do Brasil, uma vez que nesse dia, no ano de 1822, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo, o Príncipe Regente D. Pedro, ao receber a correspondência da Corte, teria proclamado o chamado "grito da Independência" à frente da sua escolta, processo que culminou com a emancipação política do nosso país do reino de Portugal. O 7 de setembro simboliza a integração entre os diversos setores da sociedade. A garra de um povo que, desde 1822, unido ao longo do tempo diante de tantos desafios, vem conquistando vitórias e consolidando a soberania nacional.
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Sou do tempo em que havia dois desfiles para se comemorar o Dia da Pátria. Antes tinha um grande desfile escolar. Era muito bonita a participação dos colégios. No dia 7 de Setembro era a parada militar com o povo na rua. Havia uma vibração estonteante, todos com a bandeira do Brasil. Com a tão decantada “democracia” começou-se a se dizer que a parada de 7 de Setembro era coisa de militar. Deixou-se de se levar os colégios e foram colocando na cabeça do nosso querido povo que assistir os desfiles era coisa para gente atrasada. Homenagear o país, as suas datas nacionais, não tem nada de vergonhoso nem de atrasado, pelo contrário. Antigamente o 7 de setembro era realmente comemorado. Era uma semana sem aulas nas escolas em virtude dos preparativos para o desfile. Diariamente presenciávamos os colégios treinando a "marcha" pelas ruas do entorno dos colégios. Hoje tudo está mudado. E para pior. Observem as emissoras de televisão quando repórteres fazem entrevistas com pessoas de diversos níveis sociais e perguntam: "você sabe o que se comemora no dia 7 de setembro? Grande parte, pessoas até de idade, desconhecem o motivo da comemoração, mas sabem que é feriado. Os mais jovens, nem se fala, desconhecem totalmente o motivo. É uma vergonha o brasileiro não saber o dia da Independência de seu país.
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Nos meus velhos tempos de estudante, só eram iniciadas as aulas depois que todos os alunos assistissem ao hasteamento da Bandeira brasileira, do Estado, do colégio e da Capital, ao som deste belíssimo Hino Nacional Brasileiro. Com certeza Deus iluminou a mente dessas figuras exponenciais: Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada, para comporem este inigualável hino que, sem bairrismo nenhum, é o mais bonito do mundo. As autoridades do nosso país deveriam inspirar-se nesses dois monstros sagrados para governarem o Brasil.
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Não mais se vê pelas ruas crianças agitando bandeiras, com as cores do pavilhão nacional adornando os cabelos! As moças não mais se interessam em aplaudir os garbosos militares em seus trajes de gala. Triste saber que a maioria do povo brasileiro desconhece o que se festeja no dia 7 de setembro. E são poucos aqueles que sabem cantar, pelo menos a primeira parte, do Hino Nacional. O que fizeram com o nosso patriotismo? Por que não há mais nas escolas as aulas de Moral e Cívica? Aonde foram parar os famosos cadernos "Avante" contendo o Hino Nacional na contracapa? Basta o povo recobrar a auto-estima e conscientizar-se de que é o legítimo senhor de seus desígnios, capaz de construir um presente mais justo e tranquilo, com os olhos voltados para o futuro, sem olvidar as glórias do passado. Assim, consolida-se o patriotismo que torna a Pátria melhor.
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O Brasil precisa liberta-se do medo e do complexo de inferioridade. Soltar do peito oprimido o grito de independência dos maus políticos e também dos alimentadores de intenções escusas. Assumir as suas vontades e decidir os seus caminhos. O Brasil coberto de verde amarelo. Vamos despertar esse gigante adormecido. Vamos extirpar as ervas daninhas dos nossos bosques que outrora tinham mais flores. Temos que transmitir de geração para geração o orgulho que temos de nosso país e ensinar nossas crianças a importância de datas. Nossas escolas precisam intensificar o ensino do civismo realizando programas que demonstrem e esclareçam algumas datas e porque são importantes para nós brasileiros. Cantar o Hino Nacional é cantar o nosso próprio orgulho em ser brasileiro, de mãos dadas com a igualdade, com a felicidade, com a alegria em viver num país sem igual, mas que precisa ser realmente para todos na verdadeira acepção da palavra. E já que estamos num ano eleitoral, onde serão escolhidos os novos representantes do Brasil, nada mais apropriado do que refletir sobre a responsabilidade dos brasileiros em escolher os candidatos que comandarão os rumos do país. Votar é um ato de cidadania e de compromisso com o Brasil que queremos. Escolher com critério e seriedade as pessoas que representarão os interesses do povo brasileiro e não os seus interesses próprios é uma atitude que poderá mudar o futuro das novas gerações. Precisamos criar essa consciência cívica, escolher bem e cobrar dos escolhidos o dever de servir ao povo acima de tudo. Não fujamos à luta! Salvemos a Pátria Amada!
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UM POUCO DA NOSSA HISTÓRIA

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Alguns pontos da história da nossa independência sempre chamaram a minha atenção, ainda nos bancos escolares. Um deles sobre os reais motivos que levaram D. Pedro a se insubordinar e desobedecer ordens de seu pai para que voltasse para Portugal, se submetendo ao rei e às Cortes. Nesse ponto, os livros de história, pelo menos a maioria, são contundentes. Pesou nesta decisão uma carta enviada a D. Pedro por José Bonifácio de Andrada e Silva, Membro do governo provisório de São Paulo, que aconselhava o Príncipe Regente a romper com Portugal, e uma outra da esposa, Maria Leopoldina de Áustria, apoiando a decisão do ministro e advertindo: "O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece". Impelido pelas circunstâncias, D. Pedro pronunciou a famosa frase "Independência ou Morte!", rompendo os laços de união política com Portugal.

Outro ponto interessante é sobre o começo do endividamente externo do Brasil. Diz a história que, para ser reconhecido oficialmente, o Brasil negociou com a Grã-Bretanha e aceitou pagar indenizações de 3 milhões de libras esterlinas a Portugal. Alguns historiadores afirmam que foram 2 milhões de libras esterlinas. A Grã-Bretanha saiu lucrando, tendo início o endividamento externo do Brasil. Esse empréstimo ficou conhecido como "empréstimo português", destinado a cobrir dívidas do período colonial e que na prática significava um pagamento à Portugal pelo reconhecimento de nossa independência. A independência não alterou as estruturas sócio econômicas e restringiu-se a um movimento político muito limitado, mantendo o regime monárquico e o herdeiro português no trono, aliado aos latifundiários conservadores sob o comando de José Bonifácio de Andrada e Silva.

A aceitação do pagamento da indenização está ligada aos vínculos mantidos com Portugal e ao mesmo tempo aos interesses ingleses, que somente reconheceu nossa soberania após o acordo com Portugal. Em 1829 foi realizado novo empréstimo que passou para a história como "o ruinoso" e serviu para cobrir parcelas não pagas do empréstimo anterior. Do total tomado emprestado, o Brasil recebeu apenas 52%, pois o restante serviu para cobrir os juros da dívida anterior. Dois novos empréstimos importantes foram realizados durante o Império - em 1843 e 1852 - utilizados ainda para pagar débitos relativos ao primeiro empréstimo, que somente foi saldado em 1890.
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Durante esse período o Brasil ainda endividou-se ainda mais com a Guerra contra o Paraguai. A Inglaterra forneceu os navios e empréstimos ao Brasil para o conflito que também interessava à ela. Daí por diante a coisa descambou. Durante a república do "café com leite" o endividamento aumentou ainda mais, sempre para garantir os privilégios da elite, até chegarmos ao período que ficou conhecido como "milagre econômico", quando a indústria brasileira cresceu a taxas elevadíssimas graças ao ingresso maciço de capitais estrangeiros, fazendo com que a dívida saltasse de 4 para 12 bilhões de dólares.
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O endividamento pós 64 tem dois estágios. O primeiro é o dos governos Costa e Silva e Médici, nos anos 68-73, do "milagre econômico". Nesse período, os empréstimos foram usados para, ao cabo de tudo, realizar operações de crédito na compra de geladeiras, secadores de cabelo, automóveis e outros bens supérfluos e também para financiar ar grandes obras urbanas e serviços que viabilizaram a existência dos automóveis e das geladeiras, tais como estradas, viadutos e redes de energia elétrica. Em 1982 foi o ano da falência declarada do modelo brasileiro de desenvolvimento e o país recorre ao FMI. Ao final do governo Figueiredo, que encerra a ditadura militar, a dívida externa chegava a casa de 100 bilhões de dólares. A Dívida atual, que o Presidente Lula afirma ter pago, alcança a casa dos 231 bilhões de dólares. Estes dados consegui no site do Banco Central.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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Nesta quarta-feira, o vigésimo primeiro capítulo de "Memória Terminal", série inédita escrita pelo jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. Acompanhe!
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