quinta-feira, 16 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Milton Saldanha
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Inédito
Parte XXIII
*
Deu no Correio do Povo!
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O Correio do Povo, nos velhos tempos, era o Estadão também dos velhos tempos lá no Rio Grande do Sul. Jornal sisudo, pesadão, que desprezava o acidente de trânsito ali da esquina, mas não deixava de dar uma manchete internacional, principalmente tendo como procedência Washington. O velho Correio era pesado até no tamanho, aos domingos vinha com imensos cadernos de classificados, e era um dos raros diários gaúchos em tamanho standard. Os demais (Zero Hora, Folha da Tarde, Folha da Manhã) eram tablóides. Fui repórter da Folha da Manhã e colaborador do Correio, que era do mesmo grupo, a Caldas Júnior, pertencente ao então homem mais rico e poderoso do Rio Grande do Sul, Breno Caldas, que morreu no ostracismo e sem ostentar os dois títulos.
Com fama de sóbrio e sério, o Correio era retrato e voz da oligarquia rural gaúcha. Tudo ali tinha que ser dentro dos padrões mais formais do jornalismo. O máximo de irreverência que se permitia eram as charges nas páginas de editoriais e política, e mesmo assim sempre comedidas. Quando alguém comentava algo e queria revestir o tema de credibilidade, dizia: “Deu no Correio do Povo!”
Com esse perfil ultraconservador, todo certinho e bem ao gosto da velha aristocracia pecuarista, um erro grave no Correio tinha sempre forte repercussão. Ou se tornava realmente hilariante, mais do que em qualquer outro jornal, como foi o caso que vou contar agora.
Deve ter sido entre 1965 e 1967, se não estou enganado. Lamento até hoje não ter guardado a página. Os jornais de então tinham um processo industrial longo, moroso e complicado. Os textos, depois de datilografados, eram copiados em imensas máquinas, as linotipos. As fotos, depois de reveladas e ampliadas, eram transformadas em clichês. O clichê era uma chapinha metálica com a imagem em relevo e invertida, colada a um taco de madeira para dar encaixe na paginação também metálica, copiada do diagrama em papel, com as medidas e demais informações gráficas. Duas fotos de mesmo tamanho, na mesma página, corriam sério risco de saírem trocadas. Para fugir deste e outros erros era feita uma prova de página, para checagem final do secretário gráfico, antes da impressão definitiva. Havia mais coisas no processo, mas em resumo era isso.
Ali ao lado de Porto Alegre existe a cidade de Esteio, com um parque de exposições famoso, para animais. O jornal mandou cobrir o último dia de uma exposição de suínos. Havia um concurso, do mais belo suíno. Bateram a foto do campeão, um tremendo porcão, parecia uma bola preta, ostentando pendurada no pescoço a medalha. A matéria foi editada, com a entrevista do feliz criador, tudo certinho. E a legenda: “Belo exemplar de suíno, campeão da feira de Esteio”.
Na mesma página, na contracapa do jornal, estava também a cobertura da chegada em Porto Alegre de um grande empresário paulista que estava fazendo investimentos no Estado. A foto era do homem caminhando no saguão do aeroporto, cercado de puxa sacos, com a legenda: “O empresário Fulano de Tal quando chegava ao Aeroporto Salgado Filho”. Bem, acho que nem preciso contar mais: trocaram as fotos! O secretário gráfico comeu bola e deixou passar. O jornal foi para as ruas com a hilariante gafe. E nem dava para corrigir. Seria bem pior dizer no dia seguinte que o empresário não era aquele belo exemplar de suíno.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance -
www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.
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J. Morgado escreve nesta sexta-feira artigo especial. O jornalista mostra que trabalho, ensino, disciplina e o exemplo dos pais moldam o caráter dos filhos e os preparam para uma vida útil e dignificante. Edward de Souza vai contar na próxima segunda-feira, o caso de uma foquinha de jornalismo, enviada para cobrir estranhos acontecimentos que ocorriam numa moradia da Vila Luzita, em Santo André. Brincadeira de mau gosto, tensão, pavor e a fuga da repórter, que ficou só de calcinha. Não percam esse capítulo inédito.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XXII
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO IX
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Editor “mata” para não assumir erro
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Édison Motta
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No jornalismo, sempre houve focas e sempre haverá. Elas dão colorido especial às redações. Com sua insegurança, aprendem com os próprios erros e também com os erros dos outros. Há, também, situações em que a “foquice” é cometida por veteranos. Nesses casos, nem sempre as derrapagens são assumidas por quem as pratica. Muitas vezes acabam acobertadas pelas estruturas internas de poder ou, o que é mais grave, estampadas nas páginas dos jornais como se fossem verdades. Não presenciei, pessoalmente, a história que agora vou contar. Mas ficou famosa, no Diário do Grande ABC dos primórdios dos anos setenta. José Louzeiro, depois renomado escritor, havia assumido o comando da redação há pouco tempo. Eu trabalhava na Folha de S.Paulo exatamente ocupando a vaga que fora deixada e indicada por ele. Contaram-me os colegas que certa manhã chegou à redação do Diário, aos prantos, uma senhora de meia idade com uma grave reclamação: o jornal daquele dia estampava noticia policial dando conta de que seu marido havia falecido num grave acidente de automóvel. De fato, houve o acidente. O marido saiu gravemente ferido, mas não morreu. Encontrava-se hospitalizado. A notícia de sua morte provocou uma convulsão na família e amigos. A senhora reclamava que verdadeira procissão dirigiu-se à sua residência. Tencionava que o jornal corrigisse a notícia para evitar maiores incômodos para todos. Naqueles tempos não era hábito dos jornais corrigirem notícias. Passavam a impressão de perfeição. Até hoje, o saudável hábito de ser fiel aos acontecimentos não é tão comum. Vira e mexe deparamos com notícias que não se confirmam depois, com o correr dos fatos. Como recentemente foi comentado, aqui no blog, quando uma apresentadora da Rede Globo “chutou”, na notícia de um acidente, número significativamente maior de mortos do que havia acontecido. E a TV não consertou o equívoco. Na mídia eletrônica é mais fácil corrigir erros. O telespectador ou o ouvinte leva em consideração que os primeiros informes carecem de maior apuração. Na mídia impressa é mais grave: depois de publicada, a notícia somente poderá ser consertada na edição seguinte. Naquela manhã, a única secretária que atendia toda a redação chamava-se Nanci. Ouviu a reclamação da senhora e foi até Louzeiro intercedendo para que ele atendesse a mulher. Louzeiro deu um “chá de cadeira” na coitada, que ficou ali, sentada ao lado da secretária, por um longo tempo. Aquele não era, efetivamente, um bom dia para o chefão. Quem com ele conviveu sabe de seu carinho, especialmente para com os focas, e a atenção que costumava dar às pessoas. Porém, por algum motivo até hoje desconhecido, seu costumeiro humor não o acompanhava naquela manhã. Provavelmente, o secretário de redação esperava que a mulher desistisse da intenção de corrigir a notícia. Qual nada: a mulher não arredou pé. Passados muitos minutos e após várias intervenções da secretária, Louzeiro resolveu atender a mulher ali mesmo onde se encontrava, ao lado das mesas dos diagramadores, enquanto editava matérias para o jornal do dia seguinte.
- Senhora: qual foi o jornal que publicou a notícia de que seu marido está morto? perguntou Louzeiro, com cara de poucos amigos.
- Foi esse aqui mesmo, o Diário! Disse a chorosa mulher.
- Esse aqui, o Diário do Grande ABC? retrucou Louzeiro.
- Isso mesmo, este jornal, respondeu a mulher quase impaciente.
- Pois vou lhe dizer uma coisa, minha senhora: este jornal não erra! Se está escrito que seu marido morreu no acidente, então ele morreu. Meus sentimentos, a senhora agora é uma viúva! E encerrou o assunto. Dizem que a mulher foi embora mais atordoada do que chegou. Não se tem notícia a respeito do que aconteceu depois. Sabe-se que o jornal e o jornalista não sofreram nenhum processo. Também é desconhecido o destino do infeliz acidentado. Coisas dos velhos tempos que, felizmente, encontrariam dificuldades para serem reprisadas nos dias atuais. A verdade é que a história do defunto forçado do Louzeiro entrou para os anais das lendas das redações.
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Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.
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*Milton Saldanha conta amanhã outra história inédita neste blog, com o título: "Deu no Correio do Povo", não deixem de ler. Na sexta-feira artigo especial e muito aguardado de J. Morgado. Outro capítulo de "Histórias das redações de jornais" na segunda-feira
. Edward de Souza vai contar o caso de uma foquinha de jornalismo enviada para cobrir estranhos acontecimentos que ocorriam numa moradia da Vila Luzita, em Santo André. Brincadeira de mau gosto, tensão, pavor e a fuga da repórter, que ficou só de calcinha. Não percam esse capítulo inédito na próxima semana.
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terça-feira, 14 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS


INÉDITO
PARTE XXI

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SÉRIE

“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO VIII
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Foca paga cachaça para arrumar defunto
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Edward de Souza
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A série apresentada nesse blog sobre os “focas” - nome que se dá ao jornalista ainda ingênuo e atrapalhado - vai mostrar hoje o outro lado da moeda de alguns principiantes no jornalismo que ficaram famosos pela sua criatividade e, porque não, tendência clara ao sensacionalismo. José Lázaro Borges Campos foi um deles. Esse relato de hoje foi inúmeras vezes contado por ele e muitos amigos jornalistas conhecem o caso. Foi o começo de sua carreira no pequeno News Seller de Santo André, atualmente Diário do Grande ABC. Naqueles tempos o jornalista rezava antes de sair de casa para que um fato de importância pudesse cair em suas mãos para ser noticiado. Pauta, dificil ter alguma à espera na redação. Lembrando que pauta é uma orientação que os repórteres recebem descrevendo que tipo de reportagem será feita, com quem deverão falar, onde e como. A pauta é elaborada, nos dias de hoje, por editores e subeditores, mas em algumas redações ainda existe o pauteiro, que é o profissional que tem a função de decidir o que será noticiado. Cabe a ele elaborar a pauta do dia, isto é, os assuntos que os repórteres deverão sair para apurar (investigar). No caso de um acidente, por exemplo, o fato só vira uma pauta no momento em que acontece. Foi assim numa sexta-feira de carnaval. A notícia chegou como uma bomba na redação do pequeno News Seller. Um conhecido sambista, presidente de uma famosa escola de Santo André, havia sido atropelado e morto por um ônibus, numa avenida da cidade. De acordo com as informações dadas pela PM, o corpo do infeliz sambista estava ainda sob as rodas do coletivo. Lázaro Campos estava começando em jornal e foi escalado para correr ao local, junto com um fotógrafo, para cobrir o acidente e trazer fotos. Só havia um carro na redação e o motorista, para desespero do Lázaro, havia desaparecido. Foi um corre-corre danado, gritos, telefonemas, até que descobriram o motorista batendo papo num posto de gasolina que ficava ao lado da redação. Nisso, preciosos minutos foram perdidos. O chefe da redação queria as fotos mostrando o corpo do sambista sob as rodas do ônibus e não abria mão disso. E não era só naqueles tempos que jornais mostravam cadáveres em suas primeiras páginas. Fim de semana mesmo vi alguns nas páginas de um diário aqui de Franca. Pois bem. Lázaro entrou no carro com o fotógrafo, disposto a chegar a tempo e mostrar serviço para a chefia do jornal. Assim que chegaram, uma multidão impedia o carro de prosseguir. Lázaro saltou do veículo com o fotógrafo e correu ao local do acidente. Muitos repórteres e fotógrafos de jornais da Capital já estavam saindo, depois de registrar o triste acontecimento. Quando Lázaro Campos se aproximou do ônibus, a decepção. O corpo do sambista havia sido levado pelo carro funerário. O que fazer, pensou o jovem foca. Só fotografias do ônibus não diriam muita coisa e desagradaria, certamente, o chefe de redação. Até porque, jornais como a última Hora e outros vizinhos, de São Paulo, iriam mostrar a foto do famoso sambista no asfalto, sob as rodas do ônibus. Enquanto o fotógrafo tirava algumas fotos do coletivo e da multidão, Lázaro dirigiu-se a um boteco próximo ao local do acidente. Tomou uma branquinha com limão, aborrecido com a falta de sorte. Enquanto pensava no que fazer e nas explicações que daria no jornal, dele se aproximou um homem alto, forte e negro. Pediu ao Lázaro para lhe pagar um aperitivo. Olhando para seu interlocutor, deu um estalo na mente do jovem repórter. Estava ali a sua salvação. Enquanto pedia uma cachaça para o homem ao seu lado, lhe fez uma proposta. Pagaria aquele aperitivo e uma garrafa da branquinha caso ele lhe fizesse um pequeno favor: deitar-se sob as rodas do ônibus que havia atropelado e matado o sambista. Proposta aceita de imediato. Seriam apenas alguns segundos, pensou o negro e então passaria a sexta de carnaval feliz, tomando sua garrafa de cachaça. O fotógrafo foi alertado por Lázaro e ficou de prontidão. Curiosos se aproximaram. O negro estendeu-se no chão, bem perto das rodas do coletivo, mas do outro lado, para fugir das manchas de sangue espalhadas pelo asfalto. Rápido, o fotógrafo bateu as fotos. Uma, duas, três. Estava feito o registro. Contente, Lázaro e o fotógrafo voltaram para a redação. Ficou combinado que ninguém dos três – repórter, fotógrafo e motorista iriam abrir o bico na redação. Texto pronto, as fotos chegaram. Estavam perfeitas. Ninguém desconfiaria, pensou Lázaro. Tão perfeitas que o chefe de redação já havia determinado. Seria a manchete do jornal. Assim foi. No dia seguinte, sábado de carnaval, o News Seller estampava em sua primeira página o título: “Sambista famoso morre na avenida”. Foi o único jornal que mostrava, com clareza, a foto de um negro estendido no solo. A manchete dos outros jornais também destacava a morte do sambista, com letras garrafais. A única diferença era que o corpo estendido no solo era de um homem branco.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Édison Motta escreve nesta quarta-feira mais um capítulo inédito em “Histórias das Redações de Jornais”. Conta o caso envolvendo o jornalista e escritor José Louzeiro que, naqueles tempos, não gostava de corrigir notícias. Saiu publicado, tinha que estar certo. E deu o que falar quando Louzeiro foi interpelado por uma leitora raivosa. Não percam nesta quarta: "Editor “mata” para não assumir o erro".
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segunda-feira, 13 de abril de 2009

ARTIGO DE HOJE - SOU UM PRIVILEGIADO

J. Morgado

Todos os dias, pela manhã, antes de sentar-me defronte ao computador, tento espairecer dando uma volta pela cidade. Não faço ponto em nenhum lugar; apenas respondo ou cumprimento as pessoas conhecidas, se surgir oportunidade. Caminho devagar, sem pressa, observando. Ali, uma mulher caída, roupas em frangalhos, suja, dormindo; provavelmente o sono da embriaguês. Adiante várias senhoras conversam; ao aproximar-me escuto: “coisa nojenta, o cara pegou a garrafa de coca-cola no lixo e tomou o que restava, nossa”! Diziam elas em tom de nojo. Continuo o meu passeio, pensando... Se essas pessoas fossem até o lixão “morreriam” de tanto vomitar. Um rapaz usando um par de muletas sem uma perna caminha em minha direção e pede uma ajuda; tiro uma moeda do bolso e a dou. “Que Deus lhe acompanhe moço”. Gostei do moço. Eu com barba e cabelos brancos. Sorri. Depois de caminhar por mais algum tempo lembrei-me da ponte no centro da cidade. Debaixo dela dormiam vários párias da sociedade. Pessoas que não mais sabiam o que era objetivo. Havia os viciados em álcool, em entorpecentes, os alienados... Para eles não havia futuro (era o que pensavam). À noite, vasculham as lixeiras das residências em busca de restos de alimento. Durante o dia, saem a pedir para comprar bebida ou o entorpecente que os faz esquecer-se da realidade. Lembro-me agora de um domingo ter assistido ao programa “Domingo Espetacular” na TV Record. Triste! Uma reportagem sobre a fome na Nigéria. Crianças cadavéricas eram embaladas pelas mães desesperadas. Porém, um cientista descobriu um superalimento a base de amendoim e isso estava salvando aqueles seres desnutridos.
Outra lembrança me vem à mente, um rapaz sem pernas e sem mãos. Recebi em vídeo essa reportagem. Fiquei um pouco surpreendido! O rapaz era feliz. Com essa deficiência, havia conseguido terminar a faculdade e escrever um livro e estava elaborando outro; o futuro sorria para ele. Nascera no seio de uma família que o amava e que o fizera superar o problema.
Devagar, pensando, recordando, vou observando cada detalhe ao meu redor. Mansões, casas de classe média... O vai-e-vem apressado das pessoas. Passando por um jardim, sento-me em um banco e fico a observar. Os pombos arrulhando, o traje dos caminhantes acusam o poder aquisitivo de cada um deles, se bem que “o hábito não faz o monge”. Os semblantes são tão diferentes! Uns parecem alegres, outros tristes, macambúzios, outros ainda, tão indiferentes, que não dá para se fazer uma avaliação. Deixo de observar e começo a me argüir. Por que tantas diferenças no mundo? Pobres, ricos, aleijados, sãos, doentes, inteligentes, cretinos, honestos, criminosos... Chego a uma conclusão. Sou um privilegiado! Cheguei a uma avançada idade. Passei por vários problemas naturais que a vida nos reserva e aqui estou... Feliz!
Volto a caminhar. Os passos agora são mais apressados. Avisto o que chamo a “estação do adeus”. Muitas pessoas ali se aglomeram. Mais um que parte, penso. Elevo meu pensamento e faço uma oração para aquela alma. Chego em casa. No portão, minha esposa recebe-me com um terno beijo!
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*J. Morgado é Jornalista e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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Nesta terça-feira o oitavo capítulo inédito de "Trapalhadas de um foca", na sequência da série "As histórias das redações de jornais". Acompanhe mais um caso verídico de um jovem jornalista no começo de sua carreira.
(Edward de Souza)
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domingo, 12 de abril de 2009

UM BOM DOMINGO DE PÁSCOA A TODOS

Edward de Souza

Páscoa é tempo de Amor, de família e de Paz... É tempo de agradecermos discretamente por tudo que temos e por tudo que teremos. Páscoa é um sentimento nos nossos corações, de esperança, fé e confiança. É dia de milagres; é dia dos nossos sonhos parecerem estar mais perto, tempo de retrospecção por tudo que tem sido, e uma antecipação de tudo que será. E é hora de lembrar com amor e apreciação as pessoas em nossas vidas que fazem diferença. A Morte e Ressurreição de Cristo, celebrados nesta Semana Santa, nos levam a sérias reflexões. Não somente pelo sacrifício na cruz, mas pela simbologia que o grandioso e sagrado gesto significa na vida de cada um de nós. Não queremos dizer que será necessário passar pelo mesmo sofrimento. Devemos sim, morrer para a antiga vida e renascer para outra inteiramente nova, é essa a grande lição que recebemos do Salvador. Vícios, preconceitos e tantos hábitos prejudiciais adquiridos ao longo do tempo, pesam em nossos ombros e nos impedem de viver livremente, com alegria e despojamento. É preciso ter disposição para abdicar de sentimentos negativos e se entregar a uma vida de gratidão, confiança e paciência. O peso da cruz que todos nós carregamos depende da maneira como levamos a nossa vida. Alguns, com força e determinação, sem nunca esmorecer, outros debilitados, sem fé, arrastando-se com desânimo pelos caminhos. Ou encaramos a subida ao Calvário que nos foi apontada por Deus, com abnegação, silêncio e mansidão, ou com pessimismo, amargura e lamentações. Cabe a cada um de nós a escolha. De uma coisa temos certeza, Deus jamais dará uma cruz mais pesada do que os nossos ombros não possam carregar.
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*Edward de Souza
é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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sábado, 11 de abril de 2009

JUDAS É MALHADO NO SÁBADO DE ALELUIA

Edward de Souza

Repetem-se as cenas de costume neste sábado de aleluia. A malhação de milhões de bonecos pelo mundo afora, representando a figura de Judas Iscariotes, considerado traidor de Jesus Cristo. Judas teria vendido Cristo por trinta moedas, entregando-o ao governador da Galiléia, que o condenou à morte na cruz, encerrando-se assim o Drama do Calvário, trágico episódio da maior relevância para a história do cristianismo. A malhação do Judas, como o carnaval, tornou-se uma festa popular. Para muitos uma comédia de mau gosto, para outros, motivo de gozação e deboche, de crítica às autoridades em evidência e a pessoas de quem não se gosta ou até mesmo odeia-se.
A Malhação do Judas é um espetáculo que revive a festa pagã das Capitales Romanas. Popularíssima na Península Ibérica, radicou-se na América Latina a partir dos primeiros séculos de colonização européia. Câmara Cascudo afirma que “o Judas queimado é uma personificação das forças do mal e constituirá vestígios dos cultos agrários, espalhados pelo mundo”. A Igreja dela se aproveitou para incutir melhor na alma do povo a execração do gesto infame de Judas Iscariotes. Segundo a Bíblia, Judas era um dos 12 discípulos que seguiam Jesus, porém sempre se mostrou diferente dos outros, pois era mentiroso, infiel e interesseiro. O motivo da malhação é o fato de Judas ter traído Jesus com um beijo, mostrando-o aos soldados que o perseguiam.
Malhar o Judas é uma prática ainda muito comum, apesar de o costume praticamente ter sido banido das grandes cidades por falta de locais adequados e dos perigos que representa. Aqui no Brasil, a malhação de Judas vem desde o século 18, tendo origem no Rio de Janeiro, quando os bonecos traziam fogos de artifícios presos no ventre. Esses fogos eram acesos no Sábado de Aleluia e ardiam sob os aplausos do povo, como vingança à morte de Jesus Cristo. No Interior, a tradição continua viva. Os bonecos geralmente são do tamanho de um homem, forrado de serragem, trapos e jornal, que é arrastado pelas ruas, surrado e, por fim, queimado, normalmente ao meio-dia. Em algumas cidades, como em Franca, Batatais, Ribeirão Preto e até em Santo André, no ABC Paulista, eles são pendurados em postes de iluminação pública e galhos de árvores. Depois de enforcado, o boneco é explodido com bombas que são colocados em seu corpo. Algumas queimas de Judas que eu conheço e presenciei são tradicionais, como em Santo André, sempre feita, há mais de 40 anos, por Vanderlei Vicente Ferreira, o popular “Rancharia”. Nessa cidade do ABC, “Rancharia” queima o Judas na Rua Coronel Fernando Prestes, centro da cidade, em frente a Lanchonete André Center, do amigo Antonio Amorin. Antes do meio-dia, o trânsito pára naquele local para a queima do boneco. Em Franca, ela é realizada há 56 anos por outro amigo, Thomaz Tardivo, em frente ao famoso Clube dos Bagres, na rua General Carneiro. Normalmente os bonecos feitos pelo Tardivo têm armação de madeira e cabeças de papel machê com acabamento artístico. A pintura dos cabelos, barbas, bigodes, olhos, narizes e bocas é feita com tinta acrílica e também há um cuidado especial com as roupas. Tradicionalmente, o nome do Judas é apontado pelos organizadores da festa folclórica. Nomes como Fernando Collor, Sadan Hussein, Bin Laden, Nazaré, Xuxa, George Bush, José Dirceu, Palloci, governadores e prefeitos já foram levados à forca como sinal de protesto da população contra o mal comportamento. É costume antigo fazer o julgamento de Judas, sua condenação e execução. Antes do suplício, alguém lê o testamento de Judas, em versos, colocado especialmente no bolso do boneco. O testamento é uma sátira das pessoas e coisas locais, com graça oportuna e humorística para quem pode identificar as figuras alvejadas.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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sexta-feira, 10 de abril de 2009

A SEMANA SANTA NÃO É MAIS RESPEITADA

Edward de Souza

As atribulações da chamada “vida moderna” e a grande capacidade de marketing conseguiram transformar a outrora tradição da Páscoa num dia eminentemente comercial. A Páscoa transformou-se, de uma festividade religiosa, para feriado comercial. Perguntem a qualquer criança o que é a Páscoa. Creio que entre cada dez, doze saberão dizer que é o dia de ganhar presentes e, principalmente, dia de comer muito, mas muito chocolate. Possivelmente até conseguir uma bela dor de barriga. As antigas tradições a respeito da Páscoa estão sendo pouco a pouco esquecidas. Ao invés de comer e beber tudo o que tem direito, a reunião familiar do domingo deveria continuar servindo para acertar diferenças, procurar no real significado da Páscoa, a meditação, o diálogo em paz, a harmonia e o perdão, pregados por Cristo. Virou tudo uma grande festa comercial. Em épocas que a nossa lembrança teima em esquecer, a Quinta-feira Santa era exclusivamente consagrada à expiação das faltas. O que se passava na Semana Santa no seio das famílias era de uma simplicidade primitiva e tocante. “Porque Nosso Senhor estava doente”, a casa não se varria, os empregados não trabalhavam, os meninos não brincavam nas calçadas. Não se cantava, não se dançava, não se tocava. Falava-se baixinho, jejuava-se, rezava-se. As donas de casa “ficavam de olho” em empregados desobedientes e nos meninos traquinas para um ajuste de contas quando rompesse o Sábado de Aleluia. Nos corredores das igrejas, nas sacristias, gente de todas as classes buscava os confessionários, desde o sábio e o alto funcionário público, até o homem obscuro e o empregado humilde, cuja metafísica limitava-se a crer e orar. O jejum, não obstante ser obrigatório sofria restrições: eram excluídos os doentes e enfermos, as senhoras grávidas e as crianças, os velhos e as mulheres que amamentavam. Havia abstenção de toda modalidade de jogos e divertimentos, e a continência, em qualquer condição, constituía uma lei. Durante a semana, comungava-se. O padre adiantava-se no silêncio glacial das igrejas, e, diante da toalha imaculada, os fiéis, de joelhos, recebiam a partícula sagrada. Na Sexta-feira Santa, a partir de seis horas, a população, vestida de luto, visitava as igrejas. Os fiéis, que deviam visitar, pelo menos, sete igrejas, dobravam o joelho no topo dos degraus, inclinavam o corpo, abaixavam a fronte, beijando de preferência os dedos do pé ou o dorso da mão ensangüentada da imagem estendida. E, erguendo-se, sacudindo a poeira da roupa, deixavam o dízimo espontâneo. Entre as famílias, entre as pessoas mais chegadas, entre o povo a frase “me perdoe alguns agravos” era a própria do dia. E este dizer tão simples, que autenticava a desobrigação da Quaresma, abrangia os derradeiros temores de uma alma purificada pela religião e pela penitência. Os açougueiros se reuniam aos fiéis nas igrejas ou então ficavam em casa. Abrir os açougues nessa época, nem pensar. Comer carne vermelha era pecado mortal, pregavam os pais aos filhos pequenos. As emissoras de rádio interrompiam na Sexta-Feira Santa sua programação normal para tocar músicas orquestradas, leves, suaves.
Mas esses tempos passaram... Nas últimas cinco décadas a humanidade se transformou. O capitalismo tomou conta do mundo e transformou tudo - ou quase tudo - em fonte de lucro, de consumo. As festas - grande parte de caráter religioso - se tornaram ocasião de um consumo maior. Esses eventos perderam seus sentidos originais, humanos, familiares e religiosos. Por isso, o propósito deste artigo é tentar resgatar um pouco das nossas coisas, das festas e celebrações e, simultaneamente, refletir sobre o sentido da vida humana.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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A série "As histórias das redações de jornais" volta nessa segunda-feira, com mais um capítulo inédito envolvendo os jovens principiantes em jornalismo, também conhecidos como focas. Não percam!
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XX
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO VII
*
Foca preso durante reportagem
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Edward de Souza
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Tenho em geral simpatia pelo foca. Invariavelmente se incumbe das matérias mais chatas e é depreciado e fofocado entre os outros jornalistas. É um eterno curioso, e essa é uma de suas qualidades mais fecundas. Em geral, o foca não é contratado logo de cara. Passa por um período de experiência na empresa e, se der certo, tem grandes chances de integrar o time da redação. Isso aconteceu com Amilcar - nome real - quando apareceu para fazer um teste no Diário do Grande ABC, na metade dos anos 70. Formado recentemente em jornalismo, na prática nunca tinha entrando numa redação. O Claudio Maiato era o secretário do jornal, já em suas novas e modernas instalações na Rua Catequese. Carioca e brincalhão, Maiato era um velho jornalista experiente. Trabalhou em grandes jornais, entre eles Última Hora e Folha de São Paulo. O jovem Amilcar foi apresentado ao Maiato pelo Fausto Polesi, diretor do jornal e um dos proprietários. Amilcar tomou um "chá de cadeira" de umas duas horas, enquanto Maiato participava de uma reunião de pauta do jornal. Fiquei penalizado ao vê-lo deslocado e me aproximei para uma conversa. Tímido, contou que seu grande sonho era ser jornalista e com sacrifício havia concluído o curso. Convidei-o para tomar um café, dei-lhe alguns conselhos e mostrei que poderia contar comigo para ajudá-lo no que fosse preciso. Percebi que ele ficou mais calmo depois daquele papo descontraído. Amilcar não sabia em que setor do jornal seria aproveitado, mas, pela minha experiência, logo imaginei que Maiato o jogaria na editoria de polícia. Os velhos chefes de redações daqueles tempos gostavam de fazer isso. Entendiam, com razão, que a reportagem policial era uma escola para se formar um bom profissional, até porque o obriga a conviver com todas as camadas sociais. Não deu outra. Amilcar foi apresentado ao Renato Campos, editor de polícia, para fazer uma experiência no setor. Estávamos no mês de dezembro e as festas natalinas se aproximavam.
É sabido que pato novo, em redação, não dá mergulho fundo. Isso significa que, nas divisões de tarefas, foquinha sofre. Por exemplo, no fim do ano, metade da redação trabalha no Natal e a outra parte no Ano-Novo. Esses dois lados se alternam ano a ano, mas o recém-chegado não tem escolha: vai ficar obrigatoriamente com o Réveillon, o feriado mais odiado, já que é quando se quer dormir mais tarde e encher a cara, entre outras coisas. De cara Renato escalou Amilcar para o plantão do final de ano. O comando da editoria ficaria em minhas mãos, Renato estava com viagem marcada para o Rio de Janeiro, a passeio. Na véspera de ano novo tocou o telefone na redação. Era do primeiro distrito policial de Santo André. Do outro lado da linha o delegado José de Arimathéia me informava que um perigoso assaltante havia sido preso de madrugada, depois de troca de tiros com policiais. Provisoriamente ficaria detido naquele distrito, aguardando sua remoção para um presídio de maior segurança. O 1º DP de Santo André abrigava, naquela época, apenas duas celas, localizadas num corredor dos fundos, onde enormes e pesadas portas impediam o acesso a elas. Não se ouvia nenhum ruído, mesmo se por algum motivo os presos se rebelassem. Conversei com o editor chefe sobre o caso em voz alta. Amilcar ouvia atento. Quando me sentei, ele se aproximou e se ofereceu para cobrir o caso. Estava agitado e mostrando uma disposição incomum. Pensei por alguns segundos e decidi dar essa chance ao jovem repórter. Orientei-o antes, dizendo que seria de importância ouvir o marginal, tirar detalhes de sua prisão e pedir ao fotógrafo para tirar o maior número de fotos possíveis. Entusiasmado, Amilcar sacou algumas laudas, dobrou-as e com a requisição assinada foi em busca do carro de reportagem com o fotógrafo. Sai para o almoço, certo de que tudo iria correr bem, pela disposição que percebi em Amilcar. Voltei duas horas depois e nada de repórter. Liguei para o laboratório fotográfico e fui informado que as fotos do marginal estavam prontas. Amilcar havia ficado no distrito. Tinha conseguido autorização do delegado para entrar na cela e entrevistar o marginal. Ligaria quando terminasse para que o carro fosse buscá-lo. O tempo passava e nada de ligação. Fui ficando nervoso, tinha que fechar a página e pensava em fazer isso mais cedo, era final de ano e ninguém é de ferro. Liguei para o distrito. O doutor Arimathéia não estava. Falei com o escrivão de plantão, se não me engano era o Zamana, hoje delegado de polícia. Não sabia de nada nem tinha visto repórter nenhum por lá. Desci imediatamente, entrei no carro do jornal e corri ao distrito. O doutor Arimathéia estava chegando. Perguntei a ele sobre o repórter e o delegado ficou branco, percebi. Levou as mãos à cabeça e exclamou: “Meus Deus, esqueci o rapaz na cela”. Saímos os dois correndo. A cena que encontrei não esqueço nunca. Agarrado às grades, Amilcar parecia um macaco pendurado num galho. Estava roxo, certamente de tanto gritar. Nos fundos, o marginal dormia tranquilo, sem se importar com os berros do jovem foca. O delegado abriu a cela libertando Amilcar e pediu desculpas. Apavorado, cabelos desalinhados, Amilcar correu para fora e entrou no carro do jornal, me esperando. O delegado se justificou, contando que Amilcar queria de qualquer forma entrevistar o assaltante, seguindo orientações que tinha recebido minhas. Por isso, como não podia tirar o preso da cela e correr o risco de uma fuga, o delegado deixou o repórter com o preso, na promessa de voltar e tirá-lo de lá em 10 minutos. Esqueceu-se.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Em virtude do feriado da Semana Santa, a série “Histórias das redações de jornais” continua na próxima segunda-feira, com mais capítulos de "focas do jornalismo". Amanhã escrevo um artigo especial sobre a Páscoa. Não deixem de ler e participar.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XIX
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”

CAPÍTULO VI
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O porre do foca Petrúcio
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Édison Motta

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O nome é fictício. Insisti com o personagem real desta história para que ele próprio a redigisse. Ele se acanhou. Talvez não queira relembrar fatos de seus primórdios porque, depois que se consagrou no jornalismo, passou inclusive a lecionar numa renomada faculdade de nosso País. Portanto, vamos chamá-lo de Petrúcio. Porque o nome original é também assim, inusitado, começando com a letra “P”.
Naqueles idos do começo da década de 70, a redação do Diário do Grande ABC apertava-se naquela que, com carinho, denominamos “casinha”. O jornal experimentava um grande progresso. Crescia com a região, nos anos do “milagre brasileiro”. Páginas e páginas de anúncios - havia um caderno só com anúncios de empregos! - se avolumavam. Para preencher o espaço, cobrava-se cada vez mais da redação. O limitado quadro de repórteres não dava conta. Precisávamos, urgentemente, encontrar jornalistas. Eu era o chefe de reportagem. Aos 20 anos, após ter iniciado no jornalismo diário no próprio Diário do Grande ABC, saído para trabalhar na Folha de S.Paulo durante quase um ano e retornado para assumir o novo desafio. Uma tormenta, porque todos os demais integrantes da equipe por mim chefiada eram mais velhos. Rejeição à vista. Mas esta é outra história. Fiquemos com o Petrúcio.
Certo dia, o Fausto Polesi, diretor de redação, chamou-me à sua sala. Estava com um recorte, a coluna de filatelia do jornal. E disse: “olhe, o rapaz escreve, até que bem, a coluna. Quem sabe não pode ser um repórter?” Passou-me o telefone do Petrúcio e eu entrei em contato, solicitando que ele viesse à redação no dia seguinte. E assim aconteceu. Conversamos um pouco, dei-lhe uma pauta (não lembro o assunto) como teste e voltei à efervescência de comandar minha equipe de repórteres da geral (hoje setecidades). Passou a tarde inteira e o Petrúcio não voltou. Quando chegou, enrolou-se todo e não conseguiu escrever a matéria. Envolvido com o fechamento da edição, não dei conta do que estava acontecendo. No dia seguinte a mesma cena: nova pauta e nova “enrolação”. Como o rapaz já tinha uma coluna, procurei evitar o desgaste que seria criado com a direção do jornal. Fui-lhe dando, durante uma semana, seguidas pautas. E a cena repetia-se dia após dia: o Petrúcio saía à rua, com carro e fotógrafo, mas “travava” na hora de redigir o texto. Certo dia, já com a paciência em frangalhos, dei-lhe outra pauta. Havia reclamações de leitores do jornal (naqueles tempos, sem internet, eles eram até mais participativos, com cartas e telefonemas do que nos dias atuais) de que o bar da estação estava precário em matéria de higiene. E que algumas pessoas foram contaminadas pela má qualidade dos lanches ali servidos. Tratava-se de um antigo bar, localizado no mesmo prédio da antiga estação ferroviária de Santo André.
Escalei o Petrúcio. De novo, passou a tarde inteira e nada do Petrúcio voltar. Quando ele finalmente chegou exalava um forte cheiro de álcool. Não havia dúvidas: estava embriagado. Perdi a paciência. Disse a ele: Sente-se e escreva a matéria. É a sua última chance. Se desta vez não sair, adeus vaga. Vou contratar outra pessoa em seu lugar. E voltei aos meus afazeres. Qual não foi minha surpresa quando, algum tempo depois, chega o Petrúcio cambaleante e entrega a matéria. Comecei a lê-la. Estava lá, inteira, completa. Com começo, meio e fim. E eu sabia: foi ele mesmo quem fez porque, de longe, observava seu pestanejar sobre o teclado da antiga máquina de escrever.
Publiquei a matéria e contratei o Petrúcio. Especialmente porque fiquei sabendo depois, pelo fotógrafo que o acompanhou, que ele caiu numa armadilha preparada pelo José Marqueiz, recentemente falecido, Prêmio Esso de Jornalismo Nacional pelo estadão em 1975. O Marqueiz nesta época trabalhava na sucursal ABC do estadão. Era freqüentador e amigo do dono do sujinho da estação. Petrúcio não o conhecia, mas ele estava lá quando chegou com a pauta. Percebendo que a matéria iria “sujar” a reputação do amigo, Marqueiz seduziu o foca com suas incríveis histórias do Xingu, onde passou um bom tempo ao lado dos irmãos Villas Boas e que lhe valeram a matéria do Prêmio Esso. Ocorre que o Petrúcio não bebia. Sua tolerância ao álcool era mínima. Uns dois goles e já ficou de porre. Assim mesmo, voltou à redação para tentar escrever a matéria. E conseguiu! No dia seguinte, ainda de ressaca, Petrúcio ouviu um discurso que fiz para toda a redação: “Olhe aqui, Petrúcio. Depois desta matéria, que você conseguiu escrever de porre, não tem mais desculpa. Se necessário, fazemos uma vaquinha para colocar uma garrafa de uísque ao seu lado. Está contratado!”
Com o tempo, Petrúcio destravou por completo. Consagrou-se um dos melhores repórteres do jornal. Meu braço direito na produção de pautas. Revelou-se, também, um professor inato. Ajudou - sem álcool - muitos focas que, assim como ele, fizeram sucesso no jornalismo. E, depois de algum tempo na redação, onde publicou históricas reportagens assinadas, foi lecionar na faculdade.
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Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.

terça-feira, 7 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XVIII
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO V
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Foca "mata" cinco
para ganhar manchete
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Oswaldo Lavrado
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É inegável que uma redação de jornal já teve muito mais charme, hoje perdeu boa parte de sua "aura". Mas, um jornal sempre precisará de bons repórteres, que saibam apurar e escrever com talento. Todo jornalismo se propõe a investigar, e uma das qualidades que caracteriza um bom repórter é este sexto sentido, aliado a uma boa dose de ceticismo. Ele não sabe, não crê, e são suas dúvidas que vão levá-lo a ter sucesso na apuração, ou então fracassar e receber o desprezo da chefia do jornal, exatamente o caso relatado nesta terça-feira pelo jornalista e radialista Oswaldo Lavrado, que tira do fundo do baú esse relato envolvendo um principiante no jornalismo, ou foca, como é mais conhecido, de nome Mazolla. Acompanhem o relato de Lavrado ao blog.
Começo dos anos 70, o Dersa - Desenvolvimento Rodoviário S.A. - construía a primeira pista da Rodovia dos Imigrantes, que liga São Paulo ao Litoral, passando por Diadema e São Bernardo. Uma noite fria de sábado, apenas dois repórteres estavam de plantão no Diário do Grande ABC. Eu (Lavrado), que aguardava os resultados dos jogos de futebol da noite para preencher 40 linhas da página de esportes e o Mazolla, repórter da editoria de polícia, comandada então pelo Renato Campos. O Mazolla era mesmo o que se poderia chamar de foca, já que havia entrado no Diário há poucos dias e nunca tinha trabalhado em outro veículo de comunicação. Por volta das 23h, ele recebe a informação que um dos viadutos (aqueles enormes) em construção na Imigrantes havia desabado. Rápido, acordou o Zé Natal, motorista que cochilava no terraço da casinha, então redação do Diário, e acionou o fotógrafo, que não era outro senão o nosso glorioso João Colovatti. Aboletados no fusca do Diário, os três rumaram para o trecho do acidente na Imigrantes, que fica em São Bernardo. No local, bombeiros, ambulâncias, médicos, polícia, outros trabalhadores da obra e grande volume de entulho do viaduto desabado. Sem muita experiência como repórter, Mazolla perguntou para um “peão” da obra quantas pessoas estavam sob os escombros: "olha moço, acho que morreram uns 10", respondeu o operário sem muita convicção. Colovatti estava ocupado em registrar os "melhores" lances com sua potente Nikon. Sem encontrar nenhum corpo, o matreiro fotógrafo imaginou que se 10 pessoas tivessem morrido, como supunha o Mazolla, os corpos deveriam estar no IML de São Bernardo, já que o trecho acidentado fica no município.
A mando do Colovatti, os três partiram para o IML na Vila Euclides, região central da cidade. Quase uma hora da manhã, apenas uma luz na guarita indicava que havia alguém no IML. Colovatti chamou o vigia que foi até o grande portão. "Por favor, disse Colovatti, chegaram aqui alguns corpos do acidente da Imigrantes?". O vigilante, sonolento, respondeu: “Olha moço, hoje só chegou o corpo de um rapaz esfaqueado no Baeta Neves (bairro de São Bernardo)". Colovatti não acreditou e tentou entrar no IML. Assustado com a parafernália do fotógrafo, principalmente com a Nikon que mais parecia um canhão portátil, o guarda se afastou um pouco e ameaçou: "aqui ninguém entra e se insistir sou obrigado a atirar no senhor", mostrando um revólver calibre 38. Sem alternativa, os três - Zé Natal, Mazolla e Colovatti - retornaram ao Diário, cuja edição de domingo estava para ser concluída. Na redação, Mazolla redigiu, na velha Olivetti, 50 linhas sobre o assunto em questão e correu para a oficina. Chamou o chefe e determinou: "minha reportagem será a manchete da primeira página", e assim foi. Eu já havia encerrado meu plantão e sai com o Colovatti, o Mazolla e o Zé Natal a procura do primeiro boteco aberto na avenida D. Pedro II. Já era madrugada de domingo e ninguém é de ferro. O assunto, até porque o Mazolla não deixava ser outro, foi o acidente e a matéria sobre a queda do viaduto. Mazolla, que como eu residia em São Caetano, foi pra casa, orgulhoso de sua primeira manchete no Diário.
No dia seguinte, domingo, de fato o Diário estampou na primeira página: “Queda de viaduto na Imigrantes deixa 5 mortos”. Receoso que o número fornecido pelo trabalhador da obra não era confiável, o repórter foquinha optou por uma média imaginária e colocou 5 mortos, no chute, como chamamos um texto forçado.
Na segunda-feira, Mazolla chegou de peito estufado para seu trabalho no Diário. Assim que colocou os pés na redação foi informado pela jovem da recepção que deveria ir urgente à sala do José Louzeiro, então chefe de redação do Diário. Certo que receberia fartos elogios do chefão, Mazolla pra lá se dirigiu. Faiscando pelas ventas, Louzeiro recebeu o repórter com um caminhão de pedras nas mãos. "O senhor viu o que fez, leia os outros jornais," fuzilou. Em seguida atirou na direção do trêmulo repórter dois dos principais jornais de São Paulo e do Brasil. Eram essas as manchetes. Estadão: ”Desabamento de viaduto na Imigrantes deixa um morto." Folha de São Paulo: “Viaduto desaba na Imigrantes e mata um." Mazolla, que não havia lido jornais no domingo, a não ser o Diário do Grande ABC, estremeceu. No dia anterior, domingo, fez a festa, mostrando orgulhoso a manchete do Diário, com seu nome estampado abaixo do título, para a esposa e amigos do bairro. Na frente do irado José Louzeiro, com os jornais de São Paulo nas mãos desmentindo sua matéria, estava pálido e não sabia como se safar da situação constrangedora. Antes de sair da sala do chefe recebeu outra incumbência, digna do irritado, mas também gozador chefe de reportagem do jornal. Com o dedo em riste, Louzeiro determinou: "Olha, "sêo" Mazolla, como o jornal não desmente suas notícias, ainda mais uma manchete de domingo, o senhor volte ao local do acidente na Imigrantes e mate pelo menos mais 4 pessoas, para justificar sua brilhante manchete". Renato Campos, que chegava à redação nesse momento, foi quem aliviou a situação do Mazolla que, em verdade, não ficou muito tempo no Diário. Dizem que fez um curso de educação física e foi trabalhar nessa área em um clube esportivo do ABC.
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Oswaldo Lavrado é jornalista e radialista. Comandou durante anos a famosa equipe esportiva “Os craques do rádio”, da extinta Rádio Diário do Grande ABC. Atualmente assina uma coluna esportiva no Jornal Folha do ABC, de São Bernardo do Campo.
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Édison Motta participa nesta terça-feira, às 20 horas, do Programa Show+, veiculado pela Rede TV + (canal 8 na TV a Cabo). O jornalista falará sobre a cidade de Santo André, traçando perfis históricos e atuais da cidade, numa espécie de homenagem que o programa deseja prestar ao município pelos 456 anos de fundação, completados amanhã, quarta-feira. Não percam.
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Edward de Souza.