domingo, 9 de maio de 2010

MÃE – TERNURA, GRAÇA E LUZ INTERIOR

Mãe é palavra mágica. Significa ternura, amor, bondade. Na criação do universo coube à mãe a tarefa maior de preservar e dar continuidade à vida. A terra, a grande deusa e a mulher são mães.Vamos, no Dia das Mães, abrir os braços e abraçar as mulheres que tem um olhar diferente da vida, com muito mais amor. Juntos, irmanados, mãos dadas, vamos festejar esta data importante do calendário do coração e viver um grande fim de semana.
Escrevia um conto no começo desta madrugada para ser postado neste domingo, Dia das Mães, quando recebi um e-mail do amigo Walter Peres Chimello, consagrado poeta francano. Assim que terminei de ler, deletei meu conto. Nestas poucas linhas escritas pelo amigo poeta, autor de vários livros, membro da Academia Francana de Letras, está contida uma linda homenagem para todas as mamães do mundo. No encerramento desta semana dedicada às mães as homenagens deste blog a grande deusa de nossa existência. A ela a nossa reverência e o preito de gratidão pelo que nos ensina e incentiva, e as palmas mais vibrantes.
Leiam esse lindo poema de Walter Chimello, comentem e deixem sua mensagem à mamãe querida.

Edward de Souza
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MÃES EMBELEZAM A TERRA

Mãe/ Bonita, rica/ Sofrida, apressada/ Mãe nova/ Ainda sem jeito/ Mãe
trabalhadora/ Sem tempo.
De mãos calejadas/ Mãe presidiária/ Mãe prostituta/ Talvez alugando o corpo/ para
sustentar o filho/Mãe analfabeta/ Mãe culta, educada/ Mãe sem filho/ Que traz no
peito o sonho/ Materno/ Mãe Idosa, Doente/ Mãe descrente/ Mãe religiosa/ Que no
colo/ Ensina o filho rezar/ Todas no intimo, iguais!/ Cheias de afeto e ternura/ Que
algumas/ Só entendem no coração/ Não importa:/ Elas trazem no ventre/ O fruto de
um amor/ E carregam no peito/ A divina graça/ De embelezar a terra/ De renovar a
vida!!!
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AUTOR: WALTER CHIMELLO...

Advogado - escritor e membro da Academia Francana de Letras.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

SEM RUMO



Sem destino, vou caminhando/Por dentro sinto dor.
Por fora, nada/Quem sou eu, afinal?

Uma alma penada buscando um recanto para me esconder?
Ou um arremedo de ser humano/buscando um buraco para me enterrar?

Sigo. Ao longe avisto uma luz!/Tênue é verdade...
Mas é uma luz/Dirijo-me a ela.

Ela se afasta!/ Corro/Ela se afasta ainda mais!
Paro. Não aguento mais/A luz lá está!

Ouço vozes. Não consigo entender/São murmúrios.
Depois de algum tempo, escuto!/Ore e entenderas.

Lembro-me de minha mãezinha/que me ensinava a orar quando criança.
Mas, por que orar?/Já não me lembro mais como fazer!

Novamente a voz/Ore.
Bem, não custa nada. Vou tentar./Pai Nosso que estais...

A luz está se aproximando!/No céu...
A luz está perto de mim!/Santificado seja...

Mamãe, é você?/Sim, meu filho, é hora de irmos.
Estaremos juntos a partir de agora./A escuridão acabou!


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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

REFLEXÕES ACERCA DE UMA

SAUDADE INFINDA

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche." (Martha Medeiros)

Diadema, 26 de outubro de 2008.

Profundamente consternado, comunico o falecimento da minha adorada e saudosa mãe, a Sra. Matilde Pinheiro de Oliveira, ocorrido no fatídico dia 24 de outubro de 2008.

Ela veio à luz em 14 de março de 1923, no bairro paulistano de Santana, onde moravam meus avós maternos Júlio Xavier Pinheiro e Belmira Pedroso Pinheiro, que ficaram jubilosos com o nascimento da sua primeira filha! Mas, quando ela tinha um ano de idade, meus avós fugiram, apavorados, da capital, por causa da Revolução, que ceifou muitas vidas de cidadãos paulistanos, refugiando-se no sítio do pai da minha avó materna, Antônio Manoel Pedroso, no atual município de São Bernardo do Campo-SP.

Findo o período belicoso, meus avôs maternos não retornaram ao bairro de Santana, preferiram continuar morando no interior, no sítio do meu bisavô materno, onde mamãe viveu até a adolescência, mudando-se, a seguir, com os pais e mais três irmãos, para Santo André. Tempos depois, mais precisamente no dia 4 de dezembro de 1941, contraiu matrimônio com meu adorado e saudoso pai (meus pais eram primos em 4º grau), que faleceu no também fatídico dia 9 de agosto de 1997. Eles tiveram sete filhos (o primeiro partiu após quatro horas de existência, no dia 18 de novembro de 1942).

Dona Matilde sempre se dedicou com amor, zelo e presteza à sua numerosa prole, que era provida com o labor de chauffer do meu pai, no antigo Ponto de Táxi do Cine Carlos Gomes, em Santo André, telefone: 44-31-06 (será que se eu ligar ele me atende?!...) Além deste reles e desolado escrevinhador outonal, minha adorada e saudosa mãe deixou mais 5 filhos, 13 netos e 9 bisnetos desamparados e aniquilados...

Depois que o meu pai faleceu, o estado de saúde da minha adorada e saudosa mãe começou a ficar combalido. Ultimamente ela se locomovia com ajuda, mesmo assim, com muita dificuldade, precisando da assistência de minha valorosa e prestimosa irmã, Maria Inês, para todas as situações do cotidiano.

Na manhã do fatídico dia de sua partida, começou a revirar os olhos e minha irmã, apavorada, chamou o SAMU andreense, que prontamente a levou ao Pronto-Socorro da Vila Luzita. Entretanto, ela lá chegou sem vida.

Após os trâmites no IML (que horror...mas foram ágeis e prestativos), seu corpo foi trasladado para o Cemitério da Vila Euclides, no município de São Bernardo do Campo, onde foi velado e sepultado no final do dia.

É insuportável pensar que o corpo da minha adorada e saudosa mãe está se decompondo no silêncio sepulcral da 2ª gaveta à direita, do jazigo 53, no Sepulcrário da Irmandade do Santíssimo, que fica no Cemitério da Vila Euclides, que fica na Avenida Redenção, que fica no Jardim do Mar, que fica no município de São Bernardo do Campo, que fica na Região do Grande ABC, que fica na Grande São Paulo, que fica no Estado de São Paulo, que fica na Região Sudeste, que fica no país chamado Brasil, que tem a maior parte do seu território no Hemisfério Sul, que fica na América do Sul, que fica no Continente Americano, que fica no Planeta Terra, que fica no Sistema Solar, que fica na galáxia da Via Láctea, que fica no grupo de galáxias local, que é uma da bilhões de galáxias que ficam no Universo, que pode ser um dos incontáveis Multiversos...

Por que há existência, quando poderia não haver nada?!!!

Nunca mais ouvirei da minha saudosa e adorada mãe: - Oi João você está bom? - Cuidado na rua, por causa da ladroagem! - Se você não estudar, quando crescer vai puxar carroça!. - Não saia sem blusa, por causa da friagem! - Jamais tome banho, após o almoço! - Não volte tarde! - Onde você vai e com quem? - Já rezou para dormir? - Deus te abençoe! - Vá com Deus! - Você precisa ter uma religião! - Não me conformo de você ter ficado ateu! - Vá lavar as mãos antes de comer! - Venha cá, seu menino malcriado, levar umas cintadas! - Eu já lhe falei, nunca mais faça isto! Quem mandou prender o gato no armário da pia e colocar fogo no coitado! - Pare de ficar girando o botão da máquina de lavar roupas!...Suas palavras ainda ecoam no meu peito...

Minha vida tornou-se insulsa sem a presença radiante da minha adorada e saudosa mãe! Volte, mãe, volte!

Compungidamente,

João Paulo de Oliveira

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*João Paulo de Oliveira, 57, pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Além de Pedagogo é Mestre em Educação. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborador do blog, João Paulo escreve, mais uma vez, uma crônica neste espaço. Visite seu blog, Celulóide Secreto, em http://joaopauloinquiridor.blogspot.com Contatos com o articulista pelo e-mail joaopauloinquiridor@ig.com.br
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

A MALA DE PAU




Quando minha mãe ia à cabeleireira para cortar o cabelo e fazer permanente era assim: os três filhos mais velhos ficavam na casa de minha tia e os três mais novos, ela os levava consigo. Normalmente era em tardes de sábado e nesses dias, a rotina lá em casa mudava um pouco. O almoço saia mais cedo, a roupa não era lavada e nosso banho era mais caprichado. Como eu era o menor, minha irmã cuidava de mim, no chuveiro. Era aquela choradeira, pois ela esfregava tanto meu pescoço e orelhas que deixava-me todo vermelho e ardendo.

Depois, para o processo de secagem, colocava-me em pé sobre um antigo baú de madeira, com tampa abaulada que minha avó Adelaide trouxera de Portugal, no início do século passado. Vai-se saber quais louças preciosas ou tralhas necessárias vieram, diretamente de Coimbra, naquela respeitável "mala de pau". Entretanto, na minha infância e adolescência, o móvel de carvalho servia-se apenas para guardar roupas sujas ou sustentar moleques molhados.

Num sábado desses, já estávamos todos prontos para acompanhar mamãe ao "Salão da Margarida" que ficava distante de casa, quase no fim da Avenida. Não me recordo bem qual arte aprontei, mas fiz por merecer uma surra de minha mãe. Só me lembro de que, enquanto ela procurava o cordão do ferro elétrico para aplicar-me o corretivo, corri a esconder-me dentro da mala de pau.

Quando ficava nervosa, minha mãe tinha a mania de falar demais, numa lamúria sem fim e, na maioria das vezes, aquela cantilena monocórdica acabava por acalmá-la. Então, fiquei ali, bem quietinho, com as pernas encolhidas, esperando chegar a calmaria.

Sobre a maciez das roupas usadas, acabei por adormecer profundamente, alheio ao fuzuê que se armou na minha casa, por conta de meu sumiço. Inicialmente minha mãe queria achar-me para aplicar a sova prometida, depois para que eu não sujasse a roupa de passeio, mais tarde porque perdera a hora da cabeleireira e finalmente, quando anoiteceu, desesperou-se pensando que eu havia sido sequestrado.

- Meu Deus... os ciganos estiveram aqui hoje pra buscar o porco: devem ter carregado o menino!

Naquele tempo, meu pai vendia porcos, galinhas, cabritos e toda a espécie de animais, que trazia do sítio. Esses bichos ficavam num grande cercado que existia em nosso quintal e minha mãe se encarregava da venda no varejo a diversos fregueses da redondeza. Dentre os compradores, vira e mexe apareciam os ciganos que acampavam na parte alta da cidade, perto da antiga caixa d'água. Meu pai tinha amizade com todos.

Assim que papai chegou da roça, minha mãe, em prantos, implorou para que ele fosse ao acampamento dos gitanos a minha procura. Mas, o velho retrucou, incomodado: Alzira, como é que eu vou lá perguntar uma coisa dessa pra eles?! São gente boa e isso de roubarem criança é lenda... Seria uma ofensa das bravas!

Mamãe já estava disposta a quebrar violinos e pandeiros, quando minha irmã chamou lá do banheiro: - Mãe, achei o safadinho!

A velha levantou-me em seu colo, ainda dormindo. Sentou-se na tampa do baú e começou a beijar-me, chorando baixinho. Acordei-me sentindo aquele cheirinho gostoso de mãe. Vendo-a chorando, segurei uma das pontas de seus cabelos finos e macios e somente consegui perguntar: - A senhora não fez permanente?

Ela respondeu-me, dando um daqueles seus beijos estalados: - Não, filhinho! A Margarida não abriu o salão hoje...

Assim era minha mãe e, quanto à mala de pau, não sei que fim levou!

Por falar em ciganos, segue aí uma receita, modificada ao meu gosto, de:

ARROZ À MODA CIGANA: 2 xícaras de arroz temperado e cozido; 1/2 xícara de pinhões pré-cozidos ou castanhas do Pará; 3 colheres de manteiga; 1 xícara de queijo suiço (aqueles com buracos) picado; 3 ovos batidos; 2 copos de leite; 1 xícara de espinafre cozido, com sal e picado; 1 xícara de brócolis cozido, com sal e picado, 1 cebola picadinha.

Corte os pinhões ou as castanhas em filetes bem finos. Dê uma leve fritada na manteiga e misture aos demais ingredientes. Leve ao forno por 15 a 20 minutos.

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*João Batista Gregório, 57, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e já prepara um novo livro, a ser lançado em breve. Para conhecer a sua produção, acesse o blog do JB, cheio de histórias divertidas, onde cada crônica pitoresca acaba com uma receita culinária especial, testada e aprovada! Clique no endereço abaixo e delicie-se! http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/
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terça-feira, 4 de maio de 2010


SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

RHÉIA, MÃE DE ZEUS


Segundo a mitologia grega, o culto à mãe se iniciou na Grécia antiga, quando se homenageava com efusão na festa de entrada da primavera, a mãe dos Deuses, Rhéia, casada com Cronos que destronara o próprio pai, Urano, que governava a Terra. Destronado, Urano profetizou que também Cronos seria destronado por um de seus filhos. Rhéia, ao parir cada criança, a entregava a Cronos que a devorava, eliminando o risco da profecia. Assim ocorreu com os cinco primeiros irmãos de Zeus, o que levou Rhéia a agir no nascimento do sexto filho. Refugiou-se no Monte Ida, na ilha de Creta e, após a delivrança, entregou o rebento aos cuidados de Gaia, Deusa da Terra, mulher de Urano, mãe de Cronos e avó de Zeus. Na caverna, aos seus cuidados e das Ninfas da Floresta, foi poupada sua vida para cumprir a profecia.

A primeira sugestão de celebração de um dia das mães nos Estados Unidos, aconteceu em 1872, através da escritora Julia Ward Howe.

A história registra, também, que no século XX, uma jovem norte-americana, Anna Jarvis, entrou em profunda depressão com a perda da mãe que amava acima da ordem de todas as coisas. Sua vida havia perdido a razão quando amigas, preocupadas com a sobrevivência de Anna, cuidaram em organizar uma festa em que fosse perpetuada a memória da mãe. Ela aceitou, ponderando o objetivo: que a homenagem se desse, estendida a todas as mães vivas ou mortas do universo. Em pouco tempo a comemoração do Dia das Mães prosperou nos Estados Unidos como prática habitual, levando o Presidente Woodrow Wilson em 1914, a oficializar a data de 9 de Março de cada ano em tributo as mães.

A Inglaterra, no século XVll, adotou o quarto domingo da quaresma como dia de folga de suas operárias, ensejando que ficassem em casa com suas mães em glorificação ao seu dia. Assim era festejado o “Mothering Day”.

O Brasil pode contar, com orgulho, a história do primeiro Dia das Mães brasileiro. Vivia o país o ano 1918 com invasão da febre “espanhola” a registrar muitas baixas e participação voluntária de muitas pessoas, entre elas, mulheres, mães atentas a cuidar com zelo de filhos e de toda a gente da comunidade, no afã de salvar vidas.

Nesse ano, a Associação Cristã de Moços de Porto Alegre comemorou, em 12 de maio, o primeiro Dia das Mães do Brasil. Em 1932, o então Presidente Getúlio Vargas oficializou a data no segundo domingo do mês de maio. Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, oficializou no calendário da Igreja Católica a data celebrada em honra da mãe brasileira.

Entre os fatos acima citados e, outros tantos existentes que deixaremos de focar por exiguidade de espaço, se posicionam a lucidez e justeza do evento, que consagra a dignidade da mulher mãe no sacrossanto exercício da maternidade.

Quando Anna Jarvis mandou, como prova de sentimento e respeito, um milhar de cravos brancos para a Igreja que frequentava, seu desejo era vê-los usados pelos paroquianos na data de gratidão as mães. Não previra que o gesto se alastraria pelo resto do mundo. Foi assim que aprendi a usar um cravo branco na lapela nos bailes que antecediam o segundo domingo do mês de maio. Também foi assim que adquiri o hábito de colocar o mesmo cravo branco de cor imaculada nos cabelos encanecidos de minha mãe, figura singular em minha vida.

Nada ou ninguém pode desqualificar as comemorações do excelso Dia das Mães, com justiça, criado para dignificar sua memória na divinização e amplitude do amor que vive a espargir entre todos do seu clã.

Lamenta-se, no entanto, que a voracidade comercial se tenha apoderado de tão elevado sentimento de gratidão e reconhecimento à beatitude da Mãe que nada deseja além de um gesto de carinho, um beijo terno a premiar-lhe a fronte. Mais que qualquer presente, a Mãe só espera pela presença do filho amado, com ele partilhando alegrias e infortúnios. É por ele que jorram suas lágrimas ou extravasam-se risos nas vitórias e folguedos.

Embora todos os dias devam ser dedicados às Mães, aproxima-se sua data oficial, oportunidade que não se deve perder para retribuir o tratamento que ela nunca deixou desaparecer: Minhas crianças! Leve com você, para ela, a sutileza de um sorriso infantil atrelado ao cravo imaculado de brancura que adorne seus cabelos.

Quanto a mim, levarei uma saudade, adornando a lápide fria com os cravos brancos do passado, amalgamados ao meu sentimento de amor que nunca se perderá.


-------------------------------------------------------------------------------------*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

Nesta semana, o Blog de Edward de Souza convocou seus jornalistas e articulistas incumbindo-os de escreverem sobre um assunto muito especial - as MÃES, cujo dia é comemorado no domingo, 9 de maio.


A seguir, leia o conto de nossa colaboradora especial,
Silvana Boni de Souza


ESPECIAL HOMENAGEM ÀS MÃES

DIA DAS MÃES


Impresso no papel fotográfico está aquilo que um dia ela foi: altiva, enérgica e cheia de si, com os cabelos arrumados para a ocasião festiva, registrada por um membro da família.

Ela se olha no espelho, intrigada com a imagem da idosa que vê refletida, em discrepante e inevitável comparação!

Sentada no banquinho da penteadeira, de assento bordado por ela mesma, curva-se para a direita, em busca do antigo apoio que seus músculos fracos não podem lhe dar mais.

Caminha com dificuldade.

Oitenta e três anos de vida...como contestar uma desconfiança que, porventura, ela possa verbalizar? Como convencê-la das novidades da ciência, sem sofrer um corte abrupto de raciocínio, quando a fala for censurada pelo velho costume de imperar, adquirido em anos de dedicação a filhos, marido e casa?

“Ninguém sabe nada!”

“Lembra disso, mãe? Lembra daquilo?”

As fotos antigas aos poucos vão sendo revistas, no álbum escurecido pela ação do tempo.

Ela desarruma uma nova sequência, planejada sem sentido. Solta as figuras da página, separa as mais antigas e se perde...

“Onde estão aquelas para a árvore genealógica?”

Logo elas aparecem em outra pilha para, imediatamente, serem perdidas de novo.

Os parentes, aos poucos, aparecem em procissão para a eternidade. Parecem cumprimenta-la, por trás de seus bigodes curvos e seus vestidos compridos!

“Buon giorno, cara mia! Come stai? Da quanto tempo siamo quà ad aspettare un’attenzione tua!”

Ela responde, silenciosa como o mundo que a cerca, apesar do apetrecho que carrega nos ouvidos. A parafernália digital que tenta fazer com que ela desista de participar do convívio familiar, ao deixar de perceber um pequeno suspiro ou mesmo o barulho de lágrimas no chão, quando o seu consolo poderia ser o suficiente.

Inflexíveis, seus sintomas seguem à risca o planejamento do destino e demonstram que, aos poucos e com pequenas mordidas, o que resta de sua memória breve, de seus movimentos, da sua altivez, da sua independência se despedem da normalidade.

Ela se recolhe a seu mundo, ilustrado pelas imagens fantásticas da infância, da sua escola em Milão, Collegio Reale delle Fanciulle di Milano, lembra com clareza cada frase trocada com os tios, as aulas de história acrescidas de ricos detalhes, os passeios em parques verdejantes e, na volta, a vida em Porto Alegre e o casamento com um membro da família amiga. As fotos do Capão da Canoa registraram corpos jovens e bem torneados.

O grupo de moços eretos mostra as próprias qualidades e as previsíveis esperanças de sucesso!

Em baforadas refrescantes, a memória antiga desfila à sua frente, com toda a dignidade.

A primeira filha, durante o banho! A primeira casa construída em São Paulo.

“O Largo da Batalha...Eu não gostava muito de morar lá. Lembro quando o seu pai construiu a casa. Eu queria uma escadaria de mármore...”

“Olha essa foto, é o meu primeiro carro! Onde será que o seu pai foi encontrar um tão pequeno?”

“A festa de aniversário...Eu que fazia os doces!”

Uma imagem mais antiga, herdada de sua mãe, cai no chão e ela nem percebe. Deixa o conjunto de registros de lado e logo abre outro álbum, puxado a esmo e com dificuldade daquela sua coleção desfalcada.

“Mãe, está na hora do remédio.”

“Que remédio? Não estou doente!”

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*Silvana Boni de Souza é farmacêutica bioquímica, especialista em Homeopatia. Escritora de contos e crônicas. Desde 2000 participa de alguns projetos dinâmicos: http://www.vivasp.com/; http://www.carmenrochacontos.pro.br/ e ainda comanda seu blog desde 2008: http://www.deshortsnasiberia.com.br/
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domingo, 2 de maio de 2010

CONTO INÉDITO DE JORNALISTA FALECIDO

DAGUIRRA, A DAMA DE BAGDÁ

Desde criança, quando passava minha infância na tranquila cidade de Bálsamo, a noroeste de São Paulo, a imagem que tenho de Bagdá é aquela dos castelos gigantes e misteriosos, de ruas estreitas, de bares camuflados nos porões, nos tapetes voadores, nos reis e nas rainhas e, principalmente, de Ali Babá e os 40 ladrões – este último que ficou mais famoso no Brasil depois que políticos confundiram Ali Babá como chefe dos 40 ladrões e não como o seu o seu implacável perseguidor.
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Bagdá me lembrava – e ainda me lembra na imaginação – a cidade dos sonhos, das lâmpadas maravilhosas realizadoras de desejos impossíveis. Jamais – mesmo nos dias de hoje – deixei que a guerra desfechada por sanguinário norte-americano, no suposto extermínio de armas nucleares, na conquista permanente da paz mundial, eliminasse de minha mente essa visão romântica.
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Bagdá me lembra, ainda, as mulheres com véus transparentes, deixando ver a suavidade de suas faces, o misterioso e envolvente olhar feminino que só as mulheres árabes conseguem ter.
Assim, caminhando pelo corredor do terceiro andar no Hospital do Câncer, para melhor circulação do sangue, é que via, bem ao final, a figura de uma mulher que, por motivos ainda desconhecidos, me levavam em sonho para Bagdá.

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Ela estava lá, aparentemente só, à espera não se sabe do quê. Mais tarde, fiquei sabendo que era o seu cunhado que ali estava internado e só estava aguardando determinação para ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva. O motivo da doença, não fiquei sabendo.
Só a vi, sozinha, o olhar perdido em algum lugar de seu deserto particular e, com o cansaço natural provocado pela quimioterapia, parei estático, escorando-me na parede. Respirava com dificuldade e ela me ofereceu uma cadeira.


- Se quiser, pode entrar e descansar. Meu cunhado já foi para a UTI.
Agradeci, respirei, como se ali estivesse um oásis.
Restabelecida a respiração normal, ia recomeçar a caminhada de volta ao meu quarto, quando ela formou uma espécie de triângulo com seu braço esquerdo e ofereceu a ajuda, com uma ternura, com uma meiguice jamais sentida em toda a minha vida.


Não afeito à delicadeza tão espontânea, me neguei a aceitar e ela insistiu, formando de novo o triângulo com o braço esquerdo:
- Aceite, por favor.
E nessa sua insistência, por instantes, senti parte da milenar solidariedade do povo árabe. Se aceitasse, agora compreendia, estaria aceitando a ajuda que ela não poderia mais dar ao cunhado ausente.
Deixei-a me conduzir até ao meu quarto e lá mesmo ela se identificou:
- Meu nome e Daguirra. Sou de Bagdá.
Antes que eu a questionasse, ela complementou:
- Não desse Bagdá atual. Mas o Bagdá do meu tempo criança, dos castelos e das mil e uma noites.
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*Acompanhe na próxima quarta-feira, o quarto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. (Edward de Souza / Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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sexta-feira, 30 de abril de 2010

MELINDRE,

FILHO DILETO DO ORGULHO


Sabemos que o ORGULHO é um dos maiores males da humanidade. Desde eras remotas o homem se deixou levar por essa terrível praga moral. Nem mesmo as mais angustiantes e dolorosas doenças, epidemias ou pragas que passaram pela Terra desde a existência do ser humano, mataram tantas pessoas do que as consequências que advierem do orgulho de muitos indivíduos que aniquilaram milhões e milhões ou bilhões de pessoas nas guerras e tramas armadas. Tudo pela ânsia do poder, da ganância ou pelo simples ato de ter. O homem da caverna, já lutava pela fêmea e se sentia ferido em seu orgulho quando se via privado daquilo que queria, seja o que fosse. A luta pela liderança de um grupo ou tribo era uma questão de honra e de orgulho.

No Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa encontramos uma definição bastante extensa para o Orgulho. Há um item denominado Uso Pejorativo que diz: sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, imodéstia. Acrescenta, ainda: atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência. O antônimo para essa palavra é HUMILDADE.

Já a palavra MELINDRE, que consideramos filho dileto do Orgulho, o mesmo dicionário expressa esta definição: disposição para se RESSENTIR DE COISA INSIGNIFICANTE; SUSCETIBILIDADE.

Desta forma, em minha opinião, o Orgulho, na verdade, é o cancro da humanidade e enquanto não nos livrarmos dele ou o erradicarmos, não conseguirá ser promovida de um Mundo de Expiação e Provas para o Mundo em Regeneração.

Os dramas familiares são ocasionados pelo orgulho excessivo. Quando da programação da Reencarnação, promessas de força de vontade e de se regenerarem através do amor são esquecidas, pois basta uma “picada” de orgulho para que as pessoas se percam e se desvairem no mar do desentendimento.

Assim, o MELINDRE, filho dileto do ORGULHO, tem ocasionado muitas e muitas desavenças por esse nosso mundo tão sofrido. Basta que o indivíduo fique ressentido ou magoado por uma palavra insignificante e a vingança e a inveja se fazem presentes em seu âmago.
Nos Centros Espíritas, infelizmente essa terrível praga está presente. Os Espíritos que nos assistem não conseguem erradicar esse mal, pois são obrigados a respeitar o livre-arbítrio de cada um. A falta de estudo, o esforço para uma reforma íntima prometido quando no interior do Centro, principalmente quando estão compenetrados ou concentrados para receber o passe, são esquecidos logo em seguida, quando os apelos do consumismo dos vícios se fazem mais fortes do que os ensinamentos de JESUS.

Mas, o pior é quanto aos trabalhadores da Seara Espírita. A História do Espiritismo no Brasil registra vários fatos de dissidências dentro do movimento. Essas dissidências não serão comentadas aqui nessas linhas, mas idéias diferentes e maneiras de ver a Doutrina e principalmente o MELINDRE ocasionaram esses problemas. Nada disso aconteceria se a leitura de KARDEC estivesse presente em seus mínimos detalhes. O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cuja primeira edição se deu em 1862, em seu Capítulo VII – BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO, item 11, O Orgulho e a Humildade, traz o seguinte trecho “A humildade é uma virtude bem esquecida entre vós; os grandes exemplos que vos foram dados são bem pouco seguidos e, todavia, sem a humildade, podeis ser caridosos com vosso próximo? Oh! Não, porque esse sentimento nivela os homens; diz-lhes que são irmãos, que devem se entre ajudar e os conduz ao bem. Sem a humildade vos adornais de virtudes que não tendes como se trouxésseis um vestuário para esconder as deformidades de vosso corpo. Recordai “Aquele que vos salva; recordai sua humildade que o fez tão grande, e o colocou acima de todos os profetas.”

“Herculano Pires em seu livro “O Centro Espírita”, editado pela Livraria Allan Kardec, em sua terceira edição, maio de 1990, traz o seguinte trecho “Sem a humildade que gera e sustenta o amor ao próximo, nem o estudo pode dar frutos”. Por outro lado, sem estudo da humildade não produzem amor, mas fingimento, hipocrisia de maneiras e fala melosa, de voz impostada para imitar anjos.”
Verificamos, então, que o Melindre é um inimigo poderoso da Raça Humana e particularmente, dos trabalhadores dos Centros Espíritas. Basta que alguém se sobressaia com um pouco mais de sabedoria ou se destaque em trabalhos sociais, ou ainda em trabalhos mediúnicos, para que um irmãozinho menos preparado sinta a tal de suscetibilidade, mencionada no Dicionário Houaiss. Se porventura, o dirigente ou outro trabalhador da Seara responsável por qualquer setor da casa chamar a atenção de alguém por algum motivo, é bem possível que o tal de melindre se faça presente, salvo raras exceções, mesmo que o tom de voz e a maneira de falar do dirigente sejam cheias de amor e compreensão.

O que seria preciso fazer então, para ajudar os Guias Espirituais a manterem a Casa Espírita livre, ou quase livre desse terrível mal? Palestras, palestras, palestras, estudos, e correção de posturas. Para isso, basta nos espelharmos em Jesus e num infindável número de Espíritas e não espíritas que passaram por este mundo, nos dando magníficas lições de humildade, coragem e amor. Desde a chegada do Espiritismo no Brasil, que se deu, se não me falha a memória, por volta do ano de 1868, nunca a Doutrina esteve só. Sempre houve alguém se sobressaindo para incentivar e empurrar o Espiritismo para frente e para o alto. Silveira Sampaio, Bezerra de Menezes, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo, Chico Xavier e tantos outros; Irmã Dulce, Tereza de Calcutá, etc. E há ainda os antigos filósofos gregos, chineses, que nos deixaram lições de humildade e razão. Se nos dedicarmos a revê-los de quando em vez, fatalmente muito faremos para diminuirmos esse terrível mal chamado MELINDRE.
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

O ÍNDIO AMA A VIDA SEM TEMER A MORTE


"Aprendi com os índios a me contentar com o estritamente necessário, o amor pela preservação de todo o alimento que representava o sustento e não o acúmulo, o desperdício".


Meses antes de minha viagem a Europa, a Ilca teve um gesto surpreendente, só mesmo uma mulher apaixonada seria capaz de fazer. Isso ocorreu quando eu estava no Parque Nacional do Xingu para gravar as memórias dos irmãos Claudio e Orlando Villas Boas, sertanistas que dedicaram a maior parte de suas vidas em defesa dos índios brasileiros. Acompanhava-me o fotógrafo Gilberto Guimarães, o Guima, um excelente profissional. O trabalho era para a extinta revista Visão.

Fiquei alojado em uma cabana no Posto Leonardo Villas Boas – em homenagem a um dos irmãos, também sertanista, falecido vítima de doenças tropicais. Conhecera os irmãos sertanistas há pouco mais de dois anos, em 1972, quando o jornal O Estado de S. Paulo me destacou para acompanhá-los em uma expedição pelas florestas do Xingu para tentar o contato com os Kranhacãrore, mais conhecidos como índios gigantes, considerados os últimos primitivos a viverem isolados no Brasil. Desci de um Cessna, fretado pelo jornal, diretamente no acampamento aberto às margens do rio Peixoto de Azevedo, já divisa dos estados de Mato Grosso e Pará.
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A série de reportagens que fiz sobre essa expedição mereceu, no ano seguinte, o Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, na época a maior láurea concedida anualmente a um jornalista brasileiro. Foi com a passagem aérea incluída nesse prêmio é que fiz a viagem a Europa. Então, numa tarde, caminhava pelo Posto Leonardo, quando Orlando – o irmão mais velho e considerado o diplomata da família - , que estava se comunicando com São Paulo via rádio, me chamou e perguntou: “quanto pesa a sua noiva, a Ilca”?

A pergunta me deixou surpreso. Nesses últimos dias, isolado na selva, pensava mais na Eva, com quem era casado desde 1970, nos meus dois cachorros, e quase em nada mais. Tanto que não via a hora de regressar. Mesmo assim, procurei demonstrar tranquilidade. Como ela tinha pouco mais de 1,50 de altura, resolvi arriscar e respondi com firmeza: cinquenta quilos. Orlando, de imediato, repassou ao rádio:
Tire um saco de batatas e coloque-a no avião.
Depois, virando-se para mim:
- Autorizei a vinda de sua noiva, mas uma coisa você tem que me prometer: vai ter que casar com ela.
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Assim, solenemente, garanti ao sertanista que me casaria com a Ilca. A sua vinda ao Posto Leonardo seria uma surpresa que ela preparara para mim, mas frustrara em razão de estar esgotada a capacidade do avião do Correio Aéreo Nacional, um C-47 muito utilizado pelo governo norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, que fazia a rota entre o Parque Nacional do Xingu e outras regiões do país.

Quem se surpreendeu ao descer do avião foi a própria Ilca. Ela desconhecia que o local era densamente povoado por piuns e borrachudos, mosquitos que infernizavam até os próprios índios, e, desprevenida, desceu vestida apenas de short e uma camiseta. Os insetos a atacaram, sem chance de defesa, mas ela suportou as picadas com galhardia. Só se irritou porque, depois, seu corpo ficou todo marcado de picadas.
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Passamos vários dias se divertindo no Xingu. Nadamos no rio Tuatuari, um afluente do Xingu, visitamos as tribos próximas ao Posto Leonardo e, muitas vezes, saímos para passear pela floresta. Num desses passeios, acompanhados de um pequeno índio, fomos até a aldeia dos Kamaiorá, às margens da lagoa Ipavu. Fomos recebidos pelo grande cacique Tacumã que, não fosse o mau tempo, teria nos levado a visita a Lagoa Sagrada – cujo leito é repleto de pedras das mais preciosas, abundantes na região. Numa tarde, antes de nos despedirmos da tribo, a Ilca e eu fomos, sozinhos, para as margens da lagoa, nos despimos e, assim como os índios, ficamos uma longa hora deixando-se levar por todas as seduções do amor. Sua visita ao Posto Leonardo foi, até hoje, um dos grandes presentes que recebi da Ilca em toda a minha vida.
FILÓSOFO DA SELVA

Das minhas idas ao Xingu ficou meu aprendizado com o sertanista Claudio Villas Boas, (foto) a quem eu me referia como o Filósofo da Selva. Ele mantinha uma vasta e selecionada biblioteca na cabana onde morava, junto à aldeia dos Txukarramãe, os índios de botoque, à margem esquerda do rio Xingu. Quando não era encontrado em companhia dos silvícolas, ele geralmente estava sentado à escrivaninha, escrevendo, fazendo anotações. Escreveu vários livros, em parceria com o irmão Orlando, sobre os costumes, os hábitos, a cultura, os mitos e as lendas dessa parte da civilização, que, em plena era da informática, ainda vive isolada do mundo moderno, habitando esse precioso recanto da selva brasileira. Recanto que se transformou no Parque Nacional do Xingu por decreto do então presidente da República Jânio Quadros. Atualmente, nesses primeiros anos do século XXI, esse parque abriga 17 tribos, que falam uma dezena de dialetos, indo do tupi ao grupo linguístico Gê, mais falado entre os Txukarramãe.
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Desses indígenas, alguns se destacaram pela inteligência, pelo espírito de liderança ou pelo porte físico, exibido, principalmente, nas comemorações do Quarup – festa em louvação aos mortos – que tem como um dos pontos altos a luta denominada Uka-Uka, que mede a força física e termina quando um dos índios é derrubado ao chão e imobilizado. O campeão mais conhecido era Aritana, que comandava uma das tribos. Megaron era outro índio que se projetava por entender de radiocomunicação, o único meio de contato entre a selva e as autoridades responsáveis pelo funcionamento do parque, com exceção dos contatos pessoais feitos semanalmente com a chegada de um avião do Correio Aéreo Nacional (CAN), da Força Aérea Brasileira.
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Outro que marcou bastante era Takumã, feiticeiro e cacique dos Kamaiorá, o índio que quis levar eu e a Ilca a conhecer a aldeia sagrada.
Com Cláudio Villas Boas apreendi um pouco da essência da vida, de aceitá-la como ela é, assim como faz o índio, que não projeta o dia de amanhã, mas é alegre. O índio, dizia Cláudio, não espera nada, só vive. O índio ama a vida sem temer a morte. E é nessa filosofia que pretendo me sustentar durante esse tratamento que, penso, deverá ser longo e dolorido.
Cláudio ainda me dizia: não temo a morte. Apenas não a desejo. É difícil, reconheço, não temer a morte, esse final de existência. Não a desejar, ah!, fica bem mais fácil.
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Hoje, olhando para o passado, me vejo navegando pelo rio Xingu, já perto de escoar no rio Amazonas, me extasiando com a fartura de peixes no local. E a advertência de Megaron: Vamos voltar para a aldeia. Meu questionamento: por que, se aqui há tanto peixe. Justificava a volta: já tínhamos pescado o suficiente para alimentar a todos naquele dia. Aprendi a me contentar com o estritamente necessário, o amor pela preservação de todo o alimento que representava o sustento e não o acúmulo, o desperdício.
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Assim como ocorria com os peixes, era com os animais da floresta, como os porcos-do-mato, os macacos e outros pequenos espécimes de carne comestível para os humanos. Assim ocorria com as árvores da floresta, que só eram derrubadas diante de extrema necessidade para a construção de novos alojamentos. Assim ocorria com as águas dos rios, que corriam límpidas e puras, sem receber os dejetos lançados pelos humanos. Assim, ocorria com os índios, que não precisavam de dinheiro para viver. A natureza lhes oferecia tudo de graça e eles retribuíam, protegendo-a. Mas, com o tempo, me parece que esses ensinamentos foram se diluindo em minha mente. Difícil praticá-los vivendo na grande cidade...
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Ficou a saudade dos ensinamentos do filósofo Cláudio Villas Boas, morto antes de realizar o seu sonho de viajar pela América do Sul, e dos índios, que, assim como eu, envelheceram e agora esperam a morte. É o que tento fazer e o caminho para enfrentá-la, acredito, é reviver o passado, usufruindo do momento presente, mas sem almejar nada para o futuro. Assim, espero a morte. Sem temê-la...
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*Na próxima quarta-feira, o quarto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. (Edward de Souza / Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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