sexta-feira, 3 de abril de 2009

ARTIGO ESPECIAL: EU VINGO... TU VINGAS...

J. Morgado

Presente do Indicativo do verbo Vingar é o título deste artigo. O infinitivo é “Vingar”. Essa palavra se tornou tão vulgar e tão inconseqüente nos dias de hoje que nos causa espécie ver e ouvir profissionais do meio de comunicação usá-la com freqüência. “A equipe brasileira terá oportunidade de se vingar dos...”. “... finalmente chegou a grande oportunidade”. Os... Poderão se desforrar da última derrota sofrida em junho de 2... O vocábulo VINGANÇA: 1 – Ato ou efeito de vingar (-se); desforço, desforra; vindita (Dicionário Aurélio). Essa expressão e seus sinônimos são usados comumente pela população de uma maneira tão corriqueira que ficamos a pensar: “quanto tempo ainda levará para que esse desejo seja totalmente erradicado da face da Terra?”
“O esquecimento mata as injúrias. A vingança multiplica-as.” Esse pensamento é de Benjamin Franklin, estadista, cientista, escritor e inventor norte-americano (1706/1790). Muito antes do advento de Jesus os filósofos já se referiam aos males causados pela vingança. O Mestre ratificou e foi além nos mostrando que devemos amar nossos inimigos. Nos vinte séculos que se seguiram os resultados nefastos (guerras, morticínios, duelos, etc.) nos mostraram o resultado calamitoso das vinganças, desforras...
Nós espíritas sabemos muito bem o que acontece com espíritos vingativos. Sofremos influência e influenciamos, ou seja, somos vítimas e algozes, dependendo do lado em que estamos. De qualquer forma há sofrimento tanto de uma como de outra parte. A paz que tanto almejamos jamais chegará a ser alcançada se conjugarmos o verbo vingar, no presente indicativo. Talvez, quando começarem a pensar no Imperativo negativo: não vingues tu, não vingue ele, não vinguemos nós, estaremos caminhando a passos largos para um mundo em regeneração. Infelizmente o homem usando de seu livre-arbítrio, inventou e deturpou todos os ensinamentos que nos foram legados. Na sua ânsia pelo poder não tiveram escrúpulos para mentir a fim de atingirem seus objetivos. Em nosso dia-a-dia, criamos situações que nos levam a um interminável moto-contínuo. Violamos as leis divinas e a dos homens todos os dias. O revanchismo é tão vulgar que nem nos apercebemos que o estamos praticando. Como exemplo pode-se citar várias situações: o vizinho varrendo o lixo para nossa porta e nós, “fulos da vida”, varrendo-o (o lixo) de volta. Sermos ofendidos no trânsito e respondermos com a mesma violência; ocuparmos uma vaga no estacionamento destinada a deficientes físicos e ainda criarmos caso com o guarda quando somos abordados. Estacionar em guias rebaixadas defronte a entrada e saída de residência, de hospitais, escolas..., ignorando o direito do próximo. Cada um desses casos, entre outros, criam outros tantos episódios. O vizinho, que teve seu lixo de volta, revolta-se! O ódio gera uma série de represálias tanto de uma parte como de outra. Uma simples conversa de pessoas que se dizem civilizadas e o que seria ainda mais importante, cristãs ou outra doutrina que prega a paz e o amor resolveria o fato.
No trânsito, jamais devemos revidar os insultos. Cada vez que isso acontece, é o orgulho que está falando mais alto, e a vingança nada mais é do que uma poderosa arma desse cancro moral. Um revide poderá gerar ferimentos ou um homicídio que trará conseqüências funestas no campo material (vinganças sucessivas) e muito pior ainda em prejuízo de resgates “cármicos” e evolução espiritual. As vinganças domésticas, aquelas inseridas no dia-a-dia de todos nós, devem ser combatidas constantemente. Fazendo isso, cada um de nós estará contribuindo para a paz mundial. Teremos um país melhor, um mundo melhor... Não importa a religião professada. O cristão tem o Código Divino ou o Segundo Testamento para orientá-lo. A prática do Evangelho no Lar, pelo menos uma vez por semana, é um remédio salutar para melhorar a moral e conseqüente evolução espiritual. Outras religiões voltadas para Deus também tem seu código de procedimento e ao que me consta muito bons.
No Capítulo XII, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, AMAI OS VOSSOS INIMIGOS, item 9 – A VINGANÇA – (edição IDE/84), destaca-se o seguinte trecho: “a vingança é uma inspiração tanto mais funesta quanto a falsidade e a baixeza são suas companheiras assíduas; com efeito, aquele que se entrega a essa fatal e cega paixão não se vinga nunca a céu aberto. Quando é o mais forte, precipita-se como um animal feroz sobre aquele que chama seu inimigo, quando a visão deste vem inflamar sua paixão, sua cólera e seu ódio. Mas, o mais freqüentemente, ele reveste uma aparência hipócrita, em dissimulando, no mais profundo do seu coração, os maus sentimentos que o animam; toma caminhos escusos, segue na sombra seu inimigo sem desconfiança, e espera o momento propício para atingi-lo sem perigo; esconde-se dele, espreitando-o sem cessar; arma-lhe emboscadas odiosas e derrama-lhe, chegada à ocasião, o veneno no copo (...)”. Mais adiante, no parágrafo seguinte: “Para trás, pois, com esses costumes selvagens! Para trás com esses usos de outros tempos! Todo espírita que pretendesse, hoje, ter ainda o direito de se vingar, seria indigno de figurar por mais tempo na falange que tomou por divisa; Fora da caridade não há salvação!”...). Não vingueis vós, não vinguem eles...
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*J. Morgado é Jornalista e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico: jgacelan@uol.com.br
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Neste sábado o quarto capítulo inédito de "Trapalhadas de um foca", na sequência da série "As histórias das redações de jornais". Acompanhe o caso verídico de um jovem repórter de polícia que tinha medo de cadáver. Imperdível. (Edward de Souza)
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS


INÉDITO
PARTE XVI
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO III
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INCÊNDIO NA VOLKSWAGEN
Edward de Souza
*
Entre as coisas que mais me enchem de orgulho, ao longo da carreira, destaco o meu relacionamento com repórteres, em especial os novatos. Raros eram os contratados nessas circunstâncias, nos jornais que trabalhei que não passavam por minhas mãos. A alegação da chefia era: "O Edward tem paciência de Jó com os focas". Felizmente, tinha mesmo. Com isso, tenho a satisfação íntima de ver, hoje, muito profissional bem-sucedido atuando nos maiores jornais e revistas dos grandes centros do País, que enfrentaram o seu noviciado sob minha batuta. Nem preciso mencionar nomes. Eles próprios, volta e meia, se manifestam, de forma espontânea. Quase todos, no começo de carreira aprontaram das suas, como o caso que relato hoje aqui no blog, neste terceiro capítulo da série “Trapalhadas de um foca” e que se passou no começo dos anos 70, na antiga redação do Diário do Grande ABC. Tentei encontrar a personagem principal do caso, hoje uma jornalista de renome, enviando-lhe um e-mail, mas não veio a resposta até agora. Por isso, sem sua autorização para contar o ocorrido naquela década em que era ainda uma foquinha (principiante) de jornal, resolvi chamá-la apenas de Soninha.
José Louzeiro, hoje famoso escritor e roteirista era o secretário de redação do jornal naquele ano. Creio que depois da saída de Milton Saldanha. Vamos aguardar a confirmação do Milton. Secretário de redação é hoje chamado de editor-chefe. Louzeiro era uma espécie de faz tudo no jornal. Vibrante, orientava repórteres, bolava pautas, escrevia, fazia títulos e até copidescava matérias. Numa manhã chamou à sua mesa a Soninha e lhe entregou uma pauta a ser cumprida. A jovem e principiante repórter deveria entrevistar o velho Martinelli, antigo guardião do acervo da famosa Companhia cinematográfica Vera Cruz, de São Bernardo do Campo, onde foram rodados grandes filmes nacionais. Martinelli estava em novo ramo. Nas proximidades da Via Anchieta, ainda em São Bernardo, ocupando um grande terreno, Martinelli adestrava cães. O que mais chamou a atenção de Louzeiro, ao pautar essa matéria para a Soninha, foi o estardalhaço que Martinelli aprontou no ABC todo. Em qualquer muro ou terreno baldio, ele escrevia com letras garrafais: “adestra-se cães”. Seu nome vinha abaixo do anúncio. Pois bem. Orientada pelo mestre Louzeiro, Soninha deixou a redação para cumprir sua missão. Voltou desconsolada no final da tarde. Louzeiro se aproximou da jovem repórter para saber a razão de tanto desânimo. Cabeça baixa, Soninha explicou que não conseguiu, mesmo tentando de todas as formas, chegar ao endereço indicado e entrevistar Martinelli. Louzeiro, paciente com os foquinhas - tinham muitos na redação naquela época - procurou acalmar Soninha, para que ela contasse porque não conseguiu chegar ao terreno onde Martinelli adestrava cães, afinal, por todas as partes existiam setas indicando o caminho. Bastava segui-las. Como a jovem repórter estava nervosa, Louzeiro foi buscar um copo com água e entregou a ela. Trêmula, Soninha bebeu vagarosamente o líquido, enquanto Louzeiro esperava pacientemente sua recuperação. Afinal, pensava ele, o que teria ocorrido de tão grave que deixou aquela jovem repórter tão assustada? Um grande congestionamento de veículos, pensou Louzeiro. Acidente na Via Anchieta que impossibilitava a passagem de carros? Soninha se levantou, quase recuperada, descartando todas essas possibilidades e, com voz trêmula, sentenciou: “não passamos porque estava pegando fogo na Volkswagen”. Louzeiro quase caiu de costas. Quem precisou de um copo de água foi ele, tal o susto que levou ao saber que sua repórter deixou de cobrir um incêndio numa das maiores montadoras do País, para tentar entrevistar um adestrador de cães. Aos gritos, Louzeiro convocou todos os repórteres e fotógrafos que tinha disponível e ordenou: “corram todos, pelo amor de Deus. Está pegando fogo na Volkswagen. Depressa senão vamos todos perder o emprego”. Ainda foi possível ao jornal publicar fotos e boas matérias sobre o sinistro na montadora, mas o gafe da repórter ficou nos anais da história do jornalismo do ABC Paulista.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Nesta sexta-feira você vai acompanhar nesse blog artigo inédito do jornalista J. Morgado. "Trapalhadas de um foca" volta no sábado, em seu quarto capítulo.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XV
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SÉRIE
"TRAPALHADAS DE UM FOCA"

CAPÍTULO II
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A FOICE DOS MEUS HORRORES
Edward de Souza

Lembro com uma riqueza de detalhes o primeiro dia em que eu fui cobrir uma matéria policial. Foi na metade dos anos 60. Eu tinha apenas 17 anos e já trabalhava como locutor na Rádio Difusora de Franca e de quebra escrevia como “free” para um pequeno jornal semanal da cidade, de nome “O Eco”, onde defendia uns trocados. Certo dia ligaram para a redação da rádio, informando que um crime bárbaro tinha ocorrido numa fazenda. Um lavrador enciumado matou a esposa a golpes de foice. Um dos golpes arrancou a cabeça da infeliz. O gerente da rádio, Luiz Carlos Facury, vendo que meu programa havia terminado, pediu para que eu corresse a essa fazenda, perto de Franca, para trazer detalhes do crime aos ouvintes. A rádio nessa época não tinha viatura, nas emergências usava táxi, mas naquele dia, um amigo do gerente, conhecido como “Chiquinho”, estava na rádio e se ofereceu para me levar com seu “fusquinha” até essa fazenda. Antes de sair liguei para o jornal, que iria circular no dia seguinte. Otávio - já falecido - dono do pequeno tablóide, se entusiasmou, viu ali sua grande chamada de primeira página. Pediu-me que passasse na redação que ele também iria, com uma máquina fotográfica. Eu escreveria o texto. Seguimos para o local do crime. Muita gente reunida, indignação e horror no rosto de amigos e familiares. Repórteres da região estavam chegando, afinal, numa época tranqüila, onde só ladrões de galinhas geravam notícias, esse assassinato era um prato cheio para a Imprensa. Fomos informados que o assassino fugiu após degolar a esposa e que o corpo da jovem mulher já havia sido levado para o necrotério de Franca. Inutilmente tentamos encontrar fotos dos envolvidos nessa tragédia. Todos os documentos estavam com a polícia ou com a funerária. O dono do jornal se impacientou, queria fotos para ilustrar a matéria e não servia apenas aquelas tiradas dos curiosos no local do crime. O jeito seria tentar na delegacia de Franca, junto ao delegado responsável pelo registro do crime. Antes passei um boletim para a rádio. Com a notícia no ar, quando chegamos ao distrito dezenas de pessoas se aglomeravam nas imediações, curiosos em saber mais sobre esse bárbaro homicídio. Furamos a barreira humana e entramos. O delegado era o saudoso Pláucio Pressoto, amigo de meu pai, que tempos depois, de forma trágica, acabou sendo assassinado a tiros por um PM, num café no centro de Franca, após uma discussão banal. O delegado nos atendeu de uma forma amigável. Perguntou sobre meu pai e, antes que outros repórteres entrassem, nos conduziu para uma pequena sala. Explicamos ao delegado que queríamos fotos, mas ele não estava com os documentos da vítima, ainda em poder da funerária. Muito menos do assassino, que fugiu levando tudo com ele. O jornal teria que ser fechado em menos de duas horas, não daria para esperar a funerária com os documentos. Com ar triunfante, o delegado levantou-se da mesa e exclamou: “vou lhes dar a melhor foto”. Em seguida agachou-se e ergueu uma enorme foice bem perto do meu nariz. Cabelos loiros estavam grudados no sangue coagulado na arma do crime e esvoaçam, chegando perto do meu rosto. O cheiro de sangue invadiu minhas narinas. Tentei segurar o fôlego para não respirar, mas minhas vistas se escureceram. Segurei-me na mesa, tentando fugir daquela cena de horror. Empolgado, o delegado não percebeu meu desespero, muito menos Otávio, fotógrafo e dono do jornal, que batia uma foto atrás da outra, contente com o presente que caiu dos céus para sua tão sonhada manchete de primeira página. Com as vistas turvas arrastei-me da sala. Ninguém percebeu. Ou, se perceberam, não deram atenção. Encontrei um banheiro e coloquei tudo pra fora. Lavei o rosto e sai depois de alguns minutos. Na minha mente, aquela foice ensangüentada com cabelos loiros grudados. O cheiro do sangue estava impregnado em minhas narinas, ou seria na minha imaginação? Fugi da delegacia sem me despedir e corri para a redação. Para escrever a matéria foi um drama. Cada linha, uma corrida ao banheiro. Naquela altura, enquanto o dono do jornal lutava para revelar as fotos no seu quarto escuro, vômito e diarréia me atormentavam. Deixei duas laudas na mesa (não consegui escrever mais que isso), dei um grito avisando que havia terminado o texto e corri pra casa. Minha mãe, percebendo que eu havia chegado pálido e abatido, procurou saber o que tinha acontecido. Contei a ela, mas suas palavras de consolo pioraram as coisas, deixaram-me três dias sem comer e com pesadelos todas as noites. Disse ela: “sabe filho, você deve agradecer a Deus o delegado ter lhe mostrado essa foice com sangue e cabelos grudados. Já pensou se ele lhe mostrasse a cabeça da pobre mulher?” Tem hora que mãe não é mãe, concordam?
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.


terça-feira, 31 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Foca é um dos animais mais bonitos que existem. Geralmente cinza, brincalhão, pode ser visto em grandes parques aquáticos ou na natureza mesmo, brincando com bolas, pulando de lá pra cá e sempre fazendo coisas engraçadas para os turistas e se mostrando. Pois é, isso é foca no reino animal. No meio jornalístico também existe o termo "foca". É aquele jornalista recém-formado (ou estagiário), jovem e ávido por mostrar serviço. Na ânsia, às vezes, ele acaba por pura inexperiência cometendo alguns erros. Como quer mostrar serviço, ele acaba se destacando mais, errando mais (afinal, está aprendendo) e - em outras ocasiões - desempenhando um serviço melhor do que alguns jornalistas mais antigos. Por isso surge o apelidinho infame, foca. Vários repórteres novatos são submetidos a grandes vexames e inconcebíveis humilhações, somente para satisfazer a megalomania de alguns colegas veteranos. Quando os redatores ainda não contavam com computadores para redigir seus textos, vi muito editor rasgar, na maior cara dura, sem sequer ler, laudas e mais laudas redigidas por assustados e inseguros calouros, que lhes valeram horas e mais horas de pesquisa, de deslocamentos não raro abrindo mão do almoço ou do jantar (quando não de ambos) e de redação, em máquinas de escrever em geral velhas e com defeito, com o entusiasmo de quem escrevia uma reportagem digna do Prêmio Esso. E por quê? Somente como infantil demonstração de poder! Rasgavam na maior cara dura e diziam: "Não gostei! Escreva outra vez!". E ai do repórter que se queixasse para a chefia! Se eventualmente o fizesse, estaria com os dias contados no jornal. O premiado jornalista Édison Motta inicia hoje a série “Trapalhadas de um foca”, com histórias engraçadas e verídicas acontecidas no início da carreira dos, hoje, consagrados profissionais de jornalismo.
Edward de Souza
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INÉDITO
PARTE XIV
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SÉRIE
"TRAPALHADAS DE UM FOCA"
CAPÍTULO I
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Meu primeiro cadáver
ÉDISON MOTTA
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Cadáver, defunto, presunto eram coisas distantes da minha adolescência no começo daqueles anos 70. Tinha, como a maioria das pessoas, a sensação de que coisas horríveis não acontecem com a gente. Havia uma distância enorme entre as notícias de jornal e a realidade do meu mundo. Era assim, enquanto não havia escolhido ser jornalista como profissão, até que deparei com... Meu primeiro cadáver!
Aconteceu numa tarde de sábado, na primeira semana de trabalho, aos 17 anos, como repórter do Diário do Grande ABC. Cheguei à casinha – como carinhosamente chamávamos a redação – por volta das 9h30 para cumprir um plantão. Todo o pessoal estava envolvido com o fechamento da edição de domingo. Na pauta, apenas um show de artistas desconhecidos, num clube social da região. O show estava programado para começar as 14 h. Então, havia tempo de sobra para “plantonar”. Mas, naqueles tempos, sempre aparecia trabalho. No meu caso, eram longas folhas de teletipos para “pentear”. Que significava anotar ponto, vírgula, parágrafo, letras maiúsculas e minúsculas – caixa alta ou caixa baixa – naquelas folhas impressas em carbono que deixavam as mãos enegrecidas.
Depois de “penteados” os telegramas voltavam para a diagramação e, em seguida, eram encaminhados para composição, a chumbo, nas oficinas. Fiquei lá, “penteando” um telegrama após o outro até que sai com o pessoal – Colovatti, Renato Campos e outros – para comer uma deliciosa feijoada no bar do Roberto. Curiosamente, um japonês com esse nome à frente de um “sujinho” que era o ponto de encontro do pessoal da redação.
Depois da feijoada, acompanhado do Mário Otsubo, fotógrafo, subi no fusca “pilotado” pelo mineiro Barbosa. Todos estávamos sonolentos e a perspectiva do “show” não era nada animadora. De qualquer maneira, pauta é pauta e precisa ser cumprida. Quando chegamos ao local, o mico: o apresentador anunciou, com entusiasmo, pedido de aplausos e chamada ao palco, a presença da equipe de reportagem do Diário. Em 1971, aonde chegava, a equipe do Diário causava sensação. Legado dos notáveis jornalistas que nos antecederam no News Seller e nos primórdios do jornal em sua fase diária.
Anotei os nomes dos artistas, respectivas músicas, dos promotores, dei uma espiada geral na platéia e dei-me por satisfeito. Não desejava, em hipótese alguma, acompanhar o desdobramento daquele “show”. Mal sabia, um outro espetáculo, mais realista, me aguardava.
Voltamos à redação. Eram mais ou menos 16h30. Antes mesmo que descessemos do carro veio o Onofre Leite, secretário de redação, o “manda-chuva” da época, esbaforido, anunciando um latrocínio que acabara de ocorrer. Com o endereço do crime anotado num papel disse: “Corram, talvez vocês cheguem antes mesmo da polícia”. O prestígio do Diário e o bom relacionamento construído pelo Renato Campos, o jornalista policial do jornal, fizera com que o fato fosse comunicado à redação, pela central de operações da Polícia Militar, tão logo dele tomaram conhecimento. De repente, eis-me a caminho de um l a t r o c í n i o - confesso, eu nem sabia o que era aquilo à época - recém-saído de um “show” de qualidade questionável. Morri de medo. Porque, evidentemente, imaginava que encontraria um cadáver pela frente.
Quando criança, tinha pavor de gente morta. Em virtude de um trauma ocorrido no velório de um vizinho, ficava aterrorizado com a morte e evitava até mesmo passar na frente de casas funerárias.
Na minha infância, velórios nas próprias residências, na sala da família, eram comuns. E eu, curioso como sempre, fui um dos primeiros a me cercar do caixão assim que ele foi trazido. Quis ver o defunto e fui atendido: a viúva ergueu-me face a face com o falecido. Que, sei lá porque até hoje, tinha chumaços de algodão nas narinas, nas orelhas e os olhos estavam cobertos por duas moedas. Dei um grito, saí correndo e prometi a mim mesmo que jamais freqüentaria um velório. Promessa não cumprida, naturalmente. Quando a gente cresce, vai-se o encanto da infância e vem o choque frio da realidade.
O Onofre Leite tinha razão: chegamos antes da polícia porque a cena do crime estava próxima, a umas dez quadras do jornal. Respirei fundo, criei coragem, com o coração a mil, e fui entrando, acompanhado do Otsubo. O Barbosa, esperto, ficou no fusca: reclinou o banco para tirar uma invejável soneca, almejada desde a suculenta feijoada. O local, uma mercearia na Vila Bastos, em Santo André, tinha uma residência no fundo onde o proprietário morava com a família. Os ladrões sabiam que no sábado à tarde encontrariam féria robusta. Entraram, enfiaram um revolver 38 na testa do coitado do dono e o obrigaram a entregar o dinheiro. Ele disse que guardava nos fundos. Mas não deu tempo, alguma coisa aconteceu errada e eles dispararam, à queima roupa, no pobre do proprietário. Encontrei o cadáver em “decúbito dorsal”, como costumavam descrever as cenas os antigos escrivães de polícia. Em meio a uma enorme poça de sangue e, o pior: pedaços de miolos espalhados pelo chão e pelas paredes. Horripilante. Fiquei ali, tétrico, durante alguns segundos que pareceram eternidade. Nem mesmo sabia o que perguntar diante do pânico e choro dos familiares e meu próprio desmonte. Foi quando o Mário Otsubo chegou até mim e disse: olhe, Édison, acho que não dá foto. Está muito chocante e o jornal não vai publicar. E eu, de imediato e sem pensar: “não, Mário, você tem que dar um jeito e fotografar, é sua obrigação. Lá eles decidem se publicam ou não”.
Foi meu inferno! Um irmão da vítima escutou a conversa e, irado, achou o cúmulo do absurdo aquela minha “frieza” diante do mano cadáver. Vixe! Logo eu, todo comovido e sem ação... Quase fui linchado! O ódio dos familiares diante do ocorrido reverteu-se contra mim. Fui saindo por um corredor lateral, passei a correr até alcançar a rua. Felizmente, naquele momento acabava de chegar a viatura policial. Que me salvou. Protegido dentro da viatura precisei esperar que os policiais anotassem os fatos, registrassem seu boletim, para poder recuperar as informações de que tanto precisava para escrever a matéria. Não houve foto. Nem mesmo o Otsubo conseguiu entrar de volta na cena do crime.
Cheguei à redação e não disse nada. Escrevi a matéria, que deve ter ficado uma porcaria. Tanto que, no dia seguinte, foi reduzida a uma pequena nota de cinco linhas no meio do noticiário. Meu primeiro cadáver foi também meu primeiro tropeço no jornalismo.
Mas as surpresas não acabavam aí. Eu freqüentava o segundo ano colegial no “Américo Brasiliense”. E notei que um colega, que sentava na carteira ao lado, sumiu da escola. Faltou durante duas semanas. Na terceira, quando voltou, perguntei-lhe: o que houve? Quer perder o ano?
- Não, Édison, faltei porque assassinaram o meu pai.
- É mesmo, meus sentimentos, como foi?
- Ora, você sabe. Você esteve lá em casa tentando fazer matéria para o Diário do Grande ABC...
Aprendi com meu primeiro cadáver, pai do meu colega, a barreira que o jornalismo policial impõe àqueles que desejam seguir carreira. Não que seja necessário ser insensível. Mas jornalismo não é literatura. Requer frieza, argúcia e objetividade. A dor da gente não sai no jornal, como ensina o mestre Chico Buarque.
*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.

segunda-feira, 30 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
Jornalistas perseguidos
e presos pelo DOI-CODI
Parte XIII
*
Milton Saldanha
Memórias
Capítulo Final

"È a polícia!" Nossa saída do Diário começou com esta frase. Não eram ainda seis horas da manhã quando nosso apartamento, no Edifício Satélite, Baixada do Glicério, em São Paulo, foi invadido por oito agentes do DOI-CODI, armados com pistolas e metralhadoras. Era dezembro de 1970, portanto antes do assassinato de Vladimir Herzog. Eles entraram gritando “É a polícia! É a polícia!” e já foram revirando tudo. Quem atendeu a porta fui eu, ao ver o rosto do zelador no olho mágico. Mal virei a chave e eles invadiram, aos berros. Rubem dormia num quarto do fundo e foi acordado com o cano de uma metralhadora no rosto. As razões da nossa prisão são uma história muito longa, que aqui vou dispensar. Alguns, como o Dirceu Pio, conhecem em vários detalhes. Outros, parcialmente. O fato é que o Brasil vivia um dos momentos mais duros da ditadura militar, governo Médici, com tortura, censura e repressão por toda parte, em resposta à luta armada das organizações de esquerda. Passamos o dia presos, sendo interrogados várias vezes, e pouco antes do escurecer fomos liberados.
Liberados é maneira de dizer. Ali começavam os dois piores dias das nossas vidas. Éramos ostensivamente seguidos por um grupo de agentes, em vários carros. Um aparato absurdamente desproporcional à nossa (in) significância política, pois não éramos militantes de nenhuma organização, nem de partido legal ou clandestino, nunca pegamos em armas, e tínhamos uma vida totalmente na legalidade, dedicada ao trabalho, como contei acima. Nossa sensação, naquelas tenebrosas horas, eram de um jogo de gato e rato, onde o gato se diverte antes do derradeiro salto sobre sua presa. Decidimos então não dar-lhes este gosto, surpreendendo-os, como contarei logo adiante.
Fomos presos e liberados numa sexta-feira. No sábado, já pela manhã, fomos para o Diário. Bem barbeados e, coisa rara, de terno e gravata, uma forma de passar uma imagem austera, menos informal, até de mais respeito, e prontos para qualquer circunstância. Lá dentro, na redação da casinha, fingimos estar trabalhando, algo que na prática era impossível, pela tensão, com nossos nervos em frangalhos. Da janela víamos nossos seguidores lá na rua, literalmente cercando o prédio. Convocamos, como chefes, todo o pessoal ao jornal, e no começo da tarde fizemos uma reunião geral na sala do Fausto, já informado previamente sobre a situação. Não sei como consegui falar, a voz não saia, tal a tensão. Foi um esforço tremendo. Alertei: “Todos devem saber a partir deste momento que Rubem e eu estamos sendo seguidos pelo pessoal da Oban, DOI-CODI, e podemos ser presos a qualquer momento. Se a gente desaparecer, todos já sabem onde deveremos estar”. Era uma medida de segurança informar a categoria, através daquele grupo de colegas. O sigilo não nos interessava. Encerramos a reunião em meio a um silêncio impressionante, todos tomados de surpresa e sem acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo justo conosco, que passávamos horas todos os dias no jornal, indo dormir na madrugada. Nem tempo tínhamos para supostas atividades subversivas. Na verdade éramos suspeitos. As acusações pesavam sobre nosso amigo e parceiro de residência, um publicitário, acusado de ligações com a VPR. Ele foi barbaramente torturado.
Naquele mesmo sábado, após a reunião, Fausto pegou seu carro e foi conosco ao Glicério, onde outros agentes revistavam durante horas nosso apartamento. Levou o famoso livro de ponto do Seu Abílio e lá mostrou aos agentes nossas assinaturas e horários diários de entrada e saída do trabalho. Foi uma atitude corajosa e amiga, pela qual serei eternamente grato a Fausto Polesi.
Agora vem a surpresa. Como tínhamos absoluta certeza que seríamos novamente presos, era só questão de horas, ou minutos, tomamos uma decisão, em companhia do nosso pai, coronel da reserva do Exército e advogado, que tinha vindo de Porto Alegre para nos dar alguma assistência, se é que isso era possível, e apoio moral. Pegamos nosso carro, saímos pelas ruas de São Paulo, os agentes atrás, nos seguindo, certamente supondo que tentaríamos alguma fuga (e acho que era isso que desejavam, para agir), e fomos direto para o próprio DOI-CODI, na Rua Tutóia, onde nos apresentamos. “Queremos esclarecer tudo”, foi nosso argumento. Essa atitude nos ajudou e foi mencionada por eles em várias fases dos intermináveis interrogatórios. E tiramos o gostinho dos nossos seguidores, porque sabe-se lá como agiriam, e com certeza não seria nada agradável. Além disso, estar novamente preso era um fato consumado, um alívio quando comparado com o horror de ser seguido daquela forma ameaçadora e acima de tudo incerta. A gente temia até ser metralhado na rua, sem qualquer chance de defesa. Só quem conheceu a ditadura sabe que isso não é exagero. Finalmente libertados, depois de onze dias presos e incomunicáveis, não havia qualquer clima para continuar trabalhando. Nosso trauma era profundo, e durou muito tempo. Fomos em busca de repouso, em lugar seguro e isolado, numa praia de Santa Catarina. Nem nossa família sabia onde estávamos, por segurança. Assim terminou minha primeira fase no Diário. Rubem nunca mais voltou, foi morar no Rio. Voltei para o ABC em 1976 para chefiar a sucursal do Estadão, durante quatro anos. Os melhores, a propósito, da minha carreira. Saí em 80, como conseqüência da desastrosa greve dos jornalistas, em 79. Nos anos 80, convidado pelo Fausto em três longas conversas regados a vinho, no Terraço Itália, voltei ao jornal, como editor-chefe. Agora já era outra empresa, claro, totalmente diferente, em tudo. Foi uma fase interessante, apesar de algumas dificuldades inerentes ao cargo. Depois de uns dois anos, saí por quebra da confiança junto à diretoria, por não ter aceitado uma tentativa de redução de salários. Além de imoral, isso afetaria minha autoridade no comando da redação, que ficaria desmotivada. Fui para a TV Globo e depois para a Ford, em ambos a convite. Mais tarde, nos anos 90, voltei convidado pelo Alexandre Polesi, para montar um caderno de economia. Estava trabalhando, mas acabei topando. Foi um erro. A crise interna da direção do jornal já começava a explodir, com repercussões em todos os setores da empresa e no clima da redação. Uma pena. Que saudade dos primeiros anos, tão precários, e tão românticos.
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A garotada de hoje, mas também muita gente adulta, não sabe o que foi a ditadura militar. Não sabe o que passaram milhões de brasileiros para liquidar com aquele período de falta de liberdade, de opressão, de total ausência de garantias individuais e sociais. A grande maioria, hoje, não sabe o que é viver em um regime em que falta a liberdade, a democracia. Na noite do dia 24 de outubro de 1975, o jornalista Wladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, de São Paulo, apresentou-se na sede do DOI-CODI para prestar esclarecimentos sobre a sua atividade política. Herzog era filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Ficou apenas uma noite nas mãos da repressão e foi barbaramente torturado. Os militares assassinos simularam seu suicídio, entregando à imprensa fotos do corpo de Herzog pendurado pelo pescoço à grade da cela por uma peça de roupa. Como Wladimir Herzog era judeu, o Shevra Kadish (comitê funerário judaico) recebeu o corpo e, ao prepará-lo para o funeral, o rabino percebeu que havia marcas de tortura no corpo do jornalista. O suicídio tinha sido forjado. Esse foi o sinal, porque Herzog foi enterrado dentro do cemitério judaico, e não do lado de fora dos muros, como a religião determina que seja feita com os suicidas. Será que vinte anos de democracia fizeram a sombra da censura, que tanto aterrorizou as redações, desaparecer? Esta é uma pergunta sem resposta. O jornalista do século XXI é livre para escrever o que quiser e continua levantando cedo e saindo tarde. Porém, a liberdade é somente dentro da linha editorial da empresa. A censura, hoje, vem de dentro da própria casa, sem tortura, mas via ameaça de desemprego. Edward de Souza
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance -
www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.

domingo, 29 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
A frustração na
Copa de 70

Parte XII
*
Milton Saldanha
Memórias

Capítulo IV

A coluna social naquela época era diferente de todo o resto e destinada a fazer média com os abonados da região, a turma que paga os anúncios. Serafim Vicente nunca tinha pisado num jornal quando veio para o Diário exercer essa função. Não tinha feito faculdade de jornalismo. Escrevia coisas de arrepiar, e com erros de grafia, de concordância, o diabo. Se as bobagens saíssem deixariam o jornal muito mal. Eu ficava enlouquecido e xingava secretamente o Fausto pela contratação. Mas aos poucos fomos pegando estima pelo Serafim, que era um cara super legal, solidário e principalmente alegre. A redação, que já era uma zona, com o Lázaro berrando besteiras que faziam a gente chorar de tanto rir, ficou ainda mais alegre com o Serafim e aquele seu jeito... Uma vez ele sentou inesperadamente no colo do Rubem, deu-lhe um chupão no pescoço, Rubão ficou arrepiado. Pra que. Serafim saiu berrando pela redação, eufórico: “O secretário ficou todo arrepiado! O secretário ficou todo arrepiado!” Todos nós morrendo de rir, e o Rubão todo sem jeito, sem saber se também ria ou ficava puto da vida. Era tudo hilariante. Com a estima pessoal, passei a ser mais tolerante com a coluna do Serafim, mas sempre cortando os excessos, principalmente quando a puxação de saco passava dos limites aceitáveis. Um dia, querendo fazer gracinha, ele chamou a colônia italiana de “italianada”. Cochilei, deixei passar. O Fausto ficou furioso. Marcou com seu famoso lápis azul, com o qual pinçava na edição nossos erros de cada dia, nunca poucos. E a gente se segurando para não rir. O que aconteceu com Serafim depois daquela primeira fase no Diário, aqui não interessa. Não me cabe julgar nada. Fica minha lembrança apenas de um tempo bom, divertido.
O Cássio Loredano já era um gênio no desenho, mas não acreditava. Todo mundo falava que ele deveria se dedicar ao desenho, mas queria é ser repórter. Pedrão era fã assumido do Cássio, para ele, então, o melhor repórter do mundo. Um dia caiu a ficha, partiu para ilustração, arrasou. O Hildebrando Pafundi era o mais calmo da redação. Certo dia explodiu a Câmara de Santo André. Acho que foi tubulação de gás, nem lembro. Mas explodiu. Todo mundo excitado, (teria sido atentado?), e o “Pafa” tranquilo. Romão, do esporte, era um figuraço. Morava na redação, tinha um quartinho nos fundos da casinha. De vez em quando o Cássio fazia alguma charge e usava o Romão como personagem, com seu vasto e desordenado bigode. Como espécies atuantes daquele alegre zoológico, sobrava também para nós, eu e Rubão. Compramos um Gordini usado, em sociedade, aproveitando uma grana legal que embolsei ao vencer um concurso de reportagens natalinas. A gente brigava, porque os dois queriam dirigir. O pessoal morria de rir. Faziam piadas conosco. Nunca entendi que graça tinha isso... Até as broncas eram divertidas. Um dia Pio chegou super atrasado. Rubão começou tremenda bronca. Pio explicou: “Fui trepar”. “Ah, bom”, respondeu Rubão, encerrando o assunto.
Num dia de verão, muito quente, inventamos uma matéria no Guarujá. Pretexto para ir à praia. Já estava combinado e todo mundo levou calção para o jornal. Lotamos a coitada da Rural e descemos a serra, pela manhã cedo, para voltar lá pelas duas da tarde. Pedrão fez algumas fotos de supostas gostosas, para justificar o “trabalho”. Curtimos a praia, bebemos cerveja, foi super divertido, por estarmos em turma e pelo sabor da traquinagem com o carro e a gasolina do jornal. Na volta alguém cascateou um texto sobre o dia de forte calor e outras bobagens. O Fausto chegou e ficou olhando desconfiado nossas caras de safados, com os cabelos desalinhados e ainda úmidos, gente lavando os pés na torneira do jardim. Todo mundo se entregando. Mas deixou barato, não falou nada, com certeza para não arranhar nossa autoridade perante a equipe, pois o próprio Rubem fora o mentor da “pauta”. Era tudo uma lua de mel? Claro que não, somos de carne e osso, com virtudes e defeitos, rejeições e preferências afetivas. Mas, uma coisa posso garantir: em nenhum outro momento de toda a minha carreira desfrutei de um ambiente tão gostoso na redação. Teria ainda muitas histórias, mas aí isso aqui vira livro. E bem que eu gostaria. Antes de encerrar, contando nossa, digamos, inusitada saída do jornal, vou relembrar algo inesquecível. Foi nossa edição extra especial de cobertura do final da Copa do mundo de 1970, no México. Foi a primeira vez em que a TV transmitiu a Copa ao vivo. A transmissão por satélite era uma novidade. O Brasil, como todo mundo sabe, tinha um time invencível e era franco favorito. Resolvemos soltar a edição extra. A idéia era lançar o jornal pronto, nas mãos de um batalhão de jornaleiros, meia hora após o fim do jogo, no máximo. Os moleques, mais de cem, iriam com os jornais nos braços para os burburinhos dos festejos nas ruas. Durante a semana inteira fizemos o jornal, com matérias retrospectivas, etc. Na capa pré-montamos um jogador erguendo a taça. Detalhe: usava mangas compridas, era o que a gente tinha em arquivo, eles jogaram com mangas curtas. Dane-se, decidimos, e fizemos a montagem com outro rosto. O que hoje, com Photoshop, seria bico, naquele tempo foi uma verdadeira engenharia, obra de artesões. E montamos até o texto da matéria de capa, que já tinha manchete pronta, com buracos para detalhes do jogo, resultados, etc. Ou seja, em menos de dez minutos a gente finalizaria tudo, baixaria para a oficina, que já tinha o jornal todo pronto, faltando só a capa, e... Seria um sucesso! Ah, e teríamos fotos do jogo, dos gols, em primeira mão. Pedro Martinelli, o Pedrão, colocou um tripé na frente da TV e fez as fotos dali mesmo. Reveladas e ampliadas, pareciam radiofotos, muito usadas na época. Quebravam o galho perfeitamente. Durante a semana ele havia feito testes, avaliando os resultados, estudando o melhor ajuste da máquina, tudo. A redação toda em volta, torcendo, gritando, e o Pedrão ali, clicando e também torcendo. Dá para esquecer? Quando o jogo acabou, o batalhão de jornaleiros estava na porta da oficina, aguardando. Mal o juiz apitou e mergulhamos nas velhas Olivetti, teclando com fúria. Todo mundo correndo, parecia fechamento de jornal em TV. Até o boy estava instruído a seguir correndo para a oficina, no sentido literal, com a lauda do texto. Alguém imagina o que aconteceu? Pois é, a luz apagou geral no bairro. Ficamos sem energia. Desesperados, e sem energia para mover as possantes linotipos, o chumbão, como eram chamadas, porque produziam textos em blocos de chumbo, que caiam quentes num cesto, tinham que esfriar e entrar na paginação sobre uma placa metálica. Todo aquele esforço de uma semana, toda aquela correria, tremendo esquema de mobilizar jornaleiros numa época em que isso não existia mais, as vendas eram em bancas, muita adrenalina para... Sermos derrotados por um pedaço de fio. A luz demorou quase uma hora para voltar. E ainda faltava rodar a capa. Não adiantou ligar desesperadamente para a Cia. de força. O jornal foi para as ruas, mas sem o impacto dos primeiros minutos, para surpreender o povo, como tínhamos planejado nos mínimos detalhes. Creio que nunca, na história do Diário, tenha acontecido algo tão frustrante. O Diário não merecia, muito menos nós, tão focas e tão sonhadores.
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Não percam nesta segunda-feira o último capítulo dessa série escrita pelo jornalista Milton Saldanha nesse blog. Agentes do DOI-CODI, armados com pistolas e metralhadoras, invadem o apartamento do jornalista em São Paulo. Seu irmão Rubem dormia num quarto do fundo e foi acordado com o cano de uma metralhadora no rosto. Foram presos. o Brasil vivia um dos momentos mais duros da ditadura militar, governo Médici, com tortura, censura e repressão por toda parte, em resposta à luta armada das organizações de esquerda.
( Edward de Souza)
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.

sábado, 28 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
Curandeiro promete trabalho
para broxar repórter
Parte XI

*
Milton Saldanha
Memórias
Capítulo III
***
Terminei o segundo capítulo falando sobre as nossas dificuldades em buscar rolos de cópias de carbono dos telegramas das agências em São Paulo, com uma velha Rural Willis, dirigida pelo motorista Pelé. Quanta insensatez e inexperiência, gente. Já havia o telex, a sucursal do Estadão tinha um, era um caminhão barulhento, mas tinha. Bastava pedir na Embratel, ligar numa linha telefônica, e pagar o aluguel. Sairia muito mais barato do que a gasolina mensal da Rural, fora o estresse a que nos submetia. Por exemplo, em dia de chuva. Sempre havia enchente na divisa de São Caetano com São Paulo. A Rural tinha que ir e voltar pela Via Anchieta, dando enorme volta. Lembrem-se de que não havia a Catequese com o traçado de hoje, nem aquelas avenidas expressas. Chegar lá era percorrer um labirinto de ruas. E a gente na redação, parado, xingando, esperando uma notícia que, de repente, poderia nem chegar. Era duro. A oficina também arcava com a burrice, pois dependia da redação para encerrar seu trabalho. O Pedro Martinelli, sempre com mala de fotografia pendurada no ombro, era também motorista, quando Pelé faltava. Bom ouvido também valia. Soava alguma sirene, se mais forte indicando ser dos bombeiros, e Lázaro berrava o nome do repórter mais próximo, de Pelé e Pedrão, e saiam em desabalada carreira, como se dizia na antiga linguagem de clichê, seguindo a viatura pelas ruas, furando semáforos, tudo pela notícia. Manter um plantonista no QG dos bombeiros? Impossível, seria um luxo, todos faziam falta na redação. Fazer um acordo de informação com o comando? Imagine, éramos todos focas, ou quase focas.
Cada nome aqui lembrado renderia um longo capítulo de episódios, a maioria divertidos. Nenhum de nós escaparia, a começar por este escriba. Em rodas de bar é gostoso lembrar, como aquele dia em que Dirceu Pio fez uma matéria descendo o pau num charlatão curandeiro. O cara era um guarda-roupa. Ficou esperando Pio ao lado do portão da casinha. E a gente lá dentro, morrendo de medo, em vez de chamar logo a polícia. Quando Pio chegou só achou uma saída: tentar convencer o sujeito que a matéria só tinha elogios. É mole? O personagem, ignorante, ficou confuso. Não sabia se acreditava. Por via das dúvidas, deu um abraço de urso no Pio, girou com ele no ar e devolveu ao solo. Retirou-se não sem antes prometer um “trabalho” para ele broxar. Nessas alturas era até uma boa barganha, né. Depois disso Pio teve quatro belos filhos, prova de que o cara era mesmo charlatão.
Quando chegou ao jornal a primeira Nikon, o Pedro Martinelli aposentou sua maquininha e parecia uma criança com um brinquedo ansiosamente sonhado. Ficou enlouquecido, só falava sobre a máquina. Iniciando, já mostrava tremendo talento. Mas ninguém imaginaria que ainda seria um dos melhores fotógrafos do Brasil. E quando venderam a velha Rural e chegaram alguns Fuscas brancos, com enormes letreiros do jornal e da rádio, agora sim havia carros para trabalhar, fim do sufoco, sentimos pela primeira vez que o nosso Diário começava a virar um jornal de verdade. Era um sinal de prosperidade. Rubem e eu começamos a batalhar pelos registros nas carteiras, aliciando a redação discretamente, mas só para o caso de alguma emergência, em que a gente tivesse que demonstrar força. Foi mais fácil do que a gente pensava, certamente a diretoria já estava esperando isso. Na mesma semana todo mundo foi registrado. Naquele período, enquanto a vida nacional estava tumultuada, com seqüestros e assaltos de guerrilheiros urbanos, noticiamos com grande impacto o seqüestro do embaixador dos Estados Unidos. Não havia censura no Diário, ao contrário dos grandes jornais da Capital, então a gente aproveitava algumas brechas e denunciava, por exemplo, a tortura no Uruguai, onde também havia ditadura militar. Como quem diz, se lá tem, aqui...
Foi o ano também em que o homem pisou na lua. Do boom da indústria automobilística. Do início da TV em cores. Transamazônica, ponte Rio Niterói, Angra. O Diário começava a crescer e comprou a antiga rádio Independência AM, de São Bernardo, que passou a ter o nome de Rádio Diário do Grande ABC. Aí resolveram que a rádio seria forte no jornalismo, tentando copiar a Jovem Pan. Era um fiasco. Por qualquer bobagem entrava uma escandalosa “Edição Extraordinária”. E qualquer dos nossos repórteres entrava no ar, da redação, sem ter tido qualquer treino anterior como repórter de rádio, sem colocação de voz, nada. Os boletins ficavam medonhos. Até Edson Dotto gostou de brincar de repórter e entrava com boletins, lendo ou improvisando mal, com voz inadequada. Custou um tempo até colocarem realmente profissionais de rádio, competentes, como o Rolando Marques, Edward de Souza, Oswaldo Lavrado, Paulo Cesar, Sidney Lima e outros. Nessa fase entrou um personagem novo na redação, o Castro, que assinava suas matérias com o pomposo pseudônimo de Lamartine de Taunay, que a gente, para sacanear, tratava no mural da redação como Lamartine de Toné. Como tinham seqüestrado o cônsul japonês em São Paulo, a gente ficava levantando hipóteses sobre o caso. Numa tarde comentei, como mera especulação: “Já imaginaram se soltam o cônsul num bairro do Rio, onde ninguém espera?” O Castro ouviu aquilo, ligou para a rádio e soltou um boletim falando dessa possibilidade. Ficamos apavorados. Imaginem se a polícia caísse lá querendo saber a fonte. Era muita loucura. A sorte é que o índice de audiência era ainda muito baixo e essas mancadas não repercutiam, para sorte geral da empresa.
Aquela fase foi também a da “Escolinha”, como diz até hoje o Renato Campos, uma das testemunhas disso. Os textos pecavam por erros técnicos básicos, alguns até primários. Rubem e eu, até ali os menos inexperientes, passamos a fazer um trabalho de crítica de texto, repórter por repórter, texto por texto, das notinhas mais simples às grandes reportagens. Não tinha essa de entregar a matéria e se mandar. Cada um tinha que sentar com a gente, acompanhar o copy e ouvir as explicações sobre as mudanças, até de uma simples vírgula. Em muitos casos, em questões cruciais de estrutura do texto, não havia outro jeito, eles tinham que refazer tudo. Em pouco tempo os textos foram melhorando, ficando limpos e fluentes, ganhando padrão, cara de jornal. O trabalho mais duro foi tirar o vício da opinião, tornar o texto impessoal. No começo as matérias mais pareciam editoriais. O pessoal evoluiu rapidamente, em bloco, e isso foi uma grande realização e alegria para nós. Hoje sinto orgulho dos colegas que se consagraram na profissão e que passaram ali pelo meu duro crivo crítico. Costumo dizer que seriam vencedores de qualquer forma, pelo talento de cada um, mas agilizei o processo, e o Rubem também. Eu tinha as minhas crias, o Rubem as dele. E alguns passavam pelos dois, alternadamente. Alguém também me ensinou, e foi o Fernando Portela, então chefe de reportagem do Jornal da Tarde, em sua fase de ouro, naqueles anos de grandes novidades e mudanças na imprensa brasileira. O JT era um modelo, nosso sonho de jornal. Eu passava ao pessoal o que o Portela me passou, como quem cumpre uma missão evangelizadora. O Portela me dizia que também aprendeu com alguém. Era uma corrente do bom jornalismo. Considero a Escolinha um grande momento da minha carreira. Ensinando aprendi muito e vi meu próprio texto evoluir. Como cobrava do pessoal, passei a ser mais insatisfeito com meu próprio texto.
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Acompanhem no capítulo de amanhã: Serafim Vicente e o seu texto horrível fazendo média com os poderosos que pagavam anúncios; irreverente, o colunista social certa vez sentou no colo do secretário de redação e tascou-lhe um beijo no pescoço; A calma de Hildebrando Pafundi, o impagável Romão Zanella, repórter que dormia nos fundos da redação e as tiradas geniais de Lázaro Campos, fazendo a redação rir, berrando besteiras. (Edward de Souza)
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.

sexta-feira, 27 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
O velho Abílio,
Um "médico" na redação
Parte X
*
Milton Saldanha
Memórias
Capítulo II

1969. O Diário do Grande ABC mal tinha deixado de ser o semanário News Selller. Ainda estampava na capa, ao lado do logo, esse nome, em letras reduzidas. A extensão do título, com aquilo que parecia um adjetivo, no meio, nos espantava. Por que não apenas Diário do ABC? Eu estava desempregado, ou melhor, mal empregado. Tinha sido demitido do Diário Popular, por ser irmão do Rubem, e fiquei uma curta temporada no Shopping News. Meu chefe era o Hermínio Sachetta, que só muitos anos depois fui saber tratar-se de figura histórica e muito importante do comunismo brasileiro. Quem me dera poder voltar no tempo e colher um belo depoimento do velho Sachetta, que cultivava aquele estilo de chefe gritão, sempre afobado com os fechamentos.
Rubem consultou Fausto sobre minha contratação como copydesk. A função era uma novidade no Diário. Não houve objeções, eu poderia ir. Nos últimos cinco meses tinha sobrevivido como correspondente comercial no escritório paulista de uma empresa do Rio. Emprego achado em classificados de jornal. Odiava aquele trabalho, e se não tivesse estômago para abastecer teria largado na primeira semana, ou menos. Então, o chamado para o Diário foi como um convite para trocar o inferno pelo céu. Tremenda felicidade! A grana era legal. Os repórteres ganhavam 600 cruzeiros por mês, contra 490 cruzeiros do piso da categoria em São Paulo, que ainda não estava defasado e era uma conquista recente. Sendo copy, eu ganhava 700. O Rubem ganhava mil. Só havia um detalhe: ninguém tinha registro em carteira. Ganhava-se mais do que na Capital porque não havia os descontos. A diferença era uma espécie de cala boca, ninguém chiava. Fiscalização da DRT não passava nem na porta. E nossa carga horária era pesada, ninguém tinha hora para sair, sem ganhar hora extra, além de se fazer plantão de final de semana. Rubem e eu trabalhávamos todos os sábados, e os repórteres faziam revezamento de plantão aos domingos. O jornal não circulava nas segundas. A redação era numa casinha de esquina, onde hoje existe um edifício. Não havia o atual prédio, só as oficinas, num barracão no fundo do terreno, que abrigava também balcão de anúncios, salas dos demais diretores e administração. Estrategicamente, já tinham deixado espaço para a futura sede. Na casinha, Fausto Polesi tinha sua sala exclusiva. Sem secretária. Só Edson Dotto, diretor-presidente, tinha secretária. De vez em quando, aos sábados, Fausto aparecia lá em roupa esporte, com seus dois moleques pela mão, para saber se estava tudo bem. Os moleques eram Alexandre e Cassiano. Em outra sala, pequena, com as mesas encostadas, ficávamos Rubem, Lázaro Campos, que dobrava nas funções de chefe de reportagem e diagramador, Eduardo Camargo, que fazia sozinho a página de política, e eu. O único que usava terno e gravata era Camargo. Nosotros, em certos dias, sequer fazíamos a barba. Na sala maior ficavam os repórteres: Cássio Loredano (ele mesmo, o extraordinário ilustrador de sucesso internacional), Dirceu Pio, Hildebrando Pafundi, José Augusto, Ana e mais uma ou duas moças, cujos nomes, desculpem, não recordo. Também o Hermano Pini Filho, que só chegava no final da tarde, tinha emprego na Pan, dos chocolates. Assinava o Primeiro Plano como Júlio Pinheiro, e se reportava diretamente ao Fausto. Escrevia também editoriais, sempre fumando seu cachimbo. Maravilhoso companheiro. Alguns meses depois entraram Paulo Andreolli, para geral; Renato Campos, para polícia; e o primeiro colunista social, Serafim Vicente. Numa salinha mais ao fundo ficavam Salvador e Romão, do esporte, ao lado do Seu Abílio, encarregado do arquivo, do livro de ponto, e de encher o saco dos dois boys, pois fora informalmente nomeado como “chefe” dos moleques. Seu Abílio passava boa parte do dia caminhando com o livro de ponto, de mesa em mesa, cobrando as assinaturas. O cara tava mergulhado no texto, concentrado, e lá vinha seu Abílio... Isso municiava o arsenal de piadas da redação. A gente achava o velho um tremendo chato, sem perceber que ele era o único organizado ali naquela zona e nos fazia inestimável favor, garantindo a documentação das nossas longas jornadas. Seu passado era famoso, interrompeu o curso de Medicina no meio, por falta de recursos, exerceu a profissão ilegalmente, foi descoberto e cassado, ou preso, não sei direito. Quando alguém ficava doente consultava com ele. Sempre dava bom resultado. A benção, Seu Abílio! Na fotografia, com laboratório também na casinha, trabalhavam Pedro Martinelli, o famoso Pedrão, mais tarde fotógrafo da Playboy, usando máquina própria semi-profissional, e Mário Otsubo. No laboratório, Roberto, que sonhava em virar repórter-fotográfico. Salvo algum esquecimento, involuntário, me perdoem, isso era tudo na redação. E só com isso a gente tirava um jornal diário, de terça a domingo, que logo passou a ter dois cadernos, sendo gordinho nas quintas e gordão aos domingos, para nosso orgulho.
O único carro da redação era uma malhada Rural Willis, nas mãos do motorista Pelé. Ele juntava os repórteres e ia largando nos seus locais de cobertura, um aqui, outro ali. Na volta, geralmente, cada um se virava. Vinham à pé ou de ônibus. Pagando do próprio bolso, sequer havia uma caixinha de despesas. Táxis, nem pensar. Quem tinha sorte, telefonava e Pelé ia buscar. Como não havia telex, nem teletipos, Pelé fazia todos os dias duas viagens até a Agência Estado, na Rua Major Quedinho, Centro paulistano, e voltava com vários rolos de cópia carbono dos telegramas das agências. A gente ia selecionando aquelas tripas, cortando com régua, e “copidescava” ali mesmo, com a caneta. Nossas mãos ficavam pretas do carbono. Não raro, um de nós esbravejava todos os palavrões do mundo quando não encontrava naquelas maçarocas alguma importante notícia do dia, se bobear a própria manchete do jornal, ou de uma página. Era um horror.
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Não deixem de ler no capítulo de amanhã, a dura vida dos repórteres no final dos anos 60, quando ouvido tinha valia. Era preciso prestar atenção. Quando soava alguma sirene, se mais forte indicando ser dos bombeiros, repórteres eram acionados e saiam correndo em busca da notícia. Manter um plantonista no QG dos bombeiros? Impossível, era um luxo naqueles tempos, todos faziam falta na redação. ( Edward de Souza)
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.


quinta-feira, 26 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
Certa vez, no Diário...
Parte IX
*
Milton Saldanha
Memórias
Capítulo I

No final dos anos 50 comecei no "jornalismo" no grupo escolar, como “repórter” da minha classe, num jornal mural que a diretora instalou num corredor. Ninguém lia, mas lá estavam minhas redações, que me deixavam orgulhoso. Eu me sentia escrevendo no Correio do Povo, de Porto Alegre, então o mais poderoso jornal gaúcho, que chegava a nossa cidade, Santa Maria (RS), com um ou até dois dias de atraso, pela empresa de ônibus Planalto, que ainda existe e prosperou. Aos 17 anos, em 1963, já trabalhava no semanário A Cidade, de um lendário panfletário, Clarimundo Flores, ex-PCB, e homem de confiança, mesmo sem cargo público, do então governador gaúcho Leonel Brizola. Clarimundo era uma pena brilhante, como todos se referiam na época aos grandes redatores. Escrevia com paixão desenfreada, sabia argumentar e, de vez em quando, perdia a noção dos limites, pegava pesado mesmo. Santa Maria tinha o diário A Razão, dos Diários Associados (ainda existe, com outros donos), de horrenda qualidade naqueles anos, e de direita, claro. A Razão fora criada pelo Clarimundo, que faliu e vendeu o jornal para os Associados. Aí fundou o Diário do Estado, que também faliu. Então, aproveitando que era dono de gráfica, criou A Cidade, tablóide com logotipo em vermelho, que chegava às ruas nas sextas à noite.
Com o golpe de 64, uma patrulha do Exército invadiu a gráfica e fechou o jornal, por sorte sem empastelar. Fiquei trabalhando com Clarimundo, ele em prisão domiciliar, com soldado (desarmado) na porta do apartamento onde morava, na frente da praça principal e a poucos metros da gráfica. Só havia uma máquina de escrever, que eventualmente eu usava, mas Clarimundo fazia tudo de punho, em garranchos só decifráveis por seus empregados acostumados, com vários anos de casa.
Santa Maria, bem no centro do Rio Grande do Sul, super estratégica, é uma poderosa cidade militar, com mais de dez unidades do Exército, dois regimentos da Brigada Militar e uma moderna base da Aeronáutica. Naquele tempo era também o mais importante entroncamento ferroviário da Região Sul. Com o golpe, o jornal ficou fechado durante um mês e depois voltou a circular. Clarimundo passou a reproduzir na íntegra os artigos que o Carlos Heitor Cony publicava no Correio da Manhã, do Rio, mais tarde reunidos no livro “O Ato e o Fato”. Foi isso que deu fama nacional a Cony, que como esperado acabou preso. Ele descia o cacete no golpe militar. E o nosso jornalzinho, lá do interior gaúcho, no meio de todo aquele poder militar, e onde jamais chegava o Correio da Manhã, reproduzindo o Cony. Um amigo e colaborador de A Cidade, Ernani Vanacor, que morava no Rio, mandava o jornal pelo Correio. Era a mais pura, e mais arriscada, tesoura press. Como eu já assinava matérias sobre política antes do golpe, mesmo sendo um garoto, era o que se chamava de “nome queimado”, com ficha no Dops. No dia seguinte ao golpe fugi para Porto Alegre, onde fiquei escondido por cerca de um mês na casa de um tio, que era sargento do Exército. Ele não concordava com o golpe, mas estava de bico calado, até porque não era besta. Lembro-me que ia para o quartel em trajes civis, levando a farda numa sacola, para não ser hostilizado pelo povo na rua.
A barra pesou e Clarimundo deixou Santa Maria. Foi se esconder em Santo Ângelo e depois numa cidade de fronteira, no Uruguai. Mas A Cidade continuou circulando, só que aí baixamos a bola. O jornal ficou aos cuidados de Renan Kurtz, um líder universitário, que se tornaria deputado estadual. Passei a escrever artigos sobre cultura e uma coluna de notas intitulada Desfile, agora sempre pegando leve. Eu fazia também jornais de estudantes, no curso secundário. Integrava uma turma de esquerda, não mais do que dez estudantes, pessoal super politizado e atuante, intelectuais em formação, da qual fazia parte o Tarso Genro, que tinha 16 anos. Um detalhe curioso: no dia 1º de abril, pela manhã, quando a guarnição local ainda não havia aderido aos rebeldes, fui com o Tarso e mais um amigo fazer pronunciamentos ao vivo na Rádio Santamariense, uma das quatro emissoras locais, e que estava integrada à Rede da Legalidade, que Brizola tentava, como fizera em 1961, remontar. Repudiamos o golpe, chamamos o povo à resistência, essas coisas, com aquela emoção do calor dos acontecimentos, mas sem perder o controle, a calma e o senso de responsabilidade. Foi uma coisa impressionante, por nossa idade. Nem sei como confiaram o microfone. Uma hora depois as tropas começaram a ocupar a cidade, sob garoa, num dia cinzento em todos os sentidos. Foram dissolvendo as reuniões, mandando sem violência todo mundo para casa, com a tropa de arma embalada no meio da rua. Eram recrutas inexperientes, a maioria não entendia o que estava acontecendo, alguns até tremiam de nervosos. Um perigo, pois tinham o dedo no gatilho do fuzil. O povo, com medo, obedecia sem protestar. Mas nós estudantes éramos peixes pequenos, lambaris. Eles só estavam prendendo as altas lideranças sindicais dos ferroviários. Prenderam também o prefeito Paulo Lauda e o vice, este último o professor Adelmo, pai do Tarso Genro.
Em 1965 minha família se mudou para Porto Alegre. Tentei emprego na Caldas Júnior, que editava três jornais, mas não tive chance. Fiquei então de correspondente, não remunerado, da revista cultural Vanguarda, da nossa turma de estudantes de Santa Maria, e que durou só três edições. Fiz um concurso público e fiquei dois anos como burocrata da CEEE, companhia estatal de energia elétrica. Meu irmão, o Rubem Mauro Machado, tinha vindo para São Paulo. Trabalhou na Folha, onde cobriu a prisão dos estudantes do Congresso de Ibiúna e a greve da Cobrasma, em Osasco. De lá foi para o Diário Popular e após um mês de casa virou chefe de reportagem. Foi demitido numa crise com a diretoria e aproveitou para escrever um livro de contos, durante sete meses, vivendo só das economias. Grana acabando, certo dia soube da existência do Diário do Grande ABC. A gente morava em São Paulo, na mal afamada Baixada do Glicério. Procurou Fausto Polesi e na hora mesmo foi contratado como secretário de redação, o nome que se dava ao que hoje corresponde a editor-chefe.
*Não percam amanhã a sequência desta série escrita pelo jornalista Milton Saldanha para “AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS”. Final dos anos 60. Jornalistas sem registro em carteira. “Sêo” Abílio, o “médico” da redação e muito mais. Não deixem de acompanhar aqui, nesse blog, todas essas histórias narradas por esse extraordinário profissional que passou sua vida em redações de jornais.
Edward de Souza.


quarta-feira, 25 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Edward de Souza
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INÉDITO
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TIROTEIO NO CEMITÉRIO
Parte VIII

Escolher histórias da minha vida profissional é tarefa difícil. Ao longo de mais de 30 anos trabalhei para importantes jornais brasileiros. O caso do “sepultamento de Assis” é um dos mais curiosos. Foi logo quando fui contratado como repórter policial pelo Jornal Notícias Populares. Claro que tinha experiência, depois de um bom tempo trabalhando na Região do ABC Paulista, inclusive carregava na bagagem o prêmio de melhor repórter policial outorgado pelo 10º Batalhão da Polícia Militar do ABC, o PMzito. Trabalhar num jornal recordista de vendas era meu primeiro desafio. Dias depois de minha chegada ao NP, fui escalado para cobrir o sepultamento de Assis, considerado um dos mais perigosos assaltantes que agia em São Paulo. Havia a suspeita que membros de sua quadrilha poderiam invadir o cemitério e entrar em confronto com a polícia, revoltados com a morte de seu líder. Dois dias antes, depois de um cerco policial sem precedentes na história, Assis foi localizado num barraco, reagiu contra dezenas de policiais, mas acabou sendo fuzilado, depois de mais de uma hora de cerrado tiroteio. Duro na queda, mesmo atingido por vários tiros, Assis, ainda assim deixou o barraco. Sangrando, tentou saltar o muro da casa para fugir. Recebeu uma saraivada de tiros e caiu morto ao solo. Era o fim de um dos maiores bandidos dos anos 70. Festa para a polícia e alívio para a população. Os principais jornais do País estamparam em suas primeiras páginas a notícia. No entanto, marginais ligados a Assis prometiam dar o troco e atacar policiais no dia do sepultamento. O Secretário de Segurança Pública da época escalou uma tropa de elite para acompanhar o enterro do marginal, além de dezenas de PMs armados até os dentes para garantir a tranquilidade da população vizinha ao cemitério.
Deixei a redação do jornal, na Rua Barão de Limeira, por volta das 9 horas da manhã, acompanhado pelo premiado fotógrafo Tarcisio Leite, um dos melhores do Grupo Folhas. A editoria de polícia tinha a informação que o sepultamento de Assis seria às 11 horas. Tempo suficiente, pensava eu, para a cobertura do enterro. Quando chegamos ao cemitério, surpresa e decepção. O marginal havia sido sepultado mais cedo, por determinação das autoridades policiais, que temiam um confronto com membros de sua gang. Percebi que no cemitério estavam conhecidos repórteres de polícia, famosos na época, entre eles o Orlando Criscuolo, do Diário da Noite, Nelson Gatto, Inajar de Souza e outros que não recordo o nome. Tentei buscar informações e fui recebido por eles com ironia. Fui tratado como um “foca” na roda dos velhos jornalistas, que zombaram de minha capacidade. Um deles, o Criscuolo, disse: “Pois é, moleque, você não tem futuro nenhum como jornalista, não sabe nem chegar cedo para cobrir um caso tão importante assim. Vá perguntar para o coveiro, quem sabe ele lhe dá algumas informações”, sentenciou de forma brusca. Todos eles me viraram as costas. Conseguiram me humilhar, sem piedade. O Tarcísio, fotógrafo, se afastou e conversava com alguns investigadores de polícia, tentando ver se salvava nosso dia com alguma informação de importância sobre o sepultamento de Assis, mas nada havia acontecido de destaque. Ficamos apenas eu, Tarcísio e esses cinco investigadores do 3º Distrito Policial. Todos tinham ido embora. Notei que nas casas próximas ao cemitério, dezenas de moradores se acotovelavam nas janelas e alpendres para ver o que se passava. Aproximei-me de um dos investigadores e lhe fiz uma proposta. Caso ele e seus companheiros desses alguns tiros para o alto iriam figurar na coluna “Exclusivas” do Notícias Populares, editada pelo meu amigo, saudoso Lázaro Campos. Era o sonho dos policiais da época sair em destaque nessa coluna. Além da fama, sempre rendia uma promoção. Proposta aceita. Pedi ao Tarcísio que não perdesse tempo. Quando os tiros fossem dados para o alto, ele deveria fotografar os moradores e conseguir nomes de todos eles. Assim foi feito. Os investigadores exageraram no tiroteio. Descarregaram suas armas e sumiram para suas viaturas. Esperto, Tarcísio, mesmo ainda sem nada entender, fez o que eu lhe pedi. Conseguiu mais de 15 fotos, algumas mostrando moradores com olhares espantados e expressão de medo no rosto.
Entramos na redação. Entreguei os nomes dos policiais ao Lázaro Campos – Editor de Polícia - e lhe expliquei todo o ocorrido. Também o teor da minha matéria. Sorrindo, Lázaro deu sinal de positivo e sapecou: “isso, dê uma lição naqueles velhos”, referindo-se aos repórteres de polícia que me humilharam no cemitério. No dia seguinte todos os grandes jornais de São Paulo estamparam manchetes semelhantes: “Tranquilo o sepultamento de Assis”, ou “Paz no enterro de marginal”. Notícias Populares iria estourar mais uma vez as vendas nas bancas. Sua manchete, com matéria trazendo minha assinatura, era essa: “Tiroteio no sepultamento de Assis”. 15 fotos de moradores, com nomes, comprovavam a veracidade da notícia.