quarta-feira, 4 de agosto de 2010



Em casa, depois de alguns dias de amnésia causada pelos medicamentos na tentativa de conter a infecção, minha mulher me diz que o Ricardo Hernandes esteve me visitando no hospital. Eu sequer me lembrava dessa visita, mas agora recordo da crônica que escrevi falando dele e de sua doença. Saiu publicada em um jornal de Bálsamo e o Ricardo a divulgou pela internet. A crônica, como publicada no original:

Numa manhã, durante o velório de um fotógrafo no Cemitério do Camilópolis, em Santo André. Vi meu amigo Ricardo Hernandes – então assessor de Imprensa da General Motors do Brasil - levando à boca uma pequena garrafa com água mineral e dando um gole, curto e rápido. Como a cena voltava a se repetir quase que continuamente, ousei perguntar o porquê daquele procedimento. Ele, com seu jeito professoral que conheço há quase meio século, explicou que passara por um tratamento de radioterapia e, em consequência, perdera a saliva e agora precisava “estar sempre molhando a goela” para não ficar com a garganta ressequida.

Confesso que, na hora, fiquei compadecido da situação em que se encontrava o meu amigo e cheguei inclusive a escrever uma crônica sobre o assunto, a qual lhe enviei via e-mail. Ficava imaginando como seria uma pessoa viver sem a saliva, uma manifestação tão natural do corpo humano que a gente sequer dá importância. Mal sabia eu que, não muito tempo depois, iria me submeter a tratamento similar de radioterapia e, assim como o bom Ricardo, teria secado as glândulas salivares. Tornei-me, também, um homem sem saliva, que os dicionaristas definem como “líquido transparente e insípido que serve para fluidificar os alimentos e facilitar a sua ingestão e digestão”.

Agora, desde que fiz o primeiro tratamento de radioterapia, sou outro que vive obrigado a carregar um pequeno recipiente com água para ir regando a garganta. Só que, em vez de um invólucro de plástico como o de Ricardo, optei por utilizar uma pequena garrafa de vidro que, nos meus velhos e sórdidos tempos, vinha carregada de bebida alcoólica. O uso dessa garrafinha, muito conhecida por ser vista em filmes norte-americanos e ser apetrecho comum de caubóis e executivos, continua me causando constrangimento e provocando cenas inusitadas.

Antes de recomeçar com a quimioterapia, caminhando por uma das ruas da cidade onde moro, sob um sol ardente, tirei do bolso a pequena garrafa e, depois de tomar um gole, soltei um ah! de satisfação. Nisto, uma senhora que passava ao lado, ao me ver bebendo, fez o sinal da cruz e balbuciou o secular Cruz Credo. De outra feita, encontrei um conhecido dos tempos em que bebia e, ele, ao ver a garrafinha no bolso da camisa, comentou: “Você continua o mesmo, hein, sempre prevenido”. E teve também aquele que, ao me encontrar pela manhã, disse, quase exclamando: “Bebendo vodca logo cedinho...”

É comum, ainda, que eu seja alvo de olhares críticos quando, em algum recinto fechado, ao perceber a garganta seca, sinta-me obrigado a tirar a garrafinha do bolso e sorver um pouco da água, mas que, à distância, parece cachaça, mais pura impossível. O problema se torna mais constante em razão das minhas atividades profissionais. Toda vez que vou entrevistar alguma pessoa sou obrigado a explicar que, por causa da radioterapia, fiquei sem saliva e preciso da água.

Um dos casos mais recentes ocorreu em Belo Horizonte. Cheguei para entrevistar um empresário e, na hora em que fui justificar a presença da garrafinha, ele, muito compreensivo, se adiantou: “não precisa falar nada, meu jovem. Eu também já fui um alcoólatra e sei que quando a gente chega nesse estágio é preciso estar sempre dando um golinho na maldita...”

Durante meu período de descanso, sem deixar de tomar os remédios contra dor, muitas vezes lembrava-me dos meus companheiros de quarto. Uma dessas era uma ascendente de japoneses. Otimista, vivia a sorrir e parecia brincar com o tumor corroendo o seu organismo. Gostava de contar estórias, principalmente as relacionadas com as suas viagens internacionais. Deveria pertencer a alguma família dotada de bons recursos econômicos e financeiros. Ela, dizia, já viajara praticamente os principais países do mundo. Depois dessa sessão de quimioterapia, fazia planos de ir para a Itália e conversava com o seu estômago: vê se não dá abrigo para as células cancerígenas desta vez, porque adoro comida italiana, divertia-se e o seu comportamento chegava a impressionar médicos e enfermeiros experientes. Lembrava-se de sua estada em Paris – foi obrigada a retornar devido ao agravamento da doença. Por essa razão, desta vez, pedia para o câncer deixá-la em paz na viagem à Itália.

Outro companheiro de quarto difícil de esquecer é o de um nordestino, homem forte, acostumado com serviço pesado, à espera de ser encaminhado ao Centro Cirúrgico e ser operado do estômago. Sua mulher, morena simpática, de traços fortes, o acompanhava. Quando ele foi levado do quarto, ela se ajoelhou e começou a rezar – para quem, desconheço. A situação se agravou, no entanto, quando trouxeram o seu marido de volta ao quarto, menos de uma hora depois de sua saída. Os médicos lhe disseram que a cirurgia fora suspensa devido à gravidade do caso e eles tentariam combater as células cancerígenas com o tratamento quimioterápico. O marido ainda entorpecido pela anestesia, os olhos fechados, permanecia inerte na cama. Ela chorava e voltara a rezar.

Há ainda o caso de um rapaz, alto, loiro, pouco mais de vinte anos, que sempre adormecia com um tampão nos olhos. A sua mãe não o deixava sequer um instante. Os médicos fizeram um exame e agora estavam examinando para verificar como se encontrava o seu estado de saúde. Ele era só alegria e fazia planos para voltar a andar de motocicleta e, se possível, retornar ao trabalho. O curioso era o seu endereço: morava no mesmo bairro onde eu residia, a dois quarteirões de distância. Ficamos de nos encontrar quando tivéssemos alta médica. Era um jovem amigo a acrescentar em minha vida, pensei. Engano. Pouco mais de duas semanas depois, informaram-me de sua morte. Eu, ainda esperançoso, prosseguia com o tratamento.

Permaneci como funcionário da Prefeitura de Santo André por quase três anos, de 1979 até o final de 1982, quando acabei demitido. O prefeito era o mesmo que me demitira a primeira vez, na década de 70: o meu padrinho de casamento Newton da Costa Brandão, duas vezes padrinho, duas vezes demissões. Nesse período, como praticamente não fazia nada, bebia em demasia pela manhã e dormia à tarde. Voltava à Prefeitura para marcar o cartão de ponto e tornava a beber. A Ilca jamais interferiu em minha vida e, por sua natureza, nada comentava e aceitava continuar vivendo com aquele homem em declínio moral e profissionalmente.

Um dos pontos positivos desses anos, acredito, deve ter sido o lançamento da minha novela Adeus ao Continente, lançada em 1982, em um bar noturno. Vários amigos compareceram para prestigiar o lançamento. A jornalista e crítica de Literatura Virginia Pezzollo publicou uma resenha no Diário do Grande ABC, com a foto da capa do livro – os símbolos sexuais feminino e masculino girando com o universo. E Virginia Pezzollo quem escreve: "José Marqueiz que pela sua trajetória no jornalismo recebeu o Prêmio Esso Nacional, começa a se firmar na literatura, campo onde incursiona com alguma habilidade. Após Ilha Humana, premiado pela Prefeitura de Manaus e Villas Boas e os Índios, volta às livrarias com novo título: Adeus ao Continente, embora o autor o apresente como romance, é uma novela. A trama, quase isolada, firma-se entre dois e três personagens; o que não diminui, em absoluto, o mérito do trabalho. Talvez, apenas, altere sua classificação literária, muito embora os tênues limites entre ambos os gêneros sejam por demais conhecidos".

Virginia continua: "dono de prosa ágil, de agudo senso de observação das contradições do ser humano, José Marqueiz relata o difícil percurso de alguém em busca de sua própria identidade de reconstrução anterior que o leva a dar o seu Adeus ao Continente, quando procura encontrar-se na solidão de uma ilha. Achar uma verdade que se encontra muito mais entre os que o cercam, o ambiente social que rejeita ou discrimina os que não se curvam nem se amoldam aos padrões estabelecidos".

Após comentar o desenrolar da narrativa, a jornalista encerra: “a própria personagem, angustiada e aflita por sua condição de homossexual que acompanha os crescentes sinais de decadência física, ganha do autor passagem onde se evidencia uma espécie de autopunição pelo fato de não ser exatamente igual aos demais. Chega a ser compreensível certos senões moralísticos num terreno onde é enorme a soma de ideias pré-concebidas. Isso não impede que Adeus ao Continente seja de uma leitura atraente e agradável, pois, acima de tudo, José Marqueiz conta uma história que o leitor acompanha com interesse e facilidade. Até ao fim de certa forma inusitado, onde o autor, propositadamente, joga a trama numa espécie de vácuo, do qual o leitor é chamado a participar, a colaborar na transformação de Ricardo num novo homem, como ele afirma”.

Apesar da crítica favorável, não me senti entusiasmado a continuar escrevendo, praticando literatura, como se diz. Só dez anos mais tarde é que iria escrever um novo livro. Saindo da Prefeitura, fiquei quase um ano desempregado. Bebia, bebia, acelerava o declínio profissional. Mesmo nessa precária situação, consegui de um advogado amigo abertura de processo para conseguir o divórcio e estar legalmente apto a me casar de novo. O que veio ocorrer em 1984. Uma semana após o casamento no cartório civil – divorciado não pode casar no religioso pelos preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana – me encontrei com o Fausto Polesi, então diretor de redação do Diário do Grande ABC. Perguntou como eu me estava e eu, respondi, secamente, me encontrar desempregado, sem ter dinheiro ao menos para pagar o aluguel da nova casa onde fui morar. No outro dia, voltava a trabalhar no Diário do Grande ABC.
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Na próxima quarta-feira, o décimo sétimo capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza/ Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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As leitoras DANIELA, do Rio de Janeiro (RJ) e CAROL, da Metodista, de São Bernardo do Campo (SP), foram as ganhadoras do livro "Villas Boas e os Índios", de José Marqueiz, sorteados na semana passada e já receberam seus exemplares. A Ilca Marqueiz enviou outros dois livros, que serão sorteados no próximo capítulo.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010


"A GENTE SE VÊ POR AQUI"
(ou para onde a Globo conduz nossas famílias)


Há anos, a TV Globo tem o domínio do mercado brasileiro pela qualidade da programação artística, esportiva, jornalística, de shows e, principalmente, de novelas.

No jornalismo, de maneira hipócrita, tenta ser imparcial, mantenedora da moral e dos bons costumes, critica, tenta dar lições de comportamento, ensinamentos éticos, combate à violência contra a mulher e a pedofilia, assuntos extremamente explorados pelo noticiário.

Insere, em suas novelas, campanhas de Vacinação, Criança Esperança, Teatro, Circo, etc., na base de "cultura e cidadania a gente vê por aqui".

Com a qualidade da programação e a extrema competência do grupo de atores que integra seu cast, a Globo não economiza suntuosidade e qualidade em suas produções. Porém, nas extravagâncias novelescas exagera na medida, sem se importar com os fins, nem com os meios que utiliza para alavancar audiência e, claro, anunciantes. As incoerências dos "gênios" autores do atual folhetim das nove, intitulado "Passione", que a princípio sugeria inocência nos capítulos ambientados em inocente povoado italiano e na gigante São Paulo.

Somente em "Passione" estão inseridas contravenções do cotidiano que desnuda perigosamente temas conflitantes como moral, ética e bons costumes. Entre as aberrações, escancara:
- traições em família;
- sexo, sexo, sexo;
- pegação aviltante que, ao contrário de amor, sugere transa;
- insubordinação de filhos aos pais;
- mãe perde o amante para a filha;
- rapaz tem filho e mulher italiana e outra, também com filho, em São Paulo;
- trapaceira trai marido italiano;
- garota que era filha e passou a ser neta da mãe e filha da irmã;
- vigarista tenta entrar em família para gerir negócios em metalúrgica;
- corredor playboy tenta se matar porque foi preterido pela mulher, que preferiu seu melhor amigo que, por sua vez, vai se casar com a filha da dona da fábrica a quem não ama;
- outro playboy, ciclista cuja mãe trai o pai com o namorado da filha, é pego no dopping (drogas);
- por ganância, filho quer interditar a mãe e sabotar a empresa;
- avó cafetina empurra garota (menor de idade) para um crápula transar, no maior flagrante de PEDOFILIA, via Embratel.

Pela ausência de atuação de canais competentes, que deveriam barrar cenas desnecessárias que aviltam as famílias, o circo está montado com espetáculos para todas as idades, já que é apresentado às nove da noite. As ações incentivam os menos avisados às contravenções e crimes, por enquanto, impunes, inseridos no tema do dramalhão global. Nenhum núcleo temático dessa novela sugere algo, mesmo remotamente, que seja puro, ético, moral, de cidadania e comportamento familiar exemplar.

Certamente, pela competência, recursos e poder, a Globo tem condições de oferecer entretenimento, espetáculos, novelas e jornalismo com qualidade, sem aviltar a moral e os bons costumes das famílias brasileiras, já cambaleantes, sem sugerir violência, trambicagem, uso de drogas, traições familiares e "incentivo" à pedofilia.

Longe deste comentário caracterizar puritanismo hipócrita e franciscano, indagamos para onde a Vênus Platinada pretende conduzir um povo carente de cultura e que ainda engatinha rumo a uma civilização estruturada?

Toda censura é abominável, porém a libertinagem segue na contramão da moral e da democracia.

Enfim, "a gente se vê por aqui"!

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*OSWALDO LAVRADO é jornalista e radialista, radicado no Grande ABC.
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domingo, 1 de agosto de 2010


ENQUANTO DORMEM

AS CRIANÇAS



A tormenta se desenha no céu: faiscar de relâmpagos. Chicotes de fogo, semelhantes ao piscar incessante de luzes fantasmagóricas, iluminam com rastros afogueados e aterradores a densa camada de nuvens cinzentas que se aproxima. Potentes trovões ribombam, revelam a manifestação ruidosa da fúria da natureza. Sinal de alerta máxima: chuvarada forte, tempestade e ventos avassaladores, perigo de inundações em diversos pontos da cidade, graves consequências para a população das áreas de risco.

Transeuntes se apressam, cruzam as vias com passos rápidos, buscam o refúgio de abrigos seguros ou aguardam conduções lotadas que chegam com atraso aos pontos, engarrafadas no trânsito caótico. Moradores de rua e drogados zanzam de um lado para outro, sem destino, olhares perdidos no horizonte, à espera de um milagre que não se realiza.

Ouve-se, não muito longe, o insistente latido de um cão. Talvez esteja faminto, abandonado pelo dono. Ou mesmo ladrando para alertar sobre a presença de intrusos prestes a invadir uma propriedade. Cachorros são guardiões fiéis, atacam desconhecidos. E são muitos os que se aproveitam do pânico e do desespero que assolam os moradores diante da iminência de um temporal para roubar.

Dois meninos, irmãos de 7 e 8 anos, estão alojados na casa simples, erguida com blocos e madeira, coberta com telhas de amianto. A residência modesta se localiza num bairro da periferia desprovido de benfeitorias. A rua onde se situa o imóvel é esburacada, escura, com entulho e lixo esparramados nas imediações.

No aposento minúsculo, de paredes desbotadas, com manchas de insetos esmagados, os dois estão amarrados nas camas, impossibilitados de tentar uma desesperada fuga. As bocas foram amordaçadas para evitar gritos. Os únicos móveis são as camas velhas, além dos colchões encardidos, cheirando a mofo. A janela fechada está protegida por enorme cadeado. As crianças mais parecem desmaiadas que adormecidas após exaustivo dia de terror. O sono não é tranquilo, percebe-se agitação. As fisionomias revelam cansaço e medo. A propriedade, locada em nome de um laranja, fora um achado do Comando para servir de base e esconderijo.

Os sequestradores, três deles, estão na sala, inquietos, diante de uma garrafa de bebida. Parecem tensos, mantêm as armas junto aos corpos, dispostos a qualquer tipo de violência. São pistolas de grosso calibre, com balas explosivas, contrabandeadas por um fornecedor de confiança. O mais jovem, magrelo, aparenta vinte e poucos anos. Tem estatura mediana, braços cobertos por enigmáticas tatuagens e indecifráveis inscrições cabalísticas, usa um boné escuro. Súbito, ergue-se, caminha em círculos, coça a orelha, dirige-se ao mais velho do grupo. A voz é estridente:

- E aí, mano? Tô aqui neste mocó do fim do mundo, chumbado, sinto falta de uma cheirada. Quanto tempo de espera? Os nervos começam a mexer comigo, ta pegando mal.

O homem que parece ser o chefe tamborila com os dedos na mesa, franze o cenho e se levanta da cadeira vagarosamente. O porte é atlético, ele é alto, mais de um metro e oitenta. Possui cabelos ralos, barba por fazer, desleixada. Conhece a rudeza dos presídios, cumpriu condenação por assalto e tentativa de homicídio, mas foi beneficiado com a progressão das penas e escafedeu-se da penitenciária na primeira oportunidade. Esboça um sorriso:

- Calma, Biriba, apague o pavio, ele é curto, você parece doidão.

- Sei não, sei não, Cunha, tô com o pensamento confuso, tem alguma coisa errada, mau pressentimento, um bicho martela aqui na cabeça. Ouço vozes, confusão, coisas de mau agouro. Preciso mandar fechar o corpo, lavar o esqueleto com sal grosso, oferecer presentes pros santos. Tô em dívida, Pai Preto mandou e eu não fui.

Chapéu, o terceiro homem, mais velho, cabelos grisalhos, rosto impassível e duro, barriga saliente, fugitivo da penitenciária onde cumpria pena por estupro, intervém, gesticula com os braços peludos:

- Também estou ansioso, com frio na barriga, as horas passam, vem tempestade por aí. Detesto temporal e é chato ficar parado, ter de esperar. Gosto mesmo é de ação, movimento, assalto é mais emocionante. Pimba, passe pra cá, otário, a casa caiu. Divertido, o cara amolece, derrete feito sorvete, entrega o que tem. Embolso a grana, cartão de crédito, anéis, celular, todo o bagulho, liquido a fatura, fim de papo

Cunha acalma os companheiros

- Devagar, gente, disse e repito. Vamos pra cabeça, é só o começo, manos. Mas é galinha morta, bolada firme, na mão, pra encher os olhos. O negócio terminou, o pai das crianças concordou em pagar oitocentos mil. Foi o máximo que deu pra conseguir, mas ta de bom tamanho.

- É pouco, merreca, quanto vai sobrar? Temos de dividir com o Comando, a ordem veio do presídio, a logística, as dicas para pegar os meninos na saída da escola.

A ação de captura das crianças fora rápida e eficiente. Surpreendidas enquanto aguardavam a chegada da mãe, foram arrastadas e colocadas no banco traseiro do veículo, ameaçadas caso gritassem. Depois, os sequestradores trocaram de carro e as levaram ao cativeiro. Os contatos foram feitos com o pai dos meninos e resultaram em entendimento. Os dois seriam libertados após o recebimento do resgate exigido. Se ele chamasse a polícia as crianças seriam mortas.

- E a minha situação, mano? – indaga Biriba. Trabalhei pro cara, segurei a barra, aturei desaforos, fui funcionário dele pra checar as informações, espreitei, descobri que ele guarda bufunfa no cofre. Tive de engolir desaforos, segurei os pontos pra não mandar o idiota pro inferno. Tudo bem, tudo bem. Agora pergunto: e se eu for reconhecido pelos garotinhos que estão lá em cima? Claro, quem se ferra sou eu. Nunca fui pego, meu. Prefiro morrer a me entregar. E garanto: não vou sozinho.

- Você tava de capuz, mano. Qual é o galho? Foi tudo beleza, numa boa, ganhamos, eles perderam.

- Os meninos são espertos. Será que se ligaram na minha voz? Vejo um negócio estranho nos olhos deles, parece coisa de bruxaria.

- É só ideia maluca, mano. Lembre-se: pedimos dois milhões, oitocentos mil foi a quantia que ele pode arranjar, que tinha disponível, prazo curto, certo? Não se pode bobear, deixar o cavalo fugir. Às vezes é pegar ou largar. Se ele fosse sacar no banco, tomar empréstimo ou vender bagulho pra levantar capital podia complicar, sabe como é. Não vale a pena dar moleza pra polícia.

- Certo, então podemos ficar com os moleques, mudar de cativeiro, pedir mais, damos um tempinho maior. Se o velho resistir a gente envia de presente uma orelha ou um dedo como aviso. O cara se intimida, borra as calças e se vira. Depois a gente embolsa e dá um chega pra lá, dá um sumiço nos dois, joga na represa, põe no microondas, é mais seguro, apaga tudo, não deixa vestígio.

As luzes piscam, a tempestade se aproxima rapidamente, as primeiras gotas martelam no telhado, parecem pedras arrebentando a cobertura.

O chefe procura conversa com os comparsas, fala sobre o final da operação:

- Negócio seguinte, manos. Negão tá de campana, o pai das crianças vai deixar a pasta na Marginal, num ponto escolhido. Sozinho, sem ser seguido, cumpre o trato, larga a encomenda e dá o fora. Se negar fogo, tchau, as crianças dormem para sempre. Negão apanha a carga em segurança e traz pra cá. Logo mais ele telefona. Tá na hora. Diabo, a chuva vai engrossar.
Aguaceiro, raios, rajadas de vento. Galhos se partem, árvores caem, telhas voam, a enxurrada se avoluma, ruas ficam interditadas, águas lamacentas sobem de nível, transformam-se em riachos de forte correnteza. O lixo arrastado bóia ao lado de móveis velhos, travesseiros, utensílios domésticos..

Negão está feliz, apesar do transtorno. Após conferir, verificar de longe, aproximou-se para recolher a mercadoria. De posse da maleta contendo o dinheiro pago para que as vítimas sejam libertadas, acelera a moto expropriada de um motoqueiro durante assalto. Embora não seja a máquina de seus sonhos, quebra o galho. Terminada a missão será abandonada. Ele telefonou para informar aos companheiros que a grana estava a caminho. Podia festejar numa boa, arrumar umas minas e cair na farra. Curtição, o mundo que se danasse.

Súbito, zunido, buzina, freada brusca, barulho de colisão. O carro emparelhado desliza na lâmina de água e bate na moto. Negão voa, parece avião caindo, despenca na avenida, o corpo rola muitos metros, o nariz sangra, os dentes estão quebrados. Respira com dificuldade, a dor é insuportável. Não consegue se levantar, a perna está fraturada, fratura exposta. O resgate demora, ele se contorce, a maleta escapou da mão, está ao lado, aberta. Uma viatura policial estaciona, conseguiu furar o bloqueio das vias interditadas, invadidas pela inundação.

Na casa, os bandidos se impacientam, estranham o atraso. Negão não telefonou novamente, podia dar uma explicação. O chefe também se irrita:

- É a maldita chuva, o trânsito, fiquem frios. De qualquer modo não dá para sair, a coisa tá preta, o estrago tá feito. Negão não é de embromar, é cabra de confiança, chega logo. O celular deve estar fora do ar.

O resgate demora, os policiais cercam Negão, desconfiam do dinheiro. Iniciam ali mesmo o interrogatório. Negão se complica, não consegue explicar a origem. Os militares pressionam, exigem respostas imediatas. Pelo rádio, solicitam informações do suspeito. Descobrem que a folha pregressa do homem registra três condenações por roubo e assalto a mão armada.

Sem opção e sob ameaça dos policiais, não resiste. À espera de socorro, com fortes dores pelo corpo todo, quer ser levado a um hospital. Desaba, abre o bico, dá com a língua nos dentes, delata toda a operação e informa a localização do cativeiro.

Alertadas, várias viaturas rumam para o local indicado. Agentes treinados cercam a moradia, ordenam a rendição imediata, gritam para que joguem as armas e se entreguem. Diante da recusa, iniciam a invasão. Os criminosos abrem fogo, atiram a esmo, no escuro, guerra de tiros, fogo cruzado. Um policial é atingido, cai de costas no chão, ensanguentado. Dois bandidos agonizam. Biriba, mesmo com ferimento no braço, consegue escapar, esgueira-se entre o matagal e desaparece na noite.

A polícia, finalmente, domina a situação, entra na residência, vasculha os cômodos. No quarto, as crianças permanecem adormecidas. Um filete de sangue escorre pela cama.

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*GUIDO FIDELIS é jornalista, escritor e advogado
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sábado, 31 de julho de 2010

MAIS UMA DA SÉRIE ACREDITE SE QUISER

O encarregado de uma grande indústria de calçados, cujo nome, por motivos óbvios, vamos manter em sigilo, enviou ao blog as recomendações do Departamento de Recursos Humanos, aos empregados da firma, afixadas no mural da fábrica, que publicamos a seguir:

DA DIRETORIA AOS FUNCIONÁRIOS

INDUMENTÁRIA:
Informamos que o funcionário deverá trabalhar vestido de acordo com o seu salário.
- Se o percebermos calçando um tênis Nike de R$ 350,00 e carregando uma bolsa Gucci de R$ 600,00, presumiremos que vai bem de finanças e, portanto, não precisa de aumento.
- Se ele se vestir de forma pobre, será um sinal de que precisa aprender a controlar melhor o seu dinheiro, para que possa comprar roupas melhores e, portanto, não precisa de aumento.
- Se ele se vestir no meio termo, estará perfeito e, portanto, não precisa de aumento.

AUSÊNCIA DEVIDO À ENFERMIDADE:
Não vamos mais aceitar atestado médico como prova de enfermidade. Se o funcionário tem condições de ir até o consultório médico, pode vir trabalhar.

CIRURGIA:
As cirurgias são proibidas. Enquanto o funcionário trabalhar nesta empresa, precisará de todos os seus órgãos, portanto, não deve pensar em remover nada. Nós o contratamos inteiro. Remover algo constitui quebra de contrato.

AUSÊNCIAS DEVIDO A MOTIVOS PESSOAIS:
Cada funcionário receberá 104 dias para assuntos pessoais a cada ano. Chamam-se sábado e domingo.

FÉRIAS:
Todos os funcionários deverão entrar em férias nos mesmos dias de cada ano. Os dias de férias são: 01 de janeiro, 07 de setembro e 25 de dezembro.

AUSÊNCIA DEVIDO AO FALECIMENTO DE ENTE QUERIDO:
Esta não é uma justificativa para perder um dia de trabalho. Não há nada que se possa fazer pelos amigos, parentes ou colegas de trabalho falecidos. Todo esforço deverá ser empenhado para que não funcionários cuidem dos detalhes. Nos casos raros, onde o envolvimento do funcionário é necessário, o enterro deverá ser marcado para o final da tarde. Teremos prazer em permitir que o funcionário trabalhe durante o horário do almoço e, daí, sair uma hora mais cedo, desde que o seu trabalho esteja em dia.

AUSÊNCIA DEVIDO À SUA PRÓPRIA MORTE:
Isto será aceito como desculpa. Entretanto, exigimos pelo menos 15 dias de aviso prévio, visto que cabe ao funcionário treinar o seu substituto.

O USO DO WC:
Os funcionários estão passando tempo demais no toalete. No futuro, seguiremos o sistema de ordem alfabética. Por exemplo, todos os funcionários cujos nomes começam com a letra "A" irão entre 8h00 e 8h20, aqueles com a letra "B" entre 8h20 e 8h40, etc. Se não puder ir na hora designada, será preciso esperar a sua vez, no dia seguinte. Em caso de emergência, os funcionários poderão trocar o seu horário com um colega. Os supervisores dos funcionários deverão aprovar essa troca, por escrito, mas há um limite estritamente máximo de 3 minutos no vaso. Acabando esses 3 minutos, um alarme irá tocar, o rolo de papel higiênico será recolhido, a porta do box abrirá e uma foto será tirada. Se for repetente, a foto será fixada no quadro de avisos da empresa sob o título “Infrator Crônico”.

A HORA DO ALMOÇO:
Os magros têm 30 minutos para o almoço, porque precisam comer mais para parecerem saudáveis. As pessoas de tamanho normal têm 15 minutos para comer uma refeição balanceada que sustente o seu corpo mediano. Os gordos têm 5 minutos, porque é tudo que precisam para tomar um “Slim Fast” e um remédio de regime. Muito obrigado pela sua fidelidade à nossa empresa. Portanto, toda dúvida, comentário, preocupação, reclamação, frustração, irritação, agravo, insinuação, alegação, acusação, observação, consternação e “input” deverá ser dirigida para o RH com a carteira de trabalho em mãos.
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Atenciosamente
Diretoria de Recursos Humanos
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sexta-feira, 30 de julho de 2010


O BAÚ


Na frente da penteadeira ela podia ver o quarto.

Os lençóis de linho meio rotos e ainda do enxoval haviam sido atirados para o lado em vã tentativa de refresco, pois o calor do sol do meio da manhã esquentava demais o aposento.

Passou as mãos pelos cabelos e foi surpreendida, num repente, pelo passado.

De olhos fechados pretendeu recolher o imaginário feito de campos verdes com cobertura fofa entremeada de florezinhas amarelas. Surpreendeu-se menina, rindo de prazer ao colher os minúsculos ramalhetes que usava para decorar sua cabeça. Tudo para ela, em seu mundo, eram campos floridos.

Dividiu uma vez mais as madeixas e viu-se jovem, morando ainda na fazenda, encantada com aquelas paisagens, já com mostras de querer explorar não só essa sensação de liberdade, mas o misto de curiosidade e timidez, toda a vez que trocava olhares com um dos jovens empregados.

Um punhado a mais de emoções apanhadas em sua mente, ainda com os olhos fechados, ao se lembrar que ele lhe dera um pequeno buquê daquelas flores amarelas, para impressioná-la e mostrar que desde muito a observava.

Em silêncio, os dois conversavam através de olhares e desenvolveram tal aptidão de troca de sentimentos que o futuro já estava, assim, determinado. Acabariam juntos, embora as famílias resistissem ao enlace. Em silêncio, trançaram planos secretos em um dialeto próprio, feito de olhares e piscadelas. Aquele lençol era a testemunha silenciosa que a forçava a se recordar de tudo.

Uma mecha de saudades foi juntada, embora atravessada pela dor da perda súbita do companheiro. Seus devaneios bem vividos tentavam reunir o passado, lembrança que, volta e meia, a surpreendia e que ela fazia questão de conservar entrelaçada, como exercício para evitar definitivamente sua perda e, por isso, seu baú que descansava embaixo da janela do quarto foi arrumado com o que fora sua existência, organizada como uma longa cabeleira recém penteada.

As preciosidades conservadas ali por admiração acabaram enfurnadas. Levantou a tampa e, por baixo de tudo, viu o ramalhete de flores secas. Lembrou-se da mãe bordando o lençol de linho de seu enxoval, depois imaginou sentir o delicado roçar da grama verde em suas pernas e viu a cena de entrega daquelas flores, ora tingidas de marrom pelo tempo. Só o laço, tirado da roupinha do primeiro filho, ficara conservado.

Queria prender tudo aquilo, todo aquele seu tesouro e, para que o entrelaçamento de anos de felicidade não se desfizesse em longos fios desordenados, fechou o baú! Ao olhar suas mãos viu-se ainda segurando as flores secas, o início e o fim de todo o seu trançado de memórias.

A distração a fez selar o destino do buquê, através das prestimosas mãos da empregada.

*SILVANA BONI DE SOUZA é farmacêutica bioquímica, especialista em Homeopatia. Escritora de contos e crônicas, desde 2000 participa de projetos dinâmicos como estes dois conhecidos e já consagrados: http://www.vivasp.com/; http://www.carmenrochacontos.pro.br/, além do blog: http://www.deshortsnasiberia.com.br/, de sua autoria.