terça-feira, 3 de novembro de 2009

QUANTO VALE A VIDA DE UM SER HUMANO?


No começo da noite de segunda-feira de Finados vejo no Jornal da Band materia que sintetiza o caos do sistema de saúde brasileiro e o descaso de grande parte da classe médica tupiniquim. A notícia, com texto e imagem, mostrou a sina de um cidadão de 40 anos de Belém, Pará. O homem passou mal em casa na noite de domingo (1) e a família tentou encontrar uma ambulância ou viatura para socorrê-lo, porém não conseguiu por ser feriado nacional. O homem foi colocado em um carro particular e percorreu com a mulher e outro parente, cinco hospitais de Belém, sem obter atendimento. A desculpa foi a mesma: por ser feriado nacional os médicos emendaram o final de semana e nenhum deles trabalhou nos três dias - sábado, domingo e segunda. O homem morreu e a reportagem da TV exibiu o corpo do infeliz nos braços da mulher no interior do carro da família. Não se soube, até esta terça-feira, as causas da sua morte, mas provavelmente a farra dos médicos em um final de semana prolongado tenha sido um dos fatores do desenlace. Esse não é um caso isolado e muito menos restrito ao Norte ou Nordeste "deste País". Gostaria, certamente, redigir para este espaço, outro artigo sobre hilárias histórias de impagáveis viagens por este Brasil ao lado de companheiros do porte do nosso Edward de Souza, como algumas aqui narradas, porém o momento de indignação conduz a outros rumos, infelizmente.
Desde novembro do ano passado (dia 10), tenho percorrido as recepções e salas dos três mais conceituados centros de atendimento médico público aqui do ABC. O Hospital Anchieta (São Bernardo), Mário Covas (Santo André) e a Faculdade de Medicina do ABC (Santo André). Pelo que constatei neste um ano de visitas semanais as três casas de saúde, todas estão equipadas com o que há de mais moderno no Brasil em se tratando de medicina. Entretanto, é ai que entra a indignação, a conduta de muitos médicos, atendentes e enfermeiros ficam distante do que exige o tratamento ao ser humano. Em alguns casos constatei indescritível deboche do pessoal enfiado em jalecos impecavelmente brancos. Claro que toda generalização é estúpida e nem é esse o objetivo deste relato. Tenho visto um sem número de aberrações, insensibilidade, descaso e desrespeito ao cidadão que não frequenta corredores de hospitais pelas aparências de seus funcionários, mantidos e pagos pelo paciente desdenhado. Já na terceira idade, sendo mais da metade dedicada ao jornalismo e, por consequência, ao aprendizado da lida com o ser humano de todas as classes sociais, vejo disparates cometidos por aqueles que têm por dever e juramento servir a população com humildade, respeito e principalmente dedicação profissional.
Em um determinado momento de pouca inspiração de um rapaz, jaleco límpido, barba aparada, falando ao celular no interior da sala de atendimento, a paciência e resignação escaparam de controle e tivemos pequena altercação, que só não teve outras consequências porque o infeliz percebeu que não estava lidando com "antas" e muito menos subjugados. Fui levado a fazê-lo entender que deveria ter se formado para exercer profissão em abatedouro, labuta mais adequada ao seu caráter. Felizmente o jovem médico assimilou o recado e a pendenga ficou por ali. Mas presenciei outros lances de atendimento impessoal e alguns até desumanos, que reforçaram meu conceito sobre certas profissões e determinados profissionais.
Apenas para justificar a ocupação deste espaço, relato pequeno fato que deixa abismado qualquer ser de médio raciocínio ou espírito de pastor de ovelha. Fiz, no Hospital Mário Covas, uma biópsia no dia 22 de julho. Apanhei os exames dia 07 de agosto e, no mesmo dia, levei ao Hospital Anchieta, porém o médico só foi examinar o resultado do exame agora, dia 19 de outubro, ou seja, mais de 60 dias e, em apenas 5 minutos de atendimento, sem me olhar nos olhos, passou mais um punhado de exames (entre os mais de 50 que fiz em um ano) para depois agendar uma possível cirurgia, que deve acontecer, se não for tarde demais, somente no ano que vem. Um disparate. Vale ressaltar que o Anchieta (hospital municipal de ensino) e Mário Covas (estadual), têm parceria com a Faculdade de Medicina, da Fundação do ABC, de onde são enviados os respectivos médicos.
A irresponsabilidade no episódio da matéria da Band, que resultou na morte do jovem de 40 anos, em Belém, se junta ao que tenho visto "in loco" e sentido literalmente na carne, o desdém dos que tem a vida de um semelhante em suas mãos. Não se trata de desabafo pessoal, aliás, irrelevante, mas o relato de fatos constados na saga de quem vive em uma das mais importantes metrópoles do Brasil e da América Latina.
A qualidade e aparelhagem dos centros hospitalares, que nos três casos acima citados são de primeiro mundo, não camuflam a insensibilidade de profissionais que manipulam os equipamentos e muito menos escondem o despreparo dos que tem o dever de cuidar de vidas com a dignidade que a profissão exige.
Certamente outros tantos e triplicados casos, como o do infeliz homem de Belém, pululam Brasil adentro, em menor ou maior escala, mas que ficam no ostracismo pela resignação ou morte do paciente. Fui, nos anos 90, vítima de dois sequestros relâmpagos aqui em São Bernardo, porém nem mesmo os marginais se mostraram mais insensíveis do que certos médicos, enfermeiros e atendentes de muitos hospitais. Efetivamente, ainda estou nas mãos dos que ostentam belos anéis e vistosos diplomas, mas infelizmente boa parte está despida de sensibilidade para lidar com seres humanos. Isso, faculdade nenhuma ensina. Deveria...
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista, radicado no Grande ABC
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

DIA DE FINADOS: FIQUE DE OLHO NOS VIVOS

.Hoje é dia de saudades, dia de cemitérios, que se vinculam a uma idéia profundamente arraigada no coração humano do culto aos mortos, tudo reduzido a um sentimento de veneração, onde os filhos de Deus descansam em paz. Um dia de ganhos para os que vendem flores, terços e velas. É o dia da celebração da vida eterna, daquelas pessoas queridas que já faleceram, despertando, em cada um de nós, o desejo de abraçá-los outra vez. Essa vontade de rasgar o infinito para descobri-los, de retroceder no tempo e segurar a vida.
Em outras culturas, as despedidas não são feitas de lágrimas, mas de júbilo pela vida que foi passada sobre a terra, e pela nova existência agora em outro plano. Os espíritas acreditam na encarnação e reencarnação, o que significa que, a morte do corpo não representa a morte do espírito e, dessa forma, é possível voltar a viver em outro momento, com o mesmo espírito, mas em um corpo diferente. Essa crença se consiste na idéia de que se pode ter mais uma oportunidade para progredir, ética e moralmente. Até os cientistas, que só acreditam no que podem comprovar, tentam explicar que existe vida após a morte. Existem religiões porque existe a morte e além da morte o grande vazio e a grande interrogação sobre o que nos espera. Todos os credos tentam preencher esse vazio criando céus e infernos mais ou menos semelhantes onde gozaremos a vida eterna como recompensa de nossas boas ações ou padeceremos no fogo por nossos pecados. Não existisse esse medo nem essa interrogação, a gente iria levando a vida a cada dia esperando na próxima esquina a visita da dama de negro que a todos nos levará um dia.
O que não se pode é fugir de uma realidade. Nesses cemitérios da vida repousam esperanças que não se confirmaram justamente por conta da ação dos que estão vivos. E, frequentemente, dos que são vivos demais. Neste dia dos mortos, senti-me tentado a escrever alguma coisa contra os vivos demais. Sim, aqueles que gozando de boa saúde não se cansam de explorar seus semelhantes a qualquer preço. Há espertos por todos os cantos. Hoje mesmo, nos cemitérios, onde as pessoas vão reverenciar os seus mortos, há muitos deles. Uns vendem água a preço de petróleo, outros oferecem flores, pipocas e abacaxis como se estivessem comercializando pepitas de ouro, sem falar nos guardadores de carros, que cobram pedágio de estacionamento. Se o distinto não quiser pagar, corre o risco de ter o carro riscado. Ou então levado pelos "amigos do alheio".
Na longa lista desses "espertos", o primeiro lugar da fila é seguramente ocupado por políticos. Não todos, é claro, mas a grande maioria que avança com sede sobre o erário, sempre à procura de uma vantagem qualquer. São tão "eficientes" que fazem fortuna em quatro ou oito anos de mandato. Aprovam emendas ao orçamento da União e as intermediam, levando uma boa parte para as suas próprias contas bancárias. É injusto, porém, restringir a lista dos "vivos demais" apenas aos políticos. Nos mercados públicos, por exemplo, onde a classe média e a pobreza fazem compras, a esperteza não é menor. Rouba-se no peso, na qualidade dos produtos e até nos sacos de embalagem.
Em muitas cidades desse imenso Brasil com lágrimas ou com bom humor, homenagear os mortos parece ser uma necessidade universal, uma maneira de reverenciar os antepassados e de lembrar que todos são mortais. Criaram um sistema de atendimento diferenciado para os candidatos a defuntos que são fanáticos por futebol. Empresas passaram a vender urnas mortuárias - caixões - com os emblemas de times de futebol. Os mais procurados são os times do Flamengo, Corinthians e Vasco da Gama. Mas, se a família do torcedor preferir o emblema do Santo André - que continua vivo no Brasileirão depois de derrotar o Grêmio da Nivia Andres por dois a zero - ou da Francana, que já morreu só já falta sepultar, é possível mandar fazer um adesivo para colocar no caixão. Além do emblema do time favorito, a família do torcedor tem direito, se quiser, ao hino do seu time. Neste caso, um carro de som acompanha o cortejo fúnebre até o momento do sepultamento. Uma urna mortuária com o emblema de um time custa, em média, R$ 1.500.
Malandragens à parte, não há como negar. Neste dia dos mortos sofremos muito. Tantos momentos agradáveis já se foram, tantas risadas gostosas se calaram. Ficamos meio tristes, meio bobos, meio tontos. Acho que vivemos apenas para lembrar, relembrar e, sobretudo, para reverenciar os que já partiram. Assim ficamos mais frágeis e acabamos sempre sendo enganados pelos vigaristas "vivos" que pululam por todos os cantos. Confesso a vocês. Se dependesse de mim, ficaria o dia inteiro calado. Aprendi desde pequeno com meus pais que o silêncio é a única linguagem que Deus entende. Nem mesmo este texto eu teria escrito.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A OUTRA FACE: UM GESTO DE CORAGEM

O nono parágrafo do capítulo 37 do livro “Fonte Viva” (edição FEB/1986), psicografado por Francisco Cândido Xavier e ditado pelo espírito Emmanuel, assim diz: “Se não é justo atirar petróleo às chamas, com o propósito de apagar a fogueira, ninguém cura chagas com a projeção de perfume”. No parágrafo anterior (oitavo) da mesma lição, o sublime guia espiritual de Chico diz: “Nas horas difíceis, em que vemos um companheiro despenhar-se nas sombras inferiores, não olvidemos que, para auxiliá-lo é tão desaconselhável a condenação, quanto o elogio”. Infelizmente, a humanidade num todo ainda não consegue compreender que a paz que tanto se almeja só será possível quando o respeito se fizer presente nas relações humanas. O amor fraterno se seguirá e com ele a harmonia fraterna será uma realidade. Acusamos, criticamos, agredimos, vilipendiamos e ferimos com atos e palavras nosso próximo (nossos irmãos), justificando com esses atos que se trata de um revide. E, pasmem! Somos cristãos.
O revide não é ato de um cristão. No Novo Testamento assim está escrito: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, orientai-o com espírito de mansidão, velando por vós mesmos para que não sejais igualmente tentados”. (Paulo. Gálatas, 6:1.).
O mundo sempre esteve repleto de guerras. Guerras que começam porque o orgulho de alguém foi ferido. O diálogo, o ensino cristão e outras filosofias religiosas semelhantes, nunca foram empecilhos para a truculência do homem. No dia a dia, as páginas dos noticiários policiais estão repletas de fatos de ferocidade e horror. Questões de trânsito, familiares, passionais, entre vizinhos e desrespeito às leis dos homens e às leis naturais. Uma “estupidez geral”! Reclamamos dos mandatários sem nos atermos que esses indivíduos são frutos do meio em que vivemos. Daí...
O orgulho e seus filhos diletos, entre eles a hipocrisia, imperam em um mundo perfeito, maculado por uma humanidade insensata. “Dar a outra Face” para essa mesma humanidade é sinal de covardia. Entretanto não poderia haver maior ato de coragem ao fazê-lo. Em “Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo XII, ”Amai Vossos Inimigos”, item 11, “O DUELO” (Livraria Allan Kardec Editora), apesar de ser, para alguns, um capítulo ultrapassado, nunca foi tão atual como o é nos dias de hoje. Na época os duelos físicos (pistolas e espadas) eram comuns, mas eles continuam verbalmente, ocasionando discórdias e tragédias. “(...) Refleti um pouco: por causa de uma palavra, as vezes dita irrefletidamente, ou quase inofensiva, da parte de um dos vossos irmãos, inflama-se o vosso orgulho, respondeis de modo irritado, e daí uma provocação” (...). Frases como essa, nos mostram que duelamos todos os dias com insultos ou objetos. Não temos a coragem de nos resguardar ou dar a outra face. O orgulho fala mais alto e as tragédias e desentendimentos se sucedem. Enfim, podemos almejar por paz, se cada um de nós não está contribuindo para que isso aconteça?
A importância da doutrina espírita está exatamente em chamar a atenção para o que está escrito no parágrafo acima. Muitos dos detratores se apegam na lei da reencarnação para combater o Espiritismo. Porque será? Nós espíritas, sabemos a resposta. O foco maior da codificação é chamar a atenção da importância da reforma íntima. Conscientizado disso, o indivíduo lutará todos os dias para diminuir seus defeitos morais e materiais.
“Dar a outra face” não é seguir literalmente o que diz a frase. É ser corajoso e mostrar que aqui estamos para evoluir moral e intelectualmente. É dizer que com truculência verbal ou física a paz está longe de ser alcançada. “Não existe um caminho para a paz; a paz é o caminho” (Mahatma Gandhi).
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, escrevendo crônicas, contos, artigos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

UMA PISCINA DE CERVEJA PARA HÓSPEDES

Por cerca de R$ 360, é possível nadar por duas horas na "gelada". Segundo donos desse spa na Áustria, cerveja limpa a pele e ajuda a cicatrizar feridas.
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Visitantes relaxam na piscina de cerveja oferecida por fabricante na Áustria. Por 135 euros, o equivalente a cerca de R$ 360, é possível nadar por duas horas na cerveja, fabricada no local.
O spa oferece 7 piscinas, todas preenchidas com cerveja. O líquido é trocado a cada sessão. De acordo com os proprietários, o banho de cerveja limpa a pele, ajuda a cicatrizar feridas e combate doenças.
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CERVEJA FAZ BEM À SAÚDE?

Assim como todos os alimentos, os cientistas ainda estudam os efeitos benéficos ou maléficos que a cerveja produz no organismo. Mas de uma coisa todos já têm certeza: Assim como todos os alimentos, o consumo da cerveja deve ser Moderado. Os efeitos do álcool sobre a saúde dependem fortemente da quantidade consumida e de outros fatores como sexo, peso corporal, alimentação e predisposição genética.
O abuso do álcool aumenta a mortalidade por causar doenças cardiovasculares, doenças no fígado, e câncer. Essa é a parte ruim da coisa. A literatura mais recente, entretanto, indica que o consumo moderado de álcool está associado a uma redução total do risco de mortalidade. De acordo com as novas pesquisas, o baixo índice glicêmico e as propriedades fitoestrogênicas da cevada e lúpulo usados na produção da cerveja são elementos que promovem uma dieta equilibrada e previnem a ocorrência de doenças cardiovasculares. Recentemente dados foram publicados sobre os potenciais efeitos protetores dos antioxidantes do vinho. Foi também descoberto que a cerveja, vinho e destilados diferem muito no seu conteúdo antioxidante, mas o consumo destas bebidas não leva a diferentes capacidades antioxidantes no soro humano. Novos números, entretanto, sugerem que o consumo moderado de cada tipo dessas bebidas alcoólicas aumentam semelhantemente a capacidade antioxidativa no soro humano. Estas descobertas elucidam a contribuição do consumo moderado de álcool para um estilo de vida saudável.
Não se iluda. Cerveja dá barriga, sim senhor. Assim como quase todos os outros alimentos, uns menos, outros mais. Um copo (300 ml) de uma cerveja do tipo Pilsen, por exemplo, possui cerca de 300 calorias. As cervejas encorpadas, sobretudo as Ales, têm ainda mais calorias por mililitro. Portanto, a palavra de ordem, como tudo na vida, é Moderação. O Consumo regular e moderado de cerveja pode tornar-se um estilo saudável de vida, juntamente com uma alimentação equilibrada e exercícios físicos.

Pense com carinho!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ISSO É O BRASIL: A ONG DOS DESCASADOS

GUIDO FIDELIS

Depois do sexo, esporte em que o brasileiro é campeão absoluto, deixando gringos de todos os quadrantes de queixo caído com a sensualidade das mulheres que exibem empinados bumbuns nas praias e nas ruas, outras preferências nacionais residem na criação de novas igrejas e de uma infinidade de ONGs, negócios que prosperam país afora e que rendem excelentes dividendos aos seus dirigentes. Quanto às igrejas, proliferam como a velha saúva que devorava a produção agrícola no tempo em que inexistiam os sem-terra e os coronéis mandavam e desmandavam no campo. Estão em todos os bairros e atraem fiéis com ofertas imperdíveis, que podem ser pagas em suaves prestações na forma de dízimos. Transpor as portas de certos templos é como transitar numa feira-livre, caminhar entre barracas, escolher frutas e verduras. Basta definir o produto ou o milagre preferido e o desejo será satisfeito prontamente. Com pagamento adiantado, em dinheiro sonante, tudo se comercializa em nome de Jesus.
Como não tenho vocação para erguer uma velha Bíblia com mãos veementes de fanático e pregar, utilizando-me da voz grave e pausada dos arautos do apocalipse, para multidões de crentes que certamente me retribuirão com generosas oferendas no aguardo de que minhas promessas de intermediação com Deus equacionem difíceis questões sobre a melhor maneira de expulsar o diabo, além de indicar rota segura para a glória e o enriquecimento, fico com as ONGs. Nada de imitar Sísifo e empurrar pedra montanha acima. Ao contrário do que se diz, a montanha virá a Maomé. Efetivamente, trata-se de um negócio que exige menos esforço, mais de acordo com minha postura preguiçosa, com meu jeito de agir silenciosamente nos bastidores. Longe de holofotes, de exposição na mídia, de confusão com lobistas e doleiros, dentro do sagrado princípio de que boas transações exigem discrição absoluta.
Há milhares de ONGs, mas há espaço para outras tantas. Elas ocupam o lugar do Estado, são impenetráveis, prosperam graças a contribuições oficiais e anônimas. Pode-se, por exemplo, promover a defesa dos ouriços pretos, de suaçus e libélulas e até mesmo da conveniência de substituir a mala preta pelo canguru como meio de transporte de valores destinados a corromper.
Penso em instituir uma ONG acima de qualquer suspeita e, desde já, aceito candidatos a cargos de direção do grupo que terá forte representatividade e que se disponham a antecipar verbas de custeio, com garantia de retorno, rentabilidade sem nenhum risco para o investidor.
Proponho-me a estabelecer as diretrizes para a criação do Instituto Messalina de Pesquisas Afrodisíacas. Independente dos estudos que serão realizados no campo da sexualidade, voltados para ativar a libido e melhorar o desempenho dos casais, o objetivo principal será o de defender interesses econômicos dos descasados, daqueles que se separam de cônjuges ricos e se transformam em nau sem rumo, em meio às ondas revoltas da incerteza quanto ao futuro que se avizinha, ou seja, sem grana para sustentar o luxo e a mordomia.
A ONG cuidará principalmente de socialites que se sentirem abaladas emocionalmente e desequilibradas financeiramente. Claro, desde que os ex-maridos tenham patrimônio que possa ser dividido e disponham de numerário para pagar gordas pensões. As frequentadoras das altas rodas e de salões elegantes receberão tratamento de primeiro mundo, com advogados, psicólogos, religiosos, professores de expressão corporal e instrutores de lutas marciais, prevenção contra agressões físicas de rivais.
Terão, ainda, imenso instrumental para obter o atendimento do pedido, mesmo que sob ameaça de se revelar, por intermédio de escândalos, a nebulosa origem das fortunas daqueles que abandonaram as companheiras. Será montado amplo esquema de divulgação para infernizar a vida dos desafetos que rejeitarem as propostas de acordo. Em casos excepcionais, homens que perdem o sustento de ricaças liberadas, desonrados por terem sido substituídos por outros parceiros mais jovens e atraentes, também serão admitidos como clientes da ONG. Como brinde promocional, os primeiros clientes receberão um pequeno frasco de cristal, com tampa de ouro, para guardar algumas preciosas gotas das lágrimas
derramadas.
Empreendedores que queiram participar do grupo de trabalho devem enviar currículo, aos meus cuidados, indicando disponibilidade para subsidiar as comissões temáticas. Preferência para os que possam financiar os gastos de minha viagem ao país do Papai Noel, onde serei acolhido em audiência especial a fim de receber como prêmio uma
conta secreta nas Ilhas Jersey.
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* Guido Fidelis é jornalista e escritor (autor de 20 livros)
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

UM CACHORRO REJEITADO CHAMADO "FÉ"

Esta é a história de um cachorro que nasceu na véspera do Natal de 2002, cuja autoria das fotos e do relato infelizmente não tenho em mãos para poder acrescentar os devidos créditos. Muitos, por certo, já devem ter recebido esse e-mail, que circula faz algum tempo pela internet. Outros não, por isso, hoje, senti uma vontade imensa de publicar fotos e parte do texto, com as devidas correções, como uma mensagem de "Fé" e esperança para que, quando aparecer nuvens negras em nossas vidas, saibamos sair debaixo e ir à busca do sol, não ficar parado na inércia da incompreensão e do medo. A vida não é um mar de lamentações. Apesar das perdas e das adversidades, os seres humanos são capazes de vencer quaisquer obstáculos. Precisamos aprender a receber com fé, amor e tolerância todas as adversidades, todos os obstáculos que temos que passar. Esse cachorro, cujo nome é "Fé", nos ensina que não devemos desistir, porque enquanto houver esperança, nenhum sonho estará perdido. "Fé" nasceu com 3 pernas - duas saudáveis e uma anormal, na frente, que teve de ser amputada. Certamente ele não conseguia andar quando nasceu. Mesmo a sua mãe não o aceitou. Ele foi rejeitado e desdenhado.
(Edward de Souza)
. Seu primeiro dono também nem acreditou que ele sobreviveria. Assim sendo ele até pensou em eliminá-lo. Naquela época, sua atual dona Jude Stringfellow entrou em sua vida e desejou cuidar dele. Ela estava determinada a ensiná-lo e treiná-lo para andar por si só. Ela acreditava que só precisava de um pouco de fé. Por isso ela lhe deu o nome de "Faith" ( Fé). No começo ela colocava FAITH numa prancha de surf para que ele sentisse os movimentos da água. Mais tarde lhe dava pasta de amendoim, numa colher, como um prêmio e recompensa por ter ficado ereto e saltar pela casa. Até outros cachorros da casa o ajudavam e encorajavam a caminhar. Surpreendentemente, depois de apenas seis meses, como que num milagre, FAITH aprendeu a se equilibrar em suas duas patas traseiras e saltar se movendo para a frente. Depois de mais algum treinamento na neve ele pode caminhar como um ser humano! FAITH adora passear. Não importa para onde ele vai, sempre atrai as pessoas à sua volta. Agora ele está ficando famoso no cenário internacional. Já apareceu em vários jornais e espetáculos de TV. Há, inclusive, um livro cujo título é "With a Little Faith" (Com um pouco de fé), publicado a seu respeito. Ele chegou a ser cogitado para aparecer num dos filmes de Harry Potter.
Sua atual proprietária, Jude Stringfellow deixou seu trabalho e carreira como professora, para levá-lo através do mundo, para orar: "mesmo sem um corpo perfeito, alguém pode ter uma alma perfeita."
Na vida sempre acontecem coisas indesejáveis. O pensamento positivo muitas vezes é a diferença entre o sucesso e o fracasso. Uma pessoa que vê o mundo positivamente encontra soluções, o pessimista encontra apenas problemas. Por essa razão, quando sentir que as coisas não estão indo bem como desejaria, é preciso lutar contra o pessimismo, só dessa maneira poderá ver os fatos sob uma nova perspectiva. Espero que essa mensagem possa trazer a todos nova forma de pensar e encarar a vida, apreciar e agradecer cada dia maravilhoso que se seguirá. A Vida é uma demonstração contínua do poder do pensamento positivo.
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Acredite em você!

sábado, 24 de outubro de 2009

FALTAVA ESSA: ESCOLA FORMAVA JOVENS PARA O CRIME EM S. BERNARDO DO CAMPO


O noticiário de rádio, jornal, televisão, internet e revistas enfocam neste final de semana os lamentáveis acontecimentos que estão ocorrendo no Rio de Janeiro e que ensejou o excelente artigo do jornalista Juliano Morgado publicado neste blog ontem, sexta-feira. Na esteira da tragédia carioca, a imprensa deu destaque à prisão de um casal, aqui em São Bernardo, que comanda verdadeira indústria de aliciamento de jovens e adolescentes, cujo objetivo é prepará-los para o mundo do crime. De acordo com o delegado comandante da operação que desbaratou o esquema, 75 jovens de ambos os sexos, entre 12 e 17 anos, foram encontrados num sobrado em um bairro da periferia de São Bernardo. Denominada "mata aula", a reunião aglomerava adolescentes que participavam de uma espécie de baile funk, organizado por traficantes. Os meninos pagavam dois reais o ingresso, para as meninas a entrada era grátis. Ainda segundo o delegado, os rapazes eram instruídos para o consumo e em seguida ao tráfico de drogas e as garotas à prostituição. Todos os jovens detidos moram no bairro e estudam em escola municipal localizada poucos metros da casa onde funcionava a "escolinha" de preparação ao crime. Como a prisão dos responsáveis aconteceu nesta sexta-feira, provavelmente novos lances da fábrica de aliciar menores irão eclodir e deixar perplexos pais e responsáveis por jovens e adolescentes do ABC.
Há poucos meses abordamos, em artigo publicado aqui neste espaço, os problemas gerados pela indiferença ou cumplicidade de alguns pais em relação aos filhos adolescentes. Foram citados casos de garotos, nossos conhecidos, que tomavam conta de carros na noite de São Bernardo, cujos pais estavam interessados apenas na quantidade de dinheiro que os meninos levavam para casa e nunca com os meios de arrecadação e muito menos onde as crianças passavam a noite, já que chegam em casa sempre pela manhã. Um desses jovens havia, à época, mencionado de passagem algo sobre a festa "mata aula", agora desmantelada pela policia de São Bernardo. Em Santo André, até o final dos anos 90 havia uma casa, comandada por uma mulher e seu marido, que abrigava e instruía jovens para a venda de rosas nas casas noturnas do ABC. De paupérrima condição social e familiar, esses adolescentes, de ambos os sexos, saiam noite adentro oferecendo as flores. Um deles também contou que havia, ainda em Santo André, um sobrado, igualmente comandado por um casal, que aliciava e encaminhava jovens ao uso e tráfico de drogas. Essa residência foi fechada pela polícia no começo do ano 2000 e os responsáveis presos. Estes registros demonstram que a indústria do tráfico lança seus tentáculos aos quatro cantos do Brasil com claro objetivo de formar mão de obra especializada. O alvo, e não poderia ser diferente, são jovens e adolescentes inseridos na exclusão social, cujos pais e responsáveis não têm recursos e, em muitos casos, noção de como criar uma família saudável e distante da marginalidade.
Os acontecimentos do Rio de Janeiro são trágicos e desnudam uma realidade aterrorizante; o caso de São Bernardo direciona para um futuro mais assustador e que, como todos os outros, deixará o noticiário e, pela resignação da população, ficará a margem da indignação de um povo indiferente às atrocidades. Nessa linha, o porvir irá mesclar uma população alheia e alienada ao crime organizado, a formação da pequena e média indústria da marginalidade e agregará ao cotidiano o trucidamento da moral, do caráter e da dignidade do ser humano. Os 75 jovens descobertos na festa "mata aula" nesta sexta-feira em São Bernardo, certamente são sucessores de outros tantos já formados e antecessores de contingente maior que aguardam vaga na promissora escolinha do tráfico.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista, radicado no Grande ABC
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

VIOLÊNCIA GERAL: UMA ESTRATÉGIA
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PARA SE MANTER NO PODER
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Recebemos informações todos os dias sobre a violência reinante no Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras. Na linda capital, outrora sede do governo federal, trava-se atualmente uma “guerra suja”. A Polícia mal paga e com um efetivo de 37 mil homens, o mesmo da década de meados de 80, enfrenta bandidos do tráfico. E pasmem... Os bandidos usando armamentos pesados! No último sábado, a tentativa de invasão ao morro dos Macacos, na zona norte do Rio, por criminosos de uma facção rival resultou em uma série de confrontos. A polícia tentou intervir e se colocou no meio do fogo cruzado. Um helicóptero acabou atingido e caiu, matando três policiais. No total, desde sábado, 35 pessoas morreram em eventos relacionados à tentativa de invasão.
Autoridades brasileiras ainda tentam tapar o sol com a peneira. O ministro do Turismo, Luiz Barretto, disse ontem que as repercussões negativas na imprensa internacional sobre a violência no Rio de Janeiro é uma reação esperada, já que o Brasil está "na cena" por causa da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Por isso, ele disse que não se preocupa com as reportagens sobre a criminalidade na cidade. Por cima, temos que engolir isso. A corrupção, na verdade, é a maior causa de tudo o que
está acontecendo. Episódios degradantes, com políticos e policiais presos ao longo de um período de quase trinta anos, não serviram para nada. A demagogia continua a mesma. Mais irritante ainda é ver o governo atual fazer promessas que certamente não poderão ser cumpridas.
No dia 20 de outubro/2009, ao assistir o jornal da TV Bandeirantes, pude apreciar uma reportagem interessante e bem informativa. Fiquei um pouco surpreso ao saber que o Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, etc., nem constavam nos primeiros lugares de cidades mais violentas do mundo, segundo a revista americana “Foreygn Polyce”. Caracas, a capital da Venezuela consta como a cidade mais violenta da América do Sul. E isso começou a acontecer a partir de 1998 quando Hugo Chávez assumiu o poder. A maior taxa de homicídios de nosso continente subiu na capital venezuelana 67%.
Naquela cidade, autdoors por toda a parte mostram o “presidente” e o Che Guevara. Os morros com suas favelas se assemelham ao Rio de Janeiro. Dois regimes políticos (será que são dois?) e uma realidade: A violência! De um lado as promessas vãs, utópicas e superdemagógicas. Do outro, um povo que não se informa e, por essa razão, continuamos a empurrar com a barriga os problemas que poderiam ser resolvidos em médio prazo se o voto fosse mais consciente.
O episódio que aconteceu em Honduras e ainda não resolvido mostra bem a cara de um oportunismo meio disfarçado. Outro tentando se perpetuar ou alongar-se no poder é barrado. Se o usurpador tem razão ou não, o tempo dirá. Observando-se tudo isso, entre outros fatos que acontecem na América do Sul (Equador, Bolívia...), verifica-se que os meios para se atingir o poder e a glória não tem peia.
A violência parece ser o caminho para esse tipo de governo. “Quanto pior, melhor” seria um pensamento de Lenin? Se não é, aproxima-se da estratégia de se tomar o poder criado por esse pensador entre outros do mesmo naipe. Os europeus, por ser um povo informado, já não se deixam envolver por palavras melífluas e a vida prossegue dentro de um padrão moral razoável. Digo razoável por entender que nosso estágio evolutivo ainda é aquém do que poderia ser. A violência sempre foi os degraus para ditadores. Basta pesquisar a história e se manter informado com o que acontece a nossa volta e, certamente, encontraremos líderes com capacidade para presidir um bom governo.
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, escrevendo crônicas, contos, artigos e matérias especiais. Contato com o jornalista:
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

MEMÓRIAS - CAFÉ DA MANHÃ NA ESTRADA

O ano era 1953. Minha família, pai capitão do Exército, vivia em São Borja, RS, cidade às margens do caudaloso rio Uruguai. Do outro lado fica a Argentina. Tínhamos um Chevrolet preto, naquele tempo todos os carros eram importados, e a gente adorava viajar por aquelas estradas de terra estreitas e esburacadas, cheias de curvas, que se enchiam de nuvens de poeira deixadas pelos veículos, que eram poucos.
Éramos quatro irmãos, crianças, meu pai e mãe. As viagens, verdadeiras aventuras, principalmente porque aqueles carros não tinham hora nem lugar para quebrar, com uma frequência absurda quando comparados com os carros de hoje, de alta tecnologia. Essa dificuldade era atenuada pela notável solidariedade de todos os motoristas na estrada. Quando alguém parava, até para um pipi amigo no matinho mais próximo, era raro alguém passar direto, sem perguntar se precisava de alguma ajuda. Os caminhoneiros, então, eram todos também mecânicos. Jamais deixavam alguém na mão, mesmo que tivessem que perder um tempão. Veio disso o termo “irmão da estrada”.
Partimos de São Borja durante a noite, rumo a São Luiz Gonzaga, por sinal onde nasci, em julho de 1945, junto com o final da II Guerra Mundial, da qual meu pai tinha participado recentemente, servindo na base avançada do arquipélago de Fernando de Noronha, numa fusão de tropas brasileiras e norte-americanas.
Durante a viagem o velho ia contando suas aventuras na ilha, histórias que se repetiriam durante toda sua vida, por sinal muito interessantes, e no nosso imaginário ele se transformava num grande herói. A gente ia ouvindo até pegar no sono, com aquele sacolejar do carro na precária estrada. Hoje não são muitos quilômetros que separam São Borja de São Luiz Gonzaga, pela asfaltada BR-285, mas naquele tempo a viagem parecia uma eternidade, ainda mais naquela escuridão. Não sei as razões da viagem nem porque meu pai escolheu a noite. Parecia só um passeio. Rodamos horas.
Foi a primeira vez, maravilhado, que vi um sol nascendo. Aquela bola vermelha subindo no horizonte, iluminando os campos, enquanto a família toda festejava, eufórica pela cena. A estrada parecia um deserto, sem uma única casa à vista em extensa reta. Ainda hoje há fazendas imensas, muitas trocaram o gado pela soja. Em 1953 era tudo pecuária. Imaginem a desolação e a monotonia daquela paisagem de campos verdes que sumiam no horizonte. Era nesse caminho, inclusive, em Itu, que as famílias Vargas e Goulart, dos dois presidentes, “vizinhos de porteira”, como se diz no Sul, tinham suas fazendas.
A fome começou a bater. Durante a noite tínhamos tomado lanche no carro, que minha mãe levou num grande cesto: um peru com farofa e ovos cozidos, preparado com carinho pelo chefe da cozinha do quartel, um tipo bonachão e alegre, amigo da família.

De repente avistamos uma casa isolada, cercada de poucas árvores, quase na beira da estradinha. Era uma casa grande, de madeira, com a pintura gasta e escurecida pelo tempo. Era bonita e se destacava no meio daquele oceano verde ondulado das pastagens. Encostamos e meus pais foram bater à porta. Atendeu prontamente uma senhora serena, de tez muito clara, beleza simples e angelical, com um sorriso acolhedor. Que tempos, em que se abria uma porta assim a estranhos. Não se via mais ninguém na casa, o gaúcho do campo é madrugador, certamente os homens já estariam nas suas rotinas. Meu pai propôs pagar por um café da manhã, ela aceitou prontamente. Nos acomodou na sala, em torno de uma mesa grande, e ali montou, com seus melhores pratos e talheres, tirados de uma cristaleira antiga, um verdadeiro café colonial. Delicioso, com leite quentinho recém tirado da vaca, pão feito em casa em forno de lenha, salame, geléia, manteiga, biscoitos, tudo da produção artesanal doméstica.
Lembro-me que a gente se divertiu com as fotos já cinzentas em grandes molduras redondas nas paredes, com figuras certamente de cem anos passados, os parentes ancestrais daquela família, em poses austeras, com bengalas e chapéus curiosos.
Quando terminamos o farto e saboroso café, só aí meu pai perguntou o preço, puxando a carteira do bolso. “Não é nada e voltem sempre”, respondeu a doce senhora, com o sorriso sereno que nunca se desfazia do seu rosto. Meus pais insistiram, quase implorando para pagar, minha mãe dizendo que “assim morreria de vergonha”, mas a dona da casa foi inflexível, se recusou a receber um único centavo. Ela nunca tinha nos visto antes. Despedimos-nos com abraços como velhos e queridos amigos. Partimos felizes e gratos, todos abanando. Ela respondia, e lá ficou, em pé na varanda, até tornar-se um ponto diminuto e sumir no retrovisor do carro. Jamais voltamos a nos ver. A vida no interior, em 1953, era assim.
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*Milton Saldanha, 64 anos, é jornalista e dono de notável memória, que adora manter sempre viva.
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