segunda-feira, 7 de março de 2011


Jarbas era um homem sério. Compenetrado em suas atividades profissionais. Orgulhava-se de jamais ter perdido dia de trabalho. E de se dedicar com afinco. Um funcionário exemplar, como dizia o chefe.
Muitas vezes dobrava o expediente. Horas extras que complementavam o orçamento. Nada faltava em casa. Atendia todas as vontades da mulher. E dos filhos, fascinados com as novidades do mundo virtual. Viciados em vasculhar os meandros da internet.

Naquela manhã de segunda-feira acordou preocupado. Passara a noite de domingo acompanhando, pela televisão, o desfile das escolas de samba. Encantara-se com o espetáculo. Carros alegóricos, fantasias, alegria. E os aplausos do público. Lembrou-se, ainda, dos antigos bailes. Quando jovem, pisara em alguns salões. Pulava-se ao som de marchinhas. Sozinho ou acompanhado. Pouco importava. Valia a folia. Bem comportada, apesar das brincadeiras de lançar perfume. Prática proibida. Ficaram as drogas.
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Durante o café, na conversa com a mulher, lastimou-se.
- Pois é, meu bem, o chefe não deu trégua. Diz que preciso executar um serviço especial. Tenho de terminar ainda hoje. Resultado: vou entrar noite adentro. Ele é crente, detesta este período. Diz que folga somente no sétimo dia, quando Deus descansou.
A mulher apenas balançou a cabeça. Não chegava a ser um drama. A recompensa vinha no final do mês. Salário mais gordo.

Despediu-se com um beijo. Durante a tarde ligou duas vezes para informar que estava envolvido com números. Todas as operações a fim de deixar os balanços concluídos. Trabalheira dos diabos. Concentração total.

A noite chegou e as estrelas cobriram o céu de beleza. A mulher preparou um prato especial para o marido. Deixou no micro ondas. Quando chegasse bastava aquecer. Os filhos foram para o escritório, entretidos com a navegação.
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Súbito, um deles gritou:
- Mãe, corre aqui.
Assustada, ela se apressa:
- O que foi?
Desapontados, os garotos indicam:
- Veja o que achamos. Olha. Transmissão ao vivo. Papai na folia. Fantasiado de Madonna. Num baile gay.
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*Guido Fidelis é advogado e jornalista, dedica-se às letras.
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Nesta Terça-feira o jornalista e radialista Oswaldo Lavrado escreve um fato real, ocorrido num carnaval dos anos 70, no ABC Paulista, quando estava em ação a equipe esportiva dos "Craques do Rádio", da Diário, transmitindo os bailes carnavalescos dos clubes da região. Lavrado cobria o carnaval da GM, de São Caetano. A folia corria solta, até que... "Pegou fogo no salão". Na quarta-feira de cinzas, conforme anunciado, o quinto capítulo da série "O dia em que gravei o Jornal Nacional". Acompanhe!
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domingo, 6 de março de 2011

SÁBADO, 5 DE MARÇO DE 2011
Apesar de usarmos oficialmente o calendário gregoriano que tem seu início em 1º de janeiro, no Brasil nada acontece ou se move até depois do carnaval. O inconsciente coletivo determinou que a primeira segunda-feira após os festejos de Momo seja o início oficial do ano e até lá não adianta forçar a barra que nada funciona. Assembléias e Câmaras param, o governo entra em hibernação, os médicos viajam, as escolas dão férias, o comércio liquida e até mesmo os marginais dão um refresco para tecer suas alegorias com que desfilarão na avenida.

Tente o desavisado cidadão programar ou resolver alguma coisa nos meses de janeiro e fevereiro e fatalmente ouvirá a resposta: depois do carnaval. E não adianta insistir que somente depois do carnaval é que o motor pega e esse Brasil velho de guerra começa a andar em sua marcha lenta de quase quinhentos anos. Com exceção de carnavalescos, costureiras e autores de samba-enredo, todo o princípio de ano é para descansar e preparar-se para os quatro dias de folia.

O carnaval tinha de dar certo no Brasil. Seria aqui ou em nenhum outro país que essa festa pagã por excelência, embora baseada no calendário da Igreja, ganhasse asas e voasse até o delírio. Os portugueses trouxeram seu tímido “entrudo”, que se resumia a batuques e laranjinhas de cheiro jogadas nas ruas. Foi preciso o tempero negro para o carnaval ganhar forma e fama e se tornar a apoteose nacional, nosso maior produto de exportação turística e nossa marca registrada.
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Para o resto do mundo, existem duas logomarcas do Brasil. Uma é Pelé (foto), esmurrando o ar depois de um gol majestoso, a outra é uma rebolativa mulata com todos os adereços do samba. Não adiantam Drummond, Paulo Coelho nem mesmo Jorge Amado. Somos o país do futebol e do samba e com essa marca registrada é que vamos empunhando nossa bandeira por esse mundão. O som do batuque e a cadência das baianas encantam e divertem milhares de visitantes que todos os anos lotam a Marquês de Sapucaí em busca do maior espetáculo ao ar livre onde nossas raízes são expostas.

Nós somos um povo alegre por formação. A miscigenação entre índios, negros, portugueses e as pitadas de japoneses, italianos e alemães criaram uma espécie de raça que segundo o samba “não tem medo de cachaça” e já definiu que escorregar e cair é jeito que o corpo dá. E assim vamos de crise em crise gozando de nossa própria miséria com uma bola no pé e um estandarte na mão para enfrentar esse mundo velho e globalizado.
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Maravilhoso país esse que se dá ao luxo de parar dois meses e agora mais uma semana para que seus filhos brinquem a maior festa popular do mundo, se entupam de cerveja, virem carros pelas estradas, se droguem, joguem pra fora suas porções escondidas e traiam a mulher, a Pátria e até Deus, nesse frenesi que toma conta de nós todos, foliões ou não, sujeitos a essa ditadura da alegria onde samba, suor e cerveja molham até a alma. Tudo é permitido em nome da alegria. Vestir-se de mulher, pintar o rosto, fantasiar-se de Batman, usar a lingerie da esposa, mamar numa garrafa até ver o mundo rodar, nada disso é ignorado e pouco é punido. Cria-se um frenesi de alegria que faz com que foliões solitários cortem toda a avenida batendo numa lata e cidadãos de cãs brancas percam totalmente a compostura atrás de alguma colombina desgarrada.

As televisões se voltam totalmente para o carnaval, muito embora no resto do mundo existam fatos, como a crise econômica dos americanos, a matança na Líbia, as idiotices de Chávez, a saúde de Fidel. Nada disso importa. O que vale é mostrar baianos atrás do trio elétrico e as mesmas escolas de samba pasteurizadas, que só se diferenciam uma das outras pela cor de cada uma. E tem até o carnaval em São Paulo, carnaval de japonês e polacos, de miúdas gueixas tentando sambar desajeitadamente, de gordas germânicas dando no pé e mulatos, porque mulatos e mulatas são a matéria-prima essencial do nosso carnaval e, porque não dizer, deste país. Vamos, pois, cair no ritmo, com moderação, e sempre rezando para que a companheira Dilma arregace as mangas e comece a trabalhar e não nos apronte maldades, como por exemplo, a volta da CPMF.
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Não sei o que seria desse Brasil sem o carnaval, sem essa maravilhosa válvula de escape social que nos iguala e nos anima a mais um ano. Essa catarse coletiva que permite loucos, bichas, turistas, ricos e pobres num mesmo cordão sem preconceitos e sem regras. Até a Igreja com toda sisudez nos deixa pecar desde que tomemos as competentes cinzas da quarta quando purgamos todos os males do corpo e da carne. Portanto, vivamos essa festa nacional com a certeza de que ninguém como nós sabe transformar um gato irritado num alegre tamborim e que, como nós, ninguém é capaz de sorrir com a barriga vazia e a cabeça cheia de problemas e da mais pura aguardente nacional. Graças a Deus o carnaval existe e o ano oficial de 2011 espera pelo soar do último clarim na Praça Castro Alves para então colocarmos o terno e a gravata e partir para a ação.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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Na próxima quarta-feira, o quinto capítulo de: “O dia em que gravei o Jornal Nacional”.
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sexta-feira, 4 de março de 2011

QUINTA-FEIRA, 3 DE MARÇO DE 2011



No começo dos anos 70, o rádio AM estava incluído entre as instituições consideradas subversivas, mas sua popularidade e credibilidade continuavam intactas. A juventude ouvia as emissoras AM, mesmo tendo o rádio FM, que surgiu em 67, como segunda opção. Os meios de comunicação do Grande ABC sofriam influência direta da imprensa da Capital Paulista, devido à proximidade territorial, tanto que possuía, naquele tempo, apenas quatro emissoras de rádio em sete das suas cidades, duas delas, Rádio Emissora ABC e a Clube, em Santo André. A Rádio Diário, antiga Independência, estava em São Bernardo e a Cacique, em São Caetano. Na década de 70, a região do ABC Paulista era uma das mais ricas do país, detinha praticamente a totalidade da produção nacional de veículos. O sonho de muitos trabalhadores era estar empregado numa grande empresa metalúrgica da região.

Neste clima favorável, a Rádio Clube, onde eu estava a espera de conseguir meu primeiro emprego, depois que cheguei do interior, tinha um bom faturamento e liderava, ao lado da Rádio Diário, a audiência na região. Subimos alguns degraus até chegarmos às instalações da Rádio Clube, no primeiro andar de um prédio localizado na Rua Coronel Oliveira Lima, próximo ao Largo da Estátua, centro da cidade. Não havia elevador. José Astolphi mostrou todas as dependências da rádio antes de entrarmos em sua sala. Percebendo que melhor seria deixar-nos a sós, meu tio Ivan inventou uma desculpa qualquer e despediu-se do diretor e sócio da rádio. Conversei durante alguns minutos com Astolphi, contando sobre as experiências que tive em rádio. Ele nunca me encarava, parecia até que nem estava ouvindo. Mantinha a cabeça baixa, ar debochado (com o tempo notei que era esse mesmo seu jeito, nada mudaria), até que se levantou e convidou-me a fazer um teste.

Seguimos para um estúdio de gravações especiais, desocupado naquele momento, onde nos esperava um senhor de óculos, pouco mais de 1,50 de altura, operador de som da Clube. Chamava-se Simão, uma simpatia. Seria ele o responsável pela gravação do teste. O diretor da rádio entregou-me um texto, em português, nada de outros idiomas e desejou-me boa sorte. Enquanto eu desempenhava o meu trabalho no estúdio, Astolphi conversava com Simão e gesticulava sem parar. Deixei de olhar na direção onde estavam, poderia ficar nervoso e colocaria tudo a perder. Terminei a gravação e saí do estúdio. Simão não se conteve, e mesmo com o olhar de reprovação do diretor da rádio, exclamou: “o menino é bom demais”. Voltamos para a sala de Astolphi e recebi a proposta que não esperava.

Para começar, teria um programa somente aos sábados, no período da tarde e durante a semana seria o responsável pela redação dos noticiários daquela emissora. Claro estava que o meu papel seria cobrir a folga no fim de semana do locutor do horário e assumiria a responsabilidade de redigir os noticiários da rádio, que estava carente no setor. Levantei-me para recusar a proposta, tinha pouca experiência como redator de notícias, quando um vozeirão se fez ouvir na sala. Um sujeito bonachão, alegre, invadiu a sala da direção e entregou uma pasta ao Astolphi, que agradeceu. Em seguida, esticou a mão em minha direção e se apresentou: “como vai, eu sou o Lombardi”. O nome nada significava para mim, afinal, quem era o tal Lombardi? Um locutor da Clube, isso era certo, pela voz clara e possante. Astolphi percebeu minha dúvida e esclareceu: “Luiz Lombardi apresenta um programa em nossa rádio, é o chefe dos locutores da TV Globo e participa do programa do Silvio Santos naquela emissora. Tomamos um café, esperei o Lombardi sair e perguntei ao Astolphi quanto eu ganharia se aceitasse a sua proposta. Era um bom salário, além do registro em carteira. A ideia de recusar a oferta desapareceu, assim que soube quem era Luiz Lombardi. O futuro mostrou que eu estava certo.
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Fui encaminhado até a uma pequena sala, nos fundos dos estúdios da rádio, onde havia um enorme gravador, aparelhos de rádio, mesa e uma máquina de escrever Olivetti (foto). Seria ali o meu local de trabalho durante a semana e a minha função, gravar os noticiários das grandes emissoras, principalmente o Jornal da Jovem Pan, onde Antonio Del Fiol, sócio de Astolphi, era o apresentador. Depois passaria para o papel as principais notícias e as levaria para o locutor- noticiarista, na época Marcio Santos. A primeira semana foi um desespero, imagine só deixar pronto um noticiário de hora em hora, sem atraso! Com sacrifício e apanhando, dei conta do recado, contando com a ajuda do Marcio Santos, que se transformou numa grande amigo que tive naquela emissora. O outro, Reinaldo Nascimento, operador de som, que mais tarde seria também meu companheiro na Rádio Diário do Grande ABC.

Sábado, o dia da apresentação do meu primeiro programa na rádio. O operador de som era o Reinaldo Nascimento, mais tarde apelidado pelo Jurandir Martins, repórter esportivo da Rádio Diário, de “Bisão”. Para quem não sabe, bisão é um dos grandes mamíferos ruminantes da mesma família do boi e da vaca. Pode chegar a quase quatro metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. Tem os olhos vesgos e da cor marrom, daí o apelido colocado pelo Jurandir em Reinaldo. Percebendo meu nervosismo na estréia, Reinaldo Nascimento procurou tranquilizar-me e deu enorme força para o sucesso do programa, que passou a ser um dos líderes de audiência da emissora. Era isso que pretendia Astolphi. Preparar-me, para depois que eu estivesse adaptado ao esquema da rádio, poder oferecer um programa diário. Não tinha ainda total confiança naquele “menino”, como sempre fui chamado por ele. Quando queria falar comigo, gritava para o “Joãozinho”, Office-boy da rádio. “vá à redação e peça para o menino vir aqui, agora”.
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Já acostumado com o noticiário, eu não mais gravava e copiava as notícias de outras emissoras para levar ao ar. Passei a manter contato com a Polícia Militar, Bombeiros e delegacias. Notícias "frescas" da região eram levadas ao ar, aumentando com isso a audiência da Clube. As poucas notícias de fora, eu as modificava, não o sentido, mas o texto. E criei um modelo para anunciar a temperatura que Del Fiol, mais tarde, introduziu na Jovem Pan, com real sucesso. Ao invés de, “tempo ruim, chuva e temperatura registrando tantos graus”, comum em todas as emissoras de rádio, eu escrevia: “use guarda-chuvas ou sombrinhas, vai chover hoje em São Paulo e na Região do ABC Paulista. Previna-se e agasalhe-se bem, promessa de vento e frio”. E assim era com o trânsito e outras informações de utilidade pública. O sucesso na redação desta rádio levou Del Fiol a prometer que eu teria uma vaga na Cásper Líbero, para cursar jornalismo, no próximo ano...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista.
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*Em virtude das festividades do Carnaval, o quinto capítulo da série “O dia em que gravei o Jornal Nacional”, será apresentado apenas na próxima quarta-feira de cinzas. Mas, nossa programação continua, com o blog sempre atualizado.
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quarta-feira, 2 de março de 2011

TERÇA-FEIRA, 1 DE MARÇO DE 2011


Enquanto aguardava ser atendido pelo locutor francano que trabalhava na Rádio América, notei que um homem alto e forte aproximou-se da portaria e se fez anunciar em voz alta: “o diretor artístico da rádio me aguarda, sou seu amigo e vim fazer um teste para a vaga de locutor, anunciada”. Então havia uma vaga e eu não sabia. Não tinha como ficar contente com a notícia, afinal o cidadão apresentou-se como amigo do diretor da rádio, mesmo assim, encheu-me de esperança. Ainda na recepção, o candidato a vaga falava com desembaraço e convicção. Citava pessoas famosas que conhecia, países onde esteve, e dizia para a recepcionista, já com expressão aborrecida por aguentar tremendo chato de galocha, que falava fluentemente o inglês.

A bela recepcionista sentiu-se aliviada quando o diretor artístico pediu para ela conduzir o tal amigo e pretendente à vaga de locutor até a sua sala. A jovem disparou rapidamente, pedindo que ele a seguisse. E voltou lívida, deixando escapar essa frase: “aguento cada uma nessa rádio”. Comecei a rir e ela percebeu. Acalmou-se, abriu um lindo sorriso e ofereceu-me um café. Conversamos um pouco e contei a ela que também estava em busca de uma vaga para locução na rádio. A jovem recepcionista disse-me com franqueza que torceria pelo meu sucesso, mas achava difícil, porque mais de 30 locutores já haviam feito o teste em dias anteriores, entre eles, velhos profissionais de rádio.

A chegada do Adilson interrompeu nossa conversa. Cumprimentou-me efusivamente e convidou-me para acompanhá-lo. Contou-me no trajeto que havia trabalhado na Rádio Hertz de Franca, nos anos 60, uma concorrente da Rádio Difusora. Naquela época só havia aquelas duas emissoras de rádio na cidade. Foi uma conversa agradável entre eu e Adilson, que confirmou, a rádio estava à procura de um locutor. Iria levar-me até a sala do diretor artístico da emissora. Em minutos fui apresentado a ele pelo Adilson, mas não recordo seu nome. Pediu-me que aguardasse alguns minutos porque outro concorrente a vaga estava num dos estúdios fazendo um teste. Logo chegou a minha vez e fiz o que pediram. Assim que o teste terminou voltei à sala do diretor artístico que solicitou um tempo até que fossem feitas as avaliações de todos os candidatos testados naquele dia. Sentado confortavelmente na sala, como se fosse o dono da rádio, estava o amigo do diretor artístico, que havia feito o teste anterior ao meu. Seu primeiro nome era Carlos, fiquei sabendo.

Uma hora depois fui chamado e soube que de todos os candidatos apenas eu e o Carlos fomos selecionados. A rádio precisava apenas de um locutor, por isso seríamos novamente submetidos a um teste. O reprovado poderia até ser chamado em outra oportunidade, prometeu o diretor artístico. As cartas estavam marcadas. Carlos leu alguns pequenos textos em português e eu, uma lista com nomes de músicas em alemão, francês, italiano e inglês. Se tivesse tempo suficiente, o diretor artístico da rádio teria acrescentado nomes de músicas em polonês, japonês, chinês e dinamarquês. Pacientemente tentei, não deu. E não daria para nenhum locutor da época, por mais experimentado que fosse. Desconheço um só daquele tempo e mesmo hoje, que fale fluentemente quatro línguas. Cá entre nós. Hoje em dia não passaria por este vexame. Teria rasgado aquelas folhas e mandado o diretor pilantra enfiá-las no... Lixo, juro!

Despedi-me de Adilson Machado, que lamentou minha reprovação depois de ter superado quase todos os demais candidatos. Agradeci-lhe pela atenção e antes de sair do prédio da rádio, passei pela portaria. Queria despedir-me da jovem recepcionista e ainda agradecer-lhe pela atenção e gentileza comigo, durante o tempo em que fiquei na rádio. Ela estava ansiosa para saber o resultado do teste. Contei-lhe o ocorrido e a jovem, fitando-me com seus dois belos olhos azuis, lamentou: “temia por isso”. Pediu o número do meu telefone para contato. Hesitei, sabia que, a exemplo da TV Tupi, eu não seria chamado. Ela insistiu, entregando-me um cartão com seu nome e telefones: “ligue, sempre estou informada sobre uma nova oportunidade, quem sabe possa ajudá-lo”.

Na porta de saída da rádio, um minuto de silêncio. Reflexão, pensamento positivo. Era preciso manter a confiança e enfrentar a vida com a sensação da segurança conferida pela determinação e o espírito altaneiro de quem sabe que é possível superar imprevistos e vencer. Momento de colorir o horizonte com as cores da esperança e acreditar que tudo não passou de duas tentativas que não deram bons resultados naquele dia. Estava pronto para seguir o caminho de volta a Santo André. Um menino cruzou alegremente o meu caminho. Segurava um enorme rádio que funcionava a pilhas, sorriu de uma maneira contagiante, abanou a mão e desapareceu. A vida é este mesmo círculo, sempre renovado, entre o trabalho e nossos desejos de realizar os sonhos que nos movem.

Acostumado a se deitar muito cedo, meu tio mudou sua rotina naquela noite. Estava a minha espera na cozinha, com seu velho rádio ligado no programa do Moraes Sarmento, na Rádio Tupi de São Paulo. Queria saber como foi o meu dia. Contei tudo o que havia se passado e ouvi dele uma sugestão. Desistir momentaneamente de São Paulo e tentar uma rádio no ABC. Na manhã seguinte ele me apresentaria a um amigo seu, dono de uma rádio, com reais possibilidades de dar certo, então eu teria um emprego e a chance de mais tarde ser contratado por uma grande emissora de São Paulo. Meu tio Ivan, carinhosamente chamado pelos amigos de “Delegado”, era chefe dos fiscais da Prefeitura de Santo André e como todo o chefe que se preza, não fazia nada, assinava o ponto pela manhã e voltava à tarde para encerrar o expediente da mesma forma.
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Era divertido ver meu tio sair pela manhã para o trabalho – entenda assinar o ponto. Depois de um banho rápido e de tomar seu café, segurava uma enorme pasta que pesava horrores, nunca pude ver, mas com certeza carregada de chumbo, e seguia rumo a prefeitura, poucos quarteirões da casa onde morava, no centro de Santo André. Minha tia Dionir corria para o quarto dos fundos - a casa era alta - e da janela acenava se despedindo. Amoroso, ele respondia, esticando um dos braços. A impressão era que ficariam dias sem se ver. Meu tio entrava as 8h00, assinava o ponto e as 9h00 estava de volta, isso quando não resolvia dar um passeio a pé pelo centro da cidade. Enquanto esperava a volta do marido, minha tia tocava acordeon.
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Naquela manhã, no começo dos anos 70, fiquei esperando sua volta e fomos ao encontro deste seu amigo, dono da Rádio Clube de Santo André, atual Trianon de São Paulo. Tratava-se de José Astolphi (nada a ver com o árbitro de futebol), na verdade, sócio na emissora com Antonio Del Fiol, conhecido radialista da Jovem Pan de São Paulo, falecido em 2002. Del Fiol destacou-se como o mais famoso garoto-propaganda da TV brasileira, quando por décadas foi porta-voz das campanhas publicitárias do saudoso Mappin e também do Jumbo Eletro. A Rádio Clube ficava na Rua Oliveira Lima, hoje calçadão coberto de Santo André. Não precisamos entrar, o amigo do meu tio estava num café, ao lado da Rádio Clube. Astolphi era um senhor de idade, vestia um terno escuro, enorme para o seu tamanho, ficando a nítida impressão que o defunto, ex-dono daquelas vestes, era bem maior que ele. Como não abotoava o paletó e carregava alguma coisa pesada num dos bolsos, um lado ficava bem maior que o outro. Para resumir, era bem desengonçado. E mal encarado. Assim que fui apresentado a ele, olhou-me da cabeça aos pés, como se estivesse vendo o ET de Diadema. Quando soube que eu era locutor, faltou apenas dizer: “isso aí?” Mesmo assim nos convidou para entrar na rádio e garantiu, para minha surpresa, que eu teria emprego. Antes faria um teste, caso não fosse aprovado como locutor, poderia oferecer-me uma vaga no jornalismo, precisava de um redator de notícias...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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*Acompanhe nesta quinta-feira o quarto capítulo da série, “O dia em que gravei o Jornal Nacional”.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

DOMINGO, 27 DE FEVEREIRO DE 2011



Deixei o prédio da TV Tupi pouco antes das 11 horas da manhã, com a certeza de que jamais receberia um telefonema de Walter Foster. Não fui submetido a nenhum teste e não consegui mostrar a ele minhas qualidades profissionais. Não estava abatido por isso, ao contrário. Em meu bolso trazia uma lista com nomes de outras emissoras de rádio de São Paulo. Era preciso continuar, sem desânimo. Afastar escombros e seguir adiante. Agir com entusiasmo. Entusiasmo como paixão. Entusiasmo como motivação. Entusiasmo como ferramenta destinada a atingir as metas propostas. Tinha em mente que para obter os louros da vitória seria necessário superar dificuldades, reunir as forças interiores, manter a chama da confiança e prosseguir com determinação.

A primeira emissora que constava em minha lista, que eu visitaria depois da TV Tupi, era a Rádio América, cuja administração, três anos antes, em 1967, foi assumida pelos Padres e Irmãos Paulinos. A Rádio América estava em um prédio próprio, localizado na Rua Dr. Pinto Ferraz, na Vila Mariana, onde continua até os dias de hoje, agora com o nome de Nova Canção e dirigida por um grupo religioso. Nesta emissora de rádio trabalhava um francano, Adilson Machado, que eu não conhecia pessoalmente, mas como conterrâneo poderia dar-me uma força, acreditava. Antes de chegar a Rádio América, passei pela loja de calçados que pertencia a um tio, Antonio Leite, já falecido, na Domingos de Morais, Vila Mariana. Almoçamos juntos. Contei a ele meus planos e recebi conselhos e o seu apoio para seguir em frente sem desanimar nunca.
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Pouco mais de 13 horas cheguei ao prédio da Rádio América. Uma agitação enorme acontecia na portaria e eu mal conseguia aproximar-me. Os cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa estavam fazendo uma visita a um programa de rádio, fui informado minutos depois. Por causa do tumulto de fãs que buscavam autógrafos dos cantores famosos, que faziam sucesso enorme junto a jovem guarda da época, demorou para que eu fosse atendido. Uma jovem de sorriso cativante aproximou-se. Disse a ela que eu estava a procura de um radialista, meu conterrâneo. Identifiquei-me e recebi um crachá, sendo encaminhado para uma confortável sala de espera.

Enquanto aguardava ser atendido, nuvens de saudade passeavam pelo céu da memória, formando desenhos de lembranças. Transportaram-me ao ano de 1966. Jovem locutor da Rádio Difusora de Franca, depois de apresentar o meu programa da tarde, estava na discoteca da emissora, ao lado da amiga Juracy Corrêa Dias, responsável por toda a programação musical. Dona de uma maravilhosa voz, Juracy exercia ainda as funções de radialista e atriz de radionovela, sempre com o papel principal feminino. Abria para mim uma exceção. Deixava que eu escolhesse as músicas que queria tocar em meus programas.

Pouco antes das 18 horas, um senhor bem vestido, trajando terno da cor azul forte - usava na época - e com cartazes debaixo dos braços, depois de um leve toque na porta da discoteca, solicitou licença. Queria urgentemente falar com o responsável pela rádio. Eu o acompanhei até a sala do gerente, mas ele já tinha ido embora. Este senhor lamentou-se, tinha pressa, estava num hotel da cidade, Hotel Francano, já demolido, e trazia uma proposta de interesse para a emissora. Abriu um dos cartazes e mostrou-me as fotos de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, ídolos da jovem guarda que jamais tinham visitado Franca. Roberto Carlos estourava na praça com a música “Quero que vá tudo pro inferno” gravada no final de 1965, um dos maiores hits de toda sua carreira. Febre nas rádios brasileiras, essa música elevou Roberto Carlos a condição de fenômeno musical no país.

Percebendo que o elegante senhor pretendia promover um show com os cantores em Franca, eu o convidei a tomar um aperitivo no boliche da cidade, que ficava perto da rádio. Se eu o deixasse ir, certamente levaria a oferta para a emissora concorrente. Para minha satisfação ele concordou, estendeu-me a mão e disse chamar-se Sergio, secretário de Roberto Carlos. Convidei o saudoso amigo radialista, Costa Junior (foto acima), um dos mais antigos da Difusora, a nos acompanhar. Depois de uma boa conversa no boliche, mesmo sem a presença do gerente da rádio, fizemos uma proposta ao Sergio. Caso ele aceitasse trazer os ídolos da Jovem Guarda a Franca, poderíamos convencer Luiz Carlos Facury, gerente da emissora, a aceitar promover este show se a bilheteria do evento fosse dividida, 50 por cento para cada parte. Depois de pensar e tomar mais alguns chopes, Sergio concordou. Mais ainda. Além de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa, garantia a presença dos cantores Ary Sanches, Jean Carlos (cantor cego) e Mary Pavão. Acertamos um encontro com o Sergio no dia seguinte, 10 horas da manhã na rádio e levamos alguns cartazes.

Logo cedo eu estava na Difusora, eufórico, imaginando ter a honra de apresentar em Franca os maiores ídolos do Brasil na época, mas sabia que para isso teria que convencer o gerente da rádio. Não foi fácil, lembro-me bem. Fiz de tudo, com a ajuda do Costa Junior, só faltou chorar. Facury não estava disposto a assumir essa responsabilidade, deixara isso claro, mesmo com a renda dividida. Nisso chegou o Sergio. Entrou na sala da gerência e o apresentamos ao Facury, sem esperanças que um acordo positivo pudesse ser selado.

Uma conversa de alguns minutos e Sergio, estendendo um contrato, perguntou ao gerente: “se aceitar a proposta, marcamos a data, basta assinar aqui”. Facury segurou a caneta e ia deixá-la de lado, quando exclamei, quase implorando: “por favor, assine”. O gerente ergueu os olhos me encarando, percebeu que se recusasse deixaria frustrado por toda uma vida aquele jovem locutor que ele havia introduzido com sucesso na radiofonia da cidade. Balançou a cabeça e antes de assinar, ordenou: “assino, mas vocês tomam conta disso”, jogando para nós a responsabilidade, prontamente aceita. Foi o dia mais feliz da minha vida!

Uma propaganda nunca vista antes em Franca foi feita, com chamadas na rádio e cartazes distribuídos por toda a cidade. Sergio vinha sempre, para fiscalizar os preparativos. No dia marcado para o show, as ruas próximas ao Clube dos Bagres, local do evento, estavam apinhadas de gente. Maria Abadia (foto), funcionária do escritório da Difusora comandava as bilheterias, fiscalizada atentamente pelo Sergio e outros funcionários. Nos bastidores eu aguardava a chegada dos cantores. Eu e Costa Junior estávamos preparados para apresentá-los.

A chegada dos cantores, ocupando vários carros, foi marcada por um tumulto, corre-corre e gritaria. Fomos apresentados a eles nos vestiários do ginásio, onde ficariam alojados. Roberto Carlos, de imediato, exigiu que a segurança fosse redobrada, caso contrário, ameaçava não se apresentar. Tomamos todas as providências exigidas e o deixamos tranquilo. Naquele show, Roberto Carlos lançaria a bota “Calhambeque”, produzida pela fábrica Saméllo, uma das maiores de Franca, conhecida internacionalmente até hoje. Depois, a bota seria levada para o programa Jovem Guarda, da TV Record de São Paulo e usada pelo cantor. Aborrecido quando “Vadinho” Saméllo lhe entregou nos bastidores a bota do pé direito para experimentar, Roberto Carlos despistou e reclamou: “não foi essa a cor que pedi, faça outra e despache para São Paulo”. Atirou a caixa com as botas em minha direção. Número 41, o mesmo que calço. Fiquei com elas, Vadinho concordou e deu-me o presente.
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O Show, com o nome “Festa de Arromba”, alusão a uma música de sucesso na época, cantada por Erasmo Carlos, foi um sucesso. Costa Junior e eu revezamos na apresentação. Fiquei com o privilégio de apresentar Roberto Carlos, o último cantor da noite (foto acima). O ginásio quase veio abaixo, assim que o cantor surgiu no palco. Um show inesquecível. Naquela mesma noite aceitei o convite feito por Sergio, o secretário de Roberto Carlos, para apresentar outro show, na sequência, que aconteceria em Ribeirão Preto, Cava do Bosque. Com o cachê alto no bolso, segui com a comitiva, tendo Erasmo Carlos como companhia no carro. Jantamos já de madrugada em Ribeirão Preto, fiquei com eles no mesmo hotel e voltei no dia seguinte para Franca. Poderia ter continuado apresentando shows do grupo, mas tinha que seguir minha carreira, por isso não aceitei a proposta feita por Roberto Carlos e seu secretário.

A gritaria que se fez ouvir nos corredores da Rádio América interrompeu minhas lembranças. Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa estavam indo embora. Passaram próximos, mas não me viram, empurrados por vários seguranças e ainda pelos fãs ensandecidos. Nisso, a jovem e bonita secretária da Rádio América se aproximou e avisou-me que em 5 minutos eu seria recebido pelo conterrâneo de Franca...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista.
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Acompanhe o terceiro capítulo de “O dia em que gravei o Jornal Nacional", amanhã,
terça-feira.
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sábado, 26 de fevereiro de 2011

SEXTA-FEIRA, 25 DE FEVEREIRO DE 2011
Nos últimos dias, os jornais tem se ocupado com pequenas notas de casos de anencefalia que tiveram autorização da Justiça para interromper o processo de gestação. Aborto é a palavra certa! Dois desses abortos autorizados que são de gestantes moradoras de cidades do interior de São Paulo (São José do Rio Preto e Santa Adélia – Estadão - 5 e 12 de fevereiro/011). Em ambos os casos, a sentença foi baseada em que o anencefálo viveria poucos dias depois de nascer e que a mãe correria risco de vida.
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No dia 19 de fevereiro, o mesmo jornal ocupa uma página inteira para falar desse problema. A matéria informa que o STF retoma o processo que autoriza aborto de anencefálo, depois de sete anos engavetado. O jornal mostra em um pequeno quadro destacado na matéria, que “A anencefalia é uma malformação embrionária que atinge aproximadamente um em cada mil bebês. É caracterizada pela ausência parcial do encéfalo e da calota craniana e pode ser diagnosticada no terceiro mês de gestação. Não há tratamento nem chances de sobrevivência para o bebê anencefálico. A maioria dos afetados não sobrevive ao nascimento. Aqueles que não nascem mortos, geralmente morrem algumas horas depois, após parto”.

Com o título “Julgamento volta a opor ciência e religião”, em outro quadro, mostra que em 2003 uma jovem de dezoito anos pediu ao juízo criminal de Direito de Teresópolis, para interromper a gravidez, já que foi diagnosticada a anencefalia do feto. O pedido foi negado porque o Código penal não prevê autorização de aborto nesses casos. Entre vai e vem, como acontece sempre na burocracia judicial, uma desembargadora autorizou a interrupção da gravidez. Um padre católico entrou então com habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça. Enfim, até o processo ser julgado desta vez no STF, o bebê nasceu e morreu. O processo foi arquivado.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pediu para participar da ação. O choque causado entre opiniões religiosas e científicas é proverbial e mais uma vez se faz presente. Ao longo da história, a ciência materialista de choca com os pensamentos espiritualistas da igreja. Entretanto, não pretendo discutir aqui religião e ciência e sim a questão MORAL que nada tem a ver com ciência e religião. A definição para “moral” no Aurélio é extensa. Ficamos com a primeira: “substantivo feminino – 1. Conjunto de regras de conduta considerada como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada”.

Não pretendo aqui neste simples artigo, impor ou mostrar de alguma forma que a doutrina espírita tem o dom da verdade. Nada disso. Apenas vou tentar dizer o que pensa o espiritismo a respeito do assunto uma vez que, a doutrina dos espíritos codificada por Allan Kardec, nada tem contra ou a favor de qualquer religião. A polêmica sobre a existência e a pré-existência do espírito e o momento de sua concepção, em relação ao corpo físico, perturba a ciência, a religião e a filosofia terrena. Os indivíduos materialistas dizem que o homem é apenas um composto de matéria densa, iniciando a vida no berço e terminando no túmulo e nada mais.

Os reencarnacionistas acreditam no fator “causa e efeito” ou carma para os indús. E, partindo daí, entende-se que onde há um efeito é porque houve uma causa. Indo direto ao assunto. Não teria como espírito programado, o anencéfalo, juntamente com aquela que lhe daria a luz, provocado toda essa situação? Um resgate moral. Eu disse MORAL e não religioso. A interrupção desse processo, segundo o espiritismo, traria sérias consequências em futuras encarnações, além de gerar conflitos obsessivos para a mãe que recusou dar a luz a um espírito que necessitava passar por esse transe.

Seria mesmo verdade que todos os anencefálos morrem ao nascer? Não estaria ai uma situação materialista ou de conveniência para se safar dos problemas que uma criança nessa situação acarretaria para a mãe? A Revista Internacional de Espiritismo, do mês de julho de 2007, depois de uma intensa repercussão na imprensa local (Franca) e nacional, publicou uma matéria de minha autoria sobre o caso da menina Marcela de Jesus Ferreira (sem cérebro sim, sem alma não), que morreu um ano e oito meses depois de seu nascimento, prova inconteste de que tais crianças nem sempre morrem logo após o parto. Esse fato ganhou repercussão nacional e internacional

O caso aconteceu na pequena cidade de Patrocínio Paulista, vizinha a Franca. E foi acompanhado por uma médica pediatra do início do nascimento até a morte do bebê. Os médicos, unânimes em seu diagnóstico, diziam que a criança, filha de Cacilda Ferreira (foto), não tinha cérebro e afirmavam que ela morreria dentro de dias. O tempo provou que eles não estavam certos e para se justificarem diziam que havia um pouco de massa encefálica. Fato desmentido categóricamente pela médica Márcia Beani Barcelos, que acompanhou o caso do começo ao fim. A pediatra afirmou ao Jornal "O Comércio da Franca", que não foi a anencefalia que matou a criança. De acordo com ela, Marcela aspirou leite, que vedou o pulmão direito. Além disso, a criança estava com pneumonia. O bebê morreu no dia 1º de agosto de 2008, na Santa Casa de Misericórdia de Franca.

Para encerrar esta matéria, transcrevo um trecho do Livro dos Espíritos, publicado pela primeira vez em 1857. Diz O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec (foto), na questão 347: “que utilidade pode haver para um Espírito a sua encarnação num corpo que morre poucos dias após o nascimento? Resposta: “o ser não tem alta consciência de sua existência: a importância da morte é quase nula: como já o dissemos, é muitas vezes uma prova para os pais”. Também vem nos esclarecer a questão 355: “Há como indica a ciência, crianças que desde o ventre da mãe não tem possibilidades de viver? E com que fim acontece isso?”
Resposta: “Isto acontece frequentemente, e Deus o permite como prova, seja para os pais, seja para o espírito destinado a encarnar”.
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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui:
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