terça-feira, 6 de julho de 2010

ORGULHO DE SER BRASILEIRO!


Responda, rápido, sem pestanejar! Você lembra em quem votou para deputado federal e deputado estadual, nas últimas eleições? Em caso afirmativo, se foram eleitos, você acompanhou o desempenho desses parlamentares na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa ou, pelo menos, se interessou em investigar, agora, se eles têm a “Ficha Limpa”? Aliás, você sabe o que é “Ficha Limpa”?

Tenho certeza de que, se essas perguntas fizessem parte de uma pesquisa, 90% das pessoas responderiam que não lembram, não se interessaram e não sabem o que é a tal de ficha limpa...Igualmente, estou certa de que, pelo menos, 70% dos entrevistados saberiam citar a escalação da Seleção Brasileira, quem fez os gols na África do Sul e quais são os possíveis candidatos a técnico para a Copa de 2014 que eles sabem, vai ser no Brasil..

É impressionante a capacidade que tem o futebol de mobilizar o povo brasileiro. Há poucos dias, tudo era festa, alegria e encantamento. Bandeiras tremulavam em todos os cantos do país e a nossa gente explodia nas ruas o seu orgulho verde, amarelo, azul e branco. A Câmara Federal não trabalhou no mês de junho, entrou em “recesso branco”; os bancos ajustaram o horário de atendimento; universidades, escolas, empresas e até mesmo órgãos governamentais adotaram horários especiais que permitissem a todos assistirem os jogos da Seleção.
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Após a derrota para a Holanda, restaram a tristeza e a frustração. É como se fosse uma epidemia patriótica, com requintes de tragédia - da euforia da vitória à dor da derrota em curto espaço de tempo, ultrapassando o significado da derrota esportiva, entranhada na vida brasileira e no nosso cotidiano político-social. Parece que tudo o mais não tem importância, nem mesmo a dura realidade do dia-a-dia. Ainda persiste um vazio que não tem preenchimento...
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Será que já não chegou a hora de crescermos como povo e nação? Abandonando aquela sina que nos acompanha desde o tempo do descobrimento, de povo colonizado, acorrentado e manso, que espera e aceita migalhas e ainda agradece as benesses da corte? Será que já não passou o tempo da simples indignação e chegou o da ação?
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Logo mais, em outubro, o povo brasileiro precisa tomar uma decisão importante. Vai escolher um novo mandatário para o país. A época pré-eleitoral confundiu-se com a Copa do Mundo de Futebol, abafada pelo som das vuvuzelas africanas multicoloridas e estrondosas.
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Claro, é muito melhor, mais prático, confortável e cômodo apenas torcer, emocionar-se e gritar gol, ou chorar e sofrer pela derrota...isso não envolve a nossa vida, o nosso emprego, o nosso estudo ou falta dele; não interessa como está o mercado de trabalho; o câmbio; a cesta básica; a taxa de juros; o salário mínimo; a fila do SUS; a morte na curva da estrada esburacada; o preço da gasolina; a epidemia de dengue; o crack destruindo famílias inteiras; o crime organizado ditando regras; a enchente; a seca; a poluição; a falta de ética; a corrupção que campeia no executivo, no legislativo e no judiciário...Deixa que o governo resolva, ele é muito bem pago para isso!
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Perfeito. Chegamos ao ponto. O governo é tão bem pago, tão livre, leve e solto que se arvora em dono da consciência de quase todos os brasileiros, daqueles que, por séculos, se deixaram enganar, se calaram e esqueceram, até, que têm voz, por absoluta falta de uso.

Mas o governo vai mudar ou não vai mudar, porque se aproximam as eleições. A decisão, como em outras vezes, passa pelo voto. Será que já não chegou a hora de qualificarmos a maneira de escolhermos nossos representantes, acrescentando informação consistente sobre os candidatos que se apresentam? Por que não aproveitamos um pouquinho do orgulho de ser brasileiro que restou da Copa e arregimentamos as energias para provocar mudanças na nossa vida? O mínimo que podemos aprender é que podemos ser protagonistas.

A dor de agora, decorrente de uma derrota no futebol, é mais uma advertência à nossa secular mania de criar deuses e incensá-los.

Precisamos crescer como povo para que a nação tenha identidade em todas as suas ações. Vamos torcer, sim, mas por dignidade, consciência crítica, qualidade de vida, inclusão social, solidariedade. Só assim podemos ser felizes, sempre!
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas experiências e vivências estão no blog Interface Ativa! Dê uma espiadinha em http://niviaandres.blogspot.com
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SEMIFINAIS DA COPA DO MUNDO 2010 NA ÁFRICA DO SUL. TERÇA-FEIRA - 06-07:
HOLANDA 3 X URUGUAI 2 (HOLANDA FINALISTA)
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Problemas técnicos impossibilitaram a publicação, nesta quarta-feira, de mais um capítulo da série "Memória Terminal", escrita pelo jornalista José Marqueiz. O texto, excepcionalmente, será postado nos primeiros minutos desta quinta-feira. Gratos pela compreensão. Edward de Souza/Nivia Andres
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

O APAGÃO QUE TIROU O BRASIL DA COPA

DOMINGO, 4 DE JULHO DE 2010
Após a desclassificação da nossa Seleção Brasileira, correto seria ter postado minha opinião de imediato neste blog. Li, na matéria da amiga jornalista Nivia Andres, comentários cobrando o texto que, só neste domingo, 48 horas depois da derrota do nosso selecionado canarinho frente à Holanda, resolvi escrever. Fiquei triste com a desclassificação do Brasil, menos por mim, mais pela desolação que toma conta de todos. Agora todo analista ou metido a analista é dono da verdade: "Se eu fosse o Dunga, teria convocado esse ou aquele, trocado Fulano"... O mesmo filme que assisto sempre que nossa seleção não vence um mundial. É fácil falar de fora, principalmente depois que passa. Prefiro não escolher culpados em campo, mas acreditar que o momento é de repensar a grande paixão brasileira, hoje entregue a pessoas que não inspiram nenhuma confiança. Chegou a hora de iniciar mudanças profundas, a começar pela classe dirigente, à frente Ricardo Teixeira, homem sem profissão definida que em nenhum instante serve ao futebol, somente serve dele.

A Seleção Brasileira é idolatrada por milhões de torcedores espalhados não só em nosso país, mas em todo mundo, basta ver o noticiário. No Haiti, quatro pessoas morreram depois da derrota frente à Holanda. Duas delas, com camisas da Seleção Brasileira, saltaram na frente de carros e morreram atropeladas. Aeroportos do mundo todo pararam pra ver em telões o jogo Brasil x Holanda. E a grande surpresa. Jogando os melhores 45 minutos desta Copa do Mundo, dominando a Holanda e vencendo o primeiro tempo até com certa facilidade, um inesperado apagão tomou conta dos nossos jogadores na etapa final e decisiva do jogo. Tivesse nosso selecionado forçado o jogo teria decidido a partida ainda no primeiro tempo.

Um jogo se ganha não apenas com os pés, mas também com a cabeça. Não, não estou falando dos dois gols da Holanda na vitória sobre nosso selecionado, despachando-o nas quartas dessa Copa da África do Sul. O Brasil voltou mais cedo do que todos esperavam porque não teve, no jogo, cabeça equilibrada como teve a Holanda, que não se desesperou quando levou o gol de Robinho, ainda aos 9 do primeiro tempo e, sentindo que o time de Dunga partiria para decidir o jogo, usando os contra-ataques, não saiu afoita à procura do empate. Desde o começo do jogo estava fácil perceber que os holandeses usavam uma tática que apelidei de “pipocar”. Não o “pipocar” cujo significado podem os leitores entender como fugir do jogo. Mas o da pipoca, literalmente falando. Ou seja. Os jogadores brasileiros encostavam e os holandeses saltavam longe, como se tivessem recebido faltas violentas.

No segundo tempo, tocando a bola no seu estilo e percebendo o buraco existente na lateral esquerda da zaga brasileira, onde Michel Bastos, nervoso, cometia muitas faltas, os holandeses entraram no jogo. E numa das faltas, cometida pelo lateral brasileiro, que minutos depois receberia cartão amarelo, surgiu o gol de empate da Holanda. O goleiro Júlio César saiu atabalhoado do gol, chocou-se com Felipe Melo e, caprichosamente a bola tocou na cabeça do jogador brasileiro, indo para o fundo das redes. E não tinha nenhum holandês por perto. A tática de deixar irritados os jogadores brasileiros começava a dar certo e a Holanda partiu para cima, sentindo que o momento de desespero da nossa seleção era o ideal para fechar o jogo. Foi assim que, numa bobeada de Juan, jogando a bola para escanteio, quando tinha toda a lateral à sua disposição, aconteceu o segundo gol. O que aconteceu dali para frente foi um apagão e o desespero que nos tirou da Copa.

Deixo claro que aponto as falhas ocorridas nesta derrota do Brasil, mas, como disse no começo deste texto, não pretendo nomear culpados pela derrota. Nem mesmo Felipe Melo pela expulsão. Precipitou-se, quando Robben caiu, depois de uma “pipocada”, do ídolo holandês, que deu um show de cai cai na partida, deixando Neymar, jogador do Santos, com inveja. Como o craque da Holanda retinha a bola entre suas pernas, Felipe Melo, com a intenção de tirá-la para que o jogo continuasse, pisou na coxa do jogador e foi expulso. Essa foto a esquerda distribuída pela France Press mostra com clareza a chuteira de Felipe Melo tocando a bola e a coxa do holandês.
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A derrota para a Holanda doeu, é verdade. E doeu mais porque dessa vez a gente viu que o time sofreu como todo mundo. Não foi nada daquilo de 2006, quando uma seleção apática perdia para a França. Não foi tão traumática como 1982, quando saímos da Copa com o título de campeão moral, pelo futebol maravilhoso exibido pela seleção de Telê Santana, nem tão frio como 1990. A derrota, em Port Elizabeth, aconteceu porque o adversário era bom e soube aproveitar o “apagão” de nossa defesa no início do segundo tempo. Não dá para crucificar o Dunga porque perdemos uma Copa, porque aí teríamos que também fazer o mesmo com Telê Santana, Zagallo, Parreira, Cláudio Coutinho e tantos outros. Resta pensar em 2014. Assim como a Argentina que caiu de quatro frente a Alemanha e outras grandes seleções que saíram mais cedo da Copa, como a Itália, Inglaterra e França.

A título de curiosidade, lembro que escrevemos uma crônica na abertura da Copa do Mundo da África do Sul e apontamos as cinco seleções favoritas ao título. São elas: Espanha, Alemanha, Holanda, Brasil e Argentina. Estas duas últimas saíram nas quartas de final, mas as outras três disputam o título com o Uruguai, agradável surpresa da Copa de 2010. Pena que tem sérios desfalques para encarar a Holanda, para mim favorita para decidir o título, contra Espanha e Alemanha. Bom destacar que a Alemanha cresceu assustadoramente na Copa, goleou a Argentina por 4 x 0, mas tem pela frente a poderosa Espanha, que a derrotou na Copa dos Campeões e ficou com o título.
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*EDWARD DE SOUZA é jornalista e radialista
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RESULTADOS DE SÁBADO, 03-07, PELAS QUARTAS-DE-FINAL DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL:
ALEMANHA 4 X ARGENTINA 0
ESPANHA 1 X PARAGUAI 0
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sábado, 3 de julho de 2010

.SEXTA-FEIRA, 2 DE JULHO DE 2010
Amigos e amigas do blog!

Escrevi o artigo que está abaixo antes da partida entre Brasil e Holanda e resolvi mantê-lo, a título de informação e curiosidade, pois o pênalti tem sido, historicamente, encarado como uma loteria e nem sempre é garantia de gol, que o digam os goleiros e os jogadores escolhidos para baterem a falta máxima.

Quanto ao resultado que nos tirou a possibilidade de seguirmos em busca do hexacampeonato mundial, creio que a Seleção Brasileira foi a responsável direta pelo infortúnio, pois não soube aproveitar a imensa vantagem que adquiriu no primeiro tempo de jogo, onde deveria ter liquidado a fatura. No segundo tempo, os gols da Holanda, que aconteceram por falta de atenção da nossa defesa, a imbecilidade cometida por Felipe Melo, a falta de banco e o desquilíbrio infantil que acometeu os nossos jogadores, sem a mínima capacidade de reação, sepultaram de vez o sonho do hexa. Paciência. E que sirva, mais uma vez, de lição: o campeão mundial será o time que for mais competente e tiver equilíbrio emocional para superar as dificuldades havidas durante a partida. A Holanda estava morta e ressuscitou. Teve força e controle, o que não soubemos administrar.

A derrota é um dos resultados possíveis em qualquer empreitada. Cabe que tenhamos força e ousadia para empreender a virada! Em 2014 será outra história! E vamos em frente!

O PÊNALTI PERFEITO

Nas fase das oitava-de-finais da Copa do Mundo de Futebol 2010, quando 16 seleções disputaram as oito vagas das quartas-de-finais, nenhum jogo poderia terminar empatado. Em caso de escore igual, a regra vigente, fixada pela Internacional Board, órgão da FIFA, determina que haja prorrogação de 30 minutos, em dois tempos de 15. Persistindo o empate, serão cobradas penalidades máximas, os populares e terríveis pênaltis...em séries iniciais de cinco cobranças alternadas, para cada time, até que se defina o vencedor. Se ainda assim a igualdade no placar persistir, serão cobradas séries de um, alternadas, na espera do desempate. A mesma regra será observada nas semifinais e na grande final, que vai apontar a Seleção Campeã do Mundo.

Pois bem, o pênalti, nas circunstâncias mencionadas, é a medida extrema para resolver um imbróglio provocado pela inoperância dos atacantes ou pela excelência dos defensores das equipes contendoras. Muita gente diz que pênalti é loteria, mas esse pensamento está mudando, a partir de estudos e ensaios científicos exaustivos, que utilizam tecnologia de ponta e apontam uma série de providências para que esse tiro seja o de misericórdia...

Adrian Lees, da Liverpool John Moores University realizou experimentos através da medição do tempo em que o goleiro demora para chegar nos diferentes pontos do gol. De posse dessa informação, é fácil calcular a velocidade que a bola deve atingir para que o goleiro não tenha tempo de chegar nela. Em outros dois estudos, um do Prof. Dr. Ronald Dennis Ranvaud e sua equipe, do Laboratório de Fisiologia do Comportamento, da USP e outro, igualmente, de Lees, foram identificadas as áreas do gol em que, historicamente, é raríssimo o goleiro conseguir defender. Assim, pode-se determinar uma estratégia que garanta ao cobrador fazer o gol - Chutando no meio dos quatro retângulos superiores da goleira, pois é um lugar difícil para o arqueiro defender, a uma velocidade superior a 80 km/h, propiciando que a bola chegue no ponto pretendido antes do goleiro, mesmo que ele se antecipe em 500 milésimos de segundo ao chute..

Para os diletantes, os que querem aprender e, especialmente, para os curiosos, como eu, algumas dicas para que a cobrança do pênalti seja perfeita, segundo os entendidos:

- Fique no lugar certo, posicionando-se de quatro a seis passos atrás da bola, pois a distância possibilitará uma combinação perfeita entre velocidade e força. Assim, a bola chegará ao gol na velocidade ideal que situa-se entre 90 e 104Km/h;

- Após o apito, seja muito rápido, para surpreender (três segundos) ou muito lento, para que o goleiro fique nervoso (13 segundos);

- Bata com a parte de dentro do pé, o que aumentará em 25% as chances de marcar;

- Mire o centro do gol pois, em 93,7% dos casos os goleiros pulam para os lados porque não aguentam ficar parados e deixam o meio do gol aberto, influenciados pelo que cientistas israelenses chamam de “tendência à ação”.

Porém, mesmo com toda a técnica moderna, é preciso ter categoria para chutar bem e marcar mesmo se o goleiro adivinhar o canto.

Há, entretanto, outro detalhe ao qual nenhuma técnica resiste – a condição psicológica do jogador que vai bater o pênalti já que, na maioria das vezes, o ambiente é tenso, de elevada ansiedade e expectativa e no atleta estão concentradas todas as esperanças do time, da comissão técnica e dos torcedores. O psicólogo Greg Wood, da inglesa Exeter University, avisa que a ansiedade exacerbada faz com que o batedor concentre sua atenção no goleiro, facilitando a defesa. Assim, sugere que o jogador mantenha o controle emocional, desviando o olhar do adversário, concentrando-se apenas na bola e no canto em que vai desferir o tiro mortífero!

Como apreciadora do bom futebol, agradou-me conhecer as novas técnicas empregadas para que a cobrança de penalidades máximas seja eficiente, ainda mais nessa fase da Copa do Mundo pois, segundo as estatísticas existentes, de mundiais anteriores, a seleção campeã terá mais de 50% de probabilidade de ter que enfrentar uma ou mais decisão por pênaltis em sua trajetória rumo ao título.
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letra. Suas experiências e vivências estão no blog Interface Ativa! Dê uma espiadinha em http://niviaandres.blogspot.com/
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RESULTADOS DE HOJE, SEXTA-FEIRA, 02-7, PELAS QUARTAS-DE-FINAL DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL:
HOLANDA 2 x 1 BRASIL
URUGUAI 1 x 1 GANA
(NOS PÊNALTIS, URUGUAI 4 x 2 GANA)
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quinta-feira, 1 de julho de 2010


AS COPAS E O

COMPORTAMENTO DAS MASSAS



De tudo que vi na minha vida, que em julho completa 65 anos, e ajudado por privilegiada memória, aponto a vitória na Copa de 1958 como a maior explosão popular de alegria já ocorrida no Brasil. Nenhum fato histórico, antes disso, justificou algo parecido. É fácil entender: foi nossa primeira vitória numa Copa e o povo vinha de duas grandes frustrações, as derrotas de 1950 e 1954.

A vitória no Estádio Nacional de Santiago, no Chile, em 1962, como esperado colocou nas ruas também uma grande festa. Mas nada foi comparável a 1958. Meu próprio sentimento na época ajuda a explicar isso: já tínhamos nos acostumado com a idéia de ser campeões do mundo. Quatro anos curtindo a posse da Taça Jules Rimet injetaram no imaginário popular essa “naturalidade”. Creio que seja por isso, agora que somamos cinco títulos, que nós, brasileiros, tenhamos tanta dificuldade em lidar com a derrota.

Não entendo nada do assunto, mas sempre achei fascinante ler e ouvir análises e tentativas de interpretação do comportamento das multidões. O futebol e a política ensejam cardápio rico e variado para isso. Vejam o Corinthians, por exemplo: ficou muitos anos sem ganhar o campeonato paulista. Naquela fase de vacas magras a torcida comparecia aos estádios para dar força ao time. Foi só vencer e o pessoal sumiu dos estádios. Ou seja, a torcida já estava realizada, satisfeita.

Para nós, ganhar a Copa virou uma espécie de obrigação, como é para os norte-americanos vencer o mundial de basquete, ou para os quenianos ganhar maratonas. Quando isso não acontece a tristeza e frustração são brutais, deixam o país literalmente prostrado, em luto. Jamais vou esquecer daquela tarde vazia e silenciosa, em São Paulo, logo depois que perdemos para a França, e ainda humilhados pela goleada e chapéus do Zidane. Qualquer outro país (de menores chances no futebol) teria festejado o vice no mundial como uma fabulosa vitória, como realmente é. Para nós foi algo próximo da morte. Nas demais grandes potências do futebol mundial não é diferente. Vice, e nada, acabam sendo a mesma coisa. Ou até pior, porque o esquadrão chegou até lá, esteve a poucos passos e minutos do título, sentiu o aroma do ouro, viveu o sonho.

Trabalhando na indústria automobilística, na assessoria de imprensa da Ford, aprendi que numa segunda-feira pós-derrota corintiana a produção na linha de montagem dava problemas. A peãozada estava furiosa, ou triste, e trabalhava mal. Foi sempre assim. O inverso também era verdadeiro. Eis, pois, uma das razões que me levam a querer muito essa Copa de 2010. Estamos num momento bom da economia, reservas cambiais e superávit primário saudáveis, safras gordas, o país tem repercussão no exterior, há avanços inegáveis em vários setores, existem perspectivas, com o Pré-Sal. A auto-estima do brasileiro neste momento é positiva, e uma prova disso é o altíssimo índice de aprovação do governo, jamais visto antes, em tempo algum. Calma, não estou fazendo aqui proselitismo pró-Lula ou Dilma. Estou constatando apenas um fato real e indiscutível, sob uma ótica de observador. A gente pode brigar com o governo, mas não pode brigar com os fatos reais, nem com a História. Você poderá odiar Hitler, como também odeio, mas jamais poderemos dizer que não teve apoio do povo alemão. Só não interpretem isso como algum comparativo, seria absurdo demais, além de injusto. Estamos apenas falando sobre comportamento de multidões e objetivamente de coisas factuais. Quem acompanha este blog já cansou de ler críticas que faço ao Lula, sobretudo nas suas alianças com corruptos notórios. E isso não significa que eu goste da oposição, pois quando chega ao poder age da mesma forma.

O comportamento das multidões é sempre interessante, curioso, intrigante e, por vezes, até desconcertante. Pode ser até insondável. Há o risco de Collor ganhar em Alagoas, eis um exemplo. Existem tiranos idolatrados. Notórios ladrões têm liderados. A massa oscila entre a mais pura ingenuidade e infantilidade a momentos de luz, quando rejeita a opressão. A Primavera de Praga, esmagada pelos tanques soviéticos, e muito depois a queda do Muro de Berlim, foram momentos de luz. O ensaio de rebelião popular espontânea, sem lideranças, na morte do Getúlio, em 24 de agosto de 1954, foi outro. Entenda-se aqui luz não como erro ou acerto, aprovação ou desaprovação, mas apenas como capacidade de reagir e tentar algo melhor para seu destino, direito básico da humanidade.

Estes exemplos mostram que as multidões são também diferentes, movidas pelas mais diversas motivações. Algumas enfrentam a polícia nas ruas por causa de um jogo de futebol. Outras porque buscam dignidade no seu direito de viver. Comparando, é a alienação primitiva de um lado; a consciência e politização de outro. Dificilmente elas se misturam. Há multidões manipuláveis. Jânio Quadros foi o mestre disso, com seu populismo de caspas e sanduiches de mortadela. Mas já estive no meio de um milhão de pessoas, no Vale do Anhangabau -- que pediam Diretas Já! -- com um comportamento maduro e impecável, entendendo o conteúdo jurídico e aplaudindo o discurso elegante de Sobral Pinto.

As chamadas elites conservadoras odeiam as multidões, exceto quando se trata de ganhar dinheiro a custa da ignorância delas. Já os políticos populistas precisam delas para sobreviver. E sejamos francos: pode haver algo mais coletivamente imbecil do que uma multidão num estádio soprando cornetas? Ou consumo de massa induzido por novela de TV?


Esse humor popular, contudo, é volátil. Pode despencar em poucos dias, ou até horas. Que o diga Sarney, na época do Plano Cruzado. Que o digam políticos que perderam eleições depois de um debate. Que o diga Dunga, se perder a Copa. Duvido que ache alguém que ainda o defenda. Do mesmo jeito que pode voltar como grande herói. E que assim seja! O povo estará feliz, isso é o que importa. Circo é bom e faz parte da vida. Se tiver pão, melhor ainda.

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*Milton Saldanha
é jornalista e tangueiro. Mas dança também samba e torce contra a Argentina. www.jornaldance.com.br
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quarta-feira, 30 de junho de 2010



Apesar de pertencer a uma família pobre, posso dizer que levei uma infância de rico. Nasci em Santo André numa fria madrugada de junho de 1948 e, dois meses após, fui no colo de minha mãe para Bálsamo, para onde minha família passou a morar. As ruas ainda eram de terra. As casas térreas, com amplos quintais, todos com árvores frutíferas. As residências dos meus avós eram as preferidas. A dos meus avós maternos possuía mangueiras com os mais diversos tipos de manga – a que eu mais apreciava era a Bourbon. Havia, ainda, rente às cercas de arame farpado no quintal, pés de abacaxi, que eu saboreava ali mesmo quando eles amadureciam. A dos meus avós maternos era preferida por causa de suas jabuticabeiras, das pequenas às grandes. Doces como mel, eu as saboreava nos próprios pés, diante do sorriso maroto do meu avô Angelim, um tipo pequeno e simpático.
Na outras casas, também, nada era proibido. Por isso, eu, sempre quando tinha vontade, invadia os quintais dessas casas e pegava minha fruta preferida - laranja, caju, melancia, dependendo da época. As mangueiras predominavam na maioria dos quintais.
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Antes de completar seis anos de idade, ingressei na escola municipal, denominada Modesto José Moreira. Lá fiz o primário e, no mesmo edifício onde funcionava a escola, tinha também o ginásio, onde cursei até o segundo ano – foi quando minha família transferiu-se novamente para Santo André. Em Bálsamo, além de estudar, cheguei a trabalhar como bóia-fria catando algodão e, depois, amendoim. Depois, passei a visitar os sítios dos arredores da cidade com um carrinho puxado à mão, arrecadando garrafas que, posteriormente, vendia no comércio da cidade. Minha última profissão em Bálsamo foi a de engraxate. Acredito que fui um dos primeiros a implantar o atendimento de engraxate em domicílio. Enquanto os demais engraxates ficavam na praça central ou andando pelas ruas à cata de cliente, eu visitava as casas, no horário marcado, e engraxava os sapatos de toda a família. Um negócio mais garantido, que foi copiado posteriormente pelos demais colegas de profissão.
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Jogava também futebol. Diziam que tinha um chute potente. Não segui carreira por ter-me contundido, lesado o tornozelo da perna direita. Nunca mais chutei uma bola com força. Aprendi a nadar nos rios e lagoas existentes nos sítios instalados ao redor da cidade. Esse aprendizado salvou a minha vida quando, ao regressar em um barco da Ilha Anchieta com destino a Ubatuba, no litoral norte paulista, o barco naufragou. Mesmo diante de ondas altas e violentas, consegui nadar até à praia da ilha. Nesse dia, foi impossível não lembrar os rios de Bálsamo.
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Em Bálsamo é que tomei gosto pela leitura. Meu pai era assinante da revista Cruzeiro, já extinta, e da Readers Digest e, nas horas de folga, eu ficava lendo em sua barbearia. Na Cruzeiro, não deixava de apreciar a última página, com a crônica de Rachel de Queiróz. Ambas, proporcionam boas leituras, bom passatempo, principalmente para uma criança que começava a descobrir o mundo exterior.
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Namorar com aquela idade era sonho e brincadeira. Cheguei a paparicar uma das meninas, da qual nem me lembro o nome. Mas lembro, não só do nome, mas também do rosto de uma por qual me apaixonei, se é que se pode chamar de paixão o sentimento de um menino com menos de dez anos. Chamava-se Alaíde, era morena, tinha cabelos negros e um sorriso encantador. Eu a via com mais freqüência aos sábados, pela manhã, quando ia até a sua casa engraxar sapatos. Ingênuo, ignorava que ela jamais iria se enamorar por um engraxate, sabendo que os garotos de família rica também a desejavam. Já se passaram quase meio século e eu ainda tenho essa menina em meu pensamento: Alaíde, minha paixão infantil.
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Em Bálsamo, fiz muita amizade e poucos amigos. Dois deles: Ismael e Tico. Ismael mudou-se de lá nos anos seguintes e só o vi, depois, uma vez. Como repórter, viajava com destino ao norte de São Paulo, quando o encontrei num posto de gasolina, pedindo carona para um motorista de caminhão. Conversamos rapidamente e ele se foi. Nunca mais o vi. Tico, cujo nome era Heider José Borduqui, permaneceu meu amigo até a sua morte. Toda vez que eu visitava Bálsamo, ia ao seu encontro. Nos dias em que lá ficava, estávamos sempre juntos, nos bares, bebendo cerveja e conversando sobre a infância passada. Quando o vi pela última vez, apesar de ter parado com as bebidas alcoólicas, aceitei tomar um copo de cerveja com ele. Brindamos a nossa saúde. Ele morreu no ano seguinte.
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De Bálsamo, tenho boas lembranças. Nos finais de ano, quando tudo dá certo, revisito a cidade. Está muito modificada. As ruas pavimentadas, o número de carros aumentou de maneira extraordinária. Não é mais nem sombra do que foi no passado. Perdeu a sua paz... Assim como eu perdi a minha saúde. Faz tempo que não volto a Bálsamo. Talvez volte um dia. Sinto que, se voltar, será uma visita nostálgica, com ar de despedida. Uma visita de quem vai para se despedir. É o que sinto. É o que o meu coração me faz dizer.
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Quando da minha infância em Bálsamo, a imagem que tinha de Bagdá era aquela dos castelos gigantes e misteriosos, de ruas estreitas, de bares camuflados nos porões, nos tapetes voadores, nos reis e nas rainhas e, principalmente, de Ali Babá e os 40 ladrões – este último que ficou mais famoso no Brasil depois que políticos confundiram Ali Babá como chefe dos 40 ladrões e não como o seu o seu implacável perseguidor. Bagdá me lembrava – e ainda me lembra na imaginação – a cidade dos sonhos, das lâmpadas maravilhosas realizadoras de desejos impossíveis. Jamais – mesmo nos dias de hoje – deixei que a guerra desfechada por sanguinário norte-americano, no suposto extermínio de armas nucleares, na conquista permanente da paz mundial, eliminasse de minha mente essa visão romântica.
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Bagdá me lembra, ainda, as mulheres com véus transparentes, deixando ver a suavidade de suas faces, o misterioso e envolvente olhar feminino que só as mulheres árabes conseguem ter. Assim, caminhando pelo corredor do terceiro andar no Hospital do Câncer, para melhor circulação do sangue, é que via, bem ao final, a figura de uma mulher que, por motivos ainda desconhecidos, me levavam em sonho para Bagdá. Ela estava lá, aparentemente só, à espera não se sabe do quê. Mais tarde, fiquei sabendo que era o seu cunhado que ali estava internado e só estava aguardando determinação para ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva. O motivo da doença, não fiquei sabendo. Só a vi, sozinha, o olhar perdido em algum lugar de seu deserto particular e, com o cansaço natural provocado pela quimioterapia, parei estático, escorando-me na parede. Respirava com dificuldade e ela me ofereceu uma cadeira.
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- Se quiser, pode entrar e descansar. Meu cunhado já foi para a UTI.
Agradeci, respirei, como se ali estivesse um oásis. Restabelecida a respiração normal, ia recomeçar a caminhada de volta ao meu quarto, quando ela formou uma espécie de triângulo com seu braço esquerdo e ofereceu a ajuda, com uma ternura, com uma meiguice jamais sentida em toda a minha vida. Não afeito à delicadeza tão espontânea, me neguei a aceitar e ela insistiu, formando de novo o triângulo com o braço esquerdo: "Aceite, por favor".

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E nessa sua insistência, por instantes, senti parte da milenar solidariedade do povo árabe. Se aceitasse, agora compreendia, estaria aceitando a ajuda que ela não poderia mais dar ao cunhado ausente. Deixei-a me conduzir até ao meu quarto e lá mesmo ela se identificou: "Meu nome e Daguirra. Nasci em Bagdá". Antes que eu a questionasse, ela complementou: "Não nessa Bagdá atual. Mas a Bagdá do meu tempo criança, dos castelos e das mil e uma noites".
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Na próxima quarta-feira, o décimo segundo capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza/ Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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terça-feira, 29 de junho de 2010


MENINA-VENENO


E segue o baile das cadeiras, na Copa do Mundo da FIFA, na África do Sul! Findos os jogos da terça-feira, Paraguai e Espanha juntam-se a Uruguai e Gana; Holanda e Brasil; Argentina e Alemanha, completando o seleto grupo dos oito que ascendem às quartas-de-finais. E que contradança temerária! Se os dançarinos não fizerem pimba na jabulani, podem contratar aeroplano que os leve para casa!

Confesso-me entusiasmada ao perceber que quatro seleções sulamericanas seguem na disputa – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, superando as europeias Holanda, Alemanha e Espanha, com o único representante africano, Gana, fechando o grupo.

E, vejam só, nada é impossível, podemos chegar às semifinais só com seleções do continente sulamericano, com disputas entre Brasil e Uruguai; Argentina e Paraguai. Nada mais, nada menos, do que a reprodução da Copa América!

Pois bem, a dança prossegue e não é só dentro das quatro linhas. Erros de arbitragem gritantes trouxeram, novamente, à baila, o uso do recurso da tecnologia para a decisão dos lances duvidosos. Joseph Blatter, o todo-poderoso presidente da FIFA, pediu desculpas, hoje, às seleções prejudicadas e disse que, na próxima reunião do Comitê de Arbitragem, serão novamente votadas as mudanças...Pela lentidão com que são introduzidas novas regras, não creio que haja reformulação em curto espaço de tempo. Muitos interesses estão em jogo...

Aliás, falando em interesse e poder, vocês têm ideia da premiação que será distribuída aos países participantes desta Copa do Mundo? O campeão leva US$ 30 milhões e a Taça FIFA; o vice, US$ 24 milhões; o terceiro lugar terá direito a US$ 20 milhões; o quarto, US$ 18 milhões. País eliminado nas quartas-de-final leva US$ 14 milhões; nas oitavas, US$ 9 milhões; na primeira fase, US$ 8 milhões. Cada seleção recebe, ainda, US$ 1 milhão a troco de ajuda de custo. Todos regiamente recompensados!

Voltando ao bailado futebolístico que anima e encanta o mês de junho em todas as latitudes, tenho certeza de que a dona do pedaço segue sendo a jabulani, a menina-veneno do Mundial, criada com aparato tecnológico que apresenta o novíssimo perfil "grip'n'groove", uma textura que possibilita estabilidade excepcional e domínio perfeito aos melhores jogadores do mundo. Ela é formada por oito gomos tridimensionais ligados termicamente que, pela primeira vez, têm molde esférico, fazendo com que a bola seja perfeitamente redonda e ainda mais precisa do que antes. Só que nem todos os craques têm conseguido domar a danadinha...Achei divino o novo apelido – menina-veneno! Surgiu durante o jogo Inglaterra e Alemanha, no domingo, quando o cantor Ritchie, inglês radicado no Brasil, participou, como convidado da Globo, dos comentários, no intervalo da partida. Quem não lembra daquela canção de sua autoria...Menina Veneno!

E a jabulani que tem aprontado tanto, provocando risos e lágrimas, não é única. Tem uma irmã preciosa. A jo’bulani – a bola do jogo oficial da final da Copa do Mundo da FIFA 2010. A jo’bulani é uma versão distintivamente dourada da jabulani. O nome é uma homenagem à cidade-sede de Johannesburg, conhecida como a "Cidade do Ouro" e também como Jo'Burg. A bola possui um design com a mesma inspiração sul-africana da jabulani, com a diferença de que a sua principal coloração é dourada.

Então, esperemos que a dourada jo’bulani esteja nos pés dos guerreiros do escrete canarinho, no dia 11 de julho, em Johannesburg, no magnífico Soccer City Stadium, seja qual for o adversário e que os deuses do futebol consintam que os nossos craques a acariciem, com amor, e façam dos gols com a douradinha manhosa, a nossa alegria!

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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e experiências estão no blog Interface Ativa! (totalmente remodelado, deem uma espiadinha!) http://niviaandres.blogspot.com/
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JOGOS DE HOJE, 29-06, PELAS OITAVAS-DE-FINAL DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL:
PARAGUAI 0 x 0 JAPÃO
(NOS PÊNALTIS, PARAGUAI 5 X 3 JAPÃO)
ESPANHA 1 x PORTUGAL 0
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

O CHILE TRAZ GOSTOSAS RECORDAÇÕES

Sempre que o Brasil enfrenta o Chile lembro-me da Copa do Mundo de 1962 que foi realizada naquele país, quando nossa Seleção iria conquistar o bicampeonato ao vencer os tcheco-eslovacos na final. A estrela de Pelé não brilhou, machucado no primeiro jogo, mas o Brasil contou com Didi, Djalma e Nilton Santos, Vavá, Zito, Amarildo e... Garrincha, um dos artilheiros da competição e melhor jogador da Copa.

A zebra andava solta pelos lados do Brasil e parecia que o sonho do bicampeonato mundial seria adiado. O treinador do Brasil, Vicente Feola, que havia conquistado o mundial em 58, sentiu-se mal e foi preciso substituí-lo às pressas. Aymoré Moreira assumiu o comando do escrete canarinho. A bruxa estava de plantão e no primeiro jogo do Brasil, contra o México, com vitória brasileira por 2 x 0, Pelé, que marcou um dos gols, se contundiu com gravidade e estava fora da Copa no Chile, para desespero de milhões de brasileiros. Amarildo, atacante botafoguense, entraria no lugar do melhor jogador do mundo.

Bons tempos eram aqueles dos cadillacs, da brilhantina, do namoro de mãos dadas, da coca-cola e chiclete Adams, das meias de nylon, dos corpetes pontudos e de “Only You” tocando no rádio. Nos Estados Unidos quem despontava para o sucesso eram os Beatles, que em 1962 lançavam seu primeiro disco, Please, Please Me. No cinema, morria Marilyn Monroe, aos 36 anos, após cometer suicídio. O mercado automobilístico estava em franca expansão e a novidade era que a empresa alemã Volkswagen tinha resolvido produzir os seus modelos de carros no ABC Paulista. Assim, no ano da Copa no Chile, sai da nova fábrica de São Bernardo do Campo, o primeiro Karmann-Ghia brasileiro, carrinho de linhas arrojadas e que fez um sucesso enorme nos anos 60 e começo dos anos 70.

Eu cursava o ginasial naquela época da Copa no Chile e o Brasil, sem Pelé, iria enfrentar o forte selecionado da Espanha, no período da tarde. E naquele tempo, nada de paralisar aulas ou fechar o comércio por causa de jogos da Copa. Até porque quase ninguém tinha TV em casa, principalmente no interior, e o único recurso era o rádio. Meu pai estava de olho para que eu não faltasse às aulas e colocou a mochila em minhas costas e me acompanhou até o ginásio onde eu estudava. No pátio da escola, cabeça baixa e desesperado para ouvir o jogo Brasil e Espanha, Carlão, um amigo, encostou-se e tirou de sua bolsa escolar um rádio portátil de pilha, com capa de couro marrom e alça, não me esqueço. Era a grande novidade da época e só ricos tinham um desses, custava caro e não tinham muitos para vender. Para ouvir o jogo saímos da escola e nos escondemos num campinho de futebol das proximidades. Levamos outros três companheiros. O Brasil perdia o jogo para a Espanha até 27 minutos do segundo tempo, quando brilhou a estrela de Amarildo. Contando com os passes de Garrincha, o substituto de Pelé marcou dois gols e o Brasil eliminou a Espanha da Copa do Chile. Na comemoração do gol da vitória, Carlão jogou o rádio pra cima, o aparelho caiu no chão e silenciou. Não ouvimos o final do jogo. Faltavam poucos minutos e ficamos aflitos, quando, repentinamente, fogos espocaram por todos os cantos da cidade. Era o sinal de que o Brasil tinha vencido o jogo e comemoramos, todos abraçados e pulando. O radinho foi levado logo depois a uma autorizada para conserto.
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Na semifinal da Copa o Brasil enfrentaria o Chile e os anfitriões tinham um bom selecionado e contavam com a torcida a seu favor. E nós, sem o radinho (ainda estava no conserto), demos um jeito de cabular as aulas e procurar algum boteco que tivesse rádio sintonizado no jogo. Não foi difícil encontrar um. Atentos na transmissão, ouvimos o locutor gritar, entusiasmado, do superlotado estádio Nacional do Chile, os dois gols de Mané Garrincha, marcados em 32 minutos de jogo e praticamente assegurando a vitória brasileira. Naquele jogo, o gênio das pernas tortas foi expulso da partida, após falta dura no chileno Rojas. Com a ajuda de Vavá, que também marcou dois gols, a seleção derrotou o anfitrião da competição por 4 a 2 e na disputa final, contra os tchecos, mesmo saindo perdendo por 1 x 0, o Brasil virou o jogo e venceu por 3 x 1, tornando-se bicampeão mundial.
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As regras foram mudadas na última hora para essa partida e Garrincha, expulso no jogo anterior contra o Chile, pode jogar. Um trambique bem arrumado, sem dúvida, para azar dos tchecos. Garrincha não marcou neste jogo, mas deu dribles sensacionais e passes certeiros para Vavá, Zito e Amarildo fazerem os gols do bicampeonato mundial.
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O Brasil enfrenta o Chile nesta segunda-feira, às 15h30 (de Brasília), no Estádio Ellis Park, na Copa do Mundo da África do Sul. O vencedor do duelo joga pelas quartas de final contra a Holanda, que venceu, também nesta segunda-feira, a Eslováquia por 2 x 1. A luta pela vaga nas quartas de final da Copa do Mundo não será a única preocupação do Brasil na partida contra o Chile, hoje. Além do adversário, a Seleção Brasileira precisa ficar atenta aos quatro jogadores pendurados com um cartão amarelo. Dois deles devem ser titulares contra os chilenos: o zagueiro Juan e o atacante Luís Fabiano. Já o volante Felipe Melo dificilmente será liberado pelos médicos, pois se recupera de contusão no tornozelo, enquanto Ramires deve ficar como opção, no banco de reservas.
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Sabemos que não temos jogadores que desequilibram a partida, como em 58, 62 e 70, mas estamos torcendo para que baixe em Robinho o espírito de Mané Garrincha e que ele entorte, com suas pedaladas, os zagueiros adversários. Temos esperança de que Luiz Fabiano se inspire em Amarildo ou Vavá, o peito de aço da conquista do bi no Chile e faça os gols necessários que classifiquem o Brasil para as quartas de final. E que Kaká esteja em seu melhor momento nesta Copa e nos encante com suas arrancadas maravilhosas, como faziam Zito e Didi e carregue, junto com suas passadas elegantes, todas as esperanças de milhões de brasileiros, para que, hoje no conforto de nossas casas, vendo o jogo numa TV, possamos soltar o grito de gol que ficou entalado em nossas gargantas no último compromisso, no frio 0 x 0 contra Portugal. Boa sorte, Brasil!
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*(crônica escrita e postada antes do jogo do Brasil).
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*Edward de Souza é jornalista e radialista.
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RESULTADOS DAS OITAVAS DE FINAL DA COPA DO MUNDO, JOGOS REALIZADOS NESTA SEGUNDA-FEIRA(28-06):
HOLANDA 2 ESLOVÁQUIA 1
BRASIL 3 X CHILE 0
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