domingo, 20 de junho de 2010

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COPAS DO MUNDO DE 1954 E 1958
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A primeira Copa do Mundo da minha vida foi a de 1954. Ou melhor, o primeiro jogo de Copa do Mundo. Só lembro o jogo Brasil X Hungria, na Suíça, que perdemos de 4 a 2 como se fosse uma nova grande tragédia nacional, depois daquela de 1950, no Maracanã, quando o Uruguai engoliu o bicho papão que era o até então imbatível time brasileiro, e para o qual bastava um empate.
Em 1954 eu tinha 8 ou 9 anos. Encontrei toda a família em volta de uma mesa, o rádio no centro. Indispensável dizer que ainda não existia TV no Sul brasileiro. Mas a de 1954 foi a primeira Copa com TV, em âmbito local, em Berna, o máximo que a tecnologia da época permitia. Tudo ao vivo, em preto e branco, não existia o vídeo - tape.
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A transmissão radiofônica chegava lá em Pelotas (RS) repleta de chiados. Meu
pai era oficial do Exército e serviu lá. Nossa família vivia como ciganos, mudando de cidade a cada dois anos. A gente adorava, era uma forma de ir conhecendo o Brasil, e foi assim até o velho se aposentar, com 29 anos de carreira. A todo o momento a voz do locutor sumia e voltava, era uma dificuldade técnica enorme fazer uma transmissão daquelas, ainda mais do continente europeu. As rádios formavam uma imensa cadeia, pelo Brasil todo, e o som chegava com segundos de atraso e rarefeito.
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No começo não entendi direito o que estava acontecendo, a razão de um jogo de futebol despertar tanto interesse, inclusive da minha mãe, que jamais ligava para isso. Eu já costumava ir ao estádio de Pelotas, com meu pai, quando jogava o Farroupilha, um dos times da cidade, do nosso bairro, o Fragata. O grande clássico era Pelotas X Farroupilha. Meu pai fazia parte do conselho não sei das quantas, do Farroupilha, então esse foi meu primeiro time de futebol. Até hoje sou Farroupilha (será que ainda existe?) e literalmente desde criancinha. Logo em seguida passei a amar o Inter, por influência do meu irmão mais velho e atraído pela beleza da sua camiseta vermelha, e onde jogavam Bodinho, Luisinho e outros inhos muito famosos naqueles anos 50.
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Ouvindo Brasil versus Hungria, meu pai e minha mãe estavam enfurecidos contra
o juiz. Consta que roubou mesmo, de forma escandalosa. Pelo menos é a versão brasileira do jogo. Nós tínhamos um time respeitável, com o célebre técnico Zezé Moreira, e onde jogavam craques como Nilton Santos, Djalma Santos, o goleiro Castilho. Permitam-me esclarecer que não recordo destes detalhes, estas informações são fruto de pesquisa. Mas a Hungria, que acabou derrotada na final pela Alemanha Ocidental, de virada, 3 a 2, tinha realmente o melhor time do mundo, com o famoso e implacável artilheiro Puskas. A Hungria vinha de mais de 30 jogos sem perder. Dava goleadas incríveis. Enfiou 9 a zero na Coréia, durante a Copa. Na final tinha praticamente o jogo na mão, ganhando de 2 a zero, e deixou a Alemanha Ocidental virar. Ninguém acreditava. Talvez tenha sido a maior zebra da história das copas.
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No jogo contra o Brasil o que ficou fortemente marcado na minha memória foram a fúria do locutor brasileiro, esbravejando contra o juiz, e a revolta da minha família. Parecia que o Brasil estava em guerra e sendo massacrado.

Chega 1958: aí já estou com 13 ou 14 anos. Desta vez moramos em Santa Maria, uma cidade encravada num vale, parcialmente cercada de morros, bem no centro do Rio Grande do Sul. Ficamos lá 9 anos, foi uma cidade marcante na minha vida. Nivia Andres também morou lá, foi onde se formou.
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O Brasil vence de goleada a Suécia, em Estocolmo: 5 a 2. Pelé, quase um garoto, 17 anos, desponta. Foi o grande herói. Foi nessa Copa que eu e certamente metade do Brasil passou a saber da existência do Rei. Nossa Seleção, comandada pelo gordo técnico Vicente Feola, chegou invicta à final. Seu pior resultado foi o empate em zero a zero com a Inglaterra. No resto, só alegria! Assim que o jogo acabou, sob as emoções inesquecíveis da vibrante transmissão da Cadeia Verde e Amarelo, da Rede Bandeirantes de Rádio, somando centenas de emissoras por todo o Brasil, fui para a frente da casa e estourei uma caixa inteira de rojões. O foguetório era ouvido de todos os lados e durou o dia inteiro. O jogo foi pela manhã (no nosso fuso). Até tarde da noite ainda se ouvia rojão explodindo em algum bairro.

Santa Maria viveu naquele domingo de sol, um dia muito lindo, a maior festa popular de sua história. A cidade em peso foi para as ruas. Vinha gente de todos os bairros para o Centro, onde o marco era a Praça Saldanha Marinho. Foi a única vez, naqueles 9 anos lá morando, que vi reunidas e festejando felizes pessoas de todas as raças e classes sociais. Até esse dia eu nunca tinha percebido como a população negra da cidade, que vivia na periferia, era numerosa. Vivendo sempre no núcleo mais central, tinha a imagem de uma cidade de brancos. A cidade, a propósito, era bem racista. Havia um não declarado apartheid. A vitória da Seleção mostrou seu outro lado social. Aquela multidão parecia ter surgido do nada. E me abria, pela primeira vez, graças ao fenômeno e sociologia do futebol, os olhos para a imensa diversidade do nosso Brasil.
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*Milton Saldanha é jornalista e escritor.
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RESULTADOS DE SÁBADO (19-06) DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DISPUTADA NA ÁFRICA DO SUL:
HOLANDA 1 X JAPÃO 0
GANA 1 X AUSTRÁLIA 1
CAMARÕES 1 X DINAMARCA 2
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RESULTADOS DE DOMINGO (20-06) DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DISPUTADA NA ÁFRICA DO SUL:
ESLOVÁQUIA 0 X PARAGUAI 2
ITÁLIA 1 X NOVA ZELÂNDIA 1
BRASIL 3 X COSTA DO MARFIM 1
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sexta-feira, 18 de junho de 2010


AMAI VOSSOS INIMIGOS

Recentemente assisti ao filme “INVICTUS”, com Morgan Freeman (do qual sou fã de carteirinha) e Matt Damon (outro ator fabuloso). A película foi dirigida pelo não menos talentoso Clint Eastwood.
Mais uma vez, Nelson Mandela, o homem que lutou contra a apartheid na África do Sul, é o centro deste filme. O outro filme (anterior) é “Luta pela Liberdade”. Igualmente magnífico.

Depois de ser libertado do cárcere, torna-se presidente do país. Um de seus primeiros atos foi o PERDÃO para os que se julgavam seus inimigos. Usou toda sua inteligência e carisma para conseguir o consenso geral para a PAZ. Único caminho para o desenvolvimento e integração racial.

Com uma visão muito particular, eu diria profunda, viu no esporte nacional do país, o rúgbi (que teve origem na Inglaterra) na época só praticado pelos brancos e em total descrédito, uma forma de aproximar as duas raças.
Os Negros queriam o desmantelamento do time nacional (ou seleção) e quase conseguiram se não fosse a intervenção do “Missionário da Paz”.

Com muito tato, Mandela não só conseguiu manter o escrete como influenciar o capitão do time a se empenhar para o progresso e fortalecimento dos atletas. O resultado desse empenho foi o primeiro lugar no pódio do Campeonato Mundial realizado no país. Um passo gigantesco para integração das duas raças.
Como amar a quem nos quer mal? Mesmo que tenhamos ultrapassado muitas barreiras, e já estarmos em condições de não odiar o próximo, ainda assim nos sentimos com dificuldade em lidar com o ódio que nos é dirigido. Podemos dizer que é um direito nosso, ou que se trata apenas de defesa. Mas é forçoso reconhecer que o coração se rebela, e que o sentimento de vingança muitas vezes espera apenas pela hora mais oportuna.

Nelson Mandela, perseguido pelos seus ideais e encarcerado por 27 anos, soube dar a “volta por cima”, pregando a paz e o perdão.

O país ainda levará algum tempo para se integrar racialmente. Mas, o grande passo foi dado por um homem que foi destinado pela providência a fazer isso. Um missionário? Acredito que sim.

Com um esforço inaudito e com o reconhecimento internacional dos feitos de Mandela, A África do Sul conseguiu sediar a 19ª. Copa do Mundo de Futebol. Lindos estádios e toda uma infraestrutura criada que servirá para alavancar ainda mais o progresso, não só físico como moral.

O esporte usado politicamente com sabedoria apesar do “cartolismo” serviu e servirá para a transformação pacífica de um povo dividido por questões raciais.

Os ideais do Barão de Coubertin, criador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna foram lembrados com propriedade e os resultados foram magníficos.

Seria Nelson Mandela religioso? Não importa.

Nascido no seio de uma tribo africana e cursando uma universidade adventista na Inglaterra, se viu pensador.

“Seja qual for o Deus eu sou o mestre do meu destino e capitão da minha alma”. Notem a profundidade deste pensamento:
“Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes/Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida/É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta/Nos perguntamos: “Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?”/ Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?.../Bancar o pequeno não ajuda o mundo/Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você/E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo”. (Discurso de posse, em 1994).

Como seria o mundo se tivéssemos mais estadistas como esse? Certamente estaríamos em paz!

Para finalizar, transcrevo abaixo um trecho do item 4 do Capítulo XII do Evangelho Segundo o Espiritismo.

“Para o crente, mas para o espírita, sobretudo, a maneira de ver é diferente, porque ele considera o passado e o futuro, entre os quais a vida presente não é senão um ponto; sabe que, pela própria destinação da Terra, deve prever encontrar nela homens maus e perversos; que as maldades das quais é alvo fazem parte das provas que deve suportar, e o ponto de vista elevado em que se coloca, lhe torna as vicissitudes menos amargas, venham elas dos homens ou das coisas; se ele não se queixa das provas, não deve murmurar contra aqueles que delas são os instrumentos; se, em lugar de se lamentar, agradece a Deus por experimentá-lo deve agradecer a mão que lhe fornece a ocasião de provar sua paciência e sua resignação. Esse pensamento o dispõe naturalmente ao perdão; ele sente, por outro lado, que quanto mais é generoso, mais se engrandece aos próprios olhos e se acha fora do alcance dos golpes malevolentes do seu inimigo”.
Paz. Muita Paz.
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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RESULTADOS DOS JOGOS DESTA SEXTA-FEIRA (18-06), PELA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL, NA ÁFRICA DO SUL:
ALEMANHA 0 X SÉRVIA 1
ESLOVÊNIA 2 X ESTADOS UNIDOS 2
INGLATERRA 0 X AUSTRÁLIA 0
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quarta-feira, 16 de junho de 2010



Em Manaus, fiz algumas boas reportagens. Uma delas, logo quando cheguei, era sobre a campanha do então deputado Ulisses Guimarães como o anticandidato à Presidência da República. O parlamentar se utilizava desse périplo pelas principais capitais do país para protestar contra o regime militar com o seu processo de nomear o presidente da República, impedindo a realização de eleições diretas, nem sequer para governadores, tendo ainda criado a figura do senador biônico. Uma farsa imposta pela hipocrisia característica de todas as ditaduras, de todos os regimes de força, com seus desmandos, com a sua violência e a severa censura aos meios de comunicação.

A viagem de Ulisses seguiria de Manaus para Santarém, já no Pará, em uma barcaça com capacidade para no máximo cinquenta pessoas. A maioria viajava em redes, enquanto alguns privilegiados usufruíam de pequenos abrigos, denominados apartamentos, com capacidade para duas pessoas, acomodadas em beliches para uma só pessoa. Para minha alegria, a “suíte” de Ulisses era a mais bem abastecida com bebidas alcoólicas, uísque de preferência. Nesse percurso, com mais de doze horas de duração, o parlamentar que passaria a ser chamado de “Senhor Diretas” – numa identificação por sua luta pelas eleições diretas em todos os escalões – se esbaldava e discorria com mais alento sobre a sua luta pelo retorno à democracia. Um beberrão de carteirinha, me identifiquei prontamente com o velho e bom político.

Mas quem se encarniçou comigo foi mesmo uma repórter paraibana, que vinha de Brasília acompanhando a comitiva responsável pela divulgação da campanha do anticandidato à presidência da República. Como não havia nenhum “apartamento” sobrando, o único meio de se manter relação sexual era nas redes, ao seu balouçar no embalo das ondas do rio Amazonas. Esse caso amoroso e rápido como uma estrela cadente, serviu para quebrar um pouco a monotonia da viagem.

Ao falar em público, para uma legião de ribeirinhos, Ulisses sabia poder se expor à vontade e criticar com veemência o regime militar. O que não ocorria quando era entrevistado por jornalistas de emissoras de rádio e televisão. A censura não permitia a exposição do parlamentar que ousava, insistia com sua campanha propondo a volta imediata ao regime democrático. Ulisses morreu em um acidente aéreo, junto com o então ministro Severo Gomes. Chegou a realizar parcialmente o seu sonho democrático e foi um dos responsáveis pela nova Constituição, a quem ele chamou de Cidadã. Ulisses deixou sementes que brotaram e florescem até os dias de hoje na mente dos que lutam pela permanência de um regime que, segundo uma definição, é o melhor dos piores.

Nesse mesmo período, cobri a vinda do general Ernesto Geisel, que substituíra o outro general, Emílio Garrastazu Médici, na presidência da República, para a inauguração do aeroporto internacional Brigadeiro Eduardo Gomes. Os jornalistas sequer podiam se aproximar do presidente e vi, então, que passados quase uma década a truculência dos agentes de segurança continuavam. Isso porque, em 1968, quando o marechal Arthur da Costa e Silva, o segundo militar a ocupar a presidência após o golpe de 1964, esteve em Santo André para a inauguração da Petroquímica, até os prefeitos da região, presentes ao evento, sofreram restrições para ficar perto do primeiro mandatário da nação.

Nesse dia, estava ao lado do fotógrafo João Colovatti, com quem fiz uma aposta: quem pediria o melhor prato? Eu, usando de esperteza, solicitei ao garçom o mesmo prato que fosse servido ao presidente, num gesto considerado de esperteza por mim. E, o Colovatti, na tentativa de ganhar a aposta, foi direto na lagosta, achando que esse seria o melhor prato. Quando o garçom, trouxe a refeição para o presidente, percebi de antemão a derrota. Como Costa e Silva encontrava-se sob dieta alimentar, pedira banana São Tomé assada. Colovatti, ao olhar o prato, começou a rir e, eu, com uma fome de dar inveja a cão abandonado, tive que me contentar com aquelas bananas, enquanto Colovatti saboreava a sua lagosta.

Menos de dois meses sozinho em Manaus, decidi vir para Santo André e buscar a Eva, que permanecera na casa dos avós. Contei com o apoio do Calderaro, que me adiantou um salário. Começava a me endividar. A nossa casa, alugada, ficava quase no centro da cidade, a poucos quarteirões do Teatro Amazonas. No primeiro dia de sua estada na Zona Franca, Eva fez questão de visitar a primeira igreja que viu, a de São Benedito. Entrou e fez uma promessa pedindo para ser feliz na nova cidade, ao lado do marido.

Levei a Eva, no início, a conhecer os balneários locais. A viagem mais longa, em sua companhia, eu fiz em uma barcaça, de Manaus até Santarém – o mesmo percurso feito pela comitiva liderada por Ulisses Guimarães. Só que desta vez não era política e sim uma pauta do Jornal do Brasil para o suplemento de turismo, mostrando pormenores de como fazer um passeio de barco no Amazonas e ir conhecendo as cidades ribeirinhas. Não demorou muito e começaram os desentendimentos. Eu, com conhecidos no governo Enock Reis, conseguia passagens aéreas e vez ou outra estava embarcando para Santo André e a Eva sabia: era para me encontrar com a Ilca.

Foi no intervalo de uma dessas viagens, que ela tomou uma decisão que iria marcar as nossas vidas para sempre: quando regressei, ela tinha adotado uma criança e pedia para registrá-la como filho legítimo. Ainda atordoado, sem saber o porquê a levara a adotar o menino, fiz o seu registro e, mais por desatenção do que por vaidade, o registrei apenas com o meu sobrenome. Assim, passei a ser pai de Marcelo, Marcelo de Marqueiz, porque sempre achei que o “de” entre o nome e o sobrenome dá um ar de superioridade à pessoa, assim como o alemão usa o Von e o sueco o Mac.

Não sei como, mas acabei convencendo a Eva a voltar para Santo André. Lembro-me até hoje ela partindo com uma criança de apenas dois meses no colo. O avião, ao decolar rumo a São Paulo, pareceu-me levantar vôo levando um pouco a pureza e o verdadeiro amor – tanto o carnal como o maternal. Cheguei a chorar nesse dia, talvez por arrependimento, talvez por remorso. Fizera tudo para que ela abandonasse Manaus e me deixasse só, pronto para receber outra mulher – a Ilca que, para vir ao meu encontro, precisava ainda terminar o curso colegial e fazer um acerto com a empresa onde trabalhava. Era uma questão de meses, que envolvia as festas do final de ano de um homem só.

Ao voltar para casa, encontrei uma carta sob a mesa. Esta carta, que li amargurado, serviu depois para que eu me baseasse no meu primeiro livro, a novela Ilha Humana, que ficou em terceiro lugar em um concurso literário promovido pela Prefeitura de Manaus. Aproveitei cada parágrafo para escrever um capítulo, técnica que não soube explorar muito bem, talvez por falta de experiência em uma narrativa mais longa e minuciosa a exigir certa distância da pessoa envolvida. Essa carta merece ser divulgada na íntegra pelo seu sentimento de paixão, pela certeza de sua partida representar a perda do marido e a decretação de sua vida à solidão. Só que, agora, ela tinha alguém sempre ao seu lado. Tinha um menino, tinha um filho.

A carta:

Quando tu tinhas dezoito anos, conheci um rapaz bonito e inteligente e de boa família... Ele era muito simpático. Namoramos dois anos. Para mim, foram dois anos de alegria e satisfação, porque pela primeira vez eu me sentia amada por alguém. Casamos no dia dezessete de setembro. Foi uma cerimônia simples, apesar do meu nervosismo. Ele estava todo elegante de terno marrom. Fizemos uma pequena recepção em nossa própria casa. Logo depois, saímos para a nossa lua de mel, que, na verdade, só foi lua. De mel, eu não vi nada. Ele, muito cansado, dormiu no sofá da sala e eu tive que acordá-lo para que fosse dormir na cama. Foi aí que começaram as decepções. Eu, como toda moça, sonhava com a verdadeira noite de núpcias, com muito amor e felicidade.

Ficamos apenas quatro dias e voltamos para casa, olhamos os presentes, a casa, tudo novo e limpinho. Tive uma sensação maravilhosa, apesar dos fracassos anteriores. Logo que chegamos, ele saiu. Depois dessa vez, ele não parou mais em casa. Sempre com desculpas do seu trabalho, ele me enganava. Eu sofria minha solidão. Tinha vontade de passear, dançar, colocar para fora tudo que eu tinha sufocado dentro de mim. Mas era impossível, porque o seu egoísmo era demais. Enquanto ele vivia, dançava, cantava, amava, esquecia-se que lá, bem longe disso, existia uma mulher que desejava muito ser amada e que ele não se lembrava de amar.

Sempre sonhei com um homem carinhoso e que me amasse muito. Mas, como sempre, continuava sozinha e sem amor, e não tinha coragem de amar também... O medo de passar tudo novamente era imenso. Então, eu ficava ali, tentando fazer com que ele gostasse um pouco de mim, ou que pelo menos, ele deixasse que eu o amasse da minha maneira. Mas ele não me permitia nem isso. Talvez ele não tivesse culpa. As recordações de coisas tristes que aconteciam com a gente me atormentavam demais.

Ele tinha muitas mulheres. Nunca ficou só comigo. Cansava de uma e logo depois arrumava outra. Eu sabia de tudo. Agradeço a Deus não ter sabido de mais coisas Eu sofria muito. Ficava horas e horas na frente de uma televisão esperando que ele chegasse. Ás vezes, ele chegava uma hora da madrugada, quando não, mais tarde. E eu ali, firme. Mas morrendo de fome, cansada, com sono e terrivelmente deprimida. Porque eu sabia que vinha mais uma mentira. Às vezes, eu fazia que acreditava e às vezes eu não aguentava e então começavam as discussões. Ai acabava eu para um lado e ele para o outro, como sempre. Muitas vezes, ele chegava em casa, me olhava e me dizia palavrões, saia e, às vezes, ficava horas ou dias fora de casa e eu nunca fiquei sabendo porque ele fazia isso. Que ele não gostava de mim, eu sabia. Agora, não sei por que ele me humilhava tanto. Acho que meu único defeito era querer ser amada por ele.

Passaram-se cinco anos assim, lutando terrivelmente para conservar o nosso casamento e para que a minha família não soubesse de nada. Eu mentia e ele fazia na frente de todos. Eu era apenas uma coitada para os outros, aquela que era enganada, humilhada e desprezada pelo marido. Muitas vezes eu quis acabar com tudo, mas eu pensava no meu pai, na minha querida vovó, que me criou, e até na própria mãe dele que queria que a gente vivesse bem e que fossemos felizes. E nesse tempo eu só pensei nos outros e esqueci de pensar em mim.

Mas, agora que tudo terminou e depois de cinco anos de solidão, despertou em mim uma nova vontade de viver. Agora, eu tenho algo muito lindo e que precisa muito de mim. Eu preciso tornar a viver e esquecer tudo de mal que me fizeram para poder fazer de meu filho um grande homem e para ensiná-lo a amar e a ser amado. Não me importa mais o que os outros irão pensar ou dizer, eu quero apenas viver, viver como meu marido viveu nos meus longos anos de solidão.

OBS: se servir para alguma coisa, fique à vontade. Se não servir, guarde como recordação da única mulher que te amou e que talvez te ame para o resto da vida. Eu só quero que você seja feliz, para um dia fazer o nosso filho feliz... (continua no próximo capítulo).
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Na próxima quarta-feira, o décimo capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50. (Edward de Souza/ Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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Juninho e Fabiana acertaram o resultado do jogo de ontem, terça-feira, Brasil 2 x Coreia do Norte 1 e vão receber uma camisa oficial da Seleção Brasileira de futebol. Juninho, que se encontra na África do Sul e Fabiana, aluna da Metodista de São Bernardo, já entraram em contato com o blog e vão receber, via sedex, os brindes, que já foram enviados hoje para suas residências.

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RESULTADOS DOS JOGOS DESTA QUARTA-FEIRA (16-06) PELA COPA DO MUNDO NA ÁFRICA DO SUL:
CHILE 1 HONDURAS 0
ESPANHA 0 X SUIÇA 1 (Esse resultado ninguém esperava)
ÁFRICA DO SUL 0 X URUGUAI
3
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terça-feira, 15 de junho de 2010


LEIGO NA BOLA

No quartel, soldado em dia de folga pretende o quê? Serviço. Foi exatamente assim meu caso. Em momento de folga fui localizado no quartel pelo oficial de dia, Nívia Andres, ela de conluio com o general Edward de Souza, me colocaram de plantão durante a Copa a fim de interagir no processo com as feras valorosas escolhidas pelo comando.

Ordens são ordens não me cabendo discuti-las e sim, cumpri-las adequadamente, na qualidade de humilde soldado a serviço da pátria, especialmente neste momento em que tremula nossa bandeira no cimo do mastro, anunciando as esperanças de vitória.

Aos amigos e leitores, devo confessar que no rádio atuando por muitos anos, o departamento que nunca adentrei foi o esportivo.

Não fora minha falta de vocação pelo setor do futebol, o primeiro emprego teria sido na Rádio Pan-americana de São Paulo onde estava um dos grandes narradores do Brasil, Pedro Luiz (E), um profissional destacado, iniciado em Franca, cidade também de minha origem. Ao visitá-lo ainda na Rua São Bento, agradeci o convite para participar de sua equipe, por absoluta inaptidão nas jornadas esportivas, fato que o levou a apresentar-me ao Itá Ferraz, então na diretoria da Radio Cruzeiro do Sul.

A maioria dos amigos do Edward, colaboradores do blog, são oriundos das transmissões esportivas, portanto, dominam as célebres expressões criadas por famosos, através de microfones frente aos gramados, por onde a bola dançava seu balé, tocada pelas pernas tortas de Garrincha, fazendo explodir em alegria os estádios do mundo. “Pimba na gorduchinha”, “Balançooo o véu da noiva”, “Carimba que o golll foi leeegaaal”, “Olho no lance", "Olha lá, olha lá, olha lá”, “ripa na chulipa”, ”fala ôôô Valdir”, “Abrem-se as cortinas do espetáculo”. As expressões aqui lembradas devem na saudade trazer aos leitores outras tantas de narradores famosos. Osmar Santos (D2), Raul Longras, Silvio Luiz, Geraldo José de Almeida, Oduvaldo Cozzi, Jorge Cury, Ary Barroso e sua gaitinha, Fiori Gigliotti (D1), Pedro Luiz, Edson Leite, Valdir Amaral, Doalcei Camargo, alguns da grande constelação.

Advogado, político, ‘speaker’, (termo da época) cognominado “metralhadora do rádio” pela velocidade em que descrevia uma partida de futebol. Nicolau Tuma (E), pioneiro a correr atrás da bola para narrar emoções, o fez pela vez primeira no Brasil, no Campo Floresta, às margens do Tietê, em frente a Ponte Grande no ano de 1931 pela Rádio Educadora Paulista. Seu objetivo foi, com sucesso, transmitir uma partida inteira o que era feito antes em pequenos ‘flashes’.

Iniciou por traduzir muitas das expressões do inglês para português, podendo citar-se, como exemplo, ‘corner’ para escanteio e “goalkeeper” para goleiro. Esse primeiro embate foi travado pelas seleções Paulista e Paranaense, obrigando Tuma a bradar por 10 vezes o gol - 6 para a Paulista e 4 dos Paranaenses -.

Como incipiente, - nem isto - na trajetória do futebol brasileiro, pensei que memorizar fatos iniciais de sua história, acrescentaria aos novos, curiosidade de saber, aos sabedores antigos a oportunidade de contestar botando o trem nos trilhos da verdade. E assim entrarei no tema de forte acontecimento envolvendo o Brasil na Copa de 1938. Essa foi à terceira Copa Mundial e, no aspecto comunicação, a primeira transmitida pelo rádio graças à façanha de um sonhador, o denodo de um profissional construtor da história do rádio: Gagliano Neto (D). Armado com o mais absoluto entusiasmo aferrou-se ao propósito de ir à França, enfrentando os obstáculos presumíveis, tarefa culminada com a formação da rede Byngton, intregrada pelas Rádios Clube do Brasil e Cruzeiro do Sul, do Rio de Janeiro; Cosmos e Cruzeiro do Sul, de São Paulo, além da Rádio Clube de Santos, em colaboração com os jornais O Globo e Jornal dos Sports, sob o patrocínio exclusivo do Cassino da Urca. A polêmica Copa de 1938, com incontáveis desentendimentos, tinha Domingos da Guia, Perácio e Leônidas que foi artilheiro, com 8 gols. Em 1938 o Brasil parou para ouvir Gagliano Neto na Copa. Os alto falantes instalados no Largo Paysandu, Praça Patriarca, SP; Galeria Cruzeiro e Praça Mauá, Rio, reuniam pessoas suprindo a inexistência de rádios receptores na época.

A primeira Copa Mundial de Futebol teve lugar no ano de 1930, no Uruguai, sagrando-se campeão o anfitrião, que deixou de comparecer à Copa de 1934. O Brasil marca, na atualidade, a presença constante em todas as Copas, sendo o único país qualificado para festejar participação em todos os eventos ocorridos.
Li, na véspera da abertura da Copa, em nosso blog, texto do jornalista e amigo Edward de Souza, competente especialista no setor, com passagem por várias emissoras brasileiras, levando as torcidas a forte emoção do principal esporte nacional: o futebol. Se sua prática tem origem no Reino Unido, sua maior expressão e respeito à volta do mundo, pertence ao Brasil, maior exportador de atletas da área com nível de alta qualidade.

Edward fez alguns prognósticos e outros especialistas desfilarão pelo blog durante a Copa, para, certamente, mostrarem um saber que não tenho. Ligo-me ao futebol de quatro em quatro anos, como leigo na bola, mas com o fito e fidelidade ao meu país, para vibrar e torcer. Desejo ocupar-me, a seguir, com permissão dos amigos, em tirar das caixas as bandeiras com as quais ornamentarei uma sacada do apartamento, embalado pelo calor brasileiro. Esperemos a vitória.
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*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 82, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os Contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. Garcia Netto é amigo e colaborador deste blog.
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RESULTADOS DOS JOGOS DESTA TERÇA-FEIRA (15-06) PELA COPA DO MUNDO NA ÁFRICA DO SUL:
Nova Zelândia 1 x 1 Eslováquia
Portugal 0 x Costa do Marfim 0
Brasil 2 x Coreia do Norte 1
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