quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Logo cedo busco na mídia notícias dos jornais inseridas na internet. Nenhuma delas me dá qualquer satisfação. No mundo uma nota que um grupo de extrema direita (neonazista), tomou um vilarejo na Alemanha e ninguém está muito preocupado com isso (Folha de São Paulo-5-1-011). Passeatas e manifestações na Itália sobre a atitude do ex-presidente brasileiro de proteger o assassino terrorista Cesare Battisti. Sobre esse fato, faço a mesma pergunta que Joelmir Betting, jornalista e apresentar da Bandeirante fez durante o jornal da emissora de TV (4-1-011); se fosse um bandido de direita ou mesmo um simples ativista o governo procederia da mesma forma? Acredito que não! Lembram-se do caso dos cubanos que queriam se exilar no Brasil? A extradição se deu de forma super-rápida.

O nosso governo está constrangido pelas declarações do General José Elito Siqueira (foto a esquerda), ministro do Gabinete de Segurança Institucional. O Oficial General que não tem filiação partidária, disse ser contrário a tal de “Comissão da Verdade”. Aliás, foi a primeira bandeira a ser levantada pela atual Ministra dos Direitos Humanos que não passa de um clone de seu antecessor. E como sempre, nenhuma palavra sobre os direitos dos cidadãos, vítimas de assaltos e outros crimes que acontecem a todo o momento. Um presente bem real e não um passado cheio de rancor e revanchismo. E se não bastasse isso, apoio a governos ditatoriais. Ditaduras que se dizem de esquerda, mas que atravessam fracassos econômicos e sociais.

O presidente de Honduras, Porfírio Lobo (foto) não foi convidado para a posse da atual presidente. O governo brasileiro não reconhece a legalidade daquele governo, que por sinal foi eleito pelo povo, depois de um período turbulento na vida política do país centro-americano. Insiste em apoiar o antigo, do populista Manuel Zelaya, que queria dar um golpe falsificando ou alterando o resultado das urnas. Pelo menos, esse foi o noticiário unânime de toda a mídia mundial.
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Por culpa de má administração, as estradas federais estão em pandarecos e a saúde pública uma podridão. Quantas vítimas fatais em razão desses problemas que nos afligem a todo o momento! Mas, a preocupação do PMDB é outra, pressiona o governo por mais cargos. Desta vez, os de segundo escalão, que poderiam trazer mais vantagens pecuniárias. Dois ministros nomeados apesar de atos imorais praticados. Pagamentos com cartões corporativos de despesas absolutamente pessoais. Bastou devolver o dinheiro e pedir desculpas!

Treze carretas de badulaques transportados de Brasília para São Bernardo do Campo. Como é possível isso? Teria o ex-presidente e a ex-primeira dama juntado tanta tranqueira assim? Os presentes recebidos pelo presidente do Brasil são pela função ou uma maneira simpática de homenagear o ex-metalúrgico? Esses presentes não deveriam ficar no Palácio da Alvorada como uma demonstração de boa vontade para com o Brasil? Vamos ver onde ficarão todos os utensílios transportados pelos “navios rodoviários”... E, se não bastasse isso, o homem resolver tirar férias em um forte militar. Pode? Aceito que um ex-presidente tenha toda a proteção possível afinal ele é detentor de segredos de estado e não poderia estar sujeito a ataques sinistros. Mas, daí a usufruir das mesmas prerrogativas de quando presidente...

Finalizando este resumo das principais notícias, voltamos a acompanhar em manchetes as mesmas tragédias de sempre nesta época do ano. Alagamentos, desbarrancamentos e vítimas fatais em razão desses problemas que insistem dizer naturais. Naturais? Ou incúria de governos em busca de vantagens pessoais? A mixórdia continua. Qual a solução?
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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui:
jgarcelan@uol.com.br
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TERÇA-FEIRA, 4 DE JANEIRO DE 2011

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Nesta terça-feira nosso blog completa o segundo ano de existência. Para nós é sempre uma surpresa perceber que mesmo em tão pouco tempo conseguimos resultados bem relevantes, com cerca de 500 visitas em média por dia e dezenas de comentários em cada crônica ou conto postado. Mais ainda. No final do ano que terminou, comemoramos mais de 200 mil visitas ao blog e acima de 500 textos publicados, um recorde que não esperávamos acontecesse tão rápido assim.

Hoje estamos confiantes, o blog se firmou como um espaço importante na web e tem potencial para continuar forte, com mais de 500 pessoas recebendo a atualização de nossas crônicas e contos diariamente, além dos 253 seguidores fiéis que nos acompanham. Aos amigos jornalistas, J. Morgado, Oswaldo Lavrado, Milton Saldanha e Guido Fidelis que se juntaram a nós e dão vida a esse espaço, escrevendo crônicas e contos inéditos, deixo expressa minha gratidão, que estendo aos outros amigos e amigas que, por um motivo ou outro, não ocupam mais este espaço, mas foram de fundamental importância para o sucesso alcançado por este blog.
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Fico orgulhoso com a participação ativa e diária desses jovens estudantes de letras, jornalismo, medicina, advocacia e tantos outros que transformaram esse blog no mais inteligente da Internet, basta acompanhar o que escrevem quando comentam, algumas vezes até com polêmicas saudáveis. Esse blog não foi criado com o intuito de "furar" jornais nem criar sensacionalismo barato. Mas sim trazer a experiência de antigos jornalistas e radialistas com seus relatos dos bons tempos em que se fazia um jornalismo sério e competitivo, ajudando os futuros profissionais que nos acompanham com muita atenção.
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A amizade é uma virtude. Ela se solidifica com a convivência e a camaradagem entre as pessoas. Embora importante e necessária, a amizade não é um dever nem se comanda, pois ela se estabelece na fraternidade, nos ideais e nas ações. Epicuro já ensinava que toda a amizade é por si mesma uma excelência. Vamos, assim, neste início de ano, no dia em que este blog completa dois anos de existência, fortalecer nossos laços de amizade e caminhar, irmanados, rumo ao futuro. Vamos deixar de lado rancores e buscar a paz, vamos lutar contra a violência e estender o tapete para receber a fraternidade. Vamos, enfim, viver a existência que Deus nos deu. Há muitas portas na estrada do futuro. Podemos escolher qual delas queremos abrir. A chegada do amanhã depende de nossa escolha, que deve recair na construção de um novo tempo, mais fraterno, com menos ódio e muita paz. Quando acreditamos que somos fortes, que podemos superar adversidades e lutar por um ideal, somos sempre vitoriosos.
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Obrigado a todos pela força!

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Você já deve ter lido em algum lugar que misturar champanhe ou cerveja com uísque, rebater com vodka e depois de um lauto pernil engolir dois cálices de licor não é muito recomendável. É por isso que você continua ouvindo os fogos anunciando o Ano Novo dentro de sua cabeça e na boca mantém um gosto esquisito de sopa de chumbo temperada com óleo de freio. Não se apavore. A medicina não registra nenhum caso de morte por ressaca, muito embora tudo leve a acreditar no contrário. De qualquer forma, mantenha a calma. Tome outra aspirina, coloque o saco de gelo bem sobre a fronte e tente relaxar. Segure essa ânsia de vômito, até porque não tem nada mais para sair além do próprio estômago e pare de prometer que nunca mais beberá. O Ano Novo chegou e com ele novo porre.

Resolvi que não vou fazer nenhuma promessa de Ano-Novo. Isso me livra de uma série de inconvenientes, inclusive do remorso de não cumpri-las. Não vou iniciar nenhum regime, vou continuar tomando minha cervejinha nos fins de tarde, não vou caminhar mais, principalmente agora que fui informado que o carteiro que entrega correspondência lá em casa, que andava pra burro, morreu de infarto e, principalmente, não vou me preocupar com o mundo, pois estou aqui de passagem. Sem promessas, o ano fica menor e mais leve de se carregar.

As novidades de 2011 só passarão a me interessar se conseguirmos nos livrar do retardamento intelectual e do terrorismo social em que vivemos hoje, antes que eles nos acompanhem durante todo este ano que começa hoje. Na ampulheta dos dias, os grãos correm depressa. Para se organizar em sociedade o homem inventou esse tempo do relógio, dividido em horas, minutos e segundos. E somos escravos dessa invenção. Do despertar ao anoitecer. Não dá para fugir dessa condição tão antiga, imposta pelo nosso calendário romano, que mudou várias vezes até chegar à vivência que dele desfrutamos hoje.

Sou um otimista incorrigível, apesar da gripe que me derrubou neste começo de ano, mas ando perdendo o ânimo, e isso é novo pra mim. Nunca acreditei na má índole das pessoas, sempre confiei na recuperação dos teimosos, na reabilitação dos ignorantes e confiava que, dentro do peito de cada político, também batesse um coração. Sabia dos problemas do Brasil, mas me consolavam as nossas riquezas: uma música maravilhosa, um litoral belíssimo, sol e gente alegre.

Já não me consola a beleza da Cléo Pires (foto), danem-se nossas palmeiras e coqueirais. Que me importa se a Carolina Dieckmann vai aumentar o ibope da novela, muito menos se o Totó vai ressuscitar. A indústria do entretenimento cresce e isso é ótimo, mas algo de muito sério está acontecendo atrás do palco. Com certeza muitas pessoas já traçaram metas e cultivaram expectativas para 2011, que começa atrasado, como tudo neste país, e pior, numa segunda-feira. A entrada de um novo ano é sempre recheada de expectativas e de anseios. Será este o ano da redenção ou mais um ano para ser esquecido? Viraremos a república que todos sonhamos ou continuaremos à margem das grandes nações?

Desconfio de Dilma, como desconfiava de Lula, que desconfiava de Dirceu, que nunca confiou em Delúbio. E assim, de desconfiança em desconfiança, a gente vai atravessando mais uma administração. Dilma Rousseff, se cometer alguma asneira, ao menos tem a desculpa da TPM que era vedada a Lula. Como manter o otimismo em relação a país se, no último dia do Governo Lula, alguns jornais noticiaram que por volta das 14h30 da última quinta, dia 30 de dezembro, final de feira, nada menos que US$ 53 milhões de dólares foram transferidos de Brasília para Paris? Todo mundo achou isto esquisito no Banco Central. Pode ser que a grana acabe na África ou em bancos de paraísos fiscais. Claro, depois de ser dividido com parceiros franceses. E a denúncia feita pelo jornalista Cláudio Humberto em sua coluna sobre os gastos do Governo em cartões corporativos? Desde 1º de janeiro de 2003 e até o final de outubro de 2010, o governo Lula, de acordo com o jornalista, gastou R$ 350 milhões com cartões corporativos. Durante o primeiro mandato de Lula, cartões corporativos nos custaram R$ 78,4 milhões. No segundo mandato, triplicou: R$ 267 milhões.

Na área social, o drama é ainda pior. Entramos no ano novo com filas, impostos e sem solução para tanta violência. Não podemos continuar convivendo neste novo ano com a falsificação de remédios, com o coronelismo do Nordeste, com a quantidade de crianças sem estudo, com o desvio de dinheiro público, com o mau-caratismo desbancando o Corcovado como nosso cartão-postal. Está na hora de desovar os podres desse Brasil lindo e trigueiro, reciclar o lixo que não queremos levar conosco para o milênio seguinte. Desarmamento, educação, aplicação da lei, incentivos culturais, medicina sanitária. Não pode ser tão difícil. Nem tão caro. Nem tão raro.

Chico Xavier (foto), escreveu uma vez que “podemos ter um governo mais ou menos, morar numa rua mais ou menos, numa casa mais ou menos e dentro de uma cidade mais ou menos. Podemos também comer mais ou menos bem, dormir numa cama mais ou menos, e até acreditar mais ou menos no ano novo que começa agora. Podemos, enfim, olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Mas o que não se pode, de jeito nenhum, nem nesse ano novo, nem nos outros, é ter fé mais ou menos, acreditar mais ou menos, ser ético e honesto mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, e, o pior, não podemos, em nenhuma hipótese, sonhar mais ou menos ou amar mais ou menos. Se fizermos isso, vamos nos tornar uma pessoa mais ou menos, que é o pior que nos pode acontecer.

*Lembro a todos os leitores e leitoras que, nesta terça-feira, dia 4, nosso blog completa dois anos de existência. Vamos comemorar juntos.
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*Edward de Souza é radialista e jornalista
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sábado, 1 de janeiro de 2011

SEXTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2010

Escrevi este texto durante a semana que antecede o Dia da Confraternização Universal. Neste Natal, busquei ler as notícias que os órgãos de comunicação nos trazem. Não fiquei surpreso. As mesmas mazelas de sempre. Agressões, desastres ocasionados pelo excesso de bebidas, brigas, e o pior de tudo... Guerras! Além dos vários conflitos existentes no Oriente Médio, novamente no dia em que se comemora o aniversário do Cristo, palestinos e israelitas se agridem atirando bombas uns nos outros. Uma intolerância selvagem!

Também a Terra precisa ser poupada de muitos infortúnios. O ser humano tem provocado danos ao planeta sem se preocupar com as consequências. Por isso, pedimos a todos os leitores que nesse Ano-Novo sejam amigos da Mãe Natureza. Façam a sua parte para que o planeta seja mais vivo e que produza mais frutos para nossa sobrevivência.

As festas que se realizam no dia da passagem de um para o outro ano são de origem muito antiga. Uma data que se consolidou há cerca de 500 anos e que se comemora em quase todo o mundo. Desde os calendários babilônicos (2.800 a.C) até o calendário Gregoriano, o réveillon mudou muito de data. Mas, isso é outra história; mais detalhes, basta acessar a internet.

Tradicionalmente, nesse dia há uma expectativa (vigília) com muitas festas onde o tal de “deus Baco é invocado” e, infelizmente, passa a presidir esse acontecimento que deveria ser de total confraternização. Confraternizar, um verbo transitivo direto que quer dizer ligar, unir como irmãos, irmanar. Foi essa a intenção do Papa Paulo VI, que em 1968 criou o Dia da Confraternização Universal - ou Dia da Paz - para ser comemorado pelos verdadeiros amigos da paz, independente de credo, etnia, posição social ou econômica. Entretanto, o mundo ainda não conseguiu assimilar essa louvável iniciativa. O orgulho excessivo ocasiona atos belicosos. Daí as guerras intermináveis e as brigas domésticas. O excesso de álcool e outras drogas acabam ocasionando desgraças indescritíveis.
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O ser humano que deveria respeitar as leis feitas para disciplinar as atitudes anti-sociais, descumpre-as ao seu bel prazer. Ultrapassam os limites de velocidade nas vias urbanas e rodovias e os acidentes são inevitáveis. Assassinatos em nome da honra ou apenas para roubar crescem exageradamente durante as festividades dedicadas a confraternização. Mal entendidos que poderiam ser resolvidos com um pequeno diálogo, desandam para uma demanda muitas vezes sangrenta. Esse dia acaba por se tornar apenas em um feriadão com muita farra onde uma velha música já tradicional e bastante materialista é cantada em toda a parte. “(...) Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender...”.

Tradições a parte, como pular ondas, vestir roupas brancas, amarelas, azuis... Para comer, lentilhas, romãs e sei mais lá o que, a passagem de um para o outro ano deveria ser de muita reflexão e paz. Tudo isso demonstra o quanto ainda somos atrasados... Moralmente e também intelectualmente. A vontade maior de Deus, segundo nos ensinou o Messias, é o aprendizado do Amor.

Em mensagem no capítulo 11 do Evangelho Segundo o Espiritismo, Fénelon (François Salignac de La Mothe, orador, escritor e prelado francês do século 17) pede para que não acreditemos na esterilidade e endurecimento do coração humano, pois ao contato com o amor verdadeiro, ele finda por ceder. Assim sendo, A Confraternização Universal representado pelo dia primeiro de janeiro, é o lembrete simbólico que as leis de Deus exigem cumprimento e obediência. E o que hoje é obrigação para nós, tornar-se-á, no futuro, na passividade dos bons sentimentos que haveremos de conquistar, um exercício natural do amor praticado. Para que isso aconteça, é preciso pensar nas crianças, educá-las para que sejam úteis e possam contribuir para o nascimento de um novo mundo, mais justo, sem a ganância dos especuladores, mais voltado para a convivência harmoniosa entre os povos. Que Deus abençoe a todos em 2011. Que assim seja e assim se faça!

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*J. MORGADO é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista? Só clicar aqui:
jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

QUARTA-FEIRA, 29 DE DEZEMBRO DE 2010



Natal se aproxima. Enfeites. Luzes faiscantes. Papai Noel. Há prenúncio de chuva miúda. As pessoas se apressam nas ruas, buscam o agasalho dos prédios, proteção das paredes. Carregam presentes, pacotes coloridos. Sob a marquise do edifício comercial, acocorada no cimento úmido, está a mulher. Cobre-se com um velho cobertor encardido, esgarçado nas bordas. Em seu colo, a criança, raquítica, com os olhos captando o espanto da vida.
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A cena, com toque de tragédia, retrata a imagem da mãe que tenta proteger o filho. Lembra, também, um desenho surrealista de Nossa Senhora, talvez aprofundada em anos, com rugas, sofrendo seguidos acessos de tosse. A piedade parece distante, sufocada na indiferença dos transeuntes.
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O casal surge, de repente, desviando-se do lixo que se amontoa na calçada, onde pessoas-corvos disputam restos de comida. A moça se encanta com a primeira visão, chama o companheiro para a aventura de contemplar o mistério.
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- Venha, José.
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- Onde, Maria?
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- Aqui, logo, veja.
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- O quê?
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- A boneca, linda, diferente.
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- É mesmo?
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A mãe está entretida, distante da realidade. Com mãos trêmulas, embala o filho, esquecida das antigas canções de ninar. No chão, junto às pernas, aparece a boneca azulada. A boca levemente rasgada dá um toque de ironia ao rosto nostálgico.
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Maria se esquece do perigo que representa conversar com estranhos. Aproxima-se, afasta o medo. Respira profundamente antes de se pronunciar.
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- Encantadora. Fiquei apaixonada.
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Com gestos lentos, a mulher ergue a cabeça, deixa escapar um leve sorriso. A voz sai pausada.
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- Gostou da criança, madame?
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- Da boneca, minha senhora.
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- É de meu filho.
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- Sei. Em que loja foi comprada?
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- Eu mesma fiz, aprendi no terreiro da mãe Inácia, com os santos.
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- Maria morde os lábios, sente a agonia do desejo. Acaricia José.
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- Compre, meu bem.
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- A boneca?
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- Claro.
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- Para quê? Não temos filhos.
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- Eu guardo. Ainda chegarão.
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- Não sei. Melhor caminharmos, a chuva não tarda.
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- Eu quero.
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José cede aos encantos de Maria. Negocia a compra da boneca.
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- Quer vender?
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- A criança?
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- A boneca. Pago bem.
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A mulher tosse. Estuda a oferta.
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- Não é direito.
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- Quanto quer?
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- Vendo com uma condição.
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- Qual?
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- Se a criança for também. Jesus. É o nome. Ele e a boneca são inseparáveis.
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José estende as mãos, apanha a criança, entrega a boneca a Maria. Não há despedidas. Os rios de lágrimas secaram.
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No instante em que o jovem casal se afasta, a mulher se ergue, conta o dinheiro. Depois, avança em direção ao primeiro bar. Carrega a esperança de encontrar namorado disposto a fabricar um novo filho para ser vendido na esquina.
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*Guido Fidelis é jornalista, escritor e advogado
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

QUATRO LEITORES GANHAM LIVROS

Mais duas leitoras foram sorteadas no começo da madrugada de hoje e irão receber dois livros de contos cada uma. Michelle, de Florianópolis e Daniela, do Rio de Janeiro, foram premiadas e assim que enviarem seus endereços receberão os livros em suas casas. Ontem, ganharam também livros de contos os leitores, Birola, de Votuporanga e Vanessa, da Unicamp de Campinas. Maiores detalhes podem ser encontrados no comentário 51, feito pelo Francisco Heitor, na postagem do conto "Um Visitante Especial", de minha autoria. Logo mais outro conto inédito e impressionante, escrito pelo jornalista, escritor e advogado Guido Fidelis, aguardem. Na sexta-feira, último dia de 2010, J. Morgado escreve o especial "Confraternização Universal", não percam. (Edward de Souza).

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SEGUNDA-FEIRA, 27 DE DEZEMBRO DE 2010
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.Este é o primeiro conto, dos muitos que escreví, que apresento neste blog. Publicado pela RG Editores de São Paulo, na sétima edição de "O Conto Brasileiro Hoje", foi um dos primeiros colocados entre os mais de 10 mil inscritos no site do Banco Santander. Recebeu mais de 13 mil visitas em menos de dois meses exposto naquele espaço e foi um dos mais procurados pelos leitores que acessaram aquele site. Como esta época de festejos do final do ano tem muito a ver com esse conto que escrevi, resolvi publicá-lo, atendendo várias solicitações de amigos e amigas.

Parecia sentir-se cansado, quando chegou às primeiras casas da pequena cidade do interior. Os pés afundando na areia vermelha e muito fofa sob um sol implacável. Não havia sombra. Andava devagar, carregando saco a tiracolo. Boné, camisa aberta no peito, uma calça Jeans desbotada e um surrado tênis compunham o traje. Era magro e de estatura mediana. Os olhos verdes iluminavam as feições calmas.
Parou junto ao portão entreaberto, na casa do “seu” Aníbal, figura conhecida por tratar de maneira hostil os habitantes da pequena cidade.
A torneira do tanque no jardim da casa, a dois passos, era tentação irresistível. Insinuou-se pela abertura e acercou-se da bica.
Deixou a água, inicialmente morna, escorrer pelos dedos finos. Logo, ela chegou fresca e convidativa. Tirou o boné e curvou a cabeça sob a torneira, deixando a água cair nos seus cabelos longos e alourados.
Mesmo com o ruído produzido pelo jato de água, ouviu a voz severa de Aníbal:
- Quem deu licença para entrar?
Levantou a cabeça, sorrindo.
- Desculpe. Não vi ninguém. Estava com muita sede.
- Devia ter batido, resmungou Aníbal. Não pode invadir a casa dos outros.
- Não queria incomodar, senhor. Precisava apenas de um pouco de água.
A voz de Aníbal não escondia desprezo e certo temor:
- Que veio fazer aqui?
- Nada. Estou apenas de passagem.
- Aonde vai?
O desconhecido sorriu.
- Não tenho destino certo.
A observação foi agressiva:
- Um vagabundo! Um “hippie”!
Deu um passo atrás, pronto para correr, ou, quem sabe, encarar, caso o moço reagisse.
O jovem não aceitou o desafio. Continuou sorrindo, pensativo. Encolheu os ombros:
- Talvez tenha razão. Um vagabundo...
Ambrósio Costa, que morava ao lado, atraído pela voz irada de Aníbal, se aproximou:
- O que aconteceu, vizinho?
Aníbal criou coragem.
- Esse marginal invadiu minha casa.
Calmo, o viajante disse então:
- Meu caro senhor, agradeço-lhe pela água, mas devo retomar o caminho. Tenho muito que andar, antes do anoitecer.
Outras pessoas se aproximavam, curiosas. Aníbal sentiu-se seguro. Era boa a ocasião para fazer valer seu prestígio. Falou, vivamente:
- Isso é que não. Nada de fugir.
- Mas por que fugir? De que me acusa?
A tranquilidade do desconhecido irritava Aníbal.
- Então é pouco invadir a propriedade alheia?
Dirigiu-se aos que se agrupavam em frente à entrada da casa.
- Vamos deter o malandro, levá-lo ao sargento “Jerominho”.
Não foi necessário. O sargento aproximava-se.
- Que está havendo? – indagou com toda a importância de chefe do destacamento policial.
Aníbal repetiu a acusação, com raiva.
O viajante tentou defender-se, mas a ordem do sargento foi incisiva:
- Cale a boca, safado. Explique-se no posto. Está detido, vamos.
Tentou segurar, pelo braço, o rapaz, que se retraiu, esclarecendo:
- Não é necessário. Estou pronto a acompanhá-lo, embora ignore o motivo.
- Vai saber logo, rugiu o policial. Isso é uma terra de respeito, sentenciou.
Pouco adiante, abrira-se a porta da casa de Geni, que todos na cidade conheciam.
A morena já passara dos 40 anos, mas o tempo não destruíra sua beleza. O pequeno acréscimo de gordura tornava-se mais apetecível aos seus clientes.
- Mas que absurdo, deixe o menino em paz, sargento. Ele somente bebeu um pouco de água.
A réplica foi incisiva e ameaçadora. Era hora de mostrar autoridade.
- Não se intrometa, mulher, senão recolho você também.
Ela fez um muxoxo de desprezo e entrou em casa, batendo a porta com arroubo. “Jerominho” pagaria por aquela “má criação”, prometeu intimamente.
O moço foi encerrado, sem outro protesto, no cárcere, enquanto o escrivão Belarmino regularizava a queixa: invasão de domicílio e atitude suspeita.
Belarmino procurou carregar nas tintas de acusação, mas o episódio fora presenciado por muitas pessoas. Exagero acentuado ou desvio da verdade poderia suscitar contradita e até revolta. Começava a compreender que a opinião dos vizinhos favorecia o “hippie”, cuja bela e radiosa figura e tranquila gentileza fascinavam os moradores da pequena cidade sem atrativos. Belarmino, também, passara a sentir-se inconfortavelmente ridículo. Afinal, tudo girava em torno de um pouco de água fresca, em região onde ela abundava.
Deitado no catre, o prisioneiro aguardava pacientemente o desenlace do caso. Não teria tempo de alcançar a cidade próxima antes de escurecer. Seria melhor, pensou, com um sorriso, que a prisão durasse até o dia seguinte. A cama parecia satisfatória, melhor das que se habituava a usar.
A esperança desvaneceu-se quando o carcereiro, cabo Virgilio, abriu a porta da cela. Julgou que seria libertado imediatamente.
-De pé. O escrivão quer você.
Aguardava, sentado, em frente à máquina de escrever.
- Nome?
- Ronaldo.
- Ronaldo de que?
Nova pausa.
- Augusto. Ronaldo Augusto.
- Seus documentos?
- Não possuo.
Cabo Virgilio interveio, com aspereza:
- Como não tem? Ninguém vive sem documentos. Aposto que há mandado de prisão contra você. Trate de “abrir-se”, diga onde foi condenado, senão sua cara de boneca vai sofrer.
O moço olhava assustado; não sabia o que responder. O silêncio fez desencadear a violência. A bofetada potente apanhou-o desprevenido, fazendo-o perder o equilíbrio. Apoiou-se na parede para não cair, enquanto gotas de sangue surgiram nos lábios. Enxugou-as, vagarosamente, com os dedos, sem protestar, mantendo-se encostado à parede. Havia angústia, no seu olhar.
A voz do carcereiro vibrava de indignação:
- É para começar a responder direito. Pensa que somos “otários”, porque vivemos no interior?
O escrivão coçou a cabeça, desgostoso. A silenciosa passividade do prisioneiro, seu olhar triste afetavam-no.
- Calma, Virgilio.
O cabo também já não se sentia à vontade. Justificou-se:
- Ele estava pedindo. Queria levar pau. Agora vai falar.
Deu um passo em direção ao moço e, quando ele alçou o braço, defensivamente, disse, revelando aborrecimento:
- Não precisa temer. Teve o que merecia. Acabou.
O escrivão encerrou o serviço. Pensava com raiva em Aníbal. “Maldito politiqueiro”! Fazer tanto barulho por uma insignificância. Por uns goles de água.
Gostaria de liberar Ronaldo, mas a decisão caberia ao delegado, que somente iria ao posto na manhã seguinte.
Virgilio abandonara a “pose” de ferrabrás. Estava aborrecido com a própria explosão de violência. Gostaria de justificar-se e, até, possivelmente desculpar-se caso a autoridade não ficasse “desprestigiada”. Precipitara-se. Mas que fazer?
Por volta das 19 horas acercou-se da cela, sorrindo. Portava um cesto.
- Dona Geni mandou isso. É “bóia” e da melhor, feita pela empregada, cozinheira de mão cheia.
Acrescentou com um sorriso malicioso.
- Ela ficou gostando de você.
Havia macarronada, carne, salada, queijo branco, goiabada e garrafa de cerveja.
O preso indagou sorrindo:
- É muita comida, para um só. Talvez queira fazer-me companhia.
A surpresa arregalara os olhos de Virgilio. Perguntou, logo depois, com timidez:
- Não está com raiva? Sabe, é costume...
- Compreendo. Esqueça.
- Não sei se...
- Aceite. Nada de ressentimento. Detesto comer sozinho.
Jantaram vagarosamente.
O calor arrefecera. Sentado no catre, Ronaldo apreciava, através da janela gradeada o cair da tarde.
Vozes infantis e som de órgão interromperam o silêncio.
- São os meninos do coro - esclareceu Virgilio. Ensaiam para cantar na missa do Galo, amanhã.
Eram 9 da manhã quando o delegado chegou. Ao passar pela porta da sala do escrivão, observou:
- Parece que houve novidade.
- O sargento “Jerominho” deteve um cidadão...
- Qual a acusação?
- Foi “seu” Aníbal quem se queixou.
- Aquele criador de casos... Qual o crime?
- Uma história de invasão de propriedade; o rapaz entrou no jardim e tomou água.
- Água? – admirou-se o delegado.
O escrivão acenou afirmativamente.
- Então vocês fazem um inquérito, prendem, por causa de goles de água?
- Trata-se de “hippie”.
- E deixa de ser gente? Vai ver que bateram nele.
- Só uma bofetada. Cabo Virgilio ficou nervoso.
- O preso respondeu mal, rebelou-se?
- Não, mas...
- Francamente, isto é o fim do mundo. Preciso é por vocês todos na cadeia. Mande trazer o coitado.
Virgilio arriscou uma observação tímida:
- Ele é boa gente, doutor.
- E essa agora. Você bate no preso e depois o defende. É mesmo uma loucura.
- Foi engano, doutor, não sabia...
- Chega de conversa. Não quero mais ouvir insensatez.
Dirigiu-se a Ronaldo:
- Pegue suas coisas e suma. Fora da cidade. Não quero vê-lo mais por aqui.
A notícia da libertação já correra o povoado, atraindo curiosos. Logo as ruas estavam cheias.
Assim que saiu às ruas, escoltado pelo sargento “Jerominho”, Ronaldo foi aplaudido por dezenas de pessoas. Parecia que toda a cidade estava ali.
O rapaz pediu licença ao sargento para fazer uma breve visita. “Jerominho” encolheu os ombros.
Indiferente aos olhares escandalizados das senhoras conservadoras da cidade, Ronaldo dirigiu-se á casa de Geni, que, pela porta entreaberta o viu chegar. Admitiu-o logo.
- Vim agradecer o apoio e o jantar e despedir-me.
- Por que vai embora? – interrogou pesarosa.
- O delegado não me quer aqui.
- Ele não manda na cidade. Se desejar, posso dar um jeito.
- Prefiro continuar a viagem.
- Espere ao menos hoje.
- Não é possível. Virei visitá-la com mais vagar.
Olhava-o com doçura maternal.
- Conto com isso, mas não tem medo de comprometer-se?
Ele riu.
Acompanho-o à porta. O número de curiosos aumentara.
Ronaldo afastava-se sorridente, despedindo com gestos, quando Marquinhos, o terrível filho do prefeito, gritou a pergunta canalha:
- Então, Geni. Ele é bom de cama?
A meretriz fechou a porta, envergonhada. Virgilio teve vontade de arrancar a orelha do moleque e “Jerominho” encarou-o irritado. O menino sentiu a reprovação geral.
Ronaldo parecia não ter ouvido. Avançava, sem pressa, pela estrada poeirenta, de cabeça descoberta. A intensa luz solar incidia na cabeleira alourada, provocando estranho brilho.
Os habitantes, fascinados, acompanharam a marcha tranquila daquele rapaz misterioso, até ele desaparecer na curva da estrada, alguns acenando com as mãos e até com lenços brancos. O duro cabo Virgilio deixou escapar algumas lágrimas. O episódio rompera a rotina, sem horizontes, de suas vidas; proporcionara novo assunto para conversas e especulações; excitara-lhes a fantasia e o sonho. Aquele povoado, jamais seria o mesmo.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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domingo, 26 de dezembro de 2010


O corpo do ex-prefeito de Santo André (PSDB), Newton Brandão, 83 anos, que morreu na manhã de ontem, sábado, dia de Natal, foi velado na Câmara Municipal da cidade. O enterro aconteceu na manhã deste domingo, às 11h, no Cemitério de Santo André. O prefeito do município, Aidan Ravin (PTB), decretou luto oficial de três dias. Brandão havia passado a ceia de Natal com a família, na casa da filha, em Campinas, no interior de São Paulo, e foi encontrado morto por volta das 10h de sábado. "Quando fomos acordá-lo, às 10h, ele já estava morto. Morreu dormindo", disse Patrícia, filha do médico e político. Confirmou-se depois que o Dr. Brandão sofreu um infarto agudo quando dormia.
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Segundo pessoas próximas ao ex-prefeito, nas últimas semanas seu estado de saúde apresentava-se comprometido devido a idade. Brandão não se locomovia mais sem a ajuda de terceiros e também passava por um quadro depressivo devido a morte de familiares. Maria Risoneide, empregada da família há mais de 20 anos, afirmou que o ex-prefeito saiu de casa rumo a Campinas dizendo que não estava se sentindo bem.
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Nascido em Borda da Mata (MG), Newton Brandão comandou Santo André por três mandatos (1969-1973 1983-1988 e 1993-1996). Também foi deputado estadual em duas oportunidades (1991-1994 e 1999-2002). O Dr. Brandão, como era conhecido, deixa a esposa, Maria Pires Brandão, três filhas e seis netos. A morte de Brandão marca a segunda baixa no meio político neste Natal. Nesta sexta-feira (24), véspera de Natal, o ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia (PMDB), também morreu vítima de câncer. (Edward de Souza).

sábado, 25 de dezembro de 2010

QUINTA-FEIRA, 23 DE DEZEMBRO DE 2010

A vida são deveres, que nós
trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já é Natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, passaram-se 50 anos!
A vida e o relógio - Mário Quintana
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Cada ano que termina traz consigo esse sentimento de urgência, a que o poeta se refere, de que o tempo está se esvaindo cada vez mais rápida e definitivamente. Teriam as Moiras, por acaso, acelerado o seu fiar? Deusas da mitologia grega, Cloto, Láquesis e Átropos, as Moiras eram três irmãs encarregadas de fiar os dias da vida, do nascimento à morte. Filhas do Destino, a elas cabia cuidar do curso da vida e da morte, de homens e deuses, bem como do quinhão de atribulações a cada um reservado. Poderosas, nem Zeus questionava-lhes as decisões. Trabalhavam juntas, mas cada uma tinha o seu próprio que fazer. Cloto, a fiandeira, tecia o fio da vida. Láquesis o puxava, enrolava e distribuía, cuidando de sua extensão e do caminho a ser percorrido. A Átropos, a implacável, cabia cortá-lo, determinando assim, o fim da existência terrena, quando esta entendia que o instante era chegado.

Certamente, trabalharam muito em 2010, ano que, mesmo antes de começar, estava fadado a escorregar apressado, como areia fina pelo gargalo estreito da antiga ampulheta. Lá se vai, ligeiro como chegou. Não se imaginava, contudo, que viesse tão nervoso, atribulado, esparramando águas, chacoalhando a terra tantas vezes, trazendo estragos, causando perdas e muitos danos, indistintamente. Um velho vulcão que se acreditava extinto, como canta uma canção romântica, voltou a botar fumaça pela boca, de modo nada romântico, provocando medo, pânico, impedindo pessoas de se locomoverem. O vazamento de uma plataforma de petróleo no Golfo do México acabou sendo estancado, não sem antes, entretanto, ter provocado estragos e prejuízos imensuráveis. Coisas de Láquesis, diria Homero.
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Como se esse furor todo não bastasse, após um desabamento, mineiros ficaram presos a uma profundidade de 700 metros na Mina San José, no norte do Chile. O consolo, neste último caso, foi vê-los, um a um, serem resgatados do ventre da terra à luz do dia, trazendo aos corações a esperança de novos e melhores dias. A vida é tão rara, como canta Lenine, merece ser vivida e, principalmente, preservada. Porque o cordão com que sua trama é tecida, delicado e frágil como cristal, pode se romper ao menor abalo. Ao menos neste caso, teve Átropos de adiar sua intervenção.

Tremores, temores, chuvas e vulcões, circunstâncias fora de nosso controle, contudo, não impediram a marcha de nossos dias, de nossos projetos. Nossos deveres, trazidos pela vida, pelo trabalho, exigiram coragem, paciência, esperança, esforço e dedicação. Aliás, na grande maioria das vezes, sem ofensa às fiandeiras, não é o destino que importa, mas sim o nosso sonho e o tamanho de nossa vontade de concretizá-lo. O querer fazer, o querer mudar, são ambos um estado de espírito. E isto é escolha, decisão de cada um de nós.
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Em suas memórias, Shirley Temple escreveu que deixou de acreditar em Papai Noel quando um dia, ainda criança, o Papai Noel de uma loja de departamentos lhe pediu um autógrafo. Diferentemente dela, continuo acreditando na magia do Natal e na força de um desejo, de um sonho, de uma estrela que se busca. O Natal tem essa coisa maravilhosa de despertar a criança adormecida dentro de nós, de trazer nossos sonhos de volta. E o homem é um gênio quando está sonhando, segundo Kurosawa. Brasília é prova concreta disso. Resultado do sonho grande de um grande homem, nossa capital comemorou este ano seu aniversário de 50 anos. Quando se vê, passaram-se 50 anos.

E quando se vê, já é Natal outra vez, quando se vê, já terminou o ano. Luzes e sinos iluminam, embalam a cidade. Deveres feitos e entregues aguardamos agora a colheita de frutos maduros, oxalá, também doces. Tomara que o novo ano venha sereno, trazendo a paz de dias dourados. Tomara que o Papai Noel nos devolva a criança que um dia fomos e, para o novo ano, tomara que as Moiras nos dêem uma trégua. Bem merecida. Ainda mais porque, afinal, há sempre uma esperança que brota do fundo da terra, do fundo de nós mesmos.

.Agradecemos, cordial e fraternalmente, pelo caminho que juntos percorremos em 2010 e, com muita satisfação e alegria, desejamos a todos e todas Boas Festas! Feliz Ano Novo!