sábado, 11 de setembro de 2010

AS POLÊMICAS CADEIRINHAS PARA BEBÊS

SEXTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2010

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CLASSE POBRE É DESCARTÁVEL

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O recente exemplo que obriga motoristas a usarem em seus carros cadeirinhas para babes e crianças pequenas, lei que passou a vigorar dia primeiro deste mês, mostra claramente que, como sempre, pensaram apenas nos ricos, e que têm apenas um filho. É incrível como a classe mais pobre é tratada legalmente como algo descartável e que pode ficar sujeita a todos os perigos que os mais ricos são poupados. Este efetivamente é um país da estupidez. Imaginem a situação de uma família pobre que tem quatro filhos com idade entre 4 e 7 anos. Mesmo que entendam que a nova lei traz segurança para suas crianças, onde vão colocar os assentos elevados que esta nova lei obriga? Na cabeça do gênio que fez a lei? Ou seria melhor a família do pobre coitado comprar outro veículo para transportar todos os seus membros? Tem mais: agora não se pode dar uma carona a uma mulher com um bebê de colo se não tiver a tal cadeirinha... Mas, ela pode pegar um táxi ou um ônibus, que estão desobrigados a ter esses dispositivos de segurança, não é um absurdo?
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Lembram da lei que obrigava o motorista a carregar um kit de primeiros socorros e que não pegou? Não sei... Tem alguma coisa parecida e que cheira muito mal nessa história, ou melhor, nessa lei, embora deva reconhecer sua capacidade de salvar ricas vidas. Esse tal kit de primeiros socorros deixou dezenas de empresários milionários. Tenho um guardado em casa como lembrança, caixinha azul e na época paguei 10 reais por ele. Comprei na estrada, quando viajava pela Anhanguera, de São Paulo para Franca, com receio de ser multado e ainda ter o carro apreendido. Era composto pelos seguintes materiais: dois rolos de ataduras de crepe, um rolo pequeno de esparadrapo, dois pacotes de gases, uma bandagem de tecido de algodão triangular, dois pares de luva de procedimento, uma tesoura de ponta romba. E a Lei do Trânsito é clara. É proibido colocar as mãos em acidentados para não agravar seu estado de saúde, deve-se preservar o local e chamar as autoridades competentes. Pergunto: para que servia então aquele bagulho a não ser enriquecer favorecidos do Poder?
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A resolução que obriga o uso de cadeirinhas em carros de passeio entraria em vigor em junho, mas teve de ser prorrogada por mais dois meses devido à falta do produto no comércio, dando chance para os motoristas se adaptarem. A partir do dia primeiro deste mês, independentemente de ter o produto nas lojas, a norma passou a valer. A lei é rigorosa com os pais que possuem carros e exige deles a compra de cadeirinhas e absoluto cuidado com os filhos.
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São três tipos de assentos diferentes até os sete anos e meio, cada um para certa idade e a multa vai chegar a quase R$ 200 e punição de sete pontos na carteira de habilitação. Hoje há modelos no mercado que variam de R$ 150 a mais de R$ 1 mil, valores altos para a população de baixa renda. E não há variedade de marcas populares, na avaliação da Associação Brasileira de Produtos Infantis. Para as crianças pobres que andam de ônibus isso não é exigido o que deixa implícito que o próprio Estado permite que as crianças de baixa renda sofram impactos violentos desde que os meninos de bem estejam protegidos.
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Como se não bastasse tal privilégio a Lei ainda é clara ao afirmar que em carros antigos, anteriores a 1998 que só possuem cintos de duas pontas que não aceitam as cadeirinhas, os motoristas estão isentos de multa. Ora, quem possui carro velho são os mais pobres e mais uma vez a questão financeira se sobrepõe a questão da vida. Se existem carros com cintos subabdominais que se obriguem os fabricantes a produzir equipamentos compatíveis com esse tipo de veículo. Mais ainda. Se a lei é para ser cumprida e pode salvar preciosas vidas, que seja estendida para todos os veículos, entre eles táxis e vans escolares. Eu pergunto: seu filho está mais seguro em um táxi ou no transporte escolar do que no carro do pai dele, do lado da mãe?
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Igualmente a Lei do Cinto não chegou aos coletivos e volto a perguntar: qual é a dificuldade de se instalarem cintos de segurança nos ônibus coletivos urbanos e exigir seu uso pelos passageiros como é feito em automóveis particulares? Poderia haver resistência no inicio como houve com os motoristas de carro, mas depois todo mundo se habituaria em caso de colisões e não teríamos mais as dezenas de acidentados, quase todos com lacerações na face porque simplesmente o cinto é coisa de rico. Para o Contran, pobre pode e deve esbagaçar-se no banco da frente dos coletivos, meter a fuça nas ferragens para deixar de ser pobre. O danado já se acostumou até a ficar em pé, espremido em ônibus lotados e não reclama, quer coisa mais errada? Sempre que acontece uma colisão com um destes ônibus urbanos, observem as notícias em jornais, o pobre é o primeiro a ser arrebentar todo, e depois, se der sorte e sair com vida, ainda se vê obrigado a enfrentar a fila do PS em busca de socorro...
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Nunca se viu tanto descaso pelos mais humildes que compõem a grande massa de nossa sociedade e acredito que poucos países teriam a coragem de excluir assim legalmente seus mais necessitados dos instrumentos e das normas de segurança apenas porque eles são pobres. No Brasil isso é feito de modo acintoso e com o aval da lei que distingue claramente quem pode ou não pode morrer, quem deve ou não deve acidentar-se baseado unicamente em sua renda financeira e nos seus bens materiais.
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ENTENDA A LEI

Crianças com até um ano devem utilizar, obrigatoriamente, o “bebê conforto ou conversível”. As crianças com idade superior a um ano e inferior ou igual a quatro anos devem andar na “cadeirinha”. Já as crianças com idade superior a quatro anos e inferior ou igual a sete anos e meio deverão utilizar o dispositivo de retenção denominado “assento de elevação”.
Somente a partir dos sete anos e meio, a criança pode ir sentada no banco usando o cinto de segurança do veículo.
No caso de veículos que só possuem banco dianteiro, caso das cabines de caminhonetes, é permitido o transporte de crianças com menos de dez anos no banco da frente, desde que viaje no dispositivo de retenção.
A multa para quem descumprir a nova regra é gravíssima. A punição é de sete pontos na carteira e multa de R$ 191,54. Na cidade, o carro fica retido até que se providencie a cadeirinha adequada. E durma-se com um barulho desses...
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010



Nesse mesmo ano em que estive em Roraima, em julho, Fausto Polesi novamente me arrumou um novo encargo: prestar assessoria para Moacyr Rodrigues, candidato a prefeito de São Caetano do Sul. Seria uma batalha dura, advertiu, uma vez que Moacyr era procurador da Justiça do Estado de São Paulo com pouca vivência política e não muito conhecido na cidade, ao contrário de seu pai, homônimo, já falecido, que inclusive dava nome a uma instituição local. Para agravar a situação, Moacyr enfrentaria o candidato apoiado por Luiz Tortorello, atual prefeito, que gozava de ampla popularidade. Comecei a campanha elaborando um folheto com um apelo materno. A mãe de Moacyr garantia: tenho certeza de que meu filho será o melhor prefeito que São Caetano já teve. E arrematava: coração de mãe não falha.
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Como Fausto havia previsto, essa foi uma campanha difícil para Moacyr Rodrigues. Ele sequer tinha sido vereador e partia para disputar o cargo máximo no município, apesar de contar com o apoio do Diário do Grande ABC, o mais influente jornal da região, e do então governador Luiz Antonio Fleury, do qual era amigo. No meio da campanha, numa tarde, Moacyr me chamou em sua sala e me advertiu: uma das autoridades que eu entrevistara para a campanha havia telefonado, dizendo que eu estava com um hálito de cachaça insuportável. “Veja se beba quando não estiver em campanha”, aconselhou. Esse meu procedimento, tinha consciência, me prejudicava e prejudicava também o Fausto, que me havia indicado. Era quase certo que Moacyr, ao encontrá-lo, iria reclamar: “Fausto, você me recomenda um bêbado para ser meu assessor de comunicação”.
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Era assim. Por onde passava, deixava minha marca de alcoólatra, de cachaceiro, embora nunca irresponsável. Realizava o serviço direito, com categoria, mas sempre ficava essa nódoa do vício da bebida. Não conseguiria parar de beber, concluía. Até quando meu organismo iria suportar? Dizia tanto em cirrose hepática, mas eu nada sentia.
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Como era de se esperar, Moacyr perdeu para o candidato de Tortorello. No entanto, ele se tornara mais conhecido durante a campanha e, dois anos depois, sairia candidato a deputado estadual, sem sucesso. Ganharia, nas eleições seguintes, para vereador e provaria ser um exemplo de parlamentar, procurando sempre fazer o melhor pelo município e por seus moradores. Moacyr, não posso deixar de registrar, eu admirava e até invejava pela sua capacidade em mudar de mulher. Cansava de uma e arrumava outra, e cada vez mais jovem. A última vez que o vi, na Câmara de Vereadores de São Caetano, me revelou que agora decidira ficar com a atual, vinte anos mais nova que ele. Encontrara a mulher ideal, disse ele. A mulher dos seus sonhos. Fingi acreditar.
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Numa tarde, na sala de espera reservada para os pacientes do setor de Cabeça e Pescoço, enquanto aguardava ser atendido pelos doutores Ricardo Testa e Mauro Ikeda, interessei-me por uma revista esquecida na cadeira ao lado – ABCâncer, da Associação Brasileira do Câncer, editada sob a coordenação geral de Marília Casseb. Comecei a folheá-la quando uma reportagem de página dupla me chamou a atenção. O título: Quando a morte é inevitável, com texto de Eduardo Cosomano. Cita estudo da União Internacional do Câncer, segundo o qual o câncer mata “anualmente mais pessoas no mundo que a tuberculose, a malária e a Aids juntas”. A pesquisa também revela que em 2030 o número de doentes de câncer por todo o planeta deve chegar a trinta milhões, dos quais 18 milhões morrerão devido à doença, 50% a mais do que atualmente.
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Uma das pessoas ouvidas pela reportagem é a professora Maria Júnior Kováes, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, que observa: alguns pacientes sentem muita raiva, acham que é uma traição da vida. Outros acham que merecem. Às vezes, o paciente aceita e a família também. Mas, como fator fundamental, posso afirmar que oferecer espaço de escuta, tanto para o paciente como para seus familiares, é o início do caminho. Observa ainda que o câncer, por muitas vezes, gera um processo de culpa, no qual todos tentam resolver questões que estavam em aberto. É a psicóloga quem diz: “é muito importante tentar eliminar essa culpa. Nos pacientes mais velhos, grande parte da incidência da doença está relacionada ao estilo de vida da pessoa, que contempla hábitos como o fumo ou a bebida. Mas, às vezes não está. Por conta disso, o objetivo é trabalhar para a aceitação do fato, sem encontrar culpados”.
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Lida a reportagem, fiquei a pensar. Quando das primeiras entrevistas, os médicos que me consultaram foram logo perguntando se eu bebia e fumava. Respondi que não fumava há mais de uma década e estava quase o mesmo período sem beber nada contendo álcool. Diante de minha resposta, alegaram que eu adquirira câncer porque havia plantado a semente e agora colhia os frutos. E as crianças com menos de cinco anos que aparecem com câncer? Abusaram do fumo, da bebida? Melhor se conformar e lutar para vencer e, após pensar assim, logo fui chamado e recebi uma boa notícia: o tumor diminuíra com as sessões de rádio e quimioterapia e continuaria nesse ritmo regressivo até o final dos efeitos da medicação. Era, portanto, uma esperança de prolongamento da vida...
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo segundo capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.

(Edward de Souza).
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*Os comentários para este capítulo, escrito pelo saudoso jornalista José Marqueiz, foram suspensos. Agradecemos sua compreensão.
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terça-feira, 7 de setembro de 2010

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Hoje, 7 de setembro, comemora-se oficialmente a Independência do Brasil, uma vez que nesse dia, no ano de 1822, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo, o Príncipe Regente D. Pedro, ao receber a correspondência da Corte, teria proclamado o chamado "grito da Independência" à frente da sua escolta, processo que culminou com a emancipação política do nosso país do reino de Portugal. O 7 de setembro simboliza a integração entre os diversos setores da sociedade. A garra de um povo que, desde 1822, unido ao longo do tempo diante de tantos desafios, vem conquistando vitórias e consolidando a soberania nacional.
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Sou do tempo em que havia dois desfiles para se comemorar o Dia da Pátria. Antes tinha um grande desfile escolar. Era muito bonita a participação dos colégios. No dia 7 de Setembro era a parada militar com o povo na rua. Havia uma vibração estonteante, todos com a bandeira do Brasil. Com a tão decantada “democracia” começou-se a se dizer que a parada de 7 de Setembro era coisa de militar. Deixou-se de se levar os colégios e foram colocando na cabeça do nosso querido povo que assistir os desfiles era coisa para gente atrasada. Homenagear o país, as suas datas nacionais, não tem nada de vergonhoso nem de atrasado, pelo contrário. Antigamente o 7 de setembro era realmente comemorado. Era uma semana sem aulas nas escolas em virtude dos preparativos para o desfile. Diariamente presenciávamos os colégios treinando a "marcha" pelas ruas do entorno dos colégios. Hoje tudo está mudado. E para pior. Observem as emissoras de televisão quando repórteres fazem entrevistas com pessoas de diversos níveis sociais e perguntam: "você sabe o que se comemora no dia 7 de setembro? Grande parte, pessoas até de idade, desconhecem o motivo da comemoração, mas sabem que é feriado. Os mais jovens, nem se fala, desconhecem totalmente o motivo. É uma vergonha o brasileiro não saber o dia da Independência de seu país.
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Nos meus velhos tempos de estudante, só eram iniciadas as aulas depois que todos os alunos assistissem ao hasteamento da Bandeira brasileira, do Estado, do colégio e da Capital, ao som deste belíssimo Hino Nacional Brasileiro. Com certeza Deus iluminou a mente dessas figuras exponenciais: Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada, para comporem este inigualável hino que, sem bairrismo nenhum, é o mais bonito do mundo. As autoridades do nosso país deveriam inspirar-se nesses dois monstros sagrados para governarem o Brasil.
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Não mais se vê pelas ruas crianças agitando bandeiras, com as cores do pavilhão nacional adornando os cabelos! As moças não mais se interessam em aplaudir os garbosos militares em seus trajes de gala. Triste saber que a maioria do povo brasileiro desconhece o que se festeja no dia 7 de setembro. E são poucos aqueles que sabem cantar, pelo menos a primeira parte, do Hino Nacional. O que fizeram com o nosso patriotismo? Por que não há mais nas escolas as aulas de Moral e Cívica? Aonde foram parar os famosos cadernos "Avante" contendo o Hino Nacional na contracapa? Basta o povo recobrar a auto-estima e conscientizar-se de que é o legítimo senhor de seus desígnios, capaz de construir um presente mais justo e tranquilo, com os olhos voltados para o futuro, sem olvidar as glórias do passado. Assim, consolida-se o patriotismo que torna a Pátria melhor.
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O Brasil precisa liberta-se do medo e do complexo de inferioridade. Soltar do peito oprimido o grito de independência dos maus políticos e também dos alimentadores de intenções escusas. Assumir as suas vontades e decidir os seus caminhos. O Brasil coberto de verde amarelo. Vamos despertar esse gigante adormecido. Vamos extirpar as ervas daninhas dos nossos bosques que outrora tinham mais flores. Temos que transmitir de geração para geração o orgulho que temos de nosso país e ensinar nossas crianças a importância de datas. Nossas escolas precisam intensificar o ensino do civismo realizando programas que demonstrem e esclareçam algumas datas e porque são importantes para nós brasileiros. Cantar o Hino Nacional é cantar o nosso próprio orgulho em ser brasileiro, de mãos dadas com a igualdade, com a felicidade, com a alegria em viver num país sem igual, mas que precisa ser realmente para todos na verdadeira acepção da palavra. E já que estamos num ano eleitoral, onde serão escolhidos os novos representantes do Brasil, nada mais apropriado do que refletir sobre a responsabilidade dos brasileiros em escolher os candidatos que comandarão os rumos do país. Votar é um ato de cidadania e de compromisso com o Brasil que queremos. Escolher com critério e seriedade as pessoas que representarão os interesses do povo brasileiro e não os seus interesses próprios é uma atitude que poderá mudar o futuro das novas gerações. Precisamos criar essa consciência cívica, escolher bem e cobrar dos escolhidos o dever de servir ao povo acima de tudo. Não fujamos à luta! Salvemos a Pátria Amada!
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UM POUCO DA NOSSA HISTÓRIA

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Alguns pontos da história da nossa independência sempre chamaram a minha atenção, ainda nos bancos escolares. Um deles sobre os reais motivos que levaram D. Pedro a se insubordinar e desobedecer ordens de seu pai para que voltasse para Portugal, se submetendo ao rei e às Cortes. Nesse ponto, os livros de história, pelo menos a maioria, são contundentes. Pesou nesta decisão uma carta enviada a D. Pedro por José Bonifácio de Andrada e Silva, Membro do governo provisório de São Paulo, que aconselhava o Príncipe Regente a romper com Portugal, e uma outra da esposa, Maria Leopoldina de Áustria, apoiando a decisão do ministro e advertindo: "O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece". Impelido pelas circunstâncias, D. Pedro pronunciou a famosa frase "Independência ou Morte!", rompendo os laços de união política com Portugal.

Outro ponto interessante é sobre o começo do endividamente externo do Brasil. Diz a história que, para ser reconhecido oficialmente, o Brasil negociou com a Grã-Bretanha e aceitou pagar indenizações de 3 milhões de libras esterlinas a Portugal. Alguns historiadores afirmam que foram 2 milhões de libras esterlinas. A Grã-Bretanha saiu lucrando, tendo início o endividamento externo do Brasil. Esse empréstimo ficou conhecido como "empréstimo português", destinado a cobrir dívidas do período colonial e que na prática significava um pagamento à Portugal pelo reconhecimento de nossa independência. A independência não alterou as estruturas sócio econômicas e restringiu-se a um movimento político muito limitado, mantendo o regime monárquico e o herdeiro português no trono, aliado aos latifundiários conservadores sob o comando de José Bonifácio de Andrada e Silva.

A aceitação do pagamento da indenização está ligada aos vínculos mantidos com Portugal e ao mesmo tempo aos interesses ingleses, que somente reconheceu nossa soberania após o acordo com Portugal. Em 1829 foi realizado novo empréstimo que passou para a história como "o ruinoso" e serviu para cobrir parcelas não pagas do empréstimo anterior. Do total tomado emprestado, o Brasil recebeu apenas 52%, pois o restante serviu para cobrir os juros da dívida anterior. Dois novos empréstimos importantes foram realizados durante o Império - em 1843 e 1852 - utilizados ainda para pagar débitos relativos ao primeiro empréstimo, que somente foi saldado em 1890.
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Durante esse período o Brasil ainda endividou-se ainda mais com a Guerra contra o Paraguai. A Inglaterra forneceu os navios e empréstimos ao Brasil para o conflito que também interessava à ela. Daí por diante a coisa descambou. Durante a república do "café com leite" o endividamento aumentou ainda mais, sempre para garantir os privilégios da elite, até chegarmos ao período que ficou conhecido como "milagre econômico", quando a indústria brasileira cresceu a taxas elevadíssimas graças ao ingresso maciço de capitais estrangeiros, fazendo com que a dívida saltasse de 4 para 12 bilhões de dólares.
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O endividamento pós 64 tem dois estágios. O primeiro é o dos governos Costa e Silva e Médici, nos anos 68-73, do "milagre econômico". Nesse período, os empréstimos foram usados para, ao cabo de tudo, realizar operações de crédito na compra de geladeiras, secadores de cabelo, automóveis e outros bens supérfluos e também para financiar ar grandes obras urbanas e serviços que viabilizaram a existência dos automóveis e das geladeiras, tais como estradas, viadutos e redes de energia elétrica. Em 1982 foi o ano da falência declarada do modelo brasileiro de desenvolvimento e o país recorre ao FMI. Ao final do governo Figueiredo, que encerra a ditadura militar, a dívida externa chegava a casa de 100 bilhões de dólares. A Dívida atual, que o Presidente Lula afirma ter pago, alcança a casa dos 231 bilhões de dólares. Estes dados consegui no site do Banco Central.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista
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Nesta quarta-feira, o vigésimo primeiro capítulo de "Memória Terminal", série inédita escrita pelo jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. Acompanhe!
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domingo, 5 de setembro de 2010

AS BELAS HISTÓRIAS DO RÁDIO ESPORTIVO

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O MENINO DO RETRATO
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Provavelmente, no jornalismo, o pessoal inserido em uma equipe de esportes (rádio, jornal ou TV) é o que mais bate pernas pelos mais distantes rincões. Vivência diferente nos costumes e jeito das pessoas nativas e, em muitas incursões, depara-se com fatos simples, que marcam a passagem, nada corriqueira, porém inesquecível.
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Uma quarta-feira de maio de 1988, a equipe de esportes da Rádio Diário foi até a bela Piracicaba, cerca de 230 quilômetros do ABC, para a transmissão de um jogo entre XV de Novembro x Santo André, então válido pelo Paulistão daquele ano. Um trabalho rotineiro em uma cidade por demais conhecida. Apenas o Edward de Souza (narrador) e eu (comentarista). Chegamos por volta das 18h e, claro, fomos fazer a refeição do começo de noite no Mirante, reduto obrigatório de quem vai a Piracicaba. Quem visita Roma tem que ver o Papa, quem chega a Ribeirão Preto tem que tomar o chope no Pinguim, portanto em Piracicaba é quase obrigatório degustar um pintado na brasa no Mirante. Faz sentido.
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Por volta das 19h rumamos para o Estádio Barão da Serra Negra, na Rua Silva Jardim, 849, Bairro Alto, ao lado do cemitério, onde o XV manda seus jogos. Naquele tempo havia, das 19h às 20h, o programa governamental de rádio A Voz do Brasil e o Projeto Minerva (também do governo federal), das 20h às 20,30h e, por isso, as transmissões eram iniciadas na sequência. Algumas vezes até com atraso, porque a maioria dos jogos naquela época começava 20,30h. Equipamento instalado e testado, eu e o Edward nos acomodamos aguardando o início dos trabalhos, quando um garoto que estava nas arquibancadas, no degrau próximo as cabines, começou puxar papo (deveria ter uns 12/13 anos). Perguntou ao Edward de onde a gente era, qual o nome da rádio, se a gente torcia para o Santo André, se conhecia o Pelé, etc., etc.? Roupa humilde, porém limpa, chinelo de dedos, boné surrado, cabelos longos em desalinho e dentes claros. Disse que entrou no estádio "de favor" já que não possuía sequer uma moeda para comprar pipoca, muito menos para o bilhete de entrada.
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Vendo a máquina fotográfica que o Edward sempre levava em nossas viagens (perdeu umas duas ou três, é verdade, esquecida nos botecos da vida), o menino pediu se a gente poderia tirar uma foto dele. Rapidamente, já que faltavam poucos minutos para o início do nosso trabalho, o Edward empunhou a máquina e pipocaram três ou quatro flash em direção ao garoto. Olhos brilhando, demonstrando felicidade, Marcelo - descobrimos seu nome depois - sorria exibindo os dentes alvos. Em seguida, como a nossa transmissão já estava no ar, o menino sumiu no meio da pequena torcida que estava no Barão de Serra Negra para o desinteressante jogo de campeonato que pouco ou nada alterava a posição mediana do XV ou do Santo André na tabela.
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No intervalo, o garoto reapareceu e, um tanto tristonho, disse: "Não valeu nada o senhor - encarando o Edward - tirar as fotos. Vocês vão embora e não poderão me entregar os retratos". O Edward não disse nada, mas eu notei (estava comentando o primeiro tempo do jogo) que algo não estava bem. No final de minha participação intermediária, no momento dos comerciais, meu colega de trabalho contou-me que o garoto estava triste porque não receberia as fotos: "Quem disse que não receberá?”, retruquei. Pedi ao menino seu endereço para enviar as fotos pelo correio. Argumentou que não tinha o CEP (acho que ele nem sabia do que se tratava). Anotei a rua, o número e o bairro, porém senti que ele não estava acreditando que as fotos lhes fossem remetidas. Acabou o jogo e, missão cumprida, retornamos ao ABC sem mais ter visto o adolescente.
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Dois ou três dias depois, o Edward me entregou as fotos, reveladas e nítidas (a máquina do cara era boa, pena que também tenha dormitado em um balcão de boteco e sumido). Em um envelope escrevi o endereço que o rapazinho havia fornecido (descobri o CEP em livro próprio) e mandei as fotos. Coloquei no verso nosso nome e o endereço da rádio, desejando felicidades ao garoto. Encerrei o assunto. Algum tempo depois (não consigo dimensionar) recebi, na rádio, uma correspondência oriunda de Piracicaba: era o Marcelo que, com letras bem legíveis, quase desenhadas, agradecia o senhor de bigodes (o Edward já os usava) e o outro mais baixinho que tiraram e lhes enviaram as fotos. Dizia estar muito feliz, porque havia contado à mãe e aos amigos de escola que tinha tirado fotos com um pessoal de rádio, mas não acreditava que seriam enviadas. Mostrei a missiva do menino ao Edward e ficamos emocionados, já que um simples gesto, de ambas as partes, proporcionou tripla felicidade.
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Nada nessa vida é tão de graça, mas se “darmos” sem pensar em “receber” em troca, seremos muito mais felizes, mais alegres e mais humanos, porque essa é a essência do ser humano, amar ao próximo sempre com um sorriso no rosto. Nunca mais tivemos notícia do Marcelo, mesmo retornando outras vezes a Piracicaba, mas não importa. São passados 22 anos, mas jamais esqueci o episódio, simples, banal, porém com reflexos eternos e, creio, o Edward e o Marcelo também jamais esquecerão. Outras histórias inusitadas, marcantes, alegres, tristes e corriqueiras aconteceram nessas longas e gratificantes esticadas por este mundão e que deverão ser contadas mais adiante neste espaço.
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Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC.
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

SÉRIE RECEBE PERTO DE 500 VISITAS
Registradas 482 visitas ao blog durante a postagem de mais um capítulo da série de José Marqueiz. Recebemos cerca de 40 e-mails pedindo explicações sobre o cancelamento dos comentários e o fim do ciclo de amigos neste espaço. Todos os e-mails foram respondidos e os esclarecimentos prestados. Na próxima quarta-feira voltamos com o 21º capítulo da série "Memória Terminal", escrita pelo saudoso amigo José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo. Até lá algumas postagens poderão eventualmente ocorrer, todas elas com os comentários suspensos.
*Edward de Souza

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


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A missionária demonstrava estar atordoada, sem saber qual providência adotar, ao me ver naquele estado deplorável. A cidade mais próxima era Normandia e, até lá, o percurso teria de ser feito a pé. E eu não tinha condições de caminhar sozinho. A não ser amparado e, mesmo assim, com muita dificuldade. Vi a missionária conversando com alguns índios, que foram até o interior da mata e voltaram, minutos depois, com uns galhos de árvores e pedaços de cipós. Eu apenas observava a movimentação em torno, sem quase nada compreender. Só entendi quando os índios, habilidosos, em pouco tempo improvisaram uma maca. Conclui: eles haviam decidido me levar para Normandia deitado naquela maca. Conclusão certeira.
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Lembro-me vagamente de ter sido uma longa viagem, ainda interrompida várias vezes devido aos meus desejos de evacuar – e expelia apenas sangue. A missionária, talvez mais que eu, temia que a situação se agravasse no meio da floresta e ela sem nenhum recurso para me socorrer. Em Normandia – onde há comentários de que Pappillon ali esteve após a fuga – quase não tem unidades médicas capazes de realizar atendimentos mais graves. O médico, ou enfermeiro que me atendeu, sugeriu a minha imediata transferência para Boa Vista, a capital. Para isso, a localidade dispunha de uma velha ambulância.

Também não sei como cheguei a Boa Vista. Só me lembro que, em consequência de longo tempo sem bebida alcoólica, fui apossado – pela primeira vez na vida – de delirium tremulus (?) e, traduzindo, comecei a delirar e a tremer. Via animais andando pelas paredes, pessoas tentando retirar a sonda de meu nariz e gritava, gritava, clamava por ajuda. Até que, num momento de completa loucura, arranquei todos os aparelhos que se encontravam grudados em meu corpo, levantei-me da cama daquele quarto do hospital, e fui até a sala da diretoria. Fui queixar-me dos animais nas paredes, das pessoas que me azucrinavam. O diretor do hospital se irritou com o meu gesto inconveniente e exigiu mais rigor dos enfermeiros para comigo. Passei a ser vigiado e, em vez de ter alta no dia seguinte, permaneci quase uma semana internado. Quando reagia, exigindo minha liberação, simplesmente me aplicavam uma injeção e eu desfalecia, sem nenhum poder de reação.
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Sei que numa tarde, ainda sonolento, recebi a visita de dom Aldo Mongiano. Aproveitei a sua presença para que interviesse e me retirasse daquele lugar. Queria voltar para São Paulo, ver minha mulher e, mais tranquilo, procurar assistência médica. O religioso ficou de me atender. Mesmo assim, só fui liberado num sábado, um sábado de Aleluia. Nesse mesmo dia, marquei meu retorno a São Paulo. O vôo sairia à meia-noite, faria escala em Manaus, Brasília e só depois pousaria na capital paulista. Telefonei para minha mulher e pedi que me esperasse na manhã seguinte no aeroporto de Guarulhos.

Para a missionária e o bispo prometi que escreveria o livro, sem mesmo entrevistar os índios, apenas baseado nos documentos que eles haviam me cedido. E cumpri minha promessa. Seis meses depois, entregava o manuscrito de Os Filhos da Serra do Sol. Nesse mesmo período, fiz as consultas e os exames necessários. Apesar de constatada a hemorróida, optei por não operar. O que ocorreria dois anos depois, quando não suportava mais o incômodo.
Há mais de três décadas, acredito que em uma crônica publicada em A Crítica, de Manaus, intitulada Lamento, expressei o amor que um homem sente por uma mulher. Nesse caso, meu amor pela Ilca. A crônica merece ser transcrita pela transparência, pela ausência total de pudor ao me revelar um homem apaixonado. Lembro-me apenas que estava morando sozinho em Manaus à espera da Ilca. Na data prevista, por razões explicadas depois, ela não compareceu. E fui então para a Escadaria dos Remédios, local que reunia os boêmios da capital amazonense, às margens do rio Negro e escrevi: .

A Escadaria dos Remédios está de luto. Seu povo está triste, cabisbaixo. Nas mesas, o quadro solitário do abatimento e da angústia. As garrafas de cerveja permanecem vazias. O silêncio amordaçou as vitrolas e as músicas não tocam mais. O rio Negro parou suas águas e as embarcações continuam ancoradas. Até a brisa, a doce brisa que vem da floresta, deixou de soprar. Uma densa nuvem escura encobriu o azul constante do céu amazônico. A chuva molhou o sol e a lua. Uma tristeza imensa, incomensurável como o rio Amazonas, parece ter inundado o território livre, romântico, promíscuo, puro, rebelde e violento da Escadaria dos Remédios.
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Não há movimento. Tudo está parado. E são de tristeza as poucas ondas do rio. O boto, antes tão exibido, não pula mais como um golfinho ao aproximar das embarcações. Os pássaros, em revoada, fugiram ninguém sabe para onde e não mais se ouve seus cantares ao amanhecer. Vitória-régia murchou, como que enfeitiçada pelo sopro de uma bruxa má.
Deixaram de pescar os caboclos; parece até que tucunaré e tambaqui fugiram no manancial escuro e profundo, doce e misterioso da bacia do rio Negro. As casas, flutuantes, perderam seu colorido, sua beleza primitiva, sua dócil rusticidade. Os bares flutuantes cerraram suas portas. Agora não dá mais para tomar um aperitivo nem comprar peixe e coco verde. O barco emperrou, não quer mais navegar. Ainda mais distante, quase invisível, ficou o horizonte da felicidade.

A natureza também tem seus sentimentos. Tanta festa ela fez, com tanta beleza se enfeitou, para depois se decepcionar. Pintou o céu de um azul jamais visto, enviou sua mais doce brisa, deu aos pássaros o seu mais belo cantar e transformou o rio Negro no mais doce dos mares. Reuniu todas as embarcações da região, deu alegria aos barqueiros e pescadores. Fez tremular ainda mais as bandeiras verde-amarela das embarcações. O entardecer ganhou novo colorido e ficou parecendo um cartão postal. À vida deu mais consistência. Manaus estava em festa. Tudo isso, todos esses preparativos para recepcionar a mais linda e mais amada das mulheres. A menina eterna, de lábios de anjo e cabelos de fada. A companheira, amiga e mãe de um homem solitário. A mulher que sabe sorrir para não fazer chorar e cantar no instante de lamentar.
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Mas você não veio. Não quis pisar no chão de Manaus e respirar o ar mais puro do mundo. Não quis conhecer o Teatro Amazonas, principal símbolo da fase áurea da borracha. Nem ir às praias fluviais. Visitar seus bares e restaurantes, tomar cachaça de Belém e comer uma peixada típica amazonense. Não aceitou meu convite para navegar pelos rios amazônicos. E conhecer o território livre da Escadaria dos Remédios, seus homens e suas mulheres. E todos a esperavam. De tanto eu cantar sua beleza, imaginavam que você viria por sobre as ondas do rio Negro, flutuando como a mais maravilhosa das ninfas. Escreve e diz apenas aguardar meu regresso, certa da minha partida imprevisível.
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Sua ausência está desmoronando o império dos românticos e dos loucos da Escadaria dos Remédios. Está alquebrando os homens de braços de aço e peito de ferro. Homens acostumados a enfrentar as mais violentas tempestades. A subviver onde a subsistência quase não existe. Homens valentes e destemidos como João Balduíno, de Jorge Amado. Homens que madrugam com um copo de cerveja na mão e uma prostituta nos braços. Mas que são dóceis quando amam. Frágeis, até. Muitos chegam a ser até piegas. Como eu. Mas o amor é uma lista telefônica de perdões. O Amazonas ainda espera por você, Ilca...
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Na próxima quarta-feira, o vigésimo primeiro capítulo de "Memória Terminal", do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. O Prêmio Esso de Jornalismo é o mais tradicional, mais conceituado e o pioneiro dos prêmios destinados a estimular e difundir a prática da boa reportagem, instituído em meados da década de 50.
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Edward de Souza
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*Os comentários para este capítulo, escrito pelo saudoso jornalista José Marqueiz, foram suspensos. Agradecemos sua compreensão.
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MEMÓRIA TERMINAL ENCERRA ESSE BLOG

NESTA QUARTA-FEIRA MAIS UM CAPÍTULO DE MEMÓRIA TERMINAL, SÉRIE INÉDITA ESCRITA PELO JORNALISTA JOSÉ MARQUEIZ, PRÊMIO ESSO NACIONAL DE JORNALISMO. OS COMENTÁRIOS SERÃO DESATIVADOS A PARTIR DE HOJE E ESTE BLOG TERÁ SUAS FUNÇÕES ENCERRADAS ASSIM QUE FOR PUBLICADO O ÚLTIMO CAPÍTULO DESTA SÉRIE, CUMPRINDO ASSIM NOSSO COMPROMISSO COM O LEITOR.
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GRATO...
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EDWARD DE SOUZA.