quarta-feira, 19 de maio de 2010


"Eu sempre perguntava dos cachorros e dos gatos – nossos filhos. É que gostava de alimentá-los, acariciá-los. Inclusive os abandonados, que vagueavam famintos pelas ruas, à procura de comida e água. Até hoje não consegui compreender por que as pessoas se livram dos animais como se fossem produtos descartáveis".
.
Usei a precária experiência obtida com “O Nabo”, pequeno jornal que eu e meu amigo Paulo Pereira criamos e comecei a editar um jornalzinho para circular internamente na Brastemp, a fábrica de geladeiras e outros eletrodomésticos, que marcou o meu primeiro emprego com carteira assinada. Tinha 14 anos. O jornal – se é que aquelas quatro páginas tamanho ofício, mimeografas, poderiam ser chamadas de jornal – se resumia em contar boatos sobre os funcionários da empresa, de diretores a simples empregados.

Na época, estourou o movimento militar, que implantou a ditadura, com a derrubada do então presidente João Goulart. Na verdade, Jango, como era mais conhecido, se tornara presidente em decorrência da renúncia de Jânio Quadros, que alegara ser o seu gesto motivado por “forças ocultas”. Analistas políticos, no entanto, asseguram que ele desejava mesmo era um golpe populista, que o mantivesse no poder com mais regalias.

Aproveitando-se da fragilidade do novo presidente, com evidentes tendências socialistas, os militares implantaram a ditadura, responsável pela perseguição aberta de intelectuais, artistas e cidadãos comuns que se opunham à queda do regime democrático que, praticamente, não completara dez anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, o outro presidente amado e odiado ao mesmo tempo pelo povo brasileiro.
.
Jovem, adolescente influenciado por idéias revolucionárias, logo me coloquei contra o regime e passei a usar meu pequeno jornal interno para publicar artigos e opiniões contrários à revolução, que o cronista Stanislaw Ponte Preta, ironicamente, chamava de “redentora”. Num desses números, publiquei a crônica de um funcionário, homônimo do meu amigo Paulo Pereira, abordando as crianças abandonadas, que viviam mendigando nas ruas. No mesmo período, fui visto lendo um livro ironizando o regime comunista, mas o título era incriminador: como ser um bom comunista. Só esse título bastou para que funcionários do alto escalão ficassem sabendo de minhas tendências marxistas-leninistas e me entregassem para a chefia, exigindo minha demissão, como se a minha posição comprometesse o interesses da empresas com o governo.
.
Perdia, assim, o meu primeiro emprego e me tornei um das primeiras vítimas da revolução. Logo arrumei colocação, desta vez como entregador de avisos, para uma instituição bancária em Santo André, onde morava. Foi uma época tranquila. Só que não deixei de escrever contra a revolução dos militares, jogando em suas costas toda a culpa da pobreza e das injustiças reinantes no país.

Á época, fazia o curso básico em um colégio localizado no centro da cidade e conheci Augusto Maciel, um jovem moreno, de porte físico avantajado, bastante ligado ao meio teatral. Precisava de um amigo, uma vez que o Paulo Pereira distanciava-se em razão de um namoro sério, que o conduziria ao matrimônio.
Com Augusto Maciel, fui deixando o bairro aos poucos e convivendo mais com o pessoal da cidade. Entre esses, Hildebrando Pafundi, outro jovem, só que oito anos mais velho que eu, este ligado ao jornalismo: fazia uma coluna social em um semanário local: a Folha do Povo.
.
Sabendo do meu interesse por literatura e jornalismo, conseguiu espaço para minhas crônicas nesse jornal. Mais tarde, eu e o Hildebrando, passamos a fazer reportagens sobre personalidades literárias e chegamos a entrevistar escritores como Jorge Amado, Ligya Fagundes Telles, José Mauro de Vasconcelos. Ignácio de Loyola Brandão, em seu início de carreira e outros.
.
Desta vez, talvez em razão de minhas crônicas discorrendo sobre a pobreza nas ruas centrais da cidade, acabei demitido, também, da agência bancária – essa se tornava a segunda perseguição por causa de minha ideologia. Fiquei sabendo depois que o gerente temia ser acusado de estar apoiando um subversivo... Eu, subversivo, com apenas 16 anos...

Meu terceiro emprego era para ter sido na fábrica onde Paulo Pereira trabalhava. Mas no mesmo dia em que começara, uma empresa de arames, não muito distante de casa, me chamara, oferecendo um salário equivalente. Preferi o perto de casa ao de perto do meu amigo, que continuava a se distanciar. No primeiro emprego, no entanto, conheci uma pessoa que muito me ajudou depois: Aderbal Cavalcanti que, sabendo do meu interesse por jornalismo, pediu para que eu me apresentasse a sua irmã Eulina Cavalcanti, editora do suplemento feminino e literário News Seller – o semanário mais prestigiado da região.

Eulina morava perto da fábrica do meu novo emprego. Apresentei-me uma tarde, em sua residência e ela pediu para que eu fizesse uma sugestão de reportagem.
Certo dia, lendo um jornal da capital paulista, fiquei sabendo da estada de Vinicius de Moraes em um hotel, na avenida Ipiranga, no centro da capital paulista. Mesmo sem ter contato com o poeta, me prontifiquei a Eulina a fazer uma entrevista. Nesse dia, ela não só autorizou a reportagem, como me cedeu um fotógrafo para a missão: Clovis Cranchi Sobrinho.

Era a senha para a entrada no mundo jornalístico. Escreveu, anos mais tarde, o diretor do jornal, Fausto Polesi, ao fazer a apresentação do meu livro Villas Boas e os Índios: "José Marqueiz, o autor deste livro-reportagem, descobriu pendores para o jornalismo quando era ainda garoto de seus 16, 17 anos. Na época, trabalhava como auxiliar de escritório na cidade onde morava, Santo André. E Santo André possuía o semanário News Seller, com circulação em toda a região do Grande ABC. Eu era diretor-fundador do jornal e cuidava da redação, recebendo visitas e colaborações de diversos candidatos a jornalistas. Certa vez, recebi a colaboração – reportagem-entrevista com Vinicius de Moraes – de alguém chamado José Marqueiz. Li, gostei e publiquei. A partir daí começou a carreira jornalística do nosso herói".

Sim. Deixava a vida na fábrica e iniciava meu trajeto pelo jornalismo, sem esquecer a literatura. E hoje, quase um século depois, fico pensando se eu e o Paulo tivéssemos uma visão empresarial seríamos precursores do lançamento de jornais de bairro e de empresas, se aprimorássemos os jornais como “O Nabo” e, eu na Brastemp, o jornal sobre os bastidores dos funcionários. Certamente, seríamos empresários bem-sucedidos e gozando de uma excelente condição econômica e financeira. Feliz ou infelizmente, levamos essas iniciativas como brincadeiras da juventude. E seguimos nossas vidas, cumprindo a sina já estabelecida antes mesmo do nosso nascimento, para usar das palavras de minha mãe, analfabeta e sábia.

Estava reagindo bem ao tratamento quimioterápico intensivo, embora nos primeiros dias tenha convivido com uma dor de cabeça ininterrupta. Os enfermeiros, depois de me aplicarem injeções e me fazerem engolir várias cápsulas, decidiram por apelar à equipe da Central da Dor. Numa das manhãs – todas as manhãs são iguais no quarto de um hospital – apareceu um médico dessa central e indicou uma mistura de três remédios, sendo um injetável e dois por via oral.
.
Como por encanto, depois de quase cinco dias, minha cabeça parou de dor e pude, com mais tranquilidade, continuar com o tratamento e, ainda, dar os primeiros passos pelo corredor, tendo ao lado um acompanhante – geralmente uma visita amiga, um dos meus irmãos ou a dona Neide, contratada pela minha mulher para me fazer companhia à noite. Essa atitude ela tomou depois que, ao levantar-me para ir ao banheiro, senti tontura e cai ao chão. Não me machuquei, mas acabei por assustar o colega de quarto, que ocupava a cama ao lado, e a enfermeira que apareceu minutos depois. Era tontura, provocada por uma espécie de fraqueza e também pelos efeitos colaterais da medicação.
.
Pela manhã, como sempre fazia, a Ilca apareceu para saber (e ver) como eu estava. Mesmo se eu estivesse com péssimo aspecto, ela me incentivava e dizia que eu me encontrava melhor e havia até rejuvenescido. Seu otimismo chegava a contagiar, se eu realmente acreditasse em suas palavras. Percebia o seu cansaço – depois de oito horas de serviço em um sindicato patronal, onde trabalhava como secretária da presidência, ela se deslocava para o hospital. Eu sempre perguntava dos cachorros e dos gatos – nossos filhos. É que gostava de alimentá-los, acariciá-los. Inclusive os abandonados, que vagueavam famintos pelas ruas, à procura de comida e água.

Até hoje não consegui compreender por que as pessoas se livram dos animais como se fossem produtos descartáveis. Um dia pensei em escrever sobre os cachorros que viviam em um canil. Comecei, mas não conclui. Estava saindo muito triste, cheio de histórias tristes. Deixei o material arquivado – talvez eu volte ainda a terminar esse projeto.
.
Nessa manhã, a Ilca chegou dizendo que a Eva, minha primeira mulher, havia telefonado para saber do meu estado de saúde. A Ilca, como não podia deixar de ser, informou que minha saúde era de causar inveja e que eu estava ótimo, prestes a receber alta. Essa última afirmativa era verdadeira em parte, porque, minha alta seria de 21 dias. Teria que passar por mais quatro sessões de cinco a seis dias cada. Um longo e dolorido caminho a seguir.

Ao ficar sozinho, sem nenhuma companhia, comecei a me lembrar de quando conheci a Eva. Ela havia sido contratada para trabalhar como recepcionista no recém-lançado Diário do Grande ABC. Era uma jovem de 18 anos, cabelos negros, olhos castanhos, lábios carnudos e bastante simpática. Galanteador como sempre, elogiei a sua beleza e, ao saber que ela fumava, a presenteei com um maço de cigarros – era uma época em que não havia campanhas alertando que fumar causava mal à saúde. Fumar era um ato de elegância.

Quando encerrou o horário do expediente, me ofereci para acompanhá-la até o ponto de ônibus – naquela época, também, poucos eram os que tinham carro. Ela se fez de rogada, mas acabou aceitando, com uma ressalva: ela não iria para o ponto de ônibus, mas para a sua residência. Morava a poucos quarteirões da sede do jornal. No caminho, fiquei sabendo um pouco de sua vida. Seus pais eram separados. Ela fora criada pelos avós paternos e o seu irmão, Adão, pela mãe. O pai vivia amasiado com outra mulher e, da mãe, ela pouco tinha notícias.

Aos 18 anos, Eva alimentava um sonho comum a todas as mulheres: casar, ter uma casa só para ela, o marido e os filhos, e levar uma vida pacata. Nada mais. E quando eu lhe falei em namoro, ela foi categórica: só se fosse para casar. Eu, sabendo que não assumia mesmo nenhum compromisso mais sério, mas para garantir o namoro, fui categórico: é lógico que o meu namoro com ela era para terminar em casamento. E, realmente, dois anos após, eu me casaria com a Eva. Um casamento que iria durar pouco mais de cinco anos.
____________________________________________________________
Na próxima quarta-feira, o sexto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. Nesta quinta-feira o texto final da crônica “Epístolas Paulianas”, escrita pelo professor João Paulo de Oliveira, não deixe de acompanhar. (Edward de Souza/ Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
____________________________________________________________

terça-feira, 18 de maio de 2010


EPÍSTOLAS PAULIANAS
PARTE I

MISSIVA PÓSTUMA AO MEU BISAVÔ PATERNO,
JOSÉ PEDROSO DE OLIVEIRA
(21/09/1846-13/02/1906)


Estimado bisavô José:

O senhor não vai acreditar, mas se estivesse entre nós completaria, no ano em curso, 164 anos!... Desde o fatídico dia 13/02/1906, quando o senhor partiu para o Olimpo, deixando desolados sua esposa Leopoldina, filhos, amigos, compadres e os seus confrades da Irmandade do Santíssimo Sacramento, este maltratado e fascinante mundo que agora habito, passou por transformações vertiginosas, que seriam inimagináveis entre seus contemporâneos!..

Este seu bisneto, que se atreveu a interromper suas litanias, em louvor ao Santíssimo Sacramento, é neto do seu filho João Paulo de Oliveira!... Pois é, respeitável bisavô José, seu neto Benedito de Oliveira, que veio à luz 13 anos, após sua partida, não acrescentou Neto ao meu nome!...

O senhor nem imagina como aquelas máquinas rodantes, que certamente o assombravam, quando ia à cidade, evoluíram!... Se eu for lhe contar tudo o que aconteceu depois da sua partida, além de aturdido, o senhor ficaria com a impressão que este seu bisneto precisaria de bênçãos especiais, com óleos consagrados, ministrados pelo padre Tomás Inocêncio Lustosa!

Sabe aquele aparelho que o nosso querido imperador D. Pedro II ficou fascinado, porque permitia falar com outras pessoas em outros locais?!... O senhor nem imagina como se aperfeiçou, porque agora cabe na palma da mão e funciona sem fio, podendo ser transportado para qualquer lugar, permitindo que as pessoas se comuniquem com outras em qualquer localidade do planeta!... Também existe uma máquina cibernética que transformou radicalmente o nosso modo de vida!... Calma, meu bisavô, já disse que não preciso dos préstimos do padre Lustosa, porque o que lhe digo é realidade na contemporaneidade!!!... Outro fato, que acontece agora, e tenho certeza de que o deixará sumamente exasperado! Os homens dedicados à medicina descobriram um remédio, que permite às mulheres, que o ingerirem, com regularidade, não gerarem filhos!!!!!!!.... Bisavô, ô bisavô, perdoe-me se o fiz perder os sentidos, momentaneamente, mas é a pura verdade!... Já que o senhor teve esta reação, então é melhor nem lhe contar, que pessoas do mesmo sexo, vivem juntas, isto mesmo, de maneira carnal!... Em alguns países esta união, que aos seus olhos beatos Mariano, é uma aberração, tem o valor de um casamento, inclusive podendo adotar filhos!!!!...

Por Baco e Afrodite, que rebuliço causei entre os confrades da Irmandade do Santíssimo, que foram acudir meu bisavô, porque agora ele demorou para recuperar os sentidos!!!....

Ché, então é melhor nem lhe contar que este seu bisneto vê com naturalidade estas uniões, porque senão ele pensará que seus descendentes ficaram degenerados!!!!...Já pensou, então, se eu lhe contar sobre o ménage à trois?!...

Perdoe-me, respeitável bisavô, por ter lhe ocasionado uma síncope!!!... Acho melhor não lhe contar outros fatos que acontecem agora na Terra, porque se eu lhe dizer que o homem já foi à Lua, o senhor dirá que este seu descendente direto é um lunático!... Acho melhor parar mesmo de falar da contemporaneidade, principalmente em relação a religião, porque nosso amado Império, digo país, deixou de ser predominantemente católico e várias seitas exploram a fé alheia, com o escopo mercantilista.

Vamos falar, agora, do seu tempo de vivência!...

Como o senhor foi aceito na Irmandade do Santíssimo, se na sua certidão de nascimento não consta o nome do seu genitor?!... O senhor nem imagina como tento descobrir indícios para saber quem foi este homem, não obtendo êxito, que não teve a hombridade de dar-lhe seu nome!... Será que seus outros irmãos eram filhos dele!... Ah, sua irmã Francisca é minha tataravô materna!... Isto mesmo, meus adorados e saudosos pais são primos em 4º grau!... Está vendo?!... Sua mãe, a Sra. Joaquina Maria do Espírito Santo é minha tataravô paterna e concomitantemente mãe da minha tataravó materna!!!!!!... Credo, bisavô, até este seu bisneto, que é um reles escrevinhador outonal, fica confuso, quando pensa nisto!... O senhor me desculpe, mas sou muito especula ou então, melhor dizendo, muito inquiridor!... Então prepare-se:

O senhor era amigo ou conhecido do Dr. Flaquer, do Coronel Oliveira Lima ou da professora Hermínia Lopes Lobo?!... O senhor foi na inauguração da estrada de ferro, construída pelos fleumáticos ingleses e inaugurada em 1867 ou na solenidade de abertura do Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, em 1896?!... Teve muito falatório no enterro do padre Lustosa, em 1892?!... Como o senhor recebeu o Regime Republicano, instaurado em 15/11/1889, porque tenho a impressão que continuou assecla da Monarquia?!... É verdade que o senhor foi obrigado a participar da grande guerra, hoje chamada de Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança?!...

-------------------------------------------------------------------------------------
*João Paulo de Oliveira, 57, pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Além de Pedagogo é Mestre em Educação. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborador do blog, João Paulo escreve, mais uma vez, uma crônica neste espaço. Visite seu blog, Celulóide Secreto, em http://joaopauloinquiridor.blogspot.com Contatos com o articulista pelo e-mail joaopauloinquiridor@ig.com.br
--------------------------------------------------------------------------------------

Na quinta-feira, 20, a segunda e última parte de Epístolas Paulianas. Amanhã, o quinto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

HOJE É DIA DE FESTA!


ANIVERSÁRIO DE

EDWARD DE SOUZA!

Amigos e amigas do blog, hoje é um dia especial – o dia do aniversário do querido amigo Edward de Souza! Por isso, nossa rede de amigos e amigas cumprimenta o homem e o profissional da comunicação que, com tanto talento e sensibilidade, soube acolher, conquistar e manter tantas pessoas, de todas as partes do mundo, ligadas permanentemente nesse espaço de opinião e compartilhamento de emoções e de ideias.

Ao Edward, nosso carinho e desejo de muita paz, saúde, harmonia e prosperidade!


EDWARD DE SOUZA, POR NIVIA ANDRES

Neste dia de festa, todo meu carinho e agradecimento ao amigo Edward de Souza pois, é por causa desse blog e da curiosidade dele que aqui me encontro, no delicioso convívio diário, com milhares de leitores fiéis, há mais de um ano.

Foi aqui, neste espaço de comunicação e troca de ideias, que senti a gratificação do carinho permanente de um público seleto, de alto nível, e fiz novos amigos, me senti valorizada como profissional e querida como ser humano, por pessoas que não conheço pessoalmente, na forma física, mas que quero muito bem, pois lhes conheço a alma.

Caro Edward! Devo muito a você! Sou feliz por essa convivência fraterna e por poder compartilhar do seu talento e de sua amizade!

EDWARD DE SOUZA, POR GARCIA NETTO:

Uma boa relação não se fortifica por muito tempo decorrido, tão somente. Ela se consolida, a bem da verdade, nos momentos iniciais, quando a sensibilidade se aflora invadindo o sentir das pessoas no afinamento prazeroso dos ideais, como ocorre na sintonia bonita das cordas de um violino.

Minha convivência com o jornalista e radialista Edward de Souza é bem jovem, no entanto, a maturação necessária não exigiu alongamento de tempo para identificá-lo cheio de sonhos e projetos na arte de escrever, - jornalista, escritor - na fidelidade ao princípio família, na fiel dedicação aos inúmeros amigos que cultiva de tantos anos. O apego, carinho, saudade de amigos da região do ABC, o retorno, na aposentadoria, à terra mãe, indicam-lhe a qualidade da beleza d’Alma.

Conviver com ele em seu blog, com tanta justiça, zelo, equilíbrio a guiar firmes os passos que damos, tem sido enorme prazer e realização.

Que as bênçãos do Divino sigam iluminando sua jornada em muitos anos mais a viver.

EDWARD DE SOUZA, POR J. PAULO DE OLIVEIRA


Ainda continuo maravilhado com esta fantástica tecnologia, que transformou sobremaneira nosso modo de vida e contatos sociais!

Se no tempo em que eu trabalhava com minha saudosa amiga Irene Soffner alguém me dissesse que conheceria, por enquanto virtualmente, o pai da lenda urbana do Bebê-Diabo, não acreditaria...

O que dizer do chefe Edward? Afinal, chefe é chefe!!!! (Quem sabe depois destas breves linhas o chefe me concede um aumento?!...)

Folguedos à parte, tenho a gratíssima satisfação de interagir, embarcando neste vagão do Expresso Oriente, quase que diariamente, com o chefe Edward e demais confrades, desde o dia 09/06/2009, quando tive a prerrogativa de ver uma homenagem que fiz ao meu saudoso e dileto amigo Wanderley dos Santos ser publicada aqui, com a intercessão do valoroso jornalista Ademir Medici!

Considero o chefe como se fosse um irmão um pouco mais velho!! Em algumas ocasiões acho que até o amolo com minhas confidências, ocasião que ele sempre está disponível e racionalmente tece sensatas ponderações, que me faz ter outros viéses para o assunto que me afligia...

Ele é um jornalista supimpa, que nos deixa emocionados, inquietos, exasperados, enternecidos, alegres, esperançosos, quando sua brilhante pena entra em ação!!!!...

Meu telefone portátil vibrou!!!!... Preciso dizer quem era?!... Claro que era a Dona Miquelina (huhum)!!!... Ela disse-me que também adora o chefe Edward e nunca esquece dele, quando vai à Cripta da Catederal da Sé, solicitar a intercessão do poderoso Cacique Tibiriçá e da Nossa Senhora de Guadalupe!!!... A copeira Hermenegilda também o adora e não vê a hora de vê-lo provando suas famosas rosquinhas, que deixam o bombeiro Godofredo com água na boca...Ultimamente a Dona Miquelina está entretida com uma novena para que o chefe consiga seguir a risca hábitos saudáveis para ter uma saúde vigorosa!!!!...

Ela também disse-me que o chefe nasceu no ano que:

- George Orwel publicou o inquietante livro “1984”;
- Monteiro Lobato deixou de existir;
- O Estado de Israel tornou-se um fato;
- A ONU trouxe à luz a Declaração Universal dos Direitos Humanos;
- Minha amada imortal, Gene Tierney, brilhava na fascinante Arte das Imagens em Movimento, na película “Impulso Irresistível”.

Chefe Edward, peço-lhe, de joelhos, clemência!!!!!... Não me mande para o Calabouço Real por conta dos mexericos da Dona Miquelina!!!... Não posso “pagar o pato”, porque a linguaruda lançou pistas sobre o ano do seu glorioso nascimento. Se Vossa Majestade perdoar este reles Bobo da Corte, prometo-lhe apresentar camponesas, que vieram da Capadócia, que são de fechar o comércio do Reino!!!!...

VIVA O REI DOS REIS EDWARD I!!!!!!!!!!... V I V A!!!!!!!!...

EDWARDETES DO BLOG

Nós somos os Edwardetes do blog,
Levamos a vida a Edwardar
De noite, embalamos teu sono
De manhã, nós vamos te acordar

Nós somos os Edwardetes do blog,
Nossas canções cruzando o espaço azul
Vão reunindo, num grande abraço,
Corações de norte a sul.

Canto, pelos espaços afora,
Vou semeando cantigas
Dando alegria a quem chora,
Bum, bum, bum...

Canto, pois sei que a minha canção
Vai dissipar a tristeza
Que mora no teu coração.

Canto, para te ver mais contente
Pois a ventura dos outros
É a alegria da gente
Bum, bum, bum...

Canto, e sou feliz só assim,
Agora, peço que cantes,
Um pouquinho para mim.
Bum, bum, bum...

EDWARD DE SOUZA, POR STRELLITZIAH K. DENT

Caros e caras, queridos e queridas!

Estou felicíssima hoje, e a causa é elementar – nosso amigo Edward aniversaria e enche de alegria nossos corações. Aqui, no Reino das Águas Claras, onde me encontro, navegando numa nuvem de algodão doce, cercada de anjinhos, pedi emprestado à Fada Sininho um pouquinho do seu pó de pirlimpimpim, matéria encantada que só a poucos e raros seres é dado conhecer e espargir. O Edward é um deles. Escreve com o coração na ponta dos dedos e nos embriaga com o seu texto sensível e perfeito, sem fugir da racionalidade quando o assunto merece; sem temor da crítica, sem a busca do aplauso fácil... Ele conhece, muito mais do que eu, os segredos do encantamento e da magia, que produzem VIDA, em abundância! Por isso, neste dia especial, recorro a todas as forças da natureza, para que o cubram com as essências mais raras, os encantos mais sutis e invoco a bênção divina do Senhor, para que o proteja e o conserve sempre cheio de saúde e de ideias brilhantes!

EDWARD DE SOUZA, POR J. MORGADO


Hoje, dia 17 de maio de 2010. Desde 2007, através desta máquina infernal venho cumprimentando-o pelo seu natalício.

2007, 2008, 2009, 2010. Afinal, você ficou mais velho ou mais experiente? Vou aguardar a sua reposta.

Trabalhamos juntos no mesmo jornal, durante muitos anos. Cada um de nós em uma editoria. Víamo-nos de quando em quando, fisicamente. Mas, foi on-line que selamos uma amizade firme, duradoura, fiel e sincera.

Dizem que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Estranho o chamado destino!

Em outubro de 2009, saí de minha cidade com o intuito de abraçá-lo. Uma viagem longa para um cara bem mais velho do que você.

Foi um encontro inesquecível! Lágrimas rolaram! A emoção gritou mais alto.

Em 2007, cometi uma gafe. Cumprimentei-o por estar fazendo um ano a mais. Brinquei dizendo que você não precisaria pagar mais a passagem nos coletivos e que só pagaria meia-entrada no cinema, entre outras mordomias. Você não falou nada. No ano seguinte (2008) você finalmente atingiu a “melhor idade”. Você notou a diferença?

Não há diferenças entre um e outro ano vivido. São os muitos anos decorridos que fazem a modificação do corpo carnal. Por dentro (alma) nos sentimos ainda rapazes, com muita energia.

E é isso que desejo a você, nesta data. Muita energia para continuar a nos brindar com seus escritos e sua preciosa amizade.

Parabéns, meu amigo!

Mil abraços!

Paz. Muita Paz.

sábado, 15 de maio de 2010



ENTENDENDO AS RAZÕES DE DUNGA



Caros e caras, queridos e queridas, voltei! Acontece que nesta semana ocorreu um fato relevante, que requer minha intervenção. O senhor Carlos Caetano Bledom Verri, popularmente conhecido pelo codinome Dunga, convocou os 23 jogadores que irão defender a Seleção Brasileira, na Copa do Mundo da África do Sul.

A lista de convocados deixou a pátria de chuteiras atônita. Não deveria. Eu, pelo menos, não fiquei. E lhes digo porquê. Vou lhes contar uma pequena história, para que vocês entendam minha posição. Sabem que tenho ligações profundas com o mundo transcendente e, por isso, fui ter com Branca de Neve, no mundo encantado onde ela ainda reside, avec seu príncipe e os seis anões restantes.

Esclareço que não viajei para a terra da fantasia porque, na contemporaneidade, há meios eletrônicos sensacionais, que permitem uma interlocução competente, em tempo real e sem ruídos. Acontece que tenho o MSN da White Snow e dele me socorri para investigar os motivos que levaram o Dunga a fazer suas escolhas.

A gentil princesa atendeu-me prontamente e também demonstrou seu desapontamento com o menorzinho do clã. Para que eu entendesse melhor, contou-me como Dunga veio parar no Brasil, virou jogador de futebol e, mais recentemente, técnico da Seleção Brasileira.

Vocês conhecem muito bem os Sete Anões: Mestre, Feliz, Zangado, Atchim, Soneca, Dengoso e... Dunga. Pois eles trabalhavam numa mina de diamantes, extraindo o precioso mineral. Era um trabalho pesado, insalubre, em que pese os resultados auspiciosos, tal a valia do produto. Porém, Branca de Neve não aprovava que o caçula acompanhasse seus irmãos na faina diária. Ele era muito jovem, ainda não articulava direito as palavras, aliás, não se entendia nada do que dizia! Então, a princesa e o príncipe, responsáveis legais pelo menino, resolveram enviá-lo para um reino distante, chamado Brasil, para que pudesse estudar e transformar-se num homem de valor.

Nem preciso dizer que os irmãos foram terminantemente contrários à decisão, mas não ousaram desobedecer as determinações do real casal. Assim, por um sortilégio benigno, Dunga veio parar na meridional cidade de Ijuí, sob a proteção de uma acolhedora família, que o criou e lhe deu a educação desejada por seus pais adotivos primevos.

Entretanto, Dunga jamais esqueceu a sua origem, pois, na tenra infância, jogava futebol com pedras de diamante lapidadas tal qual uma bola... Com a intervenção do craque Claudiomiro (aquele que, ao jogar em Belém do Pará, sentiu-se feliz em visitar a terra em que Jesus nasceu...) Dunga foi parar no Internacional de Porto Alegre. Fez carreira, foi para a Seleção, tornou-se Campeão do Mundo e, agora, é o manda-chuva do escrete canarinho.

Pois bem, chegamos ao ponto crucial da questão. E desvendamos o mistério que paira no ar. Por que Dunga convocou alguns jogadores que consideramos medíocres e deixou de fora alguns novos e geniais talentos, a título da fadada coerência que ele tanto ressalta? Pois saibam, caros e caras, queridos e queridas que, na verdade, quem convoca e desconvoca, quem escala e desescala não é o Dunga e, sim, o Zangado!

A princesa real confidenciou-me que o Dunga e seus irmãos estão permanentemente ligados. Comunicam-se pelo MSN e pelo Skype, diariamente. Embora Dunga deseje seguir os razoáveis conselhos do Mestre, sempre teve sintonia maior com o Zangado, de quem podemos notar, claramente, índicios de belicosidade em suas intervenções públicas, especialmente nos colóquios algo ácidos com a imprensa. Entenderam agora, aquela testa franzida, a cara sisuda, de poucos amigos e de muitos inimigos?

Desta vez, Mestre e Feliz foram desconsiderados, pois queriam que Dunga convocasse Neymar e Paulo Henrique Ganso, dois jovens geniais, donos de futebol primoroso e alegre. Zangado só admitiu Robinho, porque três do mesmo time iria virar panelinha, os meninos poderiam esquecer que estavam em campo e querer comer um peixe durante a partida...sabe-se lá o que passa na cabeça desses moleques.. Ademais, o Ronaldinho Gaúcho é muito festeiro, poderia marcar encontro, à noite, com algumas sul-africanas bonitas e sumir da concentração... O Victor é belo demais e seria uma temeridade ter que aguentar um bando de tietes gritando por ele, dia e noite, sem parar!

Inconsolável está o Dengoso, que queria ver no time principal o Ronaldo Fenômeno e o Adriano! Dunga, disse-me Branca de Neve, respondeu, gentilmente, ao irmão que não haveria tempo hábil para plantar uma árvore no meio do campo, para que o Ronaldo descansasse após uma corrida rumo à linha de fundo e muito menos, infraestrutura para construir uma favela carioca nos locais dos jogos, aos moldes da que o craque do Flamengo aprecia para reconstituir as energias e inspirar-se. Haveria, inclusive, um impedimento de natureza alimentar, já que a tonelagem de grãos teria de ser aumentada para fornecer ração diária substanciosa aos dois jogadores e a carga do avião da TAM já atingiu o limite máximo. Ah! E também fracassaram as tentativas de abrir uma filial do Mc Donald’s na concentração da Seleção.

Agradeci a gentileza de Branca de Neve que ainda segredou-me pairar-lhe no peito uma dúvida atroz. Ela e o príncipe desconfiam que o Dunga comeu um ínfimo pedaço da maçã enfeitiçada pela Bruxa Malvada (de triste lembrança) e as reações, tardias, estão se manifestando agora. É de se pensar!

Enfim, caros e caras, queridos e queridas, recorri ao imponderável, ao que paira acima da realidade, para descobrir alguns dos mistérios insondáveis que habitam a mente do técnico Dunga. Espero ter desvendado a questão sem ter que recorrer à magia e outros quetais cósmicos.

Certo é, aqui entre nós, que é muito difícil abrir a cabeça para o novo, para a revelação da genialidade. Isso é coisa para quem tem ousadia e destemor. Em nome da coerência, da mesmice e da falta de criatividade, muitos figurões foram para o brejo.

Me admira, porém, constatar que um homem que, na infância, jogava futebol com bolas de brilhante, não consiga, na maturidade, perceber as gemas preciosas de que prescindiu, ao ignorar novos talentos, perdendo oportunidade única de revelá-los para o mundo e colher o título inédito do hexa. Entristecida, concluo que Dunga preferiu abandonar a magia que cercava suas origens, em nome da burocracia que rege suas decisões atuais, sem brilho, sem poesia... Ainda não compreendo porque conserva o apelido. Ou melhor, entendo, sim! Deve ser porque em sonhos, ainda joga com as pedrinhas de diamante...

De qualquer maneira, a decisão está tomada, a menos que o imponderável se manifeste... Como a maioria dos brasileiros que amam a sua Seleção, já estou preparando minha camiseta, bandeira e demais apetrechos verde-amarelos e vou torcer até o fim pela Canarinho, apesar de Dunga, ou melhor, de Zangado!

Aconselho que vocês façam o mesmo porque uma torcida amorosa é o 12° jogador em campo e o inconsciente coletivo propalado por Jung (um dos meus psicanalistas preferidos!) de 189.980.000 (20.000 são urubus agourentos) de brasileiros vai funcionar, mesmo que a distância seja transatlântica e os boleiros, meio murchos. Carinho, amor e paixão, multiplicados por milhões, fazem toda a diferença!

--------------------------------------------------------------------------------------
*Strellitziah K. Dent é consultora para assuntos sentimentais, vidente, astróloga, guru & assemelhados. Absolutamente do bem.
--------------------------------------------------------------------------------------

sexta-feira, 14 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L

O DIA EM QUE MORRI (FINAL)


Dedicado à médica Liliana Diniz

Aviso: não é ficção. Tudo que será contado foi real!


A ALEGRIA DE RENASCER

No hospital você não tem escolha. Ou mantém a calma e luta por sua vida, colaborando ao máximo com os médicos, enfermeiras e terapeutas, ou se entrega ao desespero, enfraquece e torna tudo mais complicado. Minha opção, de cara, foi a primeira, até nas atitudes mais triviais, como fazer a barba todas as manhãs para não ficar com aquela deprimente “cara de hospital”. Comia bem, “para estar forte na hora H”; fazia com tenacidade e boa vontade os exaustivos exercícios respiratórios para fortalecimento do diafragma; dava bronca em quem vinha me tratar como coitadinho e mantinha o moral tão elevado quanto possível.

Do sofrimento físico no pós-operatório é o mais difícil de falar, pois não há como ser descrito, nem comporta divagações. Para quem, durante uma semana, se preparou para morrer, como eu fiz, porque sabia dos altos riscos, inclusive no cateterismo, antes da grande cirurgia, isso tudo representou uma grande mutação.

De certa forma, você sai do plano terrestre e ingressa num estágio que dispensa todas as frivolidades do cotidiano. Nessa hora o que menos importa é quanto dinheiro tem no banco, se não sabe se estará aqui na semana seguinte para usá-lo. O papo furado, então, se torna insuportável. Não há mais tempo, muito menos saco, para isso. Esse estágio é uma experiência rara, senão única, em sua vida. Pena (ou seria melhor?) que passa, em pouco tempo, depois de tudo, você volta ao normal, reassume as pequenas vaidades, seus defeitos humanos, as tolices que todos falamos, as preocupações mundanas. A diferença é que um dia viu o outro lado, a maravilha de estar acima disso tudo. Você viveu um rito de passagem, doloroso, sem dúvida, mas ainda que a tal preço, criador de um novo homem.

Mas percebe também que se os teus códigos morais e de índole são outros, os resultados podem ser opostos: frieza total, indiferença com qualquer valor, falta de compromisso de qualquer espécie. É a cabeça do bandido, que vive no risco e não sabe se estará vivo no dia seguinte. Ele se acostuma com a idéia da morte, num processo inconsciente para não enlouquecer. Ora, se a própria vida dele não vale nada, menos ainda valerá a dos outros.

A verdadeira dádiva é continuar vivo. Acordar da anestesia, na UTI, é um momento mágico, um reencontro com a luz. Esquece a dor, celebra a vida. Ali ela recomeça. “Estou vivo!” – festejei. A enfermeira Marli estava ao meu lado, como um anjo da guarda, real e presente. O paciente acorda amarrado, para não arrancar, instintivamente, o tubo desconfortável que entra pela boca e vai até o estômago. O curioso é que no entorno eu não via a UTI, nem minha própria cama. Ainda sob leve efeito anestésico, parecia que estava dentro de um túnel completamente cor de rosa. E não tinha a menor noção de tempo, se era noite ou dia.

Pedi que Marli soltasse meus braços, ela confiou e fez isso, então coloquei sua mão sobre meu peito para ajudar a proteger o tórax da dor da tosse, e passei a seguir à risca todas as instruções que o Dr. João Galantier me passara, na véspera da cirurgia. Uma atitude genial dele, que me deu segurança, porque agora sabia tudo que iria acontecer e como agir. “Quando acordar procure tossir com o máximo de força e não se preocupe que não vai arrebentar nada”, tinha instruído. E assim agi. Quem entra numa cirurgia em emergência total não tem essa mesma chance de ser preparado, e aí o medo se instala.

Não recebi transfusão de sangue, ainda bem, um grande fator de segurança. Mas o preço a pagar foi uma anemia profunda, a tal ponto que nas refeições não tinha forças para levar o garfo do prato até a boca. Nos dois ou três primeiros dias comi como uma criança, recebendo comida na boca.

A menos de dois meses depois, já em casa, acreditem, eu mesmo me dei alta e voltei a trabalhar, editando meu jornal “Dance”. Alguns dias depois, embarquei com a namorada para a Europa, para comemorar a volta à vida e como prêmio a ela pelos cuidados que me dedicou o tempo todo. Ela nunca tinha ido e sonhava conhecer Paris.

No jornal, retomando o contato com meus leitores queridos, escrevi: “Não há mais tempo a perder. Gradualmente a gente vai retomando a vida normal. Não vejo a hora de poder dançar, mas ela chegará. A ginástica também. Por enquanto, vou curtindo gostosas caminhadas diárias. Nesta segunda vida, a gente vê cada minuto como um bem precioso. Afinal, nunca se sabe quando o destino vai nos aprontar outra. Muito menos quantas chances ele ainda nos reserva, mesmo quando se merece todas”.
-------------------------------------------------------------------------------------
*MILTON SALDANHA É JORNALISTA E ESCRITOR.
-------------------------------------------------------------------------------------
NR: A CRÔNICA DO JORNALISTA J. MORGADO, QUE SERIA POSTADA HOJE, SERÁ PUBLICADA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, DIA 21.
-------------------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 13 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L
O DIA EM QUE MORRI (III)


Dedicado à médica Liliana Diniz

Aviso: não é ficção. Tudo que será contado foi real!
Capela do Hospital São Camilo

O DIA EM QUE MORRI

De repente, você olha para as paredes do quarto de um hospital, às vésperas de uma delicada cirurgia do coração, e lhe vem na cabeça uma constatação da qual é impossível fugir: aquela pode ser sua última semana de vida. Pânico? Sinceramente, tirando aquele desconforto do primeiro dia na UTI, não senti nenhum. Apenas resignação e uma certa tristeza ao pensar nas tantas coisas que ainda poderia fazer, principalmente aqueles planos há tanto tempo acalentados.

Foi a mais dura experiência da minha vida. E olha que fui preso político num centro de torturas, o medonho DOI-CODI, cujo prédio ainda existe, ali na rua Tutóia, em São Paulo, hoje ocupado por uma delegacia convencional.

Nunca fumei. Praticava exercícios todos os dias, durante uma hora, na Academia Corpo e Ação, a duas quadras da minha casa. A alimentação era frugal, com ênfase nas saladas, frutas e sucos naturais. Nadava, andava de bicicleta, caminhava. Dançava horas, com muito pique. E, na época, com 55 anos (hoje tenho 64), orgulhoso da saúde e do corpo bem definido, não sabia o que era médico, muito menos hospital. Pois, o espartano aqui descobriu na marra que os desígnios da vida nem sempre são aqueles que traçamos e nos propomos a cumprir com disciplina e determinação. Contra qualquer previsão, uma microscópica gota de colesterol resolve obstruir dutos absurdamente estreitos, as vias coronárias, e isso é suficiente para interromper bruscamente sua vida, ou alterá-la com profundo impacto e de forma irreversível.

O infarto (ou enfarto, as duas formas são certas), foi pesado, como já contei no primeiro capítulo. A duas coronárias, esquerda e direita, estavam completamente obstruídas. Imagine isso como dois canos entupidos, onde não passa uma gota de nada. Um dos vários livros que tenho sobre o assunto, para leigos, explica que “as artérias coronárias, os primeiros ramos da aorta, carregam sangue oxigenado para o músculo cardíaco, assegurando que o coração receba sua “nutrição” antes de qualquer outro órgão. Quando as artérias coronárias estão comprometidas, o coração é afetado, ocasionando um ataque cardíaco”.

Se eu fosse fumante, sedentário e obeso, com certeza não teria resistido. Artérias secundárias, estimuladas pela prática do esporte (que os médicos chamam de coração de atleta), abriram caminho ao sangue e, literalmente, salvaram minha vida. Sem entupimento por nicotina, o pulmão teve vaga para o oxigênio, apesar da terrível sensação de asfixia. Acrescento com absoluta certeza que não fumar também salvou minha vida. Isso tem amparo em teses médicas. Não é sem razão que mais de 300 mil pessoas por ano morrem de infarto no Brasil, um número assustador. Se você é fumante, comece a pensar nisso já!

O dia em que morri foi 24 de novembro do ano 2000. Durante a cirurgia que começou de manhã cedo e durou seis horas e meia. Se a morte ocorre com a paralisação do coração, então morri, por cerca de um minuto e alguns segundos, quando meu coração e o corpo todo foi congelado e literalmente paralisado, para fixação de duas pontes de safena e uma mamária. Eu mergulhado no mais profundo sono da potente anestesia, um apagão total e absoluto, onde o cérebro sequer consegue produzir sonhos.

Sem acreditar em espírito e vida após a morte, sem a mais remota convicção religiosa, sem crer na existência de Deus (mas respeitando e defendendo o direito à fé), permito-me hoje dizer que suponho que a morte seja exatamente isso que senti, ou seja, nada.

Se me perguntarem se gostaria que fosse diferente, é claro que concordarei. Torço muito para estar enganado. O que não me permito é a tola ilusão e perda de tempo durante a vida. Não vou prestar tributos a divindades que não povoam meus sentimentos mais autênticos. Não consigo acreditar, mas torço para que realmente exista espírito e reencarnação. Oxalá, vocês que investem suas energias neste campo, estejam certos. Iria adorar voltar ao mundo, que é belíssimo; ter outra vida; ser novamente feliz, como hoje sou. E que o apagão seja mero e gostoso descanso, não a eternidade.

--------------------------------------------------------------------------------

*Milton Saldanha é jornalista e escritor.

-------------------------------------------------------------------------------

Não percam, amanhã, o quarto e último capítulo de O DIA EM QUE MORRI - A alegria de renascer. E na próxima sexta-feira, 21, o artigo quinzenal de J. Morgado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"E o amanhã?
Ah, o amanhã. Não estou mais preocupado com o amanhã.
Quero viver o hoje.
E usufruir ao máximo de todos os hojes que surgirem em minha vida".



A primeira etapa do tratamento quimioterápico teve início na semana dedicada aos três dias de Carnaval. Começou na sexta-feira à noite e só terminou na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas, período em que a população menos favorecida economicamente, procura se divertir, não mais com drogas altamente tóxicas, mas com bebidas alcoólicas baratas. Muitos extrapolam e passam a maior parte desses dias retidos em algum cubículo de algum distrito policial, enquanto outros perdem a vida em violentos acidentes automobilísticos. Ou, ainda, com brigas com tiros e outras agressões fatais. Nunca, nunca tem um saldo positivo.
.
Mesmo nos tempos mais antigos, principalmente nas primeiras décadas da segunda metade do século XX, quando era liberado o lança-perfume, um produto considerado de “bom-tom”, não havia tanta barbárie. Na época desse vasilhame contendo uma espécie de éter perfumado, a violência ainda não havia se instaurado como normal nas grandes cidades. Era ainda um tempo de convivência pacífica e a arma mais perigosa que poderia ser utilizada era uma faca de cozinha ou uma navalha. Era um tempo de delicadeza, com predominância da educação, do respeito entre as pessoas.
.
Por volta do final da década de 60 do século passado, o então presidente Jânio Quadros baixou decreto proibindo o uso desse produto em todo o território nacional e, assim, o Carnaval perdia, de acordo com os seus adeptos, o seu glamour. Lembro-me desse passado recente para fazer uma comparação do que existe hoje. Aqui, nesse hospital, nem as pessoas sãs, que vêm visitar os internados, falam sobre o que antes também era chamado de tríduo momístico, uma vez que é o Rei Momo quem governa os três dias, ao menos simbolicamente.
.
Certamente, por ser um local de doentes, as pessoas procuram evitar tocar nesse assunto e provocar um sentimento maior de desolação. Acredito, no entanto, que é a perda do entusiasmo mesmo pela festa que leva a esse silêncio, a esse esquecimento inclusive do feriado, que ocorre na terça-feira – amanhã, por sinal -, quando faz o segundo dia em que me encontro aqui deitado nessa cama hospitalar, recebendo soro e uma série de medicamentos por meio do cateter implantado ao lado direito do meu peito. Melhor assim, que não machuca as veias dos braços e não dificulta a locomoção. Graças ao avanço da Medicina...
.
Recebi a visita do Paulo Pereira. Não estou bem nesse dia. Sinto-me bastante debilitado e vejo que ele percebe o meu desalento. É muita fraqueza, grande o desânimo. Não tenho forças sequer para andar pelo corredor do hospital. Revelo a ele que receio ser encaminhado para o setor de Unidade de Terapia Intensiva e digo: se eu for para aquele lugar, pode acreditar, não voltarei. Paulo é quatro anos mais velho que eu. Eu o conheci ainda adolescente, quando tinha 14 anos, no Bairro Paraíso, em Santo André, local onde nasci, de onde sai com dois meses de idade com destino a Bálsamo, pequena cidade do interior paulista, e para onde voltei com meus pais. Fiquei sabendo depois que meus irmãos e eu precisávamos trabalhar e ajudar na manutenção da casa e no interior não havia essa possibilidade.
Paulo foi quem me encaminhou para a literatura, me fez ler os grandes escritores e poetas brasileiros, russos, franceses, ingleses e alemães. Dentre os brasileiros, destacava-se Jorge Amado e, entre os estrangeiros, Gustave Flaubert, Honoré de Balsac, Hermann Hesse, Dostoiévski e tantos outros.

.
Nesse bairro, fiz, junto com o Paulo, o primeiro jornal que recebeu o nome de “Nabo”. Não tinha praticamente noticiário e era basicamente um resumo dos boatos ocorridos na vila entre os nossos amigos e conhecidos. Esse jornal não teve vida longa. Mas nossa amizade perdurou e já está quase completando meio século.
Paulo, anos atrás, também foi vítima do câncer, uma fase difícil de sua vida. Fez a cirurgia em um hospital mantido pelo governo estadual e saiu-se bem após o tratamento, que incluiu quimioterapia. Passados mais de cinco anos, julga-se um homem livre da doença, mas ficou um pouco apreensivo ao saber que tumor que havia sido extirpado de minha garganta há três anos, retornara, desta vez atrás do ouvido esquerdo.
.
Separado da mulher, com quem viveu quase 40 anos e teve três filhos, Paulo pode ser considerado um homem realizado. È poeta, mas um poeta sem ilusão com a vida, que faz poemas sem lirismo nem emoção. Um João Cabral de Mello Netto inédito, que traz seus poemas escritos na alma, em seu interior. Apesar de se considerar um homem com saúde, perdeu a fé em Deus, no ser onipotente e onipresente. Mesmo assim, não sai sem uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida, guardada em sua carteira, junto aos documentos. Paulo, eu percebo pelo seu olhar, sabe que não estou bem. Sai, com uma despedida lacônica. Sei que há lágrimas em seus olhos.
.
Acostumado com a tranquilidade de Bálsamo, de início me espantei com a grandeza e o movimento de Santo André que, ainda no início dos anos 60 do século passado, se constituía numa província, se comparada com a metrópole destes primeiros anos do século XXI. Para arcar com as despesas com a mensalidade da escola - me matriculei no terceiro ano do curso básico da então Escola Técnica de Contabilidade Senador Fláquer - e gastos pessoais, consegui emprego como entregador em um escritório responsável pela distribuição de exemplares do Clube do Livro
.
Para quem não se lembra, o Clube do Livro na época era dirigido por conhecidos intelectuais como Mario Graciotti e Afonso Schimdt. Na abertura do livro, sempre trazia alguns artigos de seu estatuto e um desses esclarecia: Mensalmente, a partir de julho de 1943, o Clube do Livro edita um livro de notório reconhecimento, a exemplo deste (referia-se ao exemplar do mês) escolhido pelo seu Conselho de Seleção, e o envio ao seu sócio que, mediante o pagamento de cinco cruzeiros, se torna proprietário do mesmo livro.
Esse clube tornou-se bastante popular por editar obras de escritores consagrados, brasileiros e estrangeiros. Entre esses, Charles Dickens, Walter Scott, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, Gustavo Flaubert, Guy de Maupassant, Honoré de Balsac, José de Alencar, Machado de Assis e tantos outros. Eu, como funcionário desse escritório, tinha direito a um exemplar – um acontecimento que incentivou ainda mais o meu gosto pela leitura, meu interesse pela literatura mundial.
.
Nesse meu primeiro emprego fiquei apenas alguns meses, apesar de gostar por causa dos livros e pelo conhecimento das ruas da cidade. O motivo foi um dos proprietários, chamado de Toninho – jamais soube o seu nome completo - que aporrinhava minha vida. Assim, fui parar no escritório de contabilidade do Elpídio Dalla, uma pessoa afável, bondosa e compreensiva. Para esse escritório, buscava e entregava os livros e a documentação fiscal do comércio e das pequenas empresas clientes.

Dalla não se importou quando o avisei de minha saída, ao completar quatorze anos de idade, para ingressar numa companhia fabricante de eletrodomésticos – geladeiras, principalmente, em São Bernardo do Campo, com salário mais alto e oportunidades para aprender e progredir: a Brastemp. Fui levado a essa empresa pela minha prima Nadir, filha de meus tios-padrinhos Antonio e Carmem Padeiro, esta, irmã de meu pai. Nadir trabalhava como secretária de um dos diretores de uma fábrica ao lado e conhecia o pessoal da Brastemp – uma das razões pela qual comecei a trabalhar com registro em carteira logo após completar quatorze anos. Mais duas: possuía o curso de datilografia e já estava cursando o segundo grau – mérito de poucos jovens naquele início da década de sessenta do século passado.

Também foi a Nadir quem me orientou a fazer a matrícula na Escola Técnica de Contabilidade Senador Fláquer, conhecida na época como a Escola do Mattei, por causa do sobrenome do fundador-proprietário do estabelecimento, professor Valdemar Mattei. Muitos anos mais tarde, escreveria uma pequena biografia desse pioneiro do ensino em Santo André, e que seria publicada no ano em que a escola completou setenta anos de fundação e aproveitava para comemorar a sua transformação em centro universitário, com vários cursos de nível superior, a maioria destinada a classe média.

Permaneci na Brastemp pouco mais de dois anos, quando os setores administrativos e financeiros tinham sido transferidos de São Bernardo para São Paulo. E por motivos já explicados: a edição de um jornal interno com críticas veladas ao movimento militar de 1964, que havia derrubado o governo democrático de João Goulart. Da Brastemp fui para a agência do Banco Auxiliar de São Paulo, em Santo André, e regredi: voltei a trabalhar como contínuo, utilizando uma bicicleta para a entrega de avisos de cobrança e outros documentos bancários.

Fiquei pouco tempo, também: desta vez, porque escrevia crônicas no hoje extinto jornal Folha do Povo, falando da miséria das famílias vivendo estiradas nas ruas e dormindo sob viadutos em Santo André. De imediato, Paulo Pereira me chamou para trabalhar na empresa onde ele já estava, em São Bernardo. Aceitei, por um só dia. No outro, já me transferia para uma indústria de arames em Santo André. Este seria o meu último emprego em empresas que não fossem jornalísticas. Aproveitei esse meu período para cumprir com o serviço militar obrigatório e concluir o curso de contabilidade, ainda na Escola do Mattei. Ainda trabalhava nessa fábrica quando entrevistei Vinicius de Moraes, o que resultou na minha contratação como repórter pelo jornalista Fausto Polesi, diretor de redação do então News Seller, que estava prestes a se transformar no Diário do Grande ABC.
___________________________________________
NOTA: A charge que ilustra boa parte deste capítulo de hoje foi um trabalho do grande amigo Juarez, um dos maiores chargistas do Brasil. Nossos agradecimentos a ele, que é radicado na Região do ABC Paulista.
___________________________________________
Na próxima quarta-feira, o quinto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. Nesta quinta-feira continua a série do jornalista Milton Saldanha, com o penúltimo capítulo do emocionante relato “O Dia Em Que Morri”. Não deixem de acompanhar. (Edward de Souza / Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
_______________________________________________________________________