segunda-feira, 5 de abril de 2010

CANTIGA DE NINAR PARA
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ISABELLA...
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...e para todas as crianças vítimas de violência, mortas, feridas e traumatizadas pela brutalidade de seus pais, parentes ou até mesmo desconhecidos, que concorreram para vitimá-las.

Há pouco mais de dois anos, a morte da menina Isabella Nardoni, de cinco anos, chocou o país e teve cobertura maciça da Imprensa. Não há quem não conheça a triste história da menininha que foi jogada do sexto andar do edifício onde moravam o pai, a madrasta e os dois filhos do casal. Desde o início das investigações policiais, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram apontados com autores do crime e a farta prova processual recolhida acabou por condená-los, no dia 26 de março último. Após cinco dias de reunião do tribunal do júri, o conselho de sentença condenou Alexandre Nardoni a 31 anos, um mês e 10 dias e Ana Carolina Jatobá, a 26 anos e oito meses de reclusão, em regime fechado, por homicídio doloso, triplamente qualificado.

A ampla repercussão que o caso recebeu nos meios de comunicação, com a exposição sistemática de todos os envolvidos tornou esse crime exemplar – e o desfecho do processo um libelo contra a violência diária a que são submetidas as crianças brasileiras e, certamente, a infância do mundo inteiro. Só que a maioria dos crimes não é noticiada pela Imprensa nem chega ao conhecimento do grande público. Como tantos outros delitos, tornou-se banal, cotidiana, corriqueira. Isso é inaceitável! No Brasil, as estatísticas sobre violência contra crianças são superficiais e os números não expressam a realidade das ocorrências, por isso sua divulgação é relevante por oportunizar a discussão do tema pela sociedade, através da mídia e, de outra parte, sensibilizar as instâncias governamentais a levantarem dados, criando políticas públicas consistentes de proteção à infância ultrajada.

Ao desejar escrever sobre violência contra crianças fui pesquisar a respeito e encontrei um site excelente, e recomendo o acesso e a leitura atenciosa: www.observatoriodainfancia.com.br, mantido pelo médico pediatra Dr. Lauro Monteiro. Esse profissional organiza os temas de maneira didática, sob a forma de perguntas e respostas.

Chamou-me a atenção o tópico Por que os pais maltratam os filhos? A resposta é esclarecedora e merece ser destacada. Diz o Dr. Lauro que, “ao longo dos séculos, e até há bem poucos anos, as crianças eram consideradas seres de menor importância.” A sociedade aceitava normalmente o abandono, a negligência, o sacrifício e a violência contra crianças, até mesmo o filicídio, declarado ou velado, que causava absurdas taxas de mortalidade infantil, na França do século XVIII, de mais de 25% das crianças nascidas vivas. Atualmente, em muitos países desenvolvidos, para cada mil crianças nascidas vivas, morrem menos de dez, antes de um ano de vida. A partir do final do século XIX a criança, até então considerada estorvo inútil, porque nada produzia, passou a ser valorizada, sob a ótica de que deveria sobreviver para ser tornar adulto produtivo. Ou seja, apesar de ainda não respeitada na sua individualidade, a criança começou a ser de alguma forma protegida há pouco mais de cem anos. Somente no início do século XX, com Freud, a criança passou a ser entendida no seu desenvolvimento psicológico. O castigo físico como método pedagógico, pregado até por filósofos como Santo Agostinho, continua até nossos dias. O “santo” justificava todas as ameaças e os castigos a partir da máxima: "Como retificamos a árvore nova com uma estaca que opõe sua força à força contrária da planta, a correção e a bondade humanas são apenas o resultado de uma oposição de forças, isto é, de uma violência". O pensamento agostiniano foi efetivo por muito tempo na prática pedagógica e, constantemente retomado até o fim do século XVII, manteve uma atmosfera de rigidez nas famílias e nas novas escolas.

E segue o Dr. Lauro Monteiro respondendo exemplarmente a pergunta: “Portanto, por que pais maltratam filhos? Eu diria: antes de tudo por hábito - culturalmente aceito há séculos. É comum pais afirmarem que apanharam de seus pais e são felizes. A eles dizemos que as coisas mudaram e que, hoje, devemos buscar outras formas de educar os filhos. Educá-los e estabelecer limites, com segurança, com autoridade, mas sem autoritarismo, com firmeza, mas com carinho e afeto. Nunca com castigo físico. A violência física contra crianças é sempre uma covardia. O maltrato, em qualquer forma, é sempre um abuso do poder do mais forte contra o mais fraco. Afinal, a criança é frágil, em desenvolvimento, e totalmente dependente física e afetivamente dos seus pais. Nesse sentido, acredito que a palmada se insira como uma forma de reconhecimento da insegurança, da fraqueza, da incompetência, dos pais para educar seus filhos, necessitando usar a força física. Não podemos esquecer também do modelo de violência que transmitimos e perpetuamos nas relações em família, quando estabelecemos limites com violência. Os filhos aprendem a solução de conflitos pela força - e tenderão a reproduzir esse modelo não só junto às suas famílias, mas em todas as relações interpessoais, na rua ou no trabalho. Inúmeros fatores ajudam a precipitar a violência de pais contra filhos: o alcoolismo e o uso de outras drogas, a miséria, o desemprego, a baixa auto-estima, problemas psicológicos e psiquiátricos. Nesse entendimento, achamos que pais que maltratam seus filhos devem ser orientados sempre e tratados e punidos, se necessário.”

Então, apesar da exposição demasiada na mídia e dos sofrimentos causados à sua mãe, à família, amigos e, por certo, a todas as pessoas de bem, acredito que a publicização exaustiva do crime que vitimou a menina Isabella contribuiu para abrir os olhos da sociedade sobre a barbárie constante a que são submetidas as nossas crianças, cuja proteção e carinho é de responsabilidade de todos.

Dorme, dorme, pequenina,
O teu sono de paz, flor-menina,
Papai e mamãe te protegem.
Luzinha suave avisa:
Tem amor velando teu sonho,
Permitindo, apenas, a brisa
Que desloca o voo de um anjinho risonho...
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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e vivências estão no blog Interface Ativa! Acesse http://niviaandres.blogspot.com
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domingo, 4 de abril de 2010

CONTOS E CRÔNICAS DA PÁSCOA

UM INESQUECÍVEL
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DOMINGO DE PÁSCOA
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Por que as pessoas não se empolgam mais com a Páscoa? Antigamente - na época de outrora, sabe? Aquela que os tempos não trazem mais - todos ficavam felizes quando a Páscoa se aproximava, já pensando na Sexta-Feira Santa e na tradicional bacalhoada regada a muito azeite português, batatas pré-cozidas com folhas de louro, pimentões vermelhos, azeitonas pretas, ovos cozidos, no melhor estilo da culinária portuguesa, acompanhada de couve e um arroz branquinho.

O que se passava na Semana Santa no seio das famílias era de uma simplicidade primitiva e tocante. “Porque Nosso Senhor estava doente”, a casa não se varria, os empregados não trabalhavam, os meninos não brincavam nas calçadas. Não se cantava, não se dançava, não se tocava. Falava-se baixinho, jejuava-se, rezava-se. As donas de casa “ficavam de olho” em empregados desobedientes e nos meninos traquinas para um ajuste de contas quando rompesse o Sábado de Aleluia. As lojas faziam decorações mirabolantes, as pessoas elaboravam planos do que fazer na data, as crianças escolhiam seus ovos com base no sabor (e não no brinquedinho que vem dentro), as famílias se reuniam... Era tudo tão mais mágico, tão mais meigo.
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Verdade que hoje os ovos de chocolate estão custando os olhos da cara, e que os diet, para os diabéticos, mais caros ainda! Certo que o bacalhau e os pescados estão pela hora da morte. Mesmo assim é gostoso poder presentear com chocolate, oferecer nosso carinho envolvido em celofane e papel metalizado colorido, um ato que nos faz crianças novamente, desembrulhando delícias, desvendando o que há dentro dos ovos, mesmo já sabendo o que se irá encontrar. Será que ainda é assim para todos ou é um traço infantil, imaturo que persiste em mim?

Nesse período cristão recordo minha infância, quando meu irmão e irmãs buscávamos os ovinhos coloridos de chocolate no fundo do quintal, ovos da Kopenhagen, que não tinham os preços proibitivos de hoje. Era costume na família os pais esconderem os ovos de Páscoa no quintal, para que os filhos os encontrassem. Hoje, esse hábito transformou-se e, quando muito, cultiva-se escondê-los dentro de casa, apesar de predominar o costume de presenteá-los diretamente.
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Do mesmo modo que a árvore, que perde folhas no inverno e ganha flores na primavera, acumulamos perdas e ganhos que formam nossa memória de recordações e conduzem ao caminho da experiência.

Foi num bonito domingo de Páscoa com muito sol, há muitos anos, que toda minha família se reuniu na ampla casa térrea de meus pais, localizada perto da praça central de Franca. Eu tinha apenas 9 anos de idade e apenas duas irmãs haviam nascido, a Lúcia e a Lusineti. A Dalvinha e o Arlindinho viriam anos depois. Minha mãe Dalva, auxiliada por minhas tias ultimava os preparativos para servir um bom almoço de Páscoa, enquanto os homens conversavam e bebericavam no quintal, sob as sombras de frondosas jabuticabeiras.

Eu e as duas irmãs, depois da “caçada” aos ovos de chocolate, brincávamos na rua. Fomos orientados severamente pela minha mãe, nada de abrir os ovos de chocolate antes do almoço. Deixei as guloseimas sobre minha cama e estava ansioso esperando o almoço ser servido, comer pouco e depois fazer a festa com os ovinhos de Páscoa, dois deles enormes, um que ganhei de meus pais e o outro da minha avó.

Meia hora antes do almoço minha mãe chamou os três para dentro de casa e nos fez tomar um belo banho. Deixou sobre minha cama, perto dos ovos de Páscoa - que tentação! – minha roupa mais bonita. E sentamos todos para almoçar. A mesa partia da copa e seguia até o final da enorme cozinha. Minha mãe, em pé, fez uma oração, acompanhada em silêncio por todos nós.
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Assim que terminou, a campainha de casa soou. Meus tios, indiferentes, começavam a se servir e mamãe foi ver quem era. Estranhamos. Naqueles tempos era costume no interior deixar as portas e portões destrancados. Vizinhos e conhecidos entravam em casa sem bater. Quem poderia estar tocando a campainha? Para surpresa de todos nós, mamãe entrou amparando dois garotos maltrapilhos e anunciou: “esses dois garotos vieram pedir um pedaço de pão, estão com fome e vão almoçar conosco”. Buscou duas cadeiras e as colocou do meu lado, pedindo aos meninos para se sentarem.

Mamãe percebeu quando fiz um gesto tentando me levantar. Segurou-me com carinho pelos ombros, fez com que me sentasse e cochichou aos meus ouvidos: ”também são seus irmãozinhos, devem ter a sua idade e precisam de sua companhia, trate-os bem”. Incomodado, fiquei observando mamãe servir os dois garotos ao meu lado. Um deles, depois soube que se chamava Marquinhos, olhou para mim e disse: “que bom ter uma mãe como a sua, nós só temos pai e ele está doente em casa, desempregado”.

Começaram a comer com vontade, estavam mesmo famintos. Acompanhei os meninos e comecei a conversar com os dois. Meu coração de criança estava sensibilizado, depois de ouvir a triste história que me contaram. Haviam perdido a mãe muito cedo, o pai, doente e desempregado não teve como pagar aluguel da casa que moravam e foram despejados. Moravam num barracão improvisado, na periferia da cidade. Com fome, em pleno Domingo de Páscoa, resolveram sair às ruas em busca de comida. Queriam também levar para o pai deles. Contei isso para minha mãe quando nos levantamos da mesa.

Enquanto mamãe preparava comida para os meninos levarem para o pai, eu os levei até meu quarto. Os olhinhos dos dois brilharam ao ver tantos brinquedos e tantos ovos de chocolate jogados sobre minha cama. Pensei em dar um ovinho para cada um. Depois, segurando os dois ovos de chocolate maiores, um que ganhei de meus pais e o outro da minha avó, não vacilei. Dei um para cada um. Eles abraçaram os ovos, encantados, parecia que não estavam acreditando ser tudo aquilo verdade. Exclamei feliz: “podem levar, tenho outros”. Não havia percebido que mamãe estava encostada na porta. Olhou-me com aprovação e saiu.

Os meninos saíram de casa agarrados aos ovos de chocolate, com muita comida para levar e deixaram o endereço onde moravam. Meus pais e tios passaram a cuidar do pai doente e dessas crianças. Um dos meus tios deu emprego para ele em sua fábrica de calçados e a vida desses meninos melhorou. Marcos e Luiz. A última vez que me encontrei com eles faz uns 20 anos. Um é advogado, o outro arquiteto.

Sem a força da amizade o ser humano não tem lugar no palco da vida. Assemelha-se a um tronco queimado, morto, onde nenhuma ave constrói seu ninho. Mas a amizade exige compartilhamento de ideais, cumplicidade, fraternidade. O caminho da alegria está dentro de nós. Um sorriso, um gesto de bem querer são suficientes para que se encontre o tesouro da amizade, a prova de que há muitos anjos ao nosso redor.

Ao invés de comer e beber tudo o que tem direito, a reunião familiar do domingo deveria continuar servindo para acertar diferenças, procurar no real significado da Páscoa, a meditação, o diálogo em paz, a harmonia e o perdão, pregados por Cristo.

FELIZ PÁSCOA!
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*Edward de Souza é radialista e jornalista
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sábado, 3 de abril de 2010

CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA


A PÁSCOA NO VIÉS DE

UM REGENTE INCRÉDULO


Apesar da minha atual incredulidade, não posso negar a fortíssima influência que a Igreja Católica Apostólica Romana teve e ainda tem na minha insulsa existência. Isto posto, na semana finda, titubeei, a princípio, quando o meu amado regido Lucas perguntou:

- Professor, o que é a Páscoa?

Em sucintas palavras, respondi:

- Lucas, para os cristãos a Páscoa é uma data festiva, porque comemora a ressurreição de Cristo. Expliquei ainda que os judeus também festejam a Páscoa, quase sempre em datas diferentes, entretanto, para eles a Páscoa é celebrada para lembrar a fuga dos hebreus do Egito... Também disse que na Páscoa costumamos oferecer e receber ovos de chocolate, porque o ovo representa uma nova vida...

Neste ínterim comecei a divagar sobremaneira... De repente estava num mundo novo onde tínhamos políticos probos, que inclusive colocavam, sem titubear, seus filhos e tutelados em escolas públicas, de preferência da periferia para que estes tornassem patente um dos pilares da educação que é aprender a conviver...

Neste mundo novo:

- as portas das nossas moradas ficariam destrancadas e nossos filhos e netos iriam para a catequese sem se preocupar com padres pedófilos...

- também teríamos o refrigério de saber que políticos da laia do Paulo Salim Maluf, Delúbio Soares, José Dirceu e seus asseclas estariam numa penitenciária de segurança máxima!

- seria inimaginável uma primeira dama ser “paisagem”, além é claro termos um Mandatário Maior do Poder Executivo no âmbito federal sem saber o que é estibordo e bombordo, bem como onde é a proa e a popa...

- os palestinos e judeus deixariam de lado seus viéses antagônicos e inclusive formariam numerosa prole... (Max, socorro, me acuda, porque ouço os rugidos do leões da Metro e da mulher da Colúmbia com a tocha...)

- as pessoas ao saírem do armário, porque não conseguiram reprimir o desejo de fornicar com pessoas do mesmo sexo, seriam aceitas com naturalidade pelas pessoas ditas “normais” e viveriam cônscias que seus direitos constitucionais seriam garantidos e jamais questionados pelas famílias dos(as) seus(uas) companheiros(as) falecidos(as)...

- todos os seres viventes da espécie Homo Sapiens teriam acesso ao sistema de saúde público, que seria referência em reinos distantes além-mar...

- todas as crianças, mesmo das classes populares, teriam pais ou responsáveis em plena sintonia com a escola....

- a inveja, a luxúria, a maledicência, o melindre, o ódio, o rancor, não teriam como influenciar a vidas das pessoas, porque elas viveriam fraternalmente...

- a remuneração máxima e mínima dos cidadãos seria decuplicada...

- as substâncias ilícitas não existiriam...

- o Aquífero Guarani seria preservado com ardor...

- o consumismo exacerbado seria considerado doença mental...

- haveria filas quilométricas de cidadãos sôfregos para levarem seus filhos em cinemas, teatros, museus...

- seria inimaginável se os pequeninos completassem oito anos e ainda não estivessem alfabetizados...

- estariam banidos da vida pública definitivamente os gerenciadores do erário público que ousassem pensar em falcatruas...

- as pessoas poderiam fornicar a vontade sem se preocupar em usar preservativos, porque as doenças venéreas digo, sexualmente transmissíveis, deixariam de existir devido a uma vacina (ulalaaaaaaaaaaá!!!!..)...

- todos os seres viventes racionais estariam preocupados com seu aprimoramento...

- todas as doenças teriam cura...

- viveríamos vigorosos até os 120 anos e deixaríamos de existir quando estivéssemos dormindo...

- nossos proventos, depois de aposentados, nos permitiriam fazer ao menos uma viagem por ano a reinos distantes além-mar...

- os presídios só existiriam para maus gerenciadores do erário público...

- as malditas seitas que se enriquecem com a credulidade das pessoas não existiriam, porque estas pessoas finalmente conseguiram perceber que os gerenciadores destas seitas eram lavadores de dinheiro e usavam o nome de Deus em vão...

- finalmente vieram à luz os nomes dos assassinos dos pavorosos crimes do Castelinho e do restaurante Chinês, que deixaram em estado de comoção os paulistanos da década de 30...

Neste ínterim saio do meu devaneio de supetão, porque ouço um alarido exacerbado e alguns regidos dizendo em voz alta:

- Professor, professor! A Tainá saiu do lugar dela e tentou pegar, sem autorização, um lápis de cor do Vinícius! Como ele não quis entregar, ela arranhou o braço dele e, não satisfeita, disse ainda que a mãe dele é uma galinha...

Por Dionísio, minha Páscoa terminou...

Valham-me Célestin Freneit, Vygostisky, Anísio Texeira e Paulo Freire!

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*João Paulo de Oliveira
, 56, pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Além de Pedagogo é Mestre em Educação. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborador do blog, João Paulo escreve, mais uma vez, uma crônica neste espaço. Visite seu blog, Celulóide Secreto, em http://joaopauloinquiridor.blogspot.com Contatos com o articulista pelo e-mail joaopauloinquiridor@ig.com.br
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA
PÁSCOA,

UMA TRADIÇÃO MILENAR

Marcelo Henrique assim se expressa em um artigo publicado na internet: “...Historicamente, a Páscoa é a junção de duas festividades muito antigas, comuns entre os povos primitivos, e alimentados pelos judeus, à época de Jesus. Fala-se do "pesah", uma dança cultural, representando a vida dos povos nômades, numa fase em que a vinculação à terra (com a noção de propriedade) ainda não era flagrante. Também estava a "festa dos ázimos", uma homenagem em que os agricultores sedentários faziam às divindades, em razão do início da colheita do trigo, agradecendo aos Céus, pela fartura da produção agrícola, da qual saciavam a fome de suas famílias, e propiciavam a troca nos mercados da época. Ambas eram comemoradas no mês de abril (nisan) e, a partir do evento bíblico denominado "êxodo" (fuga do povo hebreu do Egito), em torno de 1445 a.C, passaram a ser referenciadas juntas. É esta a Páscoa que o Cristo desejou comemorar junto dos seus mais caros, por ocasião da última ceia. Logo após a celebração foram todos para o Getsêmani, onde os discípulos invigilantes adormeceram, tendo sido o palco do beijo da traição e da prisão do Nazareno.

No entanto, há outros elementos "evangélicos" que marcam a Páscoa. Isso porque vinculações religiosas apontam para a quinta e sexta-feira santas, o sábado de aleluia e o domingo de Páscoa. Os primeiros relacionam-se ao "martírio", ao sofrimento de Jesus – tão bem retratado neste último filme hollywoodiano (A Paixão de Cristo, segundo Mel Gibson) -, e os últimos, à ressurreição e a ascensão de Jesus.
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No que concerne à ressurreição, podemos dizer que a interpretação tradicional aponta para a possibilidade da mantença da estrutura corporal do Cristo, no post-mortem, situação totalmente rechaçada pela ciência em virtude do apodrecimento e deterioração do envoltório físico. As igrejas cristãs insistem na hipótese do Cristo ter "subido aos Céus" em corpo e alma, e fará o mesmo em relação a todos os "eleitos" no chamado "juízo final", isto é, pessoas que morreram pelos séculos afora, cujos corpos já foram decompostos, se reaproveitados pela terra, ressurgirão, perfeitos, reconstituindo estruturas orgânicas, no dia do julgamento, onde o Cristo separará justos e ímpios.
ESTE ARTICULISTA ESPÍRITA TEM RAZÃO!

Deus nosso Pai, ao contrário dos seres humanos, não viola suas próprias leis. “Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.” (Kardec).

A Igreja católica criou muitos dogmas para enriquecer ou confundir os crentes que se aglutinaram em torno da mensagem de Jesus. Para atingir seus objetivos não hesitaram em embaralhar as mentes ingênuas de um povo que na época, não sabia ler. Um privilégio para o clero e mais alguns poucos.

Com isso, criou-se a raiz de muitas tradições que hoje se faz presente em todo o mundo. A malhação do Judas, por exemplo, foi trazida pelos portugueses e espanhóis. Uma tradição que antecede o “Domingo de Páscoa” e denominada “Sábado de Aleluia”. O fato em si é estúpido e cruel. As pessoas não sabem o que estão fazendo. Deus Amor e Jesus todo Perdão jamais incutiriam na humanidade gestos ou atos de ódio.

Entretanto, ao que parece, no Brasil, a malhação do Judas acabou gerando um ato de protesto contra pessoas ou situações que desagradam à população. Mas, a situação ainda é de ignorância. O ódio e atos de revolta um dia deixarão de existir.
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Os espíritas têm uma visão diferente das demais doutrinas cristãs. Por ser esse dia tradicional ele é respeitado como também são respeitadas todas as filosofias que praticam ou divulgam o bem.

A questão de renovação, para o espírita, é algo a ser feito diariamente e não apenas celebrado (ou relembrado), ou seja, no Natal ou na Páscoa. De acordo com o Evangelho Segundo o Espiritismo, o verdadeiro espírita é reconhecido por sua transformação moral e pelos esforços que empreende para domar suas más inclinações.

Os ritos e crenças das igrejas cristãs devem ser respeitados. Afinal, entende-se que essa foi a forma que a humanidade encontrou para fazer uma reflexão sobre os ensinamentos de Jesus e atentar para o “AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO.”
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

PÁSCOA,

SÍMBOLOS E RÁDIO

Certamente os amigos jornalistas com muita competência trarão aos nossos leitores do blog as mais inteligentes dissertações nesta semana da Páscoa, tema proposto pelos líderes Edward de Souza e Nivia Andres. Bastante oportuna a medida, ensejará ampla discussão com base em registros históricos e polêmicos que remontam inicialmente aos hábitos judaicos e a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho com liderança de Moisés, para tornar-se, depois, comemoração altamente significativa da Igreja Católica.

Várias versões dão conta de uma Páscoa relacionada ao êxodo judeu do Egito no ano 1250 a.C., assim como de que o Imperador Constantino l acionou o Papa Gregório XIII para definir uma data oficial de comemoração da Páscoa. Um encontro importante de líderes religiosos ocorreu em Nicéia, Turquia, definindo a fixação do evento.

Não pretendo levá-los a me acompanhar pelos caminhos de uma história já bastante conhecida, mas, convidá-los para uma retrospectiva em tempos mais recentes que iniciaremos aqui sobre a lembrança e prática do silêncio em comemoração maior da igreja.

No primeiro quarto do século passado, a sexta-feira da Paixão a todos impunha absoluto e sério respeito, disciplinando costumes com rigidez.

A espiritualidade da Quaresma era apresentada pela Igreja como um caminho para a Páscoa e mistério Pascal de Cristo, exprimia-se no exercício das obras de caridade, no perdão, na oração, no jejum, principalmente no jejum do pecado. Mulheres do tempo de minha mãe praticavam abstinência de carne e outras durante os quarenta dias do período quaresmal. Sexta-feira Santa, “dia santo de guarda” carro não transitava e não se ouvia soar apito de trens nas ferrovias, ninguém cantava, ou tocava instrumentos. Passar ou lavar roupa constituía pecado; tudo era proibido, incluindo a varredura da casa das famílias. A sexta da paixão exigia pleno recolhimento e absoluto respeito.

As estações de rádio se fechavam interrompendo suas programações, se abertas, ouvi-las seria um sacrilégio imperdoável que a sociedade não discutia.

A Rádio Clube Hertz de Franca transmitia, diariamente, às 18h, “A hora do Ângelus” (toque da Ave-Maria rezada por um padre da catedral), programa que levou a emissora a instalar uma linha física e equipamento nos fundos da igreja, sem qualquer ônus. Estabeleceu-se uma praxe abrir a emissora na Paixão, especial e exclusivamente o tempo necessário para a transmissão do Sermão das Sete Palavras, prática interrompida no momento em que um vigário de tendências absolutamente radicais optou por não estender a abertura de espaço para outras crenças.

À época a emissora mantinha no ar dois outros programas religiosos (pagos) da Igreja Presbiteriana e da Mocidade Espírita de Franca.

O representante do Espiritismo solicitou à emissora a concessão de cinco minutos para uma prece no mesmo dia santificado, pedido considerado justo pela administração foi estendido, também, ao reverendo Presbiteriano.

Comunicada ao padre a decisão com a consulta de sua opinião a respeito de sua preferência antes ou depois para a Igreja Católica, este se insurgiu vigorosamente contra, nada havendo que o demovesse da ideia da justa medida.

Com equilíbrio e evitando maiores atritos, os dois pastores agradeceram a decisão, abdicando do direito adquirido.

A partir daquele ano a emissora ficou fechada na sexta da Paixão, nunca mais transmitiu o Sermão das Sete Palavras, até que a modernidade chegou, adotando, inicialmente, programação musical sacra, de câmara ou erudita. Hoje o musical do rádio que dá TOM às comemorações da Paixão não é o silêncio nem o recolhimento. O que se ouve na festa ou se assiste na rua, em época de Paixão, no caminho da Páscoa, é forte transpiração, movimento sensual e ritmo de “Na boquinha da garrafa” e “Reboleixo”.

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*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado. Atualmente publica, no blog, A Série Relembranças II, sobre a história do Rádio Brasileiro, cujo quarto capítulo será postado na próxima quinta-feira, 8.
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Leia a seguir, logo abaixo, a crônica de João Batista Gregório, convidado especial do blog, A Páscoa de Adolpho Polaco.
CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

A PÁSCOA DE

ADOLPHO POLACO


Em casa, a Páscoa era a data mais festejada do ano. Além da ressurreição de Cristo, também comemorávamos o aniversário de meu pai. Ele nascera em 1916, num longínquo domingo de Páscoa e por isso, recebeu o nome de Paschoal. Não importava em qual dia do mês de março, desde que fosse no domingo da Páscoa, os amigos e familiares apareciam para o almoço festivo, aquela coisa de italianos, com mesa farta, muito vinho e assados de todo tipo.

Meu pai tinha um amigo, grandão e branco como um porco landrace. Não sei qual a nacionalidade dele mas era conhecido por Adolpho polaco e morava em um sítio onde não havia luz elétrica e nem banheiros, cuidando de seus rebanhos de cabras e carneiros.

Certa vez, aconteceu um acidente tragicômico com o homem que culminou com sua ida ao hospital e virou piada na cidade: Devido à sujeira e falta de higiene em que vivia, ele ficou infestado de piolhos e no intuito de matar os parasitas, esfregou querosene em todos os pelos do corpo, tanto nas partes pudicas como nas impudicas.

Durante a noite, com uma lamparina acesa, tentou verificar se os piolhos haviam morrido mas ao aproximar demais o pavio de suas virilhas o fogo passou para seu corpo, chamuscando tudo quanto tinha de pelos e penugens. Ficou vários dias de quarentena com as pernas abertas, penduradas e cobertas apenas com um fino lençol.

Meses depois, na Páscoa, meu pai convidou o amigo para almoçar lá em casa. Quando chegamos da missa, desde a rua já sentimos o aroma delicioso da leitoa à pururuca que só minha mãe sabia fazer. A mesa estava posta e o Adolpho polaco, já meio zonzo pelos canecos de vinho que meu pai servia, falava alto e gesticulava a todo vapor.

Nossa casa era assobradada e no canto da cozinha tinha um pequeno cano de metal por onde escoava a água em dias de faxina. Fomos, eu e meus irmãos, pelo quintal e, utilizando-nos do cano como um gramofone, gritamos a plenos pulmões: "Adolpho polaco, botou fogo no saco... Adolpho polaco, botou fogo no saco..."

O homem virou uma fera e não sabendo de onde provinha a zombaria, saiu pela rua, esbravejando e procurando os autores da desfeita.

Minha mãe, esperta, descobriu logo e sem que a visita desconfiasse, trancou-nos, de castigo, na despensa dos fundos. Resultado: enquanto o chamuscado refestelou-se com a leitoa, nós ficamos em jejum até à noite, quando nos foi permitido provar de uma sopinha de fubá bem chinfrim.

Desde então, lembro-me dessas passagens de minha infância toda as vezes em que faço um carneiro ou uma leitoa assada.

CARNEIRO À CAÇADORA :


Para o cozido: 3 Kg de carneiro, cabrito ou coelho novos (8 meses, mais ou menos) em postas; 2 latas de ervilhas (prefiro pacotes de ervilhas semi- congeladas); 1 kg de batatas (cortadas em 4), 1/2 kg de cenouras em rodelas; 1 kg de tomates (sem sementes) cortados em 4; 12 mini cebolas inteiras; 2 pimentões em cubos e azeitonas pretas. Se quiser, pode acrescentar favas cozidas e escorridas.

Para o tempero: Tempere os pedaços de carne com sal, azeite e algumas folhinhas de alecrim. Deixe a carne de molho (de um dia para o outro) na seguinte marinada, batida no liquidificador : 3 cebolas grandes; 1 cabeça de alho; 1 galhinho de manjericão; folhas de hortelã, de sálvia; 3 folhas de louro; 1 molho de salsa e cebolinha; 1 copo de vinho branco seco; 1 copo de água; 1 copo de vinagre branco; 1/2 vidro de molho inglês ou shoyo e pimenta a gosto. No outro dia, frite as postas de carne numa panela grande, até ficarem bem douradinhas. Escorra o excesso de gordura (importante!) e cozinhe, acrescentando água fervente, aos poucos e até ficarem bem macias. Junte os tomates, as mini cebolas, os pimentões e as azeitonas. À parte, cozinhe, em água e sal, as batatas e as cenouras. Junte esses legumes, mais as ervilhas, à panela e misture tudo, de leve para não desmanchar os legumes. Sirva com arroz branco.

LEITOA À PURURUCA:

A leitoa não deve ser grande e nem muito gorda (uns 7 a 8 quilos) e temperada de véspera, da seguinte maneira: perfure a carne em vários pontos (sem cortar a pele), esfregue sal, pimenta-do-reino e alho espremido por toda a leitoa, principalmente nas partes do couro. No liquidificador, bata uma vinha d'alhos com duas cebolas grandes; uma cabeça inteira de alho; uns raminhos de alecrim; 3 folhas de louro (ou louro em pó); 5 colheres de molho inglês; 1 copo de água; 1 copo de vinho seco (branco ou tinto); azeite de oliva e pimenta a gosto. Em uma vasilha larga e rasa (não pode ser de alumínio) coloque a leitoa com o couro para cima (a pele não pode ficar molhada) e deixe tomar tempero. No dia seguinte, leve-a para assar em forno alto e pré-aquecido. Não é necessário cobri-la, desligue o forno somente quando a pele ficar com uma cor de caramelo escuro e crocante. Sirva com limão, farofa, arroz branco, tutu de feijão e couve refogada. O segredo é não deixar a pele da leitoa em contado com a vinha d'alhos.

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*João Batista Gregório, 57, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Já publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e exercita seus dotes no Blog http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/ onde cada crônica pitoresca finda com uma receita culinária especial.
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quarta-feira, 31 de março de 2010


CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

CHUCHU


Segundo ensina o dicionário, chuchu, do francês antilhano chou-chou, é uma trepadeira cucurbitácea, de nome científico Sechium edule, de fruto verde e comestível. Na linguagem popular, pessoa muito bonita, graciosa; muito querida, ou que é a favorita, a mais mimada.

Vocês devem estar achando que estou louca ao falar de chuchu em plena época de Páscoa, afinal, até prova em contrário, chocolates são feitos com cacau...

Pois bem, explico. O Chuchu a que me refiro não era um legume. Era um digno representante da família Leporidae cujos membros são popularmente conhecidos como coelhos! No mais, confere com o dicionário, era lindo, fofinho, gracioso, elegante e transformou-se em favorito, no mais mimado...

Nossa história com o Chuchu começou quando minha irmã Nina ganhou aquele coelhinho branco de seus amigos e o trouxe para o apartamento. Na época, morávamos em Santa Maria, para estudar.

Logo nos primeiros dias de convivência nos apaixonamos por ele. E também tivemos prejuízos avantajados. Mesas, cadeiras, vassouras, sapatos foram solenemente roídos pelo láparo esfomeado que, nas horas de solidão, era o rei do pedaço. Nada escapava de seus dentões serrilhados...Não pensem que o deixávamos à míngua. Comia à farta, uma feira inteira por dia...

Seguidamente havia um conselho da tribo, para discutir o banimento do Chuchu, por prejuízo mobiliário e econômico, mas o danadinho sempre ganhou todas as questões, somente advogando com o olhar pidão...Resistir, quem havia de?

Assim, em pouco tempo, tornou-se o rei do apartamento 44, altos do Cine Glória, nossa feliz morada na cidade universitária...Por algum tempo, o reino dele era a área de serviço; depois, tomou de assalto a casa inteira, quando adquiriu comportamento de gente, respeitando o código de conduta estabelecido: Não roer, não lamber, não mastigar roupas, móveis e utensílios, não fazer xixi no sofá nem nos cantinhos. Comportar-se com um bom menino, obediente e educado. Um gentle rabbit!

Quando chegávamos da aula, Chuchu nos esperava na porta, confortavelmente instalado nos peleguinhos de lustrar. Daí, pulava no meu colo, no sofá, para assistir televisão, olhar fixo e interessado. Adorava o Programa da Xuxa (que assistia sozinho, diga-se de passagem, batendo a patinha ao ritmo do ilariê...desconfio que suspeitava ser parente da moça!) e as novelas, principalmente a das oito. Creio até que suspirava, nos momentos mais emocionantes dos folhetins televisivos...Nos intervalos, fazia o seu show e merecia aplausos – como a sala era ampla, dividida em dois ambientes, Chuchu descia do sofá, engatava uma primeira, ganhava velocidade e deslizava até encontrar a parede, batendo a cabecinha, de propósito...Voltava vendo estrelas, com cara de malandro. Se deixássemos, repetia a façanha, até cansar. Depois, dormia, invariavelmente, no nosso colo. Acordado, como guri obediente, seguia a dormir em sua casinha.

Nossa vida com Chuchu fluiu agradável, por vários meses. Quando chegaram as férias, afastamos a possibilidade de levá-lo para Santiago, pois a mãe não o aceitaria. Tinha cachorro, gato e caturrita (que assobiava o hino nacional inteiro!) na casa...

Então, a Nina confabulou com um colega que tinha sítio e acertou a permanência do Chuchu na temporada de férias. Despedidas chorosas... mas, fazer o quê? Foi-se o Chuchu, rumo à serra, com mochila e peleguinho...

Ao retornarmos à Santa Maria, rapidamente minha irmã foi ter com o tal amigo, para combinar o resgate do Chuchu. Voltou desconsolada e furiosa. O Chuchu, lindo e fofo, havia virado refeição, segundo o depoimento do gajo assassino. Até hoje não sabemos se o Chuchu, de fato, virou comida ou fugiu (que de bobo não tinha nada...) mas o resto, podem acreditar, é tudo verdade!

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*Nivia Andres é jornalista e licenciada em Letras. Suas opiniões e vivências estão no Blog Interface Ativa! Para conhecer, acesse
http://niviaandres.blogspot.com/
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A seguir, logo abaixo, leia o conto Restos e Rastros,
da escritora convidada Silvana Boni de Souza.
CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

RESTOS E RASTROS

Folheava o livro antigo encontrado nos guardados do sótão, sob a luz de uma lâmpada que pendia do teto. Morava ali desde sempre, com boas lembranças daquele seu universo e as memórias de escola afloravam aos poucos em restos do que foi, um dia, a sua única verdade.

Os anos haviam passado rapidamente e seus planos foram abandonados, arquivados em gavetas de chaves esquecidas na sua mente. Novas experiências foram acrescentadas àquele rol primordial e ele se perguntava naquele momento quantas mais seria preciso acumular na vida e com qual objetivo, se voltaria ao pó mais cedo ou mais tarde, para descansar eternamente no sótão Divino. Mais uma página virada e novas lembranças...

O pai costumava ler sempre aquela história na hora de dormir! Como poderia ter desviado o foco daquela que era tão importante, daquela que o fazia viajar em pensamentos e imaginar coisas impossíveis, mas tão reais como as que aconteciam no livro?

“Alice no país das maravilhas” tinha descrições e desenhos imaginários, que despertaram nele o interesse pelo desconhecido, pela exploração do improvável, que sua inocência infantil garantia, absolutamente, que aconteceria.

“- É tarde! - É tarde!”, dizia o coelho no papel amarelado.

Até aquela presente data o bicho engravatado não se convencera que sempre estivera atrasado! Sempre olhando o relógio e correndo, premonitório à condição da atualidade.

“- É tarde!”

Nunca entendera o motivo de tanta pressa, mas com o tempo passando, a frase começava a fazer cada vez mais sentido.

Era tarde e ele tinha pressa de viver! Queria aproveitar o que a vida lhe tinha reservado, as regalias às quais raramente se permitia. Perder oportunidades? Nunca mais! Nunca mais se lançar ao fosso escuro e desconhecido de investidas não planejadas e cair em buracos sem fim ou situações insustentáveis!

A cada assopro para espantar o pó, novo episódio da história se revelava e, com ele, mais lembranças reviradas, a confirmarem os paralelos.

O coelho a se mover pelo conto e a vida estacionada pelos cantos!

Era a madrugada do dia de Páscoa. As crianças dormiam (sempre se referia aos filhos desta forma, mesmo adultos) e os ovos, que ele e a mulher esconderam pela casa, já aguardavam, ansiosos. Ninguém achava mais graça naquilo, mas os pais insistiam em incutir-lhes o subdesenvolvimento, deixando transparecer o que gostariam que acontecesse à prole, a estatização.

Mais uma folha virada do livro e finalmente se permitiria dormir. Foi aí que percebeu a falha no desenho! Voltou ao texto para confirmar o que não via. Faltava um detalhe, estava certo!

Com o canto dos olhos percebeu o movimento rápido.

Um remexer de papel denunciava uma presença e, em instantes, pôde ver os rastros deixados no chão sujo, apontando para a escada. Ao olhar para baixo ainda teve tempo de ver a fofa bola de pelos da cauda, conformado com o atraso que suas pernas velhas e seu movimentar lento lhe impingiam.

“- É tarde! - É tarde!”, pôde ouvir lá de baixo.

Desceu. O barulho de papel do embrulho dos ovos surpreendeu a mulher. Não era provável que ele tivesse feito aquilo!

“- Liberdade!”, disse ele de olhos alegres, lambendo o chocolate dos lábios e deliciado com a transgressão infantil, finalmente evidenciada!

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*Silvana Boni de Souza é farmacêutica bioquímica, especialista em Homeopatia. Escritora de contos e crônicas, desde 2000 participa de alguns projetos dinâmicos: http://www.vivasp.com/ que apóia desde o início; http://www.carmenrochacontos.pro.br/ que frequenta há três anos e http://www.deshortsnasiberia.com.br/ de sua autoria, desde 2008.
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terça-feira, 30 de março de 2010

CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

AVATAR

Depois do milagre da ressurreição, a Páscoa, celebração de chocolate, rastilhos dos coelhos. Será que voltaram para comer os ramos que sobraram do domingo dedicado aos ramos santos? Ou trouxeram ovos recheados? Tempo de avatar, metamorfose, renascer, transfiguração, presença do extraordinário. A mulher acorda com as badaladas. Uma, duas, três, doze, apenas doze. Respira aliviada, teme que cheguem a treze e as bruxas saiam dos sombrios calabouços construídos dentro de imensa arca, onde permanecem encarceradas, sob a promessa de serem libertadas quando o dia tiver vinte e seis horas. Ela sempre capta os sons dos relógios: solenes os de Notre Dame; exatos os que chegam do Big Ben; melodiosos os da igreja; com atraso os da estação ferroviária.

Uma, duas, três, doze. Reconta no cuco que abre a janela, no badalo do velho relógio que pertenceu a Sherlock Holmes, ainda impressionada com a argúcia do famoso detetive que desvendou o mistério das horas roubadas, levadas no exato momento do ofício divino entre as sextas e as vésperas.

Doze, doze, doze. O quarto se enche de vibrações sonoras, sons simultâneos, elevação diferente. A mulher esfrega os olhos, levanta o travesseiro, recosta-se, tateia no criado, encontra o copo, despeja água da jarra de cristal, bebe vorazmente, ansiosa, grandes goles, grandes ruídos. Não sabe ao certo se é o meio-dia ou a meia-noite, o dia alumiado dividido ao meio, ou a noite feia, de tempestade, cortada em duas partes iguais.

Acende o abajur em forma de arca, peça muito velha, antiga, rara, cobiçada pelos colecionadores, antiquários e estudiosos do mundo todo. Móvel encimado por estranha inscrição, podendo-se ler claramente: “barca da salvação, pertencente a Noé”.

Naquele tempo, para desgosto de Javé, os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens. Ainda se observa no velho abajur em forma de arca o respiradouro colocado, a porta ao lado e a divisão em andares: inferior, segundo, terceiro.

Olha ao redor, a criança está quieta no ninho, boazinha, não incomoda, mesmo quando acordada tem medo de gritar, o choro chama a atenção do bicho-papão, do homem das bexigas, que aparece com o enorme saco membroso e sem fundo, onde enfiava e aprisionava os moleques barulhentos e desobedientes.

Sorri, apanha o pente-fino que pertenceu a medieval rainha da Inglaterra, instrumento de alisar, limpar e segurar os cabelos, utilizado desde tempos imemoriais, quando os primeiros piolhos apareceram e se espalharam.

Enfia o pente-fino na longa cabeleira prateada, sente arrepio, percebe que os cabelos se soltam do couro, grandes tufos, folhas mortas que se desprendem das árvores no inverno, o chão se cobre de feixes de cabelos amarelecidos.

Pelos vermelhos crescem com rapidez, substituem os prateados. Alisa com a palma, o ardor incomoda, provoca coceiras. Procura o espelho rococó, onde as damas de Luiz XV se enfeitavam para as festas de gala. Chega a tempo de observar a transformação: a pele se desfaz para surgir uma vistosa lagarta-de-fogo no instante em que o relógio marca a vigésima sexta hora, no décimo dia do seu quarto milésimo de vida.

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*Guido Fidelis
é jornalista e escritor.
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CONTOS & CRÔNICAS DE PÁSCOA

A partir de hoje, até domingo, o Blog Crônicas de Edward de Souza e Amigos Jornalistas apresenta a Série Contos e Crônicas de Páscoa, com a participação dos colaboradores costumeiros e de alguns convidados que, sob sua ótica particular, unindo o talento e a criatividade que lhes são peculiares, vão nos contar o que significa a Páscoa.



VIDA QUE SE RENOVA!

Do hebreu "Peschat" ou do latim "Pache", Páscoa significa passagem, mas sua comemoração vai muito além da origem semântica. A data se reveste de múltiplos significados e sentidos. Páscoa representa renovação, vida, transformação, reconciliação. Lembremos que nos dias atuais, toda e qualquer oportunidade que tivermos para repensar a vida deve ser valorizada ao máximo.

A Páscoa cristã, em que celebramos a ressurreição de Jesus, é uma festa cuja data de comemoração é móvel. O motivo da mobilidade se deve à forma escolhida para determinar o dia. O Concílio de Nicéia (325 d.C.) estabeleceu que o primeiro domingo após o aparecimento da lua cheia daprimavera no Hemisfério Norte - Outono no Hemisfério Sul - seria o domingo de Páscoa. O Outono, no Brasil, começa em 20 de março. O primeiro domingo de lua cheia depois do início da estação cai no dia 4 de abril.

A Pessach (Páscoa Judaica) é uma das três festividades de peregrinação juntamente com Sucot e Shavuot. Começa no 15º dia do mês hebraico de Nisan (geralmente em Abril), tem duração de sete dias e é celebrada para comemoração do Êxodo do Egito - a fuga do povo judeu escravizado, que foi libertado por Moisés.

COELHOS, OVOS & CHOCOLATE

"Theobroma" foi o nome dado pelos gregos ao "alimento dos deuses" - o chocolate. "Theobroma cacao", o seu nome científico. Quem o batizou assim foi o botânico sueco Linneu, em 1753. Mas foi com as civilizações do Novo Mundo - os Maias e os Astecas que a história toda começou. O chocolate era considerado sagrado por essa
civilizações indígenas, como o ouro.

Na Europa o chocolate chegou por volta do século XVI, tornando rapidamente popular aquela mistura de sementes de cacau torradas e trituradas, depois juntada com água, mel e farinha. Vale lembrar que o chocolate foi consumido, em grande parte de sua história, apenas como uma bebida.

Em meados do século XVI, acreditava-se que, além de possuir poderes afrodisíacos, o chocolate dava poder e vigor aos que o bebiam. Por isso, era reservado apenas aos governantes e soldados.

Além de afrodisíaco, o chocolate já foi considerado um pecado, remédio, ora sagrado, ora alimento profano. Os astecas chegaram a usá-lo como moeda, tal o valor que o alimento possuía.


Já no o século XX foram criados os bombons e os ovos de Páscoa, como mais uma estratégia de estabelecer de vez o consumo do chocolate no mundo inteiro. É tradicionalmente um presente recheado de significados. E não é só gostoso, como altamente nutritivo, um rico complemento e repositor de energia. E o coelho?

A tradição do coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães, em meados de 1700. O coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa.

Uma outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos, como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se, então, a história de que o coelho é que trouxe os ovos. Alguém duvida?

No antigo Egito, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. Alguns povos da Antiguidade o consideravam o símbolo da Lua. É possível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao fato de a Lua determinar a data da Páscoa.

Mas o certo mesmo é que a origem da imagem do coelho na Páscoa está na fertilidade que é marca registrada desses animais.


O ovo também simboliza o nascimento, a vida que retorna. O costume de presentear as pessoas na época da Páscoa com ovos ornamentados e coloridos começou na antiguidade.

Os egípcios e persas costumavam tingir ovos com as cores primaveris e os ofereciam a seus amigos. Os persas acreditavam que a Terra saíra de um ovo gigante.

Os cristãos primitivos da Mesopotâmia foram os primeiros a utilizar ovos coloridos na Páscoa. Em alguns países europeus, os ovos são pintados para representar a alegria da ressurreição. Já na Grã-Bretanha costumava-se escrever mensagens e datas nos ovos dados aos amigos. Na Alemanha, os ovos eram oferecidos às crianças junto de outros presentes, na Páscoa. Na Armênia decoravam ovos ocos com retratos de Cristo, da Virgem Maria e de outras figuras religiosas.

No século XIX, ovos de confeito decorados com uma janela em uma ponta e pequenas cenas no seu interior eram considerados presentes populares.

Mas os ovos ainda não eram comestíveis. Pelo menos como os conhecemos hoje. Atualmente as crianças encontram ovos de chocolate ou "ninhos" cheios de doces nas mesas, na manhã de Páscoa. No Brasil, as crianças montam seus próprios "cestinhos de Páscoa", enchem-no de palha ou papel, esperando o coelhinho deixar os ovinhos durante a madrugada. Nos Estados Unidos e outros países as crianças saem na manhã de Páscoa pela casa ou pelo quintal em busca dos ovinhos escondidos. Em alguns lugares os ovos são escondidos em lugares públicos e as crianças da comunidade são convidadas a encontrá-los, celebrando uma festa comunitária.
E então, vamos participar desta gostosa festa literária? A primeira história pertence a J. Morgado, que conta o delicioso embate entre um padre e um comerciante português, numa pequena cidade do sertão brasileiro, em plena Semana Santa, em... A Missa que não houve.

Fontes: Encarte do Jornal Zero Hora, de 29 mar 2009
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/kids/kidlink/kidcafe-esc/significado.html