domingo, 27 de dezembro de 2009

O MENINO DE BIRIGUÍ
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As aparências realmente enganam e nos surpreendem, mostrando o quanto somos preconceituosos. Todos fomos, alguma vez, preconceituosos. Uns mais, outros menos. Mas fomos, infelizmente. Isso é próprio do ser humano. O preconceito está sempre presente e não precisa esforço para encontrá-lo. Na própria origem da palavra “preconceito” é possível encontrar seu significado: “pré” é o prefixo de “antes de alguma coisa”, e “conceito” é a idéia que se faz, também, de alguma coisa, pessoa ou fato. Em outras palavras, o juízo que fazemos antes de conhecer mais profundamente as características de uma situação ou pessoa.
Um domingo do início da década de 90, a equipe de esportes da Rádio Diário do Grande ABC se deslocou até a pequena e acolhedora cidade de Birigui, na região de Araçatuba, para a transmissão de um jogo entre o Bandeirante EC e o Santo André. O Bandeirante debutava na Primeira Divisão do Paulistão e, assim, qualquer jogo ali disputado era motivo de festa na cidade que até então havia recebido somente equipes de menor expressão da chamada segundona. Chegamos eu (comentarista e responsável pela equipe), Antônio Alcides (narrador), o repórter Maurício Muniz e o operador de som Aristides Murara. Nessa viagem não havia o inseparável motorista da viatura da rádio, já que percorremos em ônibus longos e cansativos 500 quilômetros até Birigui, por lá chamada de quintal de Araçatuba. Faz algum sentido. A praça em frente ao Estádio Pedro Marin Berbel, também conhecido como "Pedrão", campo do Bandeirante, com capacidade para pouco mais de 10 mil pessoas, fervilhava de torcedores festivos e hospitaleiros.
Descarregamos do táxi a parafernália, que faz parte do cotidiano de uma equipe esportiva de rádio e cada um apanhou uma carga para levar até as cabines reservadas à imprensa.
Nisso chega um garoto (disse ter 12 anos) e, pegando na alça da bolsa, um tanto pesada, que eu carregava, perguntou meio encabulado: "Moço posso ajudar a levar sua bolsa?". Escolado com a vida de cidade grande, tipo São Paulo e o ABC, pensei duas coisas: "esse moleque está querendo surrupiar a bolsa ou pretende entrar de graça no estádio, acompanhando a gente". Desconfiado e sem tirar o olho do garoto, entreguei a carga pra ele levar.
O menino disse chamar-se Vagner. Ao chegar ao portão do estádio, reservado para entrada de policiais, cartolas dos times e jornalistas, fiquei preocupado novamente. O rapaz certamente não era um ladrãozinho, mas, eu acreditava, queria entrar no campo no peito, missão complicada já que os fiscais da Federação Paulista de Futebol e dos clubes exigiam a apresentação de credencial específica de jornalista para liberar a passagem. Pra nossa surpresa, ao chegar ao portão o garoto devolveu a bolsa, agradeceu, esboçou um sorriso, que somente um pré-adolescente feliz pode ter e despediu-se.
Num misto de indignação e surpresa tirei da carteira uma nota correspondente a dez reais e ofereci ao rapazinho. Sem alterar o sorriso, ele agradeceu, não pegou o dinheiro e foi se afastando. Ainda indignado, perguntei: "garoto, você não quer entrar no estádio e recusa a grana; então, por que ajudou a carregar minha bolsa um tanto pesada"? . Olhando diretamente em meus olhos, respondeu: "moço, gosto de colaborar com as pessoas. Toda vez que tem jogo do Bandeirante aqui, eu ajudo alguém. Outro dia empurrei o carrinho da mulher que vende cachorro quente, dei uma mão para aquele senhor (apontou o homem) que vende pipoca e assim por diante; hoje foi o senhor. Não faço isso por dinheiro, gosto de ajudar, sem nenhum interesse; minha mãe (não fez referência ao pai, nem perguntei) me ensinou assim e fico feliz quando posso ser útil".
Papo fluente, trajando bermuda, camiseta regata e chinelo de dedos, surrados, porém limpos, o menino enfiou-se no meio dos torcedores levando de vez o sorriso de quem se sentiu, mesmo que por alguns minutos, recompensado por ter sido prestativo. Certamente não se deu conta da alegria e recompensa que proporcionou a este jornalista e aos integrantes da equipe de esporte da rádio. A atitude de Vagner foi o assunto logo depois de encerrado o trabalho e preencheu nosso tempo durante a exaustiva viagem de volta a São Paulo e ao ABC. O menino de dentes alvos e olhos brilhantes fez com que este calejado jornalista e sua equipe refletissem e chegassem a conclusão que, apesar de tudo, este mundo ainda tem conserto.
Quero deixar a todos os amigos e amigas deste blog, meus votos de um 2010 repleto de saúde, paz, amor, prosperidade e sucesso. 2009 está terminando, e com ele, tudo o que fizemos ou passamos. Coisas boas ou coisas ruins, que não nos desmotivaram a continuar aqui, lutando e vivendo, na esperança da construção de uma sociedade mais justa e de um futuro melhor para a humanidade. ___________________________________________
*Oswaldo Lavrado é jornalista/radialista radicado no Grande ABC
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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

UM SONHO NATALINO
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Tarde serena. O mar tranquilo, pouco enrugado, mostrava suas pequenas ondas espumantes e brancas. Um barulho monótono e repetitivo fez com que eu, sentado em uma espreguiçadeira naquela praia, começasse a cochilar. Dia de semana, nenhum movimento. Praia deserta. Apenas as aves marinhas e outras mariscavam aqui e ali.
Não sei como, me vi em uma pequenina cidade do interior. Dessas que vistas do alto de uma encosta mais parecem presépios. Vi-me sentado a beira de um chafariz. Um grupo de garotos jogava bolinhas de gude, outro de mão na mula e alguns simplesmente conversavam.
Matronas e jovens mulheres se aproximavam do chafariz com vasilhas apropriadas para levar água. Não me viam! Aqui e ali pessoas conversavam na porta da barbearia, do botequim, do armazém... Uma rotina em vilas e cidades interioranas.
As ruas da cidade eram aladeiradas. Do alto de uma delas apareceu uma figura esquisita. Na medida em que se aproximava podiam-se notar suas feições. Enorme barba e cabelos brancos, roupas surradas, chapéu de abas largas. A guisa de bengala, um bambu. Sua figura, apesar de encurvada pela idade impunha respeito. Foi se aproximando. As pessoas ali já o conheciam. Leon era seu nome.
Parado no meio da praça levou o bambu-bengala até a boca e dele começou a extrair uma estranha melodia. Os garotos pararam o que estavam fazendo e foram se achegando junto ao velho. Os adultos olhavam curiosos.
O ancião continuava a tocar a música e se movimentava dando os primeiros passos para a saída da pequena vila. Os meninos e meninas começaram a segui-lo em fila indiana.
Eu que tudo observava e não era visto, lembrei-me de uma antiga lenda alemã originada na idade média e reescrita pelos Irmãos Grimm, “O Flautista de Hamelin”. Tudo se encaixava, o velho, as crianças, a pequena cidade...
A marcha continuava em direção a floresta que circundava a região. Alguns habitantes, curiosos, seguiam de longe aquela estranha procissão.
Minutos depois, o velho alcançou a mata densa e nela se internou e as crianças atrás, seguindo-o!
Os curiosos que de longe observavam, perceberam que à medida que cada criança colocava os pés na mata, desaparecia! E assim aconteceu com todo aquele estranho cortejo.
Os adultos estarrecidos entraram esbaforidos na floresta a procura daquele grupo desaparecido. Nada encontraram! Desapareceram como fumaça!
Impropérios começaram a serem proferidos pelos habitantes do lugar que dias antes, haviam maltratado aquele ancião.
Havia meses que o velho Leon frequentava a Vila. Não fazia mal a ninguém. Aproximou-se das crianças e em volta do chafariz contava-lhes histórias. Os guris o adoravam.
Certo dia, um morador levantou dúvidas quanto à moral do anoso. Envenenados pela má língua, prestaram queixa ao delegado. Este prendeu o contador de histórias e o submeteu a um rigoroso interrogatório. Nada conseguiram a não ser o nome que ele forneceu: Leon! Libertaram-no e o expulsaram da cidade.
Agora ele aparecera e se vingara levando os meninos para a floresta. Era véspera de Natal!
Uma cidade cujos habitantes eram profundamente religiosos. Cada uma daquelas casas tinha o costume de armar um presépio nessa época do ano usando materiais que a natureza lhes ofertava (barro, palha, madeira, etc.).
Cada morador, ao voltar para casa depois de intensas buscas, triste, completamente desconsolado, começou a orar junto aos presépios. Foi quando notaram que o menino Jesus que deveria estar na manjedoura havia desaparecido! Isso acontecera em todos os presépios, inclusive o da capela local. Um desespero geral tomou conta daquele povo religioso e místico. Nessa noite, reuniram-se todos na capela e uníssonos pediram perdão e um milagre!
Pouco antes de soar as badaladas da meia noite, uma música se ver ouvir ao longe. Era O Sino de Belém (Jingle Bells), tocada pela flauta de Leon e cantada pelos garotos em uma versão de Chitãozinho & Xororó. Um coral afinadíssimo! Bate o sino pequenino/Sino de Belém/Já nasceu o Deus Menino/Para o nosso bem/Paz na terra/pede o sino/Alegre a cantar/Abençoe o Deus Menino/Este nosso lar/Hoje a noite é bela/Vamos à capela/Sob a luz da vela/Felizes a rezar/Ao soar o sino/Sino pequenino/ (...). Os garotos adentram a igreja alegres continuando a cantar. De Leon, nem a sombra!
Foi quando notaram que a imagem do menino Jesus no presépio da igreja havia reaparecido. Alegria geral e orações de agradecimento. Todos correram para casa abraçando seus filhos e verificaram seus presépios. Em cada uma daquela alegoria natalina, o menino Jesus havia reaparecido. Lágrimas de emoção e arrependimento pelo mal praticado.
Os meninos nada souberam responder o que lhes foi perguntado. Disseram que acompanharam o velho, entraram na mata e dela saíram diretamente para a capela. O tempo? Ninguém soube explicar o que houvera entre o entrar na mata e o entrar na capela!
Acordei com alguém tocando meu ombro. Um velho andarilho com enorme barba e cabelos brancos, apoiado em um pedaço de bambu me acordara para pedir um auxílio! Enfiei a mão no bolso, tirei alguns trocados e perguntei seu nome. Respondeu com voz rouca: Noel! Afinal, era véspera de Natal! O mar continuava tranquilo e pouco enrugado mostrando pequenas ondas espumantes brancas...
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, escrevendo crônicas, contos, artigos e matérias especiais. Contato com o jornalista pelo e-mail:
jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NOITE DE PAZ
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Acocorou-se e se pôs em posição para executar o trabalho, alerta a todos os movimentos ao redor. Ao olhar a lua e se deparar com o céu estrelado, deixou que a imaginação flutuasse por alguns instantes, tempo suficiente para que imagens perdidas retornassem à mente, fortes, nítidas, igual a um filme projetado na tela do cinema. Estava tranquilo, certo de cumprir o dever com sucesso, como ocorrera inúmeras vezes, de acordo com o previsto. Dispunha de alguns minutos antes de concluir a empreitada, as lembranças que afloravam abruptamente não se constituiriam em empecilhos.
Ele se via ainda criança, como se estivesse frente a um espelho gigante. O quarto era simples, apenas a cama e um velho armário. As paredes, pintadas a cal, desbotadas, com teias de aranha junto ao teto, onde uma luz pendia presa por um fio. Mexia-se debaixo do lençol, às vezes abria os olhos e espiava os sapatos, deixados à beira do leito. Nenhum pacote ao lado, repetia-se a rotina de sempre. Logo mais teria de se levantar, assear-se e preparar-se para o ralo café da manhã, sem ânimo para sair à rua, encontrar-se com os moleques e mostrar os presentes recebidos.
Em seu devaneio infantil justificava a demora. Papai Noel se atrasou, perdeu-se em determinada quadra do caminho, sofreu algum tipo de acidente, ficou impedido de atender seu pedido, o desejo de ganhar um trenzinho. A realidade rompeu o sonho, ergueu-se amuado, abriu o armário, juntou os velhos soldadinhos de chumbo, espalhou-os pelo chão, em posição de batalha. Gostava do comandante, com uniforme azul, montado no cavalo. E também dos canhões, que enfileirava na dianteira da minúscula legião. Não sabia direito como se operava uma guerra, como seriam os campos de batalha, mas supunha que os mais fortes derrotassem os inimigos fragilizados pelas perdas de homens em embates ferozes. Acreditava que, quando crescesse, seria um grande estrategista militar, com tropas treinadas para receber suas ordens de avançar.
Quando se cansava da brincadeira socorria-se de velhos gibis, encontrados no lixo. Olhava as figuras, admirava o arrojo dos mocinhos que sempre escapavam dos perigos e armadilhas e venciam os bandidos. Peito empinado rumava para o quintal, armava-se com sua espada feita de cabo de vassoura e duelava com galhos e ramos, transformados em piratas.
A adolescência pouco alterou seu ritmo de vida. Raras aventuras, lazer quase nenhum, alguns namoros isolados de pequena duração. Sem nada para oferecer, as meninas logo se afastavam, trocavam-no por rapazes mais abastados, que convidavam para sorvetes, bailes alegres e movimentados, beijinhos roubados.
Em busca de ocupação, alistou-se no Exército. Nova decepção. Não teve oportunidade de participar de ações militares, de pesados exercícios e manobras. Passou o período de caserna recebendo encargos vexatórios, limpar os banheiros dos oficiais, engraxar sapatos dos superiores. De positivo, unicamente o manejo de armas, o aprendizado de montar e desmontar, de atirar com perfeição, acertando alvos dispostos a cem metros de distância.
Saiu como entrou: soldado raso, nem mesmo a cabo se elevou, para ter o gosto de uma distinção, soldo maior. Na rua, vagou sem destino, à espera de uma luz que indicasse o rumo a tomar. Entrou numa igreja, no silêncio do templo contemplou o presépio, o menino pobre na manjedoura. E santos martirizados nos altares. Pareceu-lhe ouvir uma voz distante e repetitiva, um chamamento do além. Compreendeu que a injustiça sempre prevaleceu pela vontade dos homens, de nada valiam os ensinamentos e exemplos, a maldade foi enxertada na alma, é inerente à natureza humana. O clamor permanecia em sua cabeça, ecoava, instigava, tinha de se opor à crueldade, restabelecer a concórdia.
Por acaso, na praça, deparou-se com a dor de mulheres que choravam a perda de uma menina, atingida por bala perdida durante confronto entre policiais e traficantes. Condoeu-se com o desespero da mãe e se manifestou, revoltou-se contra a impunidade. Sua veemência ao erguer os braços, gesticular e clamar por justiça despertou a atenção dos manifestantes que obstruíam a rua e incendiavam pneus.
Naquele bairro esquecido, muitos sentiam na garganta o sabor amargo do sofrimento, a amargura de prantear a morte. Alguns, mais exaltados, disseram que ele poderia ser um aliado no combate ao crime, um cidadão capaz de se igualar a um juiz severo. Eles precisavam de um homem corajoso que pudesse protegê-los, livrando-os do perigo que rondava suas casas.
Foi assim que encontrou trabalho decente que lhe garantiria sustento, além de lhe proporcionar satisfação, aquela alegria primitiva de se saber benfeitor, de se julgar acima do mal, ombreando-se aos heróis que povoaram as fantasias da infância. Os rendimentos chegavam por meio de mãos trêmulas, sofridas, de gente da comunidade que o queria por perto, mas sem demonstrar proximidade ou amizade verdadeira. Respeitavam-no do mesmo modo que o temiam, movidos pela terrificante força do medo.
Orgulhava-se das missões cumpridas, nunca havia falhado. O serviço era solitário, dispensava a participação de auxiliares. Recebida a encomenda, traçava um plano seguro, espreitava, escolhia o local e o horário, preferencialmente em horas desertas. Chegado o momento, o coração palpitava e ele se alegrava, como agora.
Olhou o relógio, respirou fundo. Em seguida, apagou da memória o passado, ergueu o fuzil e aguardou. Quando a vítima escolhida abriu a porta da casa e se dirigiu ao jardim para regar as plantas, apertou o gatilho, apenas um disparo, certeiro. O silenciador impediu o estrondo da detonação, o ruído do trovão que indica a força bruta da natureza ou a ira de Deus. Com um sorriso nos lábios, acondicionou a arma na sacola, ergueu-se. O matador profissional tirava de circulação mais um traficante de drogas que a Justiça deixara em liberdade. Depois, aproximou-se do cadáver, ensanguentado. Deitou sob o peito do desafeto um cartão desejando Feliz Natal e foi cumprir o resto da missão: deixar um lindo presente para os órfãos. Papai Noel não podia se ausentar, que é que as crianças iam pensar? Era Noite de Natal.
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*Guido Fidelis,
jornalista, escritor cosmopolita, também advogado é outro dromedário da imprensa paulista. Ex-Última Hora, Diário do Grande ABC, A Nação e A Gazeta, sua pulsante literatura deixa pouca dúvida a respeito de suas preferências: drama policial com um aroma decididamente neonaturalista. Guido Fidelis tem mais de uma dúzia de livros publicados. A última obra de Fidelis, "Dádiva", foi lançada no final do mês passado pela RG Editores, de São Paulo.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ESTRELA DO ORIENTE

Sob a luz de uma estrela, os magos Gaspar, Melquior e Baltasar marcharam para encontrar o sítio que acolhia o Cristo “nascido Rei dos Judeus”. Segundo registra o evangelho, a estrela os precedia e parou exatamente por sobre onde estava o menino Jesus. “E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande intenso júbilo” (Mt 2, 10).
"Entrando na casa viram o menino (Jesus) com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e abrindo seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra.” (Mt 2, 11). “Sendo por divina advertência, prevenidos em sonho a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra” (Mt 2, 12).
Historicamente pode hoje ser considerada a troca de presente na celebração do nascimento do Nazareno, - 25 de dezembro - uma herança da atitude dos Magos com suas oferendas. Entre os símbolos do Natal, muitos originados pagãos foram cristianizados com o correr de longos anos. Aqui cabe uma referencia ao papa Silvestre І, pontificado exercido entre anos 314/335, paralelamente ao governo do imperador Constantino. Silvestre em seu período foi responsável por uma formação eclesiástica de maior independência da igreja, vivendo na época grande influencia da tradição imperial romana onde o imperador se achava legitimo Pontífice maior, dominador da igreja ou qualquer outra organização religiosa. O espírito de paz e tranquilidade do Papa Silvestre conseguiram bom diálogo e apoio de Constantino que autorizou a edificação da basílica de São Pedro. No clima de simpatia deu-lhe também o palácio Lateranense, morada dos papas por muitos séculos.
A primeira Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém teve início de construção em 326 por ordem do Imperador Constantino, graças à relação cordial com Silvestre. Ela foi erigida no sítio de um templo e santuário romano do século II que, segundo uma tradição local, tinha sido construída sobre o lugar onde Jesus fora crucificado e sepultado.
O dia 25 de Dezembro, como suposta data de nascimento de «Jesus», foi fixado em 320, pelo papa Silvestre І. As datas do nascimento tinham variação conforme as interpretações à época vigentes. No início do séc. III festejava-se em 20 de Maio, mas também houve calendários que apontavam para 28 de Março. 25 de Dezembro era o dia pagão em que se celebrava o nascimento de Mitra, festividade oficial.
Símbolos marcantes pontuam as festividades do Natal. Estrelas: os Reis Magos para adorar Jesus em Belém tiveram como guia a Estrela do Oriente. Sinos: mensageiros de notícias na antiguidade sendo hoje usados em todas as festas e cerimônias religiosas. No Natal obedece ao ritual especial anunciando o nascimento do Menino Deus. Árvore de Natal: Ela simboliza a vida tendo sido escolhido o pinheiro por nunca perder folhas e verde mesmo no inverno. A lenda informa que Martinho Lutero, -1483/1546- Eisleben, Alemanha, monge agostiniano, teólogo, reformista da Igreja Católica, “Pai do Protestantismo” - foi seu introdutor na festa natalina com enfeites e bolas coloridas significando os frutos da árvore viva que é Jesus. Música: embora uma extensa variedade de melodias circule o mundo no Natal, no Brasil especialmente duas - universais -Jingle Bell de 1857, a mais festiva, no entanto, sem aludir ao nascimento de Jesus são repetidas anualmente. Traduzida em vários idiomas a volta do mundo portadora de grande ternura, “Noite Feliz” composta há quase dois séculos -192 anos - na Áustria, pelo padre Joseph Mohr em parceria com o celebre Franz Gruber.
O presépio, símbolo absolutamente cristão, é deles o mais significativo. Quem mais difundiu o culto do presépio foi São Francisco de Assis. Em 1224, na cidade de Greccio, montou o primeiro com a cena da manjedoura repleta de feno, o asno e um boi de verdade. No século 8 a Igreja de Santa Maria de Maggiori, próximo à estação Roma Termini, no centro velho de Roma, montou em madeira o ambiente de nascimento de Jesus.
Transformou-se em costume dos povos o culto do presépio como incentivou São Francisco de Assis. Em Franca, Thomaz Tardivo, um fiel seguidor dos princípios, se dedica ao carinho de cuidar e aprimorar o projeto que estabeleceu há 55 anos, anualmente, no Clube dos Bagres, para encantamento de tantos que o visitam.
Papai Noel, cuja história todos conhecem, entre as crianças, simbologia mais expressiva com seu trenó e sacos vermelhos carregados de presentes, ainda permanece para muitos o sonho de esperanças que nunca deve abandonar os sentimentos humanos.
A retrospectiva aqui deixada tem o propósito de acordar relações urbanas em um mundo conturbado, repleto de mutações que o homem vai aceitando sem refletir na urgência de paz e perdão, entendimento e amor entre os povos. Estamos festejando o aniversário de Jesus Cristo. Pensemos nele convidando-o para a festa a presidir nossa reflexão.
Não fiquemos ocupados somente com o desfrute de prazeres comuns o ano todo. Feliz Natal!__________________________________________
Garcia Netto é jornalista, radialista e escritor francano. Autor do livro "Filhos Deste Solo" - Medicina & Sacerdócio.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

NATAL, A FESTA QUE NÃO
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.HOUVE PARA ESSA GENTE

O relógio na parede do quartel da 1ª Cia Independente de Bombeiros de Santo André está marcando 12 horas e dez minutos. O único ruído que se houve é de um rádio de pilhas dentro de uma cabine onde um soldado faz plantão ao lado do telefone. O quartel está bem iluminado e se pode ver uma carreira de caminhões vermelhos equipados para serviços. Sentado num desses caminhões, sozinho, está o sargento Sillos, comandante de prontidão na noite de Natal. O sargento Sillos é um homem baixo, forte e bem disposto. Dos seus 41 anos de idade, 10 já foram dedicados ao Serviço de Salvamento do Corpo de Bombeiros. Ele é quem mergulha, com qualquer temperatura, para retirar cadáveres ou localizar objetos no fundo dos rios. Mas também foi o homem que – apesar dos seus 105 quilos – emendou uma escada comum, de alumínio, à escada magirus para alcançar a cruz no alto da Igreja do Carmo e ali subir para trocar as lâmpadas que há muitos anos estavam queimadas. O sargento Sillos é o bombeiro que se acostumou a ver muitas coisas tristes, mas mesmo assim lembra com emoção do incêndio do Clube dos 28, em São Paulo, ocorrido durante um baile em 1953. Naquela noite ele viu a morte de 71 pessoas.
Recorda, ainda, neste mesmo ano, do choque entre dois bondes na esquina da rua Lavapés com Conselheiro Furtado, em São Paulo. Os passageiros, homens, mulheres e crianças, tinham que ser retirados dos destroços. Alguns gemiam muito. Outros já estavam mortos. E era dia de ano novo.
Dona Margarida é a esposa do sargento Sillos. Os filhos são quatro: Sidnei, de 15 anos; Sidmar, com 14; Sidmeire, de 12 e Sidval, com 6 anos. Ele nunca passou um Natal com sua família. Sempre participa de uma ceia com seus colegas no quartel. Acha isso muito triste e procura se conformar.
Caminha na noite pelo pátio do quartel silencioso, olha para a árvore de Natal iluminada que acende e apaga luzes coloridas. Ele é um bombeiro. Por isso sabe que alguma coisa está para acontecer.

Queridos amigos do Blog do Edward de Souza:
O texto acima foi a primeira parte de uma reportagem que produzi rodando por Santo André na noite de Natal de 1969. Ao meu lado, o então iniciante e hoje famoso fotógrafo Pedro Martinelli. A matéria foi publicada três dias depois, no “Diário do Grande ABC” de 27 de dezembro, com o título “Natal, a festa que não houve para essa gente”. Com ela, tirei primeiro lugar num concurso de reportagens promovido pela Prefeitura de Santo André, com o patrocínio de um banco. Com a grana, 500 cruzeiros novos, a moeda de então, paguei metade de um Gordini usado que comprei em sociedade com meu irmão, o Rubem Mauro, também jornalista e escritor, e que era o “secretário de redação” do Diário, cargo que hoje corresponde ao de editor-chefe. Nossa redação era na famosa “casinha”, na rua Catequese. A matéria foi longa. Escolhi aqui para o blog só a primeira parte. Mas eu contava também sobre Lázaro, um taxista; Ramon, um policial civil de plantão na delegacia; sobre o casal Dirceu e Antonia, garçons; e dona Lucila, enfermeira do Pronto Socorro de Santo André.
Não tenho a menor idéia onde possam estar todos eles hoje. O sargento bombeiro Sillos estaria com 81 anos. Desejo muito que ainda vivo, com saúde e feliz. Foram meus heróis numa noite de Natal que ajudou a sedimentar minha carreira e se tornou inesquecível em minha vida. Como eles, eu também estava trabalhando, com o dedicado e vibrante Pedrão. Percebam, são 40 anos depois. Não me perguntem da minha emoção, naquela noite e hoje. Por mais que tentasse, seria impossível contar. Feliz Natal a todos!

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*Milton Saldanha, 64 anos, é jornalista e dono de notável memória, que adora manter sempre viva.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


INFANTICÍDIO
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A história da boneca que virou fantasma e como ectoplasma frio e aterrorizante assombrou dias e noites de uma criança carente e solitária é só um dos aspectos da narrativa que hoje me obrigam a fazer para uma autoridade que insiste em desvendar as origens daquilo que muitos chamam de crueldade diante do mundo e indiferença pelas pessoas. Não, tento gritar pela milésima vez. Não, não e não. Não nasci assim, debochada e cruel para com a dor alheia, a miséria humana e o vale tenebroso onde repousam insepultos todos os sonhos um dia sonhados e jamais realizados.
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Também não fui esculpida aos poucos, pelo dia-a-dia daqueles que jamais souberam porque o sol desponta todas as manhãs e em seguida dá lugar à noite, uma sucessão de idas e vindas sem qualquer sentido ou vantagem para os que são meros espectadores dessa e de tantas outras alquimias insondáveis da existência.
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É preciso contar desde o início, isto é, se realmente meu relato tiver alguma importância na ordem das coisas de qualquer lugar deste planeta. Enfim, se é assim que esperam, pouco me importa dizer que nasci sorrindo. E essa história sempre foi contada entre parentes e conhecidos. Cheguei invertendo a ordem das coisas, pois só mais tarde vim a saber: todas as gentes nascem chorando. E eu cheguei rindo. Acho que foi para depois poder chorar tudo o que choro sem direito a reclamar de nada.
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Gastei meu cacife logo de cara, uma espécie de tesão incontrolável pela felicidade, o gozo e o prazer que até hoje me persegue e nunca consigo realizar. É o fantasma da boneca me espreitando pela vida afora em todos os desvãos, em qualquer esquina, até mesmo nas ondas do mar, nas tardes que deveriam ser de prazer e só terminam em mais ansiedade e vazio.
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Estou falando demais, tenho consciência disso, mas não posso resistir. Cheguei até aqui depois de muito percorrer caminhos, tentar atalhos, ralar os joelhos nas pedras e arder de borbulhas pelo corpo inteiro, ânsia incontrolável de alguma coisa que não sei o que é, mas tento materializar em objetos de desejo. Todos, até estranhas engenhocas para fazer pães de minuto a cada manhã, sobre a mesa do café daqueles que a adquirirem nos magazines, em dez prestações, sem nenhum acréscimo.
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Sim, sei que até nisso sou modesta, pequena e acanhada. Deveria ter a mesma comichão sonhando com carros, transatlânticos, hotéis principescos e acabo desejando algumas panelas vistosas e a tal máquina de fazer pão. Devo reconhecer que me contento com pouco. Tudo, qualquer geringonça me fascina. Menos bonecas. A essas tenho o horror mais sanguinário deste mundo. Bonecas e filhos, também é bom confessar, embora, quanto a esses, não goste de falar muito. Até porque já foram três que não se aguentaram em meu corpo por mais de algumas semanas. Foram eles que não gostaram de mim, é bom deixar claro.
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A mesma história da boneca, que preferiu ficar no lixo, virar fantasma antes de correr para meus braços até ser, quem sabe, destroçada por meus beijos. Em seu lugar, como presente de Papai Noel, chegou uma caixa. Aquela tantas vezes cobiçada nas vitrines das lojas e nos braços das crianças felizes. A mesma que inundava meus sonhos e fantasiava meus dias. Até que chegou a hora.
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Nenhum velhinho escalou chaminés ou trepou pelos muros. Foi mesmo minha mãe, indiferente como sempre que, determinado dia, chegou abraçando a tal cobiçada caixa e me entregou dizendo ter encontrado o presente no lixo. Assim, da mesma forma como estou contando agora. No lixo. No primeiro momento isso não teve a mínima importância. Afinal, fosse como fosse, minha vez tinha chegado.
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Só comecei a chorar e soluçar pela vida inteira depois que abri o pacote. Estava vazio. Vazio como ficou durante toda a minha infância, sobre o pequeno e modesto guarda roupas, o fantasma da boneca debochando e rindo das minhas lágrimas. Da Papinha, era esse o nome do brinquedo, só o espectro, o vazio e a ausência.
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Veja bem, doutor. Hoje não dou a mínima importância para isso, só estou contando porque o senhor disse que lembranças da infância talvez possam melhorar essa comichão que me sobe pelas entranhas, inunda meu cérebro e me faz desejar panelas, fornos de micro-ondas e máquinas de fazer pão. E gastar tudo o que tenho e o que não tenho para alcançar um tesouro que nem eu mesma sei o que é.
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Para ser sincera e concluir essa conversa, penso que a única vingança que valeria a pena seria destroçar esse tal de Papai Noel, arrancar barba, cabelo, boné, rasgar suas roupas escandalosas e atirar tudo no monturo de lixo onde ele achou a caixa e a boneca fantasma há tantos anos.
Minha mãe? Ah! Há muito tempo não sei nada dela, nem onde anda, se ainda vive ou já morreu. Para falar a verdade, nem lembro mais de sua cara.
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Virgínia Pezzolo é jornalista, advogada e escritora. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Autora do livro Procissão do Silêncio, publicado em 2006.
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