quinta-feira, 9 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XX
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO VII
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Foca preso durante reportagem
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Edward de Souza
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Tenho em geral simpatia pelo foca. Invariavelmente se incumbe das matérias mais chatas e é depreciado e fofocado entre os outros jornalistas. É um eterno curioso, e essa é uma de suas qualidades mais fecundas. Em geral, o foca não é contratado logo de cara. Passa por um período de experiência na empresa e, se der certo, tem grandes chances de integrar o time da redação. Isso aconteceu com Amilcar - nome real - quando apareceu para fazer um teste no Diário do Grande ABC, na metade dos anos 70. Formado recentemente em jornalismo, na prática nunca tinha entrando numa redação. O Claudio Maiato era o secretário do jornal, já em suas novas e modernas instalações na Rua Catequese. Carioca e brincalhão, Maiato era um velho jornalista experiente. Trabalhou em grandes jornais, entre eles Última Hora e Folha de São Paulo. O jovem Amilcar foi apresentado ao Maiato pelo Fausto Polesi, diretor do jornal e um dos proprietários. Amilcar tomou um "chá de cadeira" de umas duas horas, enquanto Maiato participava de uma reunião de pauta do jornal. Fiquei penalizado ao vê-lo deslocado e me aproximei para uma conversa. Tímido, contou que seu grande sonho era ser jornalista e com sacrifício havia concluído o curso. Convidei-o para tomar um café, dei-lhe alguns conselhos e mostrei que poderia contar comigo para ajudá-lo no que fosse preciso. Percebi que ele ficou mais calmo depois daquele papo descontraído. Amilcar não sabia em que setor do jornal seria aproveitado, mas, pela minha experiência, logo imaginei que Maiato o jogaria na editoria de polícia. Os velhos chefes de redações daqueles tempos gostavam de fazer isso. Entendiam, com razão, que a reportagem policial era uma escola para se formar um bom profissional, até porque o obriga a conviver com todas as camadas sociais. Não deu outra. Amilcar foi apresentado ao Renato Campos, editor de polícia, para fazer uma experiência no setor. Estávamos no mês de dezembro e as festas natalinas se aproximavam.
É sabido que pato novo, em redação, não dá mergulho fundo. Isso significa que, nas divisões de tarefas, foquinha sofre. Por exemplo, no fim do ano, metade da redação trabalha no Natal e a outra parte no Ano-Novo. Esses dois lados se alternam ano a ano, mas o recém-chegado não tem escolha: vai ficar obrigatoriamente com o Réveillon, o feriado mais odiado, já que é quando se quer dormir mais tarde e encher a cara, entre outras coisas. De cara Renato escalou Amilcar para o plantão do final de ano. O comando da editoria ficaria em minhas mãos, Renato estava com viagem marcada para o Rio de Janeiro, a passeio. Na véspera de ano novo tocou o telefone na redação. Era do primeiro distrito policial de Santo André. Do outro lado da linha o delegado José de Arimathéia me informava que um perigoso assaltante havia sido preso de madrugada, depois de troca de tiros com policiais. Provisoriamente ficaria detido naquele distrito, aguardando sua remoção para um presídio de maior segurança. O 1º DP de Santo André abrigava, naquela época, apenas duas celas, localizadas num corredor dos fundos, onde enormes e pesadas portas impediam o acesso a elas. Não se ouvia nenhum ruído, mesmo se por algum motivo os presos se rebelassem. Conversei com o editor chefe sobre o caso em voz alta. Amilcar ouvia atento. Quando me sentei, ele se aproximou e se ofereceu para cobrir o caso. Estava agitado e mostrando uma disposição incomum. Pensei por alguns segundos e decidi dar essa chance ao jovem repórter. Orientei-o antes, dizendo que seria de importância ouvir o marginal, tirar detalhes de sua prisão e pedir ao fotógrafo para tirar o maior número de fotos possíveis. Entusiasmado, Amilcar sacou algumas laudas, dobrou-as e com a requisição assinada foi em busca do carro de reportagem com o fotógrafo. Sai para o almoço, certo de que tudo iria correr bem, pela disposição que percebi em Amilcar. Voltei duas horas depois e nada de repórter. Liguei para o laboratório fotográfico e fui informado que as fotos do marginal estavam prontas. Amilcar havia ficado no distrito. Tinha conseguido autorização do delegado para entrar na cela e entrevistar o marginal. Ligaria quando terminasse para que o carro fosse buscá-lo. O tempo passava e nada de ligação. Fui ficando nervoso, tinha que fechar a página e pensava em fazer isso mais cedo, era final de ano e ninguém é de ferro. Liguei para o distrito. O doutor Arimathéia não estava. Falei com o escrivão de plantão, se não me engano era o Zamana, hoje delegado de polícia. Não sabia de nada nem tinha visto repórter nenhum por lá. Desci imediatamente, entrei no carro do jornal e corri ao distrito. O doutor Arimathéia estava chegando. Perguntei a ele sobre o repórter e o delegado ficou branco, percebi. Levou as mãos à cabeça e exclamou: “Meus Deus, esqueci o rapaz na cela”. Saímos os dois correndo. A cena que encontrei não esqueço nunca. Agarrado às grades, Amilcar parecia um macaco pendurado num galho. Estava roxo, certamente de tanto gritar. Nos fundos, o marginal dormia tranquilo, sem se importar com os berros do jovem foca. O delegado abriu a cela libertando Amilcar e pediu desculpas. Apavorado, cabelos desalinhados, Amilcar correu para fora e entrou no carro do jornal, me esperando. O delegado se justificou, contando que Amilcar queria de qualquer forma entrevistar o assaltante, seguindo orientações que tinha recebido minhas. Por isso, como não podia tirar o preso da cela e correr o risco de uma fuga, o delegado deixou o repórter com o preso, na promessa de voltar e tirá-lo de lá em 10 minutos. Esqueceu-se.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Em virtude do feriado da Semana Santa, a série “Histórias das redações de jornais” continua na próxima segunda-feira, com mais capítulos de "focas do jornalismo". Amanhã escrevo um artigo especial sobre a Páscoa. Não deixem de ler e participar.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XIX
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”

CAPÍTULO VI
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O porre do foca Petrúcio
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Édison Motta

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O nome é fictício. Insisti com o personagem real desta história para que ele próprio a redigisse. Ele se acanhou. Talvez não queira relembrar fatos de seus primórdios porque, depois que se consagrou no jornalismo, passou inclusive a lecionar numa renomada faculdade de nosso País. Portanto, vamos chamá-lo de Petrúcio. Porque o nome original é também assim, inusitado, começando com a letra “P”.
Naqueles idos do começo da década de 70, a redação do Diário do Grande ABC apertava-se naquela que, com carinho, denominamos “casinha”. O jornal experimentava um grande progresso. Crescia com a região, nos anos do “milagre brasileiro”. Páginas e páginas de anúncios - havia um caderno só com anúncios de empregos! - se avolumavam. Para preencher o espaço, cobrava-se cada vez mais da redação. O limitado quadro de repórteres não dava conta. Precisávamos, urgentemente, encontrar jornalistas. Eu era o chefe de reportagem. Aos 20 anos, após ter iniciado no jornalismo diário no próprio Diário do Grande ABC, saído para trabalhar na Folha de S.Paulo durante quase um ano e retornado para assumir o novo desafio. Uma tormenta, porque todos os demais integrantes da equipe por mim chefiada eram mais velhos. Rejeição à vista. Mas esta é outra história. Fiquemos com o Petrúcio.
Certo dia, o Fausto Polesi, diretor de redação, chamou-me à sua sala. Estava com um recorte, a coluna de filatelia do jornal. E disse: “olhe, o rapaz escreve, até que bem, a coluna. Quem sabe não pode ser um repórter?” Passou-me o telefone do Petrúcio e eu entrei em contato, solicitando que ele viesse à redação no dia seguinte. E assim aconteceu. Conversamos um pouco, dei-lhe uma pauta (não lembro o assunto) como teste e voltei à efervescência de comandar minha equipe de repórteres da geral (hoje setecidades). Passou a tarde inteira e o Petrúcio não voltou. Quando chegou, enrolou-se todo e não conseguiu escrever a matéria. Envolvido com o fechamento da edição, não dei conta do que estava acontecendo. No dia seguinte a mesma cena: nova pauta e nova “enrolação”. Como o rapaz já tinha uma coluna, procurei evitar o desgaste que seria criado com a direção do jornal. Fui-lhe dando, durante uma semana, seguidas pautas. E a cena repetia-se dia após dia: o Petrúcio saía à rua, com carro e fotógrafo, mas “travava” na hora de redigir o texto. Certo dia, já com a paciência em frangalhos, dei-lhe outra pauta. Havia reclamações de leitores do jornal (naqueles tempos, sem internet, eles eram até mais participativos, com cartas e telefonemas do que nos dias atuais) de que o bar da estação estava precário em matéria de higiene. E que algumas pessoas foram contaminadas pela má qualidade dos lanches ali servidos. Tratava-se de um antigo bar, localizado no mesmo prédio da antiga estação ferroviária de Santo André.
Escalei o Petrúcio. De novo, passou a tarde inteira e nada do Petrúcio voltar. Quando ele finalmente chegou exalava um forte cheiro de álcool. Não havia dúvidas: estava embriagado. Perdi a paciência. Disse a ele: Sente-se e escreva a matéria. É a sua última chance. Se desta vez não sair, adeus vaga. Vou contratar outra pessoa em seu lugar. E voltei aos meus afazeres. Qual não foi minha surpresa quando, algum tempo depois, chega o Petrúcio cambaleante e entrega a matéria. Comecei a lê-la. Estava lá, inteira, completa. Com começo, meio e fim. E eu sabia: foi ele mesmo quem fez porque, de longe, observava seu pestanejar sobre o teclado da antiga máquina de escrever.
Publiquei a matéria e contratei o Petrúcio. Especialmente porque fiquei sabendo depois, pelo fotógrafo que o acompanhou, que ele caiu numa armadilha preparada pelo José Marqueiz, recentemente falecido, Prêmio Esso de Jornalismo Nacional pelo estadão em 1975. O Marqueiz nesta época trabalhava na sucursal ABC do estadão. Era freqüentador e amigo do dono do sujinho da estação. Petrúcio não o conhecia, mas ele estava lá quando chegou com a pauta. Percebendo que a matéria iria “sujar” a reputação do amigo, Marqueiz seduziu o foca com suas incríveis histórias do Xingu, onde passou um bom tempo ao lado dos irmãos Villas Boas e que lhe valeram a matéria do Prêmio Esso. Ocorre que o Petrúcio não bebia. Sua tolerância ao álcool era mínima. Uns dois goles e já ficou de porre. Assim mesmo, voltou à redação para tentar escrever a matéria. E conseguiu! No dia seguinte, ainda de ressaca, Petrúcio ouviu um discurso que fiz para toda a redação: “Olhe aqui, Petrúcio. Depois desta matéria, que você conseguiu escrever de porre, não tem mais desculpa. Se necessário, fazemos uma vaquinha para colocar uma garrafa de uísque ao seu lado. Está contratado!”
Com o tempo, Petrúcio destravou por completo. Consagrou-se um dos melhores repórteres do jornal. Meu braço direito na produção de pautas. Revelou-se, também, um professor inato. Ajudou - sem álcool - muitos focas que, assim como ele, fizeram sucesso no jornalismo. E, depois de algum tempo na redação, onde publicou históricas reportagens assinadas, foi lecionar na faculdade.
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Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.

terça-feira, 7 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XVIII
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SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO V
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Foca "mata" cinco
para ganhar manchete
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Oswaldo Lavrado
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É inegável que uma redação de jornal já teve muito mais charme, hoje perdeu boa parte de sua "aura". Mas, um jornal sempre precisará de bons repórteres, que saibam apurar e escrever com talento. Todo jornalismo se propõe a investigar, e uma das qualidades que caracteriza um bom repórter é este sexto sentido, aliado a uma boa dose de ceticismo. Ele não sabe, não crê, e são suas dúvidas que vão levá-lo a ter sucesso na apuração, ou então fracassar e receber o desprezo da chefia do jornal, exatamente o caso relatado nesta terça-feira pelo jornalista e radialista Oswaldo Lavrado, que tira do fundo do baú esse relato envolvendo um principiante no jornalismo, ou foca, como é mais conhecido, de nome Mazolla. Acompanhem o relato de Lavrado ao blog.
Começo dos anos 70, o Dersa - Desenvolvimento Rodoviário S.A. - construía a primeira pista da Rodovia dos Imigrantes, que liga São Paulo ao Litoral, passando por Diadema e São Bernardo. Uma noite fria de sábado, apenas dois repórteres estavam de plantão no Diário do Grande ABC. Eu (Lavrado), que aguardava os resultados dos jogos de futebol da noite para preencher 40 linhas da página de esportes e o Mazolla, repórter da editoria de polícia, comandada então pelo Renato Campos. O Mazolla era mesmo o que se poderia chamar de foca, já que havia entrado no Diário há poucos dias e nunca tinha trabalhado em outro veículo de comunicação. Por volta das 23h, ele recebe a informação que um dos viadutos (aqueles enormes) em construção na Imigrantes havia desabado. Rápido, acordou o Zé Natal, motorista que cochilava no terraço da casinha, então redação do Diário, e acionou o fotógrafo, que não era outro senão o nosso glorioso João Colovatti. Aboletados no fusca do Diário, os três rumaram para o trecho do acidente na Imigrantes, que fica em São Bernardo. No local, bombeiros, ambulâncias, médicos, polícia, outros trabalhadores da obra e grande volume de entulho do viaduto desabado. Sem muita experiência como repórter, Mazolla perguntou para um “peão” da obra quantas pessoas estavam sob os escombros: "olha moço, acho que morreram uns 10", respondeu o operário sem muita convicção. Colovatti estava ocupado em registrar os "melhores" lances com sua potente Nikon. Sem encontrar nenhum corpo, o matreiro fotógrafo imaginou que se 10 pessoas tivessem morrido, como supunha o Mazolla, os corpos deveriam estar no IML de São Bernardo, já que o trecho acidentado fica no município.
A mando do Colovatti, os três partiram para o IML na Vila Euclides, região central da cidade. Quase uma hora da manhã, apenas uma luz na guarita indicava que havia alguém no IML. Colovatti chamou o vigia que foi até o grande portão. "Por favor, disse Colovatti, chegaram aqui alguns corpos do acidente da Imigrantes?". O vigilante, sonolento, respondeu: “Olha moço, hoje só chegou o corpo de um rapaz esfaqueado no Baeta Neves (bairro de São Bernardo)". Colovatti não acreditou e tentou entrar no IML. Assustado com a parafernália do fotógrafo, principalmente com a Nikon que mais parecia um canhão portátil, o guarda se afastou um pouco e ameaçou: "aqui ninguém entra e se insistir sou obrigado a atirar no senhor", mostrando um revólver calibre 38. Sem alternativa, os três - Zé Natal, Mazolla e Colovatti - retornaram ao Diário, cuja edição de domingo estava para ser concluída. Na redação, Mazolla redigiu, na velha Olivetti, 50 linhas sobre o assunto em questão e correu para a oficina. Chamou o chefe e determinou: "minha reportagem será a manchete da primeira página", e assim foi. Eu já havia encerrado meu plantão e sai com o Colovatti, o Mazolla e o Zé Natal a procura do primeiro boteco aberto na avenida D. Pedro II. Já era madrugada de domingo e ninguém é de ferro. O assunto, até porque o Mazolla não deixava ser outro, foi o acidente e a matéria sobre a queda do viaduto. Mazolla, que como eu residia em São Caetano, foi pra casa, orgulhoso de sua primeira manchete no Diário.
No dia seguinte, domingo, de fato o Diário estampou na primeira página: “Queda de viaduto na Imigrantes deixa 5 mortos”. Receoso que o número fornecido pelo trabalhador da obra não era confiável, o repórter foquinha optou por uma média imaginária e colocou 5 mortos, no chute, como chamamos um texto forçado.
Na segunda-feira, Mazolla chegou de peito estufado para seu trabalho no Diário. Assim que colocou os pés na redação foi informado pela jovem da recepção que deveria ir urgente à sala do José Louzeiro, então chefe de redação do Diário. Certo que receberia fartos elogios do chefão, Mazolla pra lá se dirigiu. Faiscando pelas ventas, Louzeiro recebeu o repórter com um caminhão de pedras nas mãos. "O senhor viu o que fez, leia os outros jornais," fuzilou. Em seguida atirou na direção do trêmulo repórter dois dos principais jornais de São Paulo e do Brasil. Eram essas as manchetes. Estadão: ”Desabamento de viaduto na Imigrantes deixa um morto." Folha de São Paulo: “Viaduto desaba na Imigrantes e mata um." Mazolla, que não havia lido jornais no domingo, a não ser o Diário do Grande ABC, estremeceu. No dia anterior, domingo, fez a festa, mostrando orgulhoso a manchete do Diário, com seu nome estampado abaixo do título, para a esposa e amigos do bairro. Na frente do irado José Louzeiro, com os jornais de São Paulo nas mãos desmentindo sua matéria, estava pálido e não sabia como se safar da situação constrangedora. Antes de sair da sala do chefe recebeu outra incumbência, digna do irritado, mas também gozador chefe de reportagem do jornal. Com o dedo em riste, Louzeiro determinou: "Olha, "sêo" Mazolla, como o jornal não desmente suas notícias, ainda mais uma manchete de domingo, o senhor volte ao local do acidente na Imigrantes e mate pelo menos mais 4 pessoas, para justificar sua brilhante manchete". Renato Campos, que chegava à redação nesse momento, foi quem aliviou a situação do Mazolla que, em verdade, não ficou muito tempo no Diário. Dizem que fez um curso de educação física e foi trabalhar nessa área em um clube esportivo do ABC.
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Oswaldo Lavrado é jornalista e radialista. Comandou durante anos a famosa equipe esportiva “Os craques do rádio”, da extinta Rádio Diário do Grande ABC. Atualmente assina uma coluna esportiva no Jornal Folha do ABC, de São Bernardo do Campo.
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Édison Motta participa nesta terça-feira, às 20 horas, do Programa Show+, veiculado pela Rede TV + (canal 8 na TV a Cabo). O jornalista falará sobre a cidade de Santo André, traçando perfis históricos e atuais da cidade, numa espécie de homenagem que o programa deseja prestar ao município pelos 456 anos de fundação, completados amanhã, quarta-feira. Não percam.
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Edward de Souza.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XVII
*
SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO IV
*
O repórter policial que tinha
medo de cadáveres
*
Edward de Souza
*
Foca na redação é sempre motivo de boas risadas. São tantos os casos que daria um livro. Bom lembrar que foca é o codinome que se dá ao jornalista novato que chega às redações. Nos Estados Unidos, pra quem não sabe, foca é cub, que em inglês significa filhote. Pois bem. O foca, quando chega pela primeira vez a uma redação de jornal e recebe uma pauta para fazer determinada matéria se inquieta: por onde começar? Depois dos primeiros telefonemas, a dúvida: será que escolheu o caminho certo? Como fazer as perguntas adequadas, na hora da entrevista? E se esquecer uma questão crucial? Antes de voltar à redação, a angústia não cessa: estará a apuração correta? Como escrever? Será que o texto vai ser mudado pelo redator? Se estiver errado, quem vai lhe apontar os erros? Até então, acaba encarando essas dificuldades e segue em frente. Dificil é quando um foca decide ser repórter de polícia e tem medo de cadáver.
É esse o caso que vou lhes contar hoje, de um grande amigo jornalista que foi um dia um foca, como todos nós. Uma pessoa extraordinária que chamava a atenção de todos pelo seu peso e tamanho. Conheci o Luiz Antonio, que mais tarde receberia o apelido de “Bola”, nos anos 70. Nessa época o Diário do Grande ABC tinha três repórteres policiais. Renato Campos, que acumulava a função de editor de polícia, o Arlindo Ribeiro, mais conhecido como Ligeirinho e eu. Pouco para um jornal que cobria as sete cidades da região. A direção do jornal resolveu contratar mais um repórter policial para nos ajudar. Lembro-me que numa segunda-feira entrou na redação um jovem com dois metros de altura e pesando cerca de 140 quilos, barbudo, procurando pelo Renato Campos. Era candidato a vaga de repórter de polícia, fiquei sabendo ao conversar com ele. No mesmo dia esse repórter saiu com um fotógrafo, sorte dele, não era o João Colovatti, para cumprir uma pauta que serviria como teste para sua contratação, caso fosse aprovado o seu trabalho. Com o seu tamanho, impressionou o delegado de plantão no distrito central de Santo André, o saudoso amigo William Sanches Lino. Brincalhão, o doutor William levantou-se da cadeira para o jovem repórter se sentar, fiquei sabendo mais tarde. E justificou: “vai que ele fica bravo e parte pra cima de mim, nem minha automática vai dar conta dele.” Luiz Antonio seria batizado naquele dia, no distrito, pelo delegado Sanches Lino, que me ligou na redação perguntando: Edward, quem é esse “Bola” que vocês mandaram aqui na delegacia?” Comecei a rir e quando o jovem repórter chegou passou a ser chamado de "Bola", por mim e pelo Renato. Tranquilo e sorridente, assumiu o apelido numa boa. Foi contratado, não pela sua capacidade como repórter de polícia, mas pelo seu jeito camarada e amigo que conquistou toda a redação. Estávamos dispostos a ajudá-lo e, com o tempo, certamente seria um bom repórter de polícia. Um belo dia ocorreu um tiroteio entre policiais e bandidos. Três marginais foram mortos e seus corpos estavam caídos num terreno baldio, na Vila Luzita, em Santo André. O “Bola” estava de plantão e foi incumbido pelo Renato Campos de correr com o fotógrafo para flagrar detalhes antes da chegada do carro funerário. Enrolou, ficou vermelho e começou a passar mal. Aquele brutamontes correu ao banheiro e começou a vomitar. Sem alternativa, eu e o “Ligeirinho” não estávamos na redação, Renato Campos foi cobrir a matéria. Mais tarde, interrogando o “Bola”, Renato ficou sabendo que sua nova contratação tinha medo de cadáver. Aproximar-se de um morto, nem pensar!
Essa agora, pensou Renato. Um repórter de polícia com medo de cadáver. Como todo bom carioca, Renato Campos era e é até hoje um brincalhão. Passou a escalar o “Bola” apenas para cobrir acidentes de carros e motos, sem vítimas fatais claro, e copiar ocorrências em distritos policiais. Colocou na cabeça que tiraria do “Bola”, aquele bruta homenzarrão, o medo de se aproximar de um cadáver. Certo dia o jornal foi convidado para participar das solenidades da inauguração do IML de São Bernardo. A pauta foi enviada à Editoria de Polícia. Era a chance que Renato esperava. Dias antes foi ao IML e conversou um bom tempo com o médico legista que iria comandar essas novas instalações naquela cidade. Mesmo antes da inauguração, o IML já recebia cadáveres, não tinha como aguardar o corte simbólico da fita para então começar a funcionar. “Bola” foi escalado para cobrir a inauguração. Para que não se melindrasse só de ouvir o nome IML, fomos juntos com o “Bola”, eu e o Renato Campos, com a desculpa de que iríamos apenas participar do coquetel que aconteceria depois da inauguração. Quando chegamos o ambiente era festivo, com a presença do Prefeito da cidade e muitos políticos. Animado, “Bola” acabou se descontraindo e ficou à vontade. Tanto que aceitou o convite do legista-chefe para conhecer outras dependências do IML. Os dois entraram na sala onde ficam as gavetas, destinadas a cadáveres sem identificação. Eu e o Renato, disfarçados, seguimos os passos do “Bola” e do legista. O então jovem foca imaginava que, por ser a inauguração, nenhum cadáver tinha sido levado para lá, até então. Para demonstrar uma coragem que não tinha, se aproximou das gavetas. Era a “deixa” esperada pelo legista, de acordo com o combinado com Renato Campos. O médico acionou um dispositivo e as gavetas com cadáveres saltaram, chegando a bater nos joelhos do pobre repórter. Apavorado, “Bola” soltou um grito que ecoou pelas instalações do IML, assustando todos os presentes. Em seguida, jogando tudo o que carregava nas mãos ao solo, empreendeu uma corrida digna de um queniano, campeão da São Silvestre. Derrubou mesas e cadeiras e desapareceu. Dois dias depois foi ao jornal, pedir demissão. Renato Campos não aceitou e encaminhou “Bola” para outra editoria do jornal, onde se deu bem na nova função e seguiu uma brilhante carreira.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Oswaldo Lavrado lembra, no capítulo de amanhã, o caso do foca Mazzola que resolveu aumentar o número de mortos num acidente durante a construção da Rodovia dos Imigrantes. Deu o que falar!
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

ARTIGO ESPECIAL: EU VINGO... TU VINGAS...

J. Morgado

Presente do Indicativo do verbo Vingar é o título deste artigo. O infinitivo é “Vingar”. Essa palavra se tornou tão vulgar e tão inconseqüente nos dias de hoje que nos causa espécie ver e ouvir profissionais do meio de comunicação usá-la com freqüência. “A equipe brasileira terá oportunidade de se vingar dos...”. “... finalmente chegou a grande oportunidade”. Os... Poderão se desforrar da última derrota sofrida em junho de 2... O vocábulo VINGANÇA: 1 – Ato ou efeito de vingar (-se); desforço, desforra; vindita (Dicionário Aurélio). Essa expressão e seus sinônimos são usados comumente pela população de uma maneira tão corriqueira que ficamos a pensar: “quanto tempo ainda levará para que esse desejo seja totalmente erradicado da face da Terra?”
“O esquecimento mata as injúrias. A vingança multiplica-as.” Esse pensamento é de Benjamin Franklin, estadista, cientista, escritor e inventor norte-americano (1706/1790). Muito antes do advento de Jesus os filósofos já se referiam aos males causados pela vingança. O Mestre ratificou e foi além nos mostrando que devemos amar nossos inimigos. Nos vinte séculos que se seguiram os resultados nefastos (guerras, morticínios, duelos, etc.) nos mostraram o resultado calamitoso das vinganças, desforras...
Nós espíritas sabemos muito bem o que acontece com espíritos vingativos. Sofremos influência e influenciamos, ou seja, somos vítimas e algozes, dependendo do lado em que estamos. De qualquer forma há sofrimento tanto de uma como de outra parte. A paz que tanto almejamos jamais chegará a ser alcançada se conjugarmos o verbo vingar, no presente indicativo. Talvez, quando começarem a pensar no Imperativo negativo: não vingues tu, não vingue ele, não vinguemos nós, estaremos caminhando a passos largos para um mundo em regeneração. Infelizmente o homem usando de seu livre-arbítrio, inventou e deturpou todos os ensinamentos que nos foram legados. Na sua ânsia pelo poder não tiveram escrúpulos para mentir a fim de atingirem seus objetivos. Em nosso dia-a-dia, criamos situações que nos levam a um interminável moto-contínuo. Violamos as leis divinas e a dos homens todos os dias. O revanchismo é tão vulgar que nem nos apercebemos que o estamos praticando. Como exemplo pode-se citar várias situações: o vizinho varrendo o lixo para nossa porta e nós, “fulos da vida”, varrendo-o (o lixo) de volta. Sermos ofendidos no trânsito e respondermos com a mesma violência; ocuparmos uma vaga no estacionamento destinada a deficientes físicos e ainda criarmos caso com o guarda quando somos abordados. Estacionar em guias rebaixadas defronte a entrada e saída de residência, de hospitais, escolas..., ignorando o direito do próximo. Cada um desses casos, entre outros, criam outros tantos episódios. O vizinho, que teve seu lixo de volta, revolta-se! O ódio gera uma série de represálias tanto de uma parte como de outra. Uma simples conversa de pessoas que se dizem civilizadas e o que seria ainda mais importante, cristãs ou outra doutrina que prega a paz e o amor resolveria o fato.
No trânsito, jamais devemos revidar os insultos. Cada vez que isso acontece, é o orgulho que está falando mais alto, e a vingança nada mais é do que uma poderosa arma desse cancro moral. Um revide poderá gerar ferimentos ou um homicídio que trará conseqüências funestas no campo material (vinganças sucessivas) e muito pior ainda em prejuízo de resgates “cármicos” e evolução espiritual. As vinganças domésticas, aquelas inseridas no dia-a-dia de todos nós, devem ser combatidas constantemente. Fazendo isso, cada um de nós estará contribuindo para a paz mundial. Teremos um país melhor, um mundo melhor... Não importa a religião professada. O cristão tem o Código Divino ou o Segundo Testamento para orientá-lo. A prática do Evangelho no Lar, pelo menos uma vez por semana, é um remédio salutar para melhorar a moral e conseqüente evolução espiritual. Outras religiões voltadas para Deus também tem seu código de procedimento e ao que me consta muito bons.
No Capítulo XII, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, AMAI OS VOSSOS INIMIGOS, item 9 – A VINGANÇA – (edição IDE/84), destaca-se o seguinte trecho: “a vingança é uma inspiração tanto mais funesta quanto a falsidade e a baixeza são suas companheiras assíduas; com efeito, aquele que se entrega a essa fatal e cega paixão não se vinga nunca a céu aberto. Quando é o mais forte, precipita-se como um animal feroz sobre aquele que chama seu inimigo, quando a visão deste vem inflamar sua paixão, sua cólera e seu ódio. Mas, o mais freqüentemente, ele reveste uma aparência hipócrita, em dissimulando, no mais profundo do seu coração, os maus sentimentos que o animam; toma caminhos escusos, segue na sombra seu inimigo sem desconfiança, e espera o momento propício para atingi-lo sem perigo; esconde-se dele, espreitando-o sem cessar; arma-lhe emboscadas odiosas e derrama-lhe, chegada à ocasião, o veneno no copo (...)”. Mais adiante, no parágrafo seguinte: “Para trás, pois, com esses costumes selvagens! Para trás com esses usos de outros tempos! Todo espírita que pretendesse, hoje, ter ainda o direito de se vingar, seria indigno de figurar por mais tempo na falange que tomou por divisa; Fora da caridade não há salvação!”...). Não vingueis vós, não vinguem eles...
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*J. Morgado é Jornalista e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico: jgacelan@uol.com.br
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Neste sábado o quarto capítulo inédito de "Trapalhadas de um foca", na sequência da série "As histórias das redações de jornais". Acompanhe o caso verídico de um jovem repórter de polícia que tinha medo de cadáver. Imperdível. (Edward de Souza)
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS


INÉDITO
PARTE XVI
*
SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO III
*
INCÊNDIO NA VOLKSWAGEN
Edward de Souza
*
Entre as coisas que mais me enchem de orgulho, ao longo da carreira, destaco o meu relacionamento com repórteres, em especial os novatos. Raros eram os contratados nessas circunstâncias, nos jornais que trabalhei que não passavam por minhas mãos. A alegação da chefia era: "O Edward tem paciência de Jó com os focas". Felizmente, tinha mesmo. Com isso, tenho a satisfação íntima de ver, hoje, muito profissional bem-sucedido atuando nos maiores jornais e revistas dos grandes centros do País, que enfrentaram o seu noviciado sob minha batuta. Nem preciso mencionar nomes. Eles próprios, volta e meia, se manifestam, de forma espontânea. Quase todos, no começo de carreira aprontaram das suas, como o caso que relato hoje aqui no blog, neste terceiro capítulo da série “Trapalhadas de um foca” e que se passou no começo dos anos 70, na antiga redação do Diário do Grande ABC. Tentei encontrar a personagem principal do caso, hoje uma jornalista de renome, enviando-lhe um e-mail, mas não veio a resposta até agora. Por isso, sem sua autorização para contar o ocorrido naquela década em que era ainda uma foquinha (principiante) de jornal, resolvi chamá-la apenas de Soninha.
José Louzeiro, hoje famoso escritor e roteirista era o secretário de redação do jornal naquele ano. Creio que depois da saída de Milton Saldanha. Vamos aguardar a confirmação do Milton. Secretário de redação é hoje chamado de editor-chefe. Louzeiro era uma espécie de faz tudo no jornal. Vibrante, orientava repórteres, bolava pautas, escrevia, fazia títulos e até copidescava matérias. Numa manhã chamou à sua mesa a Soninha e lhe entregou uma pauta a ser cumprida. A jovem e principiante repórter deveria entrevistar o velho Martinelli, antigo guardião do acervo da famosa Companhia cinematográfica Vera Cruz, de São Bernardo do Campo, onde foram rodados grandes filmes nacionais. Martinelli estava em novo ramo. Nas proximidades da Via Anchieta, ainda em São Bernardo, ocupando um grande terreno, Martinelli adestrava cães. O que mais chamou a atenção de Louzeiro, ao pautar essa matéria para a Soninha, foi o estardalhaço que Martinelli aprontou no ABC todo. Em qualquer muro ou terreno baldio, ele escrevia com letras garrafais: “adestra-se cães”. Seu nome vinha abaixo do anúncio. Pois bem. Orientada pelo mestre Louzeiro, Soninha deixou a redação para cumprir sua missão. Voltou desconsolada no final da tarde. Louzeiro se aproximou da jovem repórter para saber a razão de tanto desânimo. Cabeça baixa, Soninha explicou que não conseguiu, mesmo tentando de todas as formas, chegar ao endereço indicado e entrevistar Martinelli. Louzeiro, paciente com os foquinhas - tinham muitos na redação naquela época - procurou acalmar Soninha, para que ela contasse porque não conseguiu chegar ao terreno onde Martinelli adestrava cães, afinal, por todas as partes existiam setas indicando o caminho. Bastava segui-las. Como a jovem repórter estava nervosa, Louzeiro foi buscar um copo com água e entregou a ela. Trêmula, Soninha bebeu vagarosamente o líquido, enquanto Louzeiro esperava pacientemente sua recuperação. Afinal, pensava ele, o que teria ocorrido de tão grave que deixou aquela jovem repórter tão assustada? Um grande congestionamento de veículos, pensou Louzeiro. Acidente na Via Anchieta que impossibilitava a passagem de carros? Soninha se levantou, quase recuperada, descartando todas essas possibilidades e, com voz trêmula, sentenciou: “não passamos porque estava pegando fogo na Volkswagen”. Louzeiro quase caiu de costas. Quem precisou de um copo de água foi ele, tal o susto que levou ao saber que sua repórter deixou de cobrir um incêndio numa das maiores montadoras do País, para tentar entrevistar um adestrador de cães. Aos gritos, Louzeiro convocou todos os repórteres e fotógrafos que tinha disponível e ordenou: “corram todos, pelo amor de Deus. Está pegando fogo na Volkswagen. Depressa senão vamos todos perder o emprego”. Ainda foi possível ao jornal publicar fotos e boas matérias sobre o sinistro na montadora, mas o gafe da repórter ficou nos anais da história do jornalismo do ABC Paulista.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Nesta sexta-feira você vai acompanhar nesse blog artigo inédito do jornalista J. Morgado. "Trapalhadas de um foca" volta no sábado, em seu quarto capítulo.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XV
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SÉRIE
"TRAPALHADAS DE UM FOCA"

CAPÍTULO II
*
A FOICE DOS MEUS HORRORES
Edward de Souza

Lembro com uma riqueza de detalhes o primeiro dia em que eu fui cobrir uma matéria policial. Foi na metade dos anos 60. Eu tinha apenas 17 anos e já trabalhava como locutor na Rádio Difusora de Franca e de quebra escrevia como “free” para um pequeno jornal semanal da cidade, de nome “O Eco”, onde defendia uns trocados. Certo dia ligaram para a redação da rádio, informando que um crime bárbaro tinha ocorrido numa fazenda. Um lavrador enciumado matou a esposa a golpes de foice. Um dos golpes arrancou a cabeça da infeliz. O gerente da rádio, Luiz Carlos Facury, vendo que meu programa havia terminado, pediu para que eu corresse a essa fazenda, perto de Franca, para trazer detalhes do crime aos ouvintes. A rádio nessa época não tinha viatura, nas emergências usava táxi, mas naquele dia, um amigo do gerente, conhecido como “Chiquinho”, estava na rádio e se ofereceu para me levar com seu “fusquinha” até essa fazenda. Antes de sair liguei para o jornal, que iria circular no dia seguinte. Otávio - já falecido - dono do pequeno tablóide, se entusiasmou, viu ali sua grande chamada de primeira página. Pediu-me que passasse na redação que ele também iria, com uma máquina fotográfica. Eu escreveria o texto. Seguimos para o local do crime. Muita gente reunida, indignação e horror no rosto de amigos e familiares. Repórteres da região estavam chegando, afinal, numa época tranqüila, onde só ladrões de galinhas geravam notícias, esse assassinato era um prato cheio para a Imprensa. Fomos informados que o assassino fugiu após degolar a esposa e que o corpo da jovem mulher já havia sido levado para o necrotério de Franca. Inutilmente tentamos encontrar fotos dos envolvidos nessa tragédia. Todos os documentos estavam com a polícia ou com a funerária. O dono do jornal se impacientou, queria fotos para ilustrar a matéria e não servia apenas aquelas tiradas dos curiosos no local do crime. O jeito seria tentar na delegacia de Franca, junto ao delegado responsável pelo registro do crime. Antes passei um boletim para a rádio. Com a notícia no ar, quando chegamos ao distrito dezenas de pessoas se aglomeravam nas imediações, curiosos em saber mais sobre esse bárbaro homicídio. Furamos a barreira humana e entramos. O delegado era o saudoso Pláucio Pressoto, amigo de meu pai, que tempos depois, de forma trágica, acabou sendo assassinado a tiros por um PM, num café no centro de Franca, após uma discussão banal. O delegado nos atendeu de uma forma amigável. Perguntou sobre meu pai e, antes que outros repórteres entrassem, nos conduziu para uma pequena sala. Explicamos ao delegado que queríamos fotos, mas ele não estava com os documentos da vítima, ainda em poder da funerária. Muito menos do assassino, que fugiu levando tudo com ele. O jornal teria que ser fechado em menos de duas horas, não daria para esperar a funerária com os documentos. Com ar triunfante, o delegado levantou-se da mesa e exclamou: “vou lhes dar a melhor foto”. Em seguida agachou-se e ergueu uma enorme foice bem perto do meu nariz. Cabelos loiros estavam grudados no sangue coagulado na arma do crime e esvoaçam, chegando perto do meu rosto. O cheiro de sangue invadiu minhas narinas. Tentei segurar o fôlego para não respirar, mas minhas vistas se escureceram. Segurei-me na mesa, tentando fugir daquela cena de horror. Empolgado, o delegado não percebeu meu desespero, muito menos Otávio, fotógrafo e dono do jornal, que batia uma foto atrás da outra, contente com o presente que caiu dos céus para sua tão sonhada manchete de primeira página. Com as vistas turvas arrastei-me da sala. Ninguém percebeu. Ou, se perceberam, não deram atenção. Encontrei um banheiro e coloquei tudo pra fora. Lavei o rosto e sai depois de alguns minutos. Na minha mente, aquela foice ensangüentada com cabelos loiros grudados. O cheiro do sangue estava impregnado em minhas narinas, ou seria na minha imaginação? Fugi da delegacia sem me despedir e corri para a redação. Para escrever a matéria foi um drama. Cada linha, uma corrida ao banheiro. Naquela altura, enquanto o dono do jornal lutava para revelar as fotos no seu quarto escuro, vômito e diarréia me atormentavam. Deixei duas laudas na mesa (não consegui escrever mais que isso), dei um grito avisando que havia terminado o texto e corri pra casa. Minha mãe, percebendo que eu havia chegado pálido e abatido, procurou saber o que tinha acontecido. Contei a ela, mas suas palavras de consolo pioraram as coisas, deixaram-me três dias sem comer e com pesadelos todas as noites. Disse ela: “sabe filho, você deve agradecer a Deus o delegado ter lhe mostrado essa foice com sangue e cabelos grudados. Já pensou se ele lhe mostrasse a cabeça da pobre mulher?” Tem hora que mãe não é mãe, concordam?
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.


terça-feira, 31 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Foca é um dos animais mais bonitos que existem. Geralmente cinza, brincalhão, pode ser visto em grandes parques aquáticos ou na natureza mesmo, brincando com bolas, pulando de lá pra cá e sempre fazendo coisas engraçadas para os turistas e se mostrando. Pois é, isso é foca no reino animal. No meio jornalístico também existe o termo "foca". É aquele jornalista recém-formado (ou estagiário), jovem e ávido por mostrar serviço. Na ânsia, às vezes, ele acaba por pura inexperiência cometendo alguns erros. Como quer mostrar serviço, ele acaba se destacando mais, errando mais (afinal, está aprendendo) e - em outras ocasiões - desempenhando um serviço melhor do que alguns jornalistas mais antigos. Por isso surge o apelidinho infame, foca. Vários repórteres novatos são submetidos a grandes vexames e inconcebíveis humilhações, somente para satisfazer a megalomania de alguns colegas veteranos. Quando os redatores ainda não contavam com computadores para redigir seus textos, vi muito editor rasgar, na maior cara dura, sem sequer ler, laudas e mais laudas redigidas por assustados e inseguros calouros, que lhes valeram horas e mais horas de pesquisa, de deslocamentos não raro abrindo mão do almoço ou do jantar (quando não de ambos) e de redação, em máquinas de escrever em geral velhas e com defeito, com o entusiasmo de quem escrevia uma reportagem digna do Prêmio Esso. E por quê? Somente como infantil demonstração de poder! Rasgavam na maior cara dura e diziam: "Não gostei! Escreva outra vez!". E ai do repórter que se queixasse para a chefia! Se eventualmente o fizesse, estaria com os dias contados no jornal. O premiado jornalista Édison Motta inicia hoje a série “Trapalhadas de um foca”, com histórias engraçadas e verídicas acontecidas no início da carreira dos, hoje, consagrados profissionais de jornalismo.
Edward de Souza
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INÉDITO
PARTE XIV
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SÉRIE
"TRAPALHADAS DE UM FOCA"
CAPÍTULO I
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Meu primeiro cadáver
ÉDISON MOTTA
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Cadáver, defunto, presunto eram coisas distantes da minha adolescência no começo daqueles anos 70. Tinha, como a maioria das pessoas, a sensação de que coisas horríveis não acontecem com a gente. Havia uma distância enorme entre as notícias de jornal e a realidade do meu mundo. Era assim, enquanto não havia escolhido ser jornalista como profissão, até que deparei com... Meu primeiro cadáver!
Aconteceu numa tarde de sábado, na primeira semana de trabalho, aos 17 anos, como repórter do Diário do Grande ABC. Cheguei à casinha – como carinhosamente chamávamos a redação – por volta das 9h30 para cumprir um plantão. Todo o pessoal estava envolvido com o fechamento da edição de domingo. Na pauta, apenas um show de artistas desconhecidos, num clube social da região. O show estava programado para começar as 14 h. Então, havia tempo de sobra para “plantonar”. Mas, naqueles tempos, sempre aparecia trabalho. No meu caso, eram longas folhas de teletipos para “pentear”. Que significava anotar ponto, vírgula, parágrafo, letras maiúsculas e minúsculas – caixa alta ou caixa baixa – naquelas folhas impressas em carbono que deixavam as mãos enegrecidas.
Depois de “penteados” os telegramas voltavam para a diagramação e, em seguida, eram encaminhados para composição, a chumbo, nas oficinas. Fiquei lá, “penteando” um telegrama após o outro até que sai com o pessoal – Colovatti, Renato Campos e outros – para comer uma deliciosa feijoada no bar do Roberto. Curiosamente, um japonês com esse nome à frente de um “sujinho” que era o ponto de encontro do pessoal da redação.
Depois da feijoada, acompanhado do Mário Otsubo, fotógrafo, subi no fusca “pilotado” pelo mineiro Barbosa. Todos estávamos sonolentos e a perspectiva do “show” não era nada animadora. De qualquer maneira, pauta é pauta e precisa ser cumprida. Quando chegamos ao local, o mico: o apresentador anunciou, com entusiasmo, pedido de aplausos e chamada ao palco, a presença da equipe de reportagem do Diário. Em 1971, aonde chegava, a equipe do Diário causava sensação. Legado dos notáveis jornalistas que nos antecederam no News Seller e nos primórdios do jornal em sua fase diária.
Anotei os nomes dos artistas, respectivas músicas, dos promotores, dei uma espiada geral na platéia e dei-me por satisfeito. Não desejava, em hipótese alguma, acompanhar o desdobramento daquele “show”. Mal sabia, um outro espetáculo, mais realista, me aguardava.
Voltamos à redação. Eram mais ou menos 16h30. Antes mesmo que descessemos do carro veio o Onofre Leite, secretário de redação, o “manda-chuva” da época, esbaforido, anunciando um latrocínio que acabara de ocorrer. Com o endereço do crime anotado num papel disse: “Corram, talvez vocês cheguem antes mesmo da polícia”. O prestígio do Diário e o bom relacionamento construído pelo Renato Campos, o jornalista policial do jornal, fizera com que o fato fosse comunicado à redação, pela central de operações da Polícia Militar, tão logo dele tomaram conhecimento. De repente, eis-me a caminho de um l a t r o c í n i o - confesso, eu nem sabia o que era aquilo à época - recém-saído de um “show” de qualidade questionável. Morri de medo. Porque, evidentemente, imaginava que encontraria um cadáver pela frente.
Quando criança, tinha pavor de gente morta. Em virtude de um trauma ocorrido no velório de um vizinho, ficava aterrorizado com a morte e evitava até mesmo passar na frente de casas funerárias.
Na minha infância, velórios nas próprias residências, na sala da família, eram comuns. E eu, curioso como sempre, fui um dos primeiros a me cercar do caixão assim que ele foi trazido. Quis ver o defunto e fui atendido: a viúva ergueu-me face a face com o falecido. Que, sei lá porque até hoje, tinha chumaços de algodão nas narinas, nas orelhas e os olhos estavam cobertos por duas moedas. Dei um grito, saí correndo e prometi a mim mesmo que jamais freqüentaria um velório. Promessa não cumprida, naturalmente. Quando a gente cresce, vai-se o encanto da infância e vem o choque frio da realidade.
O Onofre Leite tinha razão: chegamos antes da polícia porque a cena do crime estava próxima, a umas dez quadras do jornal. Respirei fundo, criei coragem, com o coração a mil, e fui entrando, acompanhado do Otsubo. O Barbosa, esperto, ficou no fusca: reclinou o banco para tirar uma invejável soneca, almejada desde a suculenta feijoada. O local, uma mercearia na Vila Bastos, em Santo André, tinha uma residência no fundo onde o proprietário morava com a família. Os ladrões sabiam que no sábado à tarde encontrariam féria robusta. Entraram, enfiaram um revolver 38 na testa do coitado do dono e o obrigaram a entregar o dinheiro. Ele disse que guardava nos fundos. Mas não deu tempo, alguma coisa aconteceu errada e eles dispararam, à queima roupa, no pobre do proprietário. Encontrei o cadáver em “decúbito dorsal”, como costumavam descrever as cenas os antigos escrivães de polícia. Em meio a uma enorme poça de sangue e, o pior: pedaços de miolos espalhados pelo chão e pelas paredes. Horripilante. Fiquei ali, tétrico, durante alguns segundos que pareceram eternidade. Nem mesmo sabia o que perguntar diante do pânico e choro dos familiares e meu próprio desmonte. Foi quando o Mário Otsubo chegou até mim e disse: olhe, Édison, acho que não dá foto. Está muito chocante e o jornal não vai publicar. E eu, de imediato e sem pensar: “não, Mário, você tem que dar um jeito e fotografar, é sua obrigação. Lá eles decidem se publicam ou não”.
Foi meu inferno! Um irmão da vítima escutou a conversa e, irado, achou o cúmulo do absurdo aquela minha “frieza” diante do mano cadáver. Vixe! Logo eu, todo comovido e sem ação... Quase fui linchado! O ódio dos familiares diante do ocorrido reverteu-se contra mim. Fui saindo por um corredor lateral, passei a correr até alcançar a rua. Felizmente, naquele momento acabava de chegar a viatura policial. Que me salvou. Protegido dentro da viatura precisei esperar que os policiais anotassem os fatos, registrassem seu boletim, para poder recuperar as informações de que tanto precisava para escrever a matéria. Não houve foto. Nem mesmo o Otsubo conseguiu entrar de volta na cena do crime.
Cheguei à redação e não disse nada. Escrevi a matéria, que deve ter ficado uma porcaria. Tanto que, no dia seguinte, foi reduzida a uma pequena nota de cinco linhas no meio do noticiário. Meu primeiro cadáver foi também meu primeiro tropeço no jornalismo.
Mas as surpresas não acabavam aí. Eu freqüentava o segundo ano colegial no “Américo Brasiliense”. E notei que um colega, que sentava na carteira ao lado, sumiu da escola. Faltou durante duas semanas. Na terceira, quando voltou, perguntei-lhe: o que houve? Quer perder o ano?
- Não, Édison, faltei porque assassinaram o meu pai.
- É mesmo, meus sentimentos, como foi?
- Ora, você sabe. Você esteve lá em casa tentando fazer matéria para o Diário do Grande ABC...
Aprendi com meu primeiro cadáver, pai do meu colega, a barreira que o jornalismo policial impõe àqueles que desejam seguir carreira. Não que seja necessário ser insensível. Mas jornalismo não é literatura. Requer frieza, argúcia e objetividade. A dor da gente não sai no jornal, como ensina o mestre Chico Buarque.
*Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.

segunda-feira, 30 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
Jornalistas perseguidos
e presos pelo DOI-CODI
Parte XIII
*
Milton Saldanha
Memórias
Capítulo Final

"È a polícia!" Nossa saída do Diário começou com esta frase. Não eram ainda seis horas da manhã quando nosso apartamento, no Edifício Satélite, Baixada do Glicério, em São Paulo, foi invadido por oito agentes do DOI-CODI, armados com pistolas e metralhadoras. Era dezembro de 1970, portanto antes do assassinato de Vladimir Herzog. Eles entraram gritando “É a polícia! É a polícia!” e já foram revirando tudo. Quem atendeu a porta fui eu, ao ver o rosto do zelador no olho mágico. Mal virei a chave e eles invadiram, aos berros. Rubem dormia num quarto do fundo e foi acordado com o cano de uma metralhadora no rosto. As razões da nossa prisão são uma história muito longa, que aqui vou dispensar. Alguns, como o Dirceu Pio, conhecem em vários detalhes. Outros, parcialmente. O fato é que o Brasil vivia um dos momentos mais duros da ditadura militar, governo Médici, com tortura, censura e repressão por toda parte, em resposta à luta armada das organizações de esquerda. Passamos o dia presos, sendo interrogados várias vezes, e pouco antes do escurecer fomos liberados.
Liberados é maneira de dizer. Ali começavam os dois piores dias das nossas vidas. Éramos ostensivamente seguidos por um grupo de agentes, em vários carros. Um aparato absurdamente desproporcional à nossa (in) significância política, pois não éramos militantes de nenhuma organização, nem de partido legal ou clandestino, nunca pegamos em armas, e tínhamos uma vida totalmente na legalidade, dedicada ao trabalho, como contei acima. Nossa sensação, naquelas tenebrosas horas, eram de um jogo de gato e rato, onde o gato se diverte antes do derradeiro salto sobre sua presa. Decidimos então não dar-lhes este gosto, surpreendendo-os, como contarei logo adiante.
Fomos presos e liberados numa sexta-feira. No sábado, já pela manhã, fomos para o Diário. Bem barbeados e, coisa rara, de terno e gravata, uma forma de passar uma imagem austera, menos informal, até de mais respeito, e prontos para qualquer circunstância. Lá dentro, na redação da casinha, fingimos estar trabalhando, algo que na prática era impossível, pela tensão, com nossos nervos em frangalhos. Da janela víamos nossos seguidores lá na rua, literalmente cercando o prédio. Convocamos, como chefes, todo o pessoal ao jornal, e no começo da tarde fizemos uma reunião geral na sala do Fausto, já informado previamente sobre a situação. Não sei como consegui falar, a voz não saia, tal a tensão. Foi um esforço tremendo. Alertei: “Todos devem saber a partir deste momento que Rubem e eu estamos sendo seguidos pelo pessoal da Oban, DOI-CODI, e podemos ser presos a qualquer momento. Se a gente desaparecer, todos já sabem onde deveremos estar”. Era uma medida de segurança informar a categoria, através daquele grupo de colegas. O sigilo não nos interessava. Encerramos a reunião em meio a um silêncio impressionante, todos tomados de surpresa e sem acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo justo conosco, que passávamos horas todos os dias no jornal, indo dormir na madrugada. Nem tempo tínhamos para supostas atividades subversivas. Na verdade éramos suspeitos. As acusações pesavam sobre nosso amigo e parceiro de residência, um publicitário, acusado de ligações com a VPR. Ele foi barbaramente torturado.
Naquele mesmo sábado, após a reunião, Fausto pegou seu carro e foi conosco ao Glicério, onde outros agentes revistavam durante horas nosso apartamento. Levou o famoso livro de ponto do Seu Abílio e lá mostrou aos agentes nossas assinaturas e horários diários de entrada e saída do trabalho. Foi uma atitude corajosa e amiga, pela qual serei eternamente grato a Fausto Polesi.
Agora vem a surpresa. Como tínhamos absoluta certeza que seríamos novamente presos, era só questão de horas, ou minutos, tomamos uma decisão, em companhia do nosso pai, coronel da reserva do Exército e advogado, que tinha vindo de Porto Alegre para nos dar alguma assistência, se é que isso era possível, e apoio moral. Pegamos nosso carro, saímos pelas ruas de São Paulo, os agentes atrás, nos seguindo, certamente supondo que tentaríamos alguma fuga (e acho que era isso que desejavam, para agir), e fomos direto para o próprio DOI-CODI, na Rua Tutóia, onde nos apresentamos. “Queremos esclarecer tudo”, foi nosso argumento. Essa atitude nos ajudou e foi mencionada por eles em várias fases dos intermináveis interrogatórios. E tiramos o gostinho dos nossos seguidores, porque sabe-se lá como agiriam, e com certeza não seria nada agradável. Além disso, estar novamente preso era um fato consumado, um alívio quando comparado com o horror de ser seguido daquela forma ameaçadora e acima de tudo incerta. A gente temia até ser metralhado na rua, sem qualquer chance de defesa. Só quem conheceu a ditadura sabe que isso não é exagero. Finalmente libertados, depois de onze dias presos e incomunicáveis, não havia qualquer clima para continuar trabalhando. Nosso trauma era profundo, e durou muito tempo. Fomos em busca de repouso, em lugar seguro e isolado, numa praia de Santa Catarina. Nem nossa família sabia onde estávamos, por segurança. Assim terminou minha primeira fase no Diário. Rubem nunca mais voltou, foi morar no Rio. Voltei para o ABC em 1976 para chefiar a sucursal do Estadão, durante quatro anos. Os melhores, a propósito, da minha carreira. Saí em 80, como conseqüência da desastrosa greve dos jornalistas, em 79. Nos anos 80, convidado pelo Fausto em três longas conversas regados a vinho, no Terraço Itália, voltei ao jornal, como editor-chefe. Agora já era outra empresa, claro, totalmente diferente, em tudo. Foi uma fase interessante, apesar de algumas dificuldades inerentes ao cargo. Depois de uns dois anos, saí por quebra da confiança junto à diretoria, por não ter aceitado uma tentativa de redução de salários. Além de imoral, isso afetaria minha autoridade no comando da redação, que ficaria desmotivada. Fui para a TV Globo e depois para a Ford, em ambos a convite. Mais tarde, nos anos 90, voltei convidado pelo Alexandre Polesi, para montar um caderno de economia. Estava trabalhando, mas acabei topando. Foi um erro. A crise interna da direção do jornal já começava a explodir, com repercussões em todos os setores da empresa e no clima da redação. Uma pena. Que saudade dos primeiros anos, tão precários, e tão românticos.
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A garotada de hoje, mas também muita gente adulta, não sabe o que foi a ditadura militar. Não sabe o que passaram milhões de brasileiros para liquidar com aquele período de falta de liberdade, de opressão, de total ausência de garantias individuais e sociais. A grande maioria, hoje, não sabe o que é viver em um regime em que falta a liberdade, a democracia. Na noite do dia 24 de outubro de 1975, o jornalista Wladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, de São Paulo, apresentou-se na sede do DOI-CODI para prestar esclarecimentos sobre a sua atividade política. Herzog era filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Ficou apenas uma noite nas mãos da repressão e foi barbaramente torturado. Os militares assassinos simularam seu suicídio, entregando à imprensa fotos do corpo de Herzog pendurado pelo pescoço à grade da cela por uma peça de roupa. Como Wladimir Herzog era judeu, o Shevra Kadish (comitê funerário judaico) recebeu o corpo e, ao prepará-lo para o funeral, o rabino percebeu que havia marcas de tortura no corpo do jornalista. O suicídio tinha sido forjado. Esse foi o sinal, porque Herzog foi enterrado dentro do cemitério judaico, e não do lado de fora dos muros, como a religião determina que seja feita com os suicidas. Será que vinte anos de democracia fizeram a sombra da censura, que tanto aterrorizou as redações, desaparecer? Esta é uma pergunta sem resposta. O jornalista do século XXI é livre para escrever o que quiser e continua levantando cedo e saindo tarde. Porém, a liberdade é somente dentro da linha editorial da empresa. A censura, hoje, vem de dentro da própria casa, sem tortura, mas via ameaça de desemprego. Edward de Souza
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance -
www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.

domingo, 29 de março de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Exclusivo
*
A frustração na
Copa de 70

Parte XII
*
Milton Saldanha
Memórias

Capítulo IV

A coluna social naquela época era diferente de todo o resto e destinada a fazer média com os abonados da região, a turma que paga os anúncios. Serafim Vicente nunca tinha pisado num jornal quando veio para o Diário exercer essa função. Não tinha feito faculdade de jornalismo. Escrevia coisas de arrepiar, e com erros de grafia, de concordância, o diabo. Se as bobagens saíssem deixariam o jornal muito mal. Eu ficava enlouquecido e xingava secretamente o Fausto pela contratação. Mas aos poucos fomos pegando estima pelo Serafim, que era um cara super legal, solidário e principalmente alegre. A redação, que já era uma zona, com o Lázaro berrando besteiras que faziam a gente chorar de tanto rir, ficou ainda mais alegre com o Serafim e aquele seu jeito... Uma vez ele sentou inesperadamente no colo do Rubem, deu-lhe um chupão no pescoço, Rubão ficou arrepiado. Pra que. Serafim saiu berrando pela redação, eufórico: “O secretário ficou todo arrepiado! O secretário ficou todo arrepiado!” Todos nós morrendo de rir, e o Rubão todo sem jeito, sem saber se também ria ou ficava puto da vida. Era tudo hilariante. Com a estima pessoal, passei a ser mais tolerante com a coluna do Serafim, mas sempre cortando os excessos, principalmente quando a puxação de saco passava dos limites aceitáveis. Um dia, querendo fazer gracinha, ele chamou a colônia italiana de “italianada”. Cochilei, deixei passar. O Fausto ficou furioso. Marcou com seu famoso lápis azul, com o qual pinçava na edição nossos erros de cada dia, nunca poucos. E a gente se segurando para não rir. O que aconteceu com Serafim depois daquela primeira fase no Diário, aqui não interessa. Não me cabe julgar nada. Fica minha lembrança apenas de um tempo bom, divertido.
O Cássio Loredano já era um gênio no desenho, mas não acreditava. Todo mundo falava que ele deveria se dedicar ao desenho, mas queria é ser repórter. Pedrão era fã assumido do Cássio, para ele, então, o melhor repórter do mundo. Um dia caiu a ficha, partiu para ilustração, arrasou. O Hildebrando Pafundi era o mais calmo da redação. Certo dia explodiu a Câmara de Santo André. Acho que foi tubulação de gás, nem lembro. Mas explodiu. Todo mundo excitado, (teria sido atentado?), e o “Pafa” tranquilo. Romão, do esporte, era um figuraço. Morava na redação, tinha um quartinho nos fundos da casinha. De vez em quando o Cássio fazia alguma charge e usava o Romão como personagem, com seu vasto e desordenado bigode. Como espécies atuantes daquele alegre zoológico, sobrava também para nós, eu e Rubão. Compramos um Gordini usado, em sociedade, aproveitando uma grana legal que embolsei ao vencer um concurso de reportagens natalinas. A gente brigava, porque os dois queriam dirigir. O pessoal morria de rir. Faziam piadas conosco. Nunca entendi que graça tinha isso... Até as broncas eram divertidas. Um dia Pio chegou super atrasado. Rubão começou tremenda bronca. Pio explicou: “Fui trepar”. “Ah, bom”, respondeu Rubão, encerrando o assunto.
Num dia de verão, muito quente, inventamos uma matéria no Guarujá. Pretexto para ir à praia. Já estava combinado e todo mundo levou calção para o jornal. Lotamos a coitada da Rural e descemos a serra, pela manhã cedo, para voltar lá pelas duas da tarde. Pedrão fez algumas fotos de supostas gostosas, para justificar o “trabalho”. Curtimos a praia, bebemos cerveja, foi super divertido, por estarmos em turma e pelo sabor da traquinagem com o carro e a gasolina do jornal. Na volta alguém cascateou um texto sobre o dia de forte calor e outras bobagens. O Fausto chegou e ficou olhando desconfiado nossas caras de safados, com os cabelos desalinhados e ainda úmidos, gente lavando os pés na torneira do jardim. Todo mundo se entregando. Mas deixou barato, não falou nada, com certeza para não arranhar nossa autoridade perante a equipe, pois o próprio Rubem fora o mentor da “pauta”. Era tudo uma lua de mel? Claro que não, somos de carne e osso, com virtudes e defeitos, rejeições e preferências afetivas. Mas, uma coisa posso garantir: em nenhum outro momento de toda a minha carreira desfrutei de um ambiente tão gostoso na redação. Teria ainda muitas histórias, mas aí isso aqui vira livro. E bem que eu gostaria. Antes de encerrar, contando nossa, digamos, inusitada saída do jornal, vou relembrar algo inesquecível. Foi nossa edição extra especial de cobertura do final da Copa do mundo de 1970, no México. Foi a primeira vez em que a TV transmitiu a Copa ao vivo. A transmissão por satélite era uma novidade. O Brasil, como todo mundo sabe, tinha um time invencível e era franco favorito. Resolvemos soltar a edição extra. A idéia era lançar o jornal pronto, nas mãos de um batalhão de jornaleiros, meia hora após o fim do jogo, no máximo. Os moleques, mais de cem, iriam com os jornais nos braços para os burburinhos dos festejos nas ruas. Durante a semana inteira fizemos o jornal, com matérias retrospectivas, etc. Na capa pré-montamos um jogador erguendo a taça. Detalhe: usava mangas compridas, era o que a gente tinha em arquivo, eles jogaram com mangas curtas. Dane-se, decidimos, e fizemos a montagem com outro rosto. O que hoje, com Photoshop, seria bico, naquele tempo foi uma verdadeira engenharia, obra de artesões. E montamos até o texto da matéria de capa, que já tinha manchete pronta, com buracos para detalhes do jogo, resultados, etc. Ou seja, em menos de dez minutos a gente finalizaria tudo, baixaria para a oficina, que já tinha o jornal todo pronto, faltando só a capa, e... Seria um sucesso! Ah, e teríamos fotos do jogo, dos gols, em primeira mão. Pedro Martinelli, o Pedrão, colocou um tripé na frente da TV e fez as fotos dali mesmo. Reveladas e ampliadas, pareciam radiofotos, muito usadas na época. Quebravam o galho perfeitamente. Durante a semana ele havia feito testes, avaliando os resultados, estudando o melhor ajuste da máquina, tudo. A redação toda em volta, torcendo, gritando, e o Pedrão ali, clicando e também torcendo. Dá para esquecer? Quando o jogo acabou, o batalhão de jornaleiros estava na porta da oficina, aguardando. Mal o juiz apitou e mergulhamos nas velhas Olivetti, teclando com fúria. Todo mundo correndo, parecia fechamento de jornal em TV. Até o boy estava instruído a seguir correndo para a oficina, no sentido literal, com a lauda do texto. Alguém imagina o que aconteceu? Pois é, a luz apagou geral no bairro. Ficamos sem energia. Desesperados, e sem energia para mover as possantes linotipos, o chumbão, como eram chamadas, porque produziam textos em blocos de chumbo, que caiam quentes num cesto, tinham que esfriar e entrar na paginação sobre uma placa metálica. Todo aquele esforço de uma semana, toda aquela correria, tremendo esquema de mobilizar jornaleiros numa época em que isso não existia mais, as vendas eram em bancas, muita adrenalina para... Sermos derrotados por um pedaço de fio. A luz demorou quase uma hora para voltar. E ainda faltava rodar a capa. Não adiantou ligar desesperadamente para a Cia. de força. O jornal foi para as ruas, mas sem o impacto dos primeiros minutos, para surpreender o povo, como tínhamos planejado nos mínimos detalhes. Creio que nunca, na história do Diário, tenha acontecido algo tão frustrante. O Diário não merecia, muito menos nós, tão focas e tão sonhadores.
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Não percam nesta segunda-feira o último capítulo dessa série escrita pelo jornalista Milton Saldanha nesse blog. Agentes do DOI-CODI, armados com pistolas e metralhadoras, invadem o apartamento do jornalista em São Paulo. Seu irmão Rubem dormia num quarto do fundo e foi acordado com o cano de uma metralhadora no rosto. Foram presos. o Brasil vivia um dos momentos mais duros da ditadura militar, governo Médici, com tortura, censura e repressão por toda parte, em resposta à luta armada das organizações de esquerda.
( Edward de Souza)
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Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.