segunda-feira, 10 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L

O DIA EM QUE MORRI (I)

Esta série é dedicada à médica Liliana Diniz

Aviso: Não é ficção. Tudo que será contado foi real!

COMO TUDO COMEÇOU

Foi numa tarde de sábado, muito quente, em novembro do ano 2000. Eu tinha acabado de chegar em casa, voltando de um almoço com um dos meus filhos, o André. Fomos comer no famoso botequim Galinheiro, ali na Vila Madalena, que tem um dos melhores frangos grelhados da cidade. Geralmente não bebo, mas naquele dia de calor enxuguei com especial prazer uma bela cerveja espumante.

Coloquei o carro na garagem, estava fechando o portão, quando comecei a me sentir mal. Minha namorada chegou de carro, estacionou, e eu apenas disse: “fecha tudo e depois sobe” (minha casa é um sobrado). “Estou me sentindo mal e vou deitar”.

Era o infarto se instalando.

Nos primeiros sintomas achei que era uma indisposição estomacal e culpei a cerveja. Só que aí o bicho pegou! Passei a sentir tudo ao mesmo tempo: dor na barriga, nos músculos dos braços, cabeça, garganta, olhos, ânsia de vômito. E o pior: muita falta de ar. “Vou fazer um chá”, disse a namorada, prescrevendo uma pueril receita caseira. “Chá?” - questionei, com o natural mau-humor de quem está numa situação assim. Já tinha caído minha ficha. “Querida, estou tendo um infarto. Vamos para o hospital!”

Ela não acreditou e procurou minimizar. “Infarto? Você tá louco, magina...”

Aí vocês não vão acreditar. Vou fazer aqui, pela primeira vez, uma confidência íntima. Uma coisa que, por excesso de pudor, nunca contei a ninguém, nem aos médicos. Ela estava cheirosa, gostosa, deitou ao meu lado me acariciando e... não resisti. Transamos assim mesmo. Eu infartando e... transando. Acho que isso acelerou o coração, estimulou o sistema circulatório, dilatou as artérias, irrigou as células, sei lá, mas o fato é que por um momento esqueci completamente do infarto e fizemos amor como se nada de anormal estivesse acontecendo. Camuflou, digamos, a doença. Permitiu-me reagir, pela troca do desânimo pela excitação. Vejam que receita que é isso! A energia da vida! Cura tudo!

Tomamos um banho rápido, consultei o guia do plano de saúde, e tocamos para o hospital. Escolhi um tal de Hospital Iguatemi, cujo endereço era ali na área nobre da Av. 9 de julho, nos Jardins. Ela dirigindo e eu reclamando do mal-estar, principalmente quando passava em buracos. Cada buraco da rua fazia trepidar meu corpo de forma muito desagradável e aumentava o mal-estar. Já era começo da noite quando chegamos ao hospital e observamos que não havia movimento. Estava tudo vazio e quase escuro, só havia um vigia sonolento e entediado sob uma luz, no fundo de um corredor. Chamamos o cara enfiando o rosto numa porta de grades. Ele veio arrastando os pés, com má vontade. E informou que há mais de um ano o hospital havia se mudado para o quinto dos infernos, lá para os lados de Taboão da Serra, BR-116, algo assim. Longe pra caramba.

Quando a gente está na situação em que eu estava, passa a não ter cérebro. Não raciocina. Ela tinha que assumir o comando da situação, com energia, mas não fez isso. Deixou as decisões por minha conta. E nessa hora, desculpem a expressão, a gente só faz merda. Decidi voltar para casa. Pode? Poder não pode, mas foi assim, infelizmente.

Passei a noite enfartando, muito mal, e em casa. Poderia ter morrido, e isso só não aconteceu por uma razão orgânica que vou explicar em outro capítulo. Pedi para ela mudar de quarto, para não precisar me aturar. No meio da madrugada abria a janela e buscava ar, desesperadamente. Ligava e desligava a TV. Rolava na cama quente, só de cuecas, porque a sensação de falta de ar causa essa vontade de ficar pelado, parece que tudo abafa você. Com calor, pior ainda. Lá pelas tantas, não sei nem a que horas, exausto, adormeci.

Pela manhã, domingo, chegou meu sobrinho, que era piloto da Varig e estava de passagem por São Paulo. Quando contei, ligou na hora para minha sobrinha Roberta, irmã dele, que é médica anestesista em Porto Alegre. “O que esse cara está fazendo em casa?” questionou Roberta, furiosa. “Leva já o tio para o hospital!”, ordenou.

O detalhe é que amanheci bem melhor e achava que o pior já havia passado. Mais tranquilo, mas sendo pressionado por meu sobrinho, fomos para o Incor – Instituto do Coração, ali na Rebouças.

Tiram sangue, fazem três eletrocardiogramas, medem pressão, colocam termômetro no meu braço, medem isso, medem aquilo. Um carnaval danado, e eu ali, só olhando, na enfermaria do PS, cercado de dezenas de outros pacientes deitados em macas. Engulo um comprimido e poucos minutos depois já estou me sentindo zero bala, prontinho para voltar para casa, até pensando no baile daquela noite. Desço da maca e me colocam numa salinha. Ficamos lá esperando, eu, meu sobrinho e a namorada. De repente, entram três médicos, juntos. Três! Uma moça e dois rapazes, com seus aventais brancos e estetoscópios pendurados no pescoço. Caramba, pensei, a enfermaria está cheia de gente e eles vem falar comigo em comissão? Comecei a sentir o drama. Eles me olhavam sem disfarçar que estudavam o paciente, certamente buscando novos sinais da minha doença. Isso não me incomodou, pelo contrário, foi bom sentir o interesse deles.

“A notícia que eu tenho não é boa”, disse um deles, que parecia ser o chefe da equipe. “Infelizmente, seu caso é grave e vai ter que ficar internado”. “Não posso ir em casa pegar roupas e livros?”, perguntei, com aquela inocência idiota dos pacientes de primeira vez num hospital. “Você só sai daqui para outro hospital, em ambulância, e com médico ao lado”, respondeu o doutor.

Aí, gente, pela primeira vez em toda a história, eu finalmente entendi que estava ferrado.

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*Milton Saldanha é jornalista e escritor.
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Não percam amanhã, no segundo capítulo de O DIA EM QUE MORRI - O Hospital São Camilo e uma triste história.

domingo, 9 de maio de 2010

MÃE – TERNURA, GRAÇA E LUZ INTERIOR

Mãe é palavra mágica. Significa ternura, amor, bondade. Na criação do universo coube à mãe a tarefa maior de preservar e dar continuidade à vida. A terra, a grande deusa e a mulher são mães.Vamos, no Dia das Mães, abrir os braços e abraçar as mulheres que tem um olhar diferente da vida, com muito mais amor. Juntos, irmanados, mãos dadas, vamos festejar esta data importante do calendário do coração e viver um grande fim de semana.
Escrevia um conto no começo desta madrugada para ser postado neste domingo, Dia das Mães, quando recebi um e-mail do amigo Walter Peres Chimello, consagrado poeta francano. Assim que terminei de ler, deletei meu conto. Nestas poucas linhas escritas pelo amigo poeta, autor de vários livros, membro da Academia Francana de Letras, está contida uma linda homenagem para todas as mamães do mundo. No encerramento desta semana dedicada às mães as homenagens deste blog a grande deusa de nossa existência. A ela a nossa reverência e o preito de gratidão pelo que nos ensina e incentiva, e as palmas mais vibrantes.
Leiam esse lindo poema de Walter Chimello, comentem e deixem sua mensagem à mamãe querida.

Edward de Souza
.
MÃES EMBELEZAM A TERRA

Mãe/ Bonita, rica/ Sofrida, apressada/ Mãe nova/ Ainda sem jeito/ Mãe
trabalhadora/ Sem tempo.
De mãos calejadas/ Mãe presidiária/ Mãe prostituta/ Talvez alugando o corpo/ para
sustentar o filho/Mãe analfabeta/ Mãe culta, educada/ Mãe sem filho/ Que traz no
peito o sonho/ Materno/ Mãe Idosa, Doente/ Mãe descrente/ Mãe religiosa/ Que no
colo/ Ensina o filho rezar/ Todas no intimo, iguais!/ Cheias de afeto e ternura/ Que
algumas/ Só entendem no coração/ Não importa:/ Elas trazem no ventre/ O fruto de
um amor/ E carregam no peito/ A divina graça/ De embelezar a terra/ De renovar a
vida!!!
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AUTOR: WALTER CHIMELLO...

Advogado - escritor e membro da Academia Francana de Letras.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

SEM RUMO



Sem destino, vou caminhando/Por dentro sinto dor.
Por fora, nada/Quem sou eu, afinal?

Uma alma penada buscando um recanto para me esconder?
Ou um arremedo de ser humano/buscando um buraco para me enterrar?

Sigo. Ao longe avisto uma luz!/Tênue é verdade...
Mas é uma luz/Dirijo-me a ela.

Ela se afasta!/ Corro/Ela se afasta ainda mais!
Paro. Não aguento mais/A luz lá está!

Ouço vozes. Não consigo entender/São murmúrios.
Depois de algum tempo, escuto!/Ore e entenderas.

Lembro-me de minha mãezinha/que me ensinava a orar quando criança.
Mas, por que orar?/Já não me lembro mais como fazer!

Novamente a voz/Ore.
Bem, não custa nada. Vou tentar./Pai Nosso que estais...

A luz está se aproximando!/No céu...
A luz está perto de mim!/Santificado seja...

Mamãe, é você?/Sim, meu filho, é hora de irmos.
Estaremos juntos a partir de agora./A escuridão acabou!


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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

REFLEXÕES ACERCA DE UMA

SAUDADE INFINDA

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche." (Martha Medeiros)

Diadema, 26 de outubro de 2008.

Profundamente consternado, comunico o falecimento da minha adorada e saudosa mãe, a Sra. Matilde Pinheiro de Oliveira, ocorrido no fatídico dia 24 de outubro de 2008.

Ela veio à luz em 14 de março de 1923, no bairro paulistano de Santana, onde moravam meus avós maternos Júlio Xavier Pinheiro e Belmira Pedroso Pinheiro, que ficaram jubilosos com o nascimento da sua primeira filha! Mas, quando ela tinha um ano de idade, meus avós fugiram, apavorados, da capital, por causa da Revolução, que ceifou muitas vidas de cidadãos paulistanos, refugiando-se no sítio do pai da minha avó materna, Antônio Manoel Pedroso, no atual município de São Bernardo do Campo-SP.

Findo o período belicoso, meus avôs maternos não retornaram ao bairro de Santana, preferiram continuar morando no interior, no sítio do meu bisavô materno, onde mamãe viveu até a adolescência, mudando-se, a seguir, com os pais e mais três irmãos, para Santo André. Tempos depois, mais precisamente no dia 4 de dezembro de 1941, contraiu matrimônio com meu adorado e saudoso pai (meus pais eram primos em 4º grau), que faleceu no também fatídico dia 9 de agosto de 1997. Eles tiveram sete filhos (o primeiro partiu após quatro horas de existência, no dia 18 de novembro de 1942).

Dona Matilde sempre se dedicou com amor, zelo e presteza à sua numerosa prole, que era provida com o labor de chauffer do meu pai, no antigo Ponto de Táxi do Cine Carlos Gomes, em Santo André, telefone: 44-31-06 (será que se eu ligar ele me atende?!...) Além deste reles e desolado escrevinhador outonal, minha adorada e saudosa mãe deixou mais 5 filhos, 13 netos e 9 bisnetos desamparados e aniquilados...

Depois que o meu pai faleceu, o estado de saúde da minha adorada e saudosa mãe começou a ficar combalido. Ultimamente ela se locomovia com ajuda, mesmo assim, com muita dificuldade, precisando da assistência de minha valorosa e prestimosa irmã, Maria Inês, para todas as situações do cotidiano.

Na manhã do fatídico dia de sua partida, começou a revirar os olhos e minha irmã, apavorada, chamou o SAMU andreense, que prontamente a levou ao Pronto-Socorro da Vila Luzita. Entretanto, ela lá chegou sem vida.

Após os trâmites no IML (que horror...mas foram ágeis e prestativos), seu corpo foi trasladado para o Cemitério da Vila Euclides, no município de São Bernardo do Campo, onde foi velado e sepultado no final do dia.

É insuportável pensar que o corpo da minha adorada e saudosa mãe está se decompondo no silêncio sepulcral da 2ª gaveta à direita, do jazigo 53, no Sepulcrário da Irmandade do Santíssimo, que fica no Cemitério da Vila Euclides, que fica na Avenida Redenção, que fica no Jardim do Mar, que fica no município de São Bernardo do Campo, que fica na Região do Grande ABC, que fica na Grande São Paulo, que fica no Estado de São Paulo, que fica na Região Sudeste, que fica no país chamado Brasil, que tem a maior parte do seu território no Hemisfério Sul, que fica na América do Sul, que fica no Continente Americano, que fica no Planeta Terra, que fica no Sistema Solar, que fica na galáxia da Via Láctea, que fica no grupo de galáxias local, que é uma da bilhões de galáxias que ficam no Universo, que pode ser um dos incontáveis Multiversos...

Por que há existência, quando poderia não haver nada?!!!

Nunca mais ouvirei da minha saudosa e adorada mãe: - Oi João você está bom? - Cuidado na rua, por causa da ladroagem! - Se você não estudar, quando crescer vai puxar carroça!. - Não saia sem blusa, por causa da friagem! - Jamais tome banho, após o almoço! - Não volte tarde! - Onde você vai e com quem? - Já rezou para dormir? - Deus te abençoe! - Vá com Deus! - Você precisa ter uma religião! - Não me conformo de você ter ficado ateu! - Vá lavar as mãos antes de comer! - Venha cá, seu menino malcriado, levar umas cintadas! - Eu já lhe falei, nunca mais faça isto! Quem mandou prender o gato no armário da pia e colocar fogo no coitado! - Pare de ficar girando o botão da máquina de lavar roupas!...Suas palavras ainda ecoam no meu peito...

Minha vida tornou-se insulsa sem a presença radiante da minha adorada e saudosa mãe! Volte, mãe, volte!

Compungidamente,

João Paulo de Oliveira

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*João Paulo de Oliveira, 57, pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Além de Pedagogo é Mestre em Educação. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborador do blog, João Paulo escreve, mais uma vez, uma crônica neste espaço. Visite seu blog, Celulóide Secreto, em http://joaopauloinquiridor.blogspot.com Contatos com o articulista pelo e-mail joaopauloinquiridor@ig.com.br
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

A MALA DE PAU




Quando minha mãe ia à cabeleireira para cortar o cabelo e fazer permanente era assim: os três filhos mais velhos ficavam na casa de minha tia e os três mais novos, ela os levava consigo. Normalmente era em tardes de sábado e nesses dias, a rotina lá em casa mudava um pouco. O almoço saia mais cedo, a roupa não era lavada e nosso banho era mais caprichado. Como eu era o menor, minha irmã cuidava de mim, no chuveiro. Era aquela choradeira, pois ela esfregava tanto meu pescoço e orelhas que deixava-me todo vermelho e ardendo.

Depois, para o processo de secagem, colocava-me em pé sobre um antigo baú de madeira, com tampa abaulada que minha avó Adelaide trouxera de Portugal, no início do século passado. Vai-se saber quais louças preciosas ou tralhas necessárias vieram, diretamente de Coimbra, naquela respeitável "mala de pau". Entretanto, na minha infância e adolescência, o móvel de carvalho servia-se apenas para guardar roupas sujas ou sustentar moleques molhados.

Num sábado desses, já estávamos todos prontos para acompanhar mamãe ao "Salão da Margarida" que ficava distante de casa, quase no fim da Avenida. Não me recordo bem qual arte aprontei, mas fiz por merecer uma surra de minha mãe. Só me lembro de que, enquanto ela procurava o cordão do ferro elétrico para aplicar-me o corretivo, corri a esconder-me dentro da mala de pau.

Quando ficava nervosa, minha mãe tinha a mania de falar demais, numa lamúria sem fim e, na maioria das vezes, aquela cantilena monocórdica acabava por acalmá-la. Então, fiquei ali, bem quietinho, com as pernas encolhidas, esperando chegar a calmaria.

Sobre a maciez das roupas usadas, acabei por adormecer profundamente, alheio ao fuzuê que se armou na minha casa, por conta de meu sumiço. Inicialmente minha mãe queria achar-me para aplicar a sova prometida, depois para que eu não sujasse a roupa de passeio, mais tarde porque perdera a hora da cabeleireira e finalmente, quando anoiteceu, desesperou-se pensando que eu havia sido sequestrado.

- Meu Deus... os ciganos estiveram aqui hoje pra buscar o porco: devem ter carregado o menino!

Naquele tempo, meu pai vendia porcos, galinhas, cabritos e toda a espécie de animais, que trazia do sítio. Esses bichos ficavam num grande cercado que existia em nosso quintal e minha mãe se encarregava da venda no varejo a diversos fregueses da redondeza. Dentre os compradores, vira e mexe apareciam os ciganos que acampavam na parte alta da cidade, perto da antiga caixa d'água. Meu pai tinha amizade com todos.

Assim que papai chegou da roça, minha mãe, em prantos, implorou para que ele fosse ao acampamento dos gitanos a minha procura. Mas, o velho retrucou, incomodado: Alzira, como é que eu vou lá perguntar uma coisa dessa pra eles?! São gente boa e isso de roubarem criança é lenda... Seria uma ofensa das bravas!

Mamãe já estava disposta a quebrar violinos e pandeiros, quando minha irmã chamou lá do banheiro: - Mãe, achei o safadinho!

A velha levantou-me em seu colo, ainda dormindo. Sentou-se na tampa do baú e começou a beijar-me, chorando baixinho. Acordei-me sentindo aquele cheirinho gostoso de mãe. Vendo-a chorando, segurei uma das pontas de seus cabelos finos e macios e somente consegui perguntar: - A senhora não fez permanente?

Ela respondeu-me, dando um daqueles seus beijos estalados: - Não, filhinho! A Margarida não abriu o salão hoje...

Assim era minha mãe e, quanto à mala de pau, não sei que fim levou!

Por falar em ciganos, segue aí uma receita, modificada ao meu gosto, de:

ARROZ À MODA CIGANA: 2 xícaras de arroz temperado e cozido; 1/2 xícara de pinhões pré-cozidos ou castanhas do Pará; 3 colheres de manteiga; 1 xícara de queijo suiço (aqueles com buracos) picado; 3 ovos batidos; 2 copos de leite; 1 xícara de espinafre cozido, com sal e picado; 1 xícara de brócolis cozido, com sal e picado, 1 cebola picadinha.

Corte os pinhões ou as castanhas em filetes bem finos. Dê uma leve fritada na manteiga e misture aos demais ingredientes. Leve ao forno por 15 a 20 minutos.

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*João Batista Gregório, 57, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e já prepara um novo livro, a ser lançado em breve. Para conhecer a sua produção, acesse o blog do JB, cheio de histórias divertidas, onde cada crônica pitoresca acaba com uma receita culinária especial, testada e aprovada! Clique no endereço abaixo e delicie-se! http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/
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terça-feira, 4 de maio de 2010


SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

RHÉIA, MÃE DE ZEUS


Segundo a mitologia grega, o culto à mãe se iniciou na Grécia antiga, quando se homenageava com efusão na festa de entrada da primavera, a mãe dos Deuses, Rhéia, casada com Cronos que destronara o próprio pai, Urano, que governava a Terra. Destronado, Urano profetizou que também Cronos seria destronado por um de seus filhos. Rhéia, ao parir cada criança, a entregava a Cronos que a devorava, eliminando o risco da profecia. Assim ocorreu com os cinco primeiros irmãos de Zeus, o que levou Rhéia a agir no nascimento do sexto filho. Refugiou-se no Monte Ida, na ilha de Creta e, após a delivrança, entregou o rebento aos cuidados de Gaia, Deusa da Terra, mulher de Urano, mãe de Cronos e avó de Zeus. Na caverna, aos seus cuidados e das Ninfas da Floresta, foi poupada sua vida para cumprir a profecia.

A primeira sugestão de celebração de um dia das mães nos Estados Unidos, aconteceu em 1872, através da escritora Julia Ward Howe.

A história registra, também, que no século XX, uma jovem norte-americana, Anna Jarvis, entrou em profunda depressão com a perda da mãe que amava acima da ordem de todas as coisas. Sua vida havia perdido a razão quando amigas, preocupadas com a sobrevivência de Anna, cuidaram em organizar uma festa em que fosse perpetuada a memória da mãe. Ela aceitou, ponderando o objetivo: que a homenagem se desse, estendida a todas as mães vivas ou mortas do universo. Em pouco tempo a comemoração do Dia das Mães prosperou nos Estados Unidos como prática habitual, levando o Presidente Woodrow Wilson em 1914, a oficializar a data de 9 de Março de cada ano em tributo as mães.

A Inglaterra, no século XVll, adotou o quarto domingo da quaresma como dia de folga de suas operárias, ensejando que ficassem em casa com suas mães em glorificação ao seu dia. Assim era festejado o “Mothering Day”.

O Brasil pode contar, com orgulho, a história do primeiro Dia das Mães brasileiro. Vivia o país o ano 1918 com invasão da febre “espanhola” a registrar muitas baixas e participação voluntária de muitas pessoas, entre elas, mulheres, mães atentas a cuidar com zelo de filhos e de toda a gente da comunidade, no afã de salvar vidas.

Nesse ano, a Associação Cristã de Moços de Porto Alegre comemorou, em 12 de maio, o primeiro Dia das Mães do Brasil. Em 1932, o então Presidente Getúlio Vargas oficializou a data no segundo domingo do mês de maio. Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, oficializou no calendário da Igreja Católica a data celebrada em honra da mãe brasileira.

Entre os fatos acima citados e, outros tantos existentes que deixaremos de focar por exiguidade de espaço, se posicionam a lucidez e justeza do evento, que consagra a dignidade da mulher mãe no sacrossanto exercício da maternidade.

Quando Anna Jarvis mandou, como prova de sentimento e respeito, um milhar de cravos brancos para a Igreja que frequentava, seu desejo era vê-los usados pelos paroquianos na data de gratidão as mães. Não previra que o gesto se alastraria pelo resto do mundo. Foi assim que aprendi a usar um cravo branco na lapela nos bailes que antecediam o segundo domingo do mês de maio. Também foi assim que adquiri o hábito de colocar o mesmo cravo branco de cor imaculada nos cabelos encanecidos de minha mãe, figura singular em minha vida.

Nada ou ninguém pode desqualificar as comemorações do excelso Dia das Mães, com justiça, criado para dignificar sua memória na divinização e amplitude do amor que vive a espargir entre todos do seu clã.

Lamenta-se, no entanto, que a voracidade comercial se tenha apoderado de tão elevado sentimento de gratidão e reconhecimento à beatitude da Mãe que nada deseja além de um gesto de carinho, um beijo terno a premiar-lhe a fronte. Mais que qualquer presente, a Mãe só espera pela presença do filho amado, com ele partilhando alegrias e infortúnios. É por ele que jorram suas lágrimas ou extravasam-se risos nas vitórias e folguedos.

Embora todos os dias devam ser dedicados às Mães, aproxima-se sua data oficial, oportunidade que não se deve perder para retribuir o tratamento que ela nunca deixou desaparecer: Minhas crianças! Leve com você, para ela, a sutileza de um sorriso infantil atrelado ao cravo imaculado de brancura que adorne seus cabelos.

Quanto a mim, levarei uma saudade, adornando a lápide fria com os cravos brancos do passado, amalgamados ao meu sentimento de amor que nunca se perderá.


-------------------------------------------------------------------------------------*José Reynaldo Nascimento Falleiros (Garcia Netto), 81, é jornalista, radialista e escritor francano. Autor dos livros Colonialismo Cultural (1975); participação em Vila Franca dos Italianos (2003); Antologia: Os contistas do Jornal Comércio da Franca (2004); Filhos Deste Solo - Medicina & Sacerdócio (2007) e a novíssima coletânea Seleta XXI - Crônicas, Contos e Poesias, recentemente lançada. Cafeicultor e pecuarista, hoje aposentado.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

Nesta semana, o Blog de Edward de Souza convocou seus jornalistas e articulistas incumbindo-os de escreverem sobre um assunto muito especial - as MÃES, cujo dia é comemorado no domingo, 9 de maio.


A seguir, leia o conto de nossa colaboradora especial,
Silvana Boni de Souza


ESPECIAL HOMENAGEM ÀS MÃES

DIA DAS MÃES


Impresso no papel fotográfico está aquilo que um dia ela foi: altiva, enérgica e cheia de si, com os cabelos arrumados para a ocasião festiva, registrada por um membro da família.

Ela se olha no espelho, intrigada com a imagem da idosa que vê refletida, em discrepante e inevitável comparação!

Sentada no banquinho da penteadeira, de assento bordado por ela mesma, curva-se para a direita, em busca do antigo apoio que seus músculos fracos não podem lhe dar mais.

Caminha com dificuldade.

Oitenta e três anos de vida...como contestar uma desconfiança que, porventura, ela possa verbalizar? Como convencê-la das novidades da ciência, sem sofrer um corte abrupto de raciocínio, quando a fala for censurada pelo velho costume de imperar, adquirido em anos de dedicação a filhos, marido e casa?

“Ninguém sabe nada!”

“Lembra disso, mãe? Lembra daquilo?”

As fotos antigas aos poucos vão sendo revistas, no álbum escurecido pela ação do tempo.

Ela desarruma uma nova sequência, planejada sem sentido. Solta as figuras da página, separa as mais antigas e se perde...

“Onde estão aquelas para a árvore genealógica?”

Logo elas aparecem em outra pilha para, imediatamente, serem perdidas de novo.

Os parentes, aos poucos, aparecem em procissão para a eternidade. Parecem cumprimenta-la, por trás de seus bigodes curvos e seus vestidos compridos!

“Buon giorno, cara mia! Come stai? Da quanto tempo siamo quà ad aspettare un’attenzione tua!”

Ela responde, silenciosa como o mundo que a cerca, apesar do apetrecho que carrega nos ouvidos. A parafernália digital que tenta fazer com que ela desista de participar do convívio familiar, ao deixar de perceber um pequeno suspiro ou mesmo o barulho de lágrimas no chão, quando o seu consolo poderia ser o suficiente.

Inflexíveis, seus sintomas seguem à risca o planejamento do destino e demonstram que, aos poucos e com pequenas mordidas, o que resta de sua memória breve, de seus movimentos, da sua altivez, da sua independência se despedem da normalidade.

Ela se recolhe a seu mundo, ilustrado pelas imagens fantásticas da infância, da sua escola em Milão, Collegio Reale delle Fanciulle di Milano, lembra com clareza cada frase trocada com os tios, as aulas de história acrescidas de ricos detalhes, os passeios em parques verdejantes e, na volta, a vida em Porto Alegre e o casamento com um membro da família amiga. As fotos do Capão da Canoa registraram corpos jovens e bem torneados.

O grupo de moços eretos mostra as próprias qualidades e as previsíveis esperanças de sucesso!

Em baforadas refrescantes, a memória antiga desfila à sua frente, com toda a dignidade.

A primeira filha, durante o banho! A primeira casa construída em São Paulo.

“O Largo da Batalha...Eu não gostava muito de morar lá. Lembro quando o seu pai construiu a casa. Eu queria uma escadaria de mármore...”

“Olha essa foto, é o meu primeiro carro! Onde será que o seu pai foi encontrar um tão pequeno?”

“A festa de aniversário...Eu que fazia os doces!”

Uma imagem mais antiga, herdada de sua mãe, cai no chão e ela nem percebe. Deixa o conjunto de registros de lado e logo abre outro álbum, puxado a esmo e com dificuldade daquela sua coleção desfalcada.

“Mãe, está na hora do remédio.”

“Que remédio? Não estou doente!”

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*Silvana Boni de Souza é farmacêutica bioquímica, especialista em Homeopatia. Escritora de contos e crônicas. Desde 2000 participa de alguns projetos dinâmicos: http://www.vivasp.com/; http://www.carmenrochacontos.pro.br/ e ainda comanda seu blog desde 2008: http://www.deshortsnasiberia.com.br/
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domingo, 2 de maio de 2010

CONTO INÉDITO DE JORNALISTA FALECIDO

DAGUIRRA, A DAMA DE BAGDÁ

Desde criança, quando passava minha infância na tranquila cidade de Bálsamo, a noroeste de São Paulo, a imagem que tenho de Bagdá é aquela dos castelos gigantes e misteriosos, de ruas estreitas, de bares camuflados nos porões, nos tapetes voadores, nos reis e nas rainhas e, principalmente, de Ali Babá e os 40 ladrões – este último que ficou mais famoso no Brasil depois que políticos confundiram Ali Babá como chefe dos 40 ladrões e não como o seu o seu implacável perseguidor.
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Bagdá me lembrava – e ainda me lembra na imaginação – a cidade dos sonhos, das lâmpadas maravilhosas realizadoras de desejos impossíveis. Jamais – mesmo nos dias de hoje – deixei que a guerra desfechada por sanguinário norte-americano, no suposto extermínio de armas nucleares, na conquista permanente da paz mundial, eliminasse de minha mente essa visão romântica.
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Bagdá me lembra, ainda, as mulheres com véus transparentes, deixando ver a suavidade de suas faces, o misterioso e envolvente olhar feminino que só as mulheres árabes conseguem ter.
Assim, caminhando pelo corredor do terceiro andar no Hospital do Câncer, para melhor circulação do sangue, é que via, bem ao final, a figura de uma mulher que, por motivos ainda desconhecidos, me levavam em sonho para Bagdá.

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Ela estava lá, aparentemente só, à espera não se sabe do quê. Mais tarde, fiquei sabendo que era o seu cunhado que ali estava internado e só estava aguardando determinação para ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva. O motivo da doença, não fiquei sabendo.
Só a vi, sozinha, o olhar perdido em algum lugar de seu deserto particular e, com o cansaço natural provocado pela quimioterapia, parei estático, escorando-me na parede. Respirava com dificuldade e ela me ofereceu uma cadeira.


- Se quiser, pode entrar e descansar. Meu cunhado já foi para a UTI.
Agradeci, respirei, como se ali estivesse um oásis.
Restabelecida a respiração normal, ia recomeçar a caminhada de volta ao meu quarto, quando ela formou uma espécie de triângulo com seu braço esquerdo e ofereceu a ajuda, com uma ternura, com uma meiguice jamais sentida em toda a minha vida.


Não afeito à delicadeza tão espontânea, me neguei a aceitar e ela insistiu, formando de novo o triângulo com o braço esquerdo:
- Aceite, por favor.
E nessa sua insistência, por instantes, senti parte da milenar solidariedade do povo árabe. Se aceitasse, agora compreendia, estaria aceitando a ajuda que ela não poderia mais dar ao cunhado ausente.
Deixei-a me conduzir até ao meu quarto e lá mesmo ela se identificou:
- Meu nome e Daguirra. Sou de Bagdá.
Antes que eu a questionasse, ela complementou:
- Não desse Bagdá atual. Mas o Bagdá do meu tempo criança, dos castelos e das mil e uma noites.
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*Acompanhe na próxima quarta-feira, o quarto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. (Edward de Souza / Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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sexta-feira, 30 de abril de 2010

MELINDRE,

FILHO DILETO DO ORGULHO


Sabemos que o ORGULHO é um dos maiores males da humanidade. Desde eras remotas o homem se deixou levar por essa terrível praga moral. Nem mesmo as mais angustiantes e dolorosas doenças, epidemias ou pragas que passaram pela Terra desde a existência do ser humano, mataram tantas pessoas do que as consequências que advierem do orgulho de muitos indivíduos que aniquilaram milhões e milhões ou bilhões de pessoas nas guerras e tramas armadas. Tudo pela ânsia do poder, da ganância ou pelo simples ato de ter. O homem da caverna, já lutava pela fêmea e se sentia ferido em seu orgulho quando se via privado daquilo que queria, seja o que fosse. A luta pela liderança de um grupo ou tribo era uma questão de honra e de orgulho.

No Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa encontramos uma definição bastante extensa para o Orgulho. Há um item denominado Uso Pejorativo que diz: sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, imodéstia. Acrescenta, ainda: atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência. O antônimo para essa palavra é HUMILDADE.

Já a palavra MELINDRE, que consideramos filho dileto do Orgulho, o mesmo dicionário expressa esta definição: disposição para se RESSENTIR DE COISA INSIGNIFICANTE; SUSCETIBILIDADE.

Desta forma, em minha opinião, o Orgulho, na verdade, é o cancro da humanidade e enquanto não nos livrarmos dele ou o erradicarmos, não conseguirá ser promovida de um Mundo de Expiação e Provas para o Mundo em Regeneração.

Os dramas familiares são ocasionados pelo orgulho excessivo. Quando da programação da Reencarnação, promessas de força de vontade e de se regenerarem através do amor são esquecidas, pois basta uma “picada” de orgulho para que as pessoas se percam e se desvairem no mar do desentendimento.

Assim, o MELINDRE, filho dileto do ORGULHO, tem ocasionado muitas e muitas desavenças por esse nosso mundo tão sofrido. Basta que o indivíduo fique ressentido ou magoado por uma palavra insignificante e a vingança e a inveja se fazem presentes em seu âmago.
Nos Centros Espíritas, infelizmente essa terrível praga está presente. Os Espíritos que nos assistem não conseguem erradicar esse mal, pois são obrigados a respeitar o livre-arbítrio de cada um. A falta de estudo, o esforço para uma reforma íntima prometido quando no interior do Centro, principalmente quando estão compenetrados ou concentrados para receber o passe, são esquecidos logo em seguida, quando os apelos do consumismo dos vícios se fazem mais fortes do que os ensinamentos de JESUS.

Mas, o pior é quanto aos trabalhadores da Seara Espírita. A História do Espiritismo no Brasil registra vários fatos de dissidências dentro do movimento. Essas dissidências não serão comentadas aqui nessas linhas, mas idéias diferentes e maneiras de ver a Doutrina e principalmente o MELINDRE ocasionaram esses problemas. Nada disso aconteceria se a leitura de KARDEC estivesse presente em seus mínimos detalhes. O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cuja primeira edição se deu em 1862, em seu Capítulo VII – BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO, item 11, O Orgulho e a Humildade, traz o seguinte trecho “A humildade é uma virtude bem esquecida entre vós; os grandes exemplos que vos foram dados são bem pouco seguidos e, todavia, sem a humildade, podeis ser caridosos com vosso próximo? Oh! Não, porque esse sentimento nivela os homens; diz-lhes que são irmãos, que devem se entre ajudar e os conduz ao bem. Sem a humildade vos adornais de virtudes que não tendes como se trouxésseis um vestuário para esconder as deformidades de vosso corpo. Recordai “Aquele que vos salva; recordai sua humildade que o fez tão grande, e o colocou acima de todos os profetas.”

“Herculano Pires em seu livro “O Centro Espírita”, editado pela Livraria Allan Kardec, em sua terceira edição, maio de 1990, traz o seguinte trecho “Sem a humildade que gera e sustenta o amor ao próximo, nem o estudo pode dar frutos”. Por outro lado, sem estudo da humildade não produzem amor, mas fingimento, hipocrisia de maneiras e fala melosa, de voz impostada para imitar anjos.”
Verificamos, então, que o Melindre é um inimigo poderoso da Raça Humana e particularmente, dos trabalhadores dos Centros Espíritas. Basta que alguém se sobressaia com um pouco mais de sabedoria ou se destaque em trabalhos sociais, ou ainda em trabalhos mediúnicos, para que um irmãozinho menos preparado sinta a tal de suscetibilidade, mencionada no Dicionário Houaiss. Se porventura, o dirigente ou outro trabalhador da Seara responsável por qualquer setor da casa chamar a atenção de alguém por algum motivo, é bem possível que o tal de melindre se faça presente, salvo raras exceções, mesmo que o tom de voz e a maneira de falar do dirigente sejam cheias de amor e compreensão.

O que seria preciso fazer então, para ajudar os Guias Espirituais a manterem a Casa Espírita livre, ou quase livre desse terrível mal? Palestras, palestras, palestras, estudos, e correção de posturas. Para isso, basta nos espelharmos em Jesus e num infindável número de Espíritas e não espíritas que passaram por este mundo, nos dando magníficas lições de humildade, coragem e amor. Desde a chegada do Espiritismo no Brasil, que se deu, se não me falha a memória, por volta do ano de 1868, nunca a Doutrina esteve só. Sempre houve alguém se sobressaindo para incentivar e empurrar o Espiritismo para frente e para o alto. Silveira Sampaio, Bezerra de Menezes, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo, Chico Xavier e tantos outros; Irmã Dulce, Tereza de Calcutá, etc. E há ainda os antigos filósofos gregos, chineses, que nos deixaram lições de humildade e razão. Se nos dedicarmos a revê-los de quando em vez, fatalmente muito faremos para diminuirmos esse terrível mal chamado MELINDRE.
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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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