quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NOITE DE PAZ
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Acocorou-se e se pôs em posição para executar o trabalho, alerta a todos os movimentos ao redor. Ao olhar a lua e se deparar com o céu estrelado, deixou que a imaginação flutuasse por alguns instantes, tempo suficiente para que imagens perdidas retornassem à mente, fortes, nítidas, igual a um filme projetado na tela do cinema. Estava tranquilo, certo de cumprir o dever com sucesso, como ocorrera inúmeras vezes, de acordo com o previsto. Dispunha de alguns minutos antes de concluir a empreitada, as lembranças que afloravam abruptamente não se constituiriam em empecilhos.
Ele se via ainda criança, como se estivesse frente a um espelho gigante. O quarto era simples, apenas a cama e um velho armário. As paredes, pintadas a cal, desbotadas, com teias de aranha junto ao teto, onde uma luz pendia presa por um fio. Mexia-se debaixo do lençol, às vezes abria os olhos e espiava os sapatos, deixados à beira do leito. Nenhum pacote ao lado, repetia-se a rotina de sempre. Logo mais teria de se levantar, assear-se e preparar-se para o ralo café da manhã, sem ânimo para sair à rua, encontrar-se com os moleques e mostrar os presentes recebidos.
Em seu devaneio infantil justificava a demora. Papai Noel se atrasou, perdeu-se em determinada quadra do caminho, sofreu algum tipo de acidente, ficou impedido de atender seu pedido, o desejo de ganhar um trenzinho. A realidade rompeu o sonho, ergueu-se amuado, abriu o armário, juntou os velhos soldadinhos de chumbo, espalhou-os pelo chão, em posição de batalha. Gostava do comandante, com uniforme azul, montado no cavalo. E também dos canhões, que enfileirava na dianteira da minúscula legião. Não sabia direito como se operava uma guerra, como seriam os campos de batalha, mas supunha que os mais fortes derrotassem os inimigos fragilizados pelas perdas de homens em embates ferozes. Acreditava que, quando crescesse, seria um grande estrategista militar, com tropas treinadas para receber suas ordens de avançar.
Quando se cansava da brincadeira socorria-se de velhos gibis, encontrados no lixo. Olhava as figuras, admirava o arrojo dos mocinhos que sempre escapavam dos perigos e armadilhas e venciam os bandidos. Peito empinado rumava para o quintal, armava-se com sua espada feita de cabo de vassoura e duelava com galhos e ramos, transformados em piratas.
A adolescência pouco alterou seu ritmo de vida. Raras aventuras, lazer quase nenhum, alguns namoros isolados de pequena duração. Sem nada para oferecer, as meninas logo se afastavam, trocavam-no por rapazes mais abastados, que convidavam para sorvetes, bailes alegres e movimentados, beijinhos roubados.
Em busca de ocupação, alistou-se no Exército. Nova decepção. Não teve oportunidade de participar de ações militares, de pesados exercícios e manobras. Passou o período de caserna recebendo encargos vexatórios, limpar os banheiros dos oficiais, engraxar sapatos dos superiores. De positivo, unicamente o manejo de armas, o aprendizado de montar e desmontar, de atirar com perfeição, acertando alvos dispostos a cem metros de distância.
Saiu como entrou: soldado raso, nem mesmo a cabo se elevou, para ter o gosto de uma distinção, soldo maior. Na rua, vagou sem destino, à espera de uma luz que indicasse o rumo a tomar. Entrou numa igreja, no silêncio do templo contemplou o presépio, o menino pobre na manjedoura. E santos martirizados nos altares. Pareceu-lhe ouvir uma voz distante e repetitiva, um chamamento do além. Compreendeu que a injustiça sempre prevaleceu pela vontade dos homens, de nada valiam os ensinamentos e exemplos, a maldade foi enxertada na alma, é inerente à natureza humana. O clamor permanecia em sua cabeça, ecoava, instigava, tinha de se opor à crueldade, restabelecer a concórdia.
Por acaso, na praça, deparou-se com a dor de mulheres que choravam a perda de uma menina, atingida por bala perdida durante confronto entre policiais e traficantes. Condoeu-se com o desespero da mãe e se manifestou, revoltou-se contra a impunidade. Sua veemência ao erguer os braços, gesticular e clamar por justiça despertou a atenção dos manifestantes que obstruíam a rua e incendiavam pneus.
Naquele bairro esquecido, muitos sentiam na garganta o sabor amargo do sofrimento, a amargura de prantear a morte. Alguns, mais exaltados, disseram que ele poderia ser um aliado no combate ao crime, um cidadão capaz de se igualar a um juiz severo. Eles precisavam de um homem corajoso que pudesse protegê-los, livrando-os do perigo que rondava suas casas.
Foi assim que encontrou trabalho decente que lhe garantiria sustento, além de lhe proporcionar satisfação, aquela alegria primitiva de se saber benfeitor, de se julgar acima do mal, ombreando-se aos heróis que povoaram as fantasias da infância. Os rendimentos chegavam por meio de mãos trêmulas, sofridas, de gente da comunidade que o queria por perto, mas sem demonstrar proximidade ou amizade verdadeira. Respeitavam-no do mesmo modo que o temiam, movidos pela terrificante força do medo.
Orgulhava-se das missões cumpridas, nunca havia falhado. O serviço era solitário, dispensava a participação de auxiliares. Recebida a encomenda, traçava um plano seguro, espreitava, escolhia o local e o horário, preferencialmente em horas desertas. Chegado o momento, o coração palpitava e ele se alegrava, como agora.
Olhou o relógio, respirou fundo. Em seguida, apagou da memória o passado, ergueu o fuzil e aguardou. Quando a vítima escolhida abriu a porta da casa e se dirigiu ao jardim para regar as plantas, apertou o gatilho, apenas um disparo, certeiro. O silenciador impediu o estrondo da detonação, o ruído do trovão que indica a força bruta da natureza ou a ira de Deus. Com um sorriso nos lábios, acondicionou a arma na sacola, ergueu-se. O matador profissional tirava de circulação mais um traficante de drogas que a Justiça deixara em liberdade. Depois, aproximou-se do cadáver, ensanguentado. Deitou sob o peito do desafeto um cartão desejando Feliz Natal e foi cumprir o resto da missão: deixar um lindo presente para os órfãos. Papai Noel não podia se ausentar, que é que as crianças iam pensar? Era Noite de Natal.
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*Guido Fidelis,
jornalista, escritor cosmopolita, também advogado é outro dromedário da imprensa paulista. Ex-Última Hora, Diário do Grande ABC, A Nação e A Gazeta, sua pulsante literatura deixa pouca dúvida a respeito de suas preferências: drama policial com um aroma decididamente neonaturalista. Guido Fidelis tem mais de uma dúzia de livros publicados. A última obra de Fidelis, "Dádiva", foi lançada no final do mês passado pela RG Editores, de São Paulo.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ESTRELA DO ORIENTE

Sob a luz de uma estrela, os magos Gaspar, Melquior e Baltasar marcharam para encontrar o sítio que acolhia o Cristo “nascido Rei dos Judeus”. Segundo registra o evangelho, a estrela os precedia e parou exatamente por sobre onde estava o menino Jesus. “E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande intenso júbilo” (Mt 2, 10).
"Entrando na casa viram o menino (Jesus) com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e abrindo seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra.” (Mt 2, 11). “Sendo por divina advertência, prevenidos em sonho a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra” (Mt 2, 12).
Historicamente pode hoje ser considerada a troca de presente na celebração do nascimento do Nazareno, - 25 de dezembro - uma herança da atitude dos Magos com suas oferendas. Entre os símbolos do Natal, muitos originados pagãos foram cristianizados com o correr de longos anos. Aqui cabe uma referencia ao papa Silvestre І, pontificado exercido entre anos 314/335, paralelamente ao governo do imperador Constantino. Silvestre em seu período foi responsável por uma formação eclesiástica de maior independência da igreja, vivendo na época grande influencia da tradição imperial romana onde o imperador se achava legitimo Pontífice maior, dominador da igreja ou qualquer outra organização religiosa. O espírito de paz e tranquilidade do Papa Silvestre conseguiram bom diálogo e apoio de Constantino que autorizou a edificação da basílica de São Pedro. No clima de simpatia deu-lhe também o palácio Lateranense, morada dos papas por muitos séculos.
A primeira Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém teve início de construção em 326 por ordem do Imperador Constantino, graças à relação cordial com Silvestre. Ela foi erigida no sítio de um templo e santuário romano do século II que, segundo uma tradição local, tinha sido construída sobre o lugar onde Jesus fora crucificado e sepultado.
O dia 25 de Dezembro, como suposta data de nascimento de «Jesus», foi fixado em 320, pelo papa Silvestre І. As datas do nascimento tinham variação conforme as interpretações à época vigentes. No início do séc. III festejava-se em 20 de Maio, mas também houve calendários que apontavam para 28 de Março. 25 de Dezembro era o dia pagão em que se celebrava o nascimento de Mitra, festividade oficial.
Símbolos marcantes pontuam as festividades do Natal. Estrelas: os Reis Magos para adorar Jesus em Belém tiveram como guia a Estrela do Oriente. Sinos: mensageiros de notícias na antiguidade sendo hoje usados em todas as festas e cerimônias religiosas. No Natal obedece ao ritual especial anunciando o nascimento do Menino Deus. Árvore de Natal: Ela simboliza a vida tendo sido escolhido o pinheiro por nunca perder folhas e verde mesmo no inverno. A lenda informa que Martinho Lutero, -1483/1546- Eisleben, Alemanha, monge agostiniano, teólogo, reformista da Igreja Católica, “Pai do Protestantismo” - foi seu introdutor na festa natalina com enfeites e bolas coloridas significando os frutos da árvore viva que é Jesus. Música: embora uma extensa variedade de melodias circule o mundo no Natal, no Brasil especialmente duas - universais -Jingle Bell de 1857, a mais festiva, no entanto, sem aludir ao nascimento de Jesus são repetidas anualmente. Traduzida em vários idiomas a volta do mundo portadora de grande ternura, “Noite Feliz” composta há quase dois séculos -192 anos - na Áustria, pelo padre Joseph Mohr em parceria com o celebre Franz Gruber.
O presépio, símbolo absolutamente cristão, é deles o mais significativo. Quem mais difundiu o culto do presépio foi São Francisco de Assis. Em 1224, na cidade de Greccio, montou o primeiro com a cena da manjedoura repleta de feno, o asno e um boi de verdade. No século 8 a Igreja de Santa Maria de Maggiori, próximo à estação Roma Termini, no centro velho de Roma, montou em madeira o ambiente de nascimento de Jesus.
Transformou-se em costume dos povos o culto do presépio como incentivou São Francisco de Assis. Em Franca, Thomaz Tardivo, um fiel seguidor dos princípios, se dedica ao carinho de cuidar e aprimorar o projeto que estabeleceu há 55 anos, anualmente, no Clube dos Bagres, para encantamento de tantos que o visitam.
Papai Noel, cuja história todos conhecem, entre as crianças, simbologia mais expressiva com seu trenó e sacos vermelhos carregados de presentes, ainda permanece para muitos o sonho de esperanças que nunca deve abandonar os sentimentos humanos.
A retrospectiva aqui deixada tem o propósito de acordar relações urbanas em um mundo conturbado, repleto de mutações que o homem vai aceitando sem refletir na urgência de paz e perdão, entendimento e amor entre os povos. Estamos festejando o aniversário de Jesus Cristo. Pensemos nele convidando-o para a festa a presidir nossa reflexão.
Não fiquemos ocupados somente com o desfrute de prazeres comuns o ano todo. Feliz Natal!__________________________________________
Garcia Netto é jornalista, radialista e escritor francano. Autor do livro "Filhos Deste Solo" - Medicina & Sacerdócio.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

NATAL, A FESTA QUE NÃO
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.HOUVE PARA ESSA GENTE

O relógio na parede do quartel da 1ª Cia Independente de Bombeiros de Santo André está marcando 12 horas e dez minutos. O único ruído que se houve é de um rádio de pilhas dentro de uma cabine onde um soldado faz plantão ao lado do telefone. O quartel está bem iluminado e se pode ver uma carreira de caminhões vermelhos equipados para serviços. Sentado num desses caminhões, sozinho, está o sargento Sillos, comandante de prontidão na noite de Natal. O sargento Sillos é um homem baixo, forte e bem disposto. Dos seus 41 anos de idade, 10 já foram dedicados ao Serviço de Salvamento do Corpo de Bombeiros. Ele é quem mergulha, com qualquer temperatura, para retirar cadáveres ou localizar objetos no fundo dos rios. Mas também foi o homem que – apesar dos seus 105 quilos – emendou uma escada comum, de alumínio, à escada magirus para alcançar a cruz no alto da Igreja do Carmo e ali subir para trocar as lâmpadas que há muitos anos estavam queimadas. O sargento Sillos é o bombeiro que se acostumou a ver muitas coisas tristes, mas mesmo assim lembra com emoção do incêndio do Clube dos 28, em São Paulo, ocorrido durante um baile em 1953. Naquela noite ele viu a morte de 71 pessoas.
Recorda, ainda, neste mesmo ano, do choque entre dois bondes na esquina da rua Lavapés com Conselheiro Furtado, em São Paulo. Os passageiros, homens, mulheres e crianças, tinham que ser retirados dos destroços. Alguns gemiam muito. Outros já estavam mortos. E era dia de ano novo.
Dona Margarida é a esposa do sargento Sillos. Os filhos são quatro: Sidnei, de 15 anos; Sidmar, com 14; Sidmeire, de 12 e Sidval, com 6 anos. Ele nunca passou um Natal com sua família. Sempre participa de uma ceia com seus colegas no quartel. Acha isso muito triste e procura se conformar.
Caminha na noite pelo pátio do quartel silencioso, olha para a árvore de Natal iluminada que acende e apaga luzes coloridas. Ele é um bombeiro. Por isso sabe que alguma coisa está para acontecer.

Queridos amigos do Blog do Edward de Souza:
O texto acima foi a primeira parte de uma reportagem que produzi rodando por Santo André na noite de Natal de 1969. Ao meu lado, o então iniciante e hoje famoso fotógrafo Pedro Martinelli. A matéria foi publicada três dias depois, no “Diário do Grande ABC” de 27 de dezembro, com o título “Natal, a festa que não houve para essa gente”. Com ela, tirei primeiro lugar num concurso de reportagens promovido pela Prefeitura de Santo André, com o patrocínio de um banco. Com a grana, 500 cruzeiros novos, a moeda de então, paguei metade de um Gordini usado que comprei em sociedade com meu irmão, o Rubem Mauro, também jornalista e escritor, e que era o “secretário de redação” do Diário, cargo que hoje corresponde ao de editor-chefe. Nossa redação era na famosa “casinha”, na rua Catequese. A matéria foi longa. Escolhi aqui para o blog só a primeira parte. Mas eu contava também sobre Lázaro, um taxista; Ramon, um policial civil de plantão na delegacia; sobre o casal Dirceu e Antonia, garçons; e dona Lucila, enfermeira do Pronto Socorro de Santo André.
Não tenho a menor idéia onde possam estar todos eles hoje. O sargento bombeiro Sillos estaria com 81 anos. Desejo muito que ainda vivo, com saúde e feliz. Foram meus heróis numa noite de Natal que ajudou a sedimentar minha carreira e se tornou inesquecível em minha vida. Como eles, eu também estava trabalhando, com o dedicado e vibrante Pedrão. Percebam, são 40 anos depois. Não me perguntem da minha emoção, naquela noite e hoje. Por mais que tentasse, seria impossível contar. Feliz Natal a todos!

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*Milton Saldanha, 64 anos, é jornalista e dono de notável memória, que adora manter sempre viva.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


INFANTICÍDIO
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A história da boneca que virou fantasma e como ectoplasma frio e aterrorizante assombrou dias e noites de uma criança carente e solitária é só um dos aspectos da narrativa que hoje me obrigam a fazer para uma autoridade que insiste em desvendar as origens daquilo que muitos chamam de crueldade diante do mundo e indiferença pelas pessoas. Não, tento gritar pela milésima vez. Não, não e não. Não nasci assim, debochada e cruel para com a dor alheia, a miséria humana e o vale tenebroso onde repousam insepultos todos os sonhos um dia sonhados e jamais realizados.
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Também não fui esculpida aos poucos, pelo dia-a-dia daqueles que jamais souberam porque o sol desponta todas as manhãs e em seguida dá lugar à noite, uma sucessão de idas e vindas sem qualquer sentido ou vantagem para os que são meros espectadores dessa e de tantas outras alquimias insondáveis da existência.
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É preciso contar desde o início, isto é, se realmente meu relato tiver alguma importância na ordem das coisas de qualquer lugar deste planeta. Enfim, se é assim que esperam, pouco me importa dizer que nasci sorrindo. E essa história sempre foi contada entre parentes e conhecidos. Cheguei invertendo a ordem das coisas, pois só mais tarde vim a saber: todas as gentes nascem chorando. E eu cheguei rindo. Acho que foi para depois poder chorar tudo o que choro sem direito a reclamar de nada.
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Gastei meu cacife logo de cara, uma espécie de tesão incontrolável pela felicidade, o gozo e o prazer que até hoje me persegue e nunca consigo realizar. É o fantasma da boneca me espreitando pela vida afora em todos os desvãos, em qualquer esquina, até mesmo nas ondas do mar, nas tardes que deveriam ser de prazer e só terminam em mais ansiedade e vazio.
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Estou falando demais, tenho consciência disso, mas não posso resistir. Cheguei até aqui depois de muito percorrer caminhos, tentar atalhos, ralar os joelhos nas pedras e arder de borbulhas pelo corpo inteiro, ânsia incontrolável de alguma coisa que não sei o que é, mas tento materializar em objetos de desejo. Todos, até estranhas engenhocas para fazer pães de minuto a cada manhã, sobre a mesa do café daqueles que a adquirirem nos magazines, em dez prestações, sem nenhum acréscimo.
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Sim, sei que até nisso sou modesta, pequena e acanhada. Deveria ter a mesma comichão sonhando com carros, transatlânticos, hotéis principescos e acabo desejando algumas panelas vistosas e a tal máquina de fazer pão. Devo reconhecer que me contento com pouco. Tudo, qualquer geringonça me fascina. Menos bonecas. A essas tenho o horror mais sanguinário deste mundo. Bonecas e filhos, também é bom confessar, embora, quanto a esses, não goste de falar muito. Até porque já foram três que não se aguentaram em meu corpo por mais de algumas semanas. Foram eles que não gostaram de mim, é bom deixar claro.
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A mesma história da boneca, que preferiu ficar no lixo, virar fantasma antes de correr para meus braços até ser, quem sabe, destroçada por meus beijos. Em seu lugar, como presente de Papai Noel, chegou uma caixa. Aquela tantas vezes cobiçada nas vitrines das lojas e nos braços das crianças felizes. A mesma que inundava meus sonhos e fantasiava meus dias. Até que chegou a hora.
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Nenhum velhinho escalou chaminés ou trepou pelos muros. Foi mesmo minha mãe, indiferente como sempre que, determinado dia, chegou abraçando a tal cobiçada caixa e me entregou dizendo ter encontrado o presente no lixo. Assim, da mesma forma como estou contando agora. No lixo. No primeiro momento isso não teve a mínima importância. Afinal, fosse como fosse, minha vez tinha chegado.
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Só comecei a chorar e soluçar pela vida inteira depois que abri o pacote. Estava vazio. Vazio como ficou durante toda a minha infância, sobre o pequeno e modesto guarda roupas, o fantasma da boneca debochando e rindo das minhas lágrimas. Da Papinha, era esse o nome do brinquedo, só o espectro, o vazio e a ausência.
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Veja bem, doutor. Hoje não dou a mínima importância para isso, só estou contando porque o senhor disse que lembranças da infância talvez possam melhorar essa comichão que me sobe pelas entranhas, inunda meu cérebro e me faz desejar panelas, fornos de micro-ondas e máquinas de fazer pão. E gastar tudo o que tenho e o que não tenho para alcançar um tesouro que nem eu mesma sei o que é.
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Para ser sincera e concluir essa conversa, penso que a única vingança que valeria a pena seria destroçar esse tal de Papai Noel, arrancar barba, cabelo, boné, rasgar suas roupas escandalosas e atirar tudo no monturo de lixo onde ele achou a caixa e a boneca fantasma há tantos anos.
Minha mãe? Ah! Há muito tempo não sei nada dela, nem onde anda, se ainda vive ou já morreu. Para falar a verdade, nem lembro mais de sua cara.
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Virgínia Pezzolo é jornalista, advogada e escritora. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Autora do livro Procissão do Silêncio, publicado em 2006.
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sábado, 19 de dezembro de 2009

REMINISCÊNCIAS DA MINHA INFÂNCIA

O VELHO E DOCE NATAL
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Que saudades tenho do Natal quando eu era pequenino, nos idos anos 50 e primeira metade da década de 60! Nesta época do ano eu ficava sôfrego para ver o Presépio e a árvore de Natal montados, não dando sossego para minha saudosa e adorada mãe, enquanto ela não tornasse um fato meu desejo intenso... Depois de muita insistência da minha parte e muitos pitos da minha genitora, ficava com meus então olhinhos primaveris brilhando, encantado em vê-los montados! Diariamente mudava a posição dos Reis Magos e ficava admirando o Menino Jesus dormindo, ladeado pelos pais, São José e Nossa Senhora...
Também tirava areia, colocava areia, tirava pedrinhas, colocava pedrinhas, movimentava todos os demais personagens do Presépio, fazendo de conta (a exemplo da Emília...) que eles estavam na maior fuzarca... Enfim, este era meu folguedo dileto até o dia 6 de janeiro, quando comemorávamos o Dia de Reis. Claro que fazia tudo isso longe dos olhares coercitivos da minha mãe.
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Havia duas épocas do ano em que imperava o armistício na minha casa, que ficava na Rua Javaés nº 182, Vila Assunção, Santo André, SP - na semana da Quaresma, que antecede o Domingo de Ramos e do início do mês de dezembro até o Dia de Reis. Considero essas épocas como tempos de harmonia porque eu podia fazer as piores traquinagens, sem levar em represália uma bela sova da minha mãe (daria tudo para vê-la novamente, nem que fosse para levar uns tabefes por ter me tornado incrédulo.
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Ainda bem que no dia em que prendi um gato preto que apareceu lá no quintal de casa, no armário que ficava embaixo da pia, colocando, ainda, folhas de jornal em chamas, corria a semana da Quaresma, o máximo que minha mãezinha fez foi me olhar de maneira fulminante e dizer: - Você não perde por esperar... Realmente, no dia seguinte, passados os festejos, levei uma surra inesquecível. Esta foi a pior traquinagem que fiz no meu tempo de pequenino e me causa remorso até hoje. Quando lembro do gato saindo do armário com os olhos esbugalhados, miando assustadoramente e desaparecendo para nunca mais voltar aos meus domínios, me arrepio todo! Aliás, foi o primeiro pecado mortal que confessei antes de fazer a Primeira Comunhão. Bem, esta é uma história que reservo para uma próxima oportunidade, a grande festa da minha Primeira Comunhão, que fiz junto com minha irmã caçula, dois anos mais nova do que eu, a linguaruda da Valquíria...
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Voltando às recordações dos Natais do meu tempo de menino, tenho imensas saudades do glorioso dia em que chegava a Cesta de Natal Amaral, que minha mãe comprava e pagava a prestações o ano todo. Do rádio ouvíamos o anúncio: "Acaba de chegar no meu lar, a cesta de Natal Amaral... É Natal, é Natal, é Natal!"
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Jamais esquecerei o deleite inefável que sentia ao ver aquela cesta mágica aberta, vendo sair um a um, envoltos em tiras de palha, os suculentos e desejados produtos somente consumidos nesta época do ano. Dentro da cesta vinha o gigante Amaral, com a postura firme e a presença marcante, ostentava um sorriso sarcástico e um bigodinho tipo oriental. Com uma faixa no peito, vestia apenas uma sunguinha preta. Um boneco que, na contemporaneidade, considero que era um personagem enrustido. Essa figura bizarra, acreditem, exerceu uma magia inexplicável em toda a minha geração.
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Ah!... As nozes, as castanhas, frutas cristalizadas, o suco de uva, os panetones e outras guloseimas... Meus agora outonais olhos estão marejados ao lembrar-me daquela cena inesquecível. A cesta de vime aberta, trazendo júbilo para um pequenino sempre inquieto e especulador. As cestas de Natal Amaral eram vendidas em vários tamanhos... A nossa não era das maiores, mas estava longe de ser pequena.
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Lembro que as Lojas Americanas, lá da Rua Coronel Oliveira Lima foi inaugurada, se não me engano, no final do ano de 1959 ou 1960, bem perto do Natal. Não me esqueço desta inauguração porque havia uma multidão na loja, e eu estava lá, acompanhado da minha mãe e irmãs... De repente, fui puxado com muita força pelo braço, mas não via quem era. Meu coração começou a disparar e comecei a chorar copiosamente... Sabe quem me puxava?! Querem saber mesmo? Então vou contar! Era meu esforçado pai, que exercia seu ofício de chofer de praça no ponto de táxi, ali pertinho, ao lado do antigo Cine Carlos Gomes, telefone: 44-31-06 (será que se eu ligar, ele atende, este agora reles escrevinhador outonal?!...)
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Jamais esquecerei o empenho do meu amado e saudoso pai para manter a numerosa prole com seu imprevisível ofício porque, apesar das dificuldades, jamais nos faltou o pão de cada dia. Ele era conhecido como Pirapora, pelo fato de ter nascido em Piraporinha, atualmente um bairro da minha amada cidade de Diadema.
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Que delícia lembrar o alarido das nozes, quando as quebrava no vão da porta da sala! Quase sempre íamos à Missa do Galo, lá na Igreja Matriz de Santo André. Numa destas ocasiões dormi no colo da minha mãe e fiz xixi... Não me lembro do fato, mas minha mãe sempre me contava...
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Que alegria imensa era receber os presentes de Natal... Uma vez ganhei um ônibus de madeira bem grande, onde apareciam os passageiros pintados na janela. Depois de muito brincar com ele tive a “brilhante idéia” de abri-lo para tirar os passageiros lá de dentro... Para minha grande decepção não havia ninguém dentro do ônibus.
Completando meu desalento, além do ônibus inutilizado, claro que levei um pito daqueles da minha mãe, ainda bem que não foi acompanhado de uma sova...
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.Que saudades dos pimentões recheados, lasanha, nhoque, macarrão gravatinha, arroz de forno, polenta, cuscuz, que minha mãe preparava com mais variedade naquela época do ano... Saudades do tempo em que eu era pequenino e um pouco antes de dormir, ouvia aquele famigerado reclame dos cobertores Parayba. Em seguida, travava com meus pais o diálogo obrigatório e respeitoso que hoje não se pratica mais:
JP: Bença mãe...
Mãe: Deus te abençoe, meu filho!
JP: Durma com Deus!
Mãe: Durma também!
JP: Bença pai!
Pai: Deus te abençoe, meu filho!
JP: Durma com Deus!
Pai: Durma também!
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Que tristeza profunda a dura realidade de saber que nunca, jamais, em tempo algum, ouvirei este diálogo com os meus amados pais... Saudades da risada estrondosa e da proteção do meu pai, da pequena sanfona que ganhei no Natal, além do imenso amor da minha mãe. Atualmente fico profundamente melancólico nesta época do ano e cada vez mais saudoso de uma época feliz, que nunca, jamais, voltará...
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Agora quem fica atazanando minha esposa para montar o Presépio e a árvore de Natal é minha neta, que exulta, encantada, quando os vê montados, mas para este reles escrevinhador outonal não têm mais nenhum significado...
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Se pudesse, entraria na película “Laura”, um dos mais conhecidos e venerados filmes da história do cinema, e mandaria para a Cochinchina aquele insulso detetive, tomaria o lugar do sofisticado Waldo Lydecker e ouviria minha estrela dizer: - Venha João Paulo, venha... Iria ao mais profundo estado de deleite inefável por estar ao lado da minha amada imortal para sempre!
Um doce e Feliz Natal para todos vocês!
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*João Paulo de Oliveira pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Tem 56 anos, especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborar deste blog, João Paulo escreve, pela segunda vez, um artigo neste espaço.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Leon

Morava naquele prédio há pouco tempo e, como acontece nas cidades grandes, não conhecia os vizinhos, com quem cruzava, eventualmente, nos corredores, saudando-os com um cumprimento cordial. Não sei exatamente quando comecei a notar uma presença que, aos poucos, foi se tornando marcante, talvez pela inusitada estampa da pessoa, talvez pelo seu procedimento sistemático. Ele morava no fundo do corredor, no mesmo andar.
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Era um velhinho, cabelos brancos, abundantes, ondulados, bem-penteados. A Barba igualmente branca, maçãs do rosto rosadas, sorriso comedido e uns olhinhos... hum! pra lá de matreiros, que se sobrepunham aos óculos de armação redondinha! Vestia roupas comuns, simples, mas que lhe caiam perfeitamente, escondendo o ventre algo proeminente.
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Eu saía para o trabalho, todos os dias a mesma hora, geralmente apressada, cheia de anotações mentais, preocupada com a agenda diária a ser cumprida. A primeira vez que o vi, entramos juntos no elevador. Cumprimentei-o e sorri. Ele apertou o botão e notei que segurava um saco de tecido em uma das mãos. Dobradinho. Descemos. Agradeci quando abriu a porta e saímos, cada qual para o seu lado. E assim sucederam-se os dias. Olá! Bom-dia! Como vai? Que dia lindo! Como está frio! Será que ainda vai chover muito?
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Raramente o via quando voltava do trabalho, já que não tinha horário. Uma noite, já bem tarde, ao entrar no prédio, vi que ele também aguardava o elevador. Desta vez, devolvi a gentileza, apertando o botão do nosso andar, porque ele trazia o saco, que segurava com as duas mãos. Parecia pesado e ele, cansado.
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Fiquei extremamente curiosa com aquela situação que virava rotina e indaguei ao porteiro quem era aquela figura. – Ah! É o Seu Leão. Desde que veio morar aqui, é assim... Saco vai vazio, vem cheio. É boa gente, sempre sozinho, a esposa já se foi, faz tempo. Não sei o que ele faz, não dá entrada pra conversa... Acho que é aposentado.
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Na manhã seguinte, na mesma hora, no mesmo corredor, cumprimentei-o: - Bom-dia, Seu Leão! Ele sorriu e respondeu, com um sorrizinho travesso:- Bom-dia, mas não é Leão; é Lé-on, disse ele, fazendo questão de pronunciar o e bem aberto. - Ah! Como o Tolstoi, brinquei... – Isso! É o Jesus que me chama de Leão... - E a senhora, qual é o seu nome? – Sou Maria. – Lindo nome, como a Mãe do Nosso Senhor. Concordei e nos despedimos.
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Assim foi, por meses. Na correria antes das festas de fim de ano, me dei conta que naquela dia não tinha me deparado com o Leon. Lendo as notícias na internet, uma, em especial, chamou minha atenção: “Idoso atropelado num cruzamento no centro – carregava saco cujo conteúdo ficou espalhado na rua”. Leon Pinheiro está hospitalizado no Divina Providência e chama por Maria... Li as últimas palavras já com a certeza de que a Maria era eu e voei para lá, com o coração na mão.
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- Sou a Maria que o Seu Leon Pinheiro chama.
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- É parente? – Não, sou vizinha. Ele não tem ninguém.
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– Entre, então, porque ele não para de chamá-la!
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Leon, deitado no leito, tinha cara de desespero profundo; a perna engessada. Quase não podia falar. Quando me viu, serenou, ensaiou um sorriso dolorido e puxou algo debaixo do travesseiro. – É a chave do apartamento. Entra lá e saberá o que fazer. Desde o dia em que pronunciou o meu nome, sabia que podia contar contigo. Saí e disse que voltaria, mesmo ainda em dúvida de que missão me havia sido delegada.
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Entrei silenciosamente no apartamento de Leon. Tudo imaculadamente limpo. Fui de aposento em aposento, até me deparar com um quarto cheio de sacos. Sacos cheios! 365 sacos! Em cada um, havia a anotação, em letra caprichosamente traçada: Para os meninos do Presídio Central; para as meninas do Lar de Miriam; para as crianças do Hospital Santa Casa; para as vovós do Asilo Padre Cacique... E assim fui lendo, como pude, as mais de três centenas de bilhetinhos, porque as lágrimas teimavam em cair, embaçando a minha visão...E em todos, uma assinatura: Papai Noel. Claro! Papai Le-on!
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Pedi ajuda de amigos, parentes, vizinhos, para que os sacos de Papai Leon chegassem, sãos e salvos, ao seu destino. Ao retirar o último, notei que um pequeno saco tinha ficado no chão e me abaixei para pegá-lo. Parecia vazio. Também tinha um bilhetinho: Para Maria, do Papai Noel. Abri, curiosa, e dentro encontrei outro saco, igual aos de Leon. Entendi a mensagem – ele tinha me tornado parceira de sua missão, antes mesmo de saber que não poderia completá-la sem a minha ajuda.
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No dia de Natal, fui visitar Leon e o encontrei sorridente, recuperando as energias. Já o tinha avisado da missão cumprida. Fui desejar-lhe Feliz Natal e mostrar que a parceria havia sido aceita – levei 365 sacos, iguais aos dele, pronta para imitá-lo na mais gloriosa jornada que alguém pode empreender – a da solidariedade!
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Desejo a todos um feliz e abençoado Natal e que em seus corações reservem um espaço para a solidariedade – seja a de um sorriso, a de um aperto de mão, a de um abraço ou a de uma pequena lembrança que traduza o seu carinho para quem nada tem. Também sou Maria. Nivia Maria, como minha bisavó, minha avó e minha mãe. Também conheci um Leon, meu pai, Luiz Carlos. Eles me ensinaram a ser solidária. A historinha fica por conta da minha emoção e da arte maravilhosa de saber juntar as palavras, dando-lhes um sentido. E escrevendo-as com amor. Todas as palavras que eu juntar ainda vão ser poucas para traduzir o agradecimento a todos vocês, queridos amigos, que me brindaram, neste ano, com o melhor presente que alguém que escreve pode receber – a sua atenciosa leitura!
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Nivia Andres, jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008. Blog: http://niviaandres.blogspot.com/
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