quinta-feira, 23 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Capítulo inédito do livro “Periferia da História”

Milton Saldanha

24 de agosto de 1954

Este foi um dia impossível de esquecer. Eu estava no segundo ano primário do Colégio São José, no bairro do Fragata, em Pelotas (RS). Era um colégio de freiras rudes, que tratavam as crianças aos tapas. Fui colocado lá, oh azar, porque era a escola mais próxima de casa. Quando levei a primeira porrada da freira contei em casa. Não recordo se o pai ou mãe, mas um deles foi lá, chamou a freira e avisou: “nunca mais ouse tocar no meu filho. Se acontecer de novo eu venho aqui e... Não completou a frase, se retirou deixando implícita uma grave ameaça. Blefe, claro. Foi minha alforria naquele inferno. Todo mundo continuou apanhando em classe, menos eu. Na manhã ensolarada do dia 24 de agosto de 1954 mal tínhamos abertos nossos cadernos, o relógio nem marcava 9 horas, e a madre abriu a porta, interrompendo a classe. Nem entrou, falou dali mesmo, só com a cabeça para dentro da sala: “As aulas estão suspensas por três dias. O presidente da República acabou de se matar”.
Oba! Festejaram todos, já curtindo aquela vadiagem inesperada. Gostei também do anúncio da folga, mas ao mesmo tempo senti um choque. O fato de ter visto Getúlio Vargas de pertinho, deslumbrado, um ano antes; o afago dele no meu irmão Rubem Mauro; talvez até a admiração dos meus pais pelo velhinho, um populista que soube se tornar amado pelos pobres, tudo isso naquele momento me fazia um pouco diferente dos demais. Pesou também na minha frágil cabeça infantil a frase seca, dura mesmo da madre – “... acaba de se matar!” Se para um adulto isso sempre tem um impacto, imaginem então numa pessoa que recém completara 9 anos.
Jamais aconteceu, em toda História brasileira, uma comoção como aquela. E certamente nem voltará a acontecer, porque não existem mais condições para a cristalização de uma liderança personalista como foi a do Getúlio, capaz de reunir em torno da sua imagem uma massa humana tão ampla. Não há comparação possível, exceto, talvez, com a morte de Evita Perón, na Argentina. O desaparecimento de Tancredo Neves, por exemplo, apesar de toda poderosa máquina de informação que existe hoje, não representou um terço, se tanto, do trauma popular que foi o fim de Vargas. Sobretudo porque as lideranças, as situações e circunstâncias de cada episódio envolvem aspectos impossíveis de comparar. O Brasil literalmente parou de Norte a Sul, de Leste a Oeste, naquele 24 de agosto. Todas as rádios suspenderam imediatamente suas programações, nem comerciais iam ao ar, e passaram a tocar só música clássica, sóbria. A cada cinco ou dez minutos era lida no ar, com forte emoção, a Carta Testamento. Ecoavam as frases, fragmentos, que as pessoas começavam a destacar e a fixar mais, pelo gosto pessoal e sensibilidade de cada um, naquele contexto todo. “Fiz uma revolução e venci” -- “não me acusam, caluniam” – “as aves de rapina” – “o povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém” – “dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. Era de arrepiar, mesmo quando já se tinha ouvido aquilo uma centena de vezes. E cada vez que ouviam outra vez as pessoas caiam em pranto. Foi a única vez, em toda minha vida, que vi meu pai chorar. Em pé, apoiado na porta da cozinha, rosto enfiado no braço, exatamente como choram as crianças, ele deixou fluir sua dor. Nas ruas, vizinhos que antes mal se falavam, ou mesmo desconhecidos passando, se abraçavam em lágrimas, compartilhando da mesma solidariedade, como se o povo todo fosse uma única e grande família. As notícias chegavam pelo rádio principalmente do Rio de Janeiro e Porto Alegre. Multidões enfurecidas quebravam e incendiavam símbolos locais do imperialismo e da oposição, como vitrines de empresas estrangeiras, jornais, rádios. A rádio Farroupilha, então a mais famosa e de maior potência no Rio Grande do Sul, dos Diários Associados, foi incendiada. Um locutor saltou de uma janela do primeiro andar e fraturou a coluna. O quebra-quebra foi muito grande. O Exército, também surpreendido e paralisado pelos fatos, com seus subalternos traumatizados como o resto do povo, demorou a sair às ruas para recompor a ordem. No Rio, chegaram a usar tanques de guerra, dando tiros nas avenidas com balas de festim, de efeito moral (não explodem, só fazem barulho), para assustar e conter as multidões enfurecidas. O Exército emitia comunicados pedindo que as pessoas ficassem em suas casas e mantivessem a ordem, informando que os distúrbios não seriam tolerados.
Desnecessário falar sobre a massa humana que se concentrou nas imediações do Palácio do Catete, então sede do governo federal, para os funerais. Milhares de pessoas, em fila, circularam em torno do ataúde aberto, com o corpo embalsamado e coberto de flores. Desnecessário também falar dos discursos, ora inflamados, ora em tom de total desolação, que se ouviam das tribunas parlamentares ou em qualquer esquina, de alguém improvisado em orador sobre um caixote. Naquele dia o Brasil não teve governo, não teve qualquer tipo de negócio, a mínima atividade em qualquer setor. Bancos e postos de gasolina fechados. Quem não foi para as ruas para algum tipo de protesto, numa explosão espontânea, sem qualquer tipo de organização, se recolheu em casa, ao pé do rádio, sob forte emoção. Foi o dia mais triste e sofrido que este país já conheceu. Quando a noite chegou, nenhuma remota buzina de carro, nenhuma voz humana, o silêncio na cidade era absoluto e total, como se ali não existisse qualquer tipo de vida. Os opositores a Getúlio, que também não eram poucos, sumiram. Ninguém ousaria se manifestar naquela situação. Lembro-me apenas de uma vizinha, mais louca do que corajosa, falando alto na rua contra Getúlio. Sorte dela que nosso bairro era muito pacato.
No dia seguinte havia bandeiras brasileiras a meio mastro em toda parte. Os veículos, inclusive ônibus e caminhões, circulavam com panos pretos amarrados aos retrovisores, em sinal de luto. Mais do que luto pela morte trágica de um presidente, aquilo era um posicionamento político. Foi quando vi meu pai assumir uma atitude extremamente ousada para sua condição de capitão do Exército, em plena ativa e com uma carreira a completar. Fixou meio metro de arame grosso na ponta do capô do seu sólido Chevrolet de quatro portas e ali instalou uma bandeira preta. Entrava e saia do quartel com aquela marca do seu protesto tremulando. Com certeza afrontando oficiais de vocação golpista, entre eles seus superiores. O luto oficial não passou de uma semana, mas um mês depois os veículos ainda rodavam com aquelas tarjas pretas.
Getúlio se matou com um tiro no coração, por volta das 8 horas da manhã, vestido de pijama, sentado em sua cama. Tinha sido uma noite tensa, no Catete, com reuniões de ministros e assessores. Na prática, ele já estava deposto pelos generais. Sua morte abortou o golpe militar, que voltou a ser tentado em novembro de 1955 e esmagado pelo legalista general Teixeira Lott, ministro da Guerra. Voltou a ser tentado em 1961, na renúncia do Jânio Quadros, mas frustrado pela fortíssima resistência gaúcha, sob a liderança de Leonel Brizola, com apoio do III Exército. Finalmente, em 1964, os golpistas novamente tentaram e desta vez venceram, instalando a ditadura, para infelicidade do Brasil. Com uma única bala, e o sacrifício da própria vida, Getúlio Vargas tinha feito seu derradeiro gesto político, permitindo que o Brasil, bem ou mal, tivesse dez anos de sobrevida em sua combalida democracia.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - http://www.jornaldance.com.br/ – que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Milton Saldanha

INÉDITO
Capítulo XXVI

Como Samuel Wainer conquistou Getúlio Vargas
Primeira parte

A história toda é muito longa, com lances polêmicos. Vou resumir aqui no blog, senão ninguém agüenta. Samuel Wainer era repórter do grupo Diários Associados, do Assis Chateaubriand, o Chatô (não deixem de ler o fabuloso livro do Fernando Morais sobre ele). Foi dos jornais e da revista O Cruzeiro. Os Diários Associados foram a maior e mais poderosa rede de comunicação que já existiu no Brasil em todos os tempos. Só a Globo de hoje é comparável à força que teve, e olhe lá. Os Associados, como era chamada a rede, na área do papel tinha jornais e revistas. O Cruzeiro era carro-chefe, tirava um milhão de exemplares por semana no início dos anos 50, e chegava com desconcertante velocidade em todo o Brasil. Eles tinham também uma centena de rádios, sendo a Tupi em ondas curtas, portanto de longo alcance, e algumas TVs. A primeira TV do Brasil, a Tupi, inaugurada em SP e depois Rio, foi deles. Como ninguém tinha aparelho em casa, fizeram a inauguração com TVs colocadas na Praça da República.
Samuel Wainer, da comunidade judaica, era um homem bonito e conquistador de mulheres. Insinuante, circulava com desenvoltura no Rio de Janeiro, capital federal e centro de todas as atenções do Brasil naqueles anos. Tentou cobrir a participação brasileira na II Guerra Mundial, o que lhe daria fama, mas Chatô não deixou, mandou o Joel de Almeida. Mas, Samuel conseguiu ser o enviado especial dos Associados ao Tribunal de Nuremberg, que julgou e condenou os nazistas acusados de crimes. Se não estou enganado, foi o único jornalista brasileiro lá. Qualquer repórter talentoso teria feito barba e bigode, mas Samuel fez uma cobertura medíocre. Não deixou sequer um livro sobre isso. Seu texto era pobre, muito básico, e cheio de chavões. Tenho cerca de cem exemplares, ou mais, da antiga revista O Cruzeiro, dos anos 40 e 50. Os textos assinados por ele não tinham brilho. Trabalhando com ele, na segunda fase da Última Hora e depois na Editora Três, tive certeza absoluta disso. Mas ele tinha entusiasmo, sangue de jornalista, e tremenda ousadia. E foi essa ousadia que o levou a Getúlio Vargas, depois de deposto, em 45, e vivendo recluso em sua fazenda de Itu, município gaúcho de São Borja, região missioneira, fronteira com Argentina, que fica na outra margem do rio Uruguai. Existem duas versões para o episódio, não sei qual é a verdadeira, e vou contar as duas.
Primeira versão: Samuel Wainer foi à região, não lembro para que cobertura. Usava o teco-teco (monomotor) dos Associados. Aí teve uma idéia luminosa: entrevistar Getúlio em seu exílio. Getúlio não atendia jornalistas há vários anos, só cuidava do seu gado, vivendo com extrema simplicidade em sua fazenda. Samuel mandou o piloto descer na fazenda, mentindo que o avião sofrera uma pane. Foram recebidos e hospedados por Getúlio, que acabou capitulando e deu uma entrevista. “Eu voltarei!”, foi a célebre frase, que virou manchete de O Jornal, do Rio, num tremendo furo de reportagem nacional. A frase e o furo abriram o caminho para a volta de Getúlio, agora não mais como ditador, mas como presidente constitucionalmente eleito, em 1950. Segunda versão, que era contada pelo famoso colunista político Carlos Castelo Branco: Getúlio pretendia anunciar sua volta como candidato e daria uma entrevista coletiva. Os jornalistas estavam concentrados em Porto Alegre esperando a convocação. Samuel, esperto, pegou o avião dos Associados e se mandou para São Borja, sem esperar. O resto foi como contei acima. Getúlio também não esperou, abriu o bico para ele. O episódio tornou Samuel Wainer famoso do dia para a noite. Naquele tempo, o furo jornalístico era algo extremamente valioso. Era o sonho de qualquer repórter. Imaginem, então, um furo dessa magnitude. Foi assim que Samuel Wainer se tornou amigo de Getúlio, e depois passou a freqüentar e cobrir o Palácio do Catete. Ganhou a confiança do velhinho, como era chamado o presidente, que lhe abriu os cofres do Banco do Brasil para a montagem da Última Hora. O resto é o que já contei neste blog e o que já se sabe por outras fontes.
É interessante registrar ainda que o maior rival e inimigo de Samuel foi seu contemporâneo de reportagem, Carlos Lacerda, que trocou o jornalismo pela política e foi também uma das figuras mais controvertidas (sem meio termo, amado ou odiado), da política brasileira. Samuel ganhou muito dinheiro, gastou tudo em futilidades, e morreu quase pobre, dependendo de empregos quase de favor. Foi um final melancólico. Era dócil no tratamento, conversamos algumas vezes sobre questões de trabalho, e uma contradição me intrigava nele: assim como sabia montar equipes de grande talento, escolher as pessoas certas, ele também invejava essas pessoas. Porque tinha uma personalidade muito competitiva. Foi, em tudo, um personagem realmente inusitado.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - http://www.jornaldance.com.br/que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.
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*Não deixem de acompanhar, no blog desta quinta-feira, o dia em que o então garotinho Milton Saldanha esteve - totalmente deslumbrado - a um metro do presidente Getúlio Vargas, na pequena São Borja (RS) de 1953. Um ano depois Getúlio Vargas se mataria, no Catete. Não percam! (Edward de Souza)
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terça-feira, 21 de abril de 2009

FERIADO DE TIRADENTES PÁRA O BRASIL

Edward de Souza

Hoje é feriado no Brasil. É o dia dedicado a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, considerado o grande mártir da Independência do Brasil. Em respeito a essa data suspendemos nesta terça-feira a série “As Histórias das Redações de Jornais” para falarmos um pouco sobre este homem idealista e sonhador e que, influenciado pelas ideias políticas e filosóficas da Europa, se envolveu de corpo e alma na Inconfidência Mineira, movimento revoltoso ocorrido em 1789, na cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto, a favor da emancipação do Brasil da Corte Portuguesa.
Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746, na fazenda do Pombal, Minas Gerais. Filho de portugueses ficou órfão aos 11 anos e foi educado pelo padrinho, que lhe ensinou noções práticas de medicina e odontologia, daí seu apelido: Tiradentes. Mas o que poucos sabem, ao contrário do que seu codinome insinua, é que o nosso herói da inconfidência não suportava arrancar dentes. Isso mesmo! Já era um adepto do que se costuma chamar, hoje em dia, de odontologia preventiva. Tiradentes era muito mais a favor de preservar os dentes do que arrancá-los. Além do mais, não se preocupava apenas com os dentes. Preocupava-se também com o resto do corpo, fazendo uso, inclusive, de plantas medicinais, um modismo típico da medicina praticada na Europa do século dezoito. Sua recusa em usar métodos terapêuticos agressivos se deve à influência exercida sobre ele pelo seu primo Frei Veloso, na época um grande botânico, que catalogou mais de 2000 plantas no Vale do Paraíba do Sul e organizou o Jardim Botânico, no Rio. Com mais de 30 anos, Tiradentes assentou praça no regimento dos Dragões de Minas Gerais, sendo nomeado pela rainha dona Maria 1º, em 1871, comandante de patrulha do Caminho Novo, estrada onde eram transportados para o Rio de Janeiro o ouro e os diamantes extraídos na capitania de Minas Gerais. Sonhador e idealista se envolveu profundamente na Inconfidência Mineira. Em 1787 pediu licença ao regimento e foi para o Rio de Janeiro, conhecendo José Álvares Maciel, recém-chegado da Europa com novas idéias políticas e filosóficas. Em 1788, retorna à Vila Rica e divulga publicamente os ideais do movimento. Depois de denunciada a conspiração por Joaquim Silvério dos Reis, em 1789, Tiradentes é preso no Rio de Janeiro. Sua sentença de morte foi lida a 18 de abril de 1789 e três dias depois foi executado em forca erguida no campo da Lampadosa, hoje Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Foi também decapitado e esquartejado. Sua cabeça exposta em Vila Rica e o resto do corpo pendurado em postes ao longo do caminho Novo. No período republicano, o dia 21 de abril tornou-se feriado nacional e, pela lei 4.867 de 3 de dezembro de 1865, Tiradentes foi proclamado Patrono Cívico da Nação Brasileira.
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo–CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Milton Saldanha
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INÉDITO
Capítulo XXV
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A vingança do Cabral
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A Última Hora, fundada e dirigida por Samuel Wainer, formava uma rede nacional. Com o mesmo título, logo em azul, identidade visual e seções, até onde lembro era editada no Rio, São Paulo, Recife, Porto Alegre. Depois do golpe de 64 foi fechada e mais tarde reaberta em São Paulo. Em Porto Alegre resultou na atual Zero Hora. Fui repórter da Última Hora, nesta segunda fase, trabalhando com o Samuel Wainer, nome lendário e polêmico do jornalismo brasileiro, que colecionava tanto amigos como inimigos. Só que nessa segunda fase ele não era mais dono do jornal e sim empregado do Frias, do grupo Folha de S.Paulo, que havia adquirido o título. Naquela redação convivi diariamente com nomes notáveis: Plinio Marcos, Antonio Contente, Lourenço Diaféria, e um vasto time de antigos jornalistas com muita estrada e quilometragem percorrida. Eu estava naquela fase de transição, um bom repórter, mas ainda meio foca. Já estava no jornal quando o Samuel Wainer assumiu a direção. Lembro-me que o Otávio Frias chegou com ele na imensa e ruidosa redação, bateu palmas pedindo silêncio: “O bom filho a casa torna”, disse Frias, anunciando o novo diretor. Ali me aproximei de alguns veteranos, quase tietagem, em busca das suas histórias e experiências. Um deles era Cabral, que fumava cigarro com piteira e gostava de vestir coloridas camisas de seda. Cabral, diziam, foi uma lenda do jornalismo policial. Não sei se era verdade, mas contavam que chegou a localizar bandido em morro antes da polícia. Denunciava e ficava no local esperando a prisão para cobrir como furo. Dele contavam também o seguinte episódio:
Mulherengo, Cabral gostava de cortejar moças bonitas com belos jantares, em restaurantes sofisticados. Não tomava o cuidado de checar antes os preços, mesmo ganhando mal como todo mundo naquela época. E foi assim que levou mais uma para jantar, com direito a entrada, camarão, vinho italiano, sobremesa. Quando pediu a conta levou um susto. O preço era um absurdo, consumia boa parte do salário que ganhava num mês inteiro de trabalho. Para não dar vexame agüentou no osso. Pagou com cheque, furioso, e se retirou com sua convidada. Nos dias seguintes aquilo ficou martelando na cabeça de Cabral. Estava realmente revoltado com o absurdo da conta. “Isso não vai ficar assim”, pensou, e teve uma idéia. Chamou um contínuo da redação, prometeu-lhe uma caixinha, e pediu que fosse ao restaurante para fazer reserva de jantar para quatro pessoas. Mandava até um cheque como sinal, por garantia, e pediu ao rapaz que voltasse com a nota fiscal.
Dia seguinte, quase duas horas antes do horário previsto na reserva, requisitou uma Kombi da frota do jornal e saiu. Mandou que o motorista seguisse para os baixos de viadutos da Zona Oeste onde precariamente se abrigavam grupos de mendigos. Chegou e anunciou: “estou convidando três de vocês que queiram fazer o melhor jantar das suas vidas. É só embarcar, é tudo por minha conta”. O grupo se formou em torno da Kombi, todos queriam ir. Cabral então selecionou os três privilegiados, procurando entre eles os mais feios, esfarrapados e mal-cheirosos. O restaurante, naquele horário, já tinha bom movimento e a mesa de Cabral estava prontinha, com cartão de “reservada”. Quando ele entrou com seus convidados foi um choque geral. Silêncio. Garfos e facas pousaram silenciosos nas mesas. Olhares incrédulos de todos os lados. Cabral acomodou-se com os mendigos e pediu o cardápio para os pedidos. O dono, ou gerente, surgiu do nada: “O que o senhor está fazendo? Não pode ficar aqui com essas pessoas. Vou chamar a polícia”. E Cabral: “Isso, chama a polícia, é isso que eu quero, escândalo. Vou chamar também meus colegas dos jornais. Discriminação racial e social é crime. Estes senhores são meus convidados, cidadãos como qualquer brasileiro, e parte do jantar já está até paga, está aqui a nota fiscal”.
Nesse meio tempo, vendo a encrenca armada, e não agüentando o odor que se espalhou pelo recinto, mais da metade dos clientes já se retirava, uns rindo, outros furiosos. O gerente capitulou. Mandou servir, postando-se de braços cruzados e cara amarrada a alguns metros da mesa. O jantar foi uma cena dantesca, de bocas abertas desdentadas mastigando vorazes, líquidos e babas escorrendo pelos cantos dos lábios, mãos imundas avançando sobre copos e travessas cintilantes. Os garçons ficaram num grupo à distância, alguns usando lenço para tampar o nariz, outros de costas para a mesa, repugnados. E Cabral recostado na cadeira, fumando com sua piteira, sorrindo, feliz.
Quando terminaram, fartos, e sozinhos na casa, o gerente se aproximou. “Senhor Cabral, pelo amor de Deus, nunca mais faça isso de novo. O senhor pode nos arruinar. Só hoje perdi vários clientes. Mas a conta está certa, o senhor não precisa pagar mais nada. Volte quando quiser, traga sua noiva, será convidado da casa”.
“Jamais – replicou Cabral – vocês me roubaram descaradamente da outra vez e agora dei o troco. Estamos quites. Agora fique tranqüilo, nunca mais pisarei nesta casa”.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance - http://www.jornaldance.com.br/
– que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.
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NR: Prezados amigos e amigas. Com pouco mais de três meses, o sucesso deste blog pode ser constatado pelo número de visitas (mais de 22 mil) e de comentários, chegando próximo a 50 em determinados artigos, como esses dois últimos escritos pelos jornalistas J. Morgado e Oswaldo Lavrado. Nossa intenção era deixar livre os comentários para que todos pudessem ler e interagir. No entanto, caso excessos cometidos continuem, seremos obrigados a monitorar os comentários. Recebi vários e-mails de pessoas reclamando e sentindo-se ofendidas. Algumas não entendendo a brincadeira que criamos ao nomear Francisco Heitor como “coordenador” do blog. Heitor, na verdade, nunca teve a intenção de ofender ninguém e acompanhamos todas as suas intervenções, mas sim de brincar com alguns erros cometidos pelos participantes do blog. Fica suspensa sua função, pelo fato de ter sido mal entendido. Quanto ao padre, ou a pessoa que se faz passar por ele, não conhecemos. Pedimos paciência entre todos, afinal, também acompanhei suas participações no blog e nada vi que pudesse ofender ou prejudicar ninguém. Vamos tentar deixar livre, por 48 horas, os comentários. Caso abusos persistam, iremos monitorá-los e só publicaremos os que estejam de acordo com a seriedade e respeito necessários para a continuidade desse blog. Grato!
Edward de Souza
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sábado, 18 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Oswaldo Lavrado

O MUNDO PAROU
Capítulo XXIV

INCÊNDIO NO EDIFÍCIO JOELMA

No dia 1º de fevereiro de 1974, uma sexta-feira, portanto, há 35 anos, o Brasil foi abalado por uma das maiores tragédias da história. O edifício Joelma, um dos maiores do país, localizado na Praça da Bandeira, na região central de São Paulo, ardia em chamas. 756 pessoas distribuíam-se pelos 25 andares do prédio. Um curto circuito em uma sala do 12º andar, iniciado por volta das 8 horas da manhã, deixaria o trágico saldo de 179 mortos e 300 feridos.O incêndio, não poderia ser diferente, mobilizou bombeiros, polícia, médicos, ambulâncias, imprensa e curiosos, muitos curiosos. Praticamente todos os veículos de comunicação da Grande São Paulo lá estavam e, claro, o Diário do Grande ABC também. A época, por absoluta falta de estrutura e de verba, quase nenhuma emissora ou jornal utilizava helicópteros e, assim, um batalhão de jornalistas de aglomerava diante do prédio em chamas. Como eu fazia parte da equipe de esportes do Diário, a tragédia do Joelma, então, não estava na minha praia. No entanto, como era um dos poucos repórteres que estava na redação às 8h da manhã, recebi ordem para largar minha pauta esportiva e ir para o Joelma. Lá já se encontravam pelo menos mais três ou quatro jornalistas e fotógrafos do Diário. Embora relutasse, a ordem do José Louzeiro (ele de novo) foi taxativa: "Vá e não discuta".
Numa Kombi em frangalhos - foi a condução que sobrou na redação – saímos para o local da tragédia, eu, o motorista Martins e o fotógrafo Antônio Carvalho, apelidado pelo João Colovatti de “Toninho Vitamina”, uma gozação, graças ao seu físico esquelético. No caminho para São Paulo disse ao fotógrafo: "Que diabos vou fazer lá se o local já está cheio de repórteres, inclusive do Diário?". No rádio da Kombi (funcionava, ufa), ouvi a notícia que vários helicópteros de empresas particulares sobrevoavam o prédio sinistrado, inclusive um da Pirelli, cuja sede administrativa era na Rua Barão de Piracicaba, em São Paulo, e a fábrica em Santo André. Dizia o repórter, que o piloto da aeronave e um engenheiro da Pirelli, ajudavam as pessoas no prédio em chamas. Então, o Antonio Carvalho sugeriu: “Lavrado, porque não vamos até a fábrica da Pirelli e você entrevista o piloto e o engenheiro?". Bingooo. Estávamos na Avenida Goiás, em São Caetano, e pedi ao motorista que desse meia volta e rumamos para a fábrica de pneus, em Santo André.
Já na fábrica, fui apresentado ao piloto e ao engenheiro, um italiano que não falava nem entendia uma só palavra em português. Mas não era ele que me interessava. Expliquei ao comandante do helicóptero o que queria e deixei-o falar, enquanto o habilidoso “Toninho Vitamina” procurava os melhores lances para as fotos. O piloto - cujo nome não me recordo, afinal são exatos 35 anos - disse que sobrevoava a cidade com destino a Santo André quando soube do incêndio no Joelma. Conduziu o helicóptero para lá e viu, no topo do prédio, uma dezena de pessoas gesticulando desesperadamente por ajuda. O piloto retornou à sede da Pirelli, encheu a aeronave com saquinhos de leite (à época ainda não havia embalagem longa vida) e, há poucos metros do prédio, atirava os saquinhos aos que estavam na laje. O objetivo, segundo o piloto, era que o pessoal ingerisse o leite para evitar a intoxicação provocada pela fumaça. Outro detalhe contado pelo piloto; ele não poderia se aproximar muito das pessoas porque, no desespero, alguns tentariam se agarrar nas hastes e, com o peso, derrubar a aeronave, aumentando a tragédia. Então, decidiram jogar o leite. Aí entra o inusitado: as pessoas se degladiavam para pegar os saquinhos - não havia leite suficiente para a quantidade de gente que estava no teto - e os que conseguiam pegar um, ao invés de beberem o leite, espalhavam o líquido pelo corpo na tentativa de aplacar o calor provocado pela fumaça e pelas chamas que se aproximavam. Segundo o piloto, o helicóptero da Pirelli fez umas cinco viagens com o leite. Não se sabe, ao certo, quantas pessoas que estavam no topo do prédio morreram ou se salvaram. No dia seguinte, todos os jornais estampavam em manchete o incêndio e suas consequências. As notícias, no entanto, eram praticamente iguais, com poucas variações. O Diário do Grande ABC, porém, mostrava o outro lado da tragédia, que inclusive mereceu, alguns dias depois, reprodução no Estadão e uma reunião da diretoria do Diário para analisar o trabalho da equipe. A matéria, menos de um quarto de página, recebeu rasgados elogios do então presidente do Diário, Edson Danilo Dotto, que inclusive destacou o nosso trabalho e do fotógrafo Antonio Carvalho.
Embora com quase dois anos e meio no Diário, na época da tragédia, este jornalista poderia, talvez, não ser mais considerado um foquinha, mas era neófito em matérias alheias ao esporte. No entanto, a convivência cotidiana com mestres, tipo José Louzeiro, Édison Motta, Josué Dias, Alessandar Jovanovic, Hermano Pini Filho, Ademir Médici, Daniel Lima, Renato Campos, João Colovatti e Juliano Morgado, entre outros, deram o impulso necessário ao repórter esportivo para ciscar com determinação em seara alheia.
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*Oswaldo Lavrado é jornalista e radialista. Trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

A QUESTÃO: CONCEDER OU NÃO CONCEDER

J. Morgado

O exemplo dos pais pode moldar o caráter dos filhos e os preparar para a vida. A renúncia de determinados vícios materiais - fumo, álcool, etc. - e morais, como o orgulho excessivo, consumismo exagerado e o acréscimo de um comportamento social educativo, certamente conduzirá a criança para um futuro bem melhor do que está acontecendo nos dias de hoje. A criança bem direcionada será o homem responsável amanhã!
Abrindo o Evangelho Segundo o Espiritismo meus olhos se detiveram no Capítulo XXVIII - Coletânea de Preces Espíritas – subtítulo: Nas aflições da vida – item 26 Prefácio. “É lícito pedir a Deus os favores terrestres, e Ele poderá concedê-los quando tenham um fim útil e sério; mas como nós julgamos a utilidade das coisas sob o nosso ponto de vista e a nossa visão se limita ao presente, nem sempre nos apercebemos do lado mau daquilo que almejamos”. A lição continua.
Em todos os tempos, há exemplos de pais zelosos que concedem a seus filhos tudo o que pedem. Seria essa uma educação para uma existência útil e evolutiva? A história, as crônicas e a mídia atual nos mostram o contrário. Tive a oportunidade de presenciar jovens ricos que nada lhes faltava e, buscando alternativas para preencher o vazio em seu interior, desafiavam as leis e a moral, roubando veículos, furtando simples calotas ou emblemas de veículos de luxo para fazerem coleção e se vangloriarem disso. A droga, o sexo desvairado, a violência, o vandalismo são válvulas de escape para espíritos conturbados. Vez ou outra um homicídio envolvendo jovens de ambos os sexos escandalizam a sociedade. Quais seriam os motivos? Não que isso não ocorra com adolescentes de outras categorias econômico-sociais, mas isso poderia ser levado à conta da ansiedade pela aquisição de bens de consumo, longe do poder de adquiri-los legalmente. Nós, espíritas, que estudamos a Doutrina, sabemos muito bem quais são as causas de tudo isso. Mas a sociedade ainda materialista se deixa levar pela Porta Larga e o resultado é o sofrimento na matéria e do espírito. A experiência nos mostra que filhos mimados em excesso, que tenham suas vontades realizadas sejam elas quais forem, acabam se tornando tímidos demais ou violentos; exceções confirmam a regra. A indiferença e o preconceito é uma marca registrada nesses jovens que não tiveram uma educação adequada. O trabalho, o ensino, a disciplina e o exemplo dos pais moldam o caráter dos filhos e os preparam para uma vida útil e dignificante. Cada ser humano antes de reencarnar recebe orientação de como deverá se comportar quando na carne. Seu esquecimento do passado é uma dádiva de Deus para que o amor seja a rota segura rumo à perfeição. Porém, o livre-arbítrio é respeitado e cabe a cada ser vivente discernir entre o bem e o mal, entre a Porta Estreita e a Porta Larga (Capítulo XVIII, item 3 – Evangelho Segundo o Espiritismo).
Verifica-se nos dias de hoje psicólogos, educadores e demais especialistas em educação infantil mostrarem métodos para a educação de crianças. Há muita divergência entre eles sobre quais seriam os métodos. Uma coisa, porém é clara: a violência jamais deverá ser empregada, seja ela física, moral, ou psicológica. Este articulista não tem a pretensão de mostrar nenhuma fórmula mágica para educação infantil, mas acredita que o amor, a religião e a disciplina sejam os ingredientes para uma boa orientação. O hábito para uma leitura sadia e adequada para cada etapa de vida da criança é muito importante.
Lembro-me quando fazia o primário minha professora me orientava para ler livros sobre contos de fadas. Assim, Os mais belos Contos de Fadas irlandeses, ingleses, russos, etc., junto com outros de fábulas, embalaram minha meninice. Um pouco mais tarde, fui orientado para a biblioteca infanto-juvenil: Julio Verne, Alexandre Dumas, Monteiro Lobato com sua Mitologia Grega Para Crianças, etc. Naquela época não havia televisão, vão dizer alguns que lerem este artigo; e eu digo, havia o rádio com o “Homem Pássaro”, “Jerônimo Herói do Sertão” e outros programas infantis tão a gosto da molecada de então. Enfim, o que acontece hoje, é o conceder por conveniência. Eu concedo e ela (a criança) me deixa em paz; ou ainda a concessão por orgulho: meu filho (ou filha) não pode deixar de ter tal objeto ou frequentar tal lugar, ou então, ele não pode ser tratado desta ou daquela maneira...
Continuando a lição que deu início a este artigo, “Deus, que melhor vê, e não quer senão o nosso bem, pode recusar, como um pai nega ao filho o que pode ser nocivo”. Assim, Deus, infinitamente Bom, pode ou não recusar o que pedimos uma vez que sabe exatamente o que somos, o que fizemos e o que faremos se atender este ou aquela rogativa. Os pais carnais, conhecendo o mundo que o cerca e suas realidades (têm a obrigação de conhecer) são os guias morais de seus filhos e assumiram ainda na erraticidade o compromisso de cumprirem essa missão. Negar o que for nocivo é um ato de amor e não um ato despótico. .
Para encerrar, vou transcrever alguns tópicos de uma página de EMMANUEL, psicografada por Francisco Candido Xavier, que tem o título “Jovens”, inserida no livro Religião dos Espíritos, edição FEB/1988.
“No estudo das idéias inatas, pensemos nos jovens, que somam às tendências do passado as experiências recém-adquiridas”.
“Com exceção daqueles que renasceram submetidos à observação da patologia mental, todos vieram da estação infantil para desempenho de nobre destino”.
“Entretanto, quantas ansiedades e quantas flagelações quase todos padecem, antes de se firmarem no porto seguro do dever a cumprir!...”
“Ao mapa de orientação respeitável que trazem das Esferas Superiores, a transparecer-lhes do sentimento, na forma de entusiasmos e sonhos juvenis, misturam-se as deformações da realidade terrestre que neles espera a redenção do futuro”.
“Muitos saem da meninice moralmente mutilados pelas mãos mercenárias a que foram confiados no berço, e outros tantos acordam no labirinto dos exemplos lamentáveis, partidos daqueles mesmos de quem contavam colher as diretrizes do aprimoramento interior”.
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*J. Morgado é Jornalista e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico: jgacelan@uol.com.br
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quinta-feira, 16 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

Milton Saldanha
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Inédito
Parte XXIII
*
Deu no Correio do Povo!
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O Correio do Povo, nos velhos tempos, era o Estadão também dos velhos tempos lá no Rio Grande do Sul. Jornal sisudo, pesadão, que desprezava o acidente de trânsito ali da esquina, mas não deixava de dar uma manchete internacional, principalmente tendo como procedência Washington. O velho Correio era pesado até no tamanho, aos domingos vinha com imensos cadernos de classificados, e era um dos raros diários gaúchos em tamanho standard. Os demais (Zero Hora, Folha da Tarde, Folha da Manhã) eram tablóides. Fui repórter da Folha da Manhã e colaborador do Correio, que era do mesmo grupo, a Caldas Júnior, pertencente ao então homem mais rico e poderoso do Rio Grande do Sul, Breno Caldas, que morreu no ostracismo e sem ostentar os dois títulos.
Com fama de sóbrio e sério, o Correio era retrato e voz da oligarquia rural gaúcha. Tudo ali tinha que ser dentro dos padrões mais formais do jornalismo. O máximo de irreverência que se permitia eram as charges nas páginas de editoriais e política, e mesmo assim sempre comedidas. Quando alguém comentava algo e queria revestir o tema de credibilidade, dizia: “Deu no Correio do Povo!”
Com esse perfil ultraconservador, todo certinho e bem ao gosto da velha aristocracia pecuarista, um erro grave no Correio tinha sempre forte repercussão. Ou se tornava realmente hilariante, mais do que em qualquer outro jornal, como foi o caso que vou contar agora.
Deve ter sido entre 1965 e 1967, se não estou enganado. Lamento até hoje não ter guardado a página. Os jornais de então tinham um processo industrial longo, moroso e complicado. Os textos, depois de datilografados, eram copiados em imensas máquinas, as linotipos. As fotos, depois de reveladas e ampliadas, eram transformadas em clichês. O clichê era uma chapinha metálica com a imagem em relevo e invertida, colada a um taco de madeira para dar encaixe na paginação também metálica, copiada do diagrama em papel, com as medidas e demais informações gráficas. Duas fotos de mesmo tamanho, na mesma página, corriam sério risco de saírem trocadas. Para fugir deste e outros erros era feita uma prova de página, para checagem final do secretário gráfico, antes da impressão definitiva. Havia mais coisas no processo, mas em resumo era isso.
Ali ao lado de Porto Alegre existe a cidade de Esteio, com um parque de exposições famoso, para animais. O jornal mandou cobrir o último dia de uma exposição de suínos. Havia um concurso, do mais belo suíno. Bateram a foto do campeão, um tremendo porcão, parecia uma bola preta, ostentando pendurada no pescoço a medalha. A matéria foi editada, com a entrevista do feliz criador, tudo certinho. E a legenda: “Belo exemplar de suíno, campeão da feira de Esteio”.
Na mesma página, na contracapa do jornal, estava também a cobertura da chegada em Porto Alegre de um grande empresário paulista que estava fazendo investimentos no Estado. A foto era do homem caminhando no saguão do aeroporto, cercado de puxa sacos, com a legenda: “O empresário Fulano de Tal quando chegava ao Aeroporto Salgado Filho”. Bem, acho que nem preciso contar mais: trocaram as fotos! O secretário gráfico comeu bola e deixou passar. O jornal foi para as ruas com a hilariante gafe. E nem dava para corrigir. Seria bem pior dizer no dia seguinte que o empresário não era aquele belo exemplar de suíno.
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*Milton Saldanha, 63 anos, gaúcho, torcedor do Inter, começou no jornalismo aos 17 anos, em Santa Maria (RS). Trabalhou na grande imprensa de Porto Alegre e de São Paulo. Foi da Folha da Manhã (RS), Diário do Grande ABC, Agência Estado, Estadão e JT, Rede Globo, Rádio Jovem Pan, Última Hora (com Samuel Wainer), entre vários outros veículos. Foi também assessor de imprensa da Ford, do IPT e do Conselho Regional de Economia. Tem um livro publicado, "As 3 Vidas de Jaime Arôxa"; participou de uma antologia de escritores gaúchos; um livro pronto e ainda inédito, "Periferia da História", onde conta de memória 45 anos da recente história do Brasil sob um ângulo totalmente inédito; trabalha num livro sobre Reforma Agrária. Pouco antes de se aposentar fundou o jornal Dance -
www.jornaldance.com.br - que já tem um filhote regional em Campinas, e que neste 2009 completa 15 anos.
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J. Morgado escreve nesta sexta-feira artigo especial. O jornalista mostra que trabalho, ensino, disciplina e o exemplo dos pais moldam o caráter dos filhos e os preparam para uma vida útil e dignificante. Edward de Souza vai contar na próxima segunda-feira, o caso de uma foquinha de jornalismo, enviada para cobrir estranhos acontecimentos que ocorriam numa moradia da Vila Luzita, em Santo André. Brincadeira de mau gosto, tensão, pavor e a fuga da repórter, que ficou só de calcinha. Não percam esse capítulo inédito.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS

INÉDITO
PARTE XXII
*
SÉRIE
“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO IX
*
Editor “mata” para não assumir erro
*
Édison Motta
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No jornalismo, sempre houve focas e sempre haverá. Elas dão colorido especial às redações. Com sua insegurança, aprendem com os próprios erros e também com os erros dos outros. Há, também, situações em que a “foquice” é cometida por veteranos. Nesses casos, nem sempre as derrapagens são assumidas por quem as pratica. Muitas vezes acabam acobertadas pelas estruturas internas de poder ou, o que é mais grave, estampadas nas páginas dos jornais como se fossem verdades. Não presenciei, pessoalmente, a história que agora vou contar. Mas ficou famosa, no Diário do Grande ABC dos primórdios dos anos setenta. José Louzeiro, depois renomado escritor, havia assumido o comando da redação há pouco tempo. Eu trabalhava na Folha de S.Paulo exatamente ocupando a vaga que fora deixada e indicada por ele. Contaram-me os colegas que certa manhã chegou à redação do Diário, aos prantos, uma senhora de meia idade com uma grave reclamação: o jornal daquele dia estampava noticia policial dando conta de que seu marido havia falecido num grave acidente de automóvel. De fato, houve o acidente. O marido saiu gravemente ferido, mas não morreu. Encontrava-se hospitalizado. A notícia de sua morte provocou uma convulsão na família e amigos. A senhora reclamava que verdadeira procissão dirigiu-se à sua residência. Tencionava que o jornal corrigisse a notícia para evitar maiores incômodos para todos. Naqueles tempos não era hábito dos jornais corrigirem notícias. Passavam a impressão de perfeição. Até hoje, o saudável hábito de ser fiel aos acontecimentos não é tão comum. Vira e mexe deparamos com notícias que não se confirmam depois, com o correr dos fatos. Como recentemente foi comentado, aqui no blog, quando uma apresentadora da Rede Globo “chutou”, na notícia de um acidente, número significativamente maior de mortos do que havia acontecido. E a TV não consertou o equívoco. Na mídia eletrônica é mais fácil corrigir erros. O telespectador ou o ouvinte leva em consideração que os primeiros informes carecem de maior apuração. Na mídia impressa é mais grave: depois de publicada, a notícia somente poderá ser consertada na edição seguinte. Naquela manhã, a única secretária que atendia toda a redação chamava-se Nanci. Ouviu a reclamação da senhora e foi até Louzeiro intercedendo para que ele atendesse a mulher. Louzeiro deu um “chá de cadeira” na coitada, que ficou ali, sentada ao lado da secretária, por um longo tempo. Aquele não era, efetivamente, um bom dia para o chefão. Quem com ele conviveu sabe de seu carinho, especialmente para com os focas, e a atenção que costumava dar às pessoas. Porém, por algum motivo até hoje desconhecido, seu costumeiro humor não o acompanhava naquela manhã. Provavelmente, o secretário de redação esperava que a mulher desistisse da intenção de corrigir a notícia. Qual nada: a mulher não arredou pé. Passados muitos minutos e após várias intervenções da secretária, Louzeiro resolveu atender a mulher ali mesmo onde se encontrava, ao lado das mesas dos diagramadores, enquanto editava matérias para o jornal do dia seguinte.
- Senhora: qual foi o jornal que publicou a notícia de que seu marido está morto? perguntou Louzeiro, com cara de poucos amigos.
- Foi esse aqui mesmo, o Diário! Disse a chorosa mulher.
- Esse aqui, o Diário do Grande ABC? retrucou Louzeiro.
- Isso mesmo, este jornal, respondeu a mulher quase impaciente.
- Pois vou lhe dizer uma coisa, minha senhora: este jornal não erra! Se está escrito que seu marido morreu no acidente, então ele morreu. Meus sentimentos, a senhora agora é uma viúva! E encerrou o assunto. Dizem que a mulher foi embora mais atordoada do que chegou. Não se tem notícia a respeito do que aconteceu depois. Sabe-se que o jornal e o jornalista não sofreram nenhum processo. Também é desconhecido o destino do infeliz acidentado. Coisas dos velhos tempos que, felizmente, encontrariam dificuldades para serem reprisadas nos dias atuais. A verdade é que a história do defunto forçado do Louzeiro entrou para os anais das lendas das redações.
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Édison Motta, jornalista e publicitário é formado pela primeira turma de comunicação da Universidade Metodista. Foi repórter e redator da Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil; editor-assistente do Estadão; repórter, chefe de reportagem, editor de geral (Sete Cidades) e editor-chefe do Diário do Grande ABC. Conquistou, com Ademir Médici o Prêmio Esso Regional de Jornalismo de 1976 com a série “Grande ABC, a metamorfose da industrialização”. Conquistou também o Prêmio Lions Nacional de Jornalismo e dois prêmios São Bernardo de Jornalismo, esses últimos com a parceria de Ademir Médici, Iara Heger e Alzira Rodrigues. Foi também assessor de comunicação social de dois ministérios: Ciência e Tecnologia e da Cultura. Atualmente dirige sua empresa Thomas Édison Comunicação.
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*Milton Saldanha conta amanhã outra história inédita neste blog, com o título: "Deu no Correio do Povo", não deixem de ler. Na sexta-feira artigo especial e muito aguardado de J. Morgado. Outro capítulo de "Histórias das redações de jornais" na segunda-feira
. Edward de Souza vai contar o caso de uma foquinha de jornalismo enviada para cobrir estranhos acontecimentos que ocorriam numa moradia da Vila Luzita, em Santo André. Brincadeira de mau gosto, tensão, pavor e a fuga da repórter, que ficou só de calcinha. Não percam esse capítulo inédito na próxima semana.
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terça-feira, 14 de abril de 2009

AS HISTÓRIAS DAS REDAÇÕES DE JORNAIS


INÉDITO
PARTE XXI

*
SÉRIE

“TRAPALHADAS DE UM FOCA”
CAPÍTULO VIII
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Foca paga cachaça para arrumar defunto
*
Edward de Souza
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A série apresentada nesse blog sobre os “focas” - nome que se dá ao jornalista ainda ingênuo e atrapalhado - vai mostrar hoje o outro lado da moeda de alguns principiantes no jornalismo que ficaram famosos pela sua criatividade e, porque não, tendência clara ao sensacionalismo. José Lázaro Borges Campos foi um deles. Esse relato de hoje foi inúmeras vezes contado por ele e muitos amigos jornalistas conhecem o caso. Foi o começo de sua carreira no pequeno News Seller de Santo André, atualmente Diário do Grande ABC. Naqueles tempos o jornalista rezava antes de sair de casa para que um fato de importância pudesse cair em suas mãos para ser noticiado. Pauta, dificil ter alguma à espera na redação. Lembrando que pauta é uma orientação que os repórteres recebem descrevendo que tipo de reportagem será feita, com quem deverão falar, onde e como. A pauta é elaborada, nos dias de hoje, por editores e subeditores, mas em algumas redações ainda existe o pauteiro, que é o profissional que tem a função de decidir o que será noticiado. Cabe a ele elaborar a pauta do dia, isto é, os assuntos que os repórteres deverão sair para apurar (investigar). No caso de um acidente, por exemplo, o fato só vira uma pauta no momento em que acontece. Foi assim numa sexta-feira de carnaval. A notícia chegou como uma bomba na redação do pequeno News Seller. Um conhecido sambista, presidente de uma famosa escola de Santo André, havia sido atropelado e morto por um ônibus, numa avenida da cidade. De acordo com as informações dadas pela PM, o corpo do infeliz sambista estava ainda sob as rodas do coletivo. Lázaro Campos estava começando em jornal e foi escalado para correr ao local, junto com um fotógrafo, para cobrir o acidente e trazer fotos. Só havia um carro na redação e o motorista, para desespero do Lázaro, havia desaparecido. Foi um corre-corre danado, gritos, telefonemas, até que descobriram o motorista batendo papo num posto de gasolina que ficava ao lado da redação. Nisso, preciosos minutos foram perdidos. O chefe da redação queria as fotos mostrando o corpo do sambista sob as rodas do ônibus e não abria mão disso. E não era só naqueles tempos que jornais mostravam cadáveres em suas primeiras páginas. Fim de semana mesmo vi alguns nas páginas de um diário aqui de Franca. Pois bem. Lázaro entrou no carro com o fotógrafo, disposto a chegar a tempo e mostrar serviço para a chefia do jornal. Assim que chegaram, uma multidão impedia o carro de prosseguir. Lázaro saltou do veículo com o fotógrafo e correu ao local do acidente. Muitos repórteres e fotógrafos de jornais da Capital já estavam saindo, depois de registrar o triste acontecimento. Quando Lázaro Campos se aproximou do ônibus, a decepção. O corpo do sambista havia sido levado pelo carro funerário. O que fazer, pensou o jovem foca. Só fotografias do ônibus não diriam muita coisa e desagradaria, certamente, o chefe de redação. Até porque, jornais como a última Hora e outros vizinhos, de São Paulo, iriam mostrar a foto do famoso sambista no asfalto, sob as rodas do ônibus. Enquanto o fotógrafo tirava algumas fotos do coletivo e da multidão, Lázaro dirigiu-se a um boteco próximo ao local do acidente. Tomou uma branquinha com limão, aborrecido com a falta de sorte. Enquanto pensava no que fazer e nas explicações que daria no jornal, dele se aproximou um homem alto, forte e negro. Pediu ao Lázaro para lhe pagar um aperitivo. Olhando para seu interlocutor, deu um estalo na mente do jovem repórter. Estava ali a sua salvação. Enquanto pedia uma cachaça para o homem ao seu lado, lhe fez uma proposta. Pagaria aquele aperitivo e uma garrafa da branquinha caso ele lhe fizesse um pequeno favor: deitar-se sob as rodas do ônibus que havia atropelado e matado o sambista. Proposta aceita de imediato. Seriam apenas alguns segundos, pensou o negro e então passaria a sexta de carnaval feliz, tomando sua garrafa de cachaça. O fotógrafo foi alertado por Lázaro e ficou de prontidão. Curiosos se aproximaram. O negro estendeu-se no chão, bem perto das rodas do coletivo, mas do outro lado, para fugir das manchas de sangue espalhadas pelo asfalto. Rápido, o fotógrafo bateu as fotos. Uma, duas, três. Estava feito o registro. Contente, Lázaro e o fotógrafo voltaram para a redação. Ficou combinado que ninguém dos três – repórter, fotógrafo e motorista iriam abrir o bico na redação. Texto pronto, as fotos chegaram. Estavam perfeitas. Ninguém desconfiaria, pensou Lázaro. Tão perfeitas que o chefe de redação já havia determinado. Seria a manchete do jornal. Assim foi. No dia seguinte, sábado de carnaval, o News Seller estampava em sua primeira página o título: “Sambista famoso morre na avenida”. Foi o único jornal que mostrava, com clareza, a foto de um negro estendido no solo. A manchete dos outros jornais também destacava a morte do sambista, com letras garrafais. A única diferença era que o corpo estendido no solo era de um homem branco.
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*Edward de Souza é jornalista, escritor e radialista. Escreve aos sábados no Divã do Masini e às quintas-feiras no Jornal Comércio da Franca.
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Édison Motta escreve nesta quarta-feira mais um capítulo inédito em “Histórias das Redações de Jornais”. Conta o caso envolvendo o jornalista e escritor José Louzeiro que, naqueles tempos, não gostava de corrigir notícias. Saiu publicado, tinha que estar certo. E deu o que falar quando Louzeiro foi interpelado por uma leitora raivosa. Não percam nesta quarta: "Editor “mata” para não assumir o erro".
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segunda-feira, 13 de abril de 2009

ARTIGO DE HOJE - SOU UM PRIVILEGIADO

J. Morgado

Todos os dias, pela manhã, antes de sentar-me defronte ao computador, tento espairecer dando uma volta pela cidade. Não faço ponto em nenhum lugar; apenas respondo ou cumprimento as pessoas conhecidas, se surgir oportunidade. Caminho devagar, sem pressa, observando. Ali, uma mulher caída, roupas em frangalhos, suja, dormindo; provavelmente o sono da embriaguês. Adiante várias senhoras conversam; ao aproximar-me escuto: “coisa nojenta, o cara pegou a garrafa de coca-cola no lixo e tomou o que restava, nossa”! Diziam elas em tom de nojo. Continuo o meu passeio, pensando... Se essas pessoas fossem até o lixão “morreriam” de tanto vomitar. Um rapaz usando um par de muletas sem uma perna caminha em minha direção e pede uma ajuda; tiro uma moeda do bolso e a dou. “Que Deus lhe acompanhe moço”. Gostei do moço. Eu com barba e cabelos brancos. Sorri. Depois de caminhar por mais algum tempo lembrei-me da ponte no centro da cidade. Debaixo dela dormiam vários párias da sociedade. Pessoas que não mais sabiam o que era objetivo. Havia os viciados em álcool, em entorpecentes, os alienados... Para eles não havia futuro (era o que pensavam). À noite, vasculham as lixeiras das residências em busca de restos de alimento. Durante o dia, saem a pedir para comprar bebida ou o entorpecente que os faz esquecer-se da realidade. Lembro-me agora de um domingo ter assistido ao programa “Domingo Espetacular” na TV Record. Triste! Uma reportagem sobre a fome na Nigéria. Crianças cadavéricas eram embaladas pelas mães desesperadas. Porém, um cientista descobriu um superalimento a base de amendoim e isso estava salvando aqueles seres desnutridos.
Outra lembrança me vem à mente, um rapaz sem pernas e sem mãos. Recebi em vídeo essa reportagem. Fiquei um pouco surpreendido! O rapaz era feliz. Com essa deficiência, havia conseguido terminar a faculdade e escrever um livro e estava elaborando outro; o futuro sorria para ele. Nascera no seio de uma família que o amava e que o fizera superar o problema.
Devagar, pensando, recordando, vou observando cada detalhe ao meu redor. Mansões, casas de classe média... O vai-e-vem apressado das pessoas. Passando por um jardim, sento-me em um banco e fico a observar. Os pombos arrulhando, o traje dos caminhantes acusam o poder aquisitivo de cada um deles, se bem que “o hábito não faz o monge”. Os semblantes são tão diferentes! Uns parecem alegres, outros tristes, macambúzios, outros ainda, tão indiferentes, que não dá para se fazer uma avaliação. Deixo de observar e começo a me argüir. Por que tantas diferenças no mundo? Pobres, ricos, aleijados, sãos, doentes, inteligentes, cretinos, honestos, criminosos... Chego a uma conclusão. Sou um privilegiado! Cheguei a uma avançada idade. Passei por vários problemas naturais que a vida nos reserva e aqui estou... Feliz!
Volto a caminhar. Os passos agora são mais apressados. Avisto o que chamo a “estação do adeus”. Muitas pessoas ali se aglomeram. Mais um que parte, penso. Elevo meu pensamento e faço uma oração para aquela alma. Chego em casa. No portão, minha esposa recebe-me com um terno beijo!
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*J. Morgado é Jornalista e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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Nesta terça-feira o oitavo capítulo inédito de "Trapalhadas de um foca", na sequência da série "As histórias das redações de jornais". Acompanhe mais um caso verídico de um jovem jornalista no começo de sua carreira.
(Edward de Souza)
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