sexta-feira, 14 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L

O DIA EM QUE MORRI (FINAL)


Dedicado à médica Liliana Diniz

Aviso: não é ficção. Tudo que será contado foi real!


A ALEGRIA DE RENASCER

No hospital você não tem escolha. Ou mantém a calma e luta por sua vida, colaborando ao máximo com os médicos, enfermeiras e terapeutas, ou se entrega ao desespero, enfraquece e torna tudo mais complicado. Minha opção, de cara, foi a primeira, até nas atitudes mais triviais, como fazer a barba todas as manhãs para não ficar com aquela deprimente “cara de hospital”. Comia bem, “para estar forte na hora H”; fazia com tenacidade e boa vontade os exaustivos exercícios respiratórios para fortalecimento do diafragma; dava bronca em quem vinha me tratar como coitadinho e mantinha o moral tão elevado quanto possível.

Do sofrimento físico no pós-operatório é o mais difícil de falar, pois não há como ser descrito, nem comporta divagações. Para quem, durante uma semana, se preparou para morrer, como eu fiz, porque sabia dos altos riscos, inclusive no cateterismo, antes da grande cirurgia, isso tudo representou uma grande mutação.

De certa forma, você sai do plano terrestre e ingressa num estágio que dispensa todas as frivolidades do cotidiano. Nessa hora o que menos importa é quanto dinheiro tem no banco, se não sabe se estará aqui na semana seguinte para usá-lo. O papo furado, então, se torna insuportável. Não há mais tempo, muito menos saco, para isso. Esse estágio é uma experiência rara, senão única, em sua vida. Pena (ou seria melhor?) que passa, em pouco tempo, depois de tudo, você volta ao normal, reassume as pequenas vaidades, seus defeitos humanos, as tolices que todos falamos, as preocupações mundanas. A diferença é que um dia viu o outro lado, a maravilha de estar acima disso tudo. Você viveu um rito de passagem, doloroso, sem dúvida, mas ainda que a tal preço, criador de um novo homem.

Mas percebe também que se os teus códigos morais e de índole são outros, os resultados podem ser opostos: frieza total, indiferença com qualquer valor, falta de compromisso de qualquer espécie. É a cabeça do bandido, que vive no risco e não sabe se estará vivo no dia seguinte. Ele se acostuma com a idéia da morte, num processo inconsciente para não enlouquecer. Ora, se a própria vida dele não vale nada, menos ainda valerá a dos outros.

A verdadeira dádiva é continuar vivo. Acordar da anestesia, na UTI, é um momento mágico, um reencontro com a luz. Esquece a dor, celebra a vida. Ali ela recomeça. “Estou vivo!” – festejei. A enfermeira Marli estava ao meu lado, como um anjo da guarda, real e presente. O paciente acorda amarrado, para não arrancar, instintivamente, o tubo desconfortável que entra pela boca e vai até o estômago. O curioso é que no entorno eu não via a UTI, nem minha própria cama. Ainda sob leve efeito anestésico, parecia que estava dentro de um túnel completamente cor de rosa. E não tinha a menor noção de tempo, se era noite ou dia.

Pedi que Marli soltasse meus braços, ela confiou e fez isso, então coloquei sua mão sobre meu peito para ajudar a proteger o tórax da dor da tosse, e passei a seguir à risca todas as instruções que o Dr. João Galantier me passara, na véspera da cirurgia. Uma atitude genial dele, que me deu segurança, porque agora sabia tudo que iria acontecer e como agir. “Quando acordar procure tossir com o máximo de força e não se preocupe que não vai arrebentar nada”, tinha instruído. E assim agi. Quem entra numa cirurgia em emergência total não tem essa mesma chance de ser preparado, e aí o medo se instala.

Não recebi transfusão de sangue, ainda bem, um grande fator de segurança. Mas o preço a pagar foi uma anemia profunda, a tal ponto que nas refeições não tinha forças para levar o garfo do prato até a boca. Nos dois ou três primeiros dias comi como uma criança, recebendo comida na boca.

A menos de dois meses depois, já em casa, acreditem, eu mesmo me dei alta e voltei a trabalhar, editando meu jornal “Dance”. Alguns dias depois, embarquei com a namorada para a Europa, para comemorar a volta à vida e como prêmio a ela pelos cuidados que me dedicou o tempo todo. Ela nunca tinha ido e sonhava conhecer Paris.

No jornal, retomando o contato com meus leitores queridos, escrevi: “Não há mais tempo a perder. Gradualmente a gente vai retomando a vida normal. Não vejo a hora de poder dançar, mas ela chegará. A ginástica também. Por enquanto, vou curtindo gostosas caminhadas diárias. Nesta segunda vida, a gente vê cada minuto como um bem precioso. Afinal, nunca se sabe quando o destino vai nos aprontar outra. Muito menos quantas chances ele ainda nos reserva, mesmo quando se merece todas”.
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*MILTON SALDANHA É JORNALISTA E ESCRITOR.
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NR: A CRÔNICA DO JORNALISTA J. MORGADO, QUE SERIA POSTADA HOJE, SERÁ PUBLICADA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, DIA 21.
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quinta-feira, 13 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L
O DIA EM QUE MORRI (III)


Dedicado à médica Liliana Diniz

Aviso: não é ficção. Tudo que será contado foi real!
Capela do Hospital São Camilo

O DIA EM QUE MORRI

De repente, você olha para as paredes do quarto de um hospital, às vésperas de uma delicada cirurgia do coração, e lhe vem na cabeça uma constatação da qual é impossível fugir: aquela pode ser sua última semana de vida. Pânico? Sinceramente, tirando aquele desconforto do primeiro dia na UTI, não senti nenhum. Apenas resignação e uma certa tristeza ao pensar nas tantas coisas que ainda poderia fazer, principalmente aqueles planos há tanto tempo acalentados.

Foi a mais dura experiência da minha vida. E olha que fui preso político num centro de torturas, o medonho DOI-CODI, cujo prédio ainda existe, ali na rua Tutóia, em São Paulo, hoje ocupado por uma delegacia convencional.

Nunca fumei. Praticava exercícios todos os dias, durante uma hora, na Academia Corpo e Ação, a duas quadras da minha casa. A alimentação era frugal, com ênfase nas saladas, frutas e sucos naturais. Nadava, andava de bicicleta, caminhava. Dançava horas, com muito pique. E, na época, com 55 anos (hoje tenho 64), orgulhoso da saúde e do corpo bem definido, não sabia o que era médico, muito menos hospital. Pois, o espartano aqui descobriu na marra que os desígnios da vida nem sempre são aqueles que traçamos e nos propomos a cumprir com disciplina e determinação. Contra qualquer previsão, uma microscópica gota de colesterol resolve obstruir dutos absurdamente estreitos, as vias coronárias, e isso é suficiente para interromper bruscamente sua vida, ou alterá-la com profundo impacto e de forma irreversível.

O infarto (ou enfarto, as duas formas são certas), foi pesado, como já contei no primeiro capítulo. A duas coronárias, esquerda e direita, estavam completamente obstruídas. Imagine isso como dois canos entupidos, onde não passa uma gota de nada. Um dos vários livros que tenho sobre o assunto, para leigos, explica que “as artérias coronárias, os primeiros ramos da aorta, carregam sangue oxigenado para o músculo cardíaco, assegurando que o coração receba sua “nutrição” antes de qualquer outro órgão. Quando as artérias coronárias estão comprometidas, o coração é afetado, ocasionando um ataque cardíaco”.

Se eu fosse fumante, sedentário e obeso, com certeza não teria resistido. Artérias secundárias, estimuladas pela prática do esporte (que os médicos chamam de coração de atleta), abriram caminho ao sangue e, literalmente, salvaram minha vida. Sem entupimento por nicotina, o pulmão teve vaga para o oxigênio, apesar da terrível sensação de asfixia. Acrescento com absoluta certeza que não fumar também salvou minha vida. Isso tem amparo em teses médicas. Não é sem razão que mais de 300 mil pessoas por ano morrem de infarto no Brasil, um número assustador. Se você é fumante, comece a pensar nisso já!

O dia em que morri foi 24 de novembro do ano 2000. Durante a cirurgia que começou de manhã cedo e durou seis horas e meia. Se a morte ocorre com a paralisação do coração, então morri, por cerca de um minuto e alguns segundos, quando meu coração e o corpo todo foi congelado e literalmente paralisado, para fixação de duas pontes de safena e uma mamária. Eu mergulhado no mais profundo sono da potente anestesia, um apagão total e absoluto, onde o cérebro sequer consegue produzir sonhos.

Sem acreditar em espírito e vida após a morte, sem a mais remota convicção religiosa, sem crer na existência de Deus (mas respeitando e defendendo o direito à fé), permito-me hoje dizer que suponho que a morte seja exatamente isso que senti, ou seja, nada.

Se me perguntarem se gostaria que fosse diferente, é claro que concordarei. Torço muito para estar enganado. O que não me permito é a tola ilusão e perda de tempo durante a vida. Não vou prestar tributos a divindades que não povoam meus sentimentos mais autênticos. Não consigo acreditar, mas torço para que realmente exista espírito e reencarnação. Oxalá, vocês que investem suas energias neste campo, estejam certos. Iria adorar voltar ao mundo, que é belíssimo; ter outra vida; ser novamente feliz, como hoje sou. E que o apagão seja mero e gostoso descanso, não a eternidade.

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*Milton Saldanha é jornalista e escritor.

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Não percam, amanhã, o quarto e último capítulo de O DIA EM QUE MORRI - A alegria de renascer. E na próxima sexta-feira, 21, o artigo quinzenal de J. Morgado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"E o amanhã?
Ah, o amanhã. Não estou mais preocupado com o amanhã.
Quero viver o hoje.
E usufruir ao máximo de todos os hojes que surgirem em minha vida".



A primeira etapa do tratamento quimioterápico teve início na semana dedicada aos três dias de Carnaval. Começou na sexta-feira à noite e só terminou na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas, período em que a população menos favorecida economicamente, procura se divertir, não mais com drogas altamente tóxicas, mas com bebidas alcoólicas baratas. Muitos extrapolam e passam a maior parte desses dias retidos em algum cubículo de algum distrito policial, enquanto outros perdem a vida em violentos acidentes automobilísticos. Ou, ainda, com brigas com tiros e outras agressões fatais. Nunca, nunca tem um saldo positivo.
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Mesmo nos tempos mais antigos, principalmente nas primeiras décadas da segunda metade do século XX, quando era liberado o lança-perfume, um produto considerado de “bom-tom”, não havia tanta barbárie. Na época desse vasilhame contendo uma espécie de éter perfumado, a violência ainda não havia se instaurado como normal nas grandes cidades. Era ainda um tempo de convivência pacífica e a arma mais perigosa que poderia ser utilizada era uma faca de cozinha ou uma navalha. Era um tempo de delicadeza, com predominância da educação, do respeito entre as pessoas.
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Por volta do final da década de 60 do século passado, o então presidente Jânio Quadros baixou decreto proibindo o uso desse produto em todo o território nacional e, assim, o Carnaval perdia, de acordo com os seus adeptos, o seu glamour. Lembro-me desse passado recente para fazer uma comparação do que existe hoje. Aqui, nesse hospital, nem as pessoas sãs, que vêm visitar os internados, falam sobre o que antes também era chamado de tríduo momístico, uma vez que é o Rei Momo quem governa os três dias, ao menos simbolicamente.
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Certamente, por ser um local de doentes, as pessoas procuram evitar tocar nesse assunto e provocar um sentimento maior de desolação. Acredito, no entanto, que é a perda do entusiasmo mesmo pela festa que leva a esse silêncio, a esse esquecimento inclusive do feriado, que ocorre na terça-feira – amanhã, por sinal -, quando faz o segundo dia em que me encontro aqui deitado nessa cama hospitalar, recebendo soro e uma série de medicamentos por meio do cateter implantado ao lado direito do meu peito. Melhor assim, que não machuca as veias dos braços e não dificulta a locomoção. Graças ao avanço da Medicina...
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Recebi a visita do Paulo Pereira. Não estou bem nesse dia. Sinto-me bastante debilitado e vejo que ele percebe o meu desalento. É muita fraqueza, grande o desânimo. Não tenho forças sequer para andar pelo corredor do hospital. Revelo a ele que receio ser encaminhado para o setor de Unidade de Terapia Intensiva e digo: se eu for para aquele lugar, pode acreditar, não voltarei. Paulo é quatro anos mais velho que eu. Eu o conheci ainda adolescente, quando tinha 14 anos, no Bairro Paraíso, em Santo André, local onde nasci, de onde sai com dois meses de idade com destino a Bálsamo, pequena cidade do interior paulista, e para onde voltei com meus pais. Fiquei sabendo depois que meus irmãos e eu precisávamos trabalhar e ajudar na manutenção da casa e no interior não havia essa possibilidade.
Paulo foi quem me encaminhou para a literatura, me fez ler os grandes escritores e poetas brasileiros, russos, franceses, ingleses e alemães. Dentre os brasileiros, destacava-se Jorge Amado e, entre os estrangeiros, Gustave Flaubert, Honoré de Balsac, Hermann Hesse, Dostoiévski e tantos outros.

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Nesse bairro, fiz, junto com o Paulo, o primeiro jornal que recebeu o nome de “Nabo”. Não tinha praticamente noticiário e era basicamente um resumo dos boatos ocorridos na vila entre os nossos amigos e conhecidos. Esse jornal não teve vida longa. Mas nossa amizade perdurou e já está quase completando meio século.
Paulo, anos atrás, também foi vítima do câncer, uma fase difícil de sua vida. Fez a cirurgia em um hospital mantido pelo governo estadual e saiu-se bem após o tratamento, que incluiu quimioterapia. Passados mais de cinco anos, julga-se um homem livre da doença, mas ficou um pouco apreensivo ao saber que tumor que havia sido extirpado de minha garganta há três anos, retornara, desta vez atrás do ouvido esquerdo.
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Separado da mulher, com quem viveu quase 40 anos e teve três filhos, Paulo pode ser considerado um homem realizado. È poeta, mas um poeta sem ilusão com a vida, que faz poemas sem lirismo nem emoção. Um João Cabral de Mello Netto inédito, que traz seus poemas escritos na alma, em seu interior. Apesar de se considerar um homem com saúde, perdeu a fé em Deus, no ser onipotente e onipresente. Mesmo assim, não sai sem uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida, guardada em sua carteira, junto aos documentos. Paulo, eu percebo pelo seu olhar, sabe que não estou bem. Sai, com uma despedida lacônica. Sei que há lágrimas em seus olhos.
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Acostumado com a tranquilidade de Bálsamo, de início me espantei com a grandeza e o movimento de Santo André que, ainda no início dos anos 60 do século passado, se constituía numa província, se comparada com a metrópole destes primeiros anos do século XXI. Para arcar com as despesas com a mensalidade da escola - me matriculei no terceiro ano do curso básico da então Escola Técnica de Contabilidade Senador Fláquer - e gastos pessoais, consegui emprego como entregador em um escritório responsável pela distribuição de exemplares do Clube do Livro
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Para quem não se lembra, o Clube do Livro na época era dirigido por conhecidos intelectuais como Mario Graciotti e Afonso Schimdt. Na abertura do livro, sempre trazia alguns artigos de seu estatuto e um desses esclarecia: Mensalmente, a partir de julho de 1943, o Clube do Livro edita um livro de notório reconhecimento, a exemplo deste (referia-se ao exemplar do mês) escolhido pelo seu Conselho de Seleção, e o envio ao seu sócio que, mediante o pagamento de cinco cruzeiros, se torna proprietário do mesmo livro.
Esse clube tornou-se bastante popular por editar obras de escritores consagrados, brasileiros e estrangeiros. Entre esses, Charles Dickens, Walter Scott, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, Gustavo Flaubert, Guy de Maupassant, Honoré de Balsac, José de Alencar, Machado de Assis e tantos outros. Eu, como funcionário desse escritório, tinha direito a um exemplar – um acontecimento que incentivou ainda mais o meu gosto pela leitura, meu interesse pela literatura mundial.
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Nesse meu primeiro emprego fiquei apenas alguns meses, apesar de gostar por causa dos livros e pelo conhecimento das ruas da cidade. O motivo foi um dos proprietários, chamado de Toninho – jamais soube o seu nome completo - que aporrinhava minha vida. Assim, fui parar no escritório de contabilidade do Elpídio Dalla, uma pessoa afável, bondosa e compreensiva. Para esse escritório, buscava e entregava os livros e a documentação fiscal do comércio e das pequenas empresas clientes.

Dalla não se importou quando o avisei de minha saída, ao completar quatorze anos de idade, para ingressar numa companhia fabricante de eletrodomésticos – geladeiras, principalmente, em São Bernardo do Campo, com salário mais alto e oportunidades para aprender e progredir: a Brastemp. Fui levado a essa empresa pela minha prima Nadir, filha de meus tios-padrinhos Antonio e Carmem Padeiro, esta, irmã de meu pai. Nadir trabalhava como secretária de um dos diretores de uma fábrica ao lado e conhecia o pessoal da Brastemp – uma das razões pela qual comecei a trabalhar com registro em carteira logo após completar quatorze anos. Mais duas: possuía o curso de datilografia e já estava cursando o segundo grau – mérito de poucos jovens naquele início da década de sessenta do século passado.

Também foi a Nadir quem me orientou a fazer a matrícula na Escola Técnica de Contabilidade Senador Fláquer, conhecida na época como a Escola do Mattei, por causa do sobrenome do fundador-proprietário do estabelecimento, professor Valdemar Mattei. Muitos anos mais tarde, escreveria uma pequena biografia desse pioneiro do ensino em Santo André, e que seria publicada no ano em que a escola completou setenta anos de fundação e aproveitava para comemorar a sua transformação em centro universitário, com vários cursos de nível superior, a maioria destinada a classe média.

Permaneci na Brastemp pouco mais de dois anos, quando os setores administrativos e financeiros tinham sido transferidos de São Bernardo para São Paulo. E por motivos já explicados: a edição de um jornal interno com críticas veladas ao movimento militar de 1964, que havia derrubado o governo democrático de João Goulart. Da Brastemp fui para a agência do Banco Auxiliar de São Paulo, em Santo André, e regredi: voltei a trabalhar como contínuo, utilizando uma bicicleta para a entrega de avisos de cobrança e outros documentos bancários.

Fiquei pouco tempo, também: desta vez, porque escrevia crônicas no hoje extinto jornal Folha do Povo, falando da miséria das famílias vivendo estiradas nas ruas e dormindo sob viadutos em Santo André. De imediato, Paulo Pereira me chamou para trabalhar na empresa onde ele já estava, em São Bernardo. Aceitei, por um só dia. No outro, já me transferia para uma indústria de arames em Santo André. Este seria o meu último emprego em empresas que não fossem jornalísticas. Aproveitei esse meu período para cumprir com o serviço militar obrigatório e concluir o curso de contabilidade, ainda na Escola do Mattei. Ainda trabalhava nessa fábrica quando entrevistei Vinicius de Moraes, o que resultou na minha contratação como repórter pelo jornalista Fausto Polesi, diretor de redação do então News Seller, que estava prestes a se transformar no Diário do Grande ABC.
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NOTA: A charge que ilustra boa parte deste capítulo de hoje foi um trabalho do grande amigo Juarez, um dos maiores chargistas do Brasil. Nossos agradecimentos a ele, que é radicado na Região do ABC Paulista.
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Na próxima quarta-feira, o quinto capítulo de Memória Terminal, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo, falecido em 29/11/2008. Nesta quinta-feira continua a série do jornalista Milton Saldanha, com o penúltimo capítulo do emocionante relato “O Dia Em Que Morri”. Não deixem de acompanhar. (Edward de Souza / Nivia Andres) Arte: Cris Fonseca.
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terça-feira, 11 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L

O DIA EM QUE MORRI (II)

Dedicado à médica Liliana Diniz

Aviso: não é ficção. Tudo que será contado foi real!

O HOSPITAL SÃO CAMILO E UMA TRISTE HISTÓRIA

Assim que soube que meu plano médico me dava direito ao Hospital São Camilo, da Pompéia, a jovem médica do Incor sugeriu minha transferência. Suas referências sobre o São Camilo eram excelentes; lá trabalhavam os mesmos cardiologistas do Incor; e eu teria a vantagem de estar num hospital muito mais tranquilo. No Incor, as salas de cirurgia funcionam praticamente em regime 24 horas, de domingo a domingo. Sai um paciente e eles chamam o próximo, parece uma linha de montagem restaurando corações avariados. Tudo com a maior competência, é um centro de excelência médica, que orgulha o Brasil.

Troquei idéias rapidamente com meu sobrinho e minha namorada e aceitei a sugestão da médica. Ela tinha toda a razão. O São Camilo é um hospital modelo. E sua área de cardiologia muito bem equipada, com um corpo clínico formado por médicos que são também do Incor, de grande experiência e capacidade.

Vou abrir aqui um parênteses para comentar um triste fato da história do Hospital São Camilo (Pompéia). Há muitos anos um jovem impetuoso e irresponsável, munido de uma câmera de vídeo, invadiu com chutes nas portas a UTI do hospital, exigindo explicações sobre o estado de saúde da sua esposa, lá internada. Antes que os defensores dele, o hoje deputado federal Celso Russomano, queiram me trucidar em seus comentários, quero afirmar com toda a ênfase que não se entra numa UTI dessa maneira truculenta. Sem prévia assepsia. O infeliz poderia ter contaminado o ambiente inteiro, colocando em risco a vida de todos os pacientes, muitos deles em estado muito delicado. No entanto, nossa imprensa burra e precipitada, que adora um escândalo e cair de pau nos médicos, abriu manchetes nos jornais e grande espaço nas TVs para mostrar as cenas da invasão. Um péssimo exemplo transformado em heroísmo. A partir daquele dia o Hospital São Camilo, mantido por uma instituição católica séria e respeitável, virou sinônimo de açougue e outros comparativos até piores. O hospital quase fechou. E o jovem “herói”, aclamado sem questionamento da sua irresponsabilidade, largou seu emprego no Detran e começou assim sua bem sucedida carreira na TV e na política, encarnando um personagem que defende os consumidores.

Sob uma chuva de críticas públicas e forte pressão, a principal consequência do episódio foi uma reforma geral e radical no hospital, que mudou seu corpo clínico e administrativo. Certamente naquele tempo havia problemas. Mas nada justifica, mesmo com a atenuante do descontrole gerado pela forte emoção do então jovem, uma invasão, literalmente na porrada, como mostraram as cenas, da sua UTI.

Transformou-se num hospital modelo, referência em qualidade. Dos 22 dias em que lá fiquei internado, só tive uma pequena queixa, de uma ajudante de enfermagem que me depilou o peito para a cirurgia do coração. Desleixada, me cortou, deixando indignada a médica anestesista. Mesmo sonolento pelos remédios que já vinham me dando desde a noite anterior, lembro-me perfeitamente da bronca da médica, que queria saber o nome da incompetente para denunciá-la à direção. O detalhe mostra o zelo dos médicos com seus pacientes. Fora isso, com toda honestidade, só tive elogios ao hospital São Camilo.

Como previsto, voltando ao Incor, minha transferência foi de ambulância, com médico e enfermeiro ao lado. Entre conseguir ambulância e fazer a remoção foram quase cinco horas. Eu ali deitado, completamente lúcido e calmo, conversando com eles como se estivesse numa mesa de bar. Foram devagar, sem usar sirene, paravam nos semáforos. Na verdade, sem nenhuma dor, nem mal-estar, eu me sentia meio ridículo deitado naquela maca da ambulância. É claro, os médicos sabiam o que estavam fazendo. Imagine se me liberam e morro na rua... Seria tremenda encrenca.

Para espanto das pessoas nos corredores do hospital, entrei deitado na maca sorrindo e conversando com meus familiares, que caminhavam ao lado. Minha serenidade era absoluta.

Completamente lúcido, sem dores, e na UTI do Hospital São Camilo. Meu corpo plugado a dezenas de fios coloridos que convergiam para computadores e um monitor onde transitavam, de forma monótona e repetitiva, as ondas das minhas batidas cardíacas, entre outros dados para análise e acompanhamento dos médicos e enfermeiros. Eu tinha que permanecer numa única posição. Impossível, sequer, virar de lado na cama.

Brotou o impulso do pânico, a vontade de gritar, arrancar os cabos que me ligavam aos aparelhos, correr dali a qualquer custo, sob qualquer risco. Você está preso na cama, numa única posição, sabe que as horas serão intermináveis, e o cenário da UTI é sempre barra pesada. Desolador.

Foi incrível. Comecei a conversar comigo mesmo, como se fosse outra pessoa, a ponto de me chamar pelo próprio nome. “Calma, Milton, relaxa, vai dar tudo certo, isso passa, mostra agora que você é forte...” e vai por aí. Pensei também no pior: se entrar em pânico, vão me amarrar na cama, e isso seria insuportável. Funcionou. Mantive o controle, fui ficando calmo, tomei comprimidos e algum tempo depois dormi. Assim passou o primeiro dia e noite. Talvez mais duro que seu próprio sofrimento, seja o fato de ser testemunha do sofrimento dos demais pacientes. Você tem gente gemendo ao seu lado. Um implorava por água, mas os enfermeiros, por ordem médica, não podiam dar. O máximo permitido era, de vez em quando, molhar e torcer um pano para ele morder, refrescando a boca ressecada. Outro acordava no meio da noite, aos gritos: “Pai, me tira daqui!” Num domingo à tarde entrou um rapaz baleado, totalmente fora de si. A primeira pergunta do médico: “é mocinho ou bandido?” “Ele foi assaltado”, respondeu a enfermeira. Minha cama era ao lado, eu olhava tudo aquilo como se estivesse vendo um filme de suspense e terror. Até que alguém, percebendo que eu estava impressionado, cercou a cama do ferido com um biombo.

Algo que sempre incomodava, a qualquer hora da madrugada, quando você já tinha conseguido pegar no sono, era ser acordado com as luzes fortes para recebimento de um novo hóspede. Médicos e enfermeiras não podem ficar com frescuras, precisam falar, e alto. Lá se vai seu belo sono, que demora a voltar. Isso acontecia várias vezes, todas as noites. Um dia vi abrirem as costas de um paciente. Três médicos foram lá, com máscaras, discutiram detalhes, tomaram decisões, e um sujeito todo paramentado, como se fosse um astronauta, munido de uma pequena máquina que fazia tlec a cada ponto, costurou tudo de novo, de cima a baixo. A gente se acostuma a tudo, essas coisas não mais me chocavam, iam virando rotina. Mas existe algo que jamais fica banal: é a expressão de dor, o gemido, o grito. São lancinantes e ficam cravados na sua memória, para sempre.

Em dois horários do dia todas as tarefas eram interrompidas, as enfermeiras deixavam tudo arrumadinho e limpinho. Era nossa hora de receber visitas. Sempre uma única pessoa por vez, que antes de entrar na UTI passava por procedimentos rígidos de assepsia. Eram proibidas de sentar em nossas camas, mas a gente podia se tocar. Receber visitas era de uma importância inimaginável. Como era bom ver e falar com alguém da família ou com um amigo querido. Poucos minutos, mas extremamente valiosos. Eu pedia à família: “nunca me deixem sem visita”.

Nessas horas eu morria de pena dos vizinhos de cama que não eram visitados. Não rompiam aquela solidão atroz. Não tinham esse pequeno elo com o mundo exterior. Confinados aos sons tristes, brancura, cheiros de remédios e luzes daquela ante-sala da morte. Não raro, cercavam uma cama com biombos, silêncio total. Dali saia a maca com o corpo totalmente encoberto pelo lençol. Conforme o caso, era mais feliz assim.

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*Milton Saldanha é jornalista e escritor.

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Não percam, na quinta-feira, o terceiro capítulo de O DIA EM QUE MORRI. Nesta quarta-feira você vai acompanhar o quarto capítulo inédito de "Memória Terminal", escrito pelo jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

E.S.P.E.C.I.A.L

O DIA EM QUE MORRI (I)

Esta série é dedicada à médica Liliana Diniz

Aviso: Não é ficção. Tudo que será contado foi real!

COMO TUDO COMEÇOU

Foi numa tarde de sábado, muito quente, em novembro do ano 2000. Eu tinha acabado de chegar em casa, voltando de um almoço com um dos meus filhos, o André. Fomos comer no famoso botequim Galinheiro, ali na Vila Madalena, que tem um dos melhores frangos grelhados da cidade. Geralmente não bebo, mas naquele dia de calor enxuguei com especial prazer uma bela cerveja espumante.

Coloquei o carro na garagem, estava fechando o portão, quando comecei a me sentir mal. Minha namorada chegou de carro, estacionou, e eu apenas disse: “fecha tudo e depois sobe” (minha casa é um sobrado). “Estou me sentindo mal e vou deitar”.

Era o infarto se instalando.

Nos primeiros sintomas achei que era uma indisposição estomacal e culpei a cerveja. Só que aí o bicho pegou! Passei a sentir tudo ao mesmo tempo: dor na barriga, nos músculos dos braços, cabeça, garganta, olhos, ânsia de vômito. E o pior: muita falta de ar. “Vou fazer um chá”, disse a namorada, prescrevendo uma pueril receita caseira. “Chá?” - questionei, com o natural mau-humor de quem está numa situação assim. Já tinha caído minha ficha. “Querida, estou tendo um infarto. Vamos para o hospital!”

Ela não acreditou e procurou minimizar. “Infarto? Você tá louco, magina...”

Aí vocês não vão acreditar. Vou fazer aqui, pela primeira vez, uma confidência íntima. Uma coisa que, por excesso de pudor, nunca contei a ninguém, nem aos médicos. Ela estava cheirosa, gostosa, deitou ao meu lado me acariciando e... não resisti. Transamos assim mesmo. Eu infartando e... transando. Acho que isso acelerou o coração, estimulou o sistema circulatório, dilatou as artérias, irrigou as células, sei lá, mas o fato é que por um momento esqueci completamente do infarto e fizemos amor como se nada de anormal estivesse acontecendo. Camuflou, digamos, a doença. Permitiu-me reagir, pela troca do desânimo pela excitação. Vejam que receita que é isso! A energia da vida! Cura tudo!

Tomamos um banho rápido, consultei o guia do plano de saúde, e tocamos para o hospital. Escolhi um tal de Hospital Iguatemi, cujo endereço era ali na área nobre da Av. 9 de julho, nos Jardins. Ela dirigindo e eu reclamando do mal-estar, principalmente quando passava em buracos. Cada buraco da rua fazia trepidar meu corpo de forma muito desagradável e aumentava o mal-estar. Já era começo da noite quando chegamos ao hospital e observamos que não havia movimento. Estava tudo vazio e quase escuro, só havia um vigia sonolento e entediado sob uma luz, no fundo de um corredor. Chamamos o cara enfiando o rosto numa porta de grades. Ele veio arrastando os pés, com má vontade. E informou que há mais de um ano o hospital havia se mudado para o quinto dos infernos, lá para os lados de Taboão da Serra, BR-116, algo assim. Longe pra caramba.

Quando a gente está na situação em que eu estava, passa a não ter cérebro. Não raciocina. Ela tinha que assumir o comando da situação, com energia, mas não fez isso. Deixou as decisões por minha conta. E nessa hora, desculpem a expressão, a gente só faz merda. Decidi voltar para casa. Pode? Poder não pode, mas foi assim, infelizmente.

Passei a noite enfartando, muito mal, e em casa. Poderia ter morrido, e isso só não aconteceu por uma razão orgânica que vou explicar em outro capítulo. Pedi para ela mudar de quarto, para não precisar me aturar. No meio da madrugada abria a janela e buscava ar, desesperadamente. Ligava e desligava a TV. Rolava na cama quente, só de cuecas, porque a sensação de falta de ar causa essa vontade de ficar pelado, parece que tudo abafa você. Com calor, pior ainda. Lá pelas tantas, não sei nem a que horas, exausto, adormeci.

Pela manhã, domingo, chegou meu sobrinho, que era piloto da Varig e estava de passagem por São Paulo. Quando contei, ligou na hora para minha sobrinha Roberta, irmã dele, que é médica anestesista em Porto Alegre. “O que esse cara está fazendo em casa?” questionou Roberta, furiosa. “Leva já o tio para o hospital!”, ordenou.

O detalhe é que amanheci bem melhor e achava que o pior já havia passado. Mais tranquilo, mas sendo pressionado por meu sobrinho, fomos para o Incor – Instituto do Coração, ali na Rebouças.

Tiram sangue, fazem três eletrocardiogramas, medem pressão, colocam termômetro no meu braço, medem isso, medem aquilo. Um carnaval danado, e eu ali, só olhando, na enfermaria do PS, cercado de dezenas de outros pacientes deitados em macas. Engulo um comprimido e poucos minutos depois já estou me sentindo zero bala, prontinho para voltar para casa, até pensando no baile daquela noite. Desço da maca e me colocam numa salinha. Ficamos lá esperando, eu, meu sobrinho e a namorada. De repente, entram três médicos, juntos. Três! Uma moça e dois rapazes, com seus aventais brancos e estetoscópios pendurados no pescoço. Caramba, pensei, a enfermaria está cheia de gente e eles vem falar comigo em comissão? Comecei a sentir o drama. Eles me olhavam sem disfarçar que estudavam o paciente, certamente buscando novos sinais da minha doença. Isso não me incomodou, pelo contrário, foi bom sentir o interesse deles.

“A notícia que eu tenho não é boa”, disse um deles, que parecia ser o chefe da equipe. “Infelizmente, seu caso é grave e vai ter que ficar internado”. “Não posso ir em casa pegar roupas e livros?”, perguntei, com aquela inocência idiota dos pacientes de primeira vez num hospital. “Você só sai daqui para outro hospital, em ambulância, e com médico ao lado”, respondeu o doutor.

Aí, gente, pela primeira vez em toda a história, eu finalmente entendi que estava ferrado.

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*Milton Saldanha é jornalista e escritor.
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Não percam amanhã, no segundo capítulo de O DIA EM QUE MORRI - O Hospital São Camilo e uma triste história.

domingo, 9 de maio de 2010

MÃE – TERNURA, GRAÇA E LUZ INTERIOR

Mãe é palavra mágica. Significa ternura, amor, bondade. Na criação do universo coube à mãe a tarefa maior de preservar e dar continuidade à vida. A terra, a grande deusa e a mulher são mães.Vamos, no Dia das Mães, abrir os braços e abraçar as mulheres que tem um olhar diferente da vida, com muito mais amor. Juntos, irmanados, mãos dadas, vamos festejar esta data importante do calendário do coração e viver um grande fim de semana.
Escrevia um conto no começo desta madrugada para ser postado neste domingo, Dia das Mães, quando recebi um e-mail do amigo Walter Peres Chimello, consagrado poeta francano. Assim que terminei de ler, deletei meu conto. Nestas poucas linhas escritas pelo amigo poeta, autor de vários livros, membro da Academia Francana de Letras, está contida uma linda homenagem para todas as mamães do mundo. No encerramento desta semana dedicada às mães as homenagens deste blog a grande deusa de nossa existência. A ela a nossa reverência e o preito de gratidão pelo que nos ensina e incentiva, e as palmas mais vibrantes.
Leiam esse lindo poema de Walter Chimello, comentem e deixem sua mensagem à mamãe querida.

Edward de Souza
.
MÃES EMBELEZAM A TERRA

Mãe/ Bonita, rica/ Sofrida, apressada/ Mãe nova/ Ainda sem jeito/ Mãe
trabalhadora/ Sem tempo.
De mãos calejadas/ Mãe presidiária/ Mãe prostituta/ Talvez alugando o corpo/ para
sustentar o filho/Mãe analfabeta/ Mãe culta, educada/ Mãe sem filho/ Que traz no
peito o sonho/ Materno/ Mãe Idosa, Doente/ Mãe descrente/ Mãe religiosa/ Que no
colo/ Ensina o filho rezar/ Todas no intimo, iguais!/ Cheias de afeto e ternura/ Que
algumas/ Só entendem no coração/ Não importa:/ Elas trazem no ventre/ O fruto de
um amor/ E carregam no peito/ A divina graça/ De embelezar a terra/ De renovar a
vida!!!
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AUTOR: WALTER CHIMELLO...

Advogado - escritor e membro da Academia Francana de Letras.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

SEM RUMO



Sem destino, vou caminhando/Por dentro sinto dor.
Por fora, nada/Quem sou eu, afinal?

Uma alma penada buscando um recanto para me esconder?
Ou um arremedo de ser humano/buscando um buraco para me enterrar?

Sigo. Ao longe avisto uma luz!/Tênue é verdade...
Mas é uma luz/Dirijo-me a ela.

Ela se afasta!/ Corro/Ela se afasta ainda mais!
Paro. Não aguento mais/A luz lá está!

Ouço vozes. Não consigo entender/São murmúrios.
Depois de algum tempo, escuto!/Ore e entenderas.

Lembro-me de minha mãezinha/que me ensinava a orar quando criança.
Mas, por que orar?/Já não me lembro mais como fazer!

Novamente a voz/Ore.
Bem, não custa nada. Vou tentar./Pai Nosso que estais...

A luz está se aproximando!/No céu...
A luz está perto de mim!/Santificado seja...

Mamãe, é você?/Sim, meu filho, é hora de irmos.
Estaremos juntos a partir de agora./A escuridão acabou!


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*J. Morgado é jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. J. Morgado participa ativamente deste blog, para o qual escreve crônicas, artigos, contos e matérias especiais. Contato com o jornalista: jgarcelan@uol.com.br
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

REFLEXÕES ACERCA DE UMA

SAUDADE INFINDA

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche." (Martha Medeiros)

Diadema, 26 de outubro de 2008.

Profundamente consternado, comunico o falecimento da minha adorada e saudosa mãe, a Sra. Matilde Pinheiro de Oliveira, ocorrido no fatídico dia 24 de outubro de 2008.

Ela veio à luz em 14 de março de 1923, no bairro paulistano de Santana, onde moravam meus avós maternos Júlio Xavier Pinheiro e Belmira Pedroso Pinheiro, que ficaram jubilosos com o nascimento da sua primeira filha! Mas, quando ela tinha um ano de idade, meus avós fugiram, apavorados, da capital, por causa da Revolução, que ceifou muitas vidas de cidadãos paulistanos, refugiando-se no sítio do pai da minha avó materna, Antônio Manoel Pedroso, no atual município de São Bernardo do Campo-SP.

Findo o período belicoso, meus avôs maternos não retornaram ao bairro de Santana, preferiram continuar morando no interior, no sítio do meu bisavô materno, onde mamãe viveu até a adolescência, mudando-se, a seguir, com os pais e mais três irmãos, para Santo André. Tempos depois, mais precisamente no dia 4 de dezembro de 1941, contraiu matrimônio com meu adorado e saudoso pai (meus pais eram primos em 4º grau), que faleceu no também fatídico dia 9 de agosto de 1997. Eles tiveram sete filhos (o primeiro partiu após quatro horas de existência, no dia 18 de novembro de 1942).

Dona Matilde sempre se dedicou com amor, zelo e presteza à sua numerosa prole, que era provida com o labor de chauffer do meu pai, no antigo Ponto de Táxi do Cine Carlos Gomes, em Santo André, telefone: 44-31-06 (será que se eu ligar ele me atende?!...) Além deste reles e desolado escrevinhador outonal, minha adorada e saudosa mãe deixou mais 5 filhos, 13 netos e 9 bisnetos desamparados e aniquilados...

Depois que o meu pai faleceu, o estado de saúde da minha adorada e saudosa mãe começou a ficar combalido. Ultimamente ela se locomovia com ajuda, mesmo assim, com muita dificuldade, precisando da assistência de minha valorosa e prestimosa irmã, Maria Inês, para todas as situações do cotidiano.

Na manhã do fatídico dia de sua partida, começou a revirar os olhos e minha irmã, apavorada, chamou o SAMU andreense, que prontamente a levou ao Pronto-Socorro da Vila Luzita. Entretanto, ela lá chegou sem vida.

Após os trâmites no IML (que horror...mas foram ágeis e prestativos), seu corpo foi trasladado para o Cemitério da Vila Euclides, no município de São Bernardo do Campo, onde foi velado e sepultado no final do dia.

É insuportável pensar que o corpo da minha adorada e saudosa mãe está se decompondo no silêncio sepulcral da 2ª gaveta à direita, do jazigo 53, no Sepulcrário da Irmandade do Santíssimo, que fica no Cemitério da Vila Euclides, que fica na Avenida Redenção, que fica no Jardim do Mar, que fica no município de São Bernardo do Campo, que fica na Região do Grande ABC, que fica na Grande São Paulo, que fica no Estado de São Paulo, que fica na Região Sudeste, que fica no país chamado Brasil, que tem a maior parte do seu território no Hemisfério Sul, que fica na América do Sul, que fica no Continente Americano, que fica no Planeta Terra, que fica no Sistema Solar, que fica na galáxia da Via Láctea, que fica no grupo de galáxias local, que é uma da bilhões de galáxias que ficam no Universo, que pode ser um dos incontáveis Multiversos...

Por que há existência, quando poderia não haver nada?!!!

Nunca mais ouvirei da minha saudosa e adorada mãe: - Oi João você está bom? - Cuidado na rua, por causa da ladroagem! - Se você não estudar, quando crescer vai puxar carroça!. - Não saia sem blusa, por causa da friagem! - Jamais tome banho, após o almoço! - Não volte tarde! - Onde você vai e com quem? - Já rezou para dormir? - Deus te abençoe! - Vá com Deus! - Você precisa ter uma religião! - Não me conformo de você ter ficado ateu! - Vá lavar as mãos antes de comer! - Venha cá, seu menino malcriado, levar umas cintadas! - Eu já lhe falei, nunca mais faça isto! Quem mandou prender o gato no armário da pia e colocar fogo no coitado! - Pare de ficar girando o botão da máquina de lavar roupas!...Suas palavras ainda ecoam no meu peito...

Minha vida tornou-se insulsa sem a presença radiante da minha adorada e saudosa mãe! Volte, mãe, volte!

Compungidamente,

João Paulo de Oliveira

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*João Paulo de Oliveira, 57, pertence a uma das mais antigas famílias do Grande ABC, com raízes na Freguesia de São Bernardo. Andreense de nascimento, é professor e leciona na Escola Municipal Anita Catarina Malfatti, em Diadema, na Região do ABC Paulista. Ocupa também o cargo de Coordenador Pedagógico na EMEF Dr. Habib Carlos Kyrillos, na Prefeitura de São Paulo. Além de Pedagogo é Mestre em Educação. Especializa-se no estudo da árvore genealógica familiar. Nas horas de lazer, quando sua mansão no litoral não é invadida por ladrões, busca refúgio nas belas praias do Guarujá. Amigo e colaborador do blog, João Paulo escreve, mais uma vez, uma crônica neste espaço. Visite seu blog, Celulóide Secreto, em http://joaopauloinquiridor.blogspot.com Contatos com o articulista pelo e-mail joaopauloinquiridor@ig.com.br
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

SEMANA DE HOMENAGEM ÀS MÃES

A MALA DE PAU




Quando minha mãe ia à cabeleireira para cortar o cabelo e fazer permanente era assim: os três filhos mais velhos ficavam na casa de minha tia e os três mais novos, ela os levava consigo. Normalmente era em tardes de sábado e nesses dias, a rotina lá em casa mudava um pouco. O almoço saia mais cedo, a roupa não era lavada e nosso banho era mais caprichado. Como eu era o menor, minha irmã cuidava de mim, no chuveiro. Era aquela choradeira, pois ela esfregava tanto meu pescoço e orelhas que deixava-me todo vermelho e ardendo.

Depois, para o processo de secagem, colocava-me em pé sobre um antigo baú de madeira, com tampa abaulada que minha avó Adelaide trouxera de Portugal, no início do século passado. Vai-se saber quais louças preciosas ou tralhas necessárias vieram, diretamente de Coimbra, naquela respeitável "mala de pau". Entretanto, na minha infância e adolescência, o móvel de carvalho servia-se apenas para guardar roupas sujas ou sustentar moleques molhados.

Num sábado desses, já estávamos todos prontos para acompanhar mamãe ao "Salão da Margarida" que ficava distante de casa, quase no fim da Avenida. Não me recordo bem qual arte aprontei, mas fiz por merecer uma surra de minha mãe. Só me lembro de que, enquanto ela procurava o cordão do ferro elétrico para aplicar-me o corretivo, corri a esconder-me dentro da mala de pau.

Quando ficava nervosa, minha mãe tinha a mania de falar demais, numa lamúria sem fim e, na maioria das vezes, aquela cantilena monocórdica acabava por acalmá-la. Então, fiquei ali, bem quietinho, com as pernas encolhidas, esperando chegar a calmaria.

Sobre a maciez das roupas usadas, acabei por adormecer profundamente, alheio ao fuzuê que se armou na minha casa, por conta de meu sumiço. Inicialmente minha mãe queria achar-me para aplicar a sova prometida, depois para que eu não sujasse a roupa de passeio, mais tarde porque perdera a hora da cabeleireira e finalmente, quando anoiteceu, desesperou-se pensando que eu havia sido sequestrado.

- Meu Deus... os ciganos estiveram aqui hoje pra buscar o porco: devem ter carregado o menino!

Naquele tempo, meu pai vendia porcos, galinhas, cabritos e toda a espécie de animais, que trazia do sítio. Esses bichos ficavam num grande cercado que existia em nosso quintal e minha mãe se encarregava da venda no varejo a diversos fregueses da redondeza. Dentre os compradores, vira e mexe apareciam os ciganos que acampavam na parte alta da cidade, perto da antiga caixa d'água. Meu pai tinha amizade com todos.

Assim que papai chegou da roça, minha mãe, em prantos, implorou para que ele fosse ao acampamento dos gitanos a minha procura. Mas, o velho retrucou, incomodado: Alzira, como é que eu vou lá perguntar uma coisa dessa pra eles?! São gente boa e isso de roubarem criança é lenda... Seria uma ofensa das bravas!

Mamãe já estava disposta a quebrar violinos e pandeiros, quando minha irmã chamou lá do banheiro: - Mãe, achei o safadinho!

A velha levantou-me em seu colo, ainda dormindo. Sentou-se na tampa do baú e começou a beijar-me, chorando baixinho. Acordei-me sentindo aquele cheirinho gostoso de mãe. Vendo-a chorando, segurei uma das pontas de seus cabelos finos e macios e somente consegui perguntar: - A senhora não fez permanente?

Ela respondeu-me, dando um daqueles seus beijos estalados: - Não, filhinho! A Margarida não abriu o salão hoje...

Assim era minha mãe e, quanto à mala de pau, não sei que fim levou!

Por falar em ciganos, segue aí uma receita, modificada ao meu gosto, de:

ARROZ À MODA CIGANA: 2 xícaras de arroz temperado e cozido; 1/2 xícara de pinhões pré-cozidos ou castanhas do Pará; 3 colheres de manteiga; 1 xícara de queijo suiço (aqueles com buracos) picado; 3 ovos batidos; 2 copos de leite; 1 xícara de espinafre cozido, com sal e picado; 1 xícara de brócolis cozido, com sal e picado, 1 cebola picadinha.

Corte os pinhões ou as castanhas em filetes bem finos. Dê uma leve fritada na manteiga e misture aos demais ingredientes. Leve ao forno por 15 a 20 minutos.

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*João Batista Gregório, 57, paulista de São João da Boa Vista, é cronista de mão cheia. Publicou, em 2009, suas crônicas reunidas em Crenças e Desavenças e já prepara um novo livro, a ser lançado em breve. Para conhecer a sua produção, acesse o blog do JB, cheio de histórias divertidas, onde cada crônica pitoresca acaba com uma receita culinária especial, testada e aprovada! Clique no endereço abaixo e delicie-se! http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com/
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