sexta-feira, 5 de junho de 2009

FOOTING E AS JOVENS TARDES DE DOMINGO

Saudosos anos dourados
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Edward de Souza
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Faz bem o lembrar, o recordar dos anos 60, a década que marcou o final da adolescência e o início da vida adulta dos que hoje beiram ou já alcançaram os sessenta anos de idade. Era uma época de delicadeza e ingenuidade (mas nem tanto). As mulheres eram mais recatadas e os homens mais ousados.
Exemplo recente dessa evolução e de sucessivas transgressões dos costumes é o carnaval, com mulheres desfilando praticamente nuas nas avenidas e nos salões. Nesses anos, predominavam as fantasias singelas, com pierrôs e colombinas e as músicas ingênuas:
Vou beijar-te agora
não me leve a mal
pois é Carnaval....
Os mais endinheirados utilizavam o lança-perfume – um produto elegante e de bom-tom – para jogar no dorso nu da mulher cobiçada. Muitos extrapolavam, umedeciam o lenço e aspiravam o líquido, com sensação de leve torpor. A desconfiança de que o lança-perfume poderia estar sendo utilizado como droga entorpecente levou o então presidente Jânio Quadros a proibir a sua produção e comercialização em todo o país.
O footing nas praças era uma característica de Franca e de outras cidades do interior, com destaque para as de menor densidade populacional. Em Franca, na Praça Nossa Senhora da Conceição e na Praça Sabino Loureiro, mais conhecida como Praça da Estação, moças passeavam pelas calçadas em sentido contrário ao dos rapazes e a sedução consistia em olhares, gestos e no auto-convite do jovem para acompanhar a pretendente. Se tudo desse certo começava o namoro e a procura por um banco (banco de jardim), doado por algum estabelecimento comercial e, de preferência, nos locais menos iluminados e com menor número de pessoas. A Praça da Estação dispunha de serviço de alto-falante, que transmitia recados amorosos, dedicava músicas.... Os mais velhos, à época, preferiam Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Moacyr Franco. O mais pedido, no entanto, era o Nelsão:
Boêmia, aqui me tens de regresso
e suplicante lhe peço
a minha nova inscrição...
Já os mais jovens, idolatravam o novo ídolo Roberto Carlos:
Quero que você me aqueça neste inverno
e que tudo o mais vá pro inferno...
O footing se estendia também aos corredores dos cinemas. Antes de começar a projeção do filme, rapazes desfilavam a procura de um par, jovem que "guardava" uma cadeira vazia para o eventual pretendente.
Ah, os bailes, os bailes... Não havia um final de semana sem as reuniões musicais dançantes na AEC no centro de Franca. Quando não era na AEC, as brincadeiras dançantes, depois do cinema, eram realizadas no Salão Rosa do Hotel Francano, abrilhantadas pelos famosos discos de vinil, ou então eram improvisadas em salas e quintais domésticos. A bebida da moda: Cuba Libre (rum com Coca-Cola), Hi-Fi (gim com água tônica), peper man (?) e, para os mais resistentes Fogo Paulista ou conhaque Dreher com Martini doce.
Os bailes nos salões eram os mais animados e sofisticados, prestigiados por conjuntos musicais de capacidade reconhecida. O preferido de todos era Ray Conniff e sua Orquestra, famoso pela execução das canções dançantes de Glenn Miller.
As jovens tardes de domingo, programa comandado por Roberto Carlos, com apoio de Erasmo Carlos e da ternurinha Wanderléa, eram imperdíveis – como imperdível e objeto do desejo de 101 a 100 jovens as mini-saias ostentadas pela Ternurinha.
Uma outra ala musical, que chegava a rivalizar com a representada pela Jovem Guarda, tinha Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Chico Buarque...
Parece que o início dessa mudança teve impulso no Brasil, em conseqüência da Revolução Cultural, eclodida em 1968, em Paris. Jovens saíram às ruas ditando palavras de ordem, exigiam liberdade sexual, mesma época em que a pílula anticoncepcional deixava o guarda-roupa e se popularizava. Para reforçar, os Beatles irrompiam, falando de amor e protestando contra a morte de jovens norte-americanos e vietnamitas numa guerra fria e cruel. E, pela primeira vez na História, o homem pisava na Lua.
"Um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a Humanidade", registraria para o mundo o astronauta Neil Armstrong.
No Brasil, o governo militar que se implantara em 1o de abril de 1964, quatro anos depois, com a decretação do AI 5 (Ato Institucional n° 5), fechava o Congresso, cerceava a liberdade de pensamento, apertavam o cerco aos movimentos urbanos e rurais do país, que reivindicavam o restabelecimento do estado de direito. Surgiriam, assim, Vinicius de Moraes e Toquinho, cobrindo o Circuito Universitário. Vinicius apresentaria uma linguagem musical mais elevada. Um de seus primeiros sucessos foi Garota de Ipanema:
Veja que coisa mais linda
Mais cheia de graça
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar...
Mas retirando essa névoa de obscurantismo, os anos 60 foram de alegria, de muitas manifestações culturais e artísticas. Foi, também e, sobretudo, uma década brejeira, de doçura, de encanto com a vida. Uma década que os sessentões de hoje jamais esquecerão....
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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quinta-feira, 4 de junho de 2009

BASTIDORES DA HISTÓRIA
WANDERLEY DOS SANTOS
Ademir Medici e Wanderley dos Santos (em memória)
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Franca, a última parada
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FINAL
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Bem, o artigo final de hoje desta série é em dobradinha. O “Blog do Edward” ganha um novo colaborador, mesmo que para um único texto: Wanderley dos Santos e seus pensamentos, planos, projetos e angústias vividos no final da vida em Franca.

Seguem-se trechos de quatro cartas. Fala, Wanderley...

Franca, 3 de dezembro de 1992

1 - Descobri algo interessante em minha genealogia: descendo da primeira mulher branca residente na Vila de Santo André da Borda do Campo. Oportunamente lhe enviarei matéria nesse sentido para ver se pode ser aproveitada.

2 – Pretendo reconstituir meu espaço sobre documentação do ABC, organizá-la e utilizá-la. Um sonho surgido agora, uma segunda etapa, seria uma monografia com a história da estrutura agrária de Santo André, reconstituindo os sítios e fazendas e caminhos...

Franca, 7 de abril de 1993

Com a nova administração, temos reuniões semanais e faço mostras documentais mensalmente, além de ter viajado para pesquisas complementares no Rio de Janeiro e para fazer palestras sobre história em cidades como Peruíbe e Ribeirão Corrente.

Franca, 30 de abril de 1993

Aqui estou vivendo a “síndrome dos relatórios”, pois nunca fizemos tanto. Tenho mostra documental todo mês, participo do Condephat, organização do Arquivo da Cúria e microfilmagem.

4 de novembro de 1995

1 – Minhas notícias não são as melhores, mas julgo-me no dever de participar-lhe como amigo que é.

2 – Estou vivendo problemas de saúde, iniciados no final do mês de maio. Na ocasião, a partir de uma convulsão, desmaiei, quase perdi a vista direita, quebrei a prótese dentária, quebrei um dedo e esfolei todo o rosto. Tratei-me e em julho retornei ao trabalho, mas ainda tenso devido a múltiplas atividades, porque você conhece salário de servidor municipal.

3 – Promovi o 3º Concurso de Monografias de História de Bairros e iniciei os trabalhos para o 13º Encontro de Historiadores da Região, porém em setembro comecei a sentir uma insuportável dor de cabeça.

4 – Fui tratar-me. Já fiz duas tomografias cranianas, constatando uma mancha (edema) do lado direito a partir de um pequeno abscesso na extremidade da testa, do lado direito. Os medicamentos, muito fortes, com efeitos colaterais perigosos, já me deixaram 15 dias com diarréia. Depois, enfraqueceram-me os tornozelos. Por fim, obrigaram-se a me internar cinco dias com pneumonia.

5 – Devo retornar à Santa Casa de Misericórdia no dia 6 para continuar o tratamento da pneumonia, para talvez n final ainda da próxima semana submeter-me ao que estou temendo: a cirurgia no crânio a fim de se extrair o abscesso.

6 – Diante deste quadro, para evitar pessimismo, decidi retomar minhas pesquisas sobre a Região Metropolitana de São Paulo e tem sido muito bom, porque relembro passos de minha vida.

7 – Ademir, sei de suas ocupações que não são poucas, mas estou carente de leitura daí da região: seus artigos, as edições especiais de aniversário (das cidades) ou outras, a produção do SDHL – Serviço de Documentação da História Local -, Museu de Santo André, entidades de Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Diadema. Seria muito bom se você pudesse me mandar material. Faria bem em todos os sentidos. Só recebo publicações de São Caetano do Sul, porque um amigo de Vila Ema me envia.

8 – Pretendo retomar meus contatos mais efetivos, participando dos congressos, e para isso preciso me atualizar.

9 – Vou ficar de licença este mês todo e no hospital só me resta ler. Conto com você, meu grande amigo.
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Esta última carta de Wanderley foi respondida de imediato. Saudades. Silêncio. E a notícia dolorosa da última partida.

EPILOGO. E UM CONVITE

Guardo folhetos de encontros de historiadores da região de Franca, promovidos pela Prefeitura, Secretaria de Educação e Cultura e Fundação Municipal Mário de Andrade no Edifício Champagnat, todos enviados pelo Wanderley.

Ele também nos enviou a Revista Regional de História, a primeira editada, em 1990: 142 páginas de história e memória. Daqui do Grande ABC a torcida é para que outras revistas tenham sido editadas.

Aproveitamos o ensejo para convidar a todos de Franca e de outras plagas alcançadas pelo “Blog do Edward” para que participem do 10º Congresso de História do Grande ABC. Será na primeira semana de novembro próximo, em São Caetano do Sul. Aos poucos a gente vai passando outras notícias.

LINHA DO TEMPO

1989: agosto – Wanderley dos Santos funda o Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antonio Pinheiro, de Franca.
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1990: março – Eleito presidente da Associação Regional de Pesquisa e Preservação de Acervo Municipal de Franca (ARPAM).
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1992: março – Reeleito à presidência da ARPAM para o biênio 1992-93.
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1992: 28 de novembro – Wanderley lança em Franca o seu livro maior: “Antecedentes Históricos do ABC Paulista”.
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1996: 16 de janeiro – Falece em Franca aos 44 anos.
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2000: 4 de dezembro – Faculdade de Diadema e Instituto Educacional Stagium lançam o livro “História do Município de Diadema”, até aqui a última obra publicada de Wanderley dos Santos.
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*Ademir Medici é jornalista e escritor, formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Trabalha na imprensa do Grande ABC desde 1968 e especializou-se na área de resgate e reconstituição da memória. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Possui um acervo de 32 livros escritos, sendo 24 publicados e oito inéditos. Ademir também ganhou, em 1976, o Prêmio Esso de Jornalismo, em parceria com o jornalista Édison Motta, pela série “Grande ABC: A metamorfose da industrialização”. Atua no jornal Diário do Grande ABC desde 1972. Foi repórter especial, editor de Cidades e Política e secretário de Redação. Atualmente é responsável pela coluna Memória, uma das mais lidas do jornal e do quadro "MEMÓRIA", no programa "ABCD Maior em Revista".
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

BASTIDORES DA HISTÓRIA
WANDERLEY DOS SANTOS
Ademir Medici
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SEGUNDO CAPÍTULO- A CHEGADA AO ABC PAULISTA
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O trabalho de Wanderley dos Santos sobre a construção da memória histórica chega ao Grande ABC via municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Com o apoio das Prefeituras de Mauá e Ribeirão Pires, Wanderley edita monografias em 1974 sobre a história das duas cidades. Em 1975 entrega à Prefeitura de Diadema uma monografia semelhante, mas esta somente seria editada após a sua morte. Em 1976 escreve a história de Rio Grande da Serra, que permanece inédita.
Wanderley dos Santos recupera uma discussão que chegou a ser calorosa na primeira metade do século 20 e no início da segunda metade do mesmo século: a localização da Vila de Santo André da Borda do Campo e a fundação do bairro de São Bernardo.
A Vila de Santo André da Borda do Campo está presente em todos os livros didáticos sobre a história e geografia brasileiras. É a história de uma vila entre a Serra do Mar e Piratininga, num espaço hoje conhecido por Grande ABC, e onde estão cidades importantes, conhecidas no Brasil e no exterior pelos grandes movimentos sociais dos metalúrgicos da virada dos anos 1970 para 1980.
Os livros didáticos falam desta vila e citam suas figuras mais relevantes: João Ramalho, Cacique Tibiriçá e Bartira, filha do cacique e mulher do português Ramalho. Uma data, particularmente, é sempre citada: o 8 de abril de 1553, dia em que a Vila de Santo André da Borda do Campo foi oficializada.
O enigma – que deixou com cabelos brancos ou sem eles historiadores importantes, entre os quais Frei Gaspar, Taunay, Azevedo Marques, Teodoro Sampaio, Gentil de Assis Moura e Luiz de Toledo Piza – era saber exatamente onde esta vila se localizava. Sua vida foi tão efêmera – extinguiu-se em 1560 – que nenhum traço concreto restou do ponto onde existiu uma capela, um rocio e também onde foi erguido um pelourinho.
Wanderley mexeu nesse verdadeiro vespeiro, corajosamente. Estabeleceu uma tese – a vila de Ramalho ficaria às margens do Córrego Guarará, no atual Município de Santo André – mas, principalmente, levantou um tema que se imaginava superado e esquecido.
Seu trabalho parte dos estudos já então realizados. Um verdadeiro rol de todos os trabalhos e seus autores é reunido por Wanderley que depois, à luz de uma documentação nova ou pouco estudada, costura uma teia que oferece informações novas hoje reunidas na sua obra maior: “Antecedentes Históricos do ABC Paulista: 1550-1892”, lançado na noite de 17 de novembro de 1992, em São Bernardo, como um clássico da historiografia local bancado pela municipalidade são-bernardense.
Tivemos o privilégio de editar esse livro de Wanderley dos Santos, e pudemos reunir num só trabalho três nomes importantes da História local: Wanderley, Esther Mazzini Le Var e Mario Ishimoto.
Dona Esther, a nosso pedido e com a autorização do Wanderley, idealizou telas a óleo belíssimas com imagens de igrejas históricas e outras paisagens, todas coloridas, que ilustram o livro; Mário cuidou da parte fotográfica.
Na última página do livro, Wanderley dos Santos escreve sua biografia, cujo original, à caneta, guardamos até hoje. No último parágrafo, os planos imediatos do nosso focalizado, semiprontos: Dicionário Histórico e Geográfico de São Paulo, Histórias dos Bairros de Tatuapé e de Vila Carrão; e História dos Municípios de Franca, Peruíbe, Rifaina e Tapiratiba.

LINHA DO TEMPO

1980 – Wanderley dos Santos é premiado pela Prefeitura de São Paulo pela monografia, transformada em livro, sobre a história do Bairro da Lapa.
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1981 – Eleito sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e do Instituto Genealógico Brasileiro.
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1983 – Eleito membro do Instituto Histórico e Genealógico de Santa Catarina.
- Participa do projeto paulistano do Museu de Rua do Tatuapé.
- Participa da Comissão Pró-Tombamento de Monumentos Históricos de São Bernardo do Campo.
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1985 – Participa do projeto paulistano do Museu de Rua da Lapa.
- Representa a Arquidiocesana de São Paulo no conselho Municipal do Patrimônio Histórico de São Bernardo do Campo.
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1987 – Eleito membro do Instituto Histórico e Genealógico de Minas Gerais.
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1989 – Eleito membro do Colégio Brasileiro de Genealogia, no Rio de Janeiro.
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*Ademir Medici é jornalista e escritor, formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Trabalha na imprensa do Grande ABC desde 1968 e especializou-se na área de resgate e reconstituição da memória. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Possui um acervo de 32 livros escritos, sendo 24 publicados e oito inéditos. Ademir também ganhou, em 1976, o Prêmio Esso de Jornalismo, em parceria com o jornalista Édison Motta, pela série “Grande ABC: A metamorfose da industrialização”. Atua no jornal Diário do Grande ABC desde 1972. Foi repórter especial, editor de Cidades e Política e secretário de Redação. Atualmente é responsável pela coluna Memória, uma das mais lidas do jornal e do quadro "MEMÓRIA", no programa "ABCD Maior em Revista".
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NESTA QUINTA-FEIRA- ÚLTIMO CAPÍTULO DA SÉRIE - A chegada à Franca; a sistematização da documentação histórica local; as primeiras exposições; nasce um novo arquivo histórico.
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terça-feira, 2 de junho de 2009

BASTIDORES DA HISTÓRIA
WANDERLEY DOS SANTOS
APRESENTAÇÃO:
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ÉDISON MOTTA
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Tal como o imenso oceano, que guarda em sua grandeza impenetráveis mistérios, a história também é uma porta aberta ao infinito. Raros brasileiros têm noção de que muitos de nós temos algum parentesco com João Ramalho, o primeiro homem branco que subiu a Serra do Mar e deu inicio à civilização do Planalto de Piratininga, hoje São Paulo.
Quando Martin Afonso de Souza navegava em direção a São Vicente, no comando de uma grande expedição portuguesa para inaugurar a primeira cidade do País, em 1532, foi socorrido por Ramalho, em Bertioga, que evitou um confronto com os índios canibais de então. Pelo nível de organização das aldeias e influência de Ramalho nossa história teria sido outra não fosse a diplomacia e apoio do judeu-português, genro do cacique Tibiriçá e marido da índia Bartira. Mais à frente, Ramalho também liderou a resistência do Pátio do Colégio e livrou da morte os jesuítas Anchieta, Manoel da Nóbrega e o povoado de São Paulo.
A saga de João Ramalho, pouco conhecida, foi uma das paixões de Wanderley dos Santos (Foto). Sua obstinada devoção à história trouxe à tona preciosas revelações, garimpadas nos arquivos da Cúria Arquidiocesana paulista.
Agora, com exclusividade, Ademir Médici, um dos grandes expoentes do jornalismo histórico do País, conta-nos um pouco da história de Wanderley. Alguém que fez um trajeto parecido com o de Edward de Souza, o autor deste Blog: saiu de Franca para a grande cidade e depois voltou. Ademir mantém há 19 anos a coluna diária “Memória”, do Diário do Grande ABC. A convite do Blog brinda-nos, em três capítulos, com um resumo da trajetória e obra de Wanderley, alguém que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que nos deixou muito cedo.
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ADEMIR MEDICI
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PRIMEIRO CAPÍTULO- FRANCA AO ABC PAULISTA
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O menino da Vila Carrão revisa a história oficial
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Em 4 de novembro de 1995 Wanderley dos Santos enviou de Franca para São Bernardo do Campo uma carta manuscrita oferecendo algumas informações importantes e outras preocupantes. Vale sintetizar:
1 – Decidido: Wanderley iria retomar pesquisas sobre a formação histórico-social da região metropolitana de São Paulo.
2 – Uma boa descoberta para a história do Grande ABC: o livro de pintura de Miguelzinho Dutra, o autor de “Ruínas da Vila Velha de Santo André”, traz a informação que o pai deste pintor, chamado Tomás da Silva Dutra, nasceu na velha Borda do Campo, em 1738, sendo filho de Tomé da Silva Dutra, que fora dono de um sítio chamado Santo André e que é citado por Wanderley em seu livro clássico “Antecedentes Históricos do ABC Paulista: 1553-1892”.
Wanderley dá a informação e pergunta: “Esse achado merece artigo agora ou em abril de 1996”, que é a data em que a Santo André atual, do Grande ABC, comemora seus aniversários.
3 – A má notícia: a carta postada em Franca foi escrita às vésperas da internação de Wanderley na Santa Casa local. Admite ser portador de graves problemas neurológicos. Terá que ser submetido a uma cirurgia no cérebro, mas está otimista e confiante em Deus. Tão confiante que fazia planos para participar do IV Congresso de História do Grande ABC, marcado para 1996 na cidade de Diadema.
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Desde 1989 Wanderley dos Santos dirigia o Arquivo Histórico Capitão Hipólito Antonio Pinheiro, da Prefeitura de Franca, do qual foi o fundador. Anteriormente, desde 1974, chefiou o Arquivo da Cúria Metropolitana, respondendo diretamente ao então cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.
Wanderley manuseou e sistematizou a documentação histórica da Igreja de São Paulo, formada a partir da fundação da cidade, no quinhentismo. Mexendo com tantos papeis, fez muitas descobertas. Uma delas: a grande maioria dos municípios conta com muitas falhas a sua própria história.
A matéria-prima da pesquisa de Wanderley dos Santos foi a documentação da Igreja, mas ele nunca deixou de consultar outras fontes, cruzando informações, produzindo textos e monografias, difundindo seus achados pelos jornais da capital e do interior ou por meio de palestras.
Tornou-se uma referência. Virou citação constante. Criou um arquivo histórico próprio, centrado na documentação secundária – livros e teses conhecidas e sua biblioteca particular era imensa – mas, principalmente, de documentação primária, formada por registros manuais que trazem a sua caligrafia incomparável.

Seu último projeto seria o Dicionário Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo. Não deu tempo de concluir.

O Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo fica na Avenida Nazareth. Antes ocupava um prédio da Igreja na Praça Clovis Bevilacqua, a poucos metros da Sé. Num almoço no restaurante que funcionava nos baixos desse prédio, indagamos o porquê de Wanderley nunca ter se casado. A resposta foi simples e calma, como era do seu temperamento: “Eu tenho uma missão que é a história, não posso pensar em projetos pessoais”.
Era 1981. Passaria quase toda a década de 1980. Mas como compreender as coisas do coração: a paixão de Rosimar foi mais forte. Veio o casamento – claro, na matriz da Vila Carrão, seu bairro em São Paulo. Chegaram os filhos. Wanderley teve que abrir mão do trabalho na Cúria e encontrar um emprego que lhe rendesse um salário suficiente para sustentar a família formada. Franca ganhou a corrida. Como tantos outros municípios, também a cidade conhecia o trabalho sério de Wanderley. Daí a mudança para o interior e um belo trabalho realizado na cidade que dera ao Grande ABC a figura envolvente do jornalista Edward de Souza, que se bandeou para São Paulo, e para o Grande ABC, e que agora, de volta ao ninho francano, nos possibilita lembrar a figura de um irmão que se foi melancolicamente, Wanderley dos Santos.

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Dezembro de 1995 passou; 1996, novo ano. Operado duas vezes do cérebro, Wanderley chegou a se recuperar parcialmente. Mas não resistiu e faleceu na madrugada de 16 de janeiro de 1996.

LINHA DO TEMPO
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1951, 19 de fevereiro – Wanderley dos Santos nasce em São Paulo, filho de Benedito Cruz dos Santos e de Lydia de Almeida Santos.
1966 – Fascinado pela história regional, inicia longa investigação dos episódios que culminaram na formação e evolução dos bairros paulistanos.
1972 – Decide prolongar suas pesquisas no Grande ABC.
Esposa: Rosimar Zotelli dos Santos; filhos: Elidia, Hosana e Wanderley José.
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NÃO PERCAM NESTA QUARTA-FEIRA O SEGUNDO CAPÍTULO DESSA SÉRIE ESCRITA POR ADEMIR MEDICI.
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*Ademir Medici é jornalista e escritor, formado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Trabalha na imprensa do Grande ABC desde 1968 e especializou-se na área de resgate e reconstituição da memória. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Possui um acervo de 32 livros escritos, sendo 24 publicados e oito inéditos. Ademir também ganhou, em 1976, o Prêmio Esso de Jornalismo, em parceria com o jornalista Édison Motta, pela série “Grande ABC: A metamorfose da industrialização”. Atua no jornal Diário do Grande ABC desde 1972. Foi repórter especial, editor de Cidades e Política e secretário de Redação. Atualmente é responsável pela coluna Memória, uma das mais lidas do jornal e do quadro "MEMÓRIA", no programa "ABCD Maior em Revista".
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segunda-feira, 1 de junho de 2009

VERGONHA, TRISTEZA, COMPAIXÃO E HORROR Á VIOLÊNCIA DO NAZISMO

Nivia Andres
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O Leitor
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Quando livros são transformados em filmes, nem sempre os resultados são os melhores. Roteiro, cenografia, direção, atores colocam suas experiências e sensibilidade, criando, por vezes, uma nova obra, diferente da original. Não é o que acontece em "O Leitor". Gostei da adaptação. Mesmo com ligeiras mudanças no roteiro, o clima de profunda solidão, vergonha, tristeza, compaixão e horror à violência do nazismo sobreviveu, sobretudo com a magistral interpretação de Kate Winslet (que lhe valeu o Oscar de melhor atriz), acompanhada com brilho por Ralph Fiennes (Michael adulto) e David Kross (Michael jovem).
A narrativa aborda o relacionamento de um adolescente alemão, Michael, que tem somente 15 anos, com Hanna, uma bela mulher 21 anos mais velha. Ambos vivem uma delicada e intensa relação amorosa, que segue um ritual diário: primeiro, banham-se, depois ele lê para ela fragmentos de Goethe, Dickens, Tolstoi e Schiller, só depois fazem amor. Essa rotina de prazer e descobertas é interrompida quando Hanna desaparece subitamente, sem deixar pistas, dando um fim àquele período de felicidade. Sete anos depois, Michael, agora estudante de direito, é convidado a acompanhar um julgamento de criminosos do regime nazista. Ele descobre, para seu terror, que sua antiga amante é uma das acusadas pelos crimes (era guarda no campo de concentração de Auschwitz), circunstância que o lança em um turbilhão de culpa e piedade, pelos desdobramentos do caso e suas consequências para a vida de ambos.
Nesse momento, "O Leitor" levanta duas questões sobre a culpa. A primeira tem a ver com a responsabilidade dos agentes do Holocausto. A segunda, e mais interessante, transcende ao jogar para cima de Michael uma dúvida cruel: ele tem uma informação capaz de inocentar Hanna, mas, se a revelar, poderá ajudar uma possível culpada por crimes nazistas a escapar ou ter reduzida sua pena. Além de ter de expor seu relacionamento juvenil com a ré.
Essa ambiguidade poderia muito bem servir de metáfora para a omissão diante dos horrores nazistas: a busca por um bode expiatório. Michael, assim como o autor do livro no qual o filme é baseado, Bernhard Schlink, pertence à geração que passou pela adolescência na época da ascensão do nazismo. Eles podiam não entender o que acontecia - mas seus pais, mais cedo ou mais tarde, souberam dos horrores e a maioria se omitiu.
Além de todos os elementos que emprestam à narrativa um tom de dor profunda, há um que se destaca porque altera definitivamente o destino da protagonista - o analfabetismo - ela não sabia ler. Mais não vou contar...
É uma leitura necessária. Ou assistam ao filme. Ou os dois. Como eu fiz. De preferência em uma sala de cinema. Se preferirem assistir em DVD, escureçam o aposento. A penumbra cria um clima especial, bem próximo dos sentimentos que experimentamos à medida em que a história avança.
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*Nivia Andres, jornalista, graduada em Comunicação Social e Letras pela UFSM, especialista em Educação Política. Atuou, por muitos anos, na gestão de empresa familiar, na área de comércio. De 1993 a 1996 foi chefe de gabinete do Prefeito de Santiago, Rio Grande do Sul. Especificamente, na área de comunicação, como Assessora de Comunicação na Prefeitura Municipal, na Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACIS), no Centro Empresarial de Santiago (CES) e na Felice Automóveis. Na área de jornalismo impresso atuou no jornal Folha Regional (2001-06) e, mais recentemente, na Folha de Santiago, até março de 2008. Blog da jornalista:
http://niviaandres.blogspot.com/
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domingo, 31 de maio de 2009

LINHA DE TRANSMISSÃO EM CAMPO ERRADO

Oswaldo Lavrado
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A dura vida de radialista
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Os aeroportos brasileiros viviam dias de caos nos meados dos anos 80, com dezenas de vôos domésticos e internacionais atrasados. Um grande problema para nós, profissionais de rádio, que cobríamos nessa época o Campeonato Brasileiro da Série B. O Santo André tinha jogo marcado para Belo Horizonte num domingo, contra o América mineiro e só restava a nós duas opções, ir com o carro da rádio ou enfrentar a viagem de ônibus. Preocupados com os golpes de vista do nosso famoso “Lampião”, motorista que sempre nos acompanhou em transmissões de futebol, numa tarde de sábado, embarcamos (eu e o Edward) em um ônibus da Viação Cometa, saindo da rodoviária do Tietê, rumo a Belo Horizonte, para a transmissão desse jogo de futebol.
As mais de 6 horas de viagem foram relativamente tranqüilas, mesmo o trajeto sendo pela rodovia Fernão Dias, conhecida por seus inúmeros acidentes, de pista única e repleta de curvas que deixava qualquer um com o coração na mão. Imaginem com o glorioso “Lampião” ao volante. Certamente iríamos pagar todos os nossos pecados. Atualmente remodelada, a Fernão Dias tem grande trecho, principalmente na parte paulista, com duas pistas o que proporciona uma viagem menos perigosa.
Chegamos a Belo Horizonte por volta das 20h, desembarcamos nossa "tralha" e esperamos diminuir um pouco o burburinho da rodoviária proporcionado pelo embarque e desembarque de passageiros. Com as malas e o equipamento da rádio subimos por uma da escada em caracol e quando chegamos ao topo fomos advertidos por um segurança: "olha, tomem cuidado que aqui está cheiro de trombadinhas e vocês correm sério risco de assalto". Era verdade, na praça ao lado da rodoviária notamos algumas rodinhas de garotos e adultos em atitudes suspeitas. Escolados com viagens pra todo lado e, principalmente pelo Centro de São Paulo onde pululam trombadinhas, trombadões e marginais de todos os tipos, entramos no primeiro táxi livre na rodoviária. “Por favor, nos leve para um hotel longe daqui", disse eu ao motorista. Conhecedor profundo do emaranhado horizontal da capital mineira, o taxista nos conduziu, sem nenhum contratempo, ao Savassi, bairro de classe média alta e onde, à época, parecia ser o point noturno de BH.
Alojamo-nos num hotel quatro para cinco estrelas, onde não foi preciso usar o expediente de Bauru (ver a tabela de preços da diária), já que nesse dia nossa carteira dispunha de recursos suficientes para as despesas de hospedagens e outras. “Mais tarde nos instalamos em uma mesinha na calçada de uma lanchonete freqüentada pela “nata” de Belo Horizonte”, situada na longa e quase interminável Avenida Antonio Carlos, onde passamos algumas horas saboreando os deliciosos petiscos mineiros, entre eles o caldinho de feijão com torresmo e, sem excessos, retornamos ao hotel. Então aconteceu um fato engraçado. O Edward cismou que estava com problemas de coluna. O apartamento no hotel onde estávamos era luxuoso, acarpetado e até com sala de visitas. Não deu outra. Sem pensar duas vezes o Edward resolveu que sua cama seria dispensada, dormiria no chão, sobre o grosso tapete do quarto. E no chão passou a noite. Eu pensava com meus botões, pagar uma fortuna para ter maior conforto em hotel de luxo e o cara dorme no chão... Cada louco com sua mania!
Domingo, tipo meio dia, estávamos no campo do América, também conhecido como “Coelho de BH”, já que o Atlético é o Galo e o Cruzeiro a Raposa. Procurei o administrador do estádio e perguntei onde ficavam as cabines de rádio. Educadamente e no melhor estilo mineiro o homem me apontou a direção, porém sem sair do banquinho em que estava sentado. Agradeci dei um grito para o Edward que me seguiu carregando as malas e a parafernália da rádio. Resmungou, mas subiu um lance de escadas até onde estavam as cabines. Como de praxe, procurei entre os diversos boxes existentes a indicação (etiqueta) da Telemig (Telefônica de Minas Gerais) que indicava nossa linha. Não achei, nem a nossa, nem a da Rádio ABC de Santo André, que também iria transmitir o jogo.
Voltei ao administrador e coloquei o problema: "olha, moço, esta semana não esteve aqui nenhum funcionário da Telemig para instalar linhas de rádio", disse o homem. Pedi para usar o telefone do estádio (à época não existia celular) e liguei para a central da telefônica mineira. Após uma espera de pelo menos uns 30 minutos, uma voz feminina sentenciou: “moço, as linhas de transmissão da Rádio Diário e da Rádio ABC estão no Mineirão".
“Como é?", disse eu já estressado. Para encurtar a história: A Telemig, por engano, instalou nossas linhas no Mineirão onde no mesmo dia e horário jogariam Atlético e Portuguesa. Entenderam, sei lá como, que todas as rádios de São Paulo iriam trabalhar no principal estádio de Belo Horizonte. Implorei para que a jovem resolvesse nosso problema. "Vou ver o que posso fazer", disse ela. Enfim, conseguiu localizar no Mineirão dois funcionários da empresa e os enviou ao estádio do América. Os rapazes, não muito solícitos, montaram nossas linhas (Diário e da ABC) e entramos no ar por volta das 16h30 (o jogo começaria às 17h). Concluímos nosso trabalho, mas foi um sufoco uma vez que a jornada esportiva da rádio começava às 13h. Ao deixar o estádio, já noite, fui à sala do administrador para agradecer a acolhida. Ainda sentado no mesmo banquinho, sem levantar e nem me olhar, o homem estendeu a mão e balbuciou: "Voltem sempre, vocês são gente boa".Tomamos o rumo da rodoviária escura e imunda de BH e encaramos mais de 6 horas de viagem de retorno a São Paulo, rezando para que a greve da aviação tivesse fim. Pouco ou quase nada foi dito entre eu e o Edward na viagem de volta. Nem o resultado do jogo (1 a 0 para o Santo André) foi motivo para um bom e descontraído papo.
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*Oswaldo Lavrado - jornalista e radialista - trabalhou no Diário do Grande ABC, rádio e jornal, e comandou a equipe de esportes da Rádio Diário. Atualmente é editor do semanário Folha do ABC.
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sábado, 30 de maio de 2009

MAIS DE DUAS MIL PESSOAS SE CADASTRAM COMO DOADORES DE MEDULA ÓSSEA EM SBC

Campanha realizada nesse sábado foi um sucesso e a cidade de São Bernardo do Campo, na Região do ABC Paulista, passa a ter agora mais de 8 mil doadores de medula óssea. Neste sábado, Renata Morgado informou com exclusividade para este blog, uma hora depois do término da campanha, que 2.269 pessoas aderiram ao chamado e se cadastraram como doadores. (Leia abaixo matéria e comentários sobre a campanha).

HOJE - SEJA UM DOADOR DE MEDULA ÓSSEA

UTILIDADE PÚBLICA
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“Doe Vida em Vida”
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A doação de uma simples gota de sangue, num primeiro momento, pode significar a salvação de uma vida. Neste sábado, equipes de voluntários da campanha “Doe Vida em Vida” vai promover o cadastramento de futuros doadores de medula óssea. Elas estarão instaladas no Ginásio Poliesportivo Adib Moysés Dib (Avenida Kennedy, 115, bairro Anchieta, São Bernardo) das 9 às 16 h. Para se cadastrar no Renome – Registro de Doadores de Medula Óssea – a pessoa deve estar em boas condições de saúde, ter entre 18 e 55 anos de idade. Não é preciso estar em jejum. Basta que apresente documentos: RG, CPF e indique o número de dois telefones fixos.
Uma vez cadastrada – no ato é retirado do doador 10 mililitros de sangue – a pessoa passa a integrar o conjunto de pessoas que poderão ser chamadas quando houver compatibilidade de seu tipo sanguíneo com o dos pacientes.
A medula óssea é responsável pela produção das células sanguíneas, glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. Fica na parte interna dos ossos e tem um tecido esponjoso que lembra o tutano. Necessitam de transplante doentes cujos organismos têm dificuldade de produção de sangue pela medula, como aplasia medular e leucemia além de muitas crianças com doenças genéticas.
A maior dificuldade para salvar a vida dessas pessoas é a difícil compatibilidade, mesmo em pessoas da mesma família. Por isso, a campanha alimenta informações para o Renome com dados de todos os possíveis doadores. Quanto maior o número de inscritos, maiores as chances dos pacientes encontrarem um compatível.
O cadastramento é simples. Caso seja encontrada compatibilidade, os doadores serão chamados para realizar exame de sangue mais detalhado. Depois, se colocarão à disposição da equipe médica para que seja retirada, através de punção direta ou da veia, cerca de 10% da medula. Não é cirurgia, não há cortes nem cicatrizes e o doador praticamente nem sente o processo porque seu próprio organismo cuida da rápida substituição.
Mais informações podem ser obtidas no site:
www.sejaumheroi.com.br, pelo e-mail: campanhadoevidaemvida@hotmail.com ou ainda no telefone 9155.1250. A organização do cadastramento é da Associação da Medula Óssea –www.ameo.org.br com apoio do Hemocentro da Santa Casa de São Paulo, do Sindicado dos Metalúrgicos do ABC e do vereador Admir Ferro (PSDB-SBC).

sexta-feira, 29 de maio de 2009

ANIMALIDADE VERSUS ESPIRITUALIDADE

J. Morgado
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Vivemos em um mundo onde as pessoas ainda

se deixam levar por instintos animalescos
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Muita celeuma se criou em torno do aborto de uma garota de nove anos estuprada pelo padrasto. O fato em si, que não é nenhuma novidade, ganhou as manchetes de jornais, revistas, televisão e rádios por muitos dias. Escandalizou a população brasileira e de outros países devido ao sensacionalismo criado pela imprensa.
A violência sexual contra a criança é quase tão velha quanto o mundo. Guerras tribais, guerras antigas e modernas, povos que vivem isolados do resto do mundo, etc. praticam esse tipo de crime hediondo. Nas guerras, o botim inclui o estupro de mulheres, sejam elas crianças ou adultos. Uma realidade que a humanidade sabe que existe, mas finge ignorar. Há regiões no Brasil e, em muitas partes do mundo, onde numa simples observação pode-se notar que o incesto é comum. A semelhança entre as pessoas e o número de indivíduos com características anormais são gritantes.
Nas estradas brasileiras, principalmente as localizadas em regiões carentes, crianças de 6, 7, 8 ou mais anos se prostituem a mando de seus pais ou prepostos. Muitos dos motoristas, infelizmente, não estão se preocupando nem um pouco. Apenas o desejo da satisfação sexual é o que importa. Essa depravação do ser humano, onde se inclui a prática da pedofilia, como disse acima, é um costume muito antigo. Em civilizações tidas como modernas para a época, os egípcios, os gregos, os romanos, etc. promoviam verdadeiros rituais de iniciação sexuais. Os infantes eram os preferidos. Orgias em nome de deuses da luxúria eram comuns. Infelizmente, esses costumes ainda não foram erradicados da face da Terra. O homem moderno trouxe, através de seu espírito, essa herança. Essas imperfeições só desaparecerão depois de muitas reencarnações. O que estou escrevendo não é nenhuma novidade. Tudo isso é, vez ou outra, motivo de reportagens especiais nos órgãos de imprensa. Nada acontece! A literatura mostra casos e mais casos sobre essas atrocidades através da história. Quantos abortos espontâneos e outros provocados acontecem por esse enorme rincão brasileiro? E estou falando apenas de garotas de 9, 10 ou mais anos vítimas de parentes: pais, padrastos, irmãos e também vizinhos etc.
Nos ambientes mais civilizados, mas com bolsões de pobreza, os casos acontecem em maior quantidade. Mas no âmbito também conhecido como alta sociedade ou classes mais favorecidas também. Por quê? A resposta para a pergunta acima é: IGNORÂNCIA! Vivemos ainda em mundo em que as pessoas, longe do que pregam as religiões, se deixam levar por seus instintos animalescos de outrora. O que interessa a eles é apenas o prazer do momento. As conseqüências? Ora conseqüências... Pensam em escapar das leis dos homens usando artifícios nefandos, como as leis, cheias de meandros ou corrompendo autoridades e o que é muito pior, aniquilando de vez suas vítimas.
O Espiritismo é a única Religião que explica o porquê disso tudo. Baseada no tripé filosofia, ciência e religião, nos dão as respostas que tanto necessitamos. No caso em que estamos abordando, a questão número 359 do “Livro dos Espíritos” é bem elucidativa: “No caso em que a vida da mãe estaria em perigo, pelo nascimento da criança, há crime em sacrificar a criança para salvar a mãe?” “– É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe”.Mas, vejam bem, “se a vida da mãe estaria em perigo”, quem estaria apto a diagnosticar essa situação? É claro que são os médicos! Profissionais que estudaram anos a fio para situações como essa. E se o médico em vez de usar a sua sapiência com isenção de ânimo se deixou levar pelo clamor popular? O mesmo clamor popular que é favorável à pena de morte, ao aborto, a eutanásia, ao linchamento... A resposta para nós espíritas é simples: – perante as leis dos homens nada acontecerá. Sua consciência o cobrará inevitavelmente! Nada temos com isso! O problema é apenas das pessoas envolvidas no caso. Cada um responde por seu livre-arbítrio. “Quem for livre de pecado que atire a primeira pedra”, nos ensinou o Mestre. O Estatuto Universal de Moral nos foi mostrado por um homem que se sacrificou pela humanidade para propagá-lo há mais de dois mil anos. A sociedade de então, não aceitava sair de seus “status quo” para abraçar a doutrina do amor. E parece que a situação ainda não melhorou muito, apesar dos vinte séculos decorridos. Animalidade versus espiritualidade. Essa frase é de Emmanuel e psicografia de Francisco Cândido Xavier, inserida no cap. 26 – Obreiros da Fé - do Livro Fonte Viva- edição FEB/86. Uma luta constante do homem tentando evoluir, saindo de vícios morais terríveis, para o que poderíamos chamar de consciência limpa e pronta para avançar rumo ao infinito.
Sigmund Freud (1856/1939), considerado o pai da psicanálise, desenvolveu todo um estudo a respeito da sexualidade e a interferência na libido no caráter das pessoas dentro do mundo material. Carl Jung (1875/1961), seu contemporâneo, psiquiatra, apoiou seu colega e foi mais além; avançou nos estudos além matéria sobre o mesmo assunto (quem se interessar, há farto material na internet).
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*J. Morgado é Jornalista, pintor de quadros e pescador de verdade. Atualmente esconde-se nas belas praias de Mongaguá, onde curte o pôr-do-sol e a brisa marítima. Morgado escreve quinzenalmente neste blog, sempre às sextas-feiras. E-mails sobre esse artigo podem ser postados no blog ou enviados para o autor, nesse endereço eletrônico:
jgacelan@uol.com.br
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

POBRE É QUE SABE LEVAR VIDA GOSTOSA...

Edward de Souza
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E A MUDANÇA DE POBRE, QUE DELÍCIA...
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Quem foi gerado em fecundo ventre e veio transitar no Planeta Terra é vencedor e recebeu a dádiva da vida, é merecedor dos sabores da existência. Entretanto, o terrestre que não é pobre é um ser incompleto, infeliz. Vive-se bem apenas o pobre. Somente o pobre curte, aproveita, suga a vida plenamente. Com certeza, só o pobre desfruta de alguns prazeres terrenos. Coisa maravilhosa, por exemplo, é, num dia chuvoso, depois do trabalho, esperar o ônibus no ponto de parada durante uns quarenta minutos. Quando o lotação chega é um grande alívio, uma satisfação, uma alegria. Se estiver realmente lotado de passageiros, o calor humano é imediato, intenso. Os cheiros se misturam, os odores se homogeneízam. Todos compartilham catingas (chulé, cecê e puns). E é fofoca, conversa fiada, todo mundo reparando todos. Fazem-se amizades e vira festa. Só o pobre tem também o ultra-prazer orgásmico de liquidar a última de um carnê de 36 prestações referentes à compra de um tanquinho de lavar roupas adquirido na promoção das Casas Bahia (tomara que o Samuel Klein não me processe). As notinhas vão todas amassadas e apertadas na mão e o dinheiro enfiado na meia para evitar ser roubado. Para comemorar a quitação do bem, nada melhor que comer um pastel com caldo de cana ou refrigerante. É a realização de um sonho, uma vitória, conquistada com dignidade e esmero.
O pobre vive mais. Aproveita mais a vida. Diferentemente do rico, o pobre precisa aproveitar mais a coisa, mastigar até secar o bagaço. É aí que se encontram as grandes nuances do sabor. É só o pobre que chupa a manga até branquear o caroço, que detona a melancia até na parte dura, que desperdiça da laranja só as cascas e as sementes, que come o vento do pastel, que devora os talos da couve, que amacia o lombo-grosso com limão, que planta mandioca no quintal, que faz doce de limão china, que vai assobiando para o trabalho de bicicleta, que sabe esquentar a marmita com um pouquinho de álcool que carrega na garupa da bicicleta a melancia comprada na promoção do varejão, que fica sem comer o dia inteiro só para encher a pança, à noite, na festa do primo rico, que fica o dia inteiro pescando no “corgo” e explode de alegria quando vai para casa levando os lambarizinhos e os pacuzinhos de mistura. Ser pobre é bom demais. Quer coisa mais sublime que mudança de pobre? É simplesmente sensacional. Para começar, o transporte é feito com veículo da carroceria aberta. Tudo fica à mostra: os penicos, o pano rasgado do colchão, a estrado das camas amarrados com arame, as gaiolas dos passarinhos, o vaso com cheiro-verde plantado, o outro vaso com o comigo-ninguém-pode, a bandeira dos Santos Reis e tudo de mais atraente e exótico. A bandeira do Corinthians amarrotada não pode faltar. Sempre vai amarrada na parte de trás do caminhão ou carroça, pra todo mundo ver.
As roupas da casa são acondicionadas em grandes trouxas e vão amarradas entre a geladeira, o fogão e o armário azul-calcinha da cozinha. As panelas amassadas, a frigideira empenada, os pratos de esmalte branco e os copos aproveitados de requeijão vão amarrados num saco com jornais velhos para não quebrarem.
Os chapas, carregadores de coisas, são os próprios compadres da Dona da mudança. Vão a troco da pinga e do pão com salame e torresmo. O bravo é agüentar o bafo, mas tudo bem, eles carregam tudo direitinho e não deixam os móveis se arranharem. Até ajudam a montar as camas e os pés da geladeira.Quando os cômodos estão vazios e o quintal limpo (levam até os chuchus pequenininhos), o caminhão fica lotado na porta do barracão, é até bonito, parecendo uma pirâmide de tranqueiras e badulacas. Vale à pena tirar uma foto e mandar para o Guinnes’ book, pois é tanta coiseira velha reunida num só lugar que bate recorde. De tão brega, parece chique.
Os ex-vizinhos são uns bobos e curiosos. Ficam olhando para o caminhão, na esperança de esquecerem algo no passeio. As velhas da redondeza ficam nas janelas e nas muretas espiando, proseando e bisbilhotando. O cachorro, o Rex, coitado, vai amarrado num pau da cama, meio enforcado, apertado entre os tamboretes e o bujão de gás. É o que mais sofre. Da carroceria do caminhão fica dando a última olhada para o já saudoso lar. Algumas furtivas lágrimas caninas saem oprimidas de seus tristes olhinhos. O motor é ligado, o veículo começa a sair aos poucos e o Rex vai latindo e uivando pelas ruas do bairro. Na porta do outro barraco, quando a família chega com a mudança, os novos vizinhos se aglomeram na rua e a fofoca corre solta: Credo! É pobre também. Olha que móveis mais feios! Olha o colchão então! Nesse meio tempo, muita coisa foi perdida pelo caminho, como algumas panelas e alguns pés de mobília. O Rex fica vagando no novo quintal, meio perdido, sem o cheirinho conhecido do habitat anterior. Dá uma tristeza...
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*Edward de Souza é Jornalista e radialista. Trabalhou nos jornais, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Diário do Grande ABC e O Repórter, da Região do ABC Paulista. Em São Paulo, na Folha da Tarde, Gazeta Esportiva, Sucursal de "O Globo", Diário Popular e Notícias Populares, entre outros. Atuou nas Rádios: Difusora de Franca, Brasiliense de Ribeirão Preto, Rádio Emissora ABC, Diário do Grande ABC, Clube de Santo André, Excelsior, Jovem Pan, Record, Globo - CBN e TV Globo de São Paulo. Participou de diversas antologias de contos e ensaios. Assina atualmente uma coluna no Jornal Comércio da Franca, um dos mais tradicionais do interior de São Paulo.
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