
DA BAHIA À CORNUALHA, II


Ela e a sogra sempre se destestaram mutuamente. O primeiro "pega" deu-se, já, no primeiro dia em que ficou sozinha, naquela casa sombria que abrigara várias gerações da família Hornblower, desde o século XVII. Jan saíra com a mãe, a fim de comprar algumas roupas decentes para a jovem. Maria da Paz, sem tem o que fazer e querendo agradar àquela mulher fria e sizuda, começou a arear algumas panelas escuras que encontrara na cozinha.

A baianinha, sem entender nada, desandou a choramingar e a balbuciar, num inglês terrível: "Mas, Jão, passei a tarde todinha areando essas panelas, estou até com a mão dura!"
Afora as oportunidades em que acompanhava o marido em suas viagens mar adentro, sua vida era muito triste e a sogra fazia de tudo para torná-la pior. As duas tiveram que separar a casa ao meio e cada uma tinha seu território.

E foi através dessa xícara remanescente que, muitos anos depois, Maria da Paz deu o golpe final de desforra sobre a sogra.

A solidão tornou-se insuportável. Já nem se importava mais com a presença da sogra, a qual, aliás, passou a tratá-la com mais suavidade, talvez, com medo de ficar sozinha, caso a baianinha resolvesse voltar para o Brasil. Frequentemente convidava a nora para partilhar de seu chá ou de seus bordados.

Foi então que surgiu a idéia maquiavélica: De seu computador, Maria da Paz acessou a mesma sala de bate-papo que a sogra frequentava e com o apelido de TUAREG, começou a "paquerar" a ESTRELA DO ORIENTE. Dizia ser um advogado, aposentado e viúvo. Morando em Londres, com um único filho, sentia-se tão solitário quanto ela. Em poucos dias, Miss Daphne estava apaixonada e dizia para a nora que o tal de TUAREG, profundo conhecedor da alma feminina, conseguira reimplantar em seu coração aquele sentimento que há décadas não mais sentia...
Desenvolveu-se o namoro on-line, até o ponto em que marcaram um encontro para se conhecerem. Miss Daphne contratou faxineiras para deixar a casa brilhando e preparou um jantar especial para compartilhar com o amado. Porém, terminou a noite sorvendo xícaras e mais xícaras de chá, frente ao computador, tentando encontrar o amado e saber o porquê do "cano".
Passaram-se semanas de silêncio até que o TUAREG deu o ar da graça, dizendo que estivera na UTI, vitimado que fora por três infartos seguidos. Escreveu ainda que se o pior acontecesse, ela seria notificada, através de seu filho.
Certa noite, Miss Daphne, aborrecida com o desaparecimento misterioso de sua xícara de chá, recebeu um e-mail, do "filho" de TUAREG, comunicando-lhe o falecimento do pai. Na mensagem, solicitava que a mulher informasse seu endereço pois que o pai, em seus últimos momentos, pedira que lhe fosse enviada sua foto, com um presente - um objeto pessoal que ele estimara muito.

Já que falei tanto em chá, seguem umas dicas básicas de chás (sempre na forma de infusão) e suas propriedades medicinais.

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**Não percam, amanhã, o sétimo capítulo de MEMÓRIA TERMINAL, do jornalista José Marqueiz, Prêmio Esso Nacional de Jornalismo.
Bom dia, amigos e amigas!
ResponderExcluirEnfim, o "gran finale" de DA BAHIA À CORNUALHA, sob a regência do arguto e criativo escritor João Batista Gregório, a demonstrar que não se pode mexer com os brios de uma legítima baiana da gema! A vingança foi maligna!
Poor Miss Daphne! Mal sabia ela que a da Paz trazia consigo todo o fino sortilégio dos orixás baianos, muito piores que qualquer vodu ou reles artimanha inglesa...
Bela história, João Batista! Queremos mais...
Um abraço a todos e aproveitem o dia!
Bom dia, pessoal! Viram que personagem delicioso que eu criei? A Maria da Paz é minha filha predileta e herdou meu DNA galhofeiro...
ResponderExcluirEstou pensando em "bolar" o retorno da Baiana à Boipeba. Se alguém tiver alguma ideia brilhante, é só me escrever.
João Batista Gregório
PS: hoje é o dia em que faço a sopa dos necessitados, quase 400 litros e já estou desde manhã cozinhando as carnes e legumes. Não terei muito tempo para estar com vocês mas na medida do possível, entrarei para o bate papo gostoso.
Beijos fraternos
Jão
Um conto, João, é como o final de uma novela, cada um tem o seu. Eu, por exemplo, penso que a vingança seria maior se a Maria da Paz tivesse explicado que o tal amor virtual morava na Índia, e obrigar a sogra a ir visitá-lo, dando o endereço de um asilo qualquer, se é que na Índia tem asilo (rsrsrsrsrs). Apaixonada, certamente iria e voltaria com a maior "cara de tacho". Mas, valeu, seu "causo."
ResponderExcluirAmanhã quero acompanhar "Memória Virtual", está ótima a série.
Andressa - Cásper Líbero - SP.
Anfressa, acho que Miss Daphne nunca saiu de Land's End. Por maior que fosse teu "tesão" pelo Tuareg, ela não se aventuraria a comprar "Uma Passagem para as Indias"!!!!
ResponderExcluirAbraços e fique com Deus
Oops, digo Andressa. Sorry!
ResponderExcluirJB
E a baianinha acabou pagando caro por ter sido ambiciosa e querer agarrar um homem a todo custo. Conseguiu, mas vivendo ao lado da megera da sogra, paz mesmo só restou em seu sobrenome. Legal, João Gregório!
ResponderExcluirBjos a todos,
Daniela - Rio de Janeiro
É, Daniela mas ao menos ela herdou alguns barcos pesqueiros. Melhor que catar caranguejos ou vendedora de acarajés na porta da Igreja do Bonfim.
ResponderExcluirDevolvo os beijos.
João B Gregorio
Olá João
ResponderExcluirEta nordestina arretada sô!
Maquiavélica!
Provavelmente foi inspirada pela deusa da vingança!
Coitada da sogrinha.
Excelente trama Gregório.
Um abraço
Paz. Muita Paz.
J. Morgado
João, por acaso você não teria a receita de algum chá que consiga derrubar sogras em menos de uma semana? Essa baianinha iria adorar a indicação. Hoje li os dois capítulos, ou seja, o conto todo, gostei da trama, mas já li, em seu blog, outros melhores.
ResponderExcluirBirola - Votuporanga - SP.
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ResponderExcluirComo o blog é democrático, atrevo-me a dizer que os outros que li neste blog, tanto seus como do Guido Fidelis, da Lara e outros contistas, foram bem melhores, nisso eu concordo com o jovem de Votuporonga. Achei que faltou um tchan no final da história. Ficou meio água com açucar, sei lá.......
ResponderExcluirBeijinhos
Talita - Unisantos - Santos - SP.
Nossa, vocês querem ver sangue ou relacionamentos sáficos!! Aguardem que qualquer dia desses eu posto a história da GENY, meu personagem mais escandaloso e saurino ou almodoviano!! kkk.
ResponderExcluirAgradeço aos comentários do Professor, j Morgado, Birola e Talita
Mas tomarei proveito das opiniões para "bolar" um epílogo mais emocionante para a Da Paz.
ResponderExcluirThank's for all!
Johnny
Meu caro JBG
ResponderExcluirVocê teve uma idéia brilhante , com este final que, se não é fato, também não é boato. Certamente deve haver muitos casos desses por aí, relacionados a internet e salas de bate papo. Você tecla com uma pessoa, pensando que é outra. Escondem-se atras de nicks e falsos perfis, para sacanear, enganar, roubar, iludir,explorar as carências das pessoas e até se vingarem, como foi o caso da Maria da Paz, com a sogra víbora.
A internet dá vazão a toda sorte de fantasias, desde as mais inocentes às mais loucas e perigosas.
Todo cuidado é pouco e sendo o homem um bicho inteligente, é capaz de coisas que até o diabo duvida.
Ainda bem que vc exercita seu lado angelical dando sopa aos pobres, porque se soltar o outro, estaremos todos fritos no seu caldeirão de bruxo. É brincadeirinha..rs.
É claro que gostei. Vai em frente.
bjos ..
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirJBGBarrios.
ResponderExcluirEscuta aqui meu camarada. Gostei não... Cadê meu acarajé? Guardei a marvada em capricho danado pra bebericar com o amarelibho e bem quente que não chegou.
Agora, se tiver com problema quanto a Da Paz, pode mandá-la pra cá que me juntarei a ela para fazer os vbolinhos bem fritos e quentes.
Um abraço. Garcia Netto
Caros amigos Cristina e João Paulo, por incrível que pareça, todas minhas crônicas são baseadas em fatos reais. Apenas mudo os personagens e ambientes. Logicamente, acrescento minha criatividade para tornar o texto divertido e junto fatos diversos numa mesma história para que ninguém se reconheça. Desra história de hoje, o que existe de real é: o caso das panelas teflon e a peça que a nora pregou na sogra, via bate papo.
ResponderExcluirPortanto, nada é impossível em se tratando do ser humano.
Beijos
joão
Se o final do conto não foi assim bombástico João, foi muito criativo e gostoso de ler. Tenho a impressão que muitos aqui no blog estavam esperando ver a sogra sem a língua, o que não aconteceu (rsrsrsrsrsrs).
ResponderExcluirBjos,
Gabriela - Cásper Líbero - SP.
Pessoal, estou saindo para distribuir o sopão. Mais tarde eu volto
ResponderExcluirAbraços a todos
João Batista
Olá João.
ResponderExcluirOlha gostei muito do seu conto,mas coitadinha da Maria que de Paz, só o nome mesmo.
Quanto a sogra, certamente a Maria poderia "aproveitar"seus momentos de carência e assim ficarem amigas de verdade,e quem sabe ainda, mostrar a sogrinha sua cidade Natal, ela certamente iria amar,e talvez, ser menos sizuda.
Menino, você está de Parabéns,quanta imaginação.
Quanto aos chás, sempre uma boa pedida, no frio então... com umas broas de fubá, ou pão de queijo hummmmmm.
João, estava brincando, sogra não é tão ruim como dizem, pelo menos a minha não.Mas, sabe porque muitos desejam que sogra tenha apenas dois dentes? Um pra abrir cerveja e o outro pra doer.KKK.
Cris e Professor, realmente devemos redobrar nossa atenção, esse mundo virtual é um tanto perigoso, todo cuidado é pouco.
João Gregório, esse conto da baianinha Maria da Paz fez muitos e muitas aqui se revoltarem com o namoro virtual. Fiquei curioso, ninguém vai contar sua experiência? João, seus contos sempre tem uma boa dose de humor, mas estou no time dos que queriam um final mais Tchan, quem sabe com a sogra pendurada no mastro de um barco de pesca do filho, ou algo mais trágico. Você estaria eliminando mais uma sogra deste mundo. Acho que por isso não penso em casar. Tanto ouço falar em sogras que estou traumatizado.
ResponderExcluirSerá que a genitora da minha amada desaparecida é brava, João? Quem sabe Dona Miquelina me ajuda a saber esse segredo.
ABÇS
Juninho - SAMPA
Juninho, quanta maldade, menino! Tadinha da Miss Daphne, como todas as mães, só queria o melhor para o seu filho. E não me diga que sua mãe também não é assim que eu não acredito. Deve lhe paparicar, até......
ResponderExcluirDivertido seu conto e um final diferente, tanto que contrariou muitos, João Gregório. Eu gostei e achei bem engraçado seu relato.
Beijinhos,
Martinha - SBC
Boa noite, J.B., enfim, depois de tantas travessuras de lado a lado, entre sogra e nora, um final feliz. Estava lendo suas receitas de chás. Só uso um deles, o de boldo, mas nada a ver com indigestão, isso nunca tive. É para curar ressaca mesmo. Um santo remédio, tanto que tenho em minha horta alguns pés do boldo do Chile. É espremer umas folhinhas num meio copo d´água e mandar ver. Amargo, mas eficaz.
ResponderExcluirAbraços, parabéns pela crônica!
Miguel Falamansa - Botucatu - SP.
Eu terminaria essa história mais ou menos assim.
ResponderExcluirA negona através do site de relacionamento ia induzindo a branquela para fazer depósitos periódicos em uma conta bancária de domínio da baiana, na promessa que o desértico só poderia casar com a branquela, caso ela oferecesse um dote de tal valor, que era a exigência da família Tuareg.
Assim sem deixar suspeita a negona ia exaurindo as economias da velhota.
A hora que a velhota estivesse na miséria, a colocaria num asilo, e depois viria para o Brasil à procura do padre que foi o mentor intelectual da façanha.
O padre deixaria o celibato, casaria com a negona com comunhão total de bens.
Depois o padre colocaria veneno no chá que a negona beberia na mesma xícara que ele herdara da moribunda branquela.
Ai o padre arrependido sentava na frente de um computador e escreveria uma crônica para o blog do Edward.
Mas o acaso faria com que o delegado federal “Romeu Tumulo” abrisse a página do blog “crônicas de Edward de Souza e amigos jornalistas” e lê-se a crônica do padre que era a primeira da página.
Isto iria despertar uma suspeita no delegado que iria investigar a vida do padre.
O Romeu Tumulo iria descobrir a fortuna ilícita do padre e mandaria fazer a exumação no cadáver da negona.
Constatada a veracidade do caso, o padre dedaria o João como co-autor do crime, pois se o João não tivesse começado essa história, o gringo não vira para o Brasil, a negona não iria para a Inglaterra, a branquela não iria para o asilo, o padre não casaria com a negona, e o João estaria livre da acusação.
Padre Euvideo.
Olá pessoal, Voltei! Com esse frio danado que está fazendo surgiram mais fregueses para a minha sopa. Uma delícia!
ResponderExcluirBem, vejamos: essa minha crônica fez com que a minha afro descendente angariasse alguns adeptos e desafeptos (rsrs). Àqueles que gostariam de um final trágico, digo que não gosto de tragédias a não ser que eu possa transformá-las em algo tragicômico.
Aos que meteram o pau nas sogras, digo que eu adorava a minha e sinto muita saudade dela.
Padre Euvídio, acho que vc andou assistindo muito ao José Mojica Marins...
ResponderExcluirMiguel Falamansa, a ressaca também mexe com o estômago, então, continue a cultivar o boldo> Eu também tenho uma moita aqui na minha hortinha
Abs
João
Quem mais, deixa ver... Garcia Netto, a Da Paz já deve estar bem coroazinha e talvez só sirva para fritar bolinhos, mesmo!
ResponderExcluirMartinha, vc já percebeu que o problema das sogras é só com as noras? Sogra com genro não tem esse problema.
Juninho, a progenitora de tua "amada desaparecida" deve ser bem brava mesmo, pois até proibiu a coitada de frequentar nosso espaço!
João
Gabriela e Ana célia, que bom que vocês gostaram... Como disse Yahweh a Abraão: "Se houver dez justos, não destruirei Sodoma..."
ResponderExcluirE boa Noite a todos
João Batista Gregório
Ri muito da estória de Tuareg, Estrela do Oriente. Parabéns pela crônica.
ResponderExcluirJefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com
Obrigado, Jefh. Já visitei teu blog e gostei bastante. Vou passar por lá sempre.
ResponderExcluirGrande abraço
João
Visite meu blog tb para ver outras crônicas minhas (http://contoscurtosgrandesreceitas.blogspot.com)
Bom dia, João Batista!
ResponderExcluirLouvo tua criatividade, conhecimento dos mais váriados assuntos e especial predileção por temas que afastam a violência, antes contemplam o humor, a fina ironia, a irreverência...
Um abraço e continuamos contando contigo!
Boa dia, Nívia! É gratificante manter contatos com pessoas de alta sensibilidade e cultura, como você e demais companheiros que compartilham deste espaço. Eu penso que a alegria e bom humor refinam nosso espírito e nos eleva ao Criador com mais facilidade. Definitivamente, sou avesso a toda tragédia e situações sombrias.
ResponderExcluirConte comigo e grande abraço do
João